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sábado, 13 de junho de 2015

Beato Francisco de Paula Victor, Presbítero. Beatificado no dia 14 de novembro de 2015.


Em breve, nosso país terá um novo Beato: Padre Victor de Três Pontas. Abaixo, o relato de sua belíssima vida. 

Foi no dia 12 de abril de 1827, na pequena cidade de Campanha, no sul do Estado de Minas Gerais, na fazenda da senhora Mariana de Santa Bárbara Ferreira, que a escrava Lourença Justiniana de Jesus deu à luz um menino, que foi batizado no dia 20 do mesmo mês com o nome de Francisco de Paula Victor. Como no dia 12 de abril o Martirológio [catálogo dos mártires que foram santificados pela Igreja] indicava, entre outros, o nome de São Vítor, acredita-se que daí tenha-se originado o seu sobrenome.

Na fazenda de D. Mariana, sua madrinha e educadora, Francisco cresceu, sempre admirado e amado por todos. Era um garoto robusto, cheio de saúde e obediente. O seu caráter piedoso fazia-o espelho para os demais. Tendo sido extremamente pobre, nunca abandonou a modéstia e a disciplina.

Acredita-se que ele não tenha sido criado como cativo, pelo fato de sua madrinha e senhora D. Mariana, proprietária da fazenda ter sido abolicionista.

Ainda jovem, Francisco de Paula Victor aprendeu o ofício de alfaiate. Mas aos 21 anos de idade, sentiu outro desejo: o de ser padre. Assim, aproveitando a visita a sua cidade de D. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana, o jovem alfaiate foi ter com ele, confessando-lhe o desejo e a vocação religiosa. Dom Viçoso, certificado de suas boas intenções, nada mais fez senão animá-lo no digno propósito de tornar-se um sacerdote. Logo depois o aconselhou a estudar latim e música. Ajudado por sua madrinha e "senhora", Victor dedicou-se com muita perseverança, no início com dificuldade, mas em poucos meses de dedicação, já dominava ambas as matérias.

Assim, em 5 de junho de 1849, apareceu no Seminário de Mariana um negrinho corpulento, de cara chata, nariz esparramado e muito beiçudo.

Vestido pobremente, supunham os seminaristas que aquele moleque feio vinha para ser ajudante na cozinha ou para outro qualquer serviço subalterno.


O seminário, as humilhações e a vitória.

Ao saberem os colegas seminaristas que o negro era como eles, um estudante e candidato ao sacerdócio, ficaram atônitos, A sua admissão no Seminário causou desagrado aos estudantes orgulhosos, que se sentiram deprimidos por terem que conviver ao lado de um negro. E comentavam uns com os outros: Como é possível ser um padre, um ministro de Deus, um negro tão feio, um tipo tão hediondo? Foi necessária a intervenção do bispo de Mariana, D. Viçoso, para acalmar os ânimos dos exaltados seminaristas, dizendo a eles que aquele negro possuía alma alvíssima.

Uma vez que o bispo o admitira no seminário, no meio deles, os brancos, e não na cozinha ou na cocheira, como queriam, começaram a menosprezá-lo, a reduzi-lo a mero criado. E incrementaram as humilhações:

-"Negro, escove as minhas botas."

-"Beiçudo, limpe a minha roupa."

-"Macaco, arranje essa cama."

-"Sim, senhor. É para isso mesmo que eu vim." respondia Francisco e sem nenhuma relutância o humilde estudante preto, executava as recomendações recebidas.

Essa docilidade lhe valeu, logo mais, o afeto e o carinho de todos os seminaristas, que passaram a considerá-lo, dedicando-lhe respeito e atenção. Ninguém mais se envergonhava da sua companhia, e todos com ele ombreavam, fraternalmente.


O novo sacerdote e a cidade de Três Pontas.

 Francisco de Paula Victor foi ordenado por D. Viçoso, em 14 de junho de 1851, aos 24 anos de idade. Permaneceu, após ordenado, quase um ano em Mariana, sendo, então, nomeado vigário da cidade de Três Pontas, também Minas Gerais, em 18 de junho de 1852.

Assumindo a direção espiritual dos trespontanos, sentiu logo que além da prática religiosa, era necessário dar instrução ao povo. E, sem auxílio algum dos poderes públicos, Padre Victor, como passou a ser conhecido, fundou o Colégio Sagrada Família, onde os alunos encontraram além da instrução o vestuário e, sobretudo, o exemplo prático das mais edificantes e sólidas virtudes.

Foram numerosos os estudantes, uns internos e outros em regime semiaberto, admitidos no Colégio, gratuitamente. Afirma um historiador campanhense que, no ano de 1874, nada menos que 186 alunos estavam ali recebendo educação e formação. Padre Vítor fez de muitos filhos de famílias pobres, homens de cultura que passaram a sobreviver da inteligência e da educação que ali receberam.

Durante 53 anos de ininterrupta atividade, Padre Victor foi o pároco da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, da cidade de Três Pontas, nunca deixando os fiéis sem a celebração da Missa dominical.

A fama de "cidade piedosa e acolhedora" de que goza Três Pontas, até hoje, é, em grande parte, devida a esse generoso protetor e benfeitor.

A modéstia do seu trato, a bondade de seu olhar, a humildade de sua palavra, toda sua vida, enfim, tão simples e pura, demonstravam a nobreza do seu caráter. Para ele todas as felicidades do mundo se concentravam em servir a Deus, a vivenciar o Evangelho de Jesus, amando o semelhante despretensiosamente.


Homem da caridade e da Providência divina.

 A sua residência era um verdadeiro "hotel", principalmente dos pobres, que ali dormiam e se refaziam, restabelecendo suas condições físicas e espirituais. Muitos leprosos foram por ali hospedados e tratados com dignidade e amor.

Narra o Sr. Francisco Antônio Rabelo de Mesquita, então acólito de Padre Victor, que certa manhã o vigário saía para a igreja, quando a criada lhe comunicou que não havia nem café nem açúcar. Ele não teve dinheiro para deixar-lhe, a fim de que comprasse o que faltava.

A Santa Missa foi celebrada em homenagem a uma pessoa falecida em outra localidade. Quem a solicitou deu a espórtula num envelope fechado.

Voltando para a casa, Padre Victor foi abordado por uma mulher que lhe implorava certa quantia pra adquirir remédio para o filho doente, pois o farmacêutico não lhe permitia o pagamento posterior da medicação. Na mesma hora o vigário tirou do bolso o envelope fechado e o entregou à mulher. Minutos depois, ela o procura em sua residência para devolver-lhe o envelope, já que nele a quantia existente era muito acima do valor do remédio.

"São seus, já lhos dei", replicou o nobre sacerdote.

Vivia em extrema pobreza. Tudo o que ganhava dava-o aos pobres. Certa vez, uma senhora chamada Joana, sua vizinha, fez um prato de abóbora d'água e mandou uma pessoa levar para a irmã dela. Entretanto, o emissário não entendeu bem e levou o alimento para o Padre Victor. Ao saber do sucedido, D. Joana foi pedir-lhe desculpas por ter ele recebido um prato tão simples, e ele agradeceu dizendo que foi muito bom e providencial, porque naquele dia ele estava com fome e não tinha nada para comer. E, tendo comido aquele prato de abóbora ficou muito feliz.


Exemplo de vida, enfermidade e santa morte.

Disse Jesus: "Curai os enfermos; expulsai os demônios; dai de graça o que de graça recebestes; amai o vosso próximo como a vós mesmos; não possuais nem ouro, nem prata, nem cobre em vossos cintos., Nem alforje para o caminho, nem duas túnicas, nem alparcatas, nem bordão, porque digno é o operário do seu alimento".

Assim procurou fazer Francisco de Paula Victor, transformando-se no esteio dos desvalidos, no arrimo dos esfaimados, no consolo dos aflitos e na esperança dos atribulados, vivendo para servir, sem nenhuma preocupação em ser servido.

Abraçou a bandeira de uma ideal para vivê-lo. Foi um homem cônscio de suas responsabilidades. Preparou-se, não para mandar que os outros fizessem, mas para fazer de sua vida um espelho, a fim de que pudesse refletir o seu ideal.

Durante os 78 anos em viveu, procurou ser sempre fiel a Jesus. Nunca a sua porta fechou-se para as necessidades alheias.

Em 1903, já muito idoso, Padre Victor foi à cidade de Poços de Caldas, em busca de melhoria para a sua saúde bastante precária. Cerca de dois anos após o seu regresso desta cidade, agravaram-se os seus sofrimentos, vindo a falecer às 22h do dia 23 de setembro de 1905. Seu corpo, insepulto por três dias, exposto a visitação pública, não tendo sido submetido a quaisquer tratamentos, conservou-se absolutamente intacto e, conforme relatos da época, exalava delicioso perfume. O funeral contou com a presença de mais de três mil pessoas.

O cantor mineiro Milton Nascimento
defronte ao monumento erguido em
honra do Padre Victor. 
Em 1929, a população ergueu na Praça, que tem o seu nome, uma "Herma" contendo os seguintes dizeres: "Sua vida foi um evangelho, sua memória a consagração eterna de um exemplo vivo. Homenagem ao valor e à virtude".

A sua caridade para com o próximo o tornou popular. Sua fama de padre virtuoso espalhou-se para além do território da paróquia. A devoção ao sacerdote é confirmada anualmente na festa em homenagem a ele em 23 de setembro. Todo ano, de 50 mil a 60 mil pessoas vão até a cidade pedir graças ao sacerdote. É carinhosamente chamado pelo povo de "O Anjo Tutelar de Três Pontas"

O processo de beatificação foi aberto aos 13 de julho de 1993 e complementado em agosto de 1998. A Congregação das Causas dos Santos o aceitou em 2002. O Papa Bento XVI reconheceu a prática das virtudes heroicas, aos 12 de maio de 2011. Na tarde de sexta feira, dia 05 de junho, o Santo Padre o Papa Francisco reconheceu o milagre para sua beatificação: a cura inexplicável de um morador da cidade de Três Pontas, analisada por uma junta médica do Vaticano e por uma comissão de teólogos. Em seu comunicado, a Santa Sé não deu detalhes sobre o milagre alcançado pelo Venerável Servo de Deus.

Exumação para reconhecimento canônico dos restos
morais do Padre Victor. Na foto, o sacerdote incensa
os veneráveis despojos do "padre santo", do "anjo tutelar
de Três Pontas". 

Num país que muito tem lutado para superar os preconceitos raciais, a causa de Padre Victor enche de coragem a todos os que procuram levar vida justa e reta. Um santo negro, como o nosso Venerável Padre Victor, orienta-nos para Deus, que não faz acepção de pessoas, mas a todas acolhe com ternura e compaixão.


Anexo:
Foi beatificado neste sábado (14/11/2015), em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, Francisco de Paula Victor, o padre Victor, sacerdote diocesano que viveu entre 1827 e 1905. A expectativa da Diocese de Campanha é que 100 mil fiéis acompanhem a cerimônia. O presidente da beatificação foi Sua Excelência Eminentíssima, o Cardeal Ângelo Amato, Núncio Apostólico da Santa Sé, representando Sua Santidade o Papa Francisco.

A cidade de Três Pontas realizou um tríduo de preparação para esse evento que aconteceu no aeroporto da cidade às 16 h deste sábado. Bispos, sacerdotes, autoridades civis e militares e fiéis compareceram para celebrar juntos, o rito da beatificação.


O papa Francisco escreveu na carta apostólica que doravante este fiel servidor de Deus pode ser chamado beato. O Santo Padre, em sua carta, chama padre Victor de sacerdote segundo o Coração de Jesus, humilde pregador do evangelho e assíduo educador da juventude.




quinta-feira, 11 de junho de 2015

Beato Inácio Maloyan, Bispo e Mártir (vítima do ódio de turcos islâmicos contra os cristãos armênios).


Choukrallah Maloyan nasceu em Mardin, atualmente, Turquia, no dia 19 de abril de 1869, filho de pais cristãos piedosos. Desde criança, dedicava-se a oração, a caridade e a penitência. Recebeu boa formação acadêmica e religiosa, sendo fluente nas línguas árabe e turca. Descobrindo a sua inegável vocação para o sacerdócio, em 1883 o arcebispo da comunidade armênio-católica enviou-o para estudar a religião no Líbano.
Estudos que foram interrompidos por cinco anos, quando voltou para cuidar da saúde na sua cidade natal. No ano de 1901, já curado, retomou os estudos de filosofia e teologia no Líbano. Tornou-se membro do Instituto do Clero Patriarcal de Bzommar e, em 1896, recebeu a ordenação sacerdotal, tomando o nome de Inácio, a exemplo do seu santo de devoção.
Logo foi nomeado pregador dos sacerdotes e seminaristas do Convento de Bzommar e depois enviado para o apostolado no Egito. Em seguida, em Istambul, Turquia, foi eleito secretário-geral do patriarca, e agraciado com o título de arcipreste. Depois de alguns anos no Egito, regressou a Mardin, onde continuou o seu abnegado trabalho e, por isso, foi nomeado administrador dos assuntos temporais e espirituais dessa eparquia, uma vez que o bispo tinha renunciado ao posto.
Em 1911, viajou para Roma como secretário-geral do sínodo dos bispos armênio-católicos. No mesmo ano, foi nomeado bispo de Mardin, uma das eparquias armênio-católicas mais importantes.
Nessa Sede desempenhou um ministério exemplar, melhorando o nível educativo, cultural e religioso das escolas da comunidade armênia, e difundiu um espírito de grande piedade. Propagou em todas as paróquias de sua diocese o amor e a devoção ao Santíssimo Sacramento, ao Sagrado Coração e à Santíssima Virgem Maria.
O seu patriotismo não passou despercebido ao sultão do Império Otomano, que o condecorou com a Legião de Honra. Durante a guerra, os soldados turcos invadiram as igrejas, semearam o terror, aprisionaram e torturam pessoas inocentes, provocando o vigoroso protesto do bispo Maloyan, que exortava os seus sacerdotes a rezar pedindo a proteção de Deus.
Preso de maneira arbitrária quando o governo decidiu acabar com os cristãos na Turquia, foi induzido a professar a fé do islã, mas respondeu energicamente: "Nunca renegarei Cristo, nem os ensinamentos da Igreja Católica, à sombra da qual cresci e da qual, sem ser digno, fui um dos seus ardorosos discípulos", provocando a fúria dos presentes.
Torturado cruelmente na prisão, foi morto no dia 13 de junho de 1915. Porém, antes de partir para a casa do Pai, tomou algumas migalhas de pão, consagrou-as e deu-as aos seus companheiros como corpo de Cristo. O papa São João Paulo II beatificou Inácio Maloyan em 2001, e indicou o dia de sua morte para a sua veneração litúrgica.



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Paixão e morte do Beato Inácio Maloyan e dos seus fiéis.

No dia 1 de Maio de 1915, depois de vasculha infrutuosa da igreja por parte do exército à procura de armas, Monsenhor Maloyan reuniu o seu cléro e deu-lhes o seu testamento espiritual:

Antes de tudo exorto-vos para que fortifiqueis a vossa fé sobre a rocha de Pedro e reforceis a vossa esperança na Santa Cruz... Donde é que provém o desejo de ver o nosso sangue de pecadores misturado com aquele de homens justos e puros? Que os planos do Altíssimo sejam atuados em nós, por todas as maneiras, mesmo com a deportação ou o martírio. O meu desejo maior é de ver o meu rebanho seguindo o meu exemplo e de ficar fiéis às ordens da Sede Apostólica. Confio-vos a Deus, amados filhos, e peço-vos para que rogueis a Deus para conceder-me a força e a coragem de viver esta vida na Sua graça e no Seu amor até a efusão do sangue."

No dia 3 de Junho, solenidade do Corpo do Senhor, chegam na cidade as primeiras notícias sobre a deportação dos Arménios de Dijarbekir em direção à Mossul. Dom Maloyan estava celebrando a Santa Missa, quando ao terminar a procissão, Mardin é circundada pelo exército à cavalo e por milícias. Os militares percorreram as estradas do bairro armeno capturando os nobres (seguiram, em pouco tempo, três grupos de deportados, dos quais o segundo era composto por mulheres, crianças e idosos).

Dom Maloyan recebe a notificação da sua prisão juntamente com seis padres da diocese, acusados de detenção de armas. Conduzidos ao posto policial, Dom Maloyan foi investigado com outras 27 pessoas da sua comunidade.

Na sexta-feira, 11 de junho, na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, foi concedida aos condenados uma hora para prepararem-se à morte. Monsenhor Maloyan pede a permissão para falar aos seus. Depois de ter rogado ao Senhor para lhes conceder a força e a perseverança de suportar o martírio, concede-lhes a absolvição. Em seguida, consagra o pão que os deportados levavam consigo, partiu e deu aos padres e aos leigos que estavam presentes.

Monsenhor Maloyan foi de seguida conduzido sozinho num cavalo até a zona de Kara-keupru, que dista três horas de Dijerbekir. Ali, com apenas 46 anos, após ser cruelmente torturado, foi finalmente executado com um tiro na cabeça. No total, morreram naquele primeiro massacre de cristãos de Mardin 415 pessoas.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Serva de Deus Matilde Salem, Leiga e Colaboradora Salesiana.





A situação síria, marcada por confrontos e violências há já dois anos, impeliu o Papa Francisco a promulgar, para o dia 7 de setembro próximo, um dia especial de oração e de jejum. A Família Salesiana (FS), unindo-se a esta intenção, está convidada a olhar para esta figura ainda pouco conhecida da Serva de Deus Matilde Salem (Alepo, 1904-1961) inspiradora e sustentante da presença salesiana em Síria.
Matilde Salem (pronuncia-se “sálem”) foi mulher moderna, construtiva, capaz de autoeducação, porque, observando a situação da população síria, compreendeu que o futuro da juventude dependeria da sua capacidade profissional: só o trabalho digno e certo, teria plasmado diversamente o futuro da sua Pátria.
A Serva de Deus viveu para a sua Pátria, sem desposar ideologias de partido ou visões parciais, mas buscando ver cada pessoa com o mesmo olhar de Deus. Na sua Síria, hoje dilacerada, soube impulsionar e construir uma nova civilização, não só distribuindo profusamente a riqueza que marcava a sua família de nascimento e aquela na qual entrou pela via do matrimônio mas também oferecendo a sua vida – marcada pela enfermidade – pelo bem dos irmãos.
Matilde, embora vivendo uma intensa vida orante, soube conjugar as diferentes facetas da sua personalidade: rica proprietária, administradora perspicaz, mãe para os pequenos órfãos que lavava e penteava, viajora atenta, mulher elegante e anfitriã agradabilíssima e generosa. A tensão ecumênica e inter-religiosa que a caracterizava, em tempos em que a só palavra podia soar suspeita, conheceu um elã efetivo, que contagiava, sabendo estreitar laços de estima e de auxílio com todos: com os seus grandes amigos muçulmanos, com os ortodoxos, com os representantes dos ritos orientais cristãos.
Era pois uma mulher síria, oriental, gestora incontestável em seu campo, rica de humor: mulher moderna e ‘Serva de Deus’.
Ao comentar a morte de Salem, em 27 de fevereiro de 1961, o Arcebispo Fattal exclamou: “Santa Matilde!”.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Beato Luís Biraghi, Presbítero e Fundador das religiosas de Santa Marcelina.


Nasceu em Vignate (Itália) a 2 de Novembro de 1801, quinto de oito filhos de Francisco e Maria Fini, agricultores.
De 1813 a 1825 fez os estudos de humanidade, filosofia e teologia respectivamente nos seminários de Castello (Lecco), de Monza e de Milão, distinguindo-se sempre. Como diácono, foi encarregado do ensino de letras nos seminários menores, cargo que lhe foi confirmado depois da ordenação presbiteral (28 de Maio de 1825) que ele desempenhou com paixão.
Em 1833 foi nomeado diretor espiritual do seminário maior: cargo a que se dedicou com incansável caridade, exemplo vivo, para os seus clérigos, de amor a Cristo e à sua Igreja, de total dedicação e de obediência incondicionada. Foi sacerdote exemplar, sempre fiel a Cristo e à Igreja.

Em 1841 o Cardeal Gaisruck quis que ele fizesse parte dos fundadores e redatores do periódico eclesiástico O Amigo Católico. O Pe. Biraghi empenhou-se nesta obra com fervoroso espírito de apostolado, no desejo de conduzir a Cristo a sociedade moderna, atraída por falazes ideologias e pela ilusória confiança no progresso.
Convencido de que a base da sociedade civil é a família e que o coração da família é a mulher, em 1838 abriu um colégio feminino onde as filhas da burguesia emergente podiam receber uma formação cultural e uma sólida educação cristã. O método educativo proposto por ele teve tanto sucesso que em 1841 o Pe. Biraghi abriu um segundo colégio em Vimercate.
Em 1855 obteve o “placet” governativo para a nomeação a doutor da Biblioteca Ambrosiana. Transcorreu o último período da sua vida nesse cargo, residindo com os Barnabitas de Santo Alexandre. Em 1873, foi nomeado Prelado doméstico por Pio IX. Celebrou o 50º aniversário da ordenação sacerdotal em 1875. Faleceu no dia 11 de Agosto.

O carisma de Santa Marcelina vive hoje na Congregação das Irmãs Marcelinas, fundada em 1838, em Cernusco sul Naviglio (Milão), pelo Beato Luis Biraghi. Ele, confiando àquelas ardorosas primeiras apóstolas a missão de “ENSINAR JESUS” na atividade educativa, quis que tivessem Marcelina como modelo, para serem, tal como sua protetora, sinal no tempo, de uma sede de Deus, que transfigura a vida e impele ao serviço dos irmãos, educando mais com a força do amor e do exemplo, do que com muitas palavras.



SEU SEGREDO: Um grande amor a JESUS, centro de sua vida.

SUA MENSAGEM: “Ensinar JESUS mais com a força do exemplo do que com uma multidão de preceitos”. Diretor Espiritual nos Seminários da Diocese milanesa instruiu e guiou os jovens que lhe foram confiados. Doutor e vice-prefeito da Biblioteca Ambrosiana, dedicou seus estudos ao serviço da fé.

domingo, 7 de junho de 2015

Beata Ana de São Bartolomeu, Virgem Carmelita Descalça. Companheira inseparável e confidente de Santa Teresa de Jesus.


  

Nascida a 01 de Outubro de 1549, em Almendral, aldeia pertencente à diocese de Ávila, na Velha Castela, era filha de ricos lavradores, modelos de vida cristã, caridosos para com a pobreza e altamente piedosos.

Órfã aos dez anos, para ganhar a vida fez-se pastora, o que a impediu de estudar. Embora os irmãos se opusessem, Ana, aos 2 de Novembro de 1570, procurou o convento das carmelitas descalças, que Santa Teresa fundara em Ávila. Primeira postulante conversa, Ana foi humilde, profundamente humilde, obedientíssima e serviçal. E a afeição que se estabeleceu entre Ana de São Bartolomeu e Santa Teresa foi rápida e profunda, afeição que havia de durar até a morte, sem que jamais sofresse o mínimo declínio.

Ana principiou a profissão a 15 de Agosto de 1570. Pouco depois, teve uma visão, na qual Nosso Senhor lhe mostrou as devastações que o calvinismo fazia na França. Sequiosa de salvar almas, impressionada, entrou a praticar severas mortificações.

No Natal de 1577, Deus concedeu-lhe uma grande delicadeza: Santa Teresa quebrara o braço, e Ana, desolada por ver a Madre impossibilitada de responder a imensa correspondência, trabalho estafante que era, obteve, miraculosamente, a graça de saber escrever; desde aquela época, tronou-se secretária oficial da santa fundadora. E, de 1579 a 1582, ano em que Santa Teresa faleceu, foi companheira inseparável nas viagens que a venerável Santa teve que empreender, no curso dos trabalhos que exigia o estabelecimento da reforma do Carmelo.

"Às vezes – escreveu a Beata Ana de São Bartolomeu – ela viajava dias inteiros sob a chuva e a neve, não encontrando aldeia alguma por muitas e muitas léguas, não fazendo outra coisa senão tremer até os ossos. À noite, nas hospedarias, não havia fogo, nem meios de o entreter, nem coisa alguma para comer. Os alojamentos eram tais que, das camas, podia-se perceber o céu, e a chuva caía cômodo adentro, Muitas vezes, o hábito de nossa Santa Madre encontrava-se gelado" ...

Alquebrada pela idade (naquela época era raro uma mulher viver além dos 60 anos) pelos duros trabalhos e a oposição dos adversários, faleceu Santa Teresa no mosteiro de Alba de Tormes, a 15 de Outubro de 1582, nos braços da bem-amada filha Ana que jamais lhe negou amais terna afeição.

Considerada a herdeira espiritual da santa fundadora, Ana exerceu no Carmelo uma profunda influência. O Carmelo reformado, foi Ana enviada a Madri e, depois, à fundação de Ocaña, na região de Toledo.

Ali, Nosso Senhor revelou-lhe, pela primeira vez, o desejo de que fosse para a França, então assolada pelo protestantismo. Na França, quando se dirigiu às religiosas, falou-lhes na língua natal, porque só conhecia a língua materna, mas todas a entenderam perfeitamente, como se tivesse expressado no melhor francês: era o milagre do Pentecostes que se renovava. E Ana de São Bartolomeu exprimia-se tão apropriadamente que ninguém duvidava de que o Espírito Santo estivesse falando por sua boca.

Fundadora do mosteiro de Tours, depois de ter sido priora de Paris, sofreu toda sorte de opressão. Invencível, porém sempre confiando em Deus, continuou a combater para manter a reforma francesa no espírito de Santa Teresa.

Vencida – que a luta fora desigual –, tomou o caminho da Bélgica, refugiando-se no mosteiro de Mons. Escolhida, pouco mais tarde, para governar o mosteiro de Anvers, fundado pelo arquiduque Alberto e a arquiduquesa Isabel, ali encontrou verdadeiro paraíso na terra.

"Deus – escreveria depois – ali concedeu-me uma paz e uma consolação inefáveis. Minha oração era mais intensa e mais eficaz. Era mais ardorosa pelo ofício divino que na minha juventude".
Simples e humilde, no convento exercia os ofícios mais pequenos. E as mais altas personalidades do tempo, contritas, procuravam-na para aconselhar-se. Henrique IV venerava-a, e Maria de Médicis e a infanta Isabel amavam-na sobremodo.

Quando o arquiduque Carlos partiu para a expedição de Breda, foi vê-la, com a bem-aventurada palestrando durante muitas horas.


Suportando com imensa paciência as cruéis enfermidades todas que a acometeram no fim da vida, faleceu santamente no dia 07 de Junho de 1626, na festa da Santa Trindade, com setenta e seis anos, sendo enterrada no Carmelo de Anvers. Bento XV beatificou-a no dia 6 de Maio de 1917. (Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume X, p. 138 a 141).

SANTO ANTÔNIO MARIA GIANELLI, Bispo e Fundador.


Hoje, trago ao conhecimento dos leitores do blog Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus a vida de mais um "santo desconhecido", não digo tanto na Itália, sua terra natal, mas, em nosso país. Pertenceu ao nobre quadro de santos do Séc. XIX que sentiram de Deus forte chamado a se dedicar a obras sociais, a amparar os desvalidos, numa Europa devastada por conflitos, guerra, decadência moral, social e pela fome. 
Antônio Maria Gianelli nasceu em Cereta, na Itália, no dia 12 de abril de 1789, ano da Revolução Francesa. Sua família era de camponeses pobres e neste ambiente humilde aprendeu a caridade, o espírito de sacrifício, a capacidade de dividir com o próximo. Desde pequeno era muito assíduo à sua paróquia e foi educado no Seminário de Gênova.
Aos vinte e três anos estava formado e ordenado sacerdote. Lecionou letras e retórica e sua primeira obra a impressionar o clero foi um recital organizado para recepcionar o novo Bispo de Genova, Monsenhor Lambruschini. Intitulou o recital de “Reforma do Seminário”, assim tranquilo, direto e com poucos rodeios, defendia a nova postura na formação de futuros sacerdotes. A repercussão foi imediata e frutificou durante todo o período da restauração pós-napoleônica.

Entre as múltiplas atividades deste santo lígure, da província de Gênova, está uma associação de nome insólito por ter sido fundada por um pároco, a “Sociedade Econômica”, embora de finalidades evangélicas. Propunha-se, com efeito, a educar e assistir moralmente as jovens, confiadas aos cuidados das “Damas da Caridade” - um nome igualmente inusitado, mudado em 1829 para o bem conhecido “Filhas de Maria Santíssima do Horto”, também chamadas de Irmãs Gianellinas. A Congregação teve um rápido desenvolvimento na América Latina, onde o padre Antônio durante suas visitas era chamado pelo povo de “o santo das irmãs”.

Pároco de Chiavari de 1826 a 1838, não se confinou aos limites de sua vasta paróquia. Um ano depois da nomeação já lançara as bases para a fundação de uma congregação masculina, posta sob o patrocínio de Santo Afonso Maria de Ligório, destinada à aprimorar o apostolado da pregação ao povo e à organização do clero, reunindo jovens sacerdotes para as missões populares e para o amparo de paróquias particularmente necessitadas. Os missionários “Ligorianos” assumiram o nome de Oblatos de Santo Afonso Maria de Ligório.
Eleito bispo de Bobbio em 1837, introduziu na diocese as reformas já promovidas como pároco de Chiavari, instituindo um seminário. Neste reapresentava aos estudantes de filosofia e de teologia a negligenciada Summa de Santo Tomás de Aquino, em um momento singular, em razão do avanço de um positivismo ateu e de um racionalismo que se haviam infiltrado até mesmo entre os estudiosos católicos.
Cuidou, pois, da formação do clero com mão enérgica, removendo párocos pouco zelosos e recorrendo com frequência à colaboração de seus oblatos. Pastor vigilante, mas caritativo e compreensivo, tomista convicto, mas não fechado às novas correntes do pensamento e à renovação da filosofia escolástica, que naqueles anos fermentava em torno do grande pensador e santo sacerdote Antônio Rosmini.
D. Gianelli morreu no dia 07 de junho de 1846, aos 57 anos, depois de uma vida relativamente breve, mas intensa, dedicada com coração e espírito de missionário às obras benéficas no campo religioso e social. Na obra escrita que deixou expõem seu pensamento “revolucionário”: a moralidade do clero na vida simples e reta de trabalho no seguimento de Cristo. Reacionária para aqueles tempos tão corrompidos pelo fausto napoleônico das cortes que oprimiam o povo cada vez mais miserável. Portanto um tema atual que deve ser lembrado sempre nas sociedades de qualquer tempo.


Foi canonizado por Pio XII, a 21 de outubro de 1951. Suas instituições femininas ainda hoje florescem, principalmente na América Latina. Por este motivo ainda é chamado de o “Santo das Irmãs”.