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sábado, 29 de julho de 2017

SANTA EDVIGES D'ANJOU, RAINHA DA POLÔNIA (dois textos biográficos)



Hoje, trago aos leitores do blog a história de Santa Edviges d’Anjou, Rainha da Polônia. Não confundir esta santa com Santa Edwiges da Silésia, a “santa dos endividados”, muito querida e cultuada aqui em nosso país. Esta, foi canonizada no século XIII, enquanto aquela, bem mais recentemente, em 1997, pelo Papa São João Paulo II.

Edviges d'Anjou foi rainha da Polônia a partir de 1384 e grã-duquesa da Lituânia a partir de 1386. Filha de Luís I, rei da Hungria e da Polônia e de Isabel Kotromanic da Bósnia, sucedeu seu pai em 1382 na Polônia, enquanto sua irmã Maria herdou o trono da Hungria.

     Embora seja chamada de "rainha", Edviges foi de fato coroada como "Rei da Polônia" (Hedvigis Rex Poloniæ e não Hedvigis Regina Poloniæ). O gênero masculino do seu título significava que ela era monarca de pleno direito, enquanto que o título de rainha era atribuído às esposas dos reis. Edviges pertencia à Casa Real dos Piast, antiga dinastia nativa da Polônia, sendo bisneta de Ladislau I, que reunificou o reino polonês, em 1320.
     Como rainha, Edviges teve efetivamente poderes limitados, mas foi muito ativa na gestão política do reino e na vida diplomática e cultural de seu país.
     No final do primeiro milênio, os apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo tinham ido à terra dos Piast. Naquela época Mieszko I recebeu o Batismo, e isto constituiu ao mesmo tempo o Batismo da Polônia. Séculos depois, os poloneses batizados contribuíram para a evangelização e o Batismo dos seus vizinhos, graças à obra de Edviges.
     Após consultas ao Arcebispo de Bodzanta, ao Bispo de Cracóvia Jan Radlica, a outros nobres do reino polonês, e muita oração diante do Crucifixo de Wawel, ficou estabelecido seu casamento com Jogaila, Grão-Duque da Lituânia, o qual havia prometido receber o Batismo – bem como toda sua Nação, último país pagão na Europa – e unir a Lituânia à Polônia. As bodas se realizaram a 18 de fevereiro de 1386. Convertido ao Catolicismo, o grão-duque foi batizado recebendo o nome de Ladislau II.
     Consciente da missão de levar o Evangelho aos irmãos lituanos, Edviges fê-lo juntamente com o seu esposo. Um novo país cristão, renascido das águas do Batismo, surgiu no Báltico, como no século X a mesma água fizera renascer os filhos da Nação polonesa. Uma vez aberta a estrada para a cristianização da Lituânia, Edviges, coerente no agir, procurou assegurar ao povo recém-batizado uma formação religiosa fundando em Praga um Colégio para os futuros sacerdotes daquela Nação.
     Edviges fora educada na leitura religiosa clássica desde tenra infância. Lia a Sagrada Escritura, o Saltério, as Homilias dos Padres da Igreja, as meditações e orações de São Bernardo, os Sermões e a Vida dos Santos, etc. Algumas destas obras foram traduzidas para a língua polonesa para ela e para seus súditos. A Rainha ordenou a execução de um saltério em três versões linguísticas, chamado Saltério Floriano, o qual se encontra hoje na Biblioteca Nacional de Varsóvia.
     Ela doou as próprias joias para financiar a recuperação da Academia de Cracóvia que, no século XIX, passou a se chamar Universidade Jagelônica, em homenagem à Dinastia Jagelônica, sucessora dos Piast. Nesta Universidade educaram-se e ensinaram pessoas que tornaram o nome da Polônia, e daquela cidade, famosos no mundo inteiro. A fama desta Universidade foi durante séculos um motivo de orgulho para a Igreja de Cracóvia. Dela saíram estudiosos da qualidade de São João Kanty, que exerceram não pouca influência no desenvolvimento do pensamento teológico da Igreja universal.
     Visitando os hospitais medievais (Biecz, Sandomierz, Sącz, Stradom) podemos admirar as numerosas obras fundadas pela misericórdia da soberana.
     A Santa Rainha tinha compreendido o ensinamento de Nosso Senhor e dos Apóstolos. Muitas vezes ela se ajoelhara aos pés do Crucifixo de Wawel para aprender dEle mesmo o amor generoso. E com Ele, do Cristo de Wawel, este Crucifixo negro que os habitantes da Cracóvia visitam em peregrinação na Sexta-Feira Santa, a Rainha Edviges aprendeu a dar a vida pelos irmãos. A sua profunda sabedoria e a sua intensa atividade brotavam da contemplação, do vínculo pessoal com o Crucificado.
     Perita na arte da diplomacia, ela lançou os fundamentos da grandeza da Polônia do século XV. Incentivou a cooperação religiosa e cultural entre as nações, e enriqueceu a Polônia com um patrimônio espiritual e cultural. Graças à profundidade da sua mente Cracóvia se tornou um importante centro do pensamento na Europa, o berço da cultura polonesa e a ponte entre o Ocidente e o Oriente cristãos.
     A sua bondade e senso de justiça era fruto de uma vida de muito sofrimento. Coroada aos dez anos, em 1384, aos doze deixou seu país natal. Em 1387 perdeu sua mãe, em 1395 sua irmã. Era vítima de calúnias difundidas no mundo europeu que tentavam criar animosidades entre seu esposo bem mais velho e ela; enfrentou dificuldades políticas e humanas, sofreu também com o fato de durante vários anos não poder dar um herdeiro ao trono.
     Para aproximar os súditos poloneses, lituanos e rutenos dos frutos espirituais da Igreja, pediu ao Papa Bonifácio IX a graça de poder celebrar o Ano Santo de 1390 no próprio país. Seu pedido foi motivado pelos grandes perigos políticos e sociais a que estariam expostos os peregrinos numa viagem à Roma. O Papa atendeu seu pedido, enviando, em 1392, o seu legado, João de Pontremoli, com a bula e as respectivas instruções.
     A Santa Rainha fundou, em 1393, o Colégio dos 16 Salmistas, para que noite e dia se louvasse a glória de Deus.
     Finalmente a Santa Rainha recebeu a graça de se tornar mãe, mas gozou por pouco tempo a alegria da maternidade física, porque a herdeira do trono, Isabel Bonifácia, morreu pouco depois. Quatro dias depois, em 17 de julho de 1399, Edviges falecia, em decorrência de complicações do parto, aos 25 anos e cinco meses. A Dieta da Polônia elegeu Ladislau II para sucedê-la. Este teve como sucessores os filhos havidos com sua última mulher, Sofia de Halshany.
     Apesar da veneração espontânea do povo polonês que a considerava Santa, foram necessários seiscentos anos para que o seu culto fosse reconhecido oficialmente pela canonização, o que ocorreu no dia 8 de junho de 1997, em Cracóvia, Polônia, durante a visita de São João Paulo II àquela cidade.

O Crucifixo Negro e a Rainha Santa Edviges

     O Crucifixo Negro foi trazido para a Polônia por ela mesma em 1384. Santa Edviges passava horas rezando diante do crucifixo e em várias ocasiões Nosso Senhor lhe falou por meio dele. Desde 1745 o Cristo Negro, de 13 pés de altura, ocupa a parte central do altar barroco da Catedral. A Santa Sé declarou que ouvir a Santa Missa neste lugar obtém a graça de livrar uma alma do Purgatório.
     Quando a Rainha Edviges foi beatificada, em 1987, suas relíquias foram transferidas para o altar do Crucifixo Negro.

Etimologia: Edviges = do alemão antigo Haduwig, composto de sinônimos “luta” (hadu) e “combate” (wig). Outros: “lutadora que odeia”. Hedwig em alemão; Jadwiga em polonês; Eduvigis em espanhol; Edvige em italiano; Hedvigis em latim.







Segundo texto biográfico:

A única mulher no trono da Polônia. Jovem, formosa, inteligente… e poderia ter tudo o que queria! Ela escolheu o bem-estar dos seus súditos e do país que governava. Esta escolha deu estabilidade e prosperidade à Polônia pelos cem anos seguintes. No entanto, a Rainha Edviges ficou mais conhecida por sua gentileza, sua valentia, sua sabedoria e seu carinho por seus súditos.

Uma Rainha Europeia
Edviges Andegaweńska nasceu no dia 18 de fevereiro de 1374 em Buda; atualmente Budapeste. Filha dos monarcas da Hungria e Polônia, Luís e Isabel da Bósnia. Por suas veias corria sangue dos seus antepassados franceses, poloneses, húngaros e bósnios.
No século XIV a situação política do Leste da Europa era bastante tensa. Os monarcas buscavam ampliar os limites dos seus países através de batalhas e laços matrimoniais, que incluíam o casamento entre as descendências de determinados aliados. Pai de três filhas, o Rei Luís pensou da seguinte maneira: à primeira filha, Katarzyna, lhe daria a coroa da Hungria; à filha do meio, Maria, a coroa da Polônia; e à filha caçula, Edviges, a predestinaria a “formar uma aliança” com Áustria, onde governava a casa dos Habsburgo.
Os políticos poloneses discordaram da escolha do esposo de Maria, Sigismundo de Luxemburgo, para rei e propuseram que fosse a jovem Edviges quem ocupasse o trono. Ela iria se casar com um príncipe lituano, o que contribuía com o fortalecimento das fronteiras com os Cavaleiros Teutônicos, que constantemente exigiam o pagamento de tributos aos governadores poloneses. Esta união também levaria o Batismo aos lituanos. Pequena, mas esperta e madura para sua idade, a princesa não estava muito contente com o desenrolar dos acontecimentos. Completamente comprometida com a causa, Edviges trouxe consigo para o Wawel uma ajuda especial para as dificuldades que estava atravessando: um crucifixo. Um crucifixo negro, conhecido também como “a Cruz de Edviges”. O Crucificado foi seu confidente e conselheiro, e a consolou até o fim dos seus dias. Em 16 de outubro de 1384, com 10 anos de idade, Edviges foi coroada como Rainha da Polônia.


Um espinho no coração
Apesar de sua coroação, seu compromisso prévio com o príncipe William da Áustria seguia sendo importante para ela; o príncipe não era indiferente à rainha e queria casar-se com ela. Foi muito difícil para Edviges aceitar a decisão dos políticos, os quais, aparentemente, queriam tirá-la do Wawel. Procurando ajuda em seu desespero, a solitária rainha recorreu ao Bispo de Cracóvia. Ele explicou- lhe que um matrimônio com o príncipe lituano Jagiełło seria uma inestimável contribuição para a expansão do Cristianismo na Europa. Edviges se dirigiu à Catedral para lamentar-se e pedir ajuda. Enquanto estava rezando, aparentemente o próprio Jesus falou com ela do alto da Cruz: “Faça o que você vê”, lhe disse. A decisão, apesar das dificuldades, foi evidente para Edviges.
No dia 15 de fevereiro casou- se com o príncipe Jagiełło, batizado com o nome de Władysław, 30 anos mais velho que ela. Três dias depois do casamento, Władysław Jagiełło foi coroado rei da Polônia.



Monarca Bondosa
Edviges era uma jovem alta e de cabelos ruivos. Na Europa, ela era famosa não unicamente por sua beleza, mas também, por seu agudo sentido de diplomacia e sua profunda devoção. Além de falar polonês e húngaro com fluência, também sabia latim, alemão e italiano. Era muito segura de si mesma e tinha forte personalidade.
Ela se ocupou em levar a fé à Lituânia; para isso, organizou um collegium especial na Universidade de Praga, onde foi possível formar os futuros príncipes da Lituânia. Havia “algo” nela que conquistava a todos. Conseguiu reconciliar os Jaguelonianos que estavam em conflito devido a problemas dinásticos na Lituânia. Conhecia política e encontrou- se pessoalmente com líderes de nações que eram hostis à Polônia, para negociar e acordar condições para projetos conjuntos.
Além de suas preocupações políticas, era muito importante para ela o bem-estar de seus súditos; foi assim que fundou muitos hospitais e igrejas. Existe uma lenda ligada à construção de uma delas: a igreja Carmelita da Bendita Virgem Maria “na Piasku”. Um dia, quando a rainha chegou ao canteiro de obras, percebeu que um dos trabalhadores estava muito triste. Isto realmente a comoveu e a fez perguntar qual era o motivo da sua tristeza. Ele respondeu e contou-lhe sobre as dificuldades que sua família estava passando: sua esposa, mãe de três filhos, estava muito enferma, a ponto de morrer e, por outro lado, apesar de seu trabalho na obra, ele não podia pagar os gastos do tratamento. A situação deste homem comoveu profundamente a rainha Edwiges, por isso ela se inclinou sobre um de seus pés e arrancou o broche de ouro de um dos sapatos para dá-lo. Ela, sem querer, pisou sobre uma pedra coberta com cimento fresco e deixou a pegada de seu pé ali. Quando se foi, o empregado viu a pegada sobre a pedra e a colocou em uma das paredes da igreja. Nos dias de hoje, pode-se ver em um dos cantos da igreja Carmelita, na rua Karmelicka, protegida por pequenas grades, a impressão do pé da rainha Edviges.



Benfeitora da Academia de Cracóvia
A rainha Edviges realmente ocupou-se de sua relação com Jesus e fez tudo o que estava a seu alcance para aproximá-lo de sua família e de seus súditos. Rezava muito, e mortificava- se também. Comprometeu-se com a propagação da Palavra de Deus, investindo na tradução das Sagradas Escrituras e dos escritos dos Padres da Igreja para a Catedral de Wawel. Ela queria também que louvassem sem cessar ao Senhor com salmos, e assim fundou um colégio de salmistas, formado por dezesseis pessoas, para que louvassem a Deus noite e dia. Em função de fortalecer as bases da fé do Reino da Polônia, doou sua fortuna à reforma e expansão da empobrecida Academia de Cracóvia. Obteve permissão do Papa para abrir uma Faculdade de Teologia que colaborou com a rápida evangelização na área do vasto império do reino polonês, lituano e das terras rutenas. A Faculdade teve uma grande influência no crescimento acadêmico da universidade que, a partir deste momento, foi reconhecida na Europa e cuja reativação teve um significado muito importante para a história da Polônia. Foi ali, na chamada Universidade Jaguelônica do século XIX, onde cursaram seus estudos, personalidades como Paweł Włodkowic, Mikołaj Kopernik, São João Cancio, Stanisław Wyspiański, Karol Wojtyła e o atual presidente da Polônia, Andrzej Duda, entre outros.


“Temos pressa para amar os demais…”
Edviges e Władysław reinaram juntos por quase 13 anos. Apesar de uma grande diferença de idade, eles se entendiam perfeitamente. Władysław realmente amava Edviges quem, apesar das muitas dificuldades que atravessaram no começo do relacionamento, também chegou a amá-lo. Respeitavam-se muitíssimo um ao outro. O rei queria um filho, um herdeiro. Edviges deu à luz a uma menina, Isabel Bonifácia, que com três semanas, faleceu. Dois dias depois, devido a complicações no parto, aos 25 anos de idade, Edviges também morreu. Sua morte foi um forte golpe para o reino e a notícia se propagou por toda a Europa. A Rainha foi enterrada na Catedral de Wawel. Jagiełło, apesar de ter casado-se mais três vezes, levou consigo o anel de sua amada Edviges até o fim de seus dias.




Uma natureza única que permanece além do tempo
As pessoas que lembravam a bondade e a excepcionalidade da rainha vieram à Catedral, a fim de agradecer a Deus pelo dom de sua vida. Eles também acreditavam em sua santidade e pediram a sua intercessão. Numerosas oferendas em seu túmulo deram testemunho de que sua intercessão foi eficaz. Pouco tempo depois de sua morte, começaram as diligências para sua beatificação, no entanto, houve certos problemas, econômicos e políticos, que adiaram o processo, até que o nomeado Papa, São João Paulo II, a beatificou e mais tarde, no dia 8 de junho de 1997, a canonizou no Parque Błonia, em Cracóvia. Este evento foi muito significativo já que, foi a primeira missa de canonização em terras polonesas. Recordamos Santa Edviges, padroeira da Polônia, em 8 de junho.


Fonte: 

Site da TV Século 21: https://www.rs21.com.br/especiais/jmj/santa-edviges-rainha-da-polonia-1374-1399/

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