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terça-feira, 31 de maio de 2016

SANTA CAMILA BATISTA VARANI (ou VARANO), Virgem da Ordem de Santa Clara e Mística (31 de maio)



Camila Varani nasceu de nobre família, em 9 de abril de 1458. Era filha ilegítima de Júlio Cesar de Varani, Senhor de Camerino. Foi criada na corte sob os cuidados de Joana Malatesta, esposa do grande senhor. Recebeu do pai um espírito vivo e apaixonado, o amor do mundo e da eloquência, e dons para a filosofia e teologia.
Muitos fatos de sua vida ela mesma os descreveu em uma longa carta autobiográfica endereçada a Domenico da Leonessa, que a havia iniciado no caminho da vida interior ao pregar a Paixão de Jesus em Camerino, na Sexta-feira Santa de 1466 ou 1468. A graça então trabalhou na sua alma e ela contou o efeito produzido no seu íntimo por aquele sermão ouvido aos oito anos. Fez nessa altura a promessa de cada sexta-feira derramar uma lágrima de amor à Paixão.
Na adolescência sentiu-se inclinada para um cavaleiro que lhe recitava versos de amor. Mas um terrificante sermão da Quaresma foi a ocasião de ela voltar a Deus para sempre: tinha 20 anos, e passaram-se ainda mais dois antes de a Providência lhe indicar que deixasse o mundo. Uma visão de Nosso Senhor e uma grave doença foram os sinais deste chamamento; soube vencer a ambição que o pai colocava nela e soube, sobretudo, triunfar do afeto que a si era dedicado.
Em 14 de novembro de 1481 pode entrar no mosteiro das Irmãs Pobres de Santa Clara de Urbino, assumindo o nome de Irmã Batista. Em 1483 emitiu a profissão em Urbino; mas, no ano seguinte, fundando seu pai um mosteiro em Camerino, a Irmã Batista, acompanhada de oito religiosas, foi designada para fazer parte da nova comunidade.
Pouco tempo depois, recebeu visões múltiplas de anjos, de Nossa Senhora e da Cruz. Mas foi, sobretudo, às dores espirituais de Nosso Senhor que a Irmã Batista esteve intimamente associada, dignando-se Cristo revelar-lhe tudo o que O tinha atormentado na sua agonia. Foi em 1490 que lhe deu ordem o confessor para escrever a história da sua vida interior, talvez para infundir luz no meio duma longa prova, enquanto por quatro anos o desespero a assaltava cada dia.
Cultivou um grande amor a mais alta pobreza pessoal e comunitária. Sempre aberta às necessidades dos outros, foi enviada por Júlio II a Fermo para fundar ali um mosteiro de Clarissas. Por ter permanecido dez meses na cidade de Sanseverino (1521-1522), acredita-se que ela ali esteve para plasmar a nova comunidade de Clarissas.
Era um tempo em que a Santa Igreja passava por um relaxamento de costumes que daria pretexto a Martinho Lutero para se separar dela em 1517. Irmã Batista, segundo testemunho de uma Irmã, “ardia de tal forma de desejo de renovamento da Igreja, que não podia dormir nem comer e às vezes por causa disto adoecia gravemente”.
Os tumultos, endêmicos na Itália dessa época, não pouparam Camerino. Cesar Borja lançou seu exército contra Camerino e o pai de Irmã Batista colocou sob a tutela da filha Clarissa o filho mais novo, João Maria, com a mãe e o tesouro de estado para salvar a dinastia. A Santa, com uma Irmã de hábito, procurou refúgio em Atri, onde foi recebida por Isabel Piccolomini, esposa do Duque Mateus Acquaviva.
Entretanto, o pai e três irmãos da Santa foram assassinados em 1503. A Clarissa podia acaso esquecer que era princesa e não sentir até ao íntimo o pesar que a afligia? César Borja, o responsável pelo desastre, perdeu, com Alexandre VI, aquele que o sustentava. Os Colonnas ajudaram João Maria a reconquistar a sua cidade. Mas já então a abadessa (desde 1499 Batista ocupava este cargo) tinha perdoado aos inimigos.
Por volta de 1521, atendendo ao pedido de um religioso, escreveu a obra A pureza do coração, sublime itinerário de perfeição em que comunica sua extraordinária experiência de vida.
Ela contribuiu para o desenvolvimento e mesmo para a instituição dos Capuchinhos: o Beato Mateus de Bascio, antes de ser frade menor da Observância, tinha sido protegido pelos Varani. E ela interveio bastante eficazmente para obter de Clemente VII a bula de 1524 que autorizava o novo ramo da Ordem franciscana.

Corpo incorrupto da Santa. 


Em 1527 uma terrível peste assolou a Itália; vítima dela morreu a abadessa aos 69 anos. Os milagres levaram ao culto público. Em 1843 Gregório XVI reconheceu esse culto ininterrupto dedicado a ela; em 1891, Leão XIII aprovou os atos do processo em vista da canonização e em 1893 aprovou os seus escritos. Bento XVI a canonizou em 17 de outubro de 2010.

Fontes:

Cf. Pe Jose Leite, S.J. Santos de cada dia; www.santiebeati.it; e blog: Heroínas da Cristandade. 

Beata Agostinha Peña Rodríguez, religiosa e mártir (assassinada por ódio à Fé Católica na Guerra Civil Espanhola).

     Maria Anunciação Peña Rodríguez nasceu em Ruanales, na região espanhola da Cantábria, a 23 de março de 1900. Seus pais, Melitón e Agostinha, levaram-na à pia batismal da paróquia do Triunfo da Santa Cruz (Exaltação da Santa Cruz) dois dias depois.
     Em breve, a dor se apresentou em sua vida com a perda de sua mãe em tenra idade e no empenho no trabalho. Com o passar do tempo, se formou nela um espírito austero, trabalhador e sensível às necessidades das pessoas ao seu redor.
     Em 14 de dezembro de 1924 ingressou como postulante no Instituto das Irmãs Servas de Maria Ministras dos Enfermos, fundado pela Madre Maria Soledad de Acosta (Santa desde 1970), na casa de Tudela, mas mudou-se para o noviciado na Casa-Mãe, localizado em Madrid. Lá ela tomou o hábito de irmã coadjutora (denominação semelhante ao de conversa, ou seja, irmã proveniente de uma família pobre) em 4 de julho de 1925, assumindo, em memória de sua mãe, o nome de Irmã Agostinha. Durante o noviciado foi descrita como uma "pessoa de virtudes incomuns, sentimentos muito nobres, e apesar da pouca instrução, muito inteligente".
     Em Madrid, no dia 5 de julho de 1927, ela emitiu os primeiros votos e quatro dias mais tarde tornou-se parte da comunidade de Pozuelo de Alarcón, onde se tornou um grande apoio para as irmãs idosas e doentes hospitalizadas ali. Dedicava-se principalmente ao cultivo de hortaliças e acorria assim que as irmãs precisavam de algo. Assim que tinha um momento livre, era encontrada na capela, recolhida diante de Jesus na Eucaristia.
     A sua caridade se tornou patente quando lhe foi confiada a Irmã Aurélia Arambarri Fuente, que sofria de paralisia. A noite ela se levantava, sem fazer a menor queixa, toda vez que ela a chamava.
     Com a eclosão da guerra civil espanhola, em julho de 1936, as religiosas tiveram que deixar o hábito e foram forçadas a não se comunicarem umas com as outras, nem mesmo para rezar. Aquelas que puderam se refugiaram na casa de pessoas amigas. As que abrigaram a Irmã Aurélia e a Irmã Agostinha hospedavam outras duas religiosas: Irmã Aurora López González, a mais velha de todo o Instituto e a Irmã Daria Andiarena Sagaseta de cinquenta e sete anos.
     A família declarou que quando os militantes vieram capturá-las e as insultaram suspeitando que fossem freiras à paisana, a Irmã Daria disse: "Na verdade, somos religiosas. Vocês podem dispor de nós como quiserem, mas peço-lhes para não fazer nada a esta família, porque ao ver-nos desabrigadas, e tendo sido autorizada pelo Comitê [organização civil que substituiu a Câmara Municipal] de Pozuelo, fomos recebidas em sua casa por caridade".

As companheiras de martírio da Beata Agostinha. 

     Irmã Agostinha foi forçada a se separar das irmãs e se juntou a outra família que fugia para Las Rozas, e ali, sozinha, foi acusada de ser religiosa e de ter sido vista rezando. Em 5 de dezembro de 1936 sofreu o martírio, aos trinta e seis anos. As outras três, no entanto, provavelmente morreram no dia seguinte e são comemoradas no dia 6 de dezembro.
     Em 3 de junho de 2013 Francisco I assinou o decreto reconhecendo o assassinato da Irmã Daria e de suas três companheiras por ódio à fé; a cerimônia de beatificação foi realizada no dia 13 de outubro de 2013 , em Tarragona.


Fonte: santiebeati/it - Emilia Flocchini

sexta-feira, 27 de maio de 2016

SÃO BERNARDINO DE SENA, Presbítero Franciscano, grande pregador e taumaturgo.



Iniciador do culto ao Nome de Jesus, grande devoto da Santíssima Virgem, famoso pregador popular, São Bernardino de Sena, cuja festa comemoramos no dia 20 de maio, alcançou tal santidade em vida, e sua intercessão tantos milagres após a morte, que lhe mereceram a honra dos altares apenas seis anos após seu passamento.

Bernadino era filho de nobre família, das mais ilustres da República de Sena (1).

Órfão de mãe aos três anos e de pai aos seis, foi criado por sua tia materna, Diana, mulher virtuosa que plantou em sua alma as sementes do verdadeiro amor a Deus, à Sua Mãe Santíssima e aos pobres. Aos 11 anos foi enviado a Sena para receber formação condizente com seu ilustre nome junto aos tios paternos. Para isso recebeu educação dos melhores preceptores da cidade.


Castidade combativa
Sumamente amante da virtude da pureza, Bernardino, habitualmente respeitoso e ameno de trato, incendiava-se de indignação ao ouvir qualquer palavra imoral. A um homem que ousou dizer uma em sua presença, deu-lhe um soberbo soco no queixo, que repercutiu em toda a sala onde se encontravam. O libertino não teve coragem de defender-se contra um frágil adolescente, preferiu a fuga, cheio de confusão. Em outra ocasião, recrutou meninos para expulsar, a pedradas, outro libertino que se jactava de suas obscenidades.
Mais tarde, quando já franciscano, certa vez em que coletava esmolas para seu convento, uma dama convidou-o a entrar em seu palácio, prometendo-lhe grande esmola. Entretanto, a despudorada mulher, logo que se viu a sós com Bernardino, quis com ele pecar e ameaçou-o, caso ele não consentisse, de gritar pela janela acusando-o de a ter querido violar. Sem hesitar, Bernardino “tirou do bolso um azorrague e bateu tão desapiedadamente na própria pele, que a tentadora deixou a ideia infame e pediu-lhe humildemente perdão” (2).

Era, sobretudo, seu porte modesto, mas firme, que impunha respeito. De maneira que, quando os amigos estavam em conversa imoral e viam que Bernardino se aproximava, mudavam logo o teor de sua conversação.

Após terminar o estudo de Filosofia, aplicou-se ao do Direito civil e canônico, e estudo das Sagradas Escrituras.


Arrisca a vida para tratar de pesteados
Aos 17 anos entrou para a Confraria dos Discípulos de Nossa Senhora, agregada ao hospital La Scala, de Sena, que tinha por fim servir os doentes.

No ano de 1400 a peste, que já haveria desolado parte da Itália, chegou com toda sua virulência a Sena, ceifando diariamente quase uma vintena de vítimas. Em breve não havia praticamente mais enfermeiros para o cuidado dos doentes. Bernardino reuniu então 12 de seus amigos dispostos a essa heroica obra de misericórdia, tanto mais admirável quanto maior o perigo de contágio. Dedicaram-se aos vitimados dia e noite durante os quatro meses que durou a epidemia.]

Findo esse tempo, exausto pelo trabalho e vigílias que despendera em prol dos empestados, Bernardino caiu de cama com violenta febre que durou outros quatro meses.

Mal se recuperara, entregou-se a outra obra de misericórdia: o cuidado de uma velha e piedosa tia, que ficara cega, paralítica, e coberta de chagas. Dela cuidou por dois anos, até que ela entregou sua alma a Deus.

Pregado à cruz, seguiu fielmente a ordem do Redentor
Desejando então levar uma vida mais recolhida, enquanto esperava conhecer os planos de Deus a seu respeito, retirou-se a uma casa dos arredores da cidade onde se enclausurou, dedicando-se à oração e mortificação, jejum e recolhimento. Certo dia em que rezava diante de um Crucifixo, disse-lhe Nosso Senhor: “Bernadino, tu me vês despojado de tudo e pregado a uma cruz por teu amor; é necessário, se tu me amas, que te despojes também de tudo e leves uma vida crucificada” (3). Para isso, o jovem sentiu-se inspirado a entrar para os Franciscanos observantes, no convento solitário de Colombière, a algumas milhas de Sena. E assim fez no dia da Natividade de Nossa Senhora, que era também o dia de seu vigésimo segundo aniversário. Professou no ano seguinte, na mesma solenidade, e um ano depois, também nela, celebrava sua primeira Missa.

Foi na escola de Jesus crucificado que ele aprendeu a praticar, em grau heroico, as virtudes cristãs. Para isso, dia e noite prosternava-se diante de um Crucifixo. Outra vez, durante essa meditação, Nosso Senhor lhe disse: “Meu filho, tu Me vês pregado à Cruz; se tu Me amas e queres Me imitar, prega-te também à tua cruz e segue-Me; assim estarás seguro de Me encontrar”.


Milagrosamente, torna-se grande pregador
 Oratório São Bernardino de Sena, Perúgia (Itália) Seus superiores, vendo tanta virtude nessa candeia, quiseram que ela não permanecesse mais oculta, mas que brilhasse à luz do mundo. Por isso designaram-no para a pregação.

Bernardino obedeceu. Mas como sua voz era fraca e rouca, não podia atingir o número de fiéis que se reuniam para ouvi-lo. “Contudo não desanimou com isso, mas recorreu à Santíssima Virgem, que imediatamente deu robustez e claridade à sua voz, e o adornou com todas as qualidades de um bom pregador” (4).

Após suas pregações, “os homens vinham depositar entre suas mãos os dados, as cartas e os outros instrumentos de jogos proibidos, as mulheres traziam a seus pés seus ornamentos, cabeleira, tecidos, perfumes e outros produtos que a vaidade desse sexo inventou para perder as almas querendo embelezar demasiado seus corpos. A palavra de Deus em sua boca era como uma espada cortante e como um fogo que consome o que há de mais duro e mais resistente. Assim, chamavam-no a Trombeta do Céu, o Predicador do Evangelho” (5).

Os frutos de suas pregações eram ainda maiores porque acompanhadas de milagres. Restituiu saúde a doentes, curou leprosos. E certa vez que um barqueiro se recusava transportá-lo à outra margem de um largo rio, porque não tinha com que pagar, estendeu na água seu manto, sobre o qual ele e o companheiro cruzaram o rio como no mais seguro barco. Chegados à outra margem, o manto não estava sequer molhado!

Iniciador do culto ao Santíssimo Nome de Jesus
“Pode-se dizer que São Bernardino de Sena foi o iniciador do culto ao dulcíssimo Nome de Jesus. No final de seus sermões mostrava ao povo uma bandeirola na qual havia gravado em letras de ouro o monograma JHS, e convidava a todos os fiéis a prosternarem-se diante dela para venerar o nome do Redentor do mundo (4).

Isso pareceu temerária inovação a alguns espíritos do mundo, e uma campanha de difamação foi organizada contra ele, com tanta eficácia, que o Papa Martinho V proibiu-o de pregar. Diante da atitude totalmente submissa de Bernardino, o Sumo Pontífice informou-se melhor e quis que ele se defendesse. “Leu com o maior gosto sua apologia, e satisfeito com suas razões e seu proceder, abraçou-o ternamente, exortando-o a derramar por toda parte o fruto de seu zelo” (7).

O Imperador alemão Sigismundo tinha por ele tanta veneração, que desejou que ele o seguisse a Roma para assistir às cerimônias de sua coroação, em 1433.

Vigário Geral da Ordem
Venerado também por seus irmãos de hábito, estes o elegeram, em 1438, Vigário Geral de todos os conventos da observância. Nesse cargo, São Bernardino restabeleceu a observância em muitos conventos e mandou construir outros, à maioria dos quais deu o nome de Santa Maria de Jesus, pela singular devoção que tinha a esse nome.

No intervalo entre suas atividades apostólicas, ele escrevia. Entre suas obras estão os tratados da Religião Cristã, do Evangelho Eterno, da Vida de Jesus Cristo, do Combate Espiritual, além de Meditações e Sermões.

Por causa de sua saúde alquebrada, descarregou parte do peso de seu cargo sobre São João de Capistrano, seu discípulo e sucessor.

Morte franciscana: na terra nua
 Cerimônia fúnebre de São Bernardino de Sena - Afresco da igreja Santa Maria de Aracoeli, Roma Em 1444 dirigia-se ele a Nápoles para pregar umas missões. Chegando a Áquila, sentiu que seus dias estavam contados e que deveria preparar-se para comparecer diante do Tribunal do Supremo Juiz. Para seguir o exemplo de São Francisco, pediu a seus confrades que o colocassem sobre a terra nua para aí expirar, o que sucedeu no dia da Ascensão à hora das Vésperas, quando cantavam no coro a antífona: “Meu Pai, eu fiz conhecer vosso Nome aos homens que vós me destes; agora eu Vos peço por eles, e não pelo mundo, porque eu vou para Vós”. Tinha 64 anos.

Muitos anos antes, estando o grande São Vicente Ferrer pregando em Alexandria, na Lombardia, disse publicamente “que havia um personagem no seu auditório que seria a luz da Ordem de São Francisco, de toda a Itália, e da Igreja; e que ele seria declarado santo com ele” (8).

Esse santo foi exatamente São Bernardino de Sena.
_____________
Notas
1. Sempre que cabível, convém ressaltar o ilustre nascimento daqueles Santos que fazem jus a essa condição privilegiada. Assim fazendo, colocamos em prática o princípio de Santo Inácio Loyola do agere contra, ou a saber, sempre que o erro, o feio ou o mal nos impelem agir numa direção, devemos agir na direção contrária. Portanto, numa época tão igualitária e conturbada pela luta de classes como a nossa, compraz-nos ressaltar pessoas de  nome insigne e de fortuna que, tendo sabido utilizar-se de sua posição ou de seus bens com desapego, ou mesmo renunciar a eles por amor de Deus, atingiram a mais alta santidade. É o caso de São Bernardino de Sena.
2. Santos de Cada Dia, Organizado pelo Pe. José Leite, S.J., Editorial A.O., Braga, 1987, vol. II, p. 111.
3. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’aprés le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo VI, p. 57.
4. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, vol. III, p. 207.
5. Les Petits Bollandistes,  op. cit., pp. 57-58.
6. Edelvives, op. cit., p. 208.
7. P. João Croisset, S.J., Año Cristiano, Madrid, Saturnino Calleja, 1901, tomo II, pp. 598-599.

8. Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 61.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Beata Ângela de Foligno - Catequese do papa emérito Bento XVI.





Beata Ângela de Foligno
(catequese do Papa Bento XVI, em 13 de outubro de 2010)

“Estimados irmãos e irmãs:
Hoje gostaria de vos falar sobre a Beata Ângela de Foligno, uma grande mística medieval que viveu no século XIII. Geralmente, ficamos fascinados diante dos ápices da experiência de união com Deus que ela conseguiu alcançar, mas talvez sejam considerados demasiado pouco os primeiros passos, a sua conversão e o longo caminho que a levou desde o ponto de partida, o «grande medo do inferno», até à meta, que é a união total com a Trindade.

A primeira parte da vida de Ângela não é certamente a de uma fervorosa discípula do Senhor. Tendo nascido por volta de 1248 numa família abastada, ela permaneceu órfã de pai e foi educada pela mãe de modo bastante superficial. Muito cedo, foi introduzida nos ambientes mundanos da cidade de Foligno, onde conheceu um homem com o qual casou aos vinte anos e do qual teve alguns filhos. Levava uma vida despreocupada, a ponto de se permitir desprezar os chamados «penitentes» — muito difundidos naquela época — ou seja, aqueles que para seguir Cristo vendiam os próprios bens e viviam na oração, no jejum, no serviço à Igreja e na caridade.

Alguns acontecimentos, como o violento tremor de terra de 1279, um furacão, a prolongada guerra contra Perúsia e as suas duras consequências incidem na vida de Ângela, que progressivamente adquire consciência dos próprios pecados, até chegar a um passo decisivo: invoca São Francisco, que lhe aparece em visão, para lhe pedir conselho em vista de uma boa Confissão geral que devia realizar: estamos no ano de 1285; Ângela confessa-se a um frade em São Feliciano. Três anos mais tarde, o caminho da conversão conhece mais uma mudança: a dissolução dos vínculos afetivos porque, em poucos meses, à morte da mãe seguem-se a do marido e de todos os seus filhos. Então, vende os seus bens e, em 1291, adere à Terceira Ordem de São Francisco. Falece em Foligno no dia 4 de Janeiro de 1309.

O livro da Beata Ângela de Foligno, em que está contida a documentação a propósito da nossa Beata, narra esta conversão; indica os meios necessários para isto: a penitência, a humildade e as tribulações; e descreve as suas passagens, a sucessão das experiências de Ângela, que começaram em 1285. Recordando-as, depois de tê-las vivido, ela procurou narrá-las através do Frade confessor, que as transcreveu procurando sucessivamente dispô-las em etapas, às quais chamou «passos ou mudanças», mas sem conhecer ordená-las plenamente (cf. Il Libro della beata Angela da Foligno, Cinisello Balsamo 1990, pág. 51). Isto porque a experiência de união para a Beata Ângela é um envolvimento total dos sentidos espirituais e corporais, e daquilo que ela «compreende» durante as suas êxtases só permanece, por assim dizer, uma «sombra» na sua mente. «Ouvi verdadeiramente estas palavras — confessa ela depois de um arrebatamento místico — mas aquilo que eu vi e compreendi, e que Ele [ou seja, Deus] me mostrou, não sei nem posso dizê-lo de qualquer modo; não obstante, revelaria de bom grado aquilo que entendi com as palavras que ouvi, mas foi um abismo absolutamente inefável».
Ângela de Foligno apresenta a sua «vivência» mística, sem a elaborar com a mente, uma vez que são iluminações divinas que se comunicam à sua alma de maneira repentina e inesperada. O próprio Frade confessor tem dificuldade em descrever tais acontecimentos, «também por causa da sua grande e admirável discrição em relação aos dons divinos» (Ibid., pág. 194). À dificuldade que Ângela tem de descrever a sua experiência mística, acrescenta-se inclusive a dificuldade para os seus ouvintes de a compreender. Uma situação que indica claramente como o único e verdadeiro Mestre, Jesus, vive no coração de cada crente e deseja tomar posse total do mesmo. Assim ocorreu em Ângela, que escrevia a um dos seus filhos espirituais: «Meu filho, se tu visses o meu coração, serias absolutamente obrigado a fazer tudo quanto Deus deseja, porque o meu coração é o de Deus, e o coração de Deus é o meu». Ressoam aqui as palavras de São Paulo: «Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20).

Então, consideremos aqui unicamente alguns «passos» do rico caminho espiritual da nossa Beata. O primeiro, na realidade, é uma premissa: «Foi o conhecimento do pecado — como ela mesma esclarece — a seguir ao qual a alma teve um grande medo de ser condenada; neste passo, chorou amargamente» (Il Libro della beata Angela da Foligno, pág. 39). Este «medo» do inferno corresponde ao tipo de fé que Ângela tinha no momento da sua «conversão»; uma fé ainda pobre de caridade, ou seja, do amor de Deus. Arrependimento, medo do inferno e penitência abrem a Ângela a perspectiva do doloroso «caminho da cruz» que, do oitavo ao décimo quinto passo, a levará depois pelo «caminho do amor». O Frade confessor narra: «Então, a fiel disse-me: tive esta revelação divina: “Depois daquilo que foi escrito, manda escrever que quem quiser conservar a graça, não deve afastar os olhos da alma da Cruz, tanto na alegria como na tristeza que lhe concedo ou permito”» (Ibid., pág. 143). Mas nesta fase, Ângela ainda «não sente o amor»; ela afirma: «A alma sente vergonha e amargura, e ainda não experimenta o amor, mas sim a dor» (Ibid., pág. 39), e sente-se insatisfeita.

Ângela sente que deve dar algo a Deus para reparar os seus pecados, mas lentamente compreende que nada tem para lhe oferecer, aliás, que «não é nada» diante dele; entende que não será a sua vontade que lhe dará o amor de Deus, porque ela só pode dar-lhe o seu «nada», o «desamor». Como ela mesma dirá: apenas «o amor verdadeiro e puro, que vem de Deus, está na alma e faz com que ela reconheça os próprios defeitos e a bondade divina [...] Tal amor leva a alma a Cristo e ela compreende com segurança que não se pode verificar nem haver qualquer engano. A tal amor não se pode misturar algo deste mundo» (Ibid., págs. 124-125).
Abrir-se única e totalmente ao amor de Deus, que tem a máxima expressão em Cristo: «Ó meu Deus — reza ela — tornai-me digna de conhecer o mistério excelso, que o vosso amor ardentíssimo e inefável realizou, juntamente com o amor pela Trindade, ou seja, o mistério altíssimo da vossa santíssima encarnação por nós [...] Ó amor incompreensível! Acima deste amor, que fez com que o meu Deus se tenha feito homem para me fazer Deus, não existe amor maior» (Ibid., pág. 295). Todavia, o coração de Ângela traz sempre as feridas do pecado; mesmo depois de uma Confissão bem feita, ela sentia-se perdoada mas ainda angustiada pelo pecado, livre mas condicionada pelo passado, absolvida mas carente de penitência. E inclusive o pensamento do inferno a acompanha, pois quanto mais a alma progredir pelo caminho da perfeição cristã, tanto mais ela se há de convencer não só que é «indigna», mas que é merecedora do inferno.

E eis que, ao longo do seu caminho místico, Ângela compreende de modo profundo a realidade central: aquilo que a salvará da sua «indignidade» e do «merecimento do inferno» não será a sua «união com Deus», nem a sua posse da «verdade», mas sim Jesus crucificado, «a sua crucifixão por mim», o seu amor. No oitavo passo ela diz: «Contudo, eu ainda não entendia se era um bem maior a minha libertação dos pecados e do inferno, e a conversão à penitência, ou então a sua crucifixão por mim» (Ibid., pág. 41). Trata-se do equilíbrio instável entre amor e dor, que ela sentia em todo o seu difícil caminho rumo à perfeição. Precisamente por isso, contempla de preferência Cristo crucificado, porque em tal visão ela vê realizado o equilíbrio perfeito: na cruz está o homem-Deus, num supremo gesto de sofrimento que é um ato supremo de amor. Na terceira Instrução, a Beata insiste sobre esta contemplação, afirmando: «Quanto mais perfeita e puramente virmos, tanto mais perfeita a puramente amaremos [...] Por isso, quanto mais virmos Deus e o homem Jesus Cristo, tanto mais seremos transformados nele através do amor [...] Aquilo que eu disse do amor [...] digo-o também da dor: quanto mais a alma contempla a dor inefável de Deus e do homem Jesus Cristo, tanto mais sofre e é transformada em dor» (Ibid., págs. 190-191). Identificar-se, transformar-se no amor e nos sofrimentos de Cristo crucificado, identificar-se com Ele. A conversão de Ângela, que teve início com aquela Confissão de 1285, só alcançará o amadurecimento quando o perdão de Deus aparecer na sua alma como a dádiva gratuita de amor do Pai, nascente de amor: «Ninguém pode desculpar-se — afirma ela — porque todos podem amar a Deus, e Ele só pede à alma que o ame, uma vez que Ele a ama e é o seu amor» (Ibid., pág. 76).

No itinerário espiritual de Ângela, a passagem da conversão para a experiência mística, daquilo que se pode expressar para o que é inefável, tem lugar através do Crucificado. É o «Deus-homem apaixonado» que se torna o seu «mestre de perfeição». Toda a sua experiência mística consiste, portanto, em tender para uma «semelhança» perfeita com Ele, mediante purificações e transformações cada vez mais profundas e radicais. A este maravilhoso empreendimento, Ângela dedica-se inteiramente, de alma e corpo, sem se poupar a penitências e tribulações, desde o início até ao fim, desejando morrer com todos os sofrimentos padecidos pelo Deus-homem crucificado, para ser transformada totalmente nele: «Ó filhos de Deus — ela recomendava — transformai-vos totalmente no Deus-homem apaixonado, que vos amou a ponto de se dignar morrer por vós com uma morte extremamente ignominiosa, total e inefavelmente dolorosa, de modo penosíssimo e amarguíssimo. E isto somente por amor a ti, ó homem!» (Ibid., pág. 247). Esta identificação significa também viver aquilo que Jesus viveu: pobreza, desprezo e dor, porque — como ela afirma — «através da pobreza temporal, a alma encontrará riquezas eternas; mediante o desprezo e a vergonha, ela alcançará a suma honra e uma glória excelsa; através de um pouco de penitência, feita com esforço e dor, possuirá com infinita docilidade e consolação o sumo Bem, Deus eterno» (Ibid., pág. 293).

Da conversão à união mística com Cristo crucificado, ao inefável. Um caminho elevadíssimo, cujo segredo é a oração constante: «Quanto mais rezares — afirma ela — tanto mais serás iluminado; quanto mais fores iluminado, tanto mais profunda e intensamente verás o sumo Bem, o Ser sumamente bom; quanto mais profunda e intensamente O vires, tanto mais O amarás; quanto mais O amares, tanto mais serás feliz; e quanto mais fores feliz, tanto mais compreenderás e serás capaz de compreendê-lo. Em seguida, chegarás à plenitude da luz, porque entenderás que não podes compreender» (Ibid., pág. 184).



Corpo incorrupto da Beata Ângela de Foligno.


Estimados irmãos e irmãs, a vida da Beata Ângela começa com uma existência mundana, bastante distante de Deus. Mas depois, o encontro com a figura de São Francisco e, finalmente, o encontro com Cristo crucificado, desperta a alma para a presença de Deus, para o facto de que somente com Deus a existência se torna verdadeiramente vida porque se torna, na dor pelo pecado, amor e alegria. E assim nos fala a Beata Ângela. Hoje todos nós corremos o perigo de viver como se Deus não existisse: Ele parece tão distante da vida contemporânea. Mas Deus tem mil modos, para cada um o seu, de se fazer presente na alma, de mostrar que existe, que me conhece e me ama. E a Beata Ângela quer chamar a nossa atenção para estes sinais, com os quais o Senhor sensibiliza a nossa alma, atentos à presença de Deus, para aprendermos assim o caminho com Deus e rumo a Deus, na comunhão com Cristo crucificado. Oremos ao Senhor para que nos torne atentos aos sinais da sua presença, que nos ensine a viver realmente. Obrigado!”
(Bento XVI)


terça-feira, 17 de maio de 2016

Servo de Deus Mateus (Matteo) Ricci, Presbítero Jesuíta e Missionário na China. Grande Apóstolo do cristianismo na China.


O Padre Mateus Ricci foi um dos homens mais inteligentes
e cultos da História da Igreja. Conquistou as autoridades
políticas, culturais e científicas chinesas por sua brilhante
inteligência e conhecimento vastíssimo em várias matérias
científicas da época. 
Padre Mateus Ricci, S.J. (Macerata, 6 de Outubro de 1552 — Pequim, 11 de Maio de 1610) foi um sacerdote jesuíta, missionário, cientista, geógrafo e cartógrafo renascentista italiano. É conhecido pela sua atividade missionária na China da dinastia Ming, onde era conhecido por Lì Mǎdòu (利瑪竇). Ele é considerado o fundador das modernas missões católicas na China, contribuindo assim de modo fulcral para a introdução do catolicismo na China.


O Beato Mateus Ricci é tido um modelo de proveitoso encontro entre as civilizações europeia e chinesa e ainda como um singular modelo de evangelização e de diálogo com as várias realidades culturais e religiosas. Mais especificamente, Ricci é considerado o símbolo do primeiro contato da China com as ciências e a tecnologia europeias, do encontro pioneiro do Evangelho com os intelectuais da etnia Han, assim como um dos primeiros intercâmbios entre a cultura chinesa e a ocidental.

Era classificado pelos chineses como “um dos mais notáveis e brilhantes homens da História” e como o “Mestre do grande Ocidente”, isso porque Ricci fascinou os chineses pelo seu grande interesse, admiração e respeito pela cultura chinesa e também pelo seu vasto saber ocidental em diversas áreas do conhecimento, como a teologia, a apologética, a catequese popular, a matemática, a astronomia, geografia, cartografia, a literatura, a poesia, a arte e a música.

Em 2010, quando das celebrações do quarto centenário da morte de Ricci, o Papa Bento XVI afirmou que o “Padre Ricci constitui um caso singular de feliz síntese entre o anúncio do Evangelho e o diálogo com a cultura do povo ao qual Ele é levado, um exemplo de equilíbrio entre clareza doutrinal e obra pastoral prudente”.

Formação e Estudos
Recebeu a sua primeira formação na sua cidade natal de Macerata (Itália). Em 1568, partiu para Roma para estudar Direito na Universidade La Sapienza, dado que seu pai ambicionava para si a ascensão na administração pontifícia. Foi em Roma que começou a frequentar as reuniões da Annunciata, uma associação cristã de jovens ligada à Companhia de Jesus, que promovia a oração e os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. Este desenvolvimento espiritual leva a que a 15 de Agosto de 1571, contra a vontade do seu pai, requeira o ingresso na Companhia de Jesus. Ingressou depois no Colégio Romano, onde estudou Retórica, Filosofia e Teologia. Aí estudou também Matemática, Cosmologia, Geografia e Astronomia, sob a orientação do célebre padre Cristóvão Clávio.

Aconselhado pelo padre Alessandro Valignano, visitador da Companhia de Jesus nas missões do Oriente, em 1577 Ricci voluntariou-se para trabalhar nas missões de evangelização da Ásia. Por isso, prosseguiu para Portugal, onde aproveitou para aprender a língua portuguesa na Universidade de Coimbra. A 24 de Março de 1578, partiu de Lisboa para a colónia portuguesa de Goa, na nau São Luís, juntamente com um grupo de jesuítas. Ordenou-se sacerdote a 26 de Julho de 1580, enquanto trabalhava como professor de latim e grego em Cochim, onde terminou também os seus estudos de Teologia.

Em 1582, foi destacado por Alexandre Valignano para a missão jesuíta da China. A 7 de Agosto do mesmo ano, chegou à colónia portuguesa de Macau com o fim de estudar a língua chinesa, para poder evangelizar no país, naquela altura governado pela dinastia Ming. A entrada neste país por um ocidental era difícil, pois eram tomados como feiticeiros e intrusos de índole perigosa.

Ricci na China
Em Macau, Mateus Ricci e Miguel Ruggieri (que já estudava a língua chinesa em Macau desde 1579) começaram a compilar o primeiro dicionário português-chinês. Esta obra, terminada somente em Zhaoqing, foi concebida essencialmente para o benefício dos missionários ou outros estrangeiros, que queriam aprender chinês. O dicionário apresentava, pela primeira vez, a romanização (criado por Mateus Ricci) da língua chinesa falada nos anos finais da dinastia Ming e constituiu, assim, um marco cultural na documentação histórica do desenvolvimento dos estudos chineses.

Em Zhaoqing e em Shaoguan
No Verão de 1583, juntamente com o padre Ruggieri, adentrou finalmente no Império Chinês, mais precisamente na província de Guangdong. Dirigiram-se a Zhaoqing, à residência do vice-rei de Guangdong e Guangxi, onde o padre Ruggieri já havia estado em 1581 e 1582. No dia 14 de setembro de 1583, recebe as devidas autorizações para permanecer naquele território. 14 meses mais tarde, inauguraram em Zhaoqing a primeira casa da missão católica jesuíta na China, com a assistência do padre Francisco Cabral, reitor de um colégio jesuíta em Macau.

Em 1589, Ricci introduziu o calendário gregoriano na China, adaptando-o ao calendário lunar chinês, para que os chineses pudessem saber a data exata das festividades católicas. Mas Ricci recusou publicar esta adaptação chinesa do calendário gregoriano, porque era necessário a autorização prévia do Imperador para efetuar qualquer alteração ou publicação de calendários. Em 1594, Ricci traduziu para latim os Quatro Livros do Cânone confuciano, dando assim aos europeus a possibilidade de conhecerem o confucionismo.


Em Nanchang e em Nanquim
Depois de assegurar a eficácia do seu apostolado, em 1594 Ricci abandonou a florescente missão de Shaoguan e decidiu ir a Pequim. Dada a dificuldade da viagem, não conseguiu chegar a esta localidade, tendo atingido somente Nanquim e Nanchang. Nesta última cidade, Ricci, já com uma reputação de letrado e erudito vindo do Ocidente, foi por isso recebido cordialmente pelas autoridades governamentais, por letrados e até por dois príncipes imperiais. Em Nanchang, ele adotou totalmente o vestuário e a terminologia confucianas e passou a estudar com maior profundidade o confucionismo: ele viu na descrição, baseada na razão e na intuição, de Confúcio e de alguns filósofos confucianos sobre o Céu a imagem do único e verdadeiro Deus adorado pelos cristãos. Segundo Ricci, isto constituiu uma ligação formidável entre o cristianismo e o confucionismo, e também uma prova de que, já desde os tempos remotos, os chineses adoravam, sem saber, o Deus cristão, sob o nome de Tiān ou Shàngdì ou ainda de Tīanzhǔ. Ao mesmo tempo, Ricci distanciava-se do budismo, a ponto de contestar o conceito budista da reencarnação e de acusar o budismo de ser idólatra.

É também em Nanchang que, em 1595, Ricci escreveu o seu célebre Tratado sobre a Amizade, para que os leitores chineses não cristãos pudessem conhecer melhor os “santos antigos e sábios” do Ocidente, através de passagens e aforismos traduzidos ou parafraseados dos clássicos europeus. O livro, cujo formato era semelhante aos livros de tradição confuciana, era muito curto e continha apenas 100 máximas sobre a amizade. O livro foi tão bem aceito pelos letrados chineses que seria reeditado várias vezes e incluído em coleções, com muitas introduções e comentários escritos por famosos eruditos chineses.

Ricci, que tinha uma capacidade incrível de memorizar, soube que o povo chinês dava grande ênfase e importância à memória. Por isso, em 1596, ele escreveu um tratado sobre a memória, o "Método de aprender de cor" (em chinês: 西国记法), que descrevia um antigo método ocidental de memorizar denominado de Palácio da memória. Este método ensinava os seus praticantes a categorizar rapidamente grandes quantidades de informações, muitas vezes não correlacionadas, em vários quartos do palácio.

Ricci acreditava que os missionários católicos só iriam conseguir pregar com sucesso o Evangelho na China se os letrados chineses abrissem as suas mentes à cultura ocidental. Por isso, Ricci achou necessário uma preparação prévia (uma espécie de pré-evangelização) das mentes chinesas, para que se acostumassem aos conceitos religiosos e filosóficos ocidentais. Para isso, e também para responder à crescente curiosidade dos intelectuais chineses sobre o Deus cristão, Ricci escreveu o célebre catecismo Verdadeira Noção de Deus (ou Tianzhu shiyi; em latim: De Deo Verax Disputatio). Este catecismo, escrito entre 1593 a 1596, “é a primeira tentativa por um estudioso católico de usar um modo chinês de pensar para introduzir o cristianismo para os intelectuais chineses”. Segundo Ricci, o catecismo é um esforço dele de “expor o pensamento católico, com a ajuda do patrimônio cultural existente na China”. Esta obra é constituída por dois livros, oito volumes e 174 itens em forma de diálogo entre um letrado chinês e um intelectual europeu. O letrado chinês explicava confucionismo, budismo e taoísmo, enquanto que o intelectual europeu usava a Escolástica e citava as obras clássicas e iniciais do confucionismo para explicar as doutrinas do catolicismo, como a Encarnação (nascimento de Jesus) e a Salvação.

Em 1596 e 1597, durante a sua estada em Nanchang, Ricci foi nomeado pelo padre Alexandre Valignano de “superior de todos os jesuítas e de todas as atividades dos jesuítas na China”, cargo que ele exerceu até morrer. Em 1598, Ricci decidiu ir a Pequim com o padre Lazzaro Cattaneo e com Wang Honghui, um ministro chinês e amigo de Ricci que tencionava mostrar à corte imperial os conhecimentos matemáticos, mecânicos e astronômicos dos jesuítas, que eram vitais para a iminente reforma do calendário chinês. Depois de uma longa viagem, eles chegaram à capital imperial no dia 7 de setembro de 1598. Mas, os jesuítas não conseguiram entrar na corte imperial porque os japoneses, comandados por Toyotomi Hideyoshi, invadiram a Coreia, um vassalo tradicional da China. Devido à guerra, todos os não chineses passaram a ser suspeitos como possíveis espiões.

Por isso, no dia 5 de novembro do mesmo ano, deixaram Pequim e chegaram a Nanquim, no dia 6 de fevereiro de 1599. Durante a sua curta estada em Pequim e durante a sua viagem marítima de Pequim a Nanquim, Ricci e Cattaneo (um músico) escreveram um dicionário chinês-português, no qual os vários tons das sílabas chinesas romanizadas foram indicados com sinais diacríticos. Este trabalho foi perdido e, ao contrário do primeiro dicionário escrito por Ricci e Ruggieri, nunca mais foi encontrado.


Finalmente em Pequim
O Mapa–múndi foi impresso e publicado em Pequim, em 1602, a pedido do Imperador Wanli . Neste mapa, Mateus Ricci anotava notícias históricas. Em 1600, Ricci deixou Nanquim e partiu para Pequim, com o padre Diogo de Pantoja. Deram entrada na corte imperial chinesa a 24 de Janeiro de 1601. O Imperador Wanli, que já ouvira falar da reputação e da fama de Ricci, ficou maravilhado com os presentes que os missionários levaram. De entre estes presentes, o Imperador ficou cativado e fascinado pelo mapa-múndi, porque representava as novas nações europeias, locais desconhecidos pelos chineses (como a América), várias notícias históricas, a nova situação política mundial e também porque representava a China com dimensões menores do que os mapas chineses tradicionais.

O Imperador, apesar de nunca ter visto e conhecido pessoalmente os jesuítas, concedeu permissão para eles ficarem em Pequim, para construírem uma residência com capela. Na capital chinesa, os jesuítas conseguiram formar uma comunidade católica dinâmica e conseguiram obter a amizade e o apoio de vários mandarins e letrados ilustres. As conversões mais importantes foram as de Paulo Xu Guangqi (um mandarim que “conseguiu fazer com que o Imperador chinês confiasse aos astrônomos jesuítas a reforma do calendário chinês”), de Yang Tingyun e de Li Zhizao. Estes três chineses são considerados os “três grandes pilares do catolicismo chinês”.

Em Pequim, Mateus Ricci, com a ajuda de Xu Guangqi, traduziu para o chinês a obra Os Elementos de Euclides, que é um livro fundamental da geometria. Os termos geométricos traduzidos são utilizados pelos chineses até hoje. Os intelectuais chineses ficaram maravilhados pelo método da construção lógica e dedutiva presente n’Os Elementos, que era muito diferente do método tradicional chinês de indução, presente em todas as áreas do conhecimento chinês. Por isso, com esta tradução, Ricci introduziu o método de “pensamento lógico” e de dedução na China. Além de desta obra, Ricci e Xu Guangqi traduziram e publicaram várias outras na área de astronomia.

Além de livros científicos, Ricci escreveu ainda vários livros e tratados para atacar o budismo, a idolatria e o politeísmo chinês e também para explicar melhor a doutrina e a moral católicas. Neste conjunto de livros, salienta-se a obra Vinte e cinco sentenças que contêm a essência moral cristã. Destaca-se também a obra Dez sentenças paradoxais, escrita em 1608 sob a forma de uma coleção de máximas práticas, úteis para uma vida moral e já conhecidas pelos cristãos ocidentais, mas desconhecidos pelos chineses. Estas máximas foram retiradas e/ou baseadas em vários excertos e histórias da Bíblia e dos escritos dos filósofos cristãos. Ricci ainda publicou, em março de 1605, o livro Tianzhu jiaoyao, que é uma nova tradução das principais orações católicas, dos Dez Mandamentos, das obras de misericórdia corporais e espirituais, das Bem-Aventuranças, dos sete pecados capitais e das três virtudes teologais. O livro, que obteve a aprovação da Inquisição em Goa, contém também uma breve explicação dos sete sacramentos.

Ricci morreu com 57 anos, no dia 11 de maio de 1610. Foi muito admirado e respeitado pelos intelectuais chineses, porque ele, “enquanto confessava uma admiração sincera pela China, levava os chineses a vislumbrarem que ainda existia algo que eles não conheciam, e que ele era capaz de lhes ensinar”. Além da sua sabedoria, foi também admirado por ser “um homem singular, porque vive no celibato, não disputa por cargos, fala pouco, tem uma conduta regulada, e isto todos os dias, e cultiva a virtude ocultamente e serve a Deus de modo contínuo”. Por isso, ele foi sepultado em solo chinês, perto de Pequim, após autorização do Imperador chinês. Isto era um raro privilégio, visto que os estrangeiros que morressem na China tinham que ser sepultados em Macau.

Causa da Canonização

A causa de beatificação de Mateus Ricci (1552-1610), começada já em 1984, foi recomeçada no dia 24 de Janeiro de 2010 na catedral da diocese italiana de Macerata-Tolentino-Recanati-Cingoli-Treia.

sábado, 14 de maio de 2016

Beata Josefa Hendrina Stenmanns, Virgem e Co-Fundadora.


     Seria justo chamá-la “senhora da santa paciência” e poderíamos invocá-la, quantos de nós somos impacientes. Hendrina Stenmanns começou desde pequena a exercer a paciência. Não se tratou apenas de suportar as contrariedades que a vida reserva a todos, mas, sobretudo para conseguir realizar o sonho da sua vida. Graças a uma tia religiosa, Hendrina desde pequena sente-se também chamada a tornar-se freira, mas uma “freira franciscana”.
     Hendrina Stenmanns nasceu no dia 28 de maio de 1852, no Baixo Reno, na vila de Issum, Diocese de Münster, na Alemanha. Dos 6 aos 14 anos frequentou a escola, mas antes de terminar o último ano teve que deixá-la para ajudar a cuidar da casa e dos irmãos menores. Sua dedicação generosa ao trabalho não impedia a busca de Deus e a prática das virtudes cristãs. Visitava os doentes e como a sua amabilidade e delicadeza eram grandes, todos os doentes queriam tê-la perto.
     Aos 19 anos tornou-se membro da Terceira Ordem de São Francisco em Sonsbeck. Hendrina queria ser religiosa, mas a época não era favorável, inúmeros conventos estavam sendo fechados em função de incidentes políticos do "Kulturkampf".
     Em 1878 sua mãe faleceu e Hendrina prometeu ficar com o pai para cuidar dos irmãos e irmãs. Assumia a situação como era e com sua tarefa. Tinha então 26 anos e seu irmão mais novo tinha apenas 8 anos. Diante da impossibilidade de realizar sua vocação, entregou-se nas mãos da Divina Providência. Não se notava uma única palavra de queixa ou lamentação.
     Hendrina tinha os dois pés no chão, mas permeava em tudo o que fazia o amor de um coração firmemente ancorado em Deus. Ele era o sustento de sua vida; na Missa e na Comunhão experimentava a confirmação desta presença.
     Anos depois veio a conhecer a obra missionária de Steyl, a Congregação dos Verbitas fundada na Holanda pelo Pe. Arnoldo Janssen. Após fundar a congregação masculina de missionários, o Pe. Janssen estava pensando em fundar uma congregação feminina. Hendrina conheceu duas jovens que trabalhavam como empregadas no Seminário do Pe. Janssen na esperança de que um dia fosse fundada a congregação. Hendrina sentiu que lá era seu lugar.
     O pároco de Issum, Pe. Veels, que conhecia muito bem Hendrina, em janeiro de 1884 escreveu ao Pe. Janssen que poderia dar-lhe “as melhores recomendações em todos os sentidos. Ela sempre teve o desejo de entrar na vida religiosa, por muitos anos se confessava semanalmente e, apesar de morar a mais de 15 minutos de caminhada da igreja e ter de cuidar da casa, assiste diariamente a Santa Missa”. Não era comum uma jovem com a carga de trabalho de Hendrina levar uma vida espiritual tão intensa.
     O Pe. Janssen aceitou o pedido de Hendrina e quando sua irmã mais nova teve condições de ocupar seu lugar, partiu para Steyl.
     Na cozinha do Seminário, Hendrina reza, sofre e espera por cinco anos, longos também para ela, embora já habituada a ter paciência e a esperar.
     Para o pequeno grupo em Steyl, célula germinativa da futura Congregação, a Eucaristia era fonte de força no trabalho diário e pesado na cozinha. Poderíamos dizer que as empregadas viviam um “círculo Eucarístico”: da Missa de manhã, onde frequentemente recebiam a Santa Comunhão, para a meia hora de oração ao meio dia, para a Bênção do Santíssimo Sacramento à tarde. A antecipação destes ‘auxílios espirituais’ diários permeava e animava a sua vida quotidiana.
     O dia 8 de dezembro de 1889 é considerado o "Dia da Fundação" da Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo. Hendrina com mais cinco moças, entre elas Helena Stollenwerk, foram recebidas como postulantes.
     Em agosto de 1891, Arnoldo Janssen nomeou Helena Stollenwerk como superiora da comunidade e Hendrina como sua assistente. No dia 17 de janeiro de 1892, recebeu o hábito religioso e o nome de Irmã Josefa. No dia 12 de março de 1894, com onze companheiras, pode finalmente emitir os primeiros votos religiosos.
     “Vivíamos hora por hora, dia por dia, e deixávamos o futuro a Deus”, ela repetia incansavelmente, enquanto dizia de si mesma “O meu coração está pronto” e sussurra em cada ação o “Veni, Sancte Spíritus”.
    Para a Irmã Josefa a vida religiosa significava pertencer inteiramente a Deus. Com o aumento do número de Irmãs, o trabalho aumentava continuamente. Mesmo assim, ela não se perdia nas inúmeras tarefas e sempre tinha uma palavra bondosa; trabalho e oração eram igualmente serviço a Deus. Tornou-se necessário construir um novo convento para acolher o número crescente de irmãs.
     Quando a Irmã Maria Helena Stollenwerk é transferida para as adoradoras perpétuas (outra congregação fundada pelo Pe. Janssen), Irmã Josefa tornou-se superiora das Servas do Espírito Santo, mais que um cargo é um serviço que ela exercita com paciência e amor, mas por pouco tempo. Em 1902 foi lançada a pedra fundamental. Irmã Josefa, no entanto, sofria cada vez mais de asma e de outras enfermidades.
     De fato, ela deveria exercitar ainda a paciência quando a saúde vacilou, a doença tolheu suas forças e a levou para o leito. Em meio a intensos sofrimentos veio a falecer em 20 de maio de 1903, aos 51 anos incompletos, e foi sepultada ao lado da outra co-fundadora, Madre Maria Stollenwerk.
     Em 28 de junho de 2008, Madre Hendrina Josefa Stenmanns foi elevada a glória dos altares, onde a tinham precedido o Padre Arnoldo Janssen (canonizado em 2003) e a Madre Maria Helena Stollenwerk (beatificada em 1995).


(Fonte: blog “Heroínas da Cristandade”, com permissão) 

Beata Maria Helena Stollenwerk, Virgem e Co-Fundadora.

Helena nasceu no dia 28 de Novembro de 1852, numa aldeia do Eifel, na Alemanha. A sua infância foi marcada pela morte de seu pai e pelo cuidado com seus irmãos surdos-mudos.
As leituras sobre as missões em países não evangelizados tocaram Helena profundamente. Aos 14 anos foi nomeada promotora da Obra Missionária da Santa Infância de sua paróquia. Sentia-se profundamente atraída pelas crianças da China, a quem procurava meios para ajudar.
Aos 16 anos descobriu que através da vida religiosa poderia alcançar sua meta. Durante anos procurou por uma congregação missionária. Como a Alemanha vivia tempos de perseguição, Helena precisou esperar. Com Santo Arnaldo Janssen, Helena foi co-fundadora, em Steyl, das Missionárias Servas do Espírito Santo (1889) e das Missionárias Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua (1896). Faleceu no dia 3 de Fevereiro de 1900.


CHAMAMENTO E MISSÃO
“Sempre foi uma grande alegria para mim, poder fazer algo pela Obra da Infância missionária” dizia a Beata Maria Helena. Desde pequenina que se identificou com o ideal missionário. Foi “tocada” no seu íntimo pela Palavra de Deus e por situações de sofrimento humano a ponto de modificar toda a sua vida. Helena sente-se interpelada pelo sofrimento das crianças pagãs e abandonadas da China. É significativo, que para a Beata Maria Helena, o ideal missionário esteja em primeiro lugar e não a vida religiosa. “Naquele tempo eu tinha apenas o desejo de ir aos pobres pagãos. Não pensava em entrar numa congregação religiosa.” A necessidade de entrar numa congregação religiosa para viver o seu carisma só apareceu mais tarde, como um meio para chegar ao seu objetivo: a China. Ela viveu o amor misericordioso de Deus pelos homens, tal como se revelou na História de Israel: “Eu vi a aflição do meu povo e desci para salvá-los das mãos dos egípcios e conduzi-los para a terra prometida.” (Ex 3,7-8).
As situações de sofrimento, pobreza e ameaças à vida, nós experimentamo-las no nosso próprio chamamento. Muitas vezes, no sofrimento dos homens, o apelo de Deus atinge-nos como um golpe. Reconhecemos que, só na resposta a este chamamento, encontraremos a realização da nossa própria vida! Esta certeza é tão firme na vida de Helena que se mantém ainda hoje e se vai perpetuando nas Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo.
Quando foi a Steyl (casa mãe das três congregações fundadas por Santo Arnaldo na Holanda) pela primeira vez, disse: “Eu estava tão feliz como nunca estivera antes. Senti que aqui era o meu lugar e que a missão da Sociedade do Verbo Divino coincidia com o que Deus me pedia”. É significativo que a vocação missionária de Helena tenha sido alimentada pela Obra da Santa Infância. O desejo de ser enviada às missões estrangeiras vive nela mesmo antes da fundação da nossa Congregação de Missionárias Servas do Espírito Santo.
  A vida da Bem-aventurada Maria Helena parece a de uma semente que morre escondida na escuridão da terra e acorda para uma vida nova. Para ela é a palavra de Javé a Abraão: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome e tu serás uma fonte de bênçãos.” (Gen 12,1-2).
Também Helena escuta a Palavra de Deus, confia como Abraão e põe-se a caminho. A promessa vive nela. Ela mesma é parte da promessa. Ela é capaz de suportar o penoso trabalho sem se queixar porque tem o objetivo diante dos olhos e é confirmado por Deus no caminho pela experiência da alegria: “Eu vivo, na Casa Missionária, felicíssima e contente”.


MISSIONÁRIA E FUNDADORA
Desde a infância que Maria Helena sente o chamamento para a missão e a sua felicidade consiste na realização desta aspiração. Para Helena, o essencial do seu chamamento é o aspecto missionário: ser enviada à China, para ali doar a vida. Através da experiência de Deus, feita na primeira visita a Steyl, sente-se encorajada a procurar ali a realização do chamamento missionário. É o próprio Deus que lhe revela, por experiências interiores, guia-a sempre de novo e confirma-a no chamamento missionário. Nela se resume o carisma missionário e o da contemplação. Os diretores espirituais também reconhecem nela essa tendência contemplativa. Maria Helena procura aprofundar, cada vez mais, nas irmãs, o amor à vocação religiosa-missionária. Ela escreve às Irmãs: “Não deixemos de agradecer, nem em um só dia, do fundo do coração, pela grande graça de sermos irmãs missionárias. Alegrai-vos, porque Deus nos escolheu”.
Também entende a passagem à clausura como uma entrega para a missão. Agora, em cada momento livre, quer levantar o coração e as mãos a Deus, para que Ele abençoe o trabalho das missionárias. Afirma, várias vezes, que ama a vocação missionária e que somente dá o passo para a clausura, porque reconhece nisso a vontade de Deus. A experiência de Deus em Helena é intimamente relacionada com a experiência do chamamento missionário. A Encíclica “Redemptoris Missio” indica como marca essencial da Espiritualidade Missionária a união íntima com Cristo e a participação nas Suas atitudes: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus (Filipenses 2,5-8)”.

O chamamento percorre o mesmo caminho e tem o ponto final ao pé da cruz” (RM 67). Estas palavras de João Paulo II são como um espelho na vida de Helena. Dela é exigido renunciar a si mesma e a tudo o que, até então, considera como seu, para se tornar em tudo para todos. Ela escolheu o caminho de seguir Jesus, o Enviado do Pai.