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sexta-feira, 8 de julho de 2016

SANTA MARIANA DE JESUS PAREDES Y FLORES, Virgem (A "Açucena de Quito).


Prodígio de penitência e mortificação, essa Santa foi dotada do dom dos milagres e da profecia, chegando a ressuscitar duas pessoas. Vítima expiatória, faleceu aos 26 anos, oferecendo sua vida para que Deus livrasse a cidade de Quito da peste e dos terremotos que a abalavam.


Foi na ilustre Quito, então pertencente ao Vice-Reino do Peru, que nasceu Marianita a 31 de outubro de 1618. Oitava filha do Capitão Dom Jerônimo de Paredes y Flores, originário de Toledo, e Dona Mariana de Granobles de Xamarillo, descendente dos primeiros conquistadores do país, que aliavam a nobreza do sangue à das virtudes.

O modo excelente pelo qual praticou as virtudes durante sua vida deve ser altamente admirado, embora não seja de molde a ser imitado pelo comum dos fiéis.

Aos quatro anos perdeu o pai. A mãe, acabrunhada de dor, resolveu passar algum tempo numa casa de campo. Montada numa mula, levava sua filhinha ao colo. Quando foram transpor celeremente um riacho, a mula tropeçou e a criança caiu. Mas seu anjo da guarda a amparou no ar até que fosse recolhida pela aflita mãe.

Pouco tempo depois a menina ficava duplamente órfã, pois faleceu sua virtuosa mãe. Mas, antes, esta a havia confiado à filha mais velha, casada então com o Capitão Cosme de Casso.  Esse jovem casal já tinha três filhas mais ou menos da idade de Mariana, e deu-lhes a mais esmerada formação. De uma inteligência muito viva e alerta, Marianita aprendia com facilidade tudo quanto lhe ensinavam, mas sobressaiu-se sobretudo na música e canto. Dotada de bonita voz, entretanto só queria utilizá-la para entoar cânticos religiosos e louvores de Deus.


De uma piedade precoce, com suas sobrinhas da mesma idade organizava procissões, a Via-Sacra, e rezavam juntas o Rosário. Entretanto, a piedade de Mariana ia mais além. Desde os seis anos, por penitência, deixou de comer carne, peixe e laticínios. Disciplinava-se (castigava-se) com folhas de urtiga, e uma vez sua irmã mais velha descobriu que ela usava um cilício de ásperas folhas.

Um dia em que as quatro crianças brincavam em determinado local do quintal, subitamente Mariana fez com que suas jovens sobrinhas saíssem rapidamente. Apenas tinham-no feito, uma parede desmoronou exatamente onde elas se encontravam.

A irmã e o cunhado, vendo que ela tinha uma piedade muito acima de sua idade, procuraram conseguir com que ela fizesse a Primeira Comunhão aos sete anos, quando o costume era então aos 12. Um jesuíta chamado para examiná-la surpreendeu-se com a maturidade da menina e seu adiantamento na via da virtude. Deu-lhe a Primeira Comunhão e passou a dirigi-la espiritualmente. Foi então que ela acrescentou o nome “de Jesus”, para mostrar que só a Ele pertencia. E, iluminada por uma luz interior, fez o voto de castidade perpétua.

Inflamada pelo amor de Deus, Marianita queria que todos participassem de seu ardor. Nasceu-lhe assim o desejo de evangelizar os índios Mainas, e convenceu suas sobrinhas a segui-la nessa empresa. Tinha já conseguido a chave da casa para saírem à noite, mas, contra seu costume, adormeceu até a manhã seguinte, e o plano gorou.

Pensou então em serem eremitas junto a um oratório abandonado no monte Pichincha, erigido outrora a Nossa Senhora para que Ela preservasse a cidade das erupções desse vulcão. Mas, estando já a caminho, foram detidas por um touro que lhes impediu obstinadamente a passagem.

No próprio lar: reclusão e vida religiosa
Quando Mariana completou 12 anos, seu cunhado e a irmã, vendo o trabalho que a graça operava na menina, quiseram encaminhá-la a um convento onde pudesse desenvolver todos os pendores de sua alma. Ela escolheu o das franciscanas. Por duas vezes, estando o enxoval pronto e, como era costume na época, os parentes convidados para acompanhá-la, circunstâncias imprevistas impediram a realização do plano. Mariana então comunicou a seu confessor que Deus lhe revelara que a queria vivendo recolhida, mas no mundo. O confessor falou com seus responsáveis, que concordaram com isso.

Mais ainda – e isso mostra um aspecto daquela época de fé –, o casal separou três cômodos da casa para a adolescente levar sua vida de reclusa. Isso na idade de 12 anos! E mobiliaram os aposentos de acordo com a posição da família. Mariana, contudo, fez tirar os móveis e mobiliou os aposentos a seu modo: um leito forrado com pranchas de madeira de forma triangular, uma cruz coberta de espinhos, um caixão de defunto com um esqueleto de madeira e uma caveira. Uma das salas foi transformada em capela, colocando ela no altar as imagens do Menino Jesus e da Virgem Maria. Mariana adotou então uma túnica negra do mesmo tecido da batina dos jesuítas, com uma faixa à cintura e a cabeça coberta com um véu de lã também preta.

Depois de se trancar nos novos aposentos, renovou o voto de castidade e fez os votos particulares de obediência e pobreza. Não saía senão para ir à igreja e – a fim de praticar a humildade e mortificação – servir as refeições para a família. Só que não tocava nos delicados pratos servidos, mas dava sua parte aos pobres, contentando-se com água e um pedaço de pão. Algumas vezes passava dias só com a Sagrada Eucaristia.

Mariana não dormia mais que três horas por noite, sendo que às sextas-feiras dormia no caixão.

Levantava-se às 4 horas da manhã, tomava longa disciplina, e depois fazia meditação e recitava parte do Ofício Divino. Dirigia-se então à igreja para confessar-se e assistir à Missa. Muito devota das almas do Purgatório, dedicava-se diariamente, das 8 às 9 da manhã, a ganhar indulgências a favor delas. Recitava depois o terço, fazendo em seguida algum trabalho manual em favor dos pobres. Servia então a refeição da família, e, voltando a seus aposentos, recitava Vésperas e fazia seu exame de consciência. Trabalhava de novo até às 17 horas, quando fazia sua leitura espiritual e depois rezava as Completas. Das 18 horas a 1 da manhã ocupava-se de coisas diversas, em geral fazia outra meditação e leitura da vida dos santos.

Seu amor aos pobres era sem limites. Como não possuía nada pessoal, pediu licença ao cunhado para dar-lhes esmolas com víveres da casa. E o fazia generosamente. Mas como Deus não se deixa vencer em generosidade, à medida que Mariana dava aos pobres, Ele aumentava as provisões da família.

É claro que essa vida tão penitente e o jejum quase contínuo de Mariana deixaram-na muito fraca e macilenta. Isso atraiu o elogio do povinho, que via nela uma santa. Ela suplicou então a Nosso Senhor que lhe mudasse a aparência, para evitar tais comentários. E realmente ficou com aspecto saudável, rosto corado, o que não levava a supor a severidade de suas penitências. Estas, entretanto, não lhe tiravam a alegria, que ela demonstrava tocando sua guitarra e cantando para consolar e distrair os infelizes.

Além das penitências procuradas, Mariana queria sofrer ainda mais por amor de Deus. Recebeu então como dádiva diversas moléstias dolorosas, o que a obrigava a ser sangrada muitas vezes. Uma empregada pegava esse sangue e jogava num buraco no jardim, onde ele permanecia rubro como se estivesse fresco. Depois da morte da santa, nele brotou um lírio de admirável beleza. Mariana, por causa da alta febre, era frequentemente devorada pela sede; mas, para imitar o Divino Mestre, que teve sede na Cruz, passava às vezes até 15 dias sem beber.

 Fachada da bela igreja da Companhia, em estilo jesuítico (gravura do século XIX).

Perseguição diabólica, profecias, milagres e ressurreições.

A esses sofrimentos acrescentem-se as perseguições do demônio, que queria levá-la algumas vezes ao desânimo, outras ao desespero.

Mariana de Jesus fez diversas profecias, que se realizaram tais como ela havia predito. Por exemplo, que a casa de seu cunhado seria transformada em convento, e que o lugar de seu alojamento seria o coro das religiosas. Com efeito, mais tarde as carmelitas descalças ali se estabeleceram.

A Serva de Deus recebeu o dom dos milagres, entre os quais se referem duas ressurreições. Sua sobrinha Joana, viajando, confiou-lhe sua filhinha. Um dia em que a criança brincava perto de umas mulas, uma destas lhe deu um coice na cabeça, fraturando-a mortalmente. Mariana fez com que a levassem à sua cela e rezou sobre ela, restituindo-lhe a vida.

Outro caso aconteceu com a mulher de um índio, empregado da família. Supondo ele injustamente que sua mulher lhe era infiel, arrastou-a para a floresta, surrou-a selvagemente, estrangulou-a e jogou o corpo num precipício. Tudo isto Mariana viu milagrosamente. Chamou um comerciante amigo da família e pediu-lhe em segredo que fosse buscar o corpo e o trouxesse sigilosamente para sua cela. Tendo-o junto a si, começou a esfregar-lhe pétalas de rosa. Imediatamente a índia voltou à vida. Depois revelou que, no meio de seu suplício, viu Mariana dizendo-lhe que tivesse coragem.

Oferecendo-se como vítima, salvou Quito do terremoto e da peste.

Em 1645, uma terrível epidemia abateu-se sobre Quito, fazendo inúmeras vítimas, ao mesmo tempo em que ocorriam terríveis tremores de terra. No dia 25 de março, assistindo à Missa, Mariana ouviu seu confessor referir-se, durante o sermão, à necessidade de se aplacar a cólera de Deus com sacrifícios e penitências. Movida pelo Divino Espírito Santo, fez ela oferecimento de sua vida pela população da cidade.

No dia seguinte, foi atacada por diversas doenças, ao mesmo tempo em que cessavam os tremores de terra e a peste. Mas a população ficou consternada ao tomar conhecimento do estado de saúde desesperador em que se encontrava aquela que veneravam como santa. Todos queriam vê-la, tocá-la, informar-se de seu estado. Mas só o Bispo foi admitido.

Mariana recebeu os últimos Sacramentos com verdadeira alegria, e quis receber a Comunhão de joelhos, apesar da fraqueza em que se encontrava. Para morrer sem nada de seu, pediu para ser transportada ao quarto de sua sobrinha, a fim de morrer em cama emprestada.

No dia 26 de maio de 1645, aos 26 anos, aquela que era chamada em vida a Açucena de Quito entregou sua alma a Deus. Logo uma multidão acorreu para venerar seu sagrado corpo e obter alguma relíquia.

Mariana de Jesus Paredes y Flores foi beatificada por Pio IX em 1850 e canonizada, 100 anos depois, por Pio XII. A República do Equador proclamou-a Heroína Nacional.

(Plinio Maria Solimeo, no site "Catolicismo")

Obras Consultadas:
Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo VI, pp. 229 e ss.
John J. Delaney, Dictionary of Saints, Doubleday, New York, 1980, p. 445.
Pe. José Leite, S. J., Santos de Cada Dia, Editorial A. O., Braga, 1987, pp. 147 e ss.

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