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domingo, 20 de novembro de 2016

Venerável Servo de Deus Faustino Pérez-Manglano Magro, Jovem Leigo da Família Marianista.


Faustino Pérez-Manglano Magro nasceu em Valência, em 04 de agosto de 1946, sendo o maior de quatro irmãos. Recebeu de seus pais, Faustino e Encarnación, uma sólida educação cristã.
Em 1952, ingressa no colégio marianista “Nuestra Señora del Pilar” (naquela época na praça do conde de Carlet). Em 1954 recebe a Primeira Comunhão e em 1955 a Confirmação. Em 1957 ingressa no segundo curso de bacharelado (espécie de “escola normal”) já no novo edifício colegial do Paseo de Valencia al Mar (hoje Avenida Blasco Ibañez). Sua vida se desenrolava como a de um menino comum: o encanta o desporte – a paixão pelo futebol – natação, montanhismo... Agrada-lhe o cinema, a televisão, ler romances (novelas) e fazer amigos.


Seu primeiro retiro

Fez aos treze anos fez seu primeiro retiro espiritual, uma experiência comum para os alunos do Pilar. Tem aí momentos de silêncio, de oração e conferências. Durante este retiro, Faustino comunica a seu capelão, Pe. José Maria Salaverri, sm, a promessa que fez: “prometi à Virgem Maria rezar o Rosário todos os dias, sobretudo quando foi sozinho ao colégio”. Escreveu mais tarde: “o maior esforço de minha vida, o fiz no retiro, quando tratei de mudar minha vida por completo”.


Seu Diário

Em 14 de setembro de 1960, escreveu a primeira página de seu Diário. Ter um diário foi uma ideia que lhe ocorreu depois de ler uma novela. De agora em diante, escreverá periodicamente, inclusive, mencionando os fatos que marcaram o dia. Este Diário é um indicador valioso de sua vida espiritual e dos acontecimentos de sua vida. O valor é sua espontaneidade, já que é o diário de um adolescente. Em 17 de outubro de 1960, escreve: “Rezei o rosário. Comunguei durante o recreio. Tive um exame de ciências naturais e respondi bem às questões. Falei durante 10 minutos com Cristo sobre as missões e sobre o empate entre o Zaragoza e Valência”. É neste Diário onde se menciona pela primeira vez a dor que anuncia sua enfermidade (14 de novembro de 1960).


“Talvez me fale Deus”

Em outubro de 1960, se uniu a uma fraternidade de jovens do colégio. Este grupo se reúne uma vez na semana. Em 22 de outubro ocorre algo muito importante para ele. Em um retiro, depois de reunir-se com seu capelão, escreveu nesse dia: “falamos a respeito de muitas coisas, porém, teve uma coisa que me chamou a atenção: ‘que vocação é a minha? Médico? Químico? Talvez a opção de ser sacerdote? Essa última possibilidade é o que mais me tem impressionado. Deus me escolheu? Ele mo dirá. Nas horas que tenho hoje de retiro, vou guardar completo silêncio. Talvez me fale Deus’”... Foi também durante este retiro que escreveu em forma de resolução: “vou tratar de viver a ‘ascese do sim’: dizer sim a tudo que é bom”. Mais tarde, quando lhe perguntaram quando sentiu a chamada do Senhor, dirá que : “naquela mesma noite, no jantar, em silêncio, vi com toda a claridade: o Senhor me quer religioso marianista”. A partir dessa data, sua amizade com o Senhor cresce dia após dia. Esta relação tão estreita e frequente com Cristo converte-se em amizade simples e profunda. Para ele, Jesus é um familiar, um amigo com quem se pode falar sobre tudo, inclusive sobre futebol.

A alegria da presença e do chamamento de Cristo

Eis aqui alguns textos extraídos de seu diário que mostram que, para Faustino, Cristo é alguém próximo: “que bem se está na companhia de Cristo” (21/10/1960)! “Ajuda-me, Jesus, para ser apóstolo. Já não guardo nada para mim. Que meu amor a Ti me faça dar-me aos outros” (22/06/61). “Trouxeram-me a comunhão. É maravilhoso receber o Corpo de Cristo!” (28/01/61). “Cristo está aqui, junto a mim, em mim...” (24/01/62). “Que bom que está aqui, perto de Cristo!” (25/01/62). “Sou muito feliz. Hoje é a primeira sexta feira de maio, um dia importante para mim. Senti o chamado de Deus como poucas vezes antes. Unido a Maria e a Jesus, eu estava transbordante de alegria. Como darei graças a Deus, por ser tão belo e maravilhoso viver perto de Cristo?” (04/05/62). “Me dei conta de que devo chegar a ser santo. Não se pode ser um cristão medíocre. Que os que me veem possam ver a Cristo em mim” (20/01/63). E a alegria de viver com Cristo não o impede, muito ao contrário, sua paixão pelo futebol, pela montanha, pela leitura e pelos amigos.


A enfermidade

Em 20 de novembro de 1960, cai enfermo. Depois dos exames médicos, finalmente lhe diagnosticaram a enfermidade (Linfoma) de Hodgkin, uma doença incurável naquela época. Se lhe aplicam um tratamento agressivo e que esgota suas forças. Durante largos períodos, tem que permanecer em casa, porém, ele segue trabalhando duro com o intuito de não perder o curso. Nunca se queixou, porém, em seu diário, descobrem-se os momentos mais difíceis: “durante a tarde me doía o tempo inteiro” (06/02/61). “Às 8 horas, pedi à mamãe que me fizesse massagens para dormir sem dor em demasiado. Às 10 horas, acordei e nós fomos à Cruz Vermelha. Fizeram-me duas radiografias. Quando voltamos à casa ao meio dia, sentia ímpetos de chorar. Estava muito mal, com a moral baixa” (27/11/61).
Desde fevereiro, já não podia ir à classe. Porém, dedica muito tempo a seu trabalho escolar: ele não quer perder o ano letivo. Tem que limitar todos os desportos, porém, não se queixa: está satisfeito com o que pode fazer e escreve que ele é feliz e que tudo é “maravilhoso”: é a palavra favorita de Faustino. Diverte-se com as sessões de cine-fórum que tem lugar no colégio. Vê o filme “Os Quatrocentos Golpes”, de François Truffaut. Apesar de já não poder fazer desportes, está com seus companheiros, quando esses competem.

Em 1961, peregrina a Lourdes e passa temporadas alternando a vida no campo (recomendação dos médicos) e o curso escolar. Há meses nos quais se sente melhor, apesar de as sessões de radioterapia lhe causarem cansaço e mal estar físico.

O sentido do outro

Em janeiro de 1962, Faustino conta em seu diário uma história que mostra a preocupação que tem pelo outro: “este pequeno tem catorze anos. Vive em um quartinho, apenas tem o que comer, trabalha oito horas ao dia”. Quer ajudar a um amigo que passa necessidade. Este sentido “do outro” é um sinal importante de seu caráter e sensibilidade social. Seu caminho espiritual não é centrado em si mesmo, senão, nos outros: “ser útil aos demais é uma das minhas resoluções e quero pô-la em prática. Estarei muito atento com todos os que conheço e lhes vou ajudar” (26/06/61). “Temos que começar a trabalhar por eliminar de nós mesmos tudo o que Cristo não aprovaria. Isso significa trabalhar no meu entorno, em casa, no colégio, com meus companheiros de classe, na cidade, no mundo inteiro” (25/01/62). Para isso, não poupa nenhum esforço por viver cem por cento a vida cristã: “Hoje, a Igreja necessita de testemunhas. Devemos ser testemunhas de Cristo no século XX. Devemos mostrar que se pode viver uma santidade tão grande quanto durante os primeiros séculos da Igreja” (26/01/62).
Neste processo, Maria ocupa um lugar fundamental: “Maria, eu quero ser teu apóstolo. Temos que ganhar o mundo para ti, como fez o Padre Chaminade. Ter-te como  nossa guia e a Jesus como nosso modelo. Ajuda-me, Mãe, para amar-te mais e melhor” (16/05/62).


Seu último ano

Aos 15 anos, escreveu em seu diário, com data de 22 de junho de 1962: “Hoje faz vinte meses que Deus me disse que o seguisse. É maravilhoso pensar que estarei toda minha vida ao serviço de Jesus e de Maria. Ser um pescador de almas. Estava refletindo e gostaria muito de ir como religioso marianista à América do Sul, onde fazem falta tantos braços para salvar almas”.
Faustino é consequente: não esquece a decisão tomada vinte meses atrás. No verão de 1962, participa de um “camping” colegial pela França e Suíça. Em 23 de janeiro de 1963 escreve: “Tenho que ser verdadeiro cristão. Para lograr isso, tenho que limar lentamente minhas imperfeições, porque ser um bom cristão não é fácil. É ainda mais difícil que alguém possa imaginar. Maria, ajuda-me a ser outro Cristo”.


O final. Ou, melhor, o princípio...
Em 23 de janeiro de 1963 não se levanta da cama. Já não se recuperará. Não reage ao tratamento. Os médicos estão desanimados e sabem que não há esperança de recuperação. Em 11 de fevereiro de 1963 escreve: “anteontem, sábado, foi um dia muito feliz para mim, porque recebi o Sacramento dos Enfermos e renovei minhas promessas por um mês como membro da Fraternidade. Hoje é a festa de Nossa Senhora de Lourdes. Que nossa maravilhosa Mãe do Céu nos ajude a todos a sermos melhores. Ajuda-me, Mãe, a oferecer estas pequenas moléstias para o bem do mundo”.  
Três dias antes de sua morte, seu capelão o visita; parece sofrer  muito. “Como estás, Faustino”? “Bem, padre”. “Tens dores”? “Depende do ponto de vista”. “Como é isso”? “Bom, vamos ver, padre: neste momento, há muitos que estão sofrendo mais que eu”! Faustino mostra um grande domínio de si. Não se lhe ouve nem uma palavra de queixa. No dia 03 de março de 1963, pela tarde, seu capelão, o padre José Maria Salaverri, vem ver a Faustino que parece sofrer muito. Porém, no meio da conversação, perguntou: “Padre, sabe você se a partida desta noite vai ser televisionada? Porém, que tonto eu sou! Nem vou poder assistir... Estou muito cansado”!  Nessa mesma noite, já tarde, chama a sua mãe. Ao endireitar o corpo dolorido, cai de repente, sem nenhum gesto, em silêncio, com suavidade, e já permanece inconsciente nos braços de sua mãe. Assim, passou aos braços de Deus nosso Pai. Eram 23h e 20min.
Sua biografia: “Talvez me fale Deus”, do Pe. José Maria Salaverri foi traduzida para o italiano, francês, inglês, húngaro, polonês, alemão, português e japonês. Vários movimentos juvenis tem surgido em diversos países do mundo debaixo da inspiração de Faustino.
No dia 14 de janeiro de 2011, o Papa Bento XVI aprovou as virtudes heroicas de Faustino Pérez-Manglano, podendo, portanto, ser chamado de “Venerável”.

Alguns pensamentos de Faustino:
"Estou disposto a receber de Deus todos os pequenos sofrimentos que Ele queira mandar-me. São tão insignificantes e os recebo com tanto gosto que são felicidades".

"Jesus, faça com que eu ame a Maria, não somente porque é pura, bela, boa e compassiva, nem porque é minha Mãe, mas, principalmente, porque é Tua Mãe e Tu a amas infinitamente. Ó Jesus, faça-me participar do Teu amor a Maria. Faça com que eu a ame como Tu".

"Sou muito feliz. Não sei o que se passa comigo. Sinto algo diferente dentro de mim. Um amor tão grande em direção a Ele, que me conduz sempre pela mão e que jamais permite que eu caia, nem uma única vez, em pecado mortal. Não sei o que são os problemas. Obrigado, Senhor Jesus, por dar-me este bem-estar interior tão maravilhoso. Estou muito agradecido a Vós".

"É maravilhoso pensar que estarei durante toda a vida a serviço de Jesus e de Maria. Serei um pescador de almas. Tenho pensado muito e gostaria de ir, como religioso mariano, à América do Sul, onde faltam pessoas para ajudar na salvação das almas.


Oração para pedir graças por intercessão de Faustino:

Senhor, Tu nos deu em Faustino um exemplo admirável de fidelidade às exigências do Teu divino amor. Imploramos a Vós para que, se for da Tua vontade, Faustino seja glorificado diante da Tua Igreja e que se manifeste concedendo-nos a graça que desejamos alcançar. (pede-se a graça)
Isso nós Vos pedimos por intercessão de Maria, Vossa Mãe, a quem Faustino tanto amou na terra. Amém.
Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.





ALGUNS TESTEMUNHOS

De Saint-Germain (França) nos chega uma carta muito emotiva, de uma pessoa de fé, de um autêntico cristão, do Almirante François de P.
“A Providência me permitiu ler este livrinho maravilhoso Talvez Deus me fale, que descreve o itinerário espiritual desse menino, Faustino, que na terra foi quase meu contemporâneo... Essa leitura me tocou fundo; as reflexões de Faustino são, sem embargo, muito simples, breves; mas quando uma alma em contato com Deus nos fala, inevitavelmente a nossa se deixa vibrar, como se tentasse se colocar em uníssono, sintonizar na mesma frequência. Por que não?
O testemunho de Faustino me emocionou muito porque vivi recentemente, em 1994 e 1995, a fatalidade de uma enfermidade que levou a minha esposa; passei pelo mesmo tipo de prova da família de Pérez-Manglano. Deus convidou a minha esposa a aceitar seus sofrimentos e a oferecê-los. Ela compreendeu o que o Senhor lhe pedia e entendeu o quanto os seus sofrimentos oferecidos podiam ajudar outras almas. Seus sofrimentos eram cada vez mais terríveis, que somente a morfina podia aliviar, com injeções atrás de injeções, como o ocorrido a Faustino. E lendo seu livro, eis que volto a reviver muitos momentos passados com meus filhos, ao lado do leito da mãe deles e minha esposa.
Muito obrigado por ter escrito este livro, obrigado por ter colocado Faustino em nosso caminho; pois um encontro, um único, ainda que breve, com essa alma cristã basta para nos colocar no bom caminho, para nos encorajar a oferecer todos os pequenos sofrimentos que temos e para nos confirmar a Fé, a Esperança e a Caridade. Que felicidade”!

Da Argentina
"Providencialmente, chegou até mim uma estampa de Faustino. Desde então, me ofereço a ele, peço a sua ajuda. (...) Tenho 27 anos e estou num momento muito especial da minha vida. Sinto que o Senhor me chama para entregar minha vida a seu serviço e com o auxílio de um sacerdote estou entendendo". (A.R.)

De Cuba
"Muito obrigado pelos três livros de "Faustinito", como aqui começamos a chamá-lo. Estão me ajudando muito em meu trabalho missionário com os idosos – aos quais levo o Senhor –, com as crianças da catequese e com os paroquianos". (J.P. N.)

Da Bélgica
"Ouvi falar de Faustino num acampamento de escoteiros. O padre nos falou dele (....) Sou professora de religião e organizo um retiro de fim de semana para crianças e adolescentes e me simpatizo com Faustino. Consegui o livro Talvez Deus me fale e a leitura me despertou a vontade de conhecê-lo ainda mais". (M. J.)

De San Luis (Argentina)
"Sou religiosa do Instituto Mãe de Deus (...). Faustino deu novos impulsos à minha vida espiritual e isso já é uma graça recebida sendo que – um mês antes da renovação dos meus votos – já havia feito esse pedido. E o Senhor, admirável com seus santos, quer e pede mais de mim e assim Ele vai me dizendo e mostrando o caminho". (P. S.)

Da França
"Querido Faustino, devolveu a esperança a meu coração. Faz com que te siga pelo mesmo caminho de sofrimento e de alegria que foi o teu, o mesmo caminho que Jesus e Maria (...). Obrigada por ter escrito esse livro". (C. B.)


SANTA SENHORINHA DA VIEIRA, Virgem e Abadessa beneditina.


Nasceu no ano de 924, mais provavelmente em Vieira do Minho. Era a filha mais nova de Avulfo, Conde e Senhor de Vieira e de Basto, e de Da. Teresa, irmã do Conde Gonçalo Soares. Chamou-se primeiro Domitila, mas o pai, regressando já viúvo de guerras, começou a chamar à filha queridíssima sua senhorinha e este passou a ser o seu nome.

       Ficando órfã muito cedo, o pai confiou-a a Da. Godinha, tia materna da Santa, abadessa no Mosteiro de S. João, de Vieira do Minho, da Ordem de S. Bento.

       Narram velhos códices que Senhorinha, tão bem acompanhada, se exercitou desde a mais tenra idade em jejuns, cilícios e disciplinas, consumindo o melhor do seu tempo na oração e em ouvir a palavra de Deus. Resistiu com energia a um nobre pretendente para matrimônio, pessoa que encontrava em Avulfo o melhor apoio. Mas o pai compreendeu esses desejos de perfeição.

       Ela professou aos 15 anos, segundo os costumes monásticos peninsulares. E Avulfo doou à filha, para que se sustentassem, ela e as companheiras que aparecessem, os direitos que possuía, como padroeiro, nas igrejas de São João de Vieira, São Jorge de Basto e de Atei. Assim parece ter-se originado o Mosteiro de Vieira.

     Dizem-nos que a Santa lia assiduamente a regra do Convento, os escritos de Santo Ambrósio, a Vida dos Santos e, muito naturalmente, a Escritura Sagrada. Teve grandíssimos desejos de martírio, que a tia lhe fez compreender estar na observância monástica. Mas Godinha não durou muito e a sobrinha mandou dar-lhe honrosa sepultura na sua Igreja de São Jorge de Basto.

     E, para ocupar o seu lugar no governo do mosteiro, foi eleita Senhorinha. Teria então uns 36 anos de idade e aproximadamente 20 de professa. A partir desta data, falam os velhos textos de numerosos milagres seus: fazer que aparecesse o pão necessário, transformar água em vinho (ver os azulejos da Igreja de São Vítor em Braga, do séc. XVII), e outros prodígios ainda.

     Vivia então em Celanova (junto a Orense, na Galiza), onde fundara um notabilíssimo mosteiro, o ex-bispo de Dume, São Rosendo, primo de Santa Senhorinha. Era visitador e reformador dos mosteiros de todo o Minho e Douro. Como tal vinha de vez em quando a Vieira.

     Não se sabe porquê, Santa Senhorinha transferiu-se, com as suas religiosas, para a terra que hoje tem o nome da Santa, no município de Cabeceiras de Basto. Essa freguesia chamava-se então São Jorge de Basto. Nela, ao lado da atual igreja paroquial seiscentista, ainda se encontra o chamado campo da feira, em cujo subsolo se descobrem sinais do que deve ter sido o mosteiro.

     Gervásio, irmão da santa, levava vida mundana e por orações da Santa converteu-se e santificou-se. Senhorinha, segundo um testemunho igualmente antigo, teve conhecimento, ao rezar no coro, da entrada de São Rosendo no céu. Estando também a orar, ela ouviu uma voz que lhe dizia: "Vem, minha escolhida, porque desejou o Rei a tua beleza". Percebeu logo de que se tratava, pediu os sacramentos e exortou as religiosas a perseverarem no amor de Deus e do próximo.


     Deu a sua alma a Deus com 58 anos de idade, a 22 de abril do ano 982. Ficou sepultada na igreja do mosteiro, entre os túmulos da tia e do irmão: Santa Godinha e São Gervásio.

     Havendo por ela muita devoção, o Arcebispo de Braga, D. Paio Mendes (1118-1138), veio visitar o sepulcro da Santa em ordem à canonização, pois se dizia que ela  estava na sepultura "inteirinha, incorrupta, como que dormindo".

     Deslocara-se pois até à igreja onde se encontrava o venerado túmulo, e - diz a crônica - tendo convocado o povo, que acorrera em massa, dispunha-se a exumar o corpo santo, sepultado em campa rasa, junto do altar-mor, quando, inesperadamente, um homem cego de nascença começou a bradar: "Vejo as mãos do Arcebispo e vejo o Arcebispo".

     Grande alvoroço da multidão, espanto enorme do Prelado; interroga-se o miraculado que responde: "Eu fui sempre cego, desde o nascimento, senti uma mão que tocou nos meus olhos e agora vejo o Arcebispo e a sepultura de Santa Senhorinha".


     Desistiu então o Arcebispo de abrir a sepultura, crendo piamente na santidade de Senhorinha e na verdade dos milagres. Mas depois, no ano de 1130, mandou-o levantar da terra e apor-lhe uma inscrição que fala da virgem consagrada, Senhorinha, e dos seus milagres inumeráveis em vida e numerosos depois da morte.

     Constituiu esta lápide uma verdadeira canonização, que estava nessa altura nas atribuições dos bispos locais. Mais tarde, o Papa Alexandre III (1159-1181) reservou as canonizações aos Papas.

     Com a visita e o epitáfio de D. Paio Mendes começou uma época de mais intensa devoção à Santa, com peregrinos de Portugal inteiro, da Galiza, de Leão, etc.

     D. Sancho I (1185-1211), vendo o filho e herdeiro D. Afonso em perigo de morte, veio a Santa Senhorinha (nome do lugar que sucedeu a S. Jorge de Basto) pedir a saúde dele e prometer, se obtivesse a graça, constituir um refúgio à volta da igreja; obteve-a e andou a pé a indicar o sítio dos marcos que D. Gonçalo Mendes, senhor da terra, mandou pôr.

     O rei D. Pedro I firmou, a 15 de setembro de 1360, a doação do padroado de Santa Maria de Basto, com os seus frutos e rendas, à Igreja de Santa Senhorinha, sob a condição, entre outras, de que este templo tivesse três lâmpadas com azeite, uma diante do crucifixo, outra diante do corpo de Santa Senhorinha e a terceira na capela em que jaz o corpo de São Gervásio. E explica o rei que esta capela foi mandada construir por D. Inês de Castro - terá sido entre 1340 e 1357. Conclui-se que, por essa altura, o túmulo de Santa Senhorinha estava no corpo da igreja.

     Apesar de só no século XVIII ter entrado o oficio litúrgico de Santa Senhorinha no Breviário Bracarense, deve datar do século XIII a introdução da festa da mesma nos calendários da Igreja ou de Ordens monásticas.

     A festa de Santa Senhorinha foi introduzida no Breviário Bracarense de D. Rodrigo de Moura Teles (1724). Temos indícios de que desta Santa se rezava liturgicamente em todo o país a 22 de abril até ao fim do século passado; assim em almanaques de 1854 e 1898. De Santa Godinha, fora da Diocese de Braga, nada se encontra; de São Gervásio rezou a Sé Patriarcal de Lisboa de 1322 até 1761, pelo menos.

     Com solenidade, celebrou-se em Santa Senhorinha de Basto o milenário da morte da Santa em 1982.

Fonte: blog Heroínas da Cristandade