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sexta-feira, 15 de julho de 2016

SÃO SIMÃO STOCK, Presbítero Carmelita, a quem a Virgem do Carmo apareceu em 16 de julho de 1251.


Numa hora de grandes perseguições contra sua Ordem, o Santo carmelita recebeu da Santíssima Virgem o Escapulário, como símbolo de proteção e eterna aliança.

Simão nasceu em 1165, no castelo de Harford, condado de Kent, na Inglaterra, do qual seu pai era governador. Os pais do Santo uniam a virtude à mais alta nobreza. Alguns escritores julgam mesmo que tinham eles parentesco com a família real inglesa.

Sua mãe consagrou-o, antes de nascer, à Santíssima Virgem. Em reconhecimento a Ela pelo feliz parto, e para pedir sua especial proteção em relação ao filhinho, a jovem mãe, antes de amamentá-lo, oferecia-o à Mãe de Deus, rezando de joelhos uma Ave-Maria. Se, por distração, esquecia-se disso, encontrava uma resistência da parte do pequenino Simão, que recusava alimentar-se até que ela rezasse essa oração. Quando o bebê, devido a algum mal-estar próprio à idade, começava a chorar, bastava que a mãe lhe mostrasse uma estampa da Virgem para que ele se acalmasse.

O menino aprendeu a ler com pouquíssima idade. A exemplo de seus pais, começou a rezar o Pequeno Ofício da Santíssima Virgem, e logo também o Saltério em latim. Embora não conhecesse ainda a língua latina, encontrava tanto prazer nisso, que ficava extasiado.

Essa precoce criança iniciou aos sete anos o estudo das Belas Artes no colégio de Oxford, com tanto sucesso que surpreendeu os professores. Isso fez com que fosse admitido à Mesa Eucarística, num tempo em que o costume era  receber a Sagrada Hóstia muito mais tarde. Foi então que consagrou sua virgindade à Santíssima Virgem.


Eremita aos 12 anos de idade

Perseguido pela inveja do irmão mais velho, e atendendo a uma voz interior que lhe inspirava o desejo de abandonar o mundo, deixou o lar paterno na idade de 12 anos, encontrando refúgio numa floresta isolada. Preferiu seguir o chamado de Deus a permanecer no aconchego do lar.

Um enorme carvalho, cujo tronco (“stock” é “tronco” em inglês, daí o apelido do Santo) apodrecido formara uma cavidade suficiente para nela colocar uma cruz, uma imagem de Nossa Senhora e recostar-se, serviu-lhe de oratório e habitação. Empregava o tempo na contemplação das coisas divinas, oração e austeridades. Bebia água de uma fonte nas proximidades e alimentava-se de ervas, raízes e frutos silvestres. De vez em quando, porém, um misterioso cão levava-lhe um pedaço de pão. Evidentemente, como outrora aos solitários do deserto, o demônio não o deixava em paz. “Simão é entregue pelo inimigo da salvação a penas de espírito, a violentos escrúpulos, a cruéis remorsos sobre os perigos dessa via extraordinária que ele percorre, privado como estava da graça dos sacramentos, desprovido de todos os meios que a Igreja concede sem cessar aos fiéis, todos os dias exposto a morrer nessa terrível solidão, sem socorro nem consolações. O exemplo de tantos solitários que Deus conduziu na mesma via reanimava sua confiança; a lembrança das graças com as quais o Céu o tinha favorecido, para o confirmar em sua resolução, o reassegurava”.1

E, sobretudo a proteção de Nossa Senhora, a quem ele foi consagrado desde o ventre materno, vinha trazer-lhe a paz. Por outro lado, também os anjos vinham fazer-lhe companhia e o entretinham na solidão em que vivia. Assim viveu cerca de 20 anos.


Ordem para que se juntasse aos carmelitas

Nossa Senhora revelou-lhe então seu desejo de que ele se juntasse a certos monges que viriam à Inglaterra, provenientes do Monte Carmelo, na Palestina, “sobretudo, porque aqueles religiosos estavam consagrados de um modo especial à Mãe de Deus”. Apesar do grande atrativo que tinha pela solidão, Simão voltou para a casa de seus pais e retomou o curso de seus estudos. Formou-se em teologia e recebeu as sagradas ordens. Enquanto aguardava a chegada dos monges preditos, o Pe. Simão Stock dedicou-se à pregação.



Como Vigário Geral da Ordem, enfrenta perseguição

Finalmente chegaram dois frades carmelitas no ano de 1213, e ele pôde receber o hábito da Ordem em Aylesford.

Em 1215, tendo chegado aos ouvidos de São Brocardo, segundo Geral latino do Carmo, a fama das virtudes de Simão, quis tê-lo como coadjutor na direção da Ordem; em 1226, nomeou-o Vigário-Geral de todas as províncias europeias.

São Simão teve que fazer frente, nessa ocasião, a uma verdadeira tormenta contra os carmelitas, na Europa, suscitada pelo demônio através de homens ditos zelosos pelas leis da Igreja. Estes queriam, a todo custo, suprimir a Ordem, sob pretexto de ser ela nova, instituída sem aprovação da Igreja, contrariamente ao que dispunha o IV Concílio de Latrão.

Simão enviou delegados ao Papa Honório III, para informá-lo da perseguição de que estavam sendo vítimas os carmelitas e pedir sua proteção. O Soberano Pontífice delegou dois comissários para examinarem a questão. Estes, ganhos pelos adversários, opinaram pela supressão dos carmelitas. Mas a Santíssima Virgem apareceu a Honório III, ordenando-lhe que aprovasse as Regras do Carmo, confirmasse a Ordem e a protegesse contra seus adversários.(2) O Sumo Pontífice o fez mediante uma bula, na qual declarou legítima e conforme aos decretos de Latrão a existência legal da Ordem dos Carmelitas, e autorizou-a a continuar suas fundações na Europa.


Eremita no Oriente e Prior Geral

São Simão participou do Capítulo Geral da Ordem na Terra Santa, em 1237. Nesse Capítulo, tratava-se de decidir, devido às contínuas perseguições movidas pelos mouros, se era o caso de manterem ainda os conventos da Terra Santa. Uma ala pretendia permanecer, mesmo sob o risco de se enfrentar o martírio. Outros, alegando a frase de Nosso Senhor — “quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra” —eram partidários da trasladação total para a Europa. São Simão Stock era desta segunda opinião, alegando, ademais, que não se podia tentar a Deus nessa situação. Mas ele mesmo não pôde voltar imediatamente para a Europa, porque os sarracenos dominavam os mares. Com isso, prazerosamente isolou-se numa gruta do Monte Carmelo, onde passou mais seis anos de inteira solidão, até que, sabendo que alguns cruzados ingleses preparavam-se para voltar à sua terra, julgou seu dever partir com eles.

Num novo Capítulo, em 1245, foi eleito 6° Prior Geral da Ordem carmelita.

Se a bula papal aplacara momentaneamente o furor dos inimigos do Carmelo, não o fizera cessar de todo. Depois de um período de calmaria, as perseguições recomeçaram com mais intensidade.


Nossa Senhora concede-lhe o Escapulário da Ordem

Abandonado de auxílio humano, São Simão recorria à Virgem, com toda a amargura de seu coração, pedindo-Lhe que fosse propícia à sua Ordem, tão provada, e que desse um sinal de sua aliança com ela.

Na manhã do dia 16 de julho de 1251, suplicava com maior empenho à Mãe do Carmelo sua proteção, recitando a bela oração por ele composta, Flos Carmeli. Segundo ele próprio relatou ao Pe. Pedro Swayngton, seu secretário e confessor, de repente “a Virgem me apareceu em grande cortejo, e, tendo na mão o hábito da Ordem, disse-me: “‘Recebe, diletíssimo filho, este Escapulário de tua Ordem como sinal distintivo e a marca do privilégio que eu obtive para ti e para todos os filhos do Carmelo; é um sinal de salvação, uma salvaguarda nos perigos, aliança de paz e de uma proteção sempiterna. Quem morrer revestido com ele será preservado do fogo eterno’”.

“Disse-me Ela […] que bastava enviar uma delegação ao Papa Inocêncio, Vigário de seu Filho, que ele não deixaria de me mandar remédio para nossos males”.


A expansão da Ordem do Carmo

Essa graça especialíssima foi imediatamente difundida pelos lugares onde os carmelitas estavam estabelecidos, e autenticada por muitos milagres que, ocorrendo por toda parte, fizeram calar os adversários dos Irmãos da Santíssima Virgem do Monte Carmelo.

“A Ordem do Carmo multiplicou-se tão prodigiosamente, sob a direção do nosso Santo, que poucos anos depois de sua morte, cerca do fim do século XIII, segundo a observação de Guilherme, Arcebispo de Tiro, essa Ordem contava já com mais de 500 mosteiros ou eremitérios, povoados por um grande número de religiosos, que o mesmo autor eleva ao número de 120 mil”.5

Como Geral, São Simão procurou propagar de todas as formas a Ordem pela Europa, preferindo fundar casas em cidades onde havia universidades. Foi o que realizou em Cambridge (1249), Oxford (1253), Paris (1254) e Bolonha (1260).

São Simão atingiu extrema velhice e altíssima santidade, operando inúmeros milagres, tendo também obtido o dom das línguas.

Apesar da idade, viajou pela Europa erigindo inúmeros mosteiros, e atribui-se-lhe também a fundação das Confrarias do Santo Escapulário.

Enfim, já centenário, chegando a Bordeaux, na França, quando se dirigia a Toulouse para o Capítulo Geral da Ordem, entregou sua alma a Deus, a 16 de maio de 1265.

De sua tumba saíram raios de luz durante 15 dias depois de sepultado, o que levou os religiosos a comunicarem o portento ao Bispo. Este chegou ao túmulo, acompanhado do clero e de muito povo. Tendo constatado o fenômeno, mandou que se abrisse o sepulcro, aparecendo o corpo do santo emitindo raios de luz e exalando delicada fragrância.

Por volta do ano 1276, o culto a Simão Stock foi confirmado para o convento de Bordeaux, pela autoridade da Santa Sé, e mais tarde para os de toda a Ordem carmelitana.


*   *   *

Notas

1– Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo V, p.585.

2– Cfr. Les Petits Bollandistes, op.cit., p. 588.

3– Em latim, diz essa bela oração: “Flos Carmeli, Vitis florigera, Splendor Cœli, Virgo puerpera, Singularis; Mater mitis, sed viri nescia. Carmelitis da privilegia, Stella maris!”—  “Flor do Carmelo, vide florífera, Esplendor do Céu, Virgem incomparável, Singular! Ó Mãe amável e sempre virgem, dai aos Carmelitas os  privilégios de vossa proteção, Estrela do Mar!”.

4– Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 592.

5– Id. ib. p. 593.




Nossa Senhora do Santo Escapulário do Carmo
Nossa Senhora voltou ao céu e o Escapulário permaneceu como sinal de Maria. Na última aparição de Lourdes e de Fátima, Nossa Senhora traz o Escapulário.

São passados mais de 750 anos, desde o dia 16 de julho de 1251. Todos os que trouxeram o Escapulário, com verdadeira piedade, com sincero desejo de perfeição cristã, com sinais de conversão, sempre foram protegidos na alma e no corpo contra tantos perigos que ameaçam a vida espiritual e corporal. É só ler os anais carmelitanos para provar a proteção e a assistência de Maria Santíssima.

O Escapulário é a devoção de papas e reis, de pobres e plebeus, de homens cultos e analfabetos. É a devoção de todos. Foi a devoção de São Luis IX, de Luis XIII, Luis XIV da França, Carlos VII, Filipe I e Filipe III da Espanha, Leopoldo I da Alemanha, Dom João I, de Portugal.

E a devoção dos Papas: Bento XV o pontífice da paz, chamou o Escapulário a "arma dos cristãos" e aconselhava aos seminaristas que o usassem. Pio IX gravou em seu cálice a seguinte inscrição: "Pio IX, confrade Carmelita". Leão XVIII, pouco antes de morrer, disse aos que o cercavam: "Façamos agora a Novena da Virgem do Carmo e depois morreremos".

Pio XI escrevia, em 1262, ao Geral dos Carmelitas: "Aprendi a conhecer e a amar a Virgem do Carmo nos braços de minha mãe, nos primeiros dias de minha infância".

Pio XII afirmava: "É certamente o Sagrado Escapulário do Carmo, como veste Mariana, sinal e garantia da proteção e salvação ao Escapulário com que estavam revestidos. Quantos nos perigos do corpo e da alma sentiram a proteção Materna de Maria".
Pio XII ainda chegou a escrever: "Devemos colocar em primeiro lugar a devoção do escapulário de Nossa Senhora do Carmo - e ainda - escapulário não é 'carta-branca' para pecar; é uma 'lembrança' para viver de maneira cristã, e assim, alcançar a graça duma boa morte".
O Papa João XXIII assim se pronunciou: "Por meio do Escapulário do Carmo, pertenço à família Carmelitana e aprecio muito esta graça com a certeza de uma especialíssima proteção de Maria. A devoção a Nossa Senhora do Carmo torna-se uma necessidade e direi mais uma violência dulcíssima para os que trazem o Escapulário do Carmo" Paulo VI afirmava que entre os exercícios de piedade devem ser recordados o Rosário de Maria e o Escapulário do Carmo.

O Papa João Paulo II era devotíssimo de Nossa Senhora e coloca a recitação do Rosário entre suas orações prediletas. Ele quis ser Carmelita. Defendeu sua tese sobre São João da Cruz, o grande Carmelita renovador da Ordem.

John Mathias Haffert, autor do livro "Maria na sua Promessa do Escapulário", entrevistou a Irmã Carmelita Lúcia, a vidente de Fátima ainda viva e perguntou, por que na última aparição Nossa Senhora segurava o escapulário na mão?

Irmã Lúcia respondeu simplesmente: "É que Nossa Senhora quer que todos usem o Escapulário".

As promessas específicas de Nossa Senhora do Carmo.

Primeira: Quem morrer com o Escapulário não padecerá o fogo do inferno.
Em primeiro lugar, ao fazer a sua promessa, Maria não quer dizer que uma pessoa que morra em pecado mortal se salvará. A morte em pecado mortal e a condenação são uma e a mesma coisa. A promessa de Maria traduz-se, sem dúvida, por estas outras palavras:
“Quem morrer revestido do Escapulário, não morrerá em pecado mortal”.
Para tornar isto claro, a Igreja insere, muitas vezes, a palavra “piamente” na promessa: “aquele que morrer piamente não padecerá do fogo do inferno”.

Segunda: Nossa Senhora livrará do Purgatório quem portar seu Escapulário, no primeiro sábado após sua morte.
Embora às vezes se interprete este privilégio ao pé da letra, isto é, que a pessoa será livre do Purgatório no primeiro sábado após sua morte, “tudo que a Igreja, tem para explicar estas palavras, tem dito oficialmente em várias ocasiões, é que aqueles que cumprem as condições do Privilégio Sabatino serão, por intercessão de Nossa Senhora, libertos do Purgatório pouco tempo depois da morte, e especialmente no sábado”. De qualquer modo, se formos fiéis em observar as palavras da Virgem Santíssima, Ela será muito mais fiel em observar as suas, como nos mostra o seguinte exemplo:

Em umas missões, tocado pela graça divina, certo jovem deixou a má vida e recebeu o Escapulário. Tempos depois recaiu nos costumes desregrados, e de mau tornou-se pior. Mas, apesar disso, conservou o santo Escapulário.

A Virgem Santíssima do Carmo, sempre Mãe, atingiu-o com grave enfermidade. Acometido pela doença, o jovem viu-se em sonhos diante do justíssimo tribunal de Deus, que devido às suas atitudes ruins e vida má, o condenou à eterna condenação.
Em vão o infeliz alegou ao Supremo Juiz que portava o Escapulário de sua Mãe Santíssima.
        — E onde estão os costumes que correspondem a esse Escapulário? Perguntou-lhe.
Sem saber o que responder, o infeliz olhou então para a Virgem Santíssima.
— Eu não posso desfazer o que Meu Filho já fez. Respondeu-lhe Ela.
— Mas, Senhora! exclamou o jovem, Serei outro.
— Tu me prometes?
— Sim.
— Pois então vive.
Nesse mesmo instante o doente despertou, apavorado com o que viu e ouviu durante o sonho, fez votos de levar adiante mais seriamente o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo. Logo, sarou e entrou para a Ordem dos Premonstratenses. Depois de vida edificante, Deus chamou sua alma à pátria celeste. Assim narram às crônicas dessa Ordem.


A Serva de Deus Irmã Lúcia tornou-se
carmelita descalça. 
A Aparição de Fátima e o Escapulário.

Após a última aparição de Nossa Senhora de Fátima na Cova da Iria, surgiram aos olhos dos três videntes varias cenas.
Na primeira, ao lado de São José e tendo o Menino Jesus ao colo, Ela apareceu como Nossa Senhora do Rosário. Em seguida, junto a Nosso Senhor acabrunhado de dores a caminho do Calvário, surgiu como Nossa Senhora das Dores. Finalmente, gloriosa, coroada como Rainha do Céu e da Terra, a Santíssima Virgem apareceu como Nossa Senhora do Carmo, tendo o Escapulário à mão.

Por que Nossa Senhora apareceu com o Escapulário nesta última visão a 13 de Outubro em Fátima? Perguntaram a Lúcia em 1950.
Lúcia respondeu: É que Nossa Senhora quer que todos usem o Escapulário respondeu ela.
“E é por este motivo que o Rosário e o Escapulário, são dois sacramentais marianos mais privilegiados, universais, mais antigos e valiosos, adquirem hoje uma importância maior do que em nenhuma época passada da História”

Numa bula de 11 de fevereiro de 1.950, o Papa Pio XII convidava a "colocar em primeiro lugar, entre as devoções marianas, o escapulário que está ao alcance de todos"; entendido como veste mariana, esse é de fato um ótimo símbolo da proteção da Mãe celeste, enquanto sacramental extrai o seu valor das orações da Igreja e da confiança e amor daqueles que o usam.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

SANTA VERÔNICA GIULIANI, Virgem e Mística (segundo texto, complementando o texto recém publicado)


"Enquanto se rezava a Missa, vi são Francisco Xavier com uma cruz. Este me deu a conhecer que ela significava o cargo de Abadessa e que seria colocada sobre meus ombros.

"Estais louca? replicou o confessor. Abadessa, uma tonta como vós? Governar um mosteiro, se não sois capaz nem de governar as galinhas? São extravagâncias que vos passam pela cabeça".

Quem seria essa religiosa, de quem o confessor teria, pelo menos na aparência, um conceito tão desfavorável?

Nascida em Mercatello (Itália) -- localidade distante 18 milhas de Città di Castello --, ainda dentro dos imponderáveis natalinos, no dia 27 de dezembro de 1660, Úrsula Giuliani, manteve sempre dentro de si o grande significado da festa máxima da Cristandade: a alegria pelo nascimento dAquele que seria crucificado para redimir os homens.

Essa filha do casal Francisco Giuliani e Benta Mancini, desde a mais tenra idade, osculava as imagens de Nossa Senhora e do Menino Jesus. E quando sua mãe e as irmãs comungavam, não conseguia afastar-se delas para estar perto de Nosso Senhor. No dia de sua Primeira Comunhão confessa que sentia um calor tão grande que a inflamava inteira, especialmente o coração.

Isso não a impedia de levar uma vida como as demais crianças de sua idade, e até em condições de luxo, com servidores e domésticos, em vista da boa situação social e econômica de seu pai, que era Duque.

Porém, nem os presentes e o carinho que aquele lhe devotava, pois a tinha por filha predileta, nem o prazer que sentia naquela vida agradável e sem problemas, impediram que aos 15 anos pedisse a Jesus que lhe desse Seu Coração para ser a morada de sua alma, e Suas penas para viver crucificada como Ele.

Na via de um profundo desprendimento
Em 1677, aos 16 anos de idade, tornou-se religiosa, entrando como noviça no convento de freiras clarissas em Città di Castello, tomando o nome de Verônica. Ela confessa que, em vista de suas apetências naturais para uma vida confortável, todas as coisas no convento se lhe tornavam difíceis. E como não sabia qual a origem dessas dificuldades, percebendo que elas se opunham à sua vocação, decidiu adotar o grande princípio de vida espiritual, o agere contra, e fazer sempre o contrário do que suas apetências naturais pediam: "Eu me propus ir sempre contra a corrente, tanto em matéria de alimentação, como no vestuário e em todas as ações".

Quando ela pensava que devia agir sempre por amor de Deus, tudo tomava sentido. Jesus crucificado deveria ser seu livro e seu guia:

"O lado humano chorava e o espiritual se alegrava no meio das cruzes. Algumas vezes, devido às rebeliões da natureza humana, ficava dias sem saber o que fazia: o hábito, as paredes, tudo que via causavam-me melancolia. Para vencer-me, osculava as paredes, o hábito e tudo aquilo pelo que sentia aversão".

A fidelidade ao agere contra a levou a repudiar sua própria vontade para poder fazer somente o que Deus queria. "Tu nada és e nada fazes", disse-lhe Ele; "desprenda-te de tudo em tudo e então experimentarás os efeitos da minha graça divina".

Sendo fiel à especial vocação para qual Nosso Senhor a chamava, chegou a receber os estigmas da Paixão e a Coroa de Espinhos.


Diante da calúnia de estar possessa pelo demônio: paz de alma
No caminho do sofrimento, Verônica percebeu que as cruzes, as tentações, as desolações, os abandonos e todas as contrariedades constituem a porta e a luz que conduzem a Deus. Incendiada pelo amor à cruz, sentiu desejo ardente de salvar a todos. Fazer penitência para a conversão das almas, passou a ser seu lema.

Quantas vezes sentiu tentações contra a fé, quanto tempo passou na aridez e na desolação! Quantas vezes chamou por Nosso Senhor e não ouviu Sua resposta! Mas uma aspiração permanecia constante em sua alma: o desejo de salvar os pecadores, custasse o que custasse.

Assim, recebeu acusações, por parte de Irmãs malevolentes e caluniadoras, de estar possessa pelo demônio. E outras, menos furiosas, diziam que seus "estados anormais" (leia-se fenômenos místicos com que era favorecida a Santa) vinham de seu desejo de se fazer notar. Apesar das perseguições que sofria, em seu convento, diretamente do demônio ou de suas irmãs de hábito, mantinha-se inalterável na paz interior própria a quem estava abrasada pelo amor de Deus.

Almas que sofrem, jovens isolados, mães desoladas, honestos profissionais dos mais diversos ramos perseguidos ouçam o conselho de Verônica: para entender o que é o amor de Deus é necessário passar longamente sob a prensa do sofrimento. Pedi a mediação dela a fim de obterem as forças necessárias para suportar cristãmente todas as adversidades que a Providência permite que sejam enviadas, com vistas a nosso próprio proveito espiritual.

Domínio perfeito do caráter colérico
Verônica foi eleita abadessa em 5 de abril de 1716, aos 56 anos de idade e 40 de vida religiosa, por unanimidade. Sinal de que mesmo suas adversárias no convento a consideravam perfeitamente digna e capaz de ocupar o elevado cargo.

Mandou então colocar uma imagem de Nossa Senhora sobre o trono abacial, apresentando-A como a nova abadessa: "Sois Vós a abadessa; seguirei Vossas ordens", declarou. Deste modo deu prosseguimento a um hábito que lhe era familiar desde a mais tenra idade: voltar-se para Maria.

Nossa Senhora -- que era a Abadessa de fato -- aconselhou-a que governasse com amor e pelo amor, mas sem amor próprio e respeito humano. E que tivesse a regra na mão para ver tudo; no coração para penetrar tudo e impressa em si mesma para que fosse observada por todas.

Viveu com temor e tremor de que o cargo resultasse na perdição de sua alma. No entanto, segundo um testemunho, era a abadessa ideal, capaz de pôr ordem no mundo inteiro. Tinha essa arte dificílima de se fazer amar e, ao mesmo tempo, incutir um temor filial. Considerava-se mãe amorosa, tratando a todos com a mesma afabilidade, cortesia e benquerença.

Embora se dissesse ter caráter colérico, exercia tal domínio sobre si que isto nunca transparecia. Quando admoestava, corrigia ou dava penitência, jamais irritava as religiosas sobre quem recaíam suas advertências, pois todas sabiam que era para seu próprio bem e faziam prontamente qualquer coisa que mandasse. Com esta atitude conseguiu erradicar a mania que algumas tinham de procurar informar-se de tudo o que se passava fora, levando os assuntos mundanos para as conversas internas, com grave prejuízo para a seriedade que deveria reinar no convento.

O mosteiro floresceu e tornou-se um espelho de todas as virtudes. E com a virtude reinava a união e a paz. Verônica era o sol radiante, a chama que não se apaga, o Anjo que conduz ao Paraíso.


Penetração dos corações e milagres em vida
Verônica penetrava no interior das almas; via suas aflições, seus pensamentos, as graças de que necessitavam.

Certa vez, em meio a uma reunião com as noviças, levantou-se de repente e saiu correndo rumo à cela de uma religiosa. Esta última, talvez por desequilíbrio mental, havia chegado a agredir Verônica pouco tempo antes. Ao chegar à cela, abriu com dificuldade a porta e encontrou a religiosa fora de si, desvairada, querendo matar-se. Verônica a consola, fala de Deus, do inferno, e acaba por devolver a calma a um coração agitado pelo remorso e pelo desespero.

A par do conhecimento das almas, tinha ela também o dom dos milagres, havendo realizado muitos ainda em vida.

Certo dia, um incêndio ameaçava destruir toda a igreja. Verônica, desde o coro, invoca Nossa Senhora e, fazendo um sinal da cruz, faz cessar imediatamente o perigo.

Em outra ocasião, um número incalculável de bichinhos roíam as raízes das hortaliças. Por ordem do confessor, Verônica fez um grande sinal da cruz e todos vieram à superfície. "Ide ao galinheiro", ordenou a santa e todos para lá se dirigiram a alimentar as galinhas, que tiveram nesse dia uma lauta refeição. Foi uma cena de fazer arrepiar muitos partidários da ecologia festiva.

Multiplicou muitas vezes alimentos como queijo, ovos, azeite, frutas e peixe quando eram insuficientes para a pobre mesa do claustro.

Ela mesma declara que todos os dias presenciava milagres da santa obediência. E os via realizados em si mesma, tantas foram as curas inexplicáveis que teve de muitas dores e doenças.





Um crucifixo a chamava para aconselhá-la
Nossa Senhora a chamava de "coração de meu coração; alma de minha alma". Ela lhe aparecia, abraçava, dava conselhos, confortava, andava com a fisionomia de Verônica no meio das religiosas, e lhe prometia uma proteção contínua na vida e na morte.

No Santo Natal, a imagem do Menino Jesus, em seus braços, tomava forma humana. Um crucifixo do mosteiro a chamava para dar conselhos. Os Santos, os Anjos a visitavam. Numa das renovações da profissão dos votos, que fazia uma ou mais vezes ao ano, foi assistida pela Virgem Maria, Santa Clara, São Francisco, São Felipe Neri.

Pediu ao confessor licença para morrer...
Um ano antes de sua morte, como acontecera durante quase toda a vida, conta que estava na obscuridade de espírito, nas trevas e em um mar de tentações, mas sempre obedecendo a Deus.

O despojamento de sua vontade, substituída pela de Deus a levou a ser obediente até para morrer, pedindo permissão ao confessor para passar para a outra vida; obtido o consentimento, no mesmo instante voou para a eternidade. Isto ocorreu em 9 de julho de 1727, no convento onde era abadessa, em Città di Castello.

A notícia de sua morte se espalhou sem que se soubesse como, e uma multidão de damas, nobres, cavaleiros e pessoas do povo dirigiu-se ao mosteiro.

Encontrando-o fechado, golpearam a porta gritando: "Queremos ver a nossa Santa! Abri!"

Tomadas algumas precauções, o Bispo mandou colocar o corpo na porta da igreja, mas foi tal a desordem causada pelo desejo de tocar, conseguir uma relíquia, ou pelo menos olhar pela última vez aquela que foi a mãe querida, a irmã insubstituível, a grande protetora de todos, que o Prelado mandou fechar a porta e enterrar logo o corpo.

Os benefícios de sua virtude e a fama de sua santidade espalharam-se por toda a península italiana. Reis, Príncipes e grandes da Terra pediam sua intercessão junto a Deus para atender suas necessidades ou as de seus súditos.
Monges, sacerdotes e leigos, atingidos por doenças incuráveis em fase terminal, recuperaram instantaneamente a saúde ao simples contato de uma relíquia sua, ou por ter implorado sua ajuda.

Vinte milagres foram arrolados nos processos diocesano e apostólico para sua canonização, a qual se deu mais de cem anos após sua morte.

Pio VII beatificou-a, na presença da Arquiduquesa Maria da Áustria e do Rei Carlos Emanuel da Sardenha, no dia 7 de junho de 1802. E Gregório XVI canonizou-a solenemente em 29 de maio de 1839, festa da Santíssima Trindade.

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Fontes de Referências:

Raffaello Cioni, S. Veronica Giuliani, Libreria Editrice Fiorentina, Florença, 1951.

Sancta Veronica Giuliani, Vitae spiritualis magistra et exemplar tertio ab eius nativitate exeunte saeculo (1660-1960), Institutum Historicum Ord. Fr. Min. Cap., Romae, 1961.


Ctesse. M. de Villermont, Sainte Véronique Giuliani, Librairie Générale Catholique, Maison Saint-Roch, Paris-Couvin, Bélgica, 1910.

Fonte: site Catolicismo 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

SANTA TERESA DE LOS ANDES, Virgem. Primeira Santa Carmelita das Américas e Patrona da Juventude Latino-Americana.


Quais eram os anseios mais profundos de Juanita Fernandez Solar, essa moça carinhosa e bela, que nos deleita com seu trato afetuoso e alegre? Sua alma, excessivamente pura para ficar no mundo, ansiava se converter em esposa mística de Cristo.


Observe, leitor, a fotografia de “Juanita” Fernández Solar. É uma jovem de 18 anos, nas vésperas de entrar para um austero convento carmelita no qual tomou o nome de Irmã Teresa de Jesus. Viveu santamente nesse convento durante nove meses apenas. Morreu aos 19 anos, como vítima expiatória pelos sacerdotes, por sua família, pela sociedade em que brilhara. E hoje é conhecida e venerada em todo o mundo como Santa Teresa de los Andes.

Numa primeira vista, sua fisionomia agrada. Ela é bela e acolhedora. Em seu rosto, ainda muito jovem, destacam-se luminosamente seus lindos olhos azuis. Embora aristocráticos e altivos, cientes de seu próprio valor, eles não rejeitam quem está diante de si. Pelo contrário, parecem nos acolher, nos introduzir na presença desta jovem, não de uma forma protocolar como quem diz: "Prazer em conhecê-lo", mas envolvendo-nos com um afeto suave e discreto de tal forma que, após alguns segundos contemplando-a, nos sentimos como se ela já fizesse parte de nossa vida.

A fotografia denota uma pureza alcandorada, uma inocência reluzente. Juanita até dá a impressão de que a Providência a tenha limpado do pecado original já nos primeiros instantes de sua vida. Como todas as impressões, estas têm algo de pessoal, mas por certo o efeito que esta fotografia produz em nós tem muito a ver com a jovem por ela representada.


Santa Teresa de Los Andes aos 03 anos. 
Alma contemplativa

Primeira santa carmelita latino-americana, Santa Teresa de los Andes nasceu em Santiago do Chile, em 13 de julho de 1900, numa família católica e aristocrática. "Jesus não quis que eu nascesse como Ele, pobre. E nasci no meio das riquezas, mimada por todos" - escreve em seu diário.

Seus biógrafos coincidem em ressaltar que ela era sempre o centro das atenções onde estivesse, pela sua amabilidade, graça e simpatia. Era alegre e comunicativa, mas também séria e de um temperamento enérgico.

Suas brincadeiras eram animadas e entusiasmadas. À sua casa acorriam muitos parentes e amigos. Uma tarde anunciou a todos os seus irmãozinhos e primos que presenciariam algo nunca visto por olhos humanos. Eles teriam o privilégio de assistir à Assunção da Santíssima Virgem. Os meninos se puseram diante de uma mesa sobre a qual estava uma imagem de porcelana da Virgem Maria, com uma coroa de metal. Juanita escondeu-se atrás de um biombo e "magicamente" a imagem começou a subir, ante a admiração dos pequenos, até desaparecer por trás de um cortinado. O "milagre" tinha sido operado por Juanita por meio de um delgado fio amarrado na coroa da imagem.

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Quando se tratava de brincar, era a primeira de todas, a mais animada, a mais alegre, a mais ativa. Na fazenda Chacabuco, de seus pais, andava a cavalo montada de lado como uma grande dama. Era difícil ultrapassá-la nos passeios a galope com seus irmãos e primos. Nas férias, no balneário de Algarrobo, perto de Valparaíso – em um ambiente de pudor e compostura hoje difícil de imaginar – era ela uma ousada nadadora. Jogava tênis. Fazia caminhada com as amigas.

Mas, sobretudo, contemplava. Em carta a uma amiga, escrevia: "Não podes imaginar paisagens mais bonitas que as que víamos... colinas cobertas de árvores e no fundo uma abertura onde se via o mar, sobre o qual se refletiam nuvens de diversas cores. E, por trás, o sol ocultando-se. Não podes imaginar coisa mais bela, que faz pensar em Deus, que criou a terra tão formosa. Que será o Céu? - pergunto-me muitas vezes."

E à Madre Priora do Carmelo que a iria acolher, contava: "O mar, em sua imensidade, me faz pensar em Deus, na sua infinita grandeza. Sinto então uma sede do infinito." Estando já no Carmelo, e sabendo que sua mãe passaria férias de novo na mesma praia, lhe escrevia: "Cada vez que a senhora olhar o mar, ame a Deus por mim, mãezinha querida."


Santa Teresa com sua irmã Rebeca 
(com a cabeça reclinada no 
ombro da irmã) que, mais tarde, 
entraria também no Carmelo
Festejada por todos

Suas companheiras de aula a descrevem como sendo uma moça alegre e amável, suave no trato, de maneiras muito finas, firme e constante na ação. Entretida e divertida por seu caráter alegre e sem complicações. Muito bonita, com belos olhos azuis, nariz bem cortado, tez branca, bastante alta. Todas a festejavam. Tinha uma bela voz de contralto e sempre lhe pediam que cantasse.

Durante as férias na fazenda, muito cedo se dirigia à capela para saudar o Senhor Sacramentado e tocar o harmônio como forma de oração. Durante as tardes, após o rosário em família, pediam-lhe para tocar também o harmônio, o que ela fazia com encanto de todos, mas, sobretudo, de Deus. Escrevia muito bem, e no colégio obtinha as melhores notas em literatura, história, religião e filosofia. Suas colegas sempre procuravam sua companhia e a chamavam carinhosamente de mater admirabilis.


Foto da Santa (primeira, à esquerda, sentada) com amigos e familiares. 



O afeto e o carinho familiar que uma sociedade perdeu

Na vida hostil, impura e materialista de nossos dias, é difícil entender o que era o afeto existente nas famílias católicas, há poucas décadas. Vejamos, a título de amostra, alguns trechos de uma carta que Juanita escreveu a seu pai, o qual ficara no campo trabalhando, enquanto a família passava férias de verão no balneário de Algarrobo. Depois de narrar-lhe belos passeios e exercícios de natação, Juanita manifesta a seu pai seu filial carinho: "Como o senhor vê, paizinho, não falta mais que o senhor para sermos felizes. Enquanto nós nos divertimos aqui, o senhor está trabalhando, de sol a sol, para nos proporcionar comodidade. Não temos, paizinho, meio de lhe pagar, pois é grande demais seu sacrifício. Mas nós, seus filhos, compreendemo-lo e o enchemos de carinho e cuidados, pois achamos que esta é a melhor maneira de agradecer a um pai. Por que não vem aqui pelo menos por uns dias? Não sabe a tristeza que me dá quando vejo as outras meninas felizes com seus papais. Por favor, venha, pois nós o temos tão pouco durante o ano!"

Em outra carta, assim se despede do pai: "Receba, paizinho, abraços e beijos de mamãe e de meus irmãos, mais mil beijos e carinhos desta sua filha que mais lhe quer e que se lembra a cada momento de seu paizinho querido."

O pai, por sua vez, mostra a reciprocidade do afeto, numa carta escrita depois de tê-la autorizado a entrar no Carmelo:

"Minha filhinha querida:
Recebi as duas cartas pelo que muito te agradeço, embora me façam tanto sofrer, ao pensar que quem me escreve e que me toca desta forma a alma vai se separar de mim para sempre. Mas o sacrifício está feito e eu o ofereci a Deus para que me perdoe por aquilo em que eu O tenha ofendido na minha vida. E como o sacrifício é tão grande, Ele o vê e o terá em conta.
Minha querida filhinha, não sabes o bem tão grande que tuas cartas me fazem, não só agora, mas antes mesmo de tua resolução, porque via nelas tanto carinho e ternura. Elas me deram nova vida e desejo de trabalhar por teus irmãos (...)
Feliz, tu, mil vezes, minha filhinha, que te consideras feliz e sentes essa paz de alma que tão poucos podem sentir e que há tanto tempo foge de mim. Só desfruto algo dela depois das férias que passamos juntos na intimidade” (...)
Não creias em nenhum momento, minha querida filhinha, que me tenha arrependido de haver-te dado meu consentimento. Muito pelo contrário. Pois creio que as preces de uma alma tão pura como a tua serão ouvidas por Deus, e elas me acompanharão o resto de minha vida e serão meu melhor refúgio para me preservar dos muitos perigos. E não te esqueças jamais que meu pensamento te acompanhará noite e dia (...) Que Deus me mande todas as provas e sofrimentos e os afaste de ti.
"Não te canses, minha filhinha, de continuar pedindo por teu pobre papai... Para ti, um milhão (de beijos e abraços) de teu pai que não te esquece um instante."

A Santa em sua Primeira Comunhão
As graças místicas iluminaram toda a sua vida

Aos dez anos, a pequena Juanita fez sua Primeira Comunhão. Desde então, como ela revelou a seu confessor, o Pe. Antonio Falgueras, SJ, "Nosso Senhor me falava depois de comungar; dizia-me coisas das quais eu não suspeitava. E quando eu Lhe perguntava, me revelava coisas que iam suceder e que de fato aconteciam. Mas eu achava que ocorria o mesmo com todas as pessoas que comungavam."

Em carta a seu pai, pedindo permissão para ser carmelita, narra: “Desde pequena amei muito a Santíssima Virgem, a quem confiava todos os meus assuntos. Só com Ela me desafogava. Ela correspondeu a esse carinho; protegia-me, e escutava sempre o que eu lhe pedia. E Ela me ensinou a amar Nosso Senhor (...) Um dia (...) ouvi a voz do Sagrado Coração que me pedia que eu fosse toda d'Ele. Não creio que isso tenha sido uma ilusão, porque nesse mesmo instante me vi transformada: aquela que procurava o amor das criaturas, não desejou senão o de Deus”.

Já no Carmelo de Los Andes, escreve ao Padre Colón, SJ: "Também Nosso Senhor se apresenta a mim, às vezes, interiormente e me fala. Durante aproximadamente uma semana, vi-O na agonia, mas de uma maneira tal como jamais teria sonhado. Sofri muito, porque essa imagem me aparecia constantemente e me pedia que O consolasse. Depois foi o Sagrado Coração, no tabernáculo, com o rosto muito triste. E, por último, no dia do Sagrado Coração, apresentou-Se a mim com uma ternura e beleza tal que minha alma se abrasava em seu amor."


Foto da Santa tirada por familiares 

na véspera de sua entrada no Carmelo.
Como nunca mais os familiares iriam 
ver o rosto de Juanita novamente, 
pediram que ela tirasse uma foto 
vestida de carmelita,  para 
guardar de lembrança. 
Escrava de Maria, grandes provações

A jovem Juanita ingressou no convento de Los Andes no dia 7 de maio de 1919. Recebeu o hábito de noviça em 14 de outubro do mesmo ano, tomando o nome de Irmã Teresa de Jesus. No dia 8 de dezembro, consagrou-se como escrava de Maria, segundo o método ensinado por São Luís Grignion de Montfort. Doravante, seus atos e sacrifícios seriam todos para Nossa Senhora. "Combinei com a Santíssima Virgem que Ela passasse a ser meu sacerdote, que me oferecesse a cada momento pelos pecadores e pelos sacerdotes, mas banhada com o sangue do Coração de Jesus" - escreveu.

No curto tempo passado por Juanita no convento, sua superiora, com um extraordinário senso das almas, determinou que continuasse seu apostolado por meio de cartas à sua família e às suas amigas. Os resultados não se fizeram esperar. Sua mãe se fez carmelita descalça secular. Sua irmã menor, Rebeca, ingressou no mesmo convento, meses após a morte da Irmã Teresa. Várias de suas amigas, moças da melhor sociedade, tinham por ela tal estima e admiração que decidiram também consagrar suas vidas a Jesus, no Carmelo ou em outros institutos religiosos. Atravessando crises e ambientes adversos, perduram até hoje os efeitos de seu bom exemplo, atraindo muitas jovens para a vida contemplativa e para as atividades de apostolado leigo na sociedade.

No dia 01 de abril de 1920, a Irmã Teresa adoeceu gravemente. Ante a iminência de sua morte, e dada a santidade de sua vida, a madre superiora permitiu que fizesse os votos de carmelita professa e Esposa de Cristo, in articulo mortis, no dia 7 desse mês.

Mas estavam por vir as grandes provações espirituais que uma vítima expiatória costuma receber. Quis Deus que ela, como outros santos, sofresse a terrível sensação de ter sido não só abandonada, mas condenada por Ele. Assim, ardendo em febre, fazia esforços para retirar seu escapulário e afastar os objetos de piedade que a rodeavam. Num tom de voz acabrunhador, exclamou: "Nunca pensei que a Santíssima Virgem fosse me abandonar!". Depois de certo tempo de luta terrível, foi-se acalmando aos poucos, até que num momento disse sorrindo, como se tivesse uma visão: “Meu esposo”! Morreu suavemente três dias depois, em 12 de abril de 1920.

De forma inesperada, o povo da cidade de Los Andes acorreu em grande número ao velório dessa até então desconhecida freira, que vivera apenas nove meses no Carmelo. Todos pediam para tocar seus objetos de piedade no corpo da "santa", todos recebiam graças de paz, de benquerença, de afervoramento e de piedade.

Em 03 de abril de 1987, S.S. João Paulo II beatificou a Irmã Teresa. Sua fama de santidade cresceu de forma impressionante no Chile e em todo o mundo, sem que ninguém se preocupasse em difundi-la. Por fim, o mesmo Papa a canonizou, no dia 21 de março de 1993. Um imponente santuário foi construído em sua honra, tendo como fundo de quadro uma grandiosa vista da Cordilheira dos Andes.


(Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Fev/2003, n. 14 e Março/2003, n. 15)