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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Beata Felipa de Gueldre, viúva e religiosa e Beata Francisca Ana da Dolorosa, virgem e religiosa (27 de fevereiro)



Como são admiráveis as obras de Deus! No dia 27 de fevereiro, entre outros tantos Santos, festejamos duas Beatas tão diferentes quanto ao berço, à época em que viveram, à cultura, às obras de suas vidas, mas tão semelhantes na busca da santidade. Fizemos questão de colocá-las juntas aqui, porque certamente estão gozando juntas da visão beatífica.


Felipa de Gueldre, duquesa da Lorena 
e de Bar, Rainha da Sicília 
e de Jerusalém, Clarissa Coletina.
 Beata Felipa de Gueldre
 Felipa nasceu em Grave, Brabante do Norte (atual Países Baixos), no dia 9 de novembro de 1467. Era filha de Adolfo d’Egmont, Duque de Gueldre e de Catarina de Bourbon,
Ela cresceu primeiro na corte dos duques de Borgonha, depois na corte da França. Por razões de estado, casou-se em 1485 com Renato II, Duque da Lorena e de Bar, príncipe generoso, piedoso e terciário da Ordem de S. Francisco, com quem teve 12 filhos, dos quais sete morreram jovens.
Quando seu esposo faleceu, em 1508, ela desejava tomar a regência do Ducado da Lorena, mas como seu filho mais velho tinha 19 anos, ele foi considerado apto a reinar.

No dia 15 de dezembro de 1519, ela entrou no convento das Clarissas de Pont-à-Mousson onde viveu 28 anos em oração e penitência. Ela favoreceu a reforma de Santa Coleta de Corbie em diversos mosteiros.
Quando, no dia 26 de fevereiro de 1547, uma sexta-feira, as freiras disseram que ela ia morrer, respondeu: «Não morro hoje, bem o sei, porque toda a felicidade que tive neste mundo me veio ao sábado. Foi num sábado que me casei com o bom Renato que Deus o haja; foi num sábado que vim para a Lorena; foi num sábado que fiz minha profissão religiosa; e será ainda num sábado que hei de entrar no Paraíso». Morreu efetivamente num sábado, 27 de fevereiro de 1547.
Felipa de Gueldre é considerada beata na família franciscana, embora ela jamais tenha sido beatificada oficialmente. Ela sofria em si os tormentos que afligiram Nosso Senhor na Paixão. Nos últimos sete anos de sua vida tais sofrimentos foram visivelmente constatados por aqueles que a conheciam. Esta Duquesa da Lorena e Rainha da Sicília e de Jerusalém morreu em odor de santidade como uma pobre Clarissa no pobre mosteiro de Santa Clara de Pont-à-Mousson.
 Nota: O mosteiro de clarissas de Pont-à-Mousson, fundado em 1447 por Santa Coleta, reformadora da Ordem, foi devastado pelos revolucionários em setembro de 1792, quando as monjas foram expulsas.



* * *



Beata Francisca Ana Cirer y Carbonell

Nasceu em Sencelles, Maiorca (Ilhas Baleares), Espanha, no dia 1 de junho de 1781, filha de João Cirer e Joana Carbonell, agricultores tão pobres que nunca puderam deixá-la frequentar a escola; mas tão fervorosos, que no mesmo dia do seu nascimento a levaram à fonte batismal, quando recebeu o nome de Francisca Ana Maria Boaventura.
Sem saber ler nem escrever, entretanto aprendeu a doutrina católica de viva voz e mereceu ser crismada aos sete anos por Mons. Pedro Rubio Benedetto, bispo da diocese, e em seguida, admitida à Primeira Comunhão.
Crescendo, adquiriu a sabedoria das virtudes católicas com tal perfeição, que a levava a praticá-las todas em grau heroico e a tornava capaz de ensinar o catecismo às crianças, o que fazia após as Missas do domingo.
     Ajudava aos pais nos trabalhos domésticos e agrícolas, mas, com a permissão dos pais, voltava à igreja no fim do dia para tomar parte no Rosário ou na Via Sacra.
     Francisca sentia desejo de se tornar religiosa, mas os pais se opunham, pois ela era o único amparo para a velhice deles. Assim, em 1798, aos 17 anos, ingressou na Ordem Terceira de S. Francisco e, em 1813, na Confraria do Santíssimo Sacramento.
     A Beata tinha grande devoção à Santíssima Trindade, à Paixão de Cristo e a Nossa Senhora das Dores, a quem honrava com o terço diário e o jejum sabatino. Rezava com frequência pelas almas do Purgatório.
     Em 2 de maio de 1815, a Beata, que compreendia a importância da conformidade com a vontade de Deus e obedecia sem lamentações, recebeu a revelação de que sua casa seria transformada em um convento das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula.
     Aos 40 anos, Francisca ficou órfã de pai (sua mãe já havia falecido). Sendo praticamente impossível realizar seu desejo de se tornar religiosa pela idade, falta de instrução e sem dote, procurou viver como verdadeira religiosa no mundo, em companhia de uma prima, Clara Llabrés, e depois de alguns anos, de Madalena Cirer, sua sobrinha.
     Finalmente, aos 70 anos, no dia 23 de dezembro de 1850, com a aprovação de seu pároco, sua casa tornou-se convento das Irmãs da Caridade, que foi juridicamente aprovado no dia 7 de dezembro de 1851. Tinham por finalidade cuidar dos doentes e ensinar o catecismo em casa e nas paróquias. Naquele dia ela e as duas companheiras vestiram o hábito. Francisca foi eleita para ficar à frente do grupo: governou com sabedoria, prudência e humildade, cuidando da perfeita observância dos votos religiosos.
     A Beata faleceu repentinamente no dia 27 de fevereiro de 1855, aos 76 anos de idade, após ter recebido a Eucaristia. Seu funeral foi triunfal. Seus restos são venerados no Oratório da Casa de Caridade de Sencelles.

     Como se estendesse mais e mais a sua fama de santidade, deu-se início aos processos habituais para sua beatificação. Após a confirmação de um milagre obtido por sua intercessão, foi beatificada no dia 1 de outubro de 1989 por São João Paulo II.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CURIOSIDADES: sete brasileiros que a Igreja Católica poderá proclamar santos.


 O diácono Pozzobon, dom Estêvão e irmã Cleusa, alguns dos brasileiros que podem ser beatificados.


O Brasil já tem seis santos e 81 beatos, mas há ainda muitos brasileiros cujo processo de beatificação está em andamento ou em vias de se iniciar.

Atualmente, o rol de santos brasileiros, natos ou não, conta com São Roque Gonzáles e companheiros, Santa Paulina, Santo Antônio de Sant’Ana Galvão e São José de Anchieta. Os beatos já são onze, além de dois grandes grupos de mártires, um de quarenta fiéis e outro de trinta. Boa parte dessas beatificações e canonizações aconteceram dentro dos últimos 15 anos.

Mas além desses 87 católicos que deram testemunho da santidade de Deus em nossas terras, há um grande número de brasileiros cujo processo de beatificação está em andamento ou em vias de se iniciar. Saiba um pouco mais sobre sete daqueles que podem estar entre os próximos brasileiros a serem beatificados.




João Luiz Pozzobon

Nascido em 1904, João era dono de um pequeno empório quando conheceu o Movimento de Schoenstatt e o seu fundador, o padre alemão José Kentenich, em 1947, na cidade gaúcha de Santa Maria. Foi um grande propagador da devoção a Nossa Senhora, levando a imagem da Mãe Três Vezes Admirável, venerada pelo movimento, a escolas, prisões, casas e hospitais, rezando o terço com as pessoas, pregando o Evangelho e ajudando as famílias necessitadas. Casado e pai de sete filhos, Pozzobon foi ordenado diácono em 1972. Morreu atropelado em 1985. A fase diocesana de seu processo de beatificação foi concluída em 2009.




imagesDom Estêvão Tavares Bettencourt

imagesO monge beneditino carioca foi o responsável pela publicação da revista de apologética católica Pergunte e Responderemos de 1957 até sua morte, em 2008, aos 89 anos. Nascido em 1919 com o nome de Flávio, ele assumiu o nome de Estêvão ao entrar no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, em 1936. Doutor em teologia pelo Pontifício Ateneu de Santo Anselmo, de Roma, dedicou-se a vida inteira ao magistério e à formação segundo a fé da Igreja.



Zilda Arns Neumann

A fundadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa morreu em 2010, no terremoto que devastou o Haiti. Quando se completaram cinco anos de sua morte, uma moção pedindo a abertura de seu processo de beatificação, assinada por mais de 215 mil pessoas, foi apresentada em uma missa em Curitiba, onde Zilda morava. Nascida em 1934 em Forquilhinha, em Santa Catarina, a pediatra e sanitarista fundou a Pastoral da Criança em Florestópolis, no Paraná, em 1983. Hoje, a pastoral acompanha mais de 1,2 milhão de crianças em 3,8 mil municípios do Brasil. Casada, Zilda teve cinco filhos e dez netos. Era irmã do recém falecido cardeal Paulo Evaristo Arns, que foi arcebispo de São Paulo de 1970 a 1998.




Guido Vidal França Schäffer

O processo de beatificação do jovem seminarista e médico Guido Schäffer foi aberto em 2014 pela Arquidiocese do Rio de Janeiro. Guido nasceu em 1974 em Volta Redonda e morreu enquanto surfava, em 2009, no Recreio dos Bandeirantes, na capital fluminense. Fundador de um grupo de oração carismático na Paróquia de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, viu em pouco tempo o grupo chegar a receber mais de quatrocentas pessoas, que viam nele a Palavra de Deus pregada e vivida. Como médico, dedicava-se a moradores de rua e portadores de HIV.




Padre Aloísio Sebastião Boeing

Padre da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, conhecidos como dehonianos, o catarinense Aloísio Boeing nasceu em Vargem do Cedro em 1913 e morreu em Jaraguá do Sul em 2006. Sua causa de beatificação foi aberta em 2013 pela Diocese de Joinville. Ordenado padre em 1940, ele foi mestre de noviços e durante toda a sua vida era muito procurado pelo povo para aconselhamento espiritual e confissões. No fim da sua vida atendia as pessoas até mesmo acamado. Fundou a Fraternidade Mariana do Coração de Jesus.




Irmã Cleusa Carolina Rody Coelho

Nascida em 1933 em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, Cleusa ingressou na Congregação das Missionárias Agostinianas Recoletas em 1952. Por 32 anos, dedicou-se ao serviço de pessoas com hanseníase, presidiários, crianças de rua e indígenas, até ser assassinada em Lábrea, no Amazonas, em 1985, por sua proximidade com a causa indígena. A fase diocesana de seu processo de beatificação foi concluída em 1993.





Padre Donizetti Tavares de Lima

Padre da diocese paulista de São João da Boa Vista, Donizetti Tavares de Lima nasceu em 1882 em Cássia, em Minas Gerais. O nome vem da paixão de seu pai pela ópera – a cada filho deu o nome de um compositor. Como pároco da cidade de Tambaú por 35 anos, de 1926 até sua morte, em 1961, o padre Donizetti atraiu multidões por seu exemplo de vida pobre e devota e pelas centenas de curas extraordinárias que aconteciam por sua intercessão. Além disso, como tinha formação em Direito, ajudava os trabalhadores pobres que eram explorados por empresários e políticos, o que lhe valeu ameaças de morte. A fase romana de seu processo de beatificação teve início em 2009.


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(Fonte: site "Sempre Família")

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Beato Cláudio Granzotto, religioso franciscano e grande escultor sacro.


Religioso professo da Ordem Franciscana, de quem cabe destacar a grande bondade e a fina sensibilidade para a arte, em especial, a escultura.
Dócil à ação do Espírito, se converteu, de jovem operário, em modelo para os religiosos em sua entrega total ao amor do Senhor; para os artistas, em sua busca da beleza de Deus; e para os enfermos, em sua adesão amorosa ao Crucificado. O beatificou São João Paulo II em 20 de novembro de 1994.

Cláudio nasceu em 23 de agosto de 1900 em Santa Lucía di Piave (Treviso, Itália). Sua família era economicamente modesta, porém, muito cristã. A natureza o dotou de uma vontade tenaz e de uma requintada bondade, que o fazia amável a todos. O duro trabalho no campo e, posteriormente, os ofícios de carpinteiro e de pedreiro temperaram seu caráter e o talharam no sacrifício e na generosidade.
Aos quinze anos sentiu repentinamente a paixão pela arte, especialmente, pela escultura, a qual se converteu rapidamente no maior sonho de sua vida.
Em 02 de abril de 1918 se viu forçado a partir para o “front” militar e, durante um período de quatro anos transcorridos em Roma, Forli, Nápoles, Sant’Arcangelo di Romagna y Albania, na idade de 22 anos, graças à ajuda de seu pároco, Mons. Morando, ingressou, com grandes sacrifícios e admirável perseverança, na Academia de Belas Artes de Veneza, onde, aos 29 anos, obteve com a máxima nota o diploma de professor de escultura.
Quando diante do olhar do jovem e apreciado professor brilhava um esplêndido futuro, o Senhor o chamou à vida franciscana, enxertando seu ideal artístico no ideal ainda mais sublime da santidade.
Em 07 de setembro de 1933 ingressou na Ordem dos Frades Menores, em São Francisco do Deserto, na região dos lagos venezianos. Ao apresenta-lo ao Ministro Provincial dos Frades Menores de Veneza, o arcipreste de Santa Lucía di Piave escrevia: “A Ordem consegue não somente um artista, senão também um santo”.
Começa sua subida ao monte santo de Deus. É uma viagem marcada por um imenso amor a Deus; um total abandono em suas mãos; uma oração feita vida e que leva com frequência Frei Cláudio à adoração diante do sacrário; ao amor a todos, especialmente aos pobres e enfermos; a uma extraordinária e suave humildade; uma obediência pronta e generosa; e a uma radiante castidade.
Sua prática heroica de todas as virtudes se alimenta de uma piedade eminentemente eucarística e reparadora e uma devoção filial a Maria Imaculada. Amou de coração à Mãe do Senhor até o ponto de poder afirmar: “Sou escravo da Virgem! A Virgem quer minha salvação, porque desde há muito tempo estou consagrado a seu Coração Imaculado, cujo escravo me considero”.
Beato Cláudio Granzotto em ação caritativa
para com os pobres. Seu amor e paciência para
com os necessitados eram notórios. 
Por amor à Virgem Maria, construiu quatro grutas de Lourdes, uma das quais, a de Chiampo, é de proporções idênticas às da Gruta de Massabielle, na França.
Frei Cláudio que havia escrito: “Senhor, quando me concederes o dom dos espinhos, terei a certeza de que aceitastes o sacrifício de minha vida”, não recusou o dom conclusivo com que Cristo quis mostrar-lhe sua predileção.
Atacado por um tumor cerebral, em 15 de agosto de 1947, no hospital civil de Pádua, encontrou-se para sempre com Aquele a quem havia confessado: “Quero viver e morrer dizendo-te e demonstrando-te que te amo mais que a todos os tesouros do céu e da terra”.
A Rainha dos Anjos, a quem havia venerado e honrado com todo o coração, o acolhia na morada celestial no dia da Solenidade de sua Assunção, atendendo assim o desejo de seu servo: “No dia da Assunção eu me vou”. Seus restos mortais descansam em Chiampo, aos pés da gruta de Lourdes, convertida, segundo sua promessa, em “lugar de oração e de encontro com Deus para tanta gente”.
No princípio de sua vida franciscana, escreveu: “quisera que minha vida permanecesse escondida como um grão de areia”. Porém, o projeto de Deus sobre esse humilde frade menor era muito diferente. A fama de santidade de que gozava já em vida, após sua morte se difundiu rapidamente pelo Vêneto, o resto da Itália e outras muitas partes do mundo.
No dia 16 de dezembro de 1959, o então bispo de Vittorio Veneto, Dom Albino Luciani, futuro Papa João Paulo I, de venerável memória, iniciava o processo diocesano sobre a vida e virtudes do artista franciscano. Esse caminho concluir-se-ia em 07 de setembro de 1989, dia em que o Papa São João Paulo II declarava a heroicidade das virtudes do Servo de Deus. Em 06 de julho de 1993, aprovava o milagre atribuído à sua intercessão, declarando-o válido para os fins da beatificação.
Com sua vida de artista, de franciscano e de fidelidade ao Evangelho, transmitiu uma mensagem de alegria e de esperança tanto aos homens de seu tempo, como aos de nossos dias. Escultor de matéria inerte, que soube se converter em testemunho eloquente da beleza divina, Frei Cláudio Granzotto foi, sobretudo, um esplêndido escultor de si mesmo: “Entreguei-me por inteiro a Jesus. Isso me custou muito esforço... Há que deixar-se moldar por Ele, do contrário, vivemos a vida em vão”.
Em Cristo, bebeu o ardor que converteu por inteiro sua jovem existência em fogo de caridade. Com a santidade de sua vida heroica, aparece ante a Igreja, ante os artistas e ante todo homem de nossos dias como expressão da humanidade nova que o Espírito de Jesus ressuscitado guia até os infinitos horizontes do Amor.


[Traduzido do: L'Osservatore Romano, edición semanal en lengua española, del 18-XI-94]





ALGUMAS OBRAS DE ARTE DE AUTORIA DO SANTO ESCULTOR: 












sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

SANTO ILDEFONSO DE TOLEDO, Arcebispo, grande defensor da Virgindade perpétua de Maria.



Às portas de Toledo, capital do reino dos Visigodos da Espanha, elevava-se no sétimo século, o mosteiro de Agali, um verdadeiro viveiro de santos e de doutores. Foi aí que se fez monge, apesar das violentas resistências da sua família, Ildefonso, que se destacou por uma profunda e vibrante devoção à Virgem Maria, sendo-Lhe muito dedicado, tendo escrito sobre Ela belas linhas de pura espiritualidade mariana.


Ildefonso, o mais ilustre dos discípulos de Santo Isidoro de Sevilha, o mais popular dos santos da Espanha, tinha nascido nesta mesma cidade de Toledo, no seio duma família — na qual corria o sangue real —, a 8 de Dezembro de 606, dia que depois foi consagrado à Imaculada Conceição da Virgem Maria, e foi pela intercessão de Maria, que Estevão, seu pai, e Lúcia, a sua mãe obtiveram do céu esta criança abençoada.
Recebeu, primeiramente em Sevilha, durante doze anos, as sublimes educação e formação de Santo Isidoro. Seguidamente tendo voltado ao lar, fez-se monge em Agali e aí terminou os seus estudos. A morte dos seus pais deixou-lhe a livre disposição dos seus bens, que ele consagrou à fundação de um mosteiro de religiosas.

Eugênio II, o arcebispo de Toledo, tendo falecido (657), a voz unânime do clero e do povo colocou Ildefonso sobre a sede metropolitana; e, então, fazendo o ofício de bom pastor, iluminou, como um sol místico, todas as igrejas da Espanha tanto pela sua ciência como pela sua virtude. Mas, o que lhe valeu o primeiro lugar no amor e na memória do povo espanhol, foi sobretudo a sua ardente devoção para com a Santíssima Virgem cuja virgindade defendeu contra o Helvídios. As visões miraculosas que confirmam o reconhecimento de Maria pelos esforços do seu zeloso defensor e as relíquias que deixou à igreja de Toledo, inflamaram durante muito tempo a devoção dos Espanhóis para com o seu grande Santo Ildefonso. Estas maravilhas insignes merecem ser conhecidas.

No dia da festa de Santa Leocádia, esta ilustre e famosa mártir saiu do seu túmulo junto do qual Ildefonso orava e descobriu-lhe o sítio onde se encontravam as suas relíquias, durante muito tempo esquecidas, que o santo arcebispo desejava ardentemente reencontrar. Seguidamente, tomando-o pela mão, disse-lhe perante toda a assistência: “Ildefonso, por ti foi defendida a minha Soberana que reina no alto dos céus”, querendo dizer-lhe que tinha defendido a honra de Maria contra os hereges. Para ter uma prova palpável desta visão, tomou a espada do rei que o acompanhava e cortou um retalho do véu da Santa, antes que o túmulo se fechasse: esta parcela de véu tornou-se uma relíquia muito venerada, conservada na igreja de Toledo.
Santo Ildefonso estabeleceu, ou, pelo menos celebrou e propagou com zelo a festa da Expectação do parto da Santíssima Virgem. Ora, antes de Matinas desse dia, Ildefonso levantava-se à habitual para ir cantar os louvores de Maria.

A notável aparição da Virgem Maria a Santo Ildefonso
Estava acompanhado dos seus clérigos e dum grande número de pessoas. Iam à frente luminosas tochas de cera. Chegados à porta, as pessoas que compunham o cortejo perceberam na igreja uma claridade que seus olhos não podiam suportar e fugiram. Ildefonso mandou abrir e avançou para o altar acompanhado pelo diácono e pelo subdiácono apenas. Prostrou-se e, nesse mesmo momento, apareceu-lhe a Virgem a Maria sentada sobre o a cadeira episcopal, cercada de um grupo de santas virgens que executavam sobre a terra cânticos do Paraíso. Maria fez sinal ao seu defensor para que se aproximasse, e fixando sobre ele o seu olhar disse-lhe: “Vós sois o meu capelão e o meu fiel notário, recebei esta casula que o meu Filho tirou dos seus tesouros”. Seguidamente, cobriu-o Ela mesma e ordenou-lhe de não se servir desta a não ser por ocasião das festas celebradas na sua honra. Esta aparição foi tão certa e real que um concílio de Toledo ordenou que para perpetuar a memória uma festa fosse celebrada todos os anos, sob o título de “Aparição da Santíssima Virgem e do seu Menino a santo Ildefonso”, e, coisa notável, esta mesma festa é solenizada no Egito pelos Coptas.

Estes favores com que Nosso Senhor e a sua Santa Mãe quiseram honrar o seu servo é um digno prelúdio à felicidade eterna da qual, no dia 23 de Janeiro do ano 669, ele iria gozar. Tinha então Ildefonso sessenta e três anos de idade e dez como bispo de Toledo.

Santo Ildefonso foi enterrado na igreja de Santa Leocádia e mais tarde, por causa dos mouros, o seu corpo foi transladado para Zamora nas Astúrias onde se celebra ainda esta translação de suas relíquias.

A casa onde Santo Ildefonso nasceu foi dada aos Padres Jesuítas, depois de ter pertencido aos condes de Orgas. Estes religiosos mandaram construir uma magnífica igreja no lugar que esta casa ocupava e reavivaram a memória do Santo que os toledanos tinham, pouco a pouco, esquecido.


FONTE : P. Giry : Les petits Bollandistes : vies des saints. T. I. Source http://gallica.bnf.fr/ Bibliothèque nationale de France. Tradução : Afonso Rocha.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

SANTO HENRIQUE II, Imperador. O rei que queria ser monge beneditino.



Um rei que faz voto de virgindade, que deseja ser religioso e é valente guerreiro em defesa da justiça: eis um personagem inverossímil para o mundo moderno. Entretanto, ele existiu, e a Igreja o incluiu na lista dos Santos.

Só atinge a santidade quem pratica as virtudes em grau heroico. E “as virtudes são todas irmãs. Não se pode, num anel de irmãs, viver afagando uma e detestando outras… É preciso ter boas relações com todas. Não se pode viver num meio-termo que consistiria em ter boas relações com umas e não com outras”.

Um admirável exemplo desta verdade vemos brilhar em um monarca de fins do século X e primeiras décadas do século XI: o imperador Henrique II. Se, por um lado, praticou a virtude da fortaleza, tão necessária para um governante da sua época, por outro lado, não deixou de manifestar bondade para com seus súditos, piedade na oração e inúmeras outras virtudes.

Lutou contra sua própria concupiscência, guardando a castidade até a morte, e as guerras por ele travadas não visavam senão a paz, na ordem espiritual e temporal. Obteve, assim, admiráveis vitórias, tanto nas lutas da vida interior quanto nos combates contra os inimigos do Estado e da Fé.


Sob os cuidados de São Wolfgang

Na primavera de 973 nascia Henrique, primeiro filho do duque da Baviera e da princesa Gisela de Borgonha, tendo sido batizado por São Wolfgang, Bispo de Regensburg e religioso beneditino, já então com fama de santidade. O prelado fez questão de ser ele mesmo o padrinho da criança e tomou-o sob seus cuidados, quiçá discernindo o papel que desempenharia no futuro.

Com apenas 22 anos, tendo morrido seu pai, sucedeu-o à frente do Ducado da Baviera. Por esta ocasião, faleceu também Dom Wolfgang, a quem Henrique devia sua sólida educação cristã e considerava como modelo e guia.

Desejoso de governar o povo com firmeza, benevolência e sabedoria, o jovem duque ia rezar com frequência junto à campa do antigo preceptor, pedindo-lhe ajuda para exercer seu cargo com perfeição. Certa noite, enquanto ali orava, o santo Bispo apareceu e lhe disse: “Olha atentamente as letras escritas no muro junto a meu túmulo”. Henrique, porém, conseguiu ler apenas estas palavras: “Depois de seis”. Antes que lhe pudesse perguntar o significado daquilo, o bem-aventurado desapareceu.


Seis dias, seis meses, seis anos…

Henrique deduziu que haveria de morrer dentro de seis dias e começou a se preparar para deixar esta vida, dedicando-se quase exclusivamente à oração e à penitência. Concluído este prazo e gozando de perfeita saúde, julgou haver-se equivocado: não seriam seis dias, mas seis meses…

Buscou com mais assiduidade os Sacramentos e redobrou suas obras de caridade, assumindo um estilo de vida quase monacal. Contudo, os seis meses chegaram ao fim e nada aconteceu. Seriam seis anos?

Completou-se o tempo e a morte não veio levar o duque da Baviera, mas, sim, o jovem imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Oto III, falecido na Itália sem deixar descendentes. Ao saber da notícia, Henrique lembrou-se das enigmáticas palavras de São Wolfgang – “Depois de seis” -, reveladas havia seis anos, e compreendeu seu significado: era ele o parente mais próximo do soberano falecido e, portanto, principal candidato a sucedê-lo no trono imperial.

Em inícios de 1002, Henrique recebia de Santo Eriberto, Arcebispo de Colônia, os símbolos do império; em junho deste mesmo ano, São Vilegiso, Arcebispo de Mogúncia, o coroava rei dos alemães, em presença de grande número de Bispos e nobres. Naquela época não se recebia o título de imperador do Sacro Império – que competia ao rei dos alemães – enquanto não fosse sagrado como tal pelo Papa, o que ocorreu apenas alguns anos mais tarde.

Ao assumir o trono, Henrique se ocupava em conhecer a situação do reino e as necessidades de seus súditos, extremosa e constantemente. A sabedoria de seu governo facultava-lhe uma boa fama, pois ele reunia em si “as virtudes cristãs, reais e militares, dando uma prova de que ser bom rei é um verdadeiro dom do Céu”.

“Deus não me coroou para violar as igrejas”

As circunstâncias daquela quadra histórica e a forma como sua eleição acontecera obrigaram-no, entretanto, a empreender contínuas lutas para manter a estabilidade do trono que legitimamente obtivera.

Pretendendo ter mais direito a este do que Henrique, Hermano II, duque da Suábia, saqueou a cidade e a igreja de Estrasburgo. Os conselheiros reais incitaram o santo monarca a fazer o mesmo com a igreja de Constança, nos domínios do rival, ao que ele retrucou: “Não permita Deus que, para castigar o arrebatamento de Hermano, eu me oponha Àquele que me deu a coroa real. Saqueando Constança em represália ao saque de Estrasburgo, eu não diminuiria minha perda, pelo contrário, a duplicaria. Além disso, é um mal arriscar a alma para conquistar um reino. Deus me coroou não para violar as igrejas, mas para punir aqueles que as violam”.

Antes do término daquele ano, Hermano se apresentou descalço ao rei e, genuflexo, pediu-lhe perdão, comprometendo-se a ceder uma abadia à igreja prejudicada, a fim de reparar seu delito.


Imperador do Sacro Império Romano-Germânico

Alguns anos antes de sua eleição como rei dos alemães, ele havia se casado com Cunegunda, filha do conde de Luxemburgo, nobre dama também canonizada pela Igreja, com quem guardou perfeita “continência durante todo o tempo que durou sua união, e se deram mutuamente os mais belos exemplos de virtudes cristãs”.6 Pode-se dizer que esta rainha consorte reinou realmente com o esposo, pois o ajudava a resolver os assuntos complicados da corte com uma delicadeza única.

Mais do que a unidade do próprio reino, Henrique desejava a paz na Santa Igreja, e empregava seu poder e autoridade para afastar dela qualquer fator de divisão.

Com a morte do Papa Sérgio IV, em 1012, esta paz periclitou, pois um antipapa autoproclamado Gregório VI disputava a Cátedra de Pedro com o legítimo Papa, Bento VIII. Apresentou-se aquele ao rei da Alemanha, procurando refúgio e apoio. Henrique prometeu-lhe julgar o caso segundo a estrita justiça e o Direito Canônico. Por isso, em vez de apoiar suas pretensões, o rei o declarou antipapa e o proibiu de exercer em seus territórios qualquer função episcopal.

Em fins de 1013, o santo rei e sua esposa encontraram-se com Bento VIII em Ravena. Este os levou a Roma, onde entraram com toda pompa, aplaudidos como zelosos protetores da Sé Apostólica. No dia 14 de fevereiro de 1014, o Papa ungiu e coroou Santo Henrique imperador do Sacro Império Romano-Germânico e a Santa Cunegunda, imperatriz. Antes de entrar na igreja onde se realizaria a solene cerimônia, o rei prometera publicamente ser “patrono e defensor da Igreja, e leal vassalo de Cristo e do Apóstolo São Pedro”.

Mandara o Papa confeccionar um presente para ser-lhe oferecido na ocasião: um globo de ouro encimado por uma cruz e ornado com dois círculos de pérolas e pedras preciosas. O globo representava o mundo; as pedras preciosas, as virtudes com as quais Henrique deveria se ornar; e a cruz, a Religião da qual ele se tornara o protetor. Ao receber tão simbólico objeto, Henrique disse ao Papa: “Vós quereis com isto, Santo Padre, ensinar-me como devo governar”.

Em seguida, fixando o olhar no globo, acrescentou: “Este presente não pode convir a ninguém mais do que àqueles que calcaram aos pés as pompas do mundo para seguir livremente a Cruz”.  Por tal razão decidiu ofertá-lo ao Mosteiro Beneditino de Cluny, cujo abade era Santo Odilon, a quem Henrique muito estimava.


“Eu te ordeno que voltes ao mundo”

Estando em Cluny, Henrique mais uma vez sentiu na alma a força e a paz do recolhimento e do silêncio. Deixou aos monges vários tesouros – entre eles o valioso presente recebido do Soberano Pontífice – e prosseguiu sua viagem. Todavia, ali deixou também seu coração…
Os anos se passavam e seus sentimentos religiosos cresciam. Em meio às grandezas da corte, às batalhas e triunfos, o santo imperador desejava um bem mais excelente: a pobreza e a solidão do mosteiro.

Narra-se que, decidindo abraçar de fato a vida religiosa, apresentou-se a Ricardo, abade do Mosteiro de Saint Vannes, em Verdun, por quem nutria especial afeto. Ao sentir-se abrigado pela sombra daquelas paredes benditas, fez suas as palavras do salmista: “É aqui para sempre o lugar de meu repouso, é aqui que habitarei porque o escolhi” (Sl 131, 14). Expressou ele ao religioso seu desejo de abandonar a coroa para melhor servir a Deus como monge. O Bispo Haimon, que se encontrava presente, preocupou-se… Chamou à parte o abade e o advertiu: “Se retiverdes este príncipe e o fizerdes monge, como ele deseja, causarás a ruína de todo o império!”.

Procurando uma maneira de não decepcionar o imperador e, ao mesmo tempo, não colocar em risco o Sacro Império, perguntou-lhe o abade se, a exemplo de Jesus Cristo obediente até a morte, estava disposto a fazer uma promessa de obediência. Henrique a fez, replicando ser este o maior desejo de seu coração. Ricardo então lhe disse: “Pois bem, cumprirás, agora, as minhas ordens; e eu te ordeno que voltes ao mundo e empregues todas as tuas forças em dirigir o país que Deus te confiou, e te consagres com tremor e temor de Deus ao bem dos teus Estados”.

Henrique aceitou a prudente decisão do abade e obedeceu prontamente, convencido de que assim serviria a Deus e à sua Igreja melhor do que vivendo na reclusão do claustro. Continuou, no entanto, a fazer-lhe várias visitas, muitas delas para pedir conselhos a respeito dos assuntos mais importantes do governo, e tornou-se oblato beneditino.



A serviço da Igreja e do império

Henrique e Cunegunda favoreciam o florescimento da Religião no vasto território imperial. De um extremo a outro se fundavam mosteiros e erigiam-se magníficas igrejas, muitas delas existentes até hoje. A fachada desses templos era flanqueada por duas torres, símbolo dos dois poderes: a Igreja e o império.

A imperatriz tinha “uma rara capacidade e um gosto refinado para as construções. Dirigiu pessoalmente a edificação da Catedral de Bamberg e do convento das clarissas de Kaffungen”, onde se fez religiosa ao ficar viúva, alguns anos mais tarde. Sua piedade não era inferior à de seu santo esposo e via-se que compartiam as mesmas aspirações.

A vida de Henrique foi um vaivém contínuo. Enganar-se-ia quem pensasse que, no cumprimento de seus absorventes deveres de soberano, não lhe restava tempo para as coisas de Deus. Era muito diligente para não deixar arrefecer sua piedade e a cada vitória aumentava sua gratidão para com Deus. Sempre disposto a sair a campo em defesa da Igreja, jamais lutou por uma glória pessoal. Além da Missa diária, fazia com frequência exercícios espirituais e tinha muita devoção a São Bento. Conta-se que rezando um dia, em Monte Cassino, foi miraculosamente curado de uma doença renal.

Em 1024, estando bastante enfermo e sentindo aproximar-se a morte, reuniu em torno de si todos os cortesãos, tomou a mão da santa imperatriz e disse a seus familiares: “Eis aqui aquela que me destes por esposa diante de Cristo; virgem ela me foi dada, virgem eu a entrego nas mãos de Deus e nas vossas”. Pouco tempo depois ditou seu testamento. Como já vivia no inteiro desapego dos poderes, da glória e das riquezas deste mundo, pronta estava sua alma para receber “a coroa imperecível de glória” (I Pd 5, 4). E no dia 14 de julho daquele ano cruzou os umbrais da eternidade.


(Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Julho/2015. n. 163, pp. 31 a 34)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Beata Margarida Ball, Viúva, Mãe de Família e Mártir (perseguição movida na Inglaterra)



Durante a perseguição de Elizabeth I da Inglaterra, hospedava sacerdotes e religiosos em sua casa. Denunciada por seu próprio filho, foi presa em Dublin e morreu vítima de torturas atrozes.

Ser a mãe do prefeito de Dublin para ela não foi fonte de orgulho ou de prestígio, mas foi causa de enormes sofrimentos que a levaram a morte, ou certamente a apressaram. A vida e o martírio da irlandesa Beata Margarida Ball deve ser enquadrada no clima de perseguição religiosa que se seguiu ao cisma anglicano iniciado na Inglaterra por Henrique VIII.
Os laços estreitos que ligam a causa sócio-político britânica com a Irlanda resultaram que em 1536, ou seja, cinco anos após o "ato de supremacia" famoso, que proclamou que o rei era chefe supremo da Igreja da Inglaterra, e depois de apenas dois de sua excomunhão e do interdito lançado contra a Inglaterra pelo Papa Clemente VII, o parlamento de Dublin também reconhecesse Henrique VIII como chefe da igreja irlandesa, determinando desta forma a separação da Igreja de Roma.
Margarida tinha 21 anos nesse período, tendo nascido em 1515, na bem sucedida família Berminghan. Aos 16 anos, casou-se com Bartolomeu Ball e deu a luz a mais de 20 filhos, dos quais apenas alguns atingiram a idade adulta. Eles formavam um casal muito unido, profundamente religioso, com uma sólida posição econômica, e o marido gozava de prestígio indiscutível, que o levou a ser prefeito de Dublin.
Embora eles não estivessem alheios à situação político-religiosa dominante, eles se comportavam como verdadeiros católicos, continuando a reconhecer o primado do Papa. Em seu palácio vivia um capelão, que celebrava a Missa normalmente, sua casa estava aberta a encontros de catequese e oração. Valendo-se da reputação de seu marido, Margarida chegou a abrir em sua propriedade uma escola católica.
Bartolomeu morreu em 1568 e Margarida, além da tristeza pela perda de um ente querido, também fica privada da proteção e do apoio com que ele garantia que ela professasse e defendesse a Igreja Católica. Apesar de tudo, ela continuou em seu compromisso, dando hospitalidade em sua casa aos sacerdotes e religiosos, mesmo quando se tornava extremamente arriscado.
Em 1570, Elizabeth I, que desde que ascendera ao trono permitira que uma feroz perseguição se acendesse na Inglaterra, especialmente contra os padres católicos, e que se espalhara rapidamente na Irlanda, foi excomungada. No final dos anos setenta Margarida foi presa sob a acusação de ter permitido a realização de uma Missa em sua casa, mas logo foi libertada sob fiança.
Beata Margarida Ball e o Beato Francisco,
seu afilhado,  ambos mártires de Dublin,
Estátuas existentes defronte a Catedral de
Dublin. 
Enquanto isso, o seu filho Walter, alimentando o desejo de se tornar prefeito de Dublin, se adaptou às exigências para o cargo que era negar sua fé e reconhecer a supremacia religiosa da rainha da Inglaterra.
Margarida cumpriu inteiramente o seu dever de mãe, tentando fazer seu filho entender que nenhum cargo político, de prestígio, pode ser negociado com a fé. O filho não se convenceu, mas, o que é pior, viu nela a maior inimiga e o maior obstáculo para alcançar os seus anelos políticos.
Pouco depois de sua eleição como prefeito, mandou prender a própria mãe sob a acusação de ter dado hospitalidade em sua casa aos sacerdotes perseguidos.
Margarida, na idade de quase 70 anos, foi levada em uma carroça pelas ruas de Dublin, exposta ao escárnio e zombaria de toda a cidade. Uma cela suja, gotejando umidade, sem ar, a espera, o que inevitavelmente prejudicou a sua saúde.
Precisamente por causa de sua saúde precária, uns anos depois lhe ofereceram a liberdade em troca de uma negação pública da sua fé. Receberam a resposta negativa desta mulher forte e corajosa, que escolheu terminar seus dias na prisão, mártir da Eucaristia e do Primado Pontifício.
Ela morreu em sua cela numa data incerta do ano de 1584 e, juntamente com dezesseis outros fieis (incluindo quatro bispos, seis padres, um irmão religioso e cinco leigos), ela, a única mãe de família do grupo, foi beatificada por João Paulo II em 27 de setembro de 1992.



 (fonte: Heroínas da Cristandade)