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terça-feira, 14 de junho de 2016

SÃO JOÃO DE SAHAGÚN, Presbítero Agostiniano, grande pregador e taumaturgo. Dois textos biográficos.


Fidalgo e um dos maiores pregadores da Espanha, fustigava com franqueza apostólica os crimes e vícios de sua época, sendo por isso envenenado. Embora desconhecido no Brasil, São João de Sahagún figura entre os maiores pregadores deste país de grandes pregadores que foi a Espanha. Seu exemplo atesta como os autênticos oradores sacros devem estar dispostos a tudo, até à morte se necessário, antes que pactuar com os crimes e vícios da época em que vivem.


Filho de herói da guerra contra os mouros
Sahagún é uma pequena cidade da província espanhola de Leão. Sua glória era a de ter servido de berço e patíbulo do mártir São Fernando, que na época dos romanos tingiu com seu sangue as águas do rio Cea. A essa glória, séculos mais tarde se somou a de ser a pátria de João González de Castrilho, conhecido na História da Igreja como São João de Sahagún ou São Facundo. Seu pai e homônimo — um “cristão velho” e fidalgo “pelos quatro costados” — vivia na corte do rei D. João II, tendo-se notabilizado na batalha de Hiqueruela contra os mouros, sob o comando do condestável Álvaro de Luna.

O primogênito dos sete filhos de D. João e de Da. Sancha Martinez, João nasceu no dia 24 de junho de 1430, festa de São João Batista. Estudou letras e humanidades no Real Mosteiro de São Bento de sua cidade natal. Dotado de boa inteligência, avantajou-se muito nos estudos.

Na adolescência ele foi apresentado por um tio ao Arcebispo de Burgos, D. Alonso de Cartagena. Antigo rabino sinceramente convertido em Príncipe da Igreja, homem virtuoso de vasto saber, D. Alonso logo se encantou com as qualidades de João González. Ordenou-o sacerdote, nomeou-o depois cônego da catedral, além de conceder-lhe outros benefícios. Mas, renunciando a tudo, o jovem levita se dedicou à cura das almas, à pregação e aos estudos na pequena igreja de Santa Águeda.

Doutor em teologia e frade agostiniano
Morto D. Alonso em 1456, o Pe. João trasladou-se para Salamanca a fim de estudar Direito Canônico em sua célebre universidade. Ao mesmo tempo exercia sua atividade pastoral em uma capela da cidade. A princípio, por causa de sua humildade, poucos notaram as qualidades desse jovem sacerdote. Mas um dia convidaram-no para fazer um sermão em honra de São Sebastião, patrono do colégio São Bartolomeu. O Pe. João agradou tanto, que foi eleito para essa casa, tornando-se também muito popular na cidade. Formado, lecionou Sagrada Escritura no mesmo colégio.

Entretanto, um cálculo renal tornou necessária uma dolorosa operação, que naquela época punha em risco a vida do paciente. Diante disso, o Pe. João prometeu a Deus tornar-se religioso, caso saísse ileso da operação. Eis o que ele mesmo narra sobre o ocorrido então: “O que se passou naquela noite entre Deus e minha alma, só Ele sabe; e, logo de manhã, fui [ao convento de] Santo Agostinho, creio que por iluminação do Espírito Santo, e recebi o hábito da Ordem”.1


Profunda piedade eucarística e cargos de mando
No convento de Santo Agostinho, João González portou-se como religioso muito virtuoso e edificante. Por isso foi designado Mestre de Noviços, depois Prior, e finalmente Conselheiro Provincial. Como aliava à sua profunda virtude muita ciência, estava apto a comandar; e como sabia obedecer, sabia também mandar.

Frei João também se notabilizava por uma profunda piedade eucarística. Suas ações de cada dia eram feitas como preparação para a comunhão do dia seguinte. Muito devoto da Eucaristia, não podia sê-lo do Santo Sacrifício do Altar. Era favorecido por êxtases na celebração da Missa, de sorte que esta não tinha fim. O superior ordenou-lhe que fosse mais breve. Frei João, confuso, comunicou-lhe então o que se passava entre ele e Nosso Senhor durante a Missa: Jesus Cristo aparecia-lhe frequentemente, fulgurante como um sol, e lhe fazia as mais altas revelações.


Piedade de um santo muito acessível
Não obstante, Frei João era um santo muito acessível. Seus biógrafos contam que ele não era de nenhum modo um místico hipocondríaco e sombrio que inventava a cada dia novo modo de mortificar seu corpo. Não fazia penitências extraordinárias, jejuava apenas quando mandava a regra, e comia quando era a hora. “Sua conversação estava cheia de graça; seu rosto alegrava a quem o olhasse. Ademais, sem saber como, Frei João se tornara o diretor, o mestre, o pai, o consolo de todos os desgraçados na cidade de Salamanca. De seus lábios escapavam palavras bondosas; de suas mãos, prodígios estupendos”.2

A pregação foi sua grande missão. Falava tão bem e pateticamente, que em Salamanca se dizia: “Vamos ouvir o frade gracioso”. Frei João fustigava os vícios, as modas extravagantes, a licenciosidade de costumes e as injustiças que via na cidade. Ele foi por isso várias vezes vítima de atentados. E quando se tratava de apontar alguma irregularidade, não poupava nem amigos nem pessoas elevadas em dignidade: “Fazer de outro modo, dizia, é vender a consciência, trair o Crucifixo, e fazer, por assim dizer, moeda falsa em matéria de religião”.3

Frei João era de tal modo dotado do poder de penetrar os segredos de consciência, que no confessionário não era fácil enganá-lo. E aqueles que queriam confessar-se apenas rotineiramente eram obrigados a fazê-lo bem. Insistia na necessidade do firme propósito para que fosse boa a confissão. Entretanto, era muito discreto e misericordioso com os pecadores, sendo por isso muito procurado pelos fiéis.

Fatos milagrosos na vida do santo
Deus Nosso Senhor semeou a vida de São João de Sahagún com vários prodígios. Assim, um dia seu irmão, D. Martim de Castrilho, o chamou aflito, porque uma filha sua havia falecido. Frei João, ao chegar, disse alegremente a seu irmão: “Por que choras? A menina desmaiou e pensam que morreu”. Tomando-a pela mão, entregou-a com vida à mãe.

Em outra ocasião, uma mãe em prantos procurou Frei João dizendo que seu filho havia caído em profundo poço e não era mais visto.

Frei João dirigiu-se ao local e chamou o menino pelo nome. Este respondeu. Então o Santo tirou sua correia e a lançou ao poço para que o menino a agarrasse. Ora, sucedeu que a correia cresceu o necessário para chegar até onde o menino se encontrava, muitos metros abaixo. Agarrando-se a ela, saiu são e salvo.

Uma multidão que se tinha reunido em redor do santo começou então a aclamá-lo. Vendo um balaio de peixe vazio, Frei João o colocou na cabeça e começou a bailar como um tonto, afastando-se do povo. Chamando-o de louco, alguns meninos começaram a correr atrás dele e a atirar-lhe pedras, e assim ele chegou ao convento. Desse modo livrou-se dos louvores, além de ganhar algumas boas pedradas.4

Pacificador e Padroeiro de Salamanca
Entretanto, o maior feito de São João de Sahagún foi pacificar Salamanca, que nos últimos 40 anos estava sendo devastada por uma guerra de famílias. Era raro o dia em que o sangue não corresse em abundância, e não havia praticamente família que não tivesse perdido um ente querido. Como consequência, não existia casa que não procurasse um meio de vingar-se. O pior é que nem mesmo os magistrados e a autoridade real eram respeitados. Cometiam-se homicídios mesmo em lugares de asilo, e matava-se até junto aos altares.

São João de Sahagún não omitiu nada para reunir os dois partidos opostos e fazer cessar o espírito de vingança que os animava. Tudo empregou, tanto no confessionário quanto no púlpito, nas ruas e até em frente às casas dos litigantes para fazer cessar esse flagelo.

Enquanto pregava um dia contra essas desordens na igreja lotada, sobreveio no templo um murmúrio de desagrado, pondo alguns a mão na espada. O santo interrompeu então o sermão e, em tom de profeta, disse que o primeiro que empunhasse o gládio cairia morto. Um dos senhores mais responsáveis pelo litígio quis desafiar o pregador, mas caiu fulminado. Esse castigo tão súbito, tão público e tão milagroso causou tanto efeito, que operou a difícil reconciliação. Pelo que João de Sahagún recebeu na cidade o título de “El Pacificador”.

Quando contava apenas 49 anos Frei João de Sahagún começou a falar de sua morte próxima, apesar de estar com boa saúde. Suas palavras proféticas logo se realizaram.

Havia em Salamanca um senhor da alta nobreza que levava vida escandalosa com uma mulher sem que ninguém ousasse repreendê-los. São João tomou então a liberdade de lhes mostrar o estado pecaminoso em que viviam e o escândalo que davam à cidade, ameaçando-os com o castigo divino. Suas palavras e admoestações causaram profundo efeito sobre o nobre que, arrependido, rompeu a ligação ilícita em que vivia. O mesmo, entretanto, não ocorreu com sua concubina, que jurou vingar-se. Não se sabe por que meios ela conseguiu colocar um veneno lento, mas mortal, num alimento que Frei João ia tomar. A consequência foi um lento e doloroso depauperamento do santo. Sofrendo tudo com paciência admirável, no dia 11 de junho de 1479 ele entregou sua alma a Deus.

Beatificado por Clemente VIII em 1601 e canonizado por Inocêncio XII em 1690, São João de Sahagún é o padroeiro de Salamanca.

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Notas:
1. P. Antolínez, Vida de San Juan de Sahagún, Salamanca, 1605, apud Victorino Capánaga, San Juan de Sahagún, Gran Enciclopédia Rialp, Ediciones Rialp, Madri, 1973, tomo XIII, p. 590.
2. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p. 600.
3. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo VI, p. 600.
4. Cfr. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo III, pp. 439-440.

(por Plinio Maria Solimeo, site Catolicismo)




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Segundo texto biográfico
São João nasceu em Sahagún, vila da província de Leão, e dela tomou o nome. Havia na sua freguesia uma abadia beneditina e nela estudou as humanidades. Depois passou ao serviço de D. Afonso de Cartagena, que o ordenou sacerdote, o nomeou capelão, camareiro do palácio e cónego. João tinha apenas 20 anos.
       Em 1456 morre o seu protetor. Sai ele de Burgos e vai para Salamanca, que se tornará a sua segunda pátria. Começa por sentar-se nos bancos das aulas como estudante, para ouvir as lições daqueles grandes mestres, embora o ensino que mais o atrai seja o do Divino Mestre, que fala aos corações. Consegue uma bolsa no colégio de S. Bartolomeu, mas logo renuncia a ela para dedicar-se plenamente à pregação. Anda todavia em experiências, sem ter encontrado o caminho real da sua vocação. Uma doença paralisa-o nas suas correrias de apóstolo e vê-se obrigado a estar de cama.
       Na solidão e retiro do leito, reflete, faz oração, vê e promete fazer-se religioso logo que se restabeleça. Deus concede-lhe a saúde e ele toma o hábito no convento de Santo Agostinho. Professa em 1436. É agora homem feliz; encontrou o seu caminho; os seus dias estão cheios de luz e as suas noites de alegrias misteriosas. Como anjo de paz, surge para sossegar as contendas conhecidas pelo nome dos «bandos de Salamanca», despertadas pela fúria vingativa de Dona Maria de Monróy, chamada a Brava. A liberdade com que pregava e exercia o apostolado causou-lhe sérios desgostos.
     Pregava em Salamanca e em todos os arredores, nas igrejas e nas praças, e muitas vezes mandava que lhe colocassem o púlpito diante das casas dos chefes das fações e dos pecadores públicos. A multidão aglomerava-se à sua volta e não se cansava nunca de ouvir os seus sermões, porque pela sua boca falava o Espírito de Deus. Não era tanto a ciência como a força divina que transparecia das suas palavras. Esta força do céu comunicava-se-lhe especialmente durante a Santa Missa.
      Ele e Deus eram os únicos que sabiam o que se passava, enquanto oferecia o Sacrifício Eucarístico. O próprio Cristo se lhe mostrava na Sagrada Hóstia como sol resplandecente, segundo comunicou aos seus Superiores. Falava com Ele e recebia as mais altas comunicações; via as suas chagas, saborosas como favos de mel e rutilantes como astros. “Digo-vos, declarava depois o Prior, que tantos e tais segredos me disse que via, que eu ia desfalecendo e pensei que ia cair no chão, morto, pelo grande terror que me invadiu”. Assim se explica que as suas Missas fossem tão longas, como também os sermões. Quanto ao mais, como dizem os seus hagiógrafos, não fazia penitências extraordinárias. Jejuava quando a Regra lho mandava e comia quando a sineta o chamava para comer.
    Apesar de austero para consigo, era doce e suave para com os outros. Tinha um coração cheio de caridade para com Deus e para com o próximo. Tinha-se feito o diretor, o mestre, o pai e a consolação de todos os desgraçados de Salamanca. De suas mãos desprendiam-se, com palavras bondosas, prodígios estupendos em favor dos pobres e dos aflitos.
     Morreu a 11 de Junho de 1479 e, ao que parece, envenenado por uma mulher má, irritada contra a pregação e zelosos conselhos do Santo. Foi canonizado em 1690 por Alexandre VIII.

Urna contendo as relíquias do Santo. 


(Fonte: Fraternidade São Gilberto)

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