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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Beato Antônio de Categeró (de Évola ou de Noto), Terciário Franciscano.



Na atormentada história da Europa da primeira metade do século XVI, encontramos a vida de Antônio, o Etíope. Nascido em Barco de Cirene (Líbia) de família maometana, religião que ele professou até que, por um acidente providencial, foi capturado e deportado para a Sicília, em Siracusa. Foi comprado como escravo por um agricultor de Avola, um certo João Landanula (ou Landolina) que lhe confiou seu rebanho. John percebeu que aquele seu servo era bastante inteligente, de coração sincero, de índole nobre, honesta, e respeitosa. Então o exortou, pela palavra e pelo exemplo – a renunciar ao Islã pela fé cristã – projeto cujo êxito confiou à providência divina. O servo bom mostrou-se prontamente disposto à catequese.
Foi batizado pela Igreja e passou a chamar-se Antônio em homenagem a Santo Antônio. Amava os pobres, fugia do ócio e passava seu tempo de folga do trabalho em oração. Dedicou-se em nome de Jesus e nunca falhou para corrigir qualquer um que usasse o nome de Deus em vão. Alimentava em si um espírito constante de arrependimento dos pecados, lamentando, com profunda dor e contrição, aqueles cometidos por ele no primeiro período de sua vida, antes de sua sincera conversão.
Durante os 38 anos em que viveu no território avolense desfrutou de uma reputação de homem exemplar, sóbrio e, com sua caridade, conquistou os corações de toda gente. Ele costumava vir regularmente a partir da campanha avolense à Igreja de Santa Venera, bem vagaroso, para a confissão e comunhão; dedicava-se, também, a alimentar a lâmpada do santuário. No altar de São Tiago Apóstolo, ele cuidava das flores e conseguiu enriquecer o altar com um frontal e um par de castiçais. Don Nicholas Cascone, que por muitos anos foi seu confessor em Santa Venera, disse: “Antônio tem progredido de virtude em virtude e de bom para melhor. Tenho-o acompanhado como meu filho espiritual durante 15 anos e o tenho avaliado um homem caridoso, paciente e casto, zeloso no serviço de Deus, não vendo nele a mínima falha, por menor que fosse.”
Entrementes, o fazendeiro João casa dois de suas netas com dois irmãos de Noto: Vicente e Miguel Giamblundo e, como parte do dote, dá-lhes seu rebanho e o escravo líbio, recomendando muito que o tratassem muito bem.
Desde então, Antônio viveu em Noto com seus novos proprietários que lhe indicam as pastagens onde levar as ovelhas e onde construir um galpão e o nomeiam capataz – chefe dos pastores para o rebanho numeroso da grande propriedade de Celso. Este ofício, Antônio irá exercer com precisão e grande bondade para com os pastores subordinados, incentivando a honestidade profissional. Mesmo neste novo ambiente a vida de Antônio ocorre com o mesmo ritmo de trabalho e oração.
Em consideração às qualidades sobrenaturais e aos milagres que Deus se dignava operar por meio do santo homem, que tanto os admiravam e temendo manter como escravo um amigo de Deus, Miguel e Vicente Giamblundo deram-lhe a liberdade: “por sua bondade e vida santa, e porque é muito caridoso e paciente”. Os quatro anos de serviço voluntário, depois de obtida a liberdade, são também vividos com dedicação por Antônio, sem descuidar quaisquer dos deveres de capataz.
Livre da escravidão doméstica, dedicou-se ao voluntariado no hospital de Noto. Assistia diariamente à missa e participou de um grupo de oração. Leu a vida dos santos muitas vezes como um incentivo para imitá-los. Ele queria imitar, especialmente, a vida do Beato Conrado de Piacenza: vestiu por isso o hábito de terceiro franciscano, recebido das mãos do guardião do convento franciscano da região e se retirou para o deserto de Pizzoni, onde levou uma vida mais angelical que humana.
Nas vezes em que Antônio veio a Noto, o povo saiu às ruas, alguns para vê-lo, outros para beijar sua mão e muitos para recuperarem-se de uma doença. Disseram aqueles que o tratavam familiarmente: “Nunca o vi zangado, mesmo quando provocado, em vez disso, mostrava-se mais leve e calmo para que todos se maravilhassem”.  
Um dia, ficou doente, em Noto. Sentindo seu fim chegando, quis receber os últimos sacramentos e entregar a alma devotamente a Deus. Faleceu em 14 de março de 1550.
Seu corpo foi enterrado, por sua própria vontade, na igreja desse convento de Observantes Menores. Tanta estima e devoção popular para com o humilde negro ermitão, fez com que despertasse a admiração do seu biógrafo, o historiador Vicente Netino Littara (1550-1602) que nasceu no ano de sua morte.
Será grande número de milagres alcançados por sua intercessão. No dia 13 de abril de 1599, 49 anos após sua morte, seu túmulo foi aberto para o reconhecimento canônico de seus espólios mortais. Seu corpo foi encontrado intacto e incorrupto, como se tivesse morrido naquele mesmo dia.
Na vida e depois da morte foi conhecido por muitos milagres. Era chamado de “o negro” pela cor de sua pele, sendo ele filho de pais africanos. Muitos já o chamavam de o Santo Negro pela distintiva santidade de sua vida.  Em 1611 é dada licença para divulgar a imagem com a auréola de beato.
No século XVII, o exemplo de sua vida é proposto principalmente para os negros escravizados no Brasil, vindos da África: lá é chamado de “Santo Antônio de Categeró” (ou Cartaginês) por sua origem Africana.
Em 24 de janeiro de 1978, na igreja Santa Maria de Jesus, em Noto, o bispo Dom Salvatore Nicolosi faz o reconhecimento canônico da ossada do Beato Antônio, doando o braço direito à paróquia de Nossa Senhora do Ó, em São Paulo (Brasil)
Por ocasião do Congresso Diocesano (11-12 de janeiro de 1992), o Beato Antônio foi escolhido como o Protetor da caridade diocesana, porque é, hoje, sinal profético e ecumênico que interpela nossa consciência cristã a ser capaz de acolher a tantos imigrantes da África. Um número sempre maior tem vindo habitar a Itália e a Europa. Em cada um deles devemos ser capazes de ver um irmão em Cristo, nosso Salvador. “A memória do Beato Antônio Etíope – escravo negro do século XVI, convertido ao Cristianismo, que viveu em Avola e Noto como exemplar e heroico testemunho evangélico, a ponto de ser venerado, hoje, no Brasil com um culto popular muito vívidofortalece a nossa consciência de estarmos envoltos em um plano equilibrado e abrangente de amor do Pai comum a toda humanidade.” (Mons. Nicolosi)
Em 2003 com os restos mortais do beato negro foi transferida para a Capela Franciscana da Imaculada em Suire de Lipari, Via Silvio Spaventa, 33.

(Mons. Salvatore Guastella)


Notas de rodapé
1. Dele eu publiquei dois livros: “FRATELLO NEGRO, Antonio di Noto, detto l’Etiope” (página 140). Noto 1991 e “LUI E NOI PER LORO. Fontes de arquivos e documentos em B. Antonio de Noto e Avola (1550), dito o etíope, ou ‘de Categerò’ “(página 240). Noto, 2000.
2. Sobre a escravidão doméstica na Sicília entre os séculos XV e XVI, Charles Verlinden oferece uma excelente visão em seu Ensaio Escravidão e Economia no sul no início da era moderna (Annali del Mezzogiorno, III, 1983, 11-18). Corrado Avolio, tratando da escravidão doméstica na Sicília no sec. XVI, observa que a longa existência desta ferida feia foi completamente esquecida pelos sicilianos, embora tenha sido um triste privilégio da ilha. No que concerne ao ilustre dialetólogo de Noto, a partir de registros de notários de Noto e dos cartões do mosteiro do Santíssimo Salvador, é possível perceber a presença de mais de 60 escravos.
3. Processo informativo diocesano, Noto 1550, teste n.9.
4. Antigamente, o domingo, “dia do Senhor”, tornara-se o dia da reconciliação no seio da comunidade dos irmãos na fé, e a data mais adequada e significativa para emancipar seus escravos oficialmente, restaurando-lhes a plena liberdade. Vamos imaginar que, deste modo, o escravo Antônio foi libertado no sinal da ágape eucarística. Não tinham os Giamblundo decidido “Não ter mais por escravo alguém que Deus tinha por amigo?”
5. “Custodem plácida immistum minoris ovilis Aethiopem, quamvis corpore mente servil ingênuo: quamvuis Totosi pice nigrior artus, ast animam nive Candidior, King comprobat ipsa, quam ditado verdadeiro, aethiopum æquo præibit manus. Múltiplas monstrabit miracula rerum, donec signipedum mandarit Templo corpus et ipsum não defraudandum Cultus venerationis honra “(Vincenvo Littara, Conradias, L. VIII, 296-303. Tradução Corrado Gallo).
6. De um Martirológio Franciscano, publicado em Paris, em 1653. A vida do nosso Antonio terciário também foi escrito por Antonio Daça, La vita e i miracoli di fratel Antonio de Categerò (l’Etiope) santo negro del T.O.F., reunidos a partir de três processos autênticos e de noventa testemunhos juramentados. Valadolid, 1611.

Bispo de Noto, 12 de junho de 1978. A partir da esquerda Don Ottavio Ruta, P. Alberto Morinimissionário St. Paulo, o bispo Dom Salvatore Nicolosi, Con. Noé Rodrigues paróquia de NossaSenora do Ó (S. Paulo) e Mons. Guastella. (No Brasil)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

SÃO GREGÓRIO MAGNO, Papa, Doutor da Igreja e Reformador da Liturgia e Canto Litúrgico.




No fim do século VI, Roma desabava no caos e com ela agonizava toda uma civilização. Os rumos da história mudavam drasticamente quando um monge beneditino foi escolhido Papa. Era Gregório I, a quem a História qualificou de "o Magno".

 Como as furiosas e ritmadas ondas de um mar borrascoso irrompem com violência sobre as areias da praia, sucessivas hordas de invasores assolaram, durante mais de 150 anos, a península italiana. Em 410, os visigodos do rei Alarico I, após devastar vilas e campos, chegaram até Roma, cujas muralhas tinham 800 anos sem avistar um exército estrangeiro. E a esplendorosa e já decadente “cidade das sete colinas” foi saqueada durante três dias.

Em vão o Papa SãoLeão Magno tentou deter os vândalos que sulcavam impunemente, em rápidas naves, o Mar Mediterrâneo. O santo Pontífice obteve de seu rei, Genserico, apenas que a população fosse poupada. Mas durante duas trágicas semanas do ano 455, Roma foi minuciosamente pilhada por esses terríveis bárbaros.

Em 472, o suevo Ricimero, apoiado pelos burgúndios, sitiou a capital do império, onde tentou resistir um dos últimos soberanos latinos: Antêmio, mera sombra de autoridade num mundo cada vez mais convulsionado. No dia 11 de julho, a velha urbe foi, pelas tropas do caudilho suevo, saqueada mais uma vez.
Como conseqüência de intrigas políticas, Rômulo Augústulo, um jovem de 13 anos, foi proclamado soberano de um império que já não mais existia. Menos de um ano durou essa triste comédia: em 476, Odoacro, à cabeça de várias tribos de germanos, ocupou aquelas terras onde tremia e chorava de medo o último dos imperadores de Roma...

Uma nova horda de invasores submergiu a península no ano de 489: os ostrogodos. Quiçá 200 mil homens, calculam os historiadores. Em poucos anos, eliminaram os ocupantes da véspera, tornaram-se os donos da Itália e seu rei Teodorico entrou triunfalmente na cidade dos antigos césares.

Após a morte deste grande chefe, em 526, a península italiana transformou-se durante mais de duas décadas num imenso campo de batalha onde godos e bizantinos entrechocavam-se ferozmente, disputando palmo a palmo aquela terra ensangüentada. Várias vezes a Cidade Eterna foi sitiada e conquistada. Seus grandiosos monumentos e palácios desmoronavam-se e a população, outrora mais de um milhão de habitantes, somava agora menos de 100 mil seres desafortunados, na maioria oriunda de outras regiões desoladas pela guerra.

Finalmente, Belisário e Narses, geniais comandantes do exército bizantino, cujo imperador Justiniano reinava na distante e despreocupada Constantinopla, exterminaram o povo dos ostrogodos. Um capítulo trágico parecia concluído e o futuro despontava sereno no horizonte dos romanos sobreviventes.

A catástrofe

Mas o pior estava ainda por acontecer. O sonho da restauração de um passado grandioso evaporou-se no incêndio de uma nova convulsão social.

Como uma avalanche incontenível, em 568, desembocaram no norte da Itália 100 mil guerreiros seguidos por mais de 500 mil anciãos, mulheres e crianças: os lombardos. Esse povo bárbaro, de religião ariana, logo revelou ser um dos mais cruéis e sanguinários invasores que até então haviam penetrado na Europa ocidental. "À sua chegada, a Itália conservava ainda a forma romana nas suas cidades. Mas quando passavam os lombardos com os seus exércitos, desapareciam até os últimos vestígios da organização romana do município".1 Testemunhas desses acontecimentos narram que "as igrejas eram saqueadas, os sacerdotes assassinados, as cidades destruídas e mortos os seus habitantes".  Seu método de conquista consistia na violência e no terror, e para firmarem-se de modo definitivo naquelas terras, eliminavam metodicamente as elites latinas e o resto de aristocracia ainda subsistentes.

Todo o norte da Itália foi conquistado e para Roma acorriam os sobreviventes, fugindo dos horrores que acompanhavam a ocupação lombarda.


A luz da esperança

Outono de 589. Chuvas torrenciais abateram-se sobre a Itália. Os campos ficaram alagados, perderam-se as colheitas e quase todos os rios transbordaram, destruindo pontes e inundando muitas vilas e cidades.

Em Roma, o manso Tibre tornou-se uma torrente impetuosa. Saindo de seu leito e atingindo um nível jamais visto, as águas devastaram a cidade e submergiram no lodo seus bairros menos elevados. O inverno e o novo ano chegaram, e a chuva não cessava de cair. A catástrofe atingiu então proporções apocalípticas: à destruição e à fome acrescentou-se uma epidemia de peste bubônica que se alastrou rapidamente, dizimando a população. Roma agonizava, e muitos se perguntavam se não haveria chegado já o fim do mundo. No auge do drama, atingido pela peste em seu palácio de Latrão, faleceu o Papa Pelágio II.

Sentindo-se desamparados no meio da borrasca, os olhos de todos voltaram-se para a única Luz do mundo: às igrejas acorriam dia e noite os sobreviventes, implorando um raio da luz divina para dissipar as angústias e incertezas que obscureciam o horizonte.

Com efeito, ensina-nos o Papa Bento XVI: "A vida é como uma viagem no mar da História, com frequência enevoado e tempestuoso, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota [...]. Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o Sol erguido sobre todas as trevas da História. Mas para chegar até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz, recebida da luz dEle".

Assim, os romanos do final do século VI perceberam, admirados, que a luz divina já brilhava para eles num límpido espelho. Então o clero, o senado e todo o povo aclamaram a uma só voz: "Gregório Papa!" Era Gregório a "luz da esperança" que refulgia naquele ocaso de uma civilização.


Primeiros anos

Vox populi, vox Dei. Gregório foi, sem dúvida, o varão providencial escolhido por Deus para governar a Igreja naqueles tempos difíceis e decisivos.

Viera à luz no ano de 540, numa nobre e antiga família romana, profundamente católica e com longa história de fidelidade à Cátedra de São Pedro.

Eram seus pais o senador Gordiano, que no fim da vida entraria no estado eclesiástico, e Sílvia, dama conhecida por sua piedade e generosidade, que terminaria seus dias retirada do mundo e consagrada ao Senhor. Ambos, e duas tias de Gregório, Tarsila e Emiliana, são venerados como santos.

A mansão familiar erguia-se num dos lados do monte Célio, lugar privilegiado no centro da Roma antiga. Do alto de suas janelas, que dominavam a Via Triumphalis, podia Gregório avistar à direita o majestoso Arco de Constantino, que se erguia diante do Anfiteatro Flávio (o Coliseu) e, à esquerda, o já muito deteriorado Circo Máximo. À frente, do outro lado da avenida, elevava-se, abandonada, a imensa mole do conjunto dos palácios do Palatino, semidestruídos pelos tremores de terra, os incêndios e os saqueios dos bárbaros. A visão desse triste e monumental cenário não pôde ter deixado de despertar na alma romana de Gregório a esperança de uma futura restauração da grandeza perdida.

Entretanto, ao longo de sua infância e juventude, assistiu a acontecimentos que marcariam profundamente sua vida em sentido contrário.

Presenciou, certamente, na noite de 17 de dezembro de 546, a terrível entrada dos ostrogodos em Roma, seguida da deportação de seus habitantes durante 40 dias, período em que a cidade deserta ficou à mercê dos invasores. E quiçá contemplou, desolado, as muralhas da urbe arrasadas por ordem de Totila, o rei dos bárbaros.

Nesse contraste entre a piedade do ambiente doméstico, solidamente arraigado nas tradições romanas, e a instabilidade de um mundo novo que surgia na violência, transcorreram os primeiros anos da existência de Gregório.


Longa preparação

Após o aniquilamento dos ostrogodos pelo exército do imperador Justiniano, durante vários anos reinou na Itália uma relativa paz que permitiu a Gregório, seguindo a tradição familiar, cursar a carreira jurídica.

Sua aguda inteligência e incomum capacidade organizativa destacaram-no rapidamente nos meios cultos da época, e sua reputação aumentava com o passar dos anos. Entretanto, como dois robustos galhos de uma mesma árvore, cresciam no seu espírito o desejo de empreender grandes obras para ordenar aquela civilização cambaleante e o anelo de abandonar o mundo para consagrar-se unicamente à contemplação das realidades sobrenaturais.

 Quando contava pouco mais de 30 anos, foi nomeado prefeito de Roma, um dos mais altos cargos do governo da cidade. Desempenhou essa função com superior habilidade, enfrentando dificuldades de toda ordem, criadas pelo drama da invasão dos lombardos. Contudo, em meio das mais absorventes ocupações, ressoava sempre na sua alma o chamado a uma vida contemplativa: "Por longo tempo diferi a graça da conversão, ou seja, da profissão religiosa, e, ainda após ter sentido a inspiração de um desejo celeste, eu acreditava ser melhor conservar o hábito secular. Neste período manifestava-se em mim no amor à eternidade, aquilo que eu devia procurar, mas as ocupações assumidas acorrentavam- me" – confessava ele, anos depois, numa carta dirigida a São Leandro de Sevilha.

Em 575, concluiu-se o tempo prescrito e Gregório, aliviado, deixou o mais prestigioso cargo da cidade. Três anos transcorridos procurando solucionar casos e situações irremediáveis, convenceram-no da inutilidade de qualquer esforço humano para salvar aquela civilização: sim, a grandeza temporal da urbe dos césares havia naufragado. Esperar, só em Deus...

A graça operou então a definitiva conversão daquela alma feita para voar nos horizontes infinitos da Fé.


Gregório, monge

Junto com as esperanças terrenas, Gregório deixou para sempre a púrpura do patriciado e revestiu-se das insígnias de uma nobreza mais alta: o hábito monacal. Mas, ao invés de abandonar a conturbada Roma e partir para algum claustro distante, transformou o palácio senatorial do Monte Célio em mosteiro beneditino, sob a invocação de Santo André.

Entregando o governo da casa a um experimentado abade chamado Valêncio, começou como humilde súdito sua vida religiosa. Foram os anos mais felizes de sua existência.

Nesse período, pôde Gregório saciar os seus anelos de isolamento, e abundantes graças místicas de contemplação lhe foram concedidas. Com indizíveis saudades, escreveu décadas depois: "Quando vivia no mosteiro, podia ter, de modo quase contínuo, a mente fixa na oração".


A luz sobre o candeeiro

Entretanto, "não se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para ser posta sobre o candeeiro" (Mt 5, 15). A Sabedoria divina ia lentamente preparando esse varão incomum, por vias não imaginadas por ele, para ser uma verdadeira luz do mundo a brilhar no firmamento da Igreja e da Civilização Cristã.

Após quatro anos de paz monacal foi, por ordem do Papa Bento I, ordenado diácono regional, ou seja, encarregado da administração de uma das regiões eclesiásticas que nessa época dividiam a cidade de Roma. E, pouco depois, o novo Papa, Pelágio II, que reconhecia em Gregório uma longa experiência em assuntos seculares e uma provada virtude, o enviou como apocrisiário (núncio) à capital do Império do Oriente, Constantinopla.

"Como sucede às vezes a uma nave, atada ao cais de modo descuidado, ser arrastada pelas ondas para fora do porto quando sobrevém uma tormenta, assim encontrei-me subitamente no oceano dos assuntos do século" 7, escrevia ele, narrando sua nova situação.

Seis anos de intenso labor na corte imperial proporcionaram a Gregório um útil contato com a cultura e a grandeza bizantinas, mas também com a sinuosa e ambígua política de seus soberanos. As tendências heterodoxas de monofisismo e nestorianismo, que ainda crepitavam ali, foram combatidas com destemor pelo apocrisiário, o qual sabia aliar aos argumentos teológicos uma fina habilidade diplomática.

Sempre acompanhado por alguns monges de Santo André do Monte Célio, Gregório manteve no belo palácio à beira do Bósforo, onde residiam os apocrisiários do Papa, a vida sacral de um religioso, filho de São Bento. Apesar das múltiplas ocupações, todos ali rezavam, cantavam e estudavam as Escrituras, na inteira observância da disciplina monástica.

Por volta do ano 585, pôde Gregório retornar a Roma. Seu maior desejo era retirar-se definitivamente do mundo e enclausurar-se em seu amado mosteiro de Santo André. Porém, os deveres do apostolado e a voz da obediência o chamaram mais uma vez para outros caminhos.

Uma antiga tradição refere que certo dia, caminhando pelas ruas da cidade, ele deparou-se com um grupo de jovens escravos anglos, provindos da longínqua Britânia. Contristado, ao ver gente tão cheia de qualidades submersa nas trevas do paganismo, exclamou: "Não são anglos, mas anjos"! Providencial encontro que o moveria a fazer todo o possível para levar a luz do Evangelho a esse povo e, mais tarde, a promover a conversão de todos os novos e temidos habitantes de Europa: os bárbaros.

Pediu licença ao Papa para dirigir-se ao país dos anglos, com o objetivo de trazê-los ao seio da Igreja. Mas, atendendo às súplicas do povo romano, que não queria ver-se privado de um varão cuja santidade já era notória, Pelágio II o reteve na Cidade Eterna e, ademais, o chamou a si, para servir-se dele como experimentado conselheiro.



A mais alta das cruzes

Após o falecimento de Pelágio II, foi Gregório o escolhido, por unânime aclamação, para ocupar o trono de São Pedro. Considerando-se, porém, indigno, e espantado diante da incomensurável responsabilidade, fugiu de Roma e ocultou-se nas montanhas e florestas vizinhas. Lá foi achado pelo povo e, então, submeteu-se humildemente diante dos inequívocos sinais da vontade divina. A seu amigo João, Bispo de Ravena, que o censurou por não aceitar imediatamente a eleição, escreveria depois, assumindo a repreensão: "Com benigno e humilde afeto, desaprovas, irmão caríssimo, o fato de haver eu fugido, escondendo-me, do peso do governo pastoral!".

Foi solenemente sagrado na Basílica de São Pedro, no dia 3 de setembro de 590. Contudo, tendo sempre diante de si a própria insuficiência e indignidade, manifestava sinceramente sua consternação: "Sinto-me de tal modo esmagado pela dor, que apenas posso falar. Tudo o que contemplo causa-me tristeza, e aquilo que para os outros é motivo de consolação, a mim parece-me aflitivo".

Mas se a humildade o fazia tremer, a Fé na invencibilidade da Cátedra de Pedro incutia-lhe uma sobrenatural fortaleza: "Estou disposto a morrer antes de ser causa de ruína para a Igreja de Pedro. Acostumei-me a sofrer com paciência, mas, uma vez decidido, lanço-me com ânimo resoluto em direção a todos os perigos".


O ponto de vista profético

Gregório I subia ao supremo pontificado, numa cidade desmantelada, símbolo de uma civilização em agonia, e numa Igreja convulsionada pelas invasões, por cismas e relaxamentos. Entretanto, a inspirada clarividência que o caracterizaria até o fim, manifestou-se desde o primeiro momento de seu governo. Diante de uma sociedade devastada por crises aparentemente insolúveis, ele apresentou o ideal da vida cristã em toda a sua radical integridade. O imenso vazio deixado pelo desaparecimento do ius civitatis romano só poderia ser preenchido pelo donum caritatis cristão. O objetivo principal do “Papa monge” seria, pois, elevar continuamente os espíritos à consideração das realidades sobrenaturais, para então viver os acontecimentos temporais sob uma perspectiva eterna. Esse programa, ele o deixou bem delineado na sua primeira homilia ao povo romano, no segundo domingo do Advento de 590.

Assim procedendo, São Gregório fechava para sempre a última porta que unia a Europa com o mundo antigo, nascido do paganismo, e plantava a semente de uma nova civilização que cresceria sob a luz do Evangelho, regada pelo preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.


Pastor das almas

Durante os primeiros anos de seu pontificado, a península italiana atravessava uma das piores fases do conflito lombardo. Assim descreveu São Gregório aqueles dias calamitosos: "Por todos os lados vemos luto e escutamos gemidos. As vilas foram destruídas, os castelos demolidos, os campos tornaram-se desertos, a terra está desolada e já não há quem a cultive; poucos habitantes ainda ocupam as cidades. Estamos contemplando a que extremo foi reduzida Roma, a mesma que outrora parecia ser a senhora do mundo! Muitas vezes quebrantada por dores imensas, pela desolação de seus cidadãos, pelos ataques de seus inimigos e as ruínas freqüentes... Nela desapareceu todo o esplendor das glórias terrenas. Desprezemos com toda a alma este mundo quase extinto, e imitemos a conduta dos santos".

Abandonada quase totalmente pelos bizantinos, a antiga urbe foi duas vezes sitiada pelos ferozes lombardos. Mas em ambas, graças à fortaleza e habilidade do novo Papa, o cerco foi levantado e eles se retiraram. Empenhado não na destruição, mas na conversão dos invasores, São Gregório assinou uma trégua com eles e procurou por todos os meios atraí-los à verdadeira Fé. Depois de não poucas tentativas, foi possível - graças ao fervor e à influência da princesa Teodolinda, filha do rei católico da Baviera e esposa do caudilho dos lombardos - batizar o filho do casal e preparar assim a futura conversão de todo o povo.

A sede de almas do Sumo Pontífice fez reflorescer para a Igreja todo o ocidente da Europa. Na Espanha, apoiou eficazmente São Leandro na difícil evangelização dos visigodos arianos. Quando, por fim, o monarca dessa nação abraçou a religião verdadeira, escreveu São Gregório, cheio de júbilo: "Não posso exprimir com palavras a alegria que sinto porque o glorioso rei Recaredo, nosso filho, aderiu à Fé católica com sincera devoção". A Gália mereceu especial atenção do santo Papa. Travou ele boas relações com os soberanos francos, renovou o clero decadente e simoníaco, ordenou a convocação de sínodos e procurou com energia pôr fim às cruéis práticas pagãs que ainda perduravam.

Onde pôde São Gregório manifestar todo seu ardor missionário, foi na conversão da Grã Bretanha. Outrora província do Império, esta ilha tinha sido evangelizada já nos primórdios do Cristianismo. Porém, invadida e dominada pelas tribos dos bárbaros anglos e saxões, a luz da Fé quase se havia apagado. O Pontífice não poupou esforços na conversão desse povo: estabeleceu uma casa de formação em Roma para os jovens anglo-saxões, conseguiu que um dos seus reis contraísse núpcias com uma princesa católica da França e, sobretudo, para lá enviou um grande número de missionários. Destacou-se entre eles Agostinho, que mais tarde seria Arcebispo de Cantuária e que, segundo narram as crônicas, batizou mais de 10 mil neófitos no dia de Pentecostes de 597. Sem dúvida, a conversão deste povo constitui o episódio culminante da obra evangelizadora de São Gregório.


O grande Papa Gregório I, embelezou

ainda mais a Liturgia da Igreja
Uma luz inextinguível

No ano de 604, Gregório, na paz dos justos, entregava a alma ao Pastor dos pastores. Apesar de várias moléstias que lhe causavam sofrimentos terríveis, permaneceu firme e vigilante até o fim. A sentinela de Israel partia, mas a luz por ele acendida, "brilhará diante dos homens" (Mt 5, 16) até a consumação dos séculos.

Tudo nesse varão providencial fora grande, graças à sua humilde docilidade diante dos desígnios do Espírito Divino que governa a Esposa de Cristo. Quando todo um mundo parecia desabar no caos, soube São Gregório confiar cegamente no triunfo da Santa Igreja e, pelo dom de sabedoria que o Espírito Santo lhe concedera, discernir novos rumos e metas para o povo de Deus. Pode-se afirmar, sem a menor pelo vastíssimo horizonte descortinado por seu olhar contemplativo passaram todos os problemas do tempo, e não houve obra que ele deixasse de empreender para alargar o Reino de Cristo dúvida, que.

A vida desse Papa admirável constitui um marco fundamental na História da Igreja. Publicou a "Regra Pastoral", um verdadeiro manual de santidade para os pastores do rebanho do Senhor; reformou a Liturgia, criando o estilo de canto que hoje leva seu nome; e fez do conjunto do seu Pontificado o ponto de partida de uma nova civilização, inteiramente cristã.

No entanto, seu único e ardente desejo era servir incondicionalmente, como simples escravo, a Jesus Cristo, o Rei Eterno. Por isso, enquanto do alto da Cátedra de Pedro regia os destinos do mundo, não quis receber outro título senão o de servus servorum Dei - servo dos servos de Deus.

E a Santa Igreja, com maternal gratidão, uniu a grandeza ao nome do escravo: para todo sempre será ele chamado São Gregório, o Magno.


(Pe. Pedro Rafael Morazzani Arráiz, EP - Revista Arautos do Evangelho, Set/2008, n. 81, p. 32 à 37)

domingo, 27 de setembro de 2015

Venerável Serva de Deus Luísa Margarida Claret de la Touche, Virgem da Ordem da Visitação.


Madre Luísa Margarida Claret de la Touche, monja da Visitação, nasceu em Saint-Germain-en-Lay (França) no dia 15 de Março de 1868, numa família burguesa e abastada. Atraída pela vida contemplativa, entrou no mosteiro da Visitação de Romans, na diocese de Valence, a 20 de novembro de 1890.
Vivia numa profunda união com o Senhor e forte espiritualidade. No ano de 1902, o Senhor revelou a Irmã Luísa Margarida o que tinha a dizer aos sacerdotes e o que devia fazer para a santificação deles.
No dia 5 de junho desse ano, vésperas da festa do Sagrado Coração de Jesus, recebe uma missão particular para cumprir na Igreja: recordar aos sacerdotes as inexplicáveis riquezas do amor do Coração de Cristo, continuando a missão já iniciada com as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque.
Nas várias revelações recebidas de Nosso Senhor em datas diferentes, a missão abrange a santificação dos sacerdotes, a união destes com os bispos e entre si, e a irradiação no mundo do amor do Coração de Jesus.
Em razão da certeza do grande amor que esse mesmo Coração tem por seus sacerdotes, e a confiança neles depositada, numa revelação Irmã Luísa Margarida intui: “Preciso deles para realizar a minha Obra!” Esta obra toma o nome de “Aliança Sacerdotal”.
Em sua vida, as mensagens começaram num momento em que a Igreja está abalada pelas teorias modernas, que em alguns casos conseguem demolir as próprias verdades da fé. Ela, na sua simplicidade, traz à Igreja uma evocação forte para ler a história como sinal do Amor divino e um convite específico aos sacerdotes para tornar visível o amor e a misericórdia de Deus pelo mundo.
A essência das revelações e das suas inspirações se encontra no livro “O Sagrado Coração e o Sacerdócio” , assim como em uma oração pelos sacerdotes, difundida desde 1905 e traduzida em 22 línguas.
Madre Luísa Margarida indicou caminhos e percursos ainda não abertos, e que desabrocham com o Concílio Vaticano II, em Presbytorum Ordinis, Pastores dabo vobis, ajudando os sacerdotes a crescerem na oração, na comunhão e na unidade.
Tantas páginas do diário de Madre Luísa Margarida podem ser lidas, hoje, como profecia de quanto amadureceu a Igreja com o Concílio.
Nos inícios do século XX, ainda na Ordem da Visitação, deu início, na Itália, em Vische-Turim, a partir de seus escritos e de sua ação apostólica, às Obras: Aliança Sacerdotal - 1913 (para sacerdotes), e um novo mosteiro contemplativo em 1914 como suporte exclusivo da Aliança Sacerdotal. Diante da resistência dos superiores da Visitação viu-se obrigada a deixar a Ordem para assegurar o bom êxito das suas atividades apostólicas.
Faleceu em 1915 após uma vida de forte espiritualidade, cumprindo a missão que recebeu do Senhor de propagar a fé e a devoção a Deus-Amor Infinito.
Em 1918 o Mosteiro contemplativo por ela fundado na Visitação tornou-se uma Congregação independente com o nome definitivo de Betânia do Sagrado Coração.

Venerável Serva de Deus Joana Carlota de Bréchard, Virgem da Ordem da Visitação.


 
A Serva de Deus, Madre Joana Carlota, foi a segunda companheira de Santa Joana Francisca Fremiot de Chantal na fundação da Ordem da Visitação de Santa Maria. Nasceu em Vellerot (Côte-d’Or), 1580.
Bem educada para viver em sociedade, era dotada de um coração extremamente generoso. E na vida religiosa Deus a conduziu pela via dos sofrimentos que ela recebia humildemente da mão de Nosso Senhor.
Era ardente em praticar a caridade, zelosa pela salvação das almas. Faleceu em Riom (França), em odor de santidade. Seu corpo ficou incorrupto durante muitos anos exalando suave perfume. Por sua intercessão, foram registrados vários milagres e inúmeras graças alcançadas.
O Processo de beatificação, iniciado pouco após a sua morte, foi interrompido por ocasião da Revolução francesa. As religiosas da Visitação, buscando a continuidade desse Processo, pedem às pessoas que obtiverem graças por seu intermédio, comunicá-las ao Mosteiro da Visitação - São Paulo.

Pensamentos da Serva de Deus:
“Lancemo-nos cm todas as nossas preocupações nos braços da Divina Providência porque ela governa com suavidade aqueles que se lhe confiam”.
“Não vos compareis a ninguém. Deixai que cada um siga o seu próprio caminho. E vós, segui o vosso segundo a vontade de Deus”.
“Ventos e tempestades passam, mas Deus e suas obras permanecem para sempre”.

Oração:
Santíssima Trindade, pela intercessão de São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, dignai-vos glorificar a vossa Serva Joana Carlota de Bréchard, que, ardendo em caridade divina, tanto se dedicou aos pobres e trabalhou pela extensão da vida religiosa contemplativa. Concedei-nos por sua valiosa proteção, e seguindo seu exemplo, amar-vos acima de tudo e dispor de nossos bens e de nosso tempo, indo em socorro de nossos irmãos mais necessitados. E, se for para vossa maior glória, a graça que solicito...