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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quarta-feira, 29 de abril de 2015

SANTA CATARINA TEKAKWITHA, Virgem (O "Lírio dos Mohawks", a primeira índia canonizada)





"Um exemplo da liberalidade de Deus para com aqueles que não põem obstáculos à graça divina. Sua vida prova como a graça operou maravilhas na floresta norte-americana”.

“Kateri, eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", disse pausadamente o missionário, enquanto derramava a água purificadora sobre a cabeça de uma jovem índia norte- americana de 19 anos, até então chamada Tekakwitha. Num gesto de gratidão e admiração, ela cobriu a face com as mãos. Assim foi ela recebida na Santa Igreja Católica, com o nome de Kateri ou Catarina.

Foi uma cerimônia singela, como singela era a alma da recém-batizada. Contudo, o oficiante, um missionário jesuíta francês, emocionou-se. "Foi o momento mais feliz de meu ministério", recordaria ele anos mais tarde.

O que encheu tanto de admiração esse sacerdote? O que transformou essa filha de uma feroz nação indígena numa brilhante estrela do firmamento da Igreja?


A resposta se resume nesta única palavra: graça.

Catarina é um exemplo da liberalidade de Deus para com aqueles que não põem obstáculos à graça divina. Sua vida prova como a graça operou maravilhas na floresta norte-americana antes mesmo de ali se firmar a influência da civilização europeia.



À procura do belo, numa infância atribulada

Ela nasceu em abril de 1856, num aldeamento localizado no atual Estado de Nova York. Seu pai era um chefe dos Mohawk, um dos cinco ramos em que então se dividiam os Iroqueses, hostis à presença de missionários na região. Sua mãe pertencia a uma tribo mais pacífica e era cristã, mas, sendo prisioneira de guerra desde a infância, via-se reduzida a praticar a fé no isolamento e em segredo. Mesmo nessas condições adversas, ela nunca esqueceu as verdades fundamentais do Catolicismo e plantou as sementes da fé na alma de sua filha.

Aos quatro anos Tekakwitha perdeu seus pais e seu irmão menor, vítimas de uma epidemia de varíola. Ela escapou com vida, mas enfraquecida, com cicatrizes e quase cega. Muito pior do que isso, a morte da mãe significava a perda do vínculo vivo com o Cristianismo.

Órfã, ela passou a viver com parentes, recuperando uma relativa boa saúde. Contudo, a vida na tribo em nada favorecia a prática da virtude. Mais do que as demais nações iroquesas, os Mohawk mostravam-se ferozes na guerra e frequentemente cruéis na vitória. O canibalismo não lhes era desconhecido, e os costumes rudimentares e abomináveis se agravavam pela prática de cultos demoníacos.

Apesar de todas essas circunstâncias adversas, os ensinamentos e o exemplo da falecida mãe fizeram germinar na suave e silenciosa alma de Tekakwitha uma certa retidão e um anelo de ordem e beleza. Fugindo das orgias pagãs nos grandes festivais, ela se recolhia à solidão. Facilmente se encantava com as belezas da natureza, por exemplo, com as lindas ninfeias brancas que flutuavam na superfície da água. Eles simbolizavam algo que ela, embora sem saber explicitar, admirava e anelava no mais profundo da alma.

Primeiro encontro com os missionários

Aos 11 anos, um acontecimento a marcou profundamente. Três sacerdotes jesuítas chegaram à aldeia e foram hospedados na habitação do chefe, tutor de Tekakwitha. Segundo a lei da hospitalidade em vigor entre os índios, os viajantes deviam ser bem recebidos, mesmo persistindo as hostilidades entre franceses e iroqueses; e os missionários, por sua vez, implicitamente se comprometiam a não evangelizar ninguém da tribo.

A menina encontrou-se, assim, na feliz circunstância de servir a refeição aos hóspedes. Nunca antes ela tinha visto um europeu. Timidamente, ofereceu a um dos três uma posta de carne de cachorro ainda gotejante de sangue... Ele aceitou e disse-lhe com bondade: "Muito obrigado, minha filha, e que Deus te abençoe!" Os três sacerdotes fizeram o sinal-da-cruz e as orações de costume, antes de iniciar a refeição.

Nos dias seguintes - discretamente, para não incorrer na ira de seus parentes - ela observava admirada a dignidade desses Ministros de Deus no trabalho, na oração e na conversa. Desejava muito tocar o crucifixo que eles levavam nas visitas aos doentes. Em segredo, tentava fazer o sinal-da-cruz e do fundo de sua alma brotava uma ardente prece: "Ó Deus, ajudai-me a Vos conhecer e amar!"



Primeira índia a fazer voto de virgindade

O tempo passava, e essa graça frutificava na alma da inocente jovem. Sua humilde existência era marcada pelo serviço dócil à família que lhe deu acolhimento: trabalhos manuais, nos quais ela revelava excelente habilidade, cuidado dos doentes e idosos da aldeia. As crianças especialmente eram atraídas por sua afetuosa personalidade.

À sua maneira, ela dispensava tanto tempo quanto possível à contemplação. Sua alma tinha sede de Deus, e essa sede não fez senão crescer ao longo de sua curta vida.

Assim chegou Catarina aos 17 anos de idade. Segundo as tradições dos iroqueses, para ela só havia um caminho, o de "casar-se" com algum guerreiro da tribo. Competia aos parentes a escolha do noivo, problema, aliás, fácil de resolver em se tratando da família de um cacique.

Organizou-se para isto uma festa, para a qual foram convidados um valente guerreiro e seus familiares. Tekakwitha ficou encarregada de preparar os pratos de costume e, sem desconfiar de nada, aquiesceu em vestir-se com os festivos trajes e ornamentos próprios à sua categoria de filha de cacique. Quando viu chegarem os convidados, ela ficou um tanto inquieta, mas só percebeu inteiramente o jogo na hora de servir ao jovem a refeição. Segundo o costume iroquês, o casamento se efetuava pelo simples fato de ela passar a "seu noivo" o "prato tradicional" na presença de ambas as famílias!

Demonstrando uma firmeza de resolução geralmente oculta sob sua costumeira suavidade, lançou ao chão o "tradicional prato" e fugiu. Retornando horas mais tarde, depois da apressada partida dos hóspedes, ela teve de suportar a fúria dos parentes.

Durante cerca de um ano, até esgotar- se sua saúde, ela foi tratada como escrava da família, que pretendia pela força quebrar sua vontade. Calmamente, ela deixou passar a tempestade, sofrendo em paz.

Que se passou no coração dessa adolescente - que não era batizada e nunca ouvira falar de virgindade - capaz de levá-la a recusar com tanta decisão o que hoje se chama um bom partido? A pergunta fica sem resposta. Pode-se, porém, conjeturar algo a partir do fato de que poucos anos depois ela, já cristã, foi a primeira índia a fazer voto formal de virgindade.

A graça do Batismo

Com jeito, os missionários jesuítas conseguiram estender seu trabalho de evangelização até mesmo aos terríveis iroqueses. A instrução catequética era dada a pequenos grupos na aldeia, mas a futura Beata estava proibida de frequentá-la. Sempre desejosa de participar, ela ouvia os hinos à distância e secretamente examinava as pinturas dos missionários, depois de encerradas as pregações ao ar livre. Seu isolamento era penoso, mas finalmente Deus interveio.

Certo dia, em suas rondas pela aldeia, um missionário passou diante da habitação do tio de Tekakwitha. Rezando em silêncio, ele pretendia continuar seu caminho, mas um impulso irresistível o fez entrar. Junto com algumas mulheres de mais idade, ela estava calmamente trabalhando na obscuridade. Para ela, a entrada do sacerdote representou quase como uma visão, e foi uma oportunidade enviada por Deus. Abandonando sua habitual reserva, ela expôs-lhe suas lutas para praticar as virtudes e seus desejos de ser batizada.

Profundamente tocado por ver a ação da graça nessa alma, o missionário se dispôs a dar-lhe assistência, mas advertiu-a das probabilidades de uma perseguição. Com toda sinceridade, a valente jovem pôde responder que já conhecia a perseguição e estava pronta para o sacrifício. Ele então providenciou sua instrução formal.

Surpreendentemente, sua família não se opôs. Seu rápido progresso em assimilar as verdades da fé causou admiração aos missionários jesuítas. Pouco depois, em 18 de abril de 1676, ela recebeu a inapreciável graça do Batismo.


Novas provações

Foi uma imensa alegria, mas não o fim das provações.

Na aldeia ainda de maioria pagã muitos tratavam cruelmente essa moça extraordinária e fervorosa cristã. Preocupados com sua segurança, os jesuítas prepararam sua fuga para uma aldeia católica em Caughnawaga, perto de Montreal. Apesar da feroz perseguição de seu tutor, Catarina lá chegou levando nada mais que um cobertor e uma carta para o padre superior dessa aldeia: "Catarina Tekakwitha vai agora juntar-se à sua comunidade. Dê-lhe guia e direção espiritual e o senhor logo perceberá que joia nós lhe enviamos. Sua alma está muito próxima de Deus Nosso Senhor..."

Na aldeia católica ela estava finalmente livre para praticar sua fé, assistir à Missa diária e, enfim, expandir seus desejos de perfeição.

Mas aqui também não lhe faltaram sofrimentos. Algumas pessoas, não tomando em conta a pureza de vida e a santidade dessa heroica jovem, sugeriram- lhe ásperas penitências em reparação por pecados passados. Ela quase perdeu totalmente sua frágil saúde com as severas austeridades às quais se submeteu, afligindo-se por pecados que nunca lhe tinham sequer passado pela cabeça.

Outras pessoas, mal orientadas, murmuravam a respeito de suas ausências durante as horas de recreação. Uma nuvem de suspeita desceu sobre ela, estendendo-se ao sacerdote que dirigia sua alma. Uma tosca cruz gravada num tronco de árvore, e o espaço muito pisado em torno dela, serviram de eloquentes testemunhas para justificar suas ausências e restaurar seu bom nome. Esta provação, contudo, partida da comunidade cristã, foi para ela especialmente dolorosa.

Partida para o Céu

Aos poucos, os habitantes da aldeia começaram a perceber sua santidade e a considerá-la com respeito e admiração. "Catarina só pode ser encontrada em seu caminho para a igreja, para os pobres e para os campos", diziam eles. Até mesmo os franceses habitantes de uma aldeia próxima não escondiam sua admiração por aquela "garota índia que vive como uma freira", assim a qualificavam.

Embora reservada, Catarina se apresentava sempre bem disposta e alegre com todos, e diligente no serviço aos idosos e doentes.

As tribulações e as austeridades de sua vida em breve acabaram com sua saúde. Com alegria sobrenatural sentiu aproximar-se o seu fim. Durante a Quaresma de 1680, alguém lhe perguntou o que ofereceria a Jesus. "Eu entreguei minha alma a Jesus no Santíssimo Sacramento, e meu corpo a Jesus na Cruz", confidenciou ela com candura.

Reverentemente e sem ostentação, ela preparou-se para receber os últimos sacramentos. Tendo distribuído suas poucas posses aos pobres, ela aceitou com gratidão o presente de um novo traje para receber Nosso Senhor Sacramentado com o maior respeito. Não apenas os jovens, mas a aldeia inteira chorava essa inevitável perda.

Sentindo que a vida a ia abandonando, disse ela tranquilamente: "Jesus, eu Vos amo". Sempre que repetia o doce nome de Jesus, as marcas de sofrimento em sua face mudavam para uma expressão de alegria. Assim entregou ela a Deus sua casta alma no dia 17 de abril de 1680, aos 24 anos de idade.

Milagre comovente

Várias pessoas presentes testemunharam um notável milagre que teve lugar poucos minutos depois da morte de Catarina. Sua face, até então marcada pelas cicatrizes da doença e pelos sofrimentos, tornou-se suave, de frescor infantil e incrivelmente bela. A ponta de um sorriso iluminou seu radiante semblante. Todos os circunstantes se mostravam surpresos. Até mesmo os duros guerreiros índios comoveram- se até as lágrimas à vista deste lindo fato.

Com este semblante milagroso, desceu à sepultura. Quebrando os costumes indígenas, ela foi enterrada em um caixão e, assim, seus preciosos restos mortais puderam ser facilmente preservados.

Em 22 de junho de 1980, o Papa João Paulo II a proclamou Bem-Aventurada. É a primeira índia norte-americana a receber essa glória. Em 18 de fevereiro de 2012, o Papa Bento XVI anunciou na Basílica de São Pedro a sua canonização em 21 de outubro de 2012.

(Elizabeth MacDonald; Revista Arautos do Evangelho, Fev/2005, n. 38, p. 38 à 41)

terça-feira, 28 de abril de 2015

SANTO ANTÔNIO MARIA PUCCI, Presbítero Servita e Fundador.


No Batismo recebeu o nome de Eustáquio Pucci e nasceu em Pogiolo de Vernio, na região de Florença, Itália, no dia 16 de abril de 1819. De família católica praticante, teve seis irmãos e enfrentou a resistência destes para seguir a vida de religioso.

Entretanto, aos dezoito anos, ele ingressou no convento dos Servos de Maria da Santíssima Anunciação de Florença, apoiado por todos os familiares, onde mudou o nome para Antonio Maria. Em 1843 fez a profissão religiosa e depois de alguns meses foi ordenado sacerdote. Quatro anos depois foi enviado como vice-pároco para a nova paróquia de santo André, em Viarégio, confiada aos servitas e três anos depois se tornou o pároco, função que executou, durante quarenta e oito anos, até morrer.

Dedicou-se com zelo heroico à cura espiritual e material dos seus fiéis, que o chamavam afetuosamente de "o curador". Padre Antonio Maria enfrentou duas epidemias na cidade, tratando pessoalmente dos mais doentes, pois tinha o dom da cura e do conselho. Os paroquianos respondiam com afeto a esta completa doação.

Ao mesmo tempo, durante vinte e quatro anos, foi o superior do seu convento em Viarégio, e por sete anos superior da Província toscana dos Servos de Maria. Antecipou a forma organizadora da Ação Católica, instituindo as Associações conforme a categoria dos seus paroquianos. Para os jovens: a Companhia de São Luiz e a congregação da Doutrina Cristã; para os homens, aperfeiçoou a já existente: Alma Companhia da Santíssima Maria das Dores; para as mulheres: a Congregação das Mães Cristãs.

Em 1853 fundou a Congregação das Irmãs Auxiliares Servas de Maria direcionadas para a educação dos adolescentes, e criou o primeiro orfanato mariano para as crianças doentes e pobres. Alem disto, introduziu outras organizações já existentes, todas dedicadas às obras de caridade que atendiam os velhos, crianças, doentes e pobres.

Depois de socorrer um doente, numa noite fria e de tempestade, contraiu uma pneumonia fulminante, que o levou à morte em 12 de janeiro de 1892. Foi sepultado no cemitério da congregação, onde permaneceu até 1920, intercedendo e alcançando graças para seus devotos. As relíquias do "curador" padre Antonio Maria Pucci foram trasladadas, em 1920, para a igreja de Santo André, onde ele havia desenvolvido todo o seu ministério sacerdotal.
O papa João XXIII celebrou sua canonização em 1962, e elevou a igreja, que guarda a sua memória, a condição de basílica. Na cerimônia solene ele declarou Santo Antonio Maria Pucci "um exemplo fúlgido de vida religiosa e aplicada à pastoral das almas".

(Fonte: Portal Paulinas) 

domingo, 26 de abril de 2015

SÃO PEDRO ARMENGOL, Mercedário. Grande pecador convertido, modelo de confiança em Maria.


São Pedro Armengol é modelo da confiança. Pecador, arrependeu-se; confiou em Nossa Senhora e foi perdoado.

Nasceu São Pedro Armengol em meados do século XIII, na Catalunha, sendo então o mais novo rebento da ilustre família dos Condes de Urgel. Seus pais eram minto chegados ao rei de Aragão, o soberano daquela região ibérica, frequentando com liberdade a corte.

Nessa atmosfera de alta nobreza, o menino Pedro recebeu esmerada educação. Mas, à medida que foi crescendo, ao invés de permanecer nos bons ambientes e de se deixar influenciar pelos ditames e pela moral da Igreja Católica, foi decaindo nos costumes e na piedade. Passou a conviver com más companhias e se desviou das sendas do bem.

Em vão, os pais fizeram todo o possível para retê-lo. Pedro se desclassificou a tal ponto que abandonou a casa paterna, embrenhou-se no meio da última ralé de bandidos, de sem-vergonhas, e ali se perdeu completamente. Com o tempo, chegou a se tornar chefe de uma quadrilha de salteadores de estrada. Ladrão perigoso, assassino e fugitivo, se a polícia real o apanhasse, certamente seria morto.


Fulminante golpe da graça

Aconteceu porém que, estando ele um dia a vagar pelo mato com seus companheiros de perdição, ouviu ao longe um toque de clarim, típico de gente da corte. Imaginando os preciosos despojos que aquele séquito lhe proporcionaria, Pedro resolve ataca-lo com sua quadrilha.

Mal os dois grupos se encontram, Pedro sai em busca do chefe do destacamento e está prestes a lhe desferir um golpe quando... Percebe tratar-se de seu próprio pai.

Como que tocado por fulminante raio, o bandido permanece imóvel, detendo no ar seu braço armado. Ele, e não o pai. Recebera o golpe fatal: um golpe da graça divina. Por certo, naquele instante alguém, em algum lugar, devia estar rezando por ele a Nossa Senhora…

A vista da nobreza e da respeitabilidade de seu pai deu a ele a ideia de como tinha caído, de como se tornara a escória da sociedade e, por isso mesmo, indigno do ambiente no qual vivia sua família. “Que diferença — pensou ele. Meu pai e minha mãe numa situação honrosa, e eu, entre bandidos! De pessoa limpa e decente, transformei-me num canalha!”

Essas reflexões de índole humana, sugeridas pela graça, foram acompanhadas de outra: “Pequei contra Deus! Isto é o mais grave, infinitamente mais grave, em tudo o que fiz. Ó Senhor, como é grande a minha maldade!”

Confuso e envergonhado, Pedro teve verdadeira contrição dos pecados cometidos. Como o filho pródigo do Evangelho, lançou-se aos pés do pai e pediu perdão. Acabou sendo agraciado pelo Rei, deixando para sempre a roda de malfeitores no meio dos quais vivera. Depois, com toda a humildade, procurou um religioso mercedário, a quem confessou os crimes que perpetrara e expôs os remorsos que lhe torturavam a alma.

Na Ordem de Nossa Senhora das Mercês

Uma vez absolvido de seus pecados, Pedro solicitou, por misericórdia, que o admitissem como mercedário. Os frades resolveram aceitá-lo, reconhecendo seu profundo e sincero arrependimento.

Os mercedários são membros de uma Ordem religiosa consagrada a Nossa Senhora sob esta linda invocação: Nossa Senhora das Mercês. Mercês são os favores que Nossa Senhora concede aos seus devotos. Tanto valeria dizer, pois, Nossa Senhora da Bondade, Nossa Senhora da Generosidade ou Nossa Senhora dos Presentes...

Era missão dos mercedários trabalhar pela libertação dos cativos que viviam sob o jugo de infiéis. De fato, no tempo de Pedro Armengol, o Mediterrâneo era infestado de piratas maometanos que assaltavam os navios católicos, não apenas para roubar, mas para capturar tripulantes e passageiros a fim de transformá-los em escravos. Assim, o norte da África estava repleto desses cativos, tiranizados pelos bárbaros para o resto de suas vidas.

A situação desses infelizes era física e espiritualmente horrenda, posto praticarem os mouros a poligamia e terem uma péssima moralidade, criando deste modo um ambiente venenoso para seus cativos. Porque, tal o mestre, tal o escravo.

Ora, no intuito de cumprir sua heroica missão, os frades mercedários não só se arriscavam a viver em território maometano, como faziam um voto admirável: por amor às almas, oferecerem-se como reféns, para serem trocados por cativos católicos que estivessem no meio dos mouros. Trata-se de uma das mais elevadas manifestações de dedicação que eu conheço. Um homem pode ser grande herói porque assaltou as muralhas de tal cidade, porque combateu como ninguém, etc. Mas, oferecer-se para correr os riscos da escravidão nos domínios maometanos...


No norte da África

Foi esta, precisamente, a forma de heroísmo abraçada por Pedro Armengol. Convertido, ingressou na Ordem dos Mercedários e se tornou excelente religioso. Passaram-se alguns anos e, certo dia, aconteceu o que tinha de acontecer. O Superior mandou chamá-lo e lhe disse:

— Frei Pedro, o senhor está designado para ir libertar os cativos na África.

- Pois não — respondeu ele sem hesitar, certamente pensando no seu intimo: Eu mereço isso pelos meus pecados.”

Atendendo à voz da obediência. Frei Pedro passou um número de anos no norte da África. Numa arriscada existência.

Quando já se preparava para voltar à Espanha, soube que 137 jovenzinhos cristãos, escravizados, jaziam nas casas de seus senhores expostos à depravação e ao risco de perderem a Fé.

Com religioso desvelo. Frei Pedro procurou os mouros e negociou a libertação daqueles cativos. Os infleis exigiram muito dinheiro. Soma tão avultada só poderia vir da Espanha, o que prolongaria ainda mais o tempo da perigosa escravidão dos jovens católicos.

Sem hesitação, Frei Pedro ofereceu-se como refém no lugar deles, até que lhe fosse enviada da Espanha a quantia necessária para o resgate. Os mouros concordaram, impondo entretanto a seguinte condição:

— Damos a eles um prazo para irem à Espanha, recolherem o dinheiro e no-lo enviarem. Durante esse tempo você fica aqui à nossa disposição. Se o dinheiro não chegar até o dia X, nós o enforcamos.

Pendurado na forca, sem perder a confiança em Nossa Senhora

Nos seus insondáveis desígnios, queria a Providência colocar à prova o ex-salteador de estradas. Esgotara-se o prazo estipulado pelos maometanos. Furiosos, cumpriram a ameaça: enforcaram Frei Armengol e, acreditando-o já morto, abandonaram-no pendente da corda.

Pouco tempo depois chega o navio com o dinheiro do resgate. Problemas de navegação haviam determinado o atraso.

— Onde está o Frei Armengol — perguntaram os emissários. A resposta do chefe mouro foi aterradora:

— Chegaram tarde. Ele está no cadafalso, enforcado há três dias, conforme prometi. Indignados com a crueldade do infiel, os frades quiseram ver o corpo de seu irmão de habito.

Ao chegarem junto ao patíbulo, grande surpresa: Frei Pedro, ainda na forca, estava vivo, embora pálido como um cadáver. (Ele conservaria no rosto, por toda a vida, essa palidez cadavérica: e no pescoço, bem visível,a marca da corda.)

Era um milagre extraordinário!

Por humildade, Pedro Armengol nada disse a respeito desse milagre. De volta à Espanha, porém, o Superior lhe ordenou em nome da santa obediência:

— Frei Pedro, conte o que se passou. Com a mesma humildade, ele simplesmente respondeu:

“Nossa Senhora ficou me sustentando o tempo inteiro”. Quer dizer, ele confiara na Santíssima Virgem, e Ela realizou esse estupendo milagre em favor de seu heroico devoto.

Com autorização dos superiores, Pedro Armengol se retirou para um convento nas montanhas, onde viveu solitário, fazendo penitência por sua vida passada e rezando pelos católicos cativos nas mãos dos mouros. Ali cresceu ele em graça e santidade, até o dia em que “adormeceu no Senhor”. Anos depois, a Santa Sé o canonizou.


Admirável modelo de confiança

Para mim, São Pedro Armegol é o modelo da confiança. Pecador medonho, arrependeu- se, confiou e foi perdoado. Mais ainda: recebeu a vocação religiosa! O bandido fora chamado por Nossa Senhora para abraçar a condição de frade.

Insondável desvelo foi também o atraí-lo para a Ordem das Mercês, onde o antigo ladrão haveria de correr riscos que lhe dariam a oportunidade de, ao mesmo tempo, expiar seus pecados e fazer muito bem ao próximo. Subitamente, mais uma prova: ficar como refém, com perigo de morte. A calma da espera, e o navio que não chega...

Vêm os carrascos para matá-lo, ele caminha sereno e tranquilo para o patíbulo. Suspenso na corda, ele percebe naturalmente estar sendo objeto de um milagre.

Outra espera. O que vai acontecer? Chega o dinheiro do resgate, descem-no da corda. A sua confiança estava preenchida.

Este é o tipo de confiança que todo católico deve ter. Ainda que — segundo as pungentes palavras do salmista — imersos no limo profundo, onde nossos pés não encontram terreno sólido, temos de confiar em Nossa Senhora.

(Santos comentados por Mons. João Clá Dias,