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sábado, 9 de maio de 2015

SANTA GEMMA GALGANI, Virgem Passionista, Mística e Estigmatizada.


"Se todos soubessem como Jesus é belo, como é amável, não procurariam senão o seu amor. Nosso coração é feito para amar uma só coisa: nosso grande Deus".

Entre os mais esplêndidos espetáculos da natureza estão as grandes cachoeiras. Nelas, as volumosas águas se precipitam com uma força avassaladora, envolvendo numa misteriosa nuvem, nimbada de irisados lampejos, tudo ao seu redor.

Ao contemplá-las, o espírito se extasia, e é levado a relacionar esse espetáculo com uma realidade de índole sobrenatural: o incomensurável, fecundo e transformante amor de Deus.
Com efeito, provindo de uma altura infinita, a água viva e multiforme da bondade divina desce sobre os homens com infinda abundância. Ela enche de caridade a quem a recebe com boa disposição, trazendo como fruto o desejo ardente de restituir em toda medida possível tal amor gratuito do Criador.

Todos fomos chamados a fazer de nossa existência uma desigual porfia por retribuir a Deus os seus incontáveis benefícios. Algumas almas eleitas, contudo, já nesta Terra experimentam um místico e transformante intercâmbio de amor que as faz viver de algum modo como na eternidade, por uma especial união espiritual com o Redentor.

É o caso de Santa Gemma Galgani, cuja identificação com Cristo foi estreita a ponto de poder ela afirmar: "Não estou mais em mim, estou com meu Deus, toda para Ele; e Ele está todo em mim e para mim. Jesus está comigo e é todo meu".1


Convívio com o sobrenatural

Nascida na cidade italiana de Lucca, em 12 de março de 1878, Gemma teve um curto, mas intenso convívio com sua piedosa mãe. Esta contraíra uma tuberculose de lenta e implacável evolução, o que não lhe impediu de legar aos filhos uma formação verdadeiramente católica.

Uma de suas derradeiras providências fora fazer com que a pequena recebesse a plenitude da graça batismal pela Crisma, antes mesmo da Primeira Comunhão, como era então costume na Itália. E, apesar das dificuldades impostas pela doença, a própria senhora Galgani, auxiliada por uma catequista, incumbiu-se de preparar a filha para receber o Sacramento.

Depois da cerimônia, a menina permaneceu na Basílica de San Michele in Foro para assistir a uma Missa em Ação de Graças e, estando em oração por sua querida mãe, teve seu primeiro diálogo sobrenatural:

- Gemma, queres dar-me tua mãe? - ouviu no fundo da alma.

- Sim, mas só se eu for junto - respondeu ela.

- Não, dá-me de boa vontade tua mãe. Tu deves ficar agora com teu pai. Eu a levarei para o Céu. Mas dás com gosto?

"Tive de responder que sim" 2, confessa a santa em sua autobiografia.


As graças da Primeira Comunhão

Em setembro de 1885, a senhora Galgani entregou piedosamente sua alma a Deus, deixando a filha instalada na casa da tia materna, Elena Landi. Algum tempo depois, Gemma regressou para junto do pai e ingressou como externa no colégio das Irmãs de Santa Zita, fundado pela Beata Elena Guerra.

Aos nove anos, revelando piedade incomum, a menina manifestava enorme desejo de receber a Sagrada Eucaristia. Em vão suplicou durante largo tempo ao confessor, Monsenhor Giovanni Volpi, ao pai e às mestras: "Dai-me Jesus e vereis que serei mais sábia, não cometerei mais pecados, não serei mais a mesma!".

Afinal, o sacerdote acabou por aceder e, apesar da sua pouca idade para os costumes da época, na festa do Sagrado Coração de 1887, Jesus Hóstia entrava pela primeira vez naquela fogosa e inocente alma: "O que se passou naquele momento entre mim e Ele, não saberia exprimi-lo. Jesus fez-Se sentir em minha alma de uma maneira muito forte. Compreendi, então, que as delícias do Céu não são como as da Terra. Sentia-me tomada pelo desejo de tornar contínua aquela união entre mim e Jesus".3

Unir-se a Nosso Senhor, assemelhar-se a Ele, foi a partir daquele momento o único objetivo da vida de Gemma.


Esposa de Cristo Crucificado

Durante o período transcorrido com as Irmãs de Santa Zita, a menina dedicou-se com todo esmero às atividades escolares. Por seu bom exemplo, era a "alma" da escola. Muito benquista pelas companheiras, estas a respeitavam, pois, apesar de pouco expansiva, tinha o dom da palavra concisa e do agir resoluto.

Enquanto isso, o Divino Mestre a cumulava de graças interiores, fazendo- a progredir cada vez mais nas vias da perfeição. A vida da jovem Gemma transcorria envolta em frequentes fenômenos místicos, e isso transparecia de algum modo em seu olhar.

Certo dia, estando já com dezessete anos, nossa santa recebeu de presente um rico relógio e uma cruz com corrente de ouro. E para agradar ao parente que lhe fizera o obséquio, saiu à rua portando-os consigo. À noite, ao se preparar para dormir, apareceu- lhe o Anjo da Guarda dizendo: "Lembra-te de que as únicas joias que devem adornar a esposa de um Rei crucificado são os espinhos e a cruz".4

A jovem, que sempre sentira especial devoção pelos sofrimentos de Jesus, tomou esta advertência com toda seriedade e, desde então, renunciou a quanto poderia servir de pretexto à vaidade, passando a trajar uma simples roupa negra.

Início da "via dolorosa"

Desde a morte da mãe, conta a santa na sua biografia, ela nunca deixara de oferecer algum pequeno sacrifício a Jesus. Era chegada, porém,a hora de começar a sorver em grandes goles o cálice do sofrimento.

Em 1896, uma terrível necrose no pé, acompanhada por agudíssimas dores, obrigou-a a submeter-se a uma cirurgia. Recusando qualquer anestesia, Gemma se manteve imóvel durante a intervenção, enquanto os presentes acompanhavam horrorizados o que mais parecia uma tortura do que um ato terapêutico. Apenas alguns gemidos involuntários a traíram no momento mais difícil da operação, a qual ela suportou sem tirar os olhos do Crucifixo, pedindo ainda a Jesus perdão pela debilidade manifestada. No ano seguinte, seu pai faleceu após perder toda a fortuna, deixando a família em grande miséria.


Encontro com São Gabriel da Virgem Dolorosa

Em 1898, foi Gemma atingida por grave doença na espinha dorsal, ficando prostrada na cama, com dificuldades para fazer o menor movimento.

Em meio a tal moléstia, seu Anjo da Guarda não deixava de consolá-la, e o Divino Mestre servia-se de suas dores para fazê-la progredir na virtude da humildade. Adquiriu também uma particular devoção por São Gabriel da Virgem Dolorosa, religioso passionista falecido trinta e seis anos antes, cuja biografia lera avidamente durante a doença.

Certa noite, após ter feito voto de virgindade e ter manifestado o propósito de vestir o hábito religioso caso viesse a sarar, apareceu-lhe em sonho o santo passionista dizendo: "Faze em boa hora o voto de ser religiosa, mas não acrescentes mais nada". E ao perguntar-lhe Gemma o porquê, retirou o símbolo que levava prendido à batina, deu-o a beijar à enferma e o colocou-o sobre ela dizendo: "Sorella mia! - Minha querida irmã!".

Durante todo esse tempo, seus parentes e conhecidos não deixavam de fazer novenas e tríduos implorando sua cura; ela, porém, permanecia indiferente, dócil aos desígnios divinos. Ao cabo de um ano, para agravar a situação, os médicos lhe diagnosticaram um tumor na cabeça, dando-a por desenganada. Então, uma das suas antigas mestras conseguiu convencê-la a fazer uma novena a Santa Margarida Maria Alacoque. No último dia dessa novena, poucas horas após receber a Sagrada Comunhão, a jovem pôs-se de pé, totalmente sã. Era a primeira sexta-feira do mês de março.


"Não cesses de sofrer por Ele nem um momento"

Na Quinta-Feira Santa do ano seguinte, Gemma, ainda debilitada, praticava no seu quarto a devoção da "Hora Santa em companhia do Senhor no Horto", escrita pela fundadora das Irmãs de Santa Zita, sentindo, enquanto o fazia, uma profunda dor por suas faltas. Terminada a oração, apareceu diante dela a figura de Jesus Crucificado, dizendo-Lhe: "Filha, estas chagas foram abertas em Mim pelos teus pecados. Mas alegra-te, porque já as fechaste com tua dor. Não me ofendas mais. Ama-me como Eu sempre te amei".5

Dias depois, enquanto fazia as orações da tarde, Cristo Crucificado tornou-se novamente visível a ela e lhe disse: "Olha, minha filha, e aprende como se ama. Vês esta Cruz, estes espinhos e cravos, estas carnes lívidas, estas contusões e chagas? Tudo é obra de amor, e de amor infinito. Eis até que ponto Eu te amei. Queres amar-Me verdadeiramente? Aprende então a sofrer: o sofrimento ensina a amar".

Noutra ocasião, enquanto pedia a Deus a graça de amar muito, ouviu uma voz sobrenatural que lhe dizia: "Queres sempre amar a Jesus? Não cesses de sofrer por Ele nem um momento. A Cruz é o trono dos verdadeiros amantes; a Cruz é o patrimônio dos eleitos nesta vida".

Aquelas visões, ao mesmo tempo em que intensificavam a dor pelos seus pecados, traziam-lhe grande consolação e aumentavam nela o desejo de amar a Jesus e padecer por Ele.




A graça dos Sagrados Estigmas

Na véspera da festa do Sagrado Coração desse mesmo ano, Gemma perdeu os sentidos e, ao acordar, encontrou-se em presença da Santíssima Virgem, que lhe disse: "Meu Filho, Jesus, ama-te muito e quer conceder-te uma grande graça; mostrar- te-ás digna dela?". A santa não sabia o que responder. Nossa Senhora continuou, dizendo: "Eu serei para ti uma mãe. Saberás tu te mostrar verdadeira filha?". E, a seguir, estendeu seu manto e a cobriu com ele.

Nesse instante, apareceu-lhe novamente Jesus. Com a simplicidade própria das almas inocentes, assim narra Gemma o acontecido: "Suas chagas estavam abertas, mas não jorravam sangue; delas saíam chamas ardentes. Em um piscar de olhos essas chamas tocaram minhas mãos, meus pés e meu coração". Por mais algum tempo permaneceu ela sob o manto da Rainha dos Céus. Maria a osculou na fronte e desapareceu, deixando a jovem ajoelhada com fortes dores nas mãos, nos pés e no coração, de onde escorria sangue: Santa Gemma Galgani havia recebido a graça dos Sagrados Estigmas.

O fenômeno repetia-se a cada semana. Na quinta-feira, as chagas se abriam à noite, permanecendo até às três horas da tarde de sexta-feira. No sábado, ou o mais tardar no domingo, delas só restavam umas marcas esbranquiçadas.

Além dos estigmas, cuja existência poucos conheciam, eram frequentes na vida de Santa Gemma outras manifestações sobrenaturais, como suores de sangue e êxtases incontáveis, que ocorriam a qualquer instante. Isso tornou o relacionamento com as tias, com as quais vivia desde a morte do pai, cada vez mais difícil.

Tirou-a desse embaraço a piedosa senhora Cecília Giannini, a qual, admirada com os prodígios da graça naquela alma, adotou-a como filha. Em sua nova família, todos votavam-lhe grande veneração. Anotavam com precisão as palavras proferidas nos frequentes arroubamentos e maravilhavam-se com os estigmas sagrados e as feridas produzidas ora pelo látego da flagelação, ora pelos espinhos da coroa.



Encontro com os Padres Passionistas

Foi em junho desse mesmo ano de 1899, tão fundamental na existência da Santa, que Gemma haveria de ter seu primeiro encontro com os padres passionistas, prenunciado por São Gabriel da Virgem Dolorosa.

Nos últimos dias desse mês, haviam começado na Igreja de São Martinho as "Santas Missões", pregadas por sacerdotes dessa ordem. No último dia houve comunhão geral, da qual também participou Santa Gemma. Durante a ação de graças, Jesus lhe perguntou: "Gemma, te agrada o hábito com que está revestido esse sacerdote? Gostarias de te ver revestida dele?".

"Sim," acrescentou o Senhor ao vê-la incapaz de dar uma resposta afirmativa, "tu serás uma filha da minha Paixão, e uma filha predileta. Um destes meus filhos será o teu pai. Vá e manifesta-lhe tudo o que acontece contigo".

Após algumas vicissitudes, tão frequentes nas almas mais eleitas, Gemma acabou por escrever, com autorização de Monsenhor Volpi, ao padre Germano Di San Stanislao, religioso passionista, residente em Roma, cujo nome e fisionomia o Senhor lhe havia indicado.

Dotado de grande talento e virtude, tal sacerdote viajou a Lucca para conhecê-la, e passou a ser um verdadeiro pai para a santa. Durante três anos, conduziu-a com destreza nos caminhos da perfeição. Graças a essa direção espiritual, feita sobretudo por meio de cartas, ficaram documentados os singulares favores recebidos pela angelical jovem. São missivas emocionantes, nas quais transparece toda a beleza de sua alma.


Santa morte de Gemma Galgani...



"Consummatum est"

O último Calvário da virgem de Lucca começou na Páscoa de 1902. Seu corpo, prostrado na cama por terrível doença que a impossibilitava de ingerir alimento, espelhava as penas interiores que padecia sua alma privada de todas as consolações e alegrias sensíveis. "Não sabeis que sou toda vossa? Jesus só!", suspirava Gemma, em meio a um aparente abandono.

Ela havia participado sucessivamente de todos os tormentos do Homem-Deus: suas angústias interiores, seu suor de sangue, a flagelação e suas numerosas chagas, os maus tratos, por obra dos demônios, as profundas feridas da coroa de espinhos, o deslocamento dos ossos e as chagas dos cravos. Faltavam-lhe apenas, para imitar cabalmente o Redentor em sua Paixão, a agonia e a morte em um mar de dores.

Foi o que aconteceu, por fim, no Sábado Santo de 1903. Com apenas 25 anos de idade, a seráfica virgem libertou-se definitivamente dos liames que a prendiam à Terra e recebeu sua "recompensa demasiadamente grande" (Gn 15, 1), o próprio Deus por toda a eternidade.

* * * * * *


A alma de Gemma entrou na glória enriquecida pelo único e real tesouro, aquele que nunca acabará: a caridade. "Se todos soubessem como Jesus é belo, como é amável, não procurariam senão o seu amor".

Com efeito, como o mundo seria outro se ouvisse o conselho da virgem de Lucca e pudesse afirmar como ela: "Meu coração palpita continuamente em uníssono com o Coração de Jesus. Viva Jesus! O Coração de Jesus e o meu são uma mesma coisa.[...] Sim, eu sou feliz, Jesus, porque sinto meu coração palpitar com o vosso, e porque Vos possuo".


(Revista Arautos do Evangelho, Abril/2011)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

SÃO JOSÉ MARIA RÚBIO Y PERALTA, Presbítero Jesuíta e Missionário. Conhecido como "O Apóstolo de Madrid". Dois textos biográficos.



Primeiro texto biográfico

Nasceu em Dalías, Almería, Espanha, em 22 de julho de 1864. Foi o primogênito de doze irmãos. Sobreviveram cinco. Seus pais, agricultores, levaram à prática esse rasgo de piedade tão fecundo que difundiria o que o Padre Patrick Peyton já fazia em meados do século XX com o lema: “A família que reza unida, permanece unida”. Antecipando-se a este apóstolo do Santo Rosário, a família Rúbio o rezava devotamente todos os dias. Nesse ambiente de terna devoção a Maria, o pequeno escalava os umbrais de uma vida santa: humildade, simplicidade, amor a Cristo, abnegação, obediência, espírito de sacrifício e generosidade. Inclinado a adorar ao Santíssimo Sacramento, se via a igreja fechada pedia a chave para encontrar-se com Cristo. Estudou nos seminários de Almería, Granada e Madrid. Nos dois primeiros chamado por dois tios sacerdotes.
Estando em Granada, seu professor de teologia fundamental, Joaquim Torres Asensio, canônico da catedral, percebendo suas qualidades humanas e espirituais, se converteu em sua sombra durante um quarto de século. Pessoa de forte caráter e decisão, muito influente e com recursos, regeu a vida de José Maria em todos os aspectos. Este vivia com discrição e prudência as diferenças que tinha com o prelado granadino por divergências de opinião, trasladando-se a Madrid em 1886 como fiel companheiro seu. Joaquin tinha ganhado um canonicato lá. Então o Santo entrou para o seminário na capital.
Foi ordenado sacerdote em 1887. Os destinos que se seguiram, como vigário em Chinchón, onde ele foi capelão das Clarissas dois anos, pároco em Estremera, e finalmente, sua transferência para Madrid, tudo foi dirigido pelo padre Joaquim. Seu “mentor” coloca-o como professor de latim, de filosofia e teologia pastoral. Apesar de não sentir-se de forma alguma inclinado ao magistério, obedeceu.  Em tudo era-lhe obediente, apesar de, algumas vezes, não concordar com seus planos. A obediência de José Maria, que jamais lhe custou, era guiada pelo lema: “fazer o que Deus quer e querer o que Deus faz”.
A atividade de docente levou-o à exaustão. E seu mentor não poupou esforços para que se recompusesse. O acolheu em sua casa de Segóvia e, por não melhorar, viajou com ele a Cerdedilla, Mondariz, termas de Gándara, Troncoso, costas de Portugal e Lourdes. Após sua recuperação, ele o colocou como notário na arquidiocese e capelão das Bernardas. Quinze anos de sérvio nestas missões. Na ocasião, formava nas verdades da fé aos pobres, aos enfermos e se dedicava à confissão da qual foi autêntico mestre.
Peregrinaram à Terra Santa em 1904, passaram por Roma e conheceram pessoalmente São Pio X. Em seu coração guardava zelosamente o sentimento de ser jesuíta. Seu pai não via com bons olhos esse desejo. Tampouco Joaquim, que interviu evitando que o superior da Companhia o acolhesse em Granada, enquanto viveram ali. Temia perder uma pessoa que julgava vital para ele por seus dotes naturais e virtude. Assim que padre Joaquim morreu, em 1906, José Maria ingressou no noviciado dos jesuítas em Granada. Notificou a sua família a decisão e cedeu a substanciosa herança que lhe deixou o canônico ao seminário de Teruel, cidade da qual foi oriundo.
Passou por Sevilha em 1909, coincidindo com Francisco de Paula Tarín e Tibúrcio Arnaiz, e desempenhou diversas missões, entre as quais, a confissão e a assistência aos enfermos. Todas às noites Padre Rúbio orava ante o Santíssimo Sacramento junto a integrantes da Adoração Noturna.
Estava em Manresa quando seu antigo mestre de noviços, José Maria Valera, que era o provincial e conhecia sua grandeza, o chamou a Madrid. Ali sua fama de confessor se estabeleceu. Os penitentes viam em suas simples e claras palavras, desprovidas de afetação, a voz de um homem de Deus que não fazia concessões a um bem menor e que não titubeava em exigir de todos a radicalidade evangélica. Nesse apostolado tomava todo o tempo que fosse preciso.  Animava os penitentes a realizar exercícios espirituais, a saborear as bênçãos da oração, a realizar um exame de consciência e assumir as contingências do dia a dia por amor a Deus. A intensidade de seu apostolado se dividia em diversas vias: confissões, missões populares, pregações, catequese... Os populosos bairros de Cuatro Caminos, Puente de Vallecas, la Ventilla, Entrevias, el Matadero, em particular os jovens e as crianças haviam se familiarizado com sua presença e ação caritativa. Pôs em marcha escolas dominicais em Mesón de Paredes, e os “catadores” começaram a sentir-se próximos a Cristo.
Seus superiores constataram seus dotes organizativos e lhe confiaram a Guarda de Honra do Sagrado Coração no transcurso do Congresso Eucarístico Internacional realizado em Madrid em 1911.  Consciente do que significa que haja sacrários abandonados, impulsionou o movimento das “Marias dos Sacrários”, mesmo não sendo seu fundador, e participou na instituição das “Damas Apostólicas do Sagrado Coração”.
Quis criar a Obra dos Discípulos de São João. Com a Hora Santa, suscitou autenticas transformações espirituais. As pessoas acorriam em massa para escutar seus sermões. Com sua costumeira forma de falar, despojado de todo artifício, deixava transluzir sua grande vida interior. Teve que lutar com o juízo de alguns padres que não viam com bons olhos suas incursões aos subúrbios da capital, onde morava a ruína e se aglutinavam toda espécie de desprezados e marginalizados pela sociedade. As murmurações e invejas pretendiam cravar-se em seu coração como ardentes dardos, porém, não o conseguiram. Era mais forte seu combate interno.
Em 1917 atravessou uma crise de escrúpulos que lhe causou muito sofrimento. Ante as humilhações e incompreensões, dizia: “Não sei como me vê Deus. Acho que mal. Rezai por mim. Caminho cheio de confusão ao ver o estado de minha alma. Meus amigos, consigam que Jesus tenha misericórdia de mim”.
Sempre dizia que queria morrer em uma primeira sexta-feira de mês. E Deus lhe concedeu a graça. Muito cansado, sentindo-se mal, foi recolhido ao convento do noviciado para repousar. Diagnosticaram uma “angina no peito” e faleceu serenamente no dia 02 de maio de 1929.

Por sua ação apostólica incomparável foi denominado “pai dos pobres”, e, após seu falecimento, o “apóstolo de Madrid”. São João Paulo II o beatificou em 06de outubro de 1985 e o canonizou em 04 de maio de 2003. 
                                                                         


Segundo texto biográfico
Veio ao mundo em Dalías (Almería) no dia 22 de Julho de 1864. Dele disse o seu avô materno:  "Eu morrerei, mas quem viver verá que este menino será um homem importante e que valerá muito para Deus".
Frequentou a escola da freguesia natal e manifestava o gosto de ler as vidas dos santos. Um seu tio, Cônego, mandou-o estudar num Instituto de Bacharelato, mas descobrindo nele sinais de vocação sacerdotal, enviou-o para o Seminário diocesano de Almería. No Seminário de São Cecílio de Granada havia de terminar os estudos de filosofia, teologia e direito canônico. Foi ordenado no Seminário diocesano da Imaculada Conceição e de São Dâmaso, de Madrid, no dia 24 de Setembro de 1887, tendo sido incardinado nesta diocese. Na Capela da Virgem do Bom Conselho, na Catedral de Santo Isidro, celebrou a sua primeira Missa em 8 de Outubro seguinte. Em Toledo, obteve a Licenciatura em Teologia, em 1888, e Direito Canônico, em 1897. Pela manhã, entrava na igreja para rezar, dedicava-se à catequese das crianças e a todos impressionava pela sua austeridade, pobreza e caridade para com os pobres.
Enquanto desenvolvia várias atividades de caráter diocesano, não deixava de atender as pessoas no confessionário, catequese, "escolas dominicais", ao mesmo tempo em que se dedicava a acompanhar diversos grupos em necessidade espiritual.
Peregrinou a Roma e à Terra Santa, deixando-se impressionar de modo especial pelos túmulos de Pedro e Paulo e Santo Sepulcro e Calvário.
Admirando de modo particular a Companhia de Jesus e chamando-se a si mesmo "Jesuíta por afeição", entrou no noviciado da Companhia em Granada e fez os primeiros votos em 12 de Outubro de 1908; trabalhou depois em Sevilha, onde desenvolveu grande atividade apostólica; depois de três anos em Manresa (Barcelona), voltou a Madrid onde, em 2 de Fevereiro de 1917, emitiu os votos perpétuos.
Madrid foi o seu novo campo de apostolado, sendo procurado por muita gente, que atraía pelas suas pregações, porque vivia o que pregava. O seu lema era:  "Fazer o que Deus quer e querer o que Deus faz". Organizou e orientou diversas missões populares em Madrid. Quis fundar um instituto, "Os Discípulos de São João", mas foi impedido de fazê-lo, aceitando a proibição com estas palavras:  "não procuro outra coisa além do cumprimento da santíssima vontade de Deus".
Gozava de dotes místicos e de graças espirituais sobrenaturais, da profecia e da visão. Armavam-lhe ciladas para o apanharem em situações difíceis, mas acabava por impressionar a todos, mesmo os que o queriam ver envolvidos em escândalos e inquietações. Foi formador de muitos cristãos que sofreram o martírio no tempo da perseguição religiosa.
Pressentiu a sua morte e despediu-se dos seus amigos. Debilitado na sua saúde pelo imenso trabalho realizado, foi transferido para Aranjuez, para aí repousar. Mas tudo estava para terminar e José María exclamou:  "Senhor, se queres levar-me agora, estou preparado". Faleceu em 2 de Maio de 1929. Em Madrid, todos diziam:  "morreu um santo". Por isso, milhares de pessoas acorreram ao seu funeral; os seus restos mortais foram trasladados para a casa Professa de Madrid, em 1953.
João Paulo II beatificou-o em 6 de Outubro de 1985, em cerimônia celebrada em Roma e canonizou-o em Madrid, em 2003, onde desenvolveu grande parte do seu ministério e ação sacerdotais e pastorais.
(Fonte: site do Vaticano)



domingo, 3 de maio de 2015

SANTO ESTANISLAU DE JESUS E MARIA Papczynski, Presbítero e Fundador (canonizado em 06/06/2016)





Aos 18 de maio de 1631 nascia João Papczynski (seu nome de batismo) em Podegrodzie, no sul da República Polonesa, então um dos maiores estados da Europa pela sua área de quase 1 milhão de quilômetros quadrados. Seu pai, Tomás, era camponês e um apreciado ferreiro. Durante alguns anos foi prefeito da aldeia e cuidava da igreja em Podegrodzie. Sua mãe, da família Tacikowski, era uma mulher piedosa e ativa. Não pouparam esforços em proporcionar uma sólida formação ao filho.
João frequentou colégios dos piaristas e jesuítas com grandes dificuldades, seja por causa de problemas nos seus estudos, seja em razão de guerras e epidemias no país. Tais interrupções eram preenchidas com o trabalho na propriedade do pai. Mais tarde, no seu escrito Secreta Conscientiae, renderia graças a Deus por lhe haver preservado “a consciência pura e santa” neste período. Cresceram nele, outrossim, a generosidade, a têmpera de espírito e o talento de educador da juventude.
Após concluir a retórica e os dois anos do curso de filosofia no colégio jesuíta em Rawa Mazowiecka, João ingressa na Ordem das Escolas Pias (1654), que havia conhecido cinco anos antes. Contrariava o natural desejo de sua família para que se casasse. Anos depois confessaria: “É muito difícil expressar o quanto eu apreciava a minha vocação, que apenas o próprio Deus em mim despertara”. As Escolas Pias combinavam a espiritualidade mariana com a dedicação à juventude, pelo que João se lhe sente atraído. No Noviciado recebe o nome religioso de Estanislau de Jesus e Maria. Devido aos seus progressos na vida religiosa, já no segundo ano é encaminhado para estudar teologia em Varsóvia, professando aí os votos religiosos (1656).
Tendo recebido dias depois as ordens menores e o subdiaconato, Estanislau e seus coirmãos foram obrigados a abandonar o convento, pois nos arredores de Varsóvia se havia desencadeado uma batalha com os exércitos suecos. Eles fugiram então para Rzeszów, mas logo tiveram de se afastar também dali, porquanto se aproximavam os exércitos de Rakoczy, aliado da Suécia que atacou pelo sul da Polônia. Refugiaram-se em Podoliniec, onde no início de 1658 foi confiado ao irmão Estanislau o ensino da retórica no colégio local. Transferido dois anos depois para Rzeszów, recebeu a mesma incumbência no colégio recém-inaugurado. No dia 12 de março de 1661 foi ordenado sacerdote por D. Estanislau Samowski, bispo de Przemysl. Após atuar por três anos como mestre de retórica em Rzeszów, foi transferido para Varsóvia.
Após sua ordenação, padre Estanislau se envolveu com todo o zelo na atividade pastoral, procurando conciliá-la com outras incumbências de sua comunidade religiosa. Assim, por exemplo, para atender às necessidades dos alunos, redigiu e publicou o Prodromus Reginae Artium, um manual de retórica que teria várias edições. Procurava apresentar à juventude não apenas a forma de “pronunciar belas palavras”, mas também orientações para uma “vida de bondade e nobreza”, a fim de que, “com o passar dos anos, com a conquista da sabedoria e de todo gênero de virtudes, os educandos se tornem um dia um verdadeiro adorno da sua família, um verdadeiro adorno da República”. Dadas às situações da sociedade de seu tempo, Estanislau criticava em seus escritos as desigualdades sociais e a corrupção política. A nobreza se lhe opõe ferozmente, eliminando tais referências do seu livro.
Desde 1663, o padre Papczynski já se havia tornado famoso em Varsóvia não apenas como professor de retórica, mas igualmente como mestre de vida espiritual (pregador e confessor).
Alguns dos seus sermões foram publicados no Orator Crucifixus (1670), em forma de meditações sobre as últimas sete palavras de Cristo. Entre os seus penitentes estavam, por exemplo, o núncio apostólico Antonio Pignatelli (futuro Papa Inocêncio XII) e o senador João Sobieski (futuro rei polonês). Foi também um incansável propagador do culto da Imaculada Conceição de Maria, tendo organizado uma irmandade em sua honra em Varsóvia.
Apesar das inúmeras ocupações, Estanislau era sempre dedicado à vida religiosa do seu instituto. Boa parte dos seus coirmãos reconhecia a sua sincera busca da santidade evangélica, particularmente através da oração e ascese. Exerceu as tarefas de prefeito do colégio, de auxiliar na beatificação de José Calasanz, de representante no capítulo provincial. Ao mesmo tempo, intensificavam-se as controvérsias. Movido pelo espírito do fundador, o padre Estanislau defendia zelosamente a observância religiosa e o direito de eleição dos superiores provinciais. Começa a ser acusado de desordem e revolta. Ele chama este período de “longo martírio”. Busca força e apoio na cruz de Cristo, o que daria origem ao livro Christus Patiens, uma série de reflexões sobre a Paixão do Senhor. Em vista do bem maior, pediu em 1669 a autorização para deixar a Ordem das Escolas Pias, o que foi confirmado pelo breve apostólico de 11 de dezembro de 1670.
Ao receber o indulto de saída em Kazimierz (arredores de Cracóvia), inesperadamente o padre Estanislau leu diante de todos a sua Oblatio, um ato previamente preparado de total entrega a Deus e à Imaculada, anunciando seu propósito de fundar a “Sociedade dos Padres Marianos da Imaculada Conceição” e expressando sua fé neste mistério através do “voto de sangue”, ou seja a disposição de defendê-lo mesmo com a vida. Mais tarde confessaria que a Oblatio era fruto de uma inspiração divina e que a nova ordem “havia sido moldada em [seu] espírito pelo Espírito Divino”.
Depois de rejeitar convites de outras ordens religiosas e benefícios oferecidos por alguns bispos, fixou residência na diocese de Póznan com o apoio de D. Estêvão Wierzbowski, vestindo o hábito branco em honra da Imaculada Conceição (1671). Neste ínterim preparou a regra da nova comunidade (Norma Vitae). A fim de dar início ao seu instituto, dirigiu-se a uma pequena comunidade de eremitas em Puszcza Korabiewska e lhes apresentou a sua nova proposta. Os “eremitas marianos” obtiveram a aprovação eclesiástica no dia 24 de outubro de 1673, através de um decreto do bispo Estanislau Swiecicki.
O Beato era grande devoto da 
Imaculada Conceição de Maria e 

das Almas do  Purgatório
O padre Estanislau se dedicará com todos os esforços para que a nova comunidade possa crescer e ser reconhecida pela Santa Sé, o que se daria em 1699. Inocêncio XII aprovava a última Ordem do clero regular da história da Igreja. Diversas circunstâncias conduzirão o padre Estanislau a incluir como elementos do carisma da nova ordem religiosa o sufrágio pelos fiéis defuntos e o auxílio pastoral à Igreja local além da propagação do culto à Imaculada Conceição, pelo que muitas vezes exclamava: Immaculata Virginis Conceptio sit nobis salus et protectio.
Preocupado com a santificação dos fiéis, escreveu-lhes em 1675 a obra ascético-mística Templum Dei Mysticum. Deixaria ainda uma série de meditações para a Santa Missa intituladas Inspectio cordis.
Consciente de haver cumprido a sua missão, falece a 17 de setembro de 1701 no convento de Góra Kalwaria, pronunciando estas palavras: “Em Vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito”, tendo abençoado antes os seus coirmãos, estimulando-os à observância da regra e expressando o ardente desejo da união com Cristo. Várias dificuldades sobrevirão à nova Ordem após a sua morte, o que dificultaria inclusive a abertura do seu processo de beatificação. Finalmente, em 1992 a Congregação para as Causas dos Santos reconhece a heroicidade das virtudes do padre Papczynski e em 2006 um milagre por sua intercessão.
Hoje a Congregação dos Padres Marianos renovada em 1909 pelo bem-aventurado Bispo Jorge Matulaitis conta com mais de 500 membros em 18 países de todos os continentes.



HOMILIA DO CARDEAL TARCISIO BERTONE NA SOLENE CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA PARA A BEATIFICAÇÃO DE ESTANISLAU DE JESUS MARIA (1631-1701)
Domingo, 16 de Setembro de 2007

Senhores Cardeais, Venerados Irmãos Bispos e Sacerdotes,  ilustres Autoridades civis e militares, queridos membros da Família religiosa fundada pelo novo Beato, queridos irmãos e irmãs!

Antes de tudo agradeço ao Senhor porque me ofereceu, pela segunda vez, a feliz oportunidade de visitar, no espaço de poucos meses, a vossa querida Pátria, a Pátria do Beato Estanislau Papczynski e do Servo de Deus João Paulo II, que todos o esperamos possa dentro em breve ser também ele elevado à glória dos altares. Agradeço também ao Senhor porque precisamente neste santuário, onde ontem à noite nos encontrámos para a liturgia das Vésperas, hoje posso presidir à solene celebração eucarística durante a qual, em nome de Sua Santidade Bento XVI, tive a honra de proclamar Beato o Padre Estanislau Papczynski. Significativo e também comovedor é que tudo isto se realize neste famoso santuário de Nossa Senhora de Lichen, onde há muitos anos os Padres e os Irmãos Marianos, filhos espirituais do novo Beato, desempenham o seu ministério pastoral, seguindo fielmente o carisma do seu Fundador.
Com estes sentimentos de profunda gratidão ao Senhor, gostaria de saudar cordialmente os Senhores Cardeais, os Arcebispos e os Bispos presentes, com uma menção particular e reconhecida ao Bispo D. Wieslaw Mering, Pastor desta Diocese, o qual com espírito de verdadeira fraternidade me acolheu a mim e a quantos me acompanharam. Saúdo com deferência as Autoridades civis e militares locais, regionais e do Estado começando pelo Presidente da República da Polónia, o Sr. Lech Kaczynski.
Hoje se realiza o desejo do Sejm [parlamento] da Res Pubblica das duas Nações [Polónia-Lituânia], o qual no ano de 1764 apresentou à Sé Apostólica o pedido para elevar às honras dos altares “Estanislau Papczynski, um polaco famoso pelos seus milagres” (Volumina Legum, vol. VII, Sampetersburgo 1860, pág. 168, n. 105). Saúdo todos os presbíteros e diáconos, as pessoas consagradas, e entre elas de modo particular os Padres e os Irmãos Marianos com o seu Superior-Geral, Padre Jan Mikolaj Rokosz. Saúdo os peregrinos que vieram aqui de várias partes do mundo, alguns de muito longe. Por fim, dirijo uma saudação aos que, graças às ligações da televisão e da rádio penso sobretudo nos idosos, nos doentes, nos encarcerados podem unir-se espiritualmente a este sugestivo rito litúrgico.
A palavra de Deus, que nos propõe a hodierna liturgia do XXIV Domingo do tempo comum, apresenta-nos o mistério do homem pecador e a atitude divina de extrema e infinita misericórdia.
“O Senhor arrependeu-Se das ameaças que proferira contra o Seu povo” (Êx 32, 14). A primeira leitura, há pouco proclamada, mostra-nos Moisés que depois de ter estabelecido a aliança com Deus, sobe ao Monte Sinai para receber as tábuas da Aliança e detém-se em diálogo com Ele por 40 dias. Os Israelitas, cansados de esperá-lo, voltam as costas a Deus esquecendo os prodígios realizados para libertá-los da escravidão egípcia. O cenário que o autor sagrado descreve torna-se comovedor: Moisés, ao qual Javé revela o pecado dos Israelitas e a sua intenção de puni-los, faz-se advogado e implora com fervor o perdão para aquele povo ingrato e pecador.
Não invoca a justiça de Deus, mesmo sabendo bem que Israel se manchou com a culpa mais grave caindo na tentação da idolatria, mas apela-se à misericórdia divina e à aliança que por sua iniciativa Deus estabeleceu com Abraão, com Isaac e Jacob. E Deus ouve a oração de Moisés: paciente e misericordioso, abandona o propósito de punir o seu povo, que lhe voltou as costas.
Quantos ensinamentos nos oferece esta página do livro do Êxodo! Ajuda-nos a descobrir o verdadeiro rosto de Deus; ajuda-nos a compreender o mistério do seu coração bom e misericordioso. Por muito grande que possa ser a nossa falta, será sempre maior a misericórdia divina, porque Deus é Amor.
Testemunho maravilhoso deste mistério é a experiência humana e espiritual do apóstolo Paulo. Na segunda Leitura, tirada da sua primeira Carta a Timóteo, ele confessa que Cristo, o tocou no mais profundo da alma e, de perseguidor dos cristãos, o fez instrumento da graça divina para a conversão de muitos. Jesus, o verdadeiro bom Pastor, não abandona as suas ovelhas, mas deseja reconduzi-las todas ao redil do Pai. Não é esta, queridos irmãos e irmãs, também a nossa experiência? Quando com o pecado nos afastamos da reta via perdendo a alegria da amizade de Deus, se voltamos para Ele arrependidos sentimos não a dureza do seu juízo e da sua condenação, mas a doçura do seu amor que nos renova interiormente.
“Assim, digo-vos, há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende” (Lc 15, 10). Estas palavras de Jesus, que o evangelista Lucas narra na página evangélica agora proclamada, confirmam ulteriormente em nós a certeza do amor misericordioso do Senhor. A Divina Misericórdia é a boa notícia que não devemos cansar-nos de proclamar e testemunhar neste nosso tempo difícil. Só Cristo, que conhece o ser humano no seu íntimo, pode falar ao coração do homem e restituir-lhe a alegria e a dignidade de homem criado à imagem de Deus. E por isto tem necessidade de colaboradores fiéis e de confiança; tem necessidade de santos e nos chama a ser santos, isto é, verdadeiros amigos e arautos do seu Evangelho.
Autêntico amigo de Cristo e seu apóstolo incansável foi o Beato Estanislau de Jesus Maria Papczynski. Nascido em Podegrodzie numa pobre família camponesa, viveu num tempo em que a Polónia, atormentada por numerosas guerras e pestes, estava a afundar cada vez mais no caos e na miséria. Formado nos sadios princípios do Evangelho, o jovem Estanislau desejava doar-se a Deus sem limites e desde a adolescência sentiu-se orientado para a Imaculada Virgem Mae de Deus.
Com o passar do tempo, o Senhor transformou o pequeno pastor, que gostava pouco de estudar e de frágil constituição física, num pregador que atraía as multidões com a sua sabedoria cheia de erudição e de misticismo profundo; num confessor cujo conselho espiritual era procurado até pelos dignitários da Igreja e do Estado; num professor cuidadosamente instruído e autor de diversas obras publicadas em numerosas edições; no fundador do primeiro Instituto masculino polaco, precisamente a Congregação dos Clérigos Marianos da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria.
Quem o orientou durante toda a existência foi precisamente Maria. No mistério da sua Imaculada Conceição o novo Beato admirava o poder da Redenção realizada por Cristo. Na Imaculada vislumbrava a beleza do homem novo, entregue totalmente a Cristo e à Igreja. Deixava-se fascinar a tal ponto por esta verdade de fé, que estava disposto a dar a vida para a defender. Sabia que Maria, obra-prima da criação divina, é a confirmação da dignidade de cada homem, amado por Deus e destinado à vida eterna no céu. Ele queria que o mistério da Imaculada Conceição distinguisse a Comunidade religiosa que tinha fundado, fosse o seu apoio constante e a verdadeira alegria. Quantas vezes, precisamente aqui, neste Santuário de Maria Mãe das Dores, onde se recolhem em oração multidões de peregrinos, ressoou e continua a ser repetida esta comovedora invocação do Beato Estanislau: “Maria, tu consolas, confortas, amparas, libertas os oprimidos, os que choram, que são tentados, os deprimidos […]. Ó doce Virgem! Mostra-nos Jesus, fruto bem-aventurado da tua vida!”.
Animado pelo amor de Deus, o Beato Estanislau ardia de uma forte paixão pela salvação das almas e dirigia-se aos seus ouvintes com tons prementes como este: “Volta portanto para o teu Pai! Porque andas errante pelo longínquo país das paixões, privado dos sentimentos de amor do Sumo Bem? Volta para o Pai! Cristo chama-te, vai para Ele” (Inspectio cordis, 1, 25, 2).
Seguindo o exemplo do Bom Samaritano, detinha-se ao lado de quantos estavam feridos na alma, aliviava os seus sofrimentos, confortava-os infundindo neles esperança e serenidade, conduzia-os à “pousada do perdão”, que é o confessionário, ajudando-os assim a recuperar a sua dignidade crista perdida ou recusada.
A caridade divina estimulava o Beato Estanislau a fazer-se evangelizador especialmente dos pobres, do povo simples, socialmente discriminado e descuidado sob o ponto de vista espiritual, de quantos se encontram em perigo de morte. Consciente de como estava difundida na época a chaga do alcoolismo, com a palavra e com a vida ensinava a sobriedade e a liberdade interior como um antídoto eficaz contra qualquer tipo de dependência. Animado depois por um profundo sentimento de amor pátrio pela República das Nações polaca, lituana e rutena, não hesitava em estigmatizar a busca do próprio interesse em quantos geriam o poder, o abuso da liberdade nobiliária e a promulgação de leis injustas. Ainda hoje o novo Beato lança à Polónia, à Europa, que fadigosamente procura os caminhos da unidade, um convite sempre atual: só lançando bases sólidas em Deus pode haver verdadeira justiça social e paz estável.
Queridos irmãos e irmãs, o amor do Beato Estanislau pelo homem alargava-se também aos defuntos. Depois de ter vivido a experiência mística do sofrimento de quantos se encontravam no purgatório, rezava com fervor por eles e exortava todos a fazer o mesmo. Ao lado da difusão do culto da Imaculada Conceição e do anúncio da Palavra de Deus, a oração pelos defuntos torna-se assim uma das finalidades principais da sua Congregação. O pensamento da morte, a perspectiva do paraíso, do purgatório e do inferno ajudam a “empregar” de modo sábio o tempo que transcorremos na terra; encorajam-nos a considerar a morte como etapa necessária do nosso itinerário para Deus; estimulam-nos a acolher e respeitar sempre a vida como dom de Deus, desde a concepção até ao seu fim natural. Que sinal significativo para o mundo dos nossos dias é o milagre da “inesperada continuação da gravidez entre a 7ª e a 8ª semana de gestação” que se verificou por intercessão do Padre Papczynski. O dono da vida humana é Deus!
O segredo da vida é a caridade: o inefável amor de Deus, que ultrapassa a fragilidade humana, leva o coração do homem a amar a vida, a amar o próximo e até os inimigos. Aos seus filhos espirituais o novo Beato confiou desde o início esta recomendação: “Um homem sem caridade, um religioso sem a caridade, é uma sombra sem o sol, um corpo sem a alma, simplesmente é uma nulidade. Aquilo que a alma é no corpo, na Igreja, nas ordens religiosas e nas casas religiosas, é a caridade”. Portanto, não admira verificar que, entre tantas contrariedades e cruzes, diversos discípulos seus se tenham distinguido pela sua perfeição evangélica. É suficiente recordar o venerável Servo de Deus Pe. Kazimierz Wyszynski (1700-1755), fervoroso promotor do culto mariano, o Beato Arcebispo Giorgio Matulaitis-Matulewicz (1871-1927), providencial renovador e reformador da Congregação dos Clérigos Marianos e padroeiro da reconciliação entre a Nação polaca e a lituana; os Beatos mártires de Rosica (Bielo-Rússia), Jerzy Kaszyra (1904-1943) e Antoni Leszczewicz (1890-1943), os quais, durante a segunda guerra mundial entregaram livremente a vida pela fé em Cristo e por amor aos homens. Até nos momentos dramáticos da perseguição, a obra do beato Estanislau não foi cancelada. O Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz voltou a dar-lhe impulso, testemunhando, mais uma vez, que o Amor vence tudo.
Queridos Padres e Irmãos Marianos, é-vos hoje confiada a preciosa herança espiritual do vosso Fundador: acolhei-a e sede em toda a parte, como ele, incansáveis anunciadores do amor misericordioso de Deus, mantendo o olhar fixo em Maria Imaculada para que se realize em cada um de vós o projeto divino.
Queridos devotos e peregrinos, a Igreja na Polónia está em festa pela elevação aos altares deste seu filho eleito. O exemplo da sua vida santa e a sua celeste intercessão sirvam de encorajamento a todos para abrir sempre o coração confiante à omnipotência do amor de Deus. Repletos de alegria e de esperança, damos graças a Deus pelo dom do novo Beato e louvemo-lo com as palavras do apóstolo Paulo: “Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém” (1 Tm 1, 17).


Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20070916_paczynski_po.html

http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/card-bertone/2007/documents/rc_seg-st_20070916_beatif-polonia_po.html