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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 14 de novembro de 2015

SÃO CAETANO DE THIÉNE, Presbítero e Fundador.




São Caetano, fundador da Ordem dos Teatinos (Clérigos Regulares da Providência Divina), nasceu em 1480, em Vicenza, de pais ilustres e virtuosos: o Conde Gaspar de Thiéne e Dona Maria do Porto. Logo após o batismo, foi a criança pela mãe oferecida e consagrada à Santíssima Virgem. Não ficou sem efeito a oração de sua mãe.

Desde pequeno, Caetano mostrava grande amor à oração a obras de caridade.  Exemplar em tudo, era entre os companheiros de infância chamado "o Santo". 

Mais tarde fez os estudos, doutorou-se em direito civil e eclesiástico e do Papa Júlio II recebeu a ordenação sacerdotal. Tinha trinta e seis anos de idade quando celebrou sua primeira missa na basílica de Santa Maria Maior. Nesta ocasião, ele mesmo relatou depois, Nossa Senhora apareceu-lhe e colocou-lhe nos braços o Menino Jesus.   Morto este Papa, Caetano voltou à sua terra e dedicou-se quase exclusivamente ao serviço hospitalar. Colaborou na fundação do hospital dos incuráveis. Sua única ambição era salvar almas. O povo dizia: "Caetano no altar é Anjo, no púlpito Apóstolo". Não perdia ocasião de conduzir almas a Deus Nosso Senhor, o que lhe importou o apelido: "Caçador de almas" .
Na segunda viagem a Roma, fundou, com três companheiros, uma nova Ordem, cujo plano era: A santificação própria, combater a tibieza e ignorância entre o clero, regenerar os costumes da sociedade, observar escrupulosamente as cerimônias litúrgicas, restabelecer o respeito e reverência na casa de Deus, exterminar as heresias e assistir aos doentes moribundos; numa palavra: - praticar a verdadeira ação apostólica.

Os companheiros cofundadores da Ordem, foram: 1.  Bonifácio de Colli, sacerdote do Oratório, reunia qualidades semelhantes a do seu amigo Caetano. Amabilidade, serenidade e doçura, faziam de si homem repleto do amor de Deus. 2.  Paulo Consiglieri, pertencia à família Chislieri, da qual sairia mais tarde o Papa São Pio V (Antônio Chislieri).  3. João Pedro Carafa, bispo da Igreja, dotado de habilidades diplomáticas e prestígio incomparável. 
Os Papas lhe confiaram diversas missões, dentre as quais, planos de reforma empreendidos pela cúria romana. A urgência de levar a Igreja a uma transformação radical e necessária foi que o levou a conhecer o belo projeto de São Caetano, a quem humildemente pediu admissão como companheiro na Ordem. Trinta anos depois, veio a assumir o trono pontifício com o nome de Paulo IV, em cujo pontificado permaneceu de 1555 a 1559.                                                                                                                             
Aos religiosos deu uma regra, que os obrigava à perfeita pobreza, proibindo-lhes não só aceitar a mínima recompensa pelos trabalhos, mas vedando-lhes até pedir esmola.   Por mais rigoroso que isto o parecesse, houve muitos que pediram ser aceitos como membros da nova Ordem. A primeira casa foi fundada em Roma. Um ano depois a invasão do Exército Imperial fê-los sair da Cidade Eterna. Uma segunda casa foi fundada em Nápoles. Devido à intervenção enérgica de Caetano, a heresia luterana não conseguiu tomar pé naquela cidade.

Apóstolo do bem, era Caetano de extremo rigor contra si mesmo. A vida era-lhe o jejum contínuo, uma penitência sem fim. Verdade é que, nisto não lhe consistindo a santidade, Deus o distinguiu com privilégios e dons extraordinários. Muitas vezes teve aparições de Nossa Senhora, das quais a memorável foi a da noite de Natal, em que Maria Santíssima se dignou apresentar-lhe o Divino Infante.  Contam-se às centenas as curas maravilhosas feitas pela oração do santo servo de Deus. Em muitas ocasiões predisse o futuro, com uma certeza tal, que não deixou dúvida de tê-la recebido diretamente de Deus.

A série de obras de caridade para com o próximo quis Caetano rematá-lo com uma, que lhe mereceu a gratidão do povo de Nápoles. As autoridades civis e eclesiásticas de Nápoles tinham resolvido estabelecer o tribunal da Inquisição, para ter uma arma forte contra a heresia que vinha da Alemanha. O povo se opôs a esta ideia e a tal ponto chegou sua excitação, que era para se recear um levantamento geral. Os homens mais influentes em vão se esforçavam para tranquilizar a população. São Caetano, prevendo o enorme prejuízo que daí resultaria para as almas, ofereceu sua vida a Deus, pedindo-lhe que a aceitasse, para que fosse conservada a paz e concórdia entre o povo e as autoridades. Deus aceitou o sacrifício. Caetano adoeceu gravemente e morreu. Imediatamente amainou a tempestade e os espíritos se acalmaram, fato que todos atribuíram à intervenção do Santo.  As últimas palavras que disse foram: “Não há outro caminho para o céu, a não ser o da inocência e o da penitência. Quem abandonou o primeiro, tem de trilhar o segundo".  Caetano morreu em 1547. 


Reflexões:


A vida de São Caetano, vivida através da pureza e penitência, apresenta ainda outras coisas à nossa consideração, por exemplo, o desapego dos bens terrestres e a confiança ilimitada na Divina Providência. O mal de muita gente é uma preocupação exagerada com as coisas do mundo. Com receio de experimentar prejuízo, não se dão à pena de rezar de manhã e de noite, de ouvir a santa Missa. A atenção está concentrada num ponto só: ganhar dinheiro.  Que sem a bênção de Deus nada conseguem, é uma circunstância de que não se lembram. Não devemos pertencer a essa classe de gente. A nossa confiança deve estar em Deus, que veste os lírios do campo e dá alimento às aves do céu. Procuremos primeiro o reino dos céus e tudo o mais nos será dado por acréscimo.

SÃO BOAVENTURA DE BAGNOREGIO, Cardeal e Doutor da Igreja ("Doutor Seráfico").





Profundidade de pensamento filosófico e fecundidade das obras na vida de um devotíssimo Doutor da Igreja...

No dia 15 de julho de 1274, aos 53 anos de idade, após receber a Extrema Unção das mãos do Papa Gregório X, falecia em Lyon (França) São Boaventura, íntimo amigo de São Luís IX, Rei de França, de Santo Anselmo e de Santo Tomás de Aquino.

Nasceu ele em 1221, em Bagnoregio, cidade da Toscana que pertencia então aos Estados Pontifícios. Aos quatro anos de idade, caindo gravemente enfermo, sua mãe, Rebela, levou-o a São Francisco de Assis, implorando sua intercessão. O Poverello tomou o menino nos braços e o abençoou. Tendo-o curado milagrosamente, devolveu-o à mãe, dizendo: "ó buona ventura!" . Assim passou a ser chamado, não obstante ter sido João seu nome de batismo. A mãe, em reconhecimento, consagrou-o a Deus pelo voto de fazê-lo ingressar na Ordem Franciscana.




"Nele, Adão não pecou"

Efetivamente, aos 21 anos ingressou na Ordem de São Francisco, demonstrando desde logo grande fervor.

Dois anos depois era enviado à Universidade de Paris, para completar seus estudos sob a orientação do grande mestre Alexandre de Hales. Este, vendo como, em meio à multidão de estudantes, o novo aluno conservava a alma tão pura, dizia com admiração: "Nele, parece que Adão não pecou" .




Teologia do Amor
No campo da produção intelectual deixou vasta obra teológica, bíblica e ascética. Costuma-se dizer que enquanto Santo Tomás cultivou o amor da teologia, São Boaventura cultivou a teologia do amor.

São Luís IX, o Rei cruzado, tinha particular estima por São Boaventura. A seu pedido, o Santo compôs um ofício da Paixão de Jesus Cristo. Redigiu também uma regra para um convento, fundado por Santa Isabel, irmã do rei.

Em 1257, com apenas 36 anos de idade, foi eleito Mestre Geral da Ordem de São Francisco, que contava mais de 20 mil membros, em cerca de mil conventos por toda a Europa. Ocupou este importante cargo durante 17 anos.


Devoção à Virgem

São Boaventura discorreu magistralmente sobre a Mediação Universal de Maria. Colocou os franciscanos sob a proteção especial da Mãe de Deus, traçando um plano de devoções regulares em sua honra, e compôs o famoso "Espelho da Virgem", onde se estende sobre as graças, as virtudes e os privilégios de Nossa Senhora. Determinou que os frades rezassem o Angelus todas as manhãs, às seis horas, para honrar o mistério da Encarnação.



Nomeado Cardeal e dirigente de um Concílio

Quando morreu o Papa Clemente IV, em 1272, São Boaventura foi procurado pelos cardeais para que indicasse o sucessor. Foi eleito, assim, Tebaldo Visconti, sob o nome de Gregório X, o qual logo depois nomeou São Boaventura Cardeal e Bispo de Albano.

O Papa encarregou-o da preparação e direção do Concílio Ecumênico de Lyon, que devia reaproximar de Roma, embora temporariamente, a igreja cismática do Oriente.

Após a terceira sessão conciliar, caiu enfermo e mal pôde assistir à seguinte, na qual o chanceler de Constantinopla abjurou o cisma, com a aprovação de todo o alto clero greco-bizantino (50 metropolitas e mais de 500 bispos).

No dia 24 de junho, o Papa celebrou solene missa, na qual a Epístola, o Evangelho e o Credo foram cantados em latim e em grego. Os delegados gregos repetiram três vezes em sua própria língua: "Qui ex Patre Filioque procedit". Ou seja, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, que era um dos pontos chaves do cisma. Em seguida São Boaventura pronunciou inflamado sermão.

Seu estado geral, contudo, agravou-se, e veio a falecer na passagem de 14 para 15 de julho de 1274.

Foi sepultado no convento dos franciscanos em Lyon. Canonizado em 1482, teve seu nome inscrito, em 1588, entre os Doutores Maiores da Igreja, ou seja, ao lado de São Gregório Magno, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e Santo Tomás de Aquino.

Infelizmente, protestantes huguenotes profanaram seu túmulo no século XVI. Os ossos foram incinerados e as cinzas jogadas ao rio. Com muito custo, somente seu crânio foi salvo.



Um fato pitoresco

A Crônica dos Gerais franciscanos conta que um frei de nome Egídio propôs o seguinte problema a São Boaventura: Quando se pensa nas luzes que os doutores de tua categoria recebem do céu, como pretender que os ignorantes como eu venham a conseguir a salvação? O essencial para a salvação ­respondeu o Doutor Seráfico - é amar a Deus. Apesar disso - insistiu Frei Egídio - poderá um inculto amar a Deus tanto como um sábio? E São Boaventura confirmou: “Não só O pode amar tanto, mas ultrapassar nesse amor até mesmo os maiores teólogos”.

Passava justamente na estrada, junto ao convento, uma pobre carregando um feixe de lenha. Frei Egídio não se conteve e gritou-lhe: Alegra-te, boa velhinha! Acabo de saber que depende só de ti amares a Deus ainda mais do que Frei Boaventura. Logo depois, Frei Egídio caiu em êxtase, que durou três dias.



Reflexões finais

Santo Tomás de Aquino, visitando-o um dia, perguntou-lhe em que livros aprendera sua ciência sagrada. "Eis – respondeu, apontando para o crucifixo – a fonte de meus conhecimentos. Estudo Jesus, e Jesus crucificado!"

Temia o Doutor Seráfico comungar com freqüência, por humildade, considerando-se o mais vil dos pecadores. Após ter passado vários dias sem se aproximar da Sagrada Mesa, ao assistir à Missa a Hóstia que o padre consagrara partiu-se e, pelas mãos de um Anjo, foi levada a São Boaventura. Este milagre levou-o a comungar mais freqüentemente, e cada uma de suas comunhões era acompanhada de indizíveis consolações.

A exemplo de São Boaventura, poderíamos fazer quanto esteja ao nosso alcance  para receber Nosso Senhor Sacramentado de modo recolhido e digno, removendo absolutamente de nossas almas tudo quanto possa desagradar o divino hóspede.

Com o intuito de incitar os leitores a esse ardor na devoção eucarística, reproduzimos uma oração composta pelo Doutor Seráfico, cuja festa celebramos a 15 de julho.



Oração de São Boaventura para a Santa Comunhão

Feri, ó dulcíssimo Senhor Jesus, o mais íntimo e profundo de meu ser com o dardo suavíssimo e salutar do Vosso amor, com aquela verdadeira, inalterável, santíssima e apostólica caridade, a fim de que a minha alma se enlanguesça com o único desejo de sempre crescer em vosso amor.
Que eu vos ame intensamente, que desfaleça nos vossos átrios e deseje dissolver-me em vós e ser um convosco.
Que minha alma tenha fome de Vós, ó Pão dos Anjos, alimento das almas santas, Pão nosso de cada dia, supersubstancial, que tem toda doçura e sabor, e todo deleite de suavidade. Ó Vós a Quem os Anjos desejam contemplar!
Que o meu coração sempre tenha fome e se alimente de Vós, e que as entranhas do meu ser sejam repletas com a doçura de vosso sabor.
Que só de Vós tenha sede, ó fonte da vida e da sabedoria e da ciência e da luz eterna, torrente de delícias, riqueza da casa de Deus.
Só por Vós anseie, só a Vós procure, só a Vós encontre, só para Vós tenda e vos alcance. Só medite em Vós, só de Vós fale, e tudo o que fizer seja para louvor e glória do vosso nome, com humildade e discrição, com amor e deleite, com bondade e afeto, com perseverança até o fim.
Sede, Senhor, minha única esperança, toda minha confiança, minhas riquezas, meu deleite, meu encanto, minha alegria, minha quietude e tranquilidade, minha paz, minha suavidade, meu perfume, minha doçura, meu pão, meu alimento, meu refúgio, meu auxílio, minha sabedoria, minha partilha, meus bens, meu tesouro.
Somente em Vós minha alma e meu coração estejam radicados de modo fixo, firme e inamovível. Assim seja.

FONTES DE REFERÊNCIA:

Site Catolicismo
Enciclopedia Cattolica, Cidade do Vaticano, 1949, p.1838 e ss.
Catechismo Maggiore promulgato da San Pio X, Edizioni Ares, Milão, 1979, p.l44 e ss.



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Das Catequeses do Papa Bento XVI (audiência de 03 de março de 2010):
Queridos irmãos e irmãs:
Hoje, eu gostaria de falar de São Boaventura de Bagnoregio. Confesso que, ao propor-vos este tema, sinto certa nostalgia, porque me lembro das pesquisas, que fiz, como jovem estudante, precisamente sobre este autor, particularmente querido para mim. Seu conhecimento incidiu muito em minha formação. Com muita alegria, há poucos meses, peregrinei ao lugar do seu nascimento, Bagnoregio, uma pequena cidade italiana, no Lácio, que custodia com veneração sua memória.
Nascido provavelmente em 1217 e falecido em 1274, ele viveu no século XIII, uma época em que a fé cristã, penetrada profundamente na cultura e na sociedade da Europa, inspirou obras imperecíveis no campo da literatura, das artes visuais, da filosofia e da teologia. Entre as grandes figuras cristãs que contribuíram para a composição desta harmonia entre fé e cultura, destaca-se precisamente Boaventura, homem de ação e de contemplação, de profunda piedade e de prudência no governo.
Ele se chamava Giovanni da Fidanza. Um episódio que ocorreu quando ele ainda era menino marcou profundamente sua vida, como ele mesmo relata. Ele tinha contraído uma grave doença e nem sequer seu pai, que era médico, esperava salvá-lo da morte. Sua mãe, então, recorreu à intercessão de São Francisco de Assis, canonizado há pouco. E Giovanni foi curado. A figura do Pobrezinho de Assis se tornou ainda mais familiar para ele alguns anos depois, quando se encontrava em Paris, por razões de estudo. Havia obtido o diploma de Professor de Artes, que poderíamos comparar ao de um prestigioso Liceu da nossa época. Nesse ponto, como tantos jovens do passado e também de hoje, Giovanni se fez uma pergunta crucial: “O que vou fazer com a minha vida?”.
Fascinado pelo testemunho de fervor e radicalidade evangélica dos Frades Menores, que haviam chegado a Paris em 1219, Giovanni bateu à porta do convento franciscano dessa cidade e pediu para ser acolhido na grande família dos discípulos de São Francisco.
Muitos anos depois, explicou as razões da sua escolha: em São Francisco e no movimento iniciado por ele, reconheceu a ação de Cristo. De fato, escreveu em uma carta dirigida a outro religioso: “Confesso diante de Deus que a razão que me fez amar mais a vida do beato Francisco é que se parece com o início e com o crescimento da Igreja. A Igreja começou com simples pescadores e se enriqueceu imediatamente com doutores muito ilustres e sábios; a religião do beato Francisco não foi estabelecida pela prudência dos homens, mas por Cristo” (Epistula de tribus quaestionibus ad magistrum innominatum, em Opere di San Bonaventura. Introduzione generale, Roma 1990, p. 29).
Portanto, por volta de 1243, Giovanni vestiu o hábito franciscano e assumiu o nome de Boaventura. Foi imediatamente dirigido aos estudos e frequentou a Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, seguindo um conjunto de cursos muito difíceis. Recebeu os diversos títulos requeridos pela carreira acadêmica, os de “bacharel bíblico” e o de “bacharel sentenciário”. Assim, Boaventura estudou profundamente a Sagrada Escritura, as Sentenças de Pietro Lombardo, o manual de teologia daquela época e os mais importantes autores de teologia; e, em contato com os professores e estudantes que chegavam a Paris de toda a Europa, amadureceu sua própria reflexão pessoal e uma sensibilidade espiritual de grande valor que, no decorrer dos seguintes anos, ele soube mostrar em suas obras e sermões, convertendo-se, assim, em um dos teólogos mais importantes da história da Igreja. É significativo recordar o título da tese que ele defendeu para recebera habilitação no ensino da teologia, a licentia ubique docendi, como se dizia na época. Sua dissertação intitulava-se “Questões sobre o conhecimento de Cristo”. Este tema mostra o papel central que Cristo teve sempre na vida e nos ensinamentos de Boaventura. Podemos dizer sem hesitar que todo o seu pensamento foi profundamente cristocêntrico.
Naqueles anos, em Paris, a cidade adotiva de Boaventura, começou uma violenta polêmica contra os Frades Menores de São Francisco de Assis e os Frades Pregadores de São Domingos de Gusmão. Discutia-se seu direito de lecionar na Universidade e se duvidava inclusive da autenticidade da sua vida consagrada. Certamente, as mudanças introduzidas pelas Ordens Mendicantes na forma de entender a vida religiosa, das quais falei nas catequeses anteriores, eram tão inovadoras que nem todos chegavam a compreendê-las. Acrescentavam-se também, como às vezes acontecem entre pessoas sinceramente religiosas, motivos de fraqueza humana, como a inveja e o ciúme.
Boaventura, ainda que cercado pela oposição dos demais professores universitários, já havia começado a lecionar na cátedra de teologia dos Franciscanos e, para responder àqueles que criticavam as Ordens Mendicantes, compôs um escrito intitulado “A perfeição evangélica”. Nele, demonstra como as Ordens Mendicantes, especialmente os Frades Menores, praticando os votos de pobreza, castidade e obediência, seguiam os conselhos do próprio Evangelho. Muito além destas circunstâncias históricas, o ensinamento proporcionado por Boaventura nesta obra e em sua vida permanece sempre atual: A Igreja se torna luminosa e bela pela fidelidade à vocação desses filhos seus e dessas filhas suas que não somente colocam em prática os preceitos evangélicos, mas que, por graça de Deus, estão chamados a observar seus conselhos e, assim, dão testemunho, com seu estilo de vida pobre, casto e obediente, de que o Evangelho é fonte de alegria e de perfeição.
O conflito se apaziguou, pelo menos por certo tempo e, por intervenção pessoal do Papa Alexandre IV, em 1257, Boaventura foi reconhecido oficialmente como doutor e professor da universidade parisiense. Contudo, teve de renunciar a este prestigioso cargo, porque nesse mesmo ano o capítulo geral da ordem o elegeu como ministro geral.
Ele desempenhou este cargo durante 17 anos, com sabedoria e dedicação, visitando as províncias, escrevendo aos irmãos, intervindo às vezes com certa severidade para eliminar os abusos. Quando Boaventura começou este serviço, a Ordem dos Frades Menores havia se desenvolvido de maneira prodigiosa: eram mais de 30 mil os frades dispersos em todo o Ocidente, com presenças missionárias no norte da África, no Oriente Médio e também em Pequim. Era preciso consolidar esta expansão e, sobretudo, conferir-lhe, em plena fidelidade ao carisma de Francisco, unidade de ação e de espírito.
De fato, entre os seguidores do santo de Assis, registravam-se diversas formas de interpretar sua mensagem e existia realmente o risco de uma fratura interna. Para evitar esse perigo, o capítulo geral da ordem em Narbona, em 1260, aceitou e ratificou um texto proposto por Boaventura, no qual se unificavam as normas que regulavam a vida cotidiana dos Frades Menores. Boaventura intuía, contudo, que as disposições legislativas, ainda inspiradas na sabedoria e na moderação, não eram suficientes para garantir a comunhão do espírito e dos corações. Era necessário compartilhar os mesmos ideais e as mesmas motivações. Por esta razão, Boaventura quis apresentar o autêntico carisma de Francisco, sua vida e seus ensinamentos. Por isso, recolheu com grande zelo os documentos relativos ao Pobrezinho e escutou com atenção as lembranças daqueles que haviam conhecido diretamente Francisco. Daí nasceu uma biografia, historicamente bem fundada, do Santo de Assis, intitulada Legenda Maior, redigida também de maneira mais sucinta e chamada, por isso, de Legenda Minor. A palavra latina, ao contrário da italiana (e também do termo em português, “lenda”, N. do T.), não indica um fruto da fantasia, mas, pelo contrário, legenda significa um texto autorizado, a “ser lido” oficialmente. De fato, o capítulo geral dos Frades Menores, em 1263, reunido em Pisa, reconheceu na biografia de São Boaventura o retrato mais fiel do fundador e esta se converteu, assim, na biografia oficial do Santo.


Qual é a imagem de São Francisco que surge do coração e da caneta do seu filho devoto e sucessor, São Boaventura? O ponto essencial: Francisco é um alter Christus, um homem que buscou Cristo apaixonadamente. No amor que conduz à imitação, ele se conformou inteiramente com Ele. Este ideal, válido para todo cristão, ontem, hoje e sempre, foi indicado como programa também para a Igreja do terceiro milênio pelo meu predecessor, o venerável João Paulo II. Este programa, escrevia na carta Tertio Millennio ineunte, centra-se “no próprio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para n’Ele viver a vida trinitária e com Ele transformar a história até sua plenitude na Jerusalém celeste” (n. 29).
Em 1273, a vida de São Boaventura teve outra mudança. O Papa Gregório X quis consagrá-lo bispo e nomeá-lo como cardeal. Pediu-lhe também que preparasse um importantíssimo acontecimento eclesial: o II Concílio Ecumênico de Lion, que tinha como objetivo o restabelecimento da comunhão entre a Igreja latina e a grega. Ele se dedicou a esta tarefa com diligência, mas não chegou a ver a conclusão daquela cúpula ecumênica, porque morreu durante sua realização. Um anônimo notário pontifício compôs um elogio a Boaventura, que nos oferece um retrato conclusivo deste grande santo e excelente teólogo: “Homem bom, afável, piedoso e misericordioso, repleto de virtudes, amado por Deus e pelos homens (…). Deus, de fato, havia lhe dado tal graça, que todos aqueles que o viam eram invadidos por um amor que o coração não podia ocultar” (cf. J.G. Bougerol, Bonaventura, en A. Vauchez (vv.aa.), Storia dei santi e della santità cristiana. Vol. VI. L’epoca del rinnovamento evangelico, Milão, 1991, p. 91).
Recolhamos a herança deste santo doutor da Igreja, que nos recorda o sentido da nossa vida com estas palavras: “Na terra, podemos contemplar a imensidão divina através da razão e do assombro; já na pátria celeste – onde seremos semelhantes a Deus –, por meio da visão e do êxtase, entraremos na alegria de Deus” (La conoscenza di Cristo, q. 6, conclusione, em Opere di San Bonaventura. Opuscoli Teologici /1, Roma 1993, p. 187).


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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

SÃO BRUNO DE COLÔNIA, Abade e Fundador da Ordem Cartuxa.


Primeiro texto biográfico

Dotado de uma das mais belas inteligências de seu século, aplaudido em toda a Europa como Mestre, São Bruno deixou todas as glórias humanas e encerrou-se no deserto da Cartuxa, a fim de viver somente para Deus.


“Grandeza de nascença, grandeza de espírito, grandeza de fortuna, graças exteriores, inteligência clara e vigorosa, incomparáveis aptidões para as ciências, presentes já magníficos que faziam brilhar o mais belo deles, a virtude: eis em que meio de esplendor se desenvolvia essa jovem alma”.(1)

É assim que um hagiógrafo descreve a infância e adolescência de São Bruno de Hartenfaust, nascido em Colônia por volta do ano 1030.
Ainda muito jovem foi completar sua educação em Reims, atraído pela reputação de sua escola episcopal e de seu diretor, Heriman.(2) Brilha ali, obtendo sempre os primeiros lugares em todas as matérias. Colando grau, é nomeado professor, adquirindo fama, sobretudo pela segurança e profundidade de sua doutrina. Mas o jovem mestre Bruno Gallicus — como passou a ser conhecido nos meios universitários da Europa de então — ou simplesmente Mestre Bruno não se deixa embair pelo sucesso.
Desde há muito sua nobre alma aspirava a uma glória imorredoura e a servir a outro Senhor que não o mundo. A corrupção de sua época o entristecia; a simonia (venda dos bens eclesiásticos), que então grassava nos ambientes do clero, lhe causava indignação; a heresia o horrorizava. Queria ele reformar o mundo, e não ser por ele seduzido.
Por isso voltou para sua Colônia natal e ali ordenou-se sacerdote, entregando-se depois à evangelização do povo pobre e ignorante dos lugares mais afastados.

Formador de futuros santos

Mas, se ele foge da glória, esta o persegue. O Arcebispo de Reims, Gervásio, também quer reformar sua diocese e pensa no jovem levita. E Bruno retoma sua cátedra, torna-se chanceler da cúria, diretor dos estudos ou inspetor de todas as escolas da diocese.
Entre seus alunos de Teologia, ressaltam dois que teriam grande papel no futuro: São Hugo, futuro Bispo de Grenoble, e o Bem-aventurado Urbano II, o Papa das Cruzadas.
Porém, “Mestre Bruno é um homem austero e grave. Não sorri diante dos aplausos nem parece ter em grande estima seu renome de sábio. Em seu comportamento e em sua palavra há um quê de desengano, que não pode encobrir o brilho de todos seus êxitos. [...] Entre outras coisas, dizia: ‘Feliz o homem que tem sua mente fixa no Céu e evita o mal com vigilância contínua; feliz também aquele que, tendo pecado, chora seu crime com arrependimento. Mas, ai, os homens vivem como se a morte não existisse e como se o inferno fosse uma pura fábula’”.(3)
E o mal aproxima-se dele na pessoa do novo Arcebispo, Manassés, que à força de intrigas tinha conseguido apossar-se da Sé de Reims. Bruno se levanta contra os escândalos do novo Arcebispo e apela para o legado do Papa. Um Concílio em Autun, do qual foi a alma, condena Manassés, que é obrigado a deixar o cargo e morre na obscuridade, depois de todo o mal que fizera.

Fundação da Cartuxa: vocação realizada

Entretanto, Bruno atinge os 40 anos e resolve de vez abandonar o mundo. Com alguns discípulos, vai para Molesmes pôr-se sob a direção de São Roberto. Mas, apesar do rigor desse mosteiro, ele sente que ainda não é a solidão absoluta que almeja. Com seus discípulos, despede-se de São Roberto — os santos se entendem — e parte em direção a Grenoble, onde seu amigo São Hugo era bispo.
Narra-se que, durante a viagem, Bruno sentiu-se fatigado e recostou-se com a cabeça apoiada num pilar. Três anjos lhe apareceram em sonho e anunciaram que Deus marcharia a seu lado e bendiria sua obra.
Nessa mesma noite, durante o sono, esses três anjos apareceram a São Hugo, em Grenoble, anunciando-lhe a próxima vinda de seu amigo e companheiros. O prelado foi transportado ainda em sonhos até um lugar ermo e agreste de sua diocese, onde viu erguer-se um templo e descerem do céu sobre ele sete estrelas. Representavam São Bruno e seus seis companheiros.
São Hugo revestiu os novos solitários com um hábito de lã branca e depois os levou para o lugar visto em sonhos.
Assim, São Bruno tomou posse do deserto da Cartuxa (Chartreux) — que depois deveria dar nome à sua Ordem — e começou a viver a vida que imaginara para si e para os seus.


Austeridade de vida toda voltada para Deus

O que o Santo almejava era viver no isolamento, do modo mais semelhante possível ao dos primeiros eremitas do deserto, mas tendo ao mesmo tempo os recursos da vida cenobítica, isto é, em comunidade. E fundou assim uma das Ordens mais austeras da Igreja.
Os cartuxos usam “ásperos cilícios, fazem longas vigílias, jejum contínuo, silêncio perpétuo com os homens e conversação incessante com Deus. Nunca comem carne, seu pão é um pão negro de cevada; admitem peixes, se lhos oferecem, mas jamais os compram. Unicamente às quintas e aos domingos chegam à sua mesa queijo e ovos. Nas terças e nos sábados alimentam-se de legumes cozidos. Às segundas e quartas jejuam a pão e água. Não têm mais que uma refeição diária. À porta de suas celas morrem os rumores do mundo externo. Rezam, transcrevem códices ou trabalham no jardinzinho circundante [...]. Só se reúnem na igreja para rezar as Matinas, à meia-noite, e durante o dia para a Missa e Vésperas. Fora disso vivem sós, ‘levantando a Deus suas orações, com os olhos fixos na Terra e os corações elevados ao Céu’”.(4)
O Bispo Hugo providenciou a construção de uma igreja e de pequenas celas de madeira para cada um dos monges. De vez em quando, ia passar períodos de recolhimento entre os monges, como um deles.


Contra o cisma reinante, a serviço da Igreja

Os primeiros anos da recém-fundada Cartuxa passaram rapidamente no fervor da contemplação e da oração. Mas a Terra não é o Céu, e a felicidade perfeita tem seu limite. Certo dia, Bruno recebeu um correio urgente de seu ex-discípulo e então Pai da Cristandade, o Papa Urbano II: o Imperador Henrique IV não aprovara sua eleição ao Sólio Pontifício e provocara um cisma na Igreja ao eleger um antipapa, Guiberto. O verdadeiro Papa, necessitando dos conselhos e das luzes de São Bruno, chamava-o a Roma. Este, cheio de tristeza pelo futuro incerto de sua obra, designou Lauduíno como superior em seu lugar e partiu para a Cidade Eterna.
O Papa recebeu-o com todas as honras e a estima com que um discípulo recebe seu mestre. Mas as apreensões do Santo, quando deixara a Cartuxa, realizaram-se: sem o mestre e superior, os outros seis monges não aguentaram, e acabaram seguindo-o a Roma. Urbano II designou um lugar para alojá-los nas Termas de Diocleciano, onde eles procuraram levar a vida contemplativa que seguiam na Cartuxa. Mas não era a mesma coisa. Aos poucos, os fugitivos foram se dando conta de que o lugar deles era lá na Cartuxa, e não em meio a uma cidade cosmopolita como Roma. E, animados por Bruno, refizeram o caminho de volta.
Como um bom pai, ele mantinha constante contato por carta — tanto quanto era possível naqueles tempos — com seus filhos espirituais, estimulando-os, instruindo-os, revigorando-os na vocação, respondendo às suas dúvidas e animando-os a perseverarem.
Conta-se que, certo dia em que eles estavam especialmente provados e a ponto de tudo abandonar, apareceu-lhes um venerando ancião que dissipou-lhes todas as dúvidas, como que afastou com a mão a tentação, assegurando-lhes que a Santíssima Virgem velava por eles e seria sempre sua advogada e protetora.  Dito isto, o ancião desapareceu, pelo que os monges supuseram ser ele São Pedro, mandado por Deus para animá-los. Com isso eles perseveraram, e desde então sempre houve monges naquele mosteiro até 1903, quando novas leis persecutórias da Igreja, na França, expulsaram os religiosos do país, e com eles os cartuxos. Mas, depois da II Guerra Mundial, lá estavam eles de volta, onde até hoje permanecem.

Segunda Cartuxa, na Calábria

E São Bruno? Implorava ele ao Papa, noite e dia, que lhe permitisse voltar para sua querida solidão. O Papa esteve tentado a aceitar o pedido dos habitantes de Reggio Calábria, dando-lhes o Santo por Arcebispo. Mas, ante a insistência de Bruno, julgando que talvez estivesse indo contra a vontade de Deus com a recusa, aquiesceu em parte aos seus justos pedidos. Entretanto, para tê-lo mais à mão para o caso de alguma necessidade, recomendou que ele escolhesse qualquer outro lugar solitário mais perto de Roma. Assim São Bruno, com alguns novos discípulos, encontrou um vale na Calábria, que foi o berço da segunda Cartuxa.
Ali ele passou os últimos dias de sua vida em contemplação e escrevendo comentários aos Salmos e às Epístolas de São Paulo. “Seus sentidos não lhe serviam senão para as necessidades indispensáveis do corpo e para os ofícios de piedade. Sua conversação estava continuamente no Céu, e ele gozava uma paz e uma tranqüilidade de alma tão perfeita, que já experimentava, adiantado, o repouso e as doçuras da eternidade”.(5)
Enfim chegou para ele esse tão esperado tempo. E, rodeado de seus discípulos, entregou sua alma a Deus num domingo, seis de outubro de 1101.


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Fonte: site catolicismo.com.br (Plínio Maria Solimeo)
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Notas:
1 Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, vol. XII, p. 91.
2 Ambrose Mougel, The Catholic Encyclopedia, 1908, vol. III, online edition.
3 Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo IV, p. 48.
4 Id., pp. 50-51.
5 Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 98.

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Segundo texto biográfico

Pelo fim do décimo-primeiro século, enquanto o Papa São Gregório XII, seguindo o exemplo de São Leão IX, trabalhava com fé e coragem invencíveis, na reforma do clero. Deus suscitou um novo patriarca da vida solitária, um homem da mesma estirpe dos Antão, da Tebaida, dos Hilarião, da Palestina; um homem e uma ordem que, pela vida penitente, deveriam servir de lição e de modelo ao clero e ao povo cristão, e atrair para sempre bençãos do céu sobre toda a Igreja; uma ordem que, após oito séculos, é ainda a mesma, sem nunca ter tido necessidade de reformas, nem em relação à pureza da fé, nem em relação à austeridade e à disciplina. Esse homem é São Bruno; essa ordem é a dos Cartuxos.

Bruno nasceu em Colônia, onde foi educado. Fez seus estudos na França, e o seu aproveitamento lhe pareceu a cátedra da escola de Reims. Manassés, arcebispo de Teims, fê-lo seu camareiro, como se pode deduzir de alguns atos que Bruno assinou nessa qualidade. Mas os benefícios com que Manassés o cumulou não lhe fecharam os olhos para os excessos praticados por aquele prelado nem lhe esmoreceram o zelo.
Bruno foi um dos principais acusadores de Manassés que, para puni-lo, o privou de seus favores. Bruno sentiu menos tristeza com os maus tratamentos do que com os escândalos armados pelo arcebispo. Primeiro retirou-se para Colônia e, durante algum tempo, foi cônego de São Cuniberto; Deus, porém, chamava-os a um estado mais perfeito. Desde o tempo em que vivia em Reims, junto ao arcebispo Manassés, Bruno projetara, juntamente com alguns amigos seus, abraçar a vida monástica.

Bruno e seus companheiros levaram uma vida angélica nas tétricas montanhas da Cartuxa. Eis como se expressa Guiberto, abade de Nogent, famoso escritor daquele tempo, sobre a maneira de viver dos primeiros cartuxos: "A Igreja foi construída quase no cume da montanha. O claustro é muito cômodo; mas os cartuxos não moram juntos, como os outros monges. As celas são construídas ao redor do claustro e cada religioso ocupa uma delas, na qual trabalha, dorme e toma suas refeições. Recebem do ecônomo, aos domingos, pão e legumes para a semana. Os legumes são os únicos alimentos que eles cozinham em suas celas; uma fonte lhes fornece água para beber e para oturas utilidades, através de canais que desembocam nas celas. Aos domingos e dias santos solenes comem queijo e um pouco de peixe, quando os recebem de pessoas caridosas; pois não compram nada disso. Quanto ao ouro, à prata, e aos ornamentos da igreja, não os aceitam quando lhes são oferecidos. Um cálice resume a sua prataria. Não se reúnem às horas ordinárias; se não me engano, assistem à missa aos domingos e dias santos. Raramente falam e, se tem necessidade de dizer alguma coisa, fazem-no por meio de sinais. O vinho que bebem é tão aguado que não tem o mínimo sabor e mais parece água. Usam o cilício em cima da carne; suas roupas são bastante dinas”. São governados por um prior: o Bispo de Grenoble serve-lhes, às vezes, de abade. Porém, embora sejam pobres, dispõem de uma rica biblioteca.

Guiberto assim prossegue: “Tendo o Conde de Nevers ido visitá-los este ano, num ato de devoção, compadeceu-se da pobreza em que viviam, e enviou-lhes, ao regressas, algumas peças de prata de alto custo. Devolveram-nas, e o conde, edificado com a recusa, enviou-lhes couro e pergaminho, que sabia ser-lhes necessários na cópia de livros. Como as terras da Cartuxa são estéreis, semeiam pouco trigo; mas compram-no com a lá de suas ovelhas, que viram em grandes rebanhos, AO sopé da montanha moram mais de vinte leigos, que os servem com muito carinho, e que se ocupam com seus negócios temporais, pois os religiosos só se dedicam à contemplação”. Em seguida, Guiberto refere-se ao grande número de conversões que o exemplo dos solitários da Cartuxa operou na França, e da diligência com que todas as províncias se empenharam em construir mosteiro do mesmo instituto.

A pintura que o abade de Nogent nos faz da vida dos primeiros cartuxos, Pedro, o Venerável, acrescenta vários traços edificantes. Diz que usavam roupas de má qualidade, curtas e estreitas; que haviam delimitado certa extensão de terreno, além da qual nada aceitavam do que lhes era oferecido, fosse mesmo um punhado de terra; que tinham um número fixo de bois, de ovelhas, de mulas e de cabras; que, para não serem obrigados a aumentá-los, não recebiam mais de doze monges em cada estabelecimento, além do prior e de dezoito conversos e alguns criados; que nunca comiam carne, mesmo quando doentes; que na sexta-feira e no sábado só comiam legumes; e que às segundas, quartas e sextas comiam apenas pão escuro e bebiam água; que só faziam uma refeição por dia, exceto aos domingos, festas solenes, oitavas da Páscoa, Natal e Pentecostes; e que só ouviam missa aos domingos e dias santificados. Os seis primeiros companheiros de São Bruno foram Landuíno, os dois Estêvão, cônegos de São Rufo, Hugo, que era o único sacerdote da comunidade, André e Garin, leigos.

O maior consolo de São Hugo, Bispo de Grenoble, era fazer freqüentes visitas a Chartreuse, a fim de edificar-se com a santa vida que levavam os piedosos solitários. Estes, porém, mais edificados ficavam com a humildade do santo prelado, do que ele com as suas austeridades. São Hugo vivia entre os monges como se fosse o último de todos. Seu fervor fazia com que esquecessem sua dignidade, e ele prestava os mais ínfimos serviços àquele com quem se alojava; pois nos primórdios da fundação, cada cela era ocupada por dois cartuxos. Seu companheiro queixou-se a São Bruno de que Hugo fazia questão de desempenhar as funções de um criado, pois sentia-se honrado em servir os servos de Deus.

Muitas vezes São Bruno tomava a liberdade de mandá-lo de volta à sua igreja. "Retornai às vossas ovelhas, elas precisam de vós; dai-lhes o que deveis". O santo Bispo obedecia a Bruno como a um superior; porém, depois de passar algum tempo com seu povo, retornava à solidão. Pretendia vender seus cavalos e fazer a pé as visitas à sua diocese. São Bruno dissuadiu-o, receoso de que aquela singularidade parecesse uma condenação lançada aos outros bispos, e também, de que ele pudesse tirar do fato uma glória vã. Hugo seguiu-lhe o conselho; mas sua humildade obrigou-o a suprimir tudo quanto não julgasse dever à dignidade episcopal. Juntamente com São Bruno, o santo Bispo foi como que o pai dos cartuxos. Fez uma ordenação pela qual proibiu que as mulheres passassem pelas terras daqueles religiosos, pois temia que pudessem, perturbar-lhes a solidão.

Tendo sido o Papa Urbano II, que fora discípulo de São Bruno, em Reims, informado da santa vida que este levava, havia seis anos, nas montanhas da Cartuxa, e aliás, ciente da sua erudição e sabedoria, chamou-o para junto de si a fim de aproveitar seus conselhos no governo da Igreja. O humilde solitário não poderia receber uma ordem que mais lhe custasse a obedecer. Teria que se arrancar à querida solidão, deixar os irmãos ternamente amados e arriscar-se a ver dispersar-se o pequeno rebanho reunido com tanta dificuldade; mas seu respeito pela Santa Sé não lhe permitiu fazer ponderações. O Papa recomendou a Cartuxa a Seguin, abade da Chaise-Dieu, notável pela piedade e autoridade; e Bruno nomeou Landuíno prior da Cartuxa durante a sua permanência na Itália.

Mas os solitários, habituados a sofrer alegremente as maiores austeridades, não conseguiram suportar a ausência de seu pai. A Cartuxa que, estando ele presente, lhes parecia um paraíso terrestre, retomou aos olhos dos monges, o seu verdadeiro aspecto, isto é, o de um deserto tétrico e inabitável. Não conseguiram mais suportar os contratempos e a falta de conforto e foram-se embora, sem contudo separar-se. A deserção dos monges obrigou São Bruno a entregar a fundação a Seguin, abade de Chaise-Dieu. Entretanto Landuíno, que fora nomeado prior, tão pateticamente exortou os irmãos a perseverarem que, após uma ausência não muito longa, eles retornaram à Cartuxa; foi-lhes esta devolvida pelo abade da Chaise-Dieu por ato datado de 17 de setembro de 1090.

Bruno foi acolhido pelo Papa com a consideração devida à sua piedade e aos seus merecimentos; e o Papa, que conhecia sua prudência, frequentes vezes consultava sobre importantes negócios da Igreja; mas a confusão e o tumulto ligados à corte romana, para onde eram levadas todas as causas do mundo cristão, não apraziam a um religioso que já experimentara as doçuras da solidão e da contemplação. Bruno solicitou, pois insistentemente, permissão para tornar a enterrar-se na sua querida cartuxa. O Papa apreciava-o demais para conceder-lhe o que pedia; instou para que aceitasse; o piedoso solitário desculpou-se com tão sincera humildade, que Urbano II achou que não devia violentar-lhe a modéstia; consentiu, mesmo que se retirasse para um lugar solitário, na Calábria, onde levou, com alguns companheiros que conquistara para Deus, na Itália, uma vida semelhante à das montanhas da cartuxa.

Rogério, Conde da Calábria e da Sicília, felicitou-se por abrigar em seus estados tão santa colônia, e doou aos religiosos algumas terras na diocese de Squillace, onde construíram um mosteiro denominado La Tour, cuja igreja foi consagrada no ano de 1094.
São Bruno escreveu, daquela mesma solidão, uma carta a seus irmãos da Cartuxa de Grenoble, congratulando-os, assim como a Landuíno, prior, que viera visitá-lo, por tudo quanto soubera sobre eles, e para exortá-los à perseverança. Felicita em particular os irmãos conversos pela piedade e obediência de que dão provas. Ao terminar , assegura aos solitários da Cartuxa que tem um ardente desejo de vê-los; mas que não lhe é possível satisfazer tal desejo. São Bruno morreu santamente no seu mosteiro da Torre, na Calábria, no ano de 1101, num domingo, 6 de Outubro, dia em que a igreja lhe glorifica a memória, depois de o ter Leão X, solenemente o incluído no número dos santos. (...)

 (Vida dos Santos, Padre Rohbacher, Volume XVII, p. 362 à 372

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Beato Bernardo de Hoyos, Jesuíta e Apóstolo do Sagrado Coração de Jesus.


“Eu não saio do Sagrado Coração; quer este Divino Dono que eu seja discípulo do Sagrado Coração de Jesus, e discípulo amado”.


Bernardo é considerado como o principal apóstolo do Sagrado Coração de Jesus na Espanha e, apesar de sua breve vida, pode ser considerado um extraordinário místico. Não escreveu grandes tratados. Somente instruções e documentos espirituais, alguns sermões, apontamentos e várias centenas de cartas - possivelmente mais de duzentas - ao seu diretor espiritual, o jesuíta João de Loyola.
Nasceu Bernardo em Torrelobatón em 21 de agosto de 1711, no dia seguinte à memória de São Bernardo de Claraval. Pela proximidade da festa os pais do nosso Bernardo lhe deram este nome. Mas também tem seu segundo nome de Francisco, por sugestão do Pároco da igreja de Santa Maria de Torrelobatón, onde foi batizado, pondo o menino sob a proteção de São Francisco Xavier. Seu pai chamava-se Don Manuel de Hoyos, nascido em Toro chamada então de Hoyos, daí seu nome canonico. Sua mãe era D. Francisca de Seña y Fuica, nascida em Medina del Campo em 1693.
Aos 9 anos de idade, Bernardo recebeu o sacramento da Confirmação em Torrelobatón, conforme costume da época. Tomás, seu tio paterno, influenciou a que Bernardo fosse estudar em Villagarcia.
Estando em Medina del Campo, Bernardo renunciou a todos os seus bens em favor de sua irmã Maria Teresa, então com seis anos. Seu pai faleceu aos 25 de abril de 1725. Numa parte do testamento de D. Manuel de Hoyos se lê: “...a meus filhos recomendo que sejam tementes a Deus e da própria consciência, trabalhando e procedendo segundo suas obrigações, porque assim merecerão o maior alívio e, sobretudo, o agrado da misericórdia de sua Majestade que lhes guiará e lhes iluminará para seu santo serviço e para permanecer nele até sua morte, guardando obediência, respeito e veneração a sua mãe, avô, tio, e todas as outras pessoas, a fim de que consigam nesta vida o afeto de todos e na outra o descanso eterno”.
Sobre sua mãe, D. Francisca, lemos: “D. Francisca criou Bernardo com especial esmero e cuidado, dizendo algumas vezes que teria gravíssimo escrúpulo do menor descuido, porque se perdesse aquele filho, lhe diria o Céu que perdia um grande Santo”.
Aos dez anos, no Colégio Jesuíta em Medina del Campo, aprenderá a amar a Virgem, a quem “seus professores exortavam aos alunos a devoção a Maria Santíssima, Nossa Senhora”. O menino Bernardo sempre contemplava piedosamente no altar da igreja uma bela tela da Imaculada.
Em Villagarcía de Campos rezava com seus amigos de alojamento as Letanias da Virgem – uma prática diária, iniciada ao toque das oito horas. Era congregado mariano e se reunia com seus companheiros na capela da Congregação Mariana do colégio para as orações aos sábados.
Bernardo era um estudante colegial com destaque em três coisas: era baixinho, piedoso e vivaz. Na Colegiata, a igreja do Colégio, os alunos tinham a sua Missa diária às sete da manhã.

Mas por quê decidiu-se Bernardo a ser um jesuíta?

Além de sua vida na Congregação Mariana (Missa diária, comunhão nos Domingos e Festas, confissão frequente, etc), lhe impressionava o exemplo daqueles jovens noviços sempre alegres, levando as crianças do povo ao Catecismo, pedindo esmolas nas ruas. Além disso, seus professores eram todos jesuítas.
Não foi fácil a Bernardo seguir sua vocação. Precisava do aval de seus pais. Achavam que era apenas uma “paixão adolescente”. Mas não era. Conscientes disso, deram a permissão.
Em 11 de julho de 1726 seu nome é inscrito no Livro do Noviciado de Villagarcia. Quem mais teria influência em Bernardo seria o padre João de Loyola. Sendo profundamente espiritual e com um tino de discernimento de almas, soube dirigir corretamente a Bernardo, que lhe tinha uma confiança total a ponto de lhe abrir o mais íntimo de seu coração.
Bernardo foi estudar em Medina com um claro propósito, tirado da vida do também congregado mariano São João Berchmans: “Não me envergonharei de praticar o que me ensinaram no Noviciado”. Terminou o Noviciado com quase 17 anos, emitindo os Votos simples.
Nos três anos seguintes, grandes coisas aconteceram. No exterior era o mesmo Bernardo: alegre, vivaz, bom camarada, estudante dedicado, piedoso... Mas no interior ocorriam grandes experiências místicas, tanto dolorosas quanto gozosas.
Bernardo seguia os elevados propósitos da Companhia desde quando na Congregação Mariana: “a mediocridade não existia na visão de Inácio.” Possuía o jovem jesuíta uma inteligência viva. Mas não somente nos estudos era Bernardo um destaque: também no trato social e na pregação.
Bernardo a viveu nos sete anos na Companhia e de um modo mais intenso a partir de 03 de maio de 1733, quando da descoberta do Coração de Jesus e se deixará transformar por ela. A Eucaristia foi a raiz de sua descoberta da devoção ao Coração de Jesus, quando o amor e veneração da Eucaristia cresceu admiravelmente no nosso Bernardo.
No dia 15 de agosto, festa da Assunção de Maria, nosso Bernardo teve uma visão em que pode admirar a glória da Virgem no Céu. Viu Bernardo durante a Santa Missa e lhe disse Nosso Senhor: “O que hoje sentiu, é algo que aconteceu no Céu quando nele entrou minha Mãe. Tenha-a por sua: tudo o que me pedir por seu intermédio, não duvides que alcançarás, se é pela minha glória”.
Bernardo foi um grande enamorado da Virgem Maria e, de uma maneira especial do mistério da Imaculada Conceição. Isto percebemos desde seu ingresso na Congregação Mariana do colégio e de suas Letanias perante a tela da Imaculada. Mas parecia que tudo isso não lhe bastava. O amor à Virgem Maria que lhe ensinara a Congregação Mariana aumentava cada vez mais e queria fazer algo mais por Ela.
Em 1733, recebeu uma carta de seu amigo Agostinho Cadaveraz, sacerdote e professor de Gramática em Bilbao, que lhe pediu um sermão para a Oitava do Corpo de Cristo. Para que pudesse prepará-lo, padre Agostinho pediu a Bernardo que copiasse certos fragmentos dum livro - “De cultu Sacratissimi Cordis Iesu”, um livro sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus - e que os enviasse a ele. o irmão Bernardo pegou o livro na biblioteca da escola e o levou para casa para copiar os parágrafos que eram pedidos.
Eis o relato de Bernardo: “Eu, que não havia ouvido jamais coisa assim, comecei a ler a origem do culto do Coração de nosso amor Jesus, e senti em meu espírito um extraordinário movimento forte, suave e nada arrebatado nem impetuoso, com o qual me fui logo ao ponto diante do Senhor Sacramentado a oferecer-me a seu Coração para cooperar o quanto pudesse ao menos com orações para a extensão de seu culto. (...) Todo o dia transcorreu em notáveis afetos ao Coração de Jesus, e ainda estando em oração, me fez o Senhor um favor (...) Mostrou-me seu Coração todo abrasado em amor, condoído do pouco que se lhe estima.”
Bernardo de Hoyos trabalhou então para que a devoção ao Coração de Jesus fosse conhecida em Espanha, na América Espanhola e em todo o mundo. Pediu a seu diretor, padre Loyola, que escrevesse um livro entitulado “Tesouro Escondido no Sacratíssimo Coração de Jesus”. A primeira edição do livro foi publicada em Valladollid em 1734. Foram enviados exemplares à Casa Real de Espanha, a bispos e arcebispos, e a muitas partes da Espanha e também da América. Numerosos bispos e arcebispos concederam indulgências aos que o lessem.
O êxito editorial do “Tesouro Escondido” foi impressionante. A primeira edição, de 1734 em Valladolid, foi seguida por outra em Barcelona no ano seguinte. No ano de 1738 foram feitas oito edições!
Em 2/01/1735 foi ordenado Presbítero, celebrando sua primeira Missa no colégio de S. Inácio de Valladolid, em 6 de janeiro.
Em Agosto, passa para o Colégio de Santo Inácio, dos Jesuítas, em Valladolid. É completamente infectado pelo tifo. Em 19 de novembro se agrava sua saúde, recebe o Viático e a Unção dos enfermos. Em 29 vem a falecer com a idade de 24 anos, 3 meses e 9 dias. Em tão pouco tempo de vida chegou a ser o iniciador e o grande apóstolo da espiritualidade do Coração de Jesus na Espanha.
O processo de canonização foi iniciado em Valladolid em 1895. O papa João Paulo II o declarou Venerável em 12/01/1996, lendo o decreto de suas virtudes heróicas.
Foi beatificado em 10 de abril de 2010 por Bento XVI na mesma diocese de Valladolid.

Bem-aventurado Bernardo de Royos, rogai por nós!