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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

SÃO MARTINHO DE PORRES (ou de Lima), Irmão Dominicano e grande Taumaturgo.




Misto de fidalgo e homem do povo, ele nos mostra uma singular via para alcançar a santidade, amando a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente, e ao próximo como a nós mesmos.
São Martinho de Porres ou de Lima é um dos mais brilhantes luzeiros da Ordem de São Domingos e, sem sombra de dúvidas, exatamente por sua pequenez e humildade, um dos maiores santos da História da Igreja. 

    As vastidões do Novo Mundo deslumbravam o homem europeu no longínquo despontar do século XVI. Terras férteis, abundantes riquezas naturais e a esperança de um futuro promissor tornaram-se em pouco tempo uma atração irresistível para os fidalgos ibéricos, que viam nas Américas uma oportunidade de expandir a Igreja de Deus, os domínios do Rei e abrilhantar a honra da sua estirpe.
O entusiasmo que os animava não carecia de fundamento, pois Deus parecia sorrir aos bravos expedicionários, soprando vento favorável nas velas de suas frágeis naus e coroando com o êxito temerárias empresas, movidas muitas vezes pelo desejo de conquistar almas para Cristo, mas muitas outras também por motivos bem menos elevados.
O que reservava a Providência para essas terras infindas, habitadas por povos das mais diversas índoles? O que desejava Ela para aqueles nativos, ora pacíficos, ora belicosos, ora de temperamento selvagem, ora dotados de cultura e técnicas muito desenvolvidas? Algo mais elevado que qualquer consideração política ou sociológica: dar-lhes o tesouro da Fé, a Celebração Eucarística, a graça santificante infundida através dos Sacramentos.
Fruto da heroica ação dos missionários, logo começaram a surgir no Novo Continente Santos dos mais ilustres, que perfumavam com o bom odor de Jesus Cristo os novos domínios e faziam expandir neles, pela oração ou pelo apostolado, as sementes do Reino. Pensemos, por exemplo, na Lima quinhentista. Nela conviviam Santa Rosa, terciária dominicana, hoje padroeira da América Latina, São João Macías, evangelizador infatigável, ou esse modelo de Pastor que foi São Turíbio de Mongrovejo.
Contemporâneo de todos eles, superando-os no dom dos milagres e em manifestações sobrenaturais, brilhou no convento dominicano do Santo Rosário um humilde irmão leigo chamado Martinho de Porres. "Misto de fidalgo e homem do povo, suas virtudes esplendentes contribuíram para conferir à civilização peruana do seu tempo uma beleza e uma ordenação católicas até hoje insuperáveis".

Desejo de servir, à imitação do próprio Cristo
Nasceu ele a 9 de dezembro de 1579 na florescente Lima do tempo colonial, capital do vice-reinado do Peru, filho natural de João de Porres, cavaleiro espanhol, e Ana Velázquez, panamenha livre, de origem africana.
Em sua infância, experimentou ora as larguezas e as exigências da vida nobre ao lado do pai, em Guayaquil - atual Equador -, ora a simplicidade e o trabalho junto à mãe, em Lima, sem apegar-se a um modo de vida nem reclamar do outro. Mas tanto em uma quanto em outra circunstância ele se sentia atraído pela vida de piedade, servindo como coroinha nas Missas paroquiais ou passando noites em claro, de joelhos, rezando diante de Jesus Crucificado.
Contando apenas 14 anos dirigiu-se ao Convento do Rosário e fez um pedido ao provincial dos Pregadores, Frei João de Lorenzana. Que desejaele ao bater à porta daquela casa de Deus? Tornar-se um servidor dos frades, na qualidade de oblato (doado), como então eram designados aqueles que se dedicavam às tarefas domésticas e se hospedavam nas dependências dos dominicanos. O superior, discernindo nele um chamado autêntico, recebeu-o de bom grado.
Doravante suas funções seriam varrer salões e claustros, a enfermaria, o coro e a igreja da grande propriedade, que abrigava por volta de 200 religiosos, entre noviços, irmãos leigos e sacerdotes, alguns deles doutos. De maneira alguma Frei Martinho se envergonhava dessa condição. Sua visão sobrenatural das coisas fazia-o compreender bem a glória que há em servir, à imitação do próprio Cristo Jesus, que Se encarnou para nos dar exemplo de completa submissão.
Após dois anos no exercício dessas árduas tarefas, vinculado à comunidade apenas como terciário, um irmão o chama à portaria. Ali estão à sua espera o superior e seu pai que, regressando de um longo período a serviço do vice-rei, no Panamá, quer reencontrar o filho.
Indignado por vê-lo ocupando posição tão humilde, o fidalgo exige do provincial que promova seu filho pelo menos a irmão leigo. O prior acede, mas os olhos de Frei Martinho, em lugar de se iluminarem de contentamento, ficam umedecidos por lágrimas. Era a sua humildade que falava mais alto, levando-o a implorar ao superior que não o privasse
da alegria de poder dedicar-se à comunidade como vinha fazendo até então.

Vocação de remediar os males alheios
No dia 2 de junho de 1603 ele faz a profissão solene dos votos religiosos, recebendo, além das funções de sineiro, barbeiro e encarregado da rouparia, o cuidado da enfermaria. Ali exerce também, à falta de médico, o ofício de cirurgião, cujos rudimentos aprendera antes de ingressar no convento.
Seus diagnósticos certeiros sobre o verdadeiro estado dos doentes logo começam a se comprovar pelos fatos, muitas vezes contra as aparências. Por exemplo, a um enfermo que todos consideram já às portas da morte anuncia que dessa vez não morrerá; e de fato, em poucos dias encontrava-se curado. Em outra ocasião, vendo Frei Lourenço de Pareja caminhando pelo claustro, comunica-lhe que em breve deixará seu corpo mortal e chama um sacerdote para administrar-lhe os Sacramentos. Instantes depois de recebê-los, o frade expira em seu leito.
Incontáveis curas milagrosas por ele realizadas fazem sua fama ultrapassar os muros do Convento do Rosário. Pequenos e grandes, espanhóis e índios, ricos e pobres vêm pedir auxílio ao santo enfermeiro.
Começa assim a manifestar-se a vocação de Martinho, que "parece ter sido a de remediar os males alheios", não poupando esforços para dar-lhes bom exemplo, conforto físico e espiritual no exercício de suas funções.
"Desculpava as faltas dos outros; perdoava duras injúrias, convencido de que era digno de penas maiores por seus pecados; procurava com todas as suas forças trazer para o bom caminho os pecadores; assistia comprazido os enfermos; proporcionava alimento, vestuário e remédios aos fracos; favorecia com todas as suas forças os camponeses, os negros, os mestiços que naquele tempo desempenhavam os mais humildes ofícios, de tal maneira que foi chamado pela voz popular Martinho da Caridade".

Frequentes manifestações sobrenaturais
De onde vinham estas qualidades incomuns? Sem dúvida, de uma intensa espiritualidade, pois "uma vida como a de Martinho, consagrada por inteiro ao serviço do próximo, com perfeito esquecimento de si, não se explica sem uma intensa vida interior, sem o estímulo da caridade que, [...] mesmo sob o peso da fadiga, não chega a sentir cansaço".
Uma noite, quando a hora já ia avançada, o cirurgião Marcelo Rivera, hóspede do convento, o procura sem conseguir encontrar. Pergunta a este, pergunta àquele, mas ninguém o vira. Acha-o, por fim, na sala capitular, "suspenso no ar, com os braços em cruz, com suas mãos coladas às de um Santo Cristo crucificado, que está num altar. E mantinha todo o corpo junto ao do Santo Crucifixo, como que O abraçando. Estava elevado a cerca de três metros do solo".
Incontáveis testemunhas presenciaram fatos semelhantes. Assim, por exemplo, numa noite em que poucos conseguiam conciliar o sono no prédio do noviciado, devido a uma epidemia que prostrava com altas febres a maioria dos frades, ouve-se de uma das celas:
- Ó, Frei Martinho! Gostaria de ter uma túnica para trocar-me!
É Frei Vicente que, revolvendo-se no leito, entre os suores da febre, clama pelo enfermeiro, sem esperança de ser atendido, pois as portas daquele prédio já estavam trancadas e Frei Martinho vivia fora do mesmo. Mas, mal termina de falar, vê o irmão enfermeiro junto a ele, trazendo nas mãos uma camisa limpa e bem passada. Assustado, pergunta-lhe como fizera para entrar.
- Não cabe a vós saber isso - responde com bondade Frei Martinho, fazendo com o dedo sinal de silêncio.
Não longe dali o mestre de noviços, Frei André de Lisón, ouve a voz de Frei Martinho e coloca-se no corredor para verificar por onde entrara. Passa-se o tempo, e nada! Resolve então abrir a porta da cela do doente: estava sozinho e dormia um sono profundo... A admiração estende-se por todo o convento.
Frei Francisco Velasco, Frei João de Requena e Frei João de Guia também recebem visitas semelhantes. Em outra ocasião, um frade, caminhando pelo claustro, vê passar pelos ares um facho luminoso, fixa as vistas e discerne Frei Martinho voando envolto em luz.
Certa madrugada, ao toque do sino, toda a comunidade se reúne na igreja, como de costume, para cantar Matinas. De súbito, um clarão vindo do fundo ilumina todo o recinto sagrado. Voltam-se para trás os religiosos e descobrem o foco de tão intensa luminosidade: o rosto de Frei Martinho que, tendo descido para ajudar o sacristão, ali estava ouvindo o cântico sacro.

"Deus seja louvado por utilizar tão vil instrumento"
Fatos como estes ocorrem em quantidade e tornam-se públicos e notórios. Aos poucos a fama do Santo se espalha por toda Lima, chegando inclusive até o vice-rei e o Arcebispo. Nada disso, contudo, perturba sua humildade. De maneira alguma consente em perder o convívio com o sobrenatural, voltando-se para si mesmo a fim de desfrutar uma glória humana que passa "como um sonho da manhã" (Sl 89, 5).
Em certa ocasião ele vai visitar a esposa de seu antigo mestre de barbearia, a qual padecia de grave enfermidade. Convidando-o a sentar-se aos pés de seu leito, ela estica discretamente o braço até tocar com a mão na ponta do hábito do Santo. No mesmo instante, sente-se curada e exclama, pervadida de admiração:
- Tão grande servo de Deus sois, Frei Martinho, que até vossas vestes têm poder de curar! Com a esperteza própria à humildade, responde o Santo:
  • Aqui está a mão de Deus, senhora. Ele a curou, através do hábito de nosso pai, São Domingos. Deus seja louvado por utilizar tão vil instrumento para operar tamanha maravilha, e porque o hábito de nosso pai não perde seu valor e devoção, mesmo vestido por tão grande pecador como eu.


"Não sou digno de estar na casa de Deus"
Outro episódio, desta vez ocorrido dentro dos muros do convento, atesta a mansidão de Frei Martinho em suportar as fraquezas que por vezes seus irmãos de hábito manifestavam. Ele as sofria com excepcional cordura, tomando-as sempre como merecidas e úteis para a expiação de seus pecados.
Aconteceu que um antigo religioso acamado mandou chamá-lo na enfermaria, mas como Frei Martinho estivesse ocupado num assunto urgente, demorou um pouco a chegar. Enquanto escoavam-se os minutos o doente tomou-se de impaciência e começou a deblaterar contra o Santo, dizendo toda espécie de injúrias, externando queixas descabidas, fruto do egoísmo.
Logo acudiu ele e pediu desculpas, mas teve de ouvir uma nova catilinária, desta vez pronunciada em alta voz, de modo que os outros frades também escutaram. Preocupados, alguns irmãos se aproximaram e um deles, ao ver Frei Martinho ajoelhado junto ao doente, perguntou-lhe o que estava acontecendo.
- Padre - respondeu o humilde Irmão -, estou recebendo cinzas sem ser a quarta-feira delas. Este padre me ofereceu o pó de minha baixeza e me pôs a cinza de minhas culpas diante de mim, e eu, agradecido por tão importante lembrança, não lhe beijo as mãos porque não sou digno de colocar nelas os meus lábios, mas fico aos seus pés de sacerdote. E, creia-me, este dia foi proveitoso para mim porque dei-me conta de que não sou digno de estar na casa de Deus e entre os seus servos.
Numa fase de privação pela qual passava a comunidade, o padre prior encontrava-se muito aflito por não dispor da quantia necessária para sanar as dívidas da casa, que eram numerosas. Frei Martinho então perguntou-lhe se não queria vendê-lo como escravo, pois devia valer um preço considerável e se sentiria muito honrado por ser útil ao convento.
O sacerdote, comovido com esta atitude heroica de amor à Ordem, respondeu-lhe:
  • Que Deus te pague, Frei Martinho, mas o Senhor, que te trouxe até aqui, Se encarregará de resolver o problema.

O caminho que Cristo nos ensina
A vida do despretensioso irmão transcorria serena, consumindo-se em longas vigílias de oração junto ao crucifixo e serviços na aparência muito comuns, mas sempre feitos com a intenção de glorificar a Deus, sendo amiúde coroados por milagres. Faltando um mês para completar 60 anos, uma febre violenta e frequentes desmaios o obrigaram a guardar repouso. Tudo indicava aproximar-se o fim de seu estado de prova.
A notícia se espalhou pela cidade e sua cela logo se tornou objeto de contínua peregrinação. Nessa mesma noite ele entrou em agonia. Os circunstantes o viam debater-se com gestos violentos e, estreitando em seu peito o crucifixo, increpar o maligno:
- Vai embora, maldito! Não me hão de vencer tuas ameaças!
Três dias depois, a 03 de novembro de 1639, diante dos seus irmãos de vocação que junto dele recitavam o Credo, nasceu São Martinho de Porres para a verdadeira vida, deixando atrás de si um rastro luminoso que ainda hoje suscita a veneração de incontáveis fiéis.
"Este santo varão que, com seu exemplo de virtude, atraiu tantos à Religião, agora também, três séculos após sua morte, faz elevarem-se aos Céus nossos pensamentos", lembrou São João XXIII ao canonizá-lo. Pois, com o exemplo de sua vida ele nos demonstra ser possível alcançar a santidade pelo caminho que Cristo nos ensina: amando a Deus, em primeiro lugar, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente; e, em segundo, ao próximo como a nós mesmos.

(Revista Arautos do Evangelho, Novembro/2013, n. 143, p. 33 à 37)





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Santo Atanásio, Bispo e Doutor da Igreja (um dos Santos Padres da Patrística).



I. Vida
Nasceu em 295, na cidade da Alexandria, de pais provavelmente não cristãos e de língua grega, entretanto de sua infância pouco se sabe. Consta que ele tenha recebido uma sólida educação de base, iniciando-se inclusive na filosofia. Estima-se que se tenha convertido relativamente jovem, pois sabe-se que aos 17 anos foi escolhido pelo bispo Alexandre para ocupar o cargo de leitor. Em 318, com 23 anos é ordenado diácono e se torna secretário episcopal.
Conta-nos São Gregório de Nazianzo que ele desde sua conversão se aplicou a sérias e profundas meditações sobre as Sagradas Escrituras, que, a partir de então foram sua principal fonte de saber.
Neste período, a magna cidade de Alexandria era açoitada, sendo um foco incandescente da heresia ariana[2]. No entanto desde o início Santo Atanásio apoiou incondicionalmente a seu bispo, unindo-se a este que foi o primeiro adversário de Ario, condenando-o num sínodo (320).
Devido a expansão desta heresia, Constantino, temendo uma rachadura eminente de seu império, convocou o Concílio de Nicéia (325), para solucionar tais desavenças. Lá foi então, acompanhando seu bispo o diácono-secretário Atanásio. Pelas vias da Providência, vemos então que entra em sena neste concílio, em meio ao bispos que tinham a primazia da palavra, um simples diácono que começa a ser temido pelos adversários de fé. Diz-nos São Gregório de Nazianzo sobre a participação da Atanásio: "Em Nicéia, os arianos observam o valoroso campeão da Verdade: de estatura baixa, quase frágil, mas de postura firme e de cabeça levantada. Quando se levanta, como que se sente passar uma onde de ódio através dele. A maioria da assembléia olha com orgulho para aquele que é o intérprete do seu pensamento".[3] No final, foi aprovada uma fórmula de fé, que passou a se chamar "Credo de Nicéia". Ário foi exilado...
Aos 17 de abril de 328, estando prestes de entregar sua alma a Deus, o bispo Alexandre levando em consideração as virtudes de seu secretário, indica-o para lhe suceder.
Claro está que tal escolha não agradou aos hereges (arianos e melecianos), que tentaram de todos os modos contestar. No entanto o sufrágio do clero e do povo ratificou, sendo 2 meses e meio mais tarde (7 de junho de 328) indicado para assumir a sede do patriarcado de Alexandria, tendo o reconhecimento do imperador Constantino.
Vem então um período muito conturbado: os 46 anos de episcopado de Atanásio (328-373), época em que nosso Santo pôde mostrar todo o seu zelo pela fé, em que ele só lutou contra Ario e seus correligionários, contra os melecianos cismáticos, contra o próprio imperador Constantino, e por vezes, contra certos defensores tortos e intransigentes do Símbolo de Nicéia. Todos os que dele tentaram se livrar fracassam... diante de sua firmeza e intransigência.
Consta que este defensor da fé tenha sido exilado cinco vezes. Dos quarenta e cinco anos que durou seu ministério episcopal, na sede de Alexandria, Santo Atanásio esteve dezessete anos no exílio, devido à flutuação política e aos incessantes ataques dos hereges, aos quais a resistência dele irritava...:
A primeira foi-lhe imputada pelo imperador Constantino, que o exilou a cidade de Tréviris, após ter ficado desgostoso pelo fato dele ter se recusado a receber Ario na comunhão da Igreja.
Tendo falecido o imperador (337) Santo Atanásio volta para reocupar sua sede episcopal, mas eis que em 339 um sínodo em Antioquia, por instigação do Bispo Eusébio de Nicomédia, o depõe novamente. Sendo assim restou-lhe apenas procurar refúgio junto ao Papa Júlio I, em Roma.
Morto o Bispo intruso Gregório (343), há uma nova volta de Atanásio, com a autorização do Imperador Constâncio. Porém um outro sínodo em Milão o declara uma vez mais deposto ocasionando seu recesso para junto dos monges do deserto egípcio, dos quais era familiar.
Seu quarto exílio se dá pois o imperador Juliano julgando prejudicar à Igreja reintroniza bispos depostos (que ele julgava serem maus). Mas tendo voltado à sua sede Santo Atanásio continua a lutar pela união dos cristãos, o que desagrada ao imperador que por sua vez queria vê-los em cizânia... e expulsa Atanásio "como perturbador da paz e inimigo dos deuses."
Por fim... Santo Atanásio retorna a Alexandria, tendo Juliano falecido (363), Entretanto, sob o novo imperador Valente, teve novamente de deixar sua sede, retirando-se para uma casa de campo nas cercanias de Alexandria, permanecendo apenas quarto meses, pois o povo fiel, descontente com a atitude do soberano, ameaça um motim. O que o fez permitir a volta do verdadeiro bispo de Alexandria. Santo Atanásio lá permanece, enfim até sua santa morte em 373.

II. Escritos
Apesar de levar uma vida de "peregrino" de exílio em exílio, as vicissitudes ininterruptas não lhe impediram de ser um profícuo escritor.Sua produção literária é ampla, abrange gêneros apologéticos, históricos, exegéticos, homiléticos e epistolares.
A maioria de suas obras está relacionada com a defesa do Credo de Nicéia, ou seja da consubstancialidade, ou seja da divindade do Verbo.
Santo Atanásio era um polemista hábil, por isso sabia servir-se de sua pena para defender seu rebanho, como a si-mesmo, tendo sido ele perseguido e atacado de todos os modos, valeu-se de seus escritos, tendo sempre a segurança que defendia a fá, numa unidade ímpar com a doutrina ortodoxa.
Sua primeira obra é uma apologia Contra os pagãos e sobre a encarnação do Verbo. Nela se delineia as grandes linhas de sua Cristologia: "O Verbo de Deus que se fez homem para que nós sejamos Deus."
Sua grande obra é um tratado de três livros contra os arianos, no qual discute longamente textos bíblicos nos quais Ario pretendia fundamentar sua heresia. O primeiro defende a definição do Concílio de Nicéia, a eternidade do Filho de Deus e a unidade da essência divina. O segundo e o terceiro fazem uma exegese dos textos bíblicos que eram debatidos nas controvérsias contra os arianos, e consideram passagens referentes às relações do Filho com o Pai.
O Símbolo Atanasiano que é um compêndio de fé católica redigido em quarenta sentenças rítmicas. Esta obra fora atribuída a ele a partir do século VII, ou seja tardiamente, entretanto era considerada autêntica até o século XVII, quando se averigüou que o texto original é latino e não grego. Neste livro o autor propõe os mistérios da Santíssima Trindade e da Encarnação do Verbo, começando e terminando pela afirmação: "Esta é a fé Católica e quem não a professa com firmeza e fidelidade não pode ser salvo."
Apologia contra os Arianos que foi redigida aproximadamente em 357, quando Santo Atanásio voltou de seu segundo exílio. Trata-se de cartas, atas e decisões de Concílios Regionais. Sendo que uma facção ariana desprezava o Concílio de Nicéia e ao Papa, Santo Atanásio transcreve uma passagem de um Papa:
"Não sabeis que a praxe manda que primeiramente se escreva a nós e que daqui proceda a justa decisão? Se alguma suspeita estivesse pesando sobre o Bispo de Alexandria, era preciso escrever a respeito à Igreja de Roma. Ora os arianos, sem ter comunicado coisa alguma, procederam como lhes agradava e agora querem que lhes demos nossa aprovação, sem mesmo ter examinado a causa. Tais não são os preceitos que Pedro e Paulo nos entregaram. Ocorre agora um modo de agir e uma prática totalmente novos. Rogo-vos, pois: estai dispostos a atender-me: o que escrevo é para o bem comum, pois o que vos dizemos é precisamente o que recebemos do bem- aventurado apóstolo Pedro”.
Apologia ao Imperador Constâncio, tendo ele sido acusado de instigar o imperador Constante contra seu irmão Constâncio, escreveu esta obra que é uma auto-defesa (357).
No mesmo ano, tendo ele sido novamente acusado, mas desta vez por abandonar sua diocese, escreveu a Apologia da sua fuga para responder aos que o acusavam.
Estando refugiado junto aos monges da Tebaida, escreve a História dos Arianos.
Há ainda muitas outras obras escritas pelo Santo, tais como:
- Vida de Santo Antão.
- Sobre a Virgindade (autoria um tanto incerta...).
- Epístola a Marcelino sobre a interpretação dos Salmos.
- As Cadeias (catanæ).
- Diversas cartas as quais infelizmente muitas estão perdidas. Porém sabe-se que são escritos de caráter doutrinário, quase como que tratados, onde Santo Atanásio comunica as decisões dos Concílios, normas da Igreja sem entretanto (e aí vemos particularmente sua santidade, sua preocupação com a obra de Deus e seu desapego a si-mesmo) tratar de assuntos pessoais ou particulares. Destacanm-se:
- As Cartas festivas.
- Cartas Festivas Sinodais.
- Cartas dogmático-polêmicas.
-Epístola ao Bispo Epicteto de Corinto.
-Carta a Adélfio, Bispo e confessor.
Enfim vemos que a vida de Santo Atanásio foi uma constante defesa da expressão da fé definida no Concílio de Nicéia. Ele pertencia aos grandes doutores Capadócios, herdeiros da tradição de Orígenes, elaborando uma teologia da Trindade, particularmente determinando o sentido de algumas fórmulas (pessoa ou hipóstase, substância; uma substância em três hipóstases).


Bibliografia
-ATANÁSIO, Santo. Contra os pagãos, A encarnação do Verbo, Apologia ao imperador Constâncio, Apologia de sua fuga, Vida e conduta de Santo Antão. Coleção Patrística. São Paulo, Paulus: 2002.
-BETTENCOURT, Estêvão Tavares Pe. Curso de patrologia. Rio de Janeiro, Mater Ecclesiæ, 2003
-Dicionário patrístico e de atigüidades cristãs. Trad. Cristina de Andrade. Org. Angelo Di Berardino. Petrópolis, Vozes: 2002.
-VV.AA. Initiation théologique vol. I - les sources de la théologie. Paris, Cerf: 1952.
[1] O termo Doutor da Igreja, muitas vazes se associa ao de Padre da Igreja, sendo que não é simplesmente um sinônimo. Indica um grau a mais, pois nem todos os Padres são Doutores.
[2] Esta heresia afirmava que o Filho (Nosso Senhor) não existia antes de ter sido gerado, negando assim a co-eternidade Dele com o Pai, que o Filho é a primeira das criaturas, que é uma espécie de "segundo deus" (déutero theós), mas que ele permanece alheio à essência divina do Pai. Eles separavam assim o Filho do Pai.
[3] Elogio de Atanásio. PG. 25, col. 1081.


Esta é a coragem dos santos... 



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Santa Escolástica, Virgem e Fundadora, irmã de São Bento de Núrsia.


A história de Santa Escolástica está intimamente ligada àquele que por desígnios da  Providência nasceu com ela para a vida, o grande São Bento, seu irmão gêmeo e pai do monacato ocidental,  a quem amou com todo o seu coração.

Quando Nosso Senhor veio ao mundo, trouxe-nos um mandamento novo: "Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros"(Jo 13,34). Este amor levado às últimas consequências propiciou-nos a Redenção. E um relacionamento humano regrado e bem conduzido deve seguir o exemplo do Divino Mestre. O verdadeiro amor ao próximo é aquele que se nutre por outrem por amor a Deus e que tem o Criador como centro, visando a santidade daqueles que se amam. Já ensinava Santo Agostinho que só existem dois amores: ou se ama a si mesmo até o esquecimento de Deus, ou se ama a Deus até o esquecimento de si mesmo.

Assim foi Santa Escolástica, alma inocente e cheia de amor a Deus, de quem pouco se conhece, mas que, abrindo-se à sua graça, adquiriu excepcional força de alma e logrou chegar à honra dos altares. Sua história está intimamente ligada à aquele que por desígnios da Providência nasceu com ela para a vida, o grande São Bento, seu irmão gêmeo e pai do monacato ocidental, a quem amou com todo o seu coração.

Nasceram Escolástica e Bento em Núrsia, na Úmbria, região da Itália situada ao pé dos montes Apeninos, no ano 480. Como seu irmão, teve ela uma educação primorosa. Com seus pais, muito católicos e tementes a Deus, constituíam uma das famílias mais distintas daquelas montanhas. Modelo de donzela cristã, Escolástica era piedosa, virtuosa, cultivava a oração e era inimiga do espírito do mundo e das vaidades.

Sempre caminhou em uníssono com seu irmão Bento, unidos já antes de nascer e irmãos gêmeos também de alma. Com a morte dos pais, Escolástica vivia mais recolhida no retiro de sua casa. Quando se inteirou que seu irmão deixara o deserto de Subiaco e fundara o célebre mosteiro de Monte Cassino, decidiu ela professar a mesma perfeição evangélica, distribuindo todos os seus haveres aos pobres e partindo com uma criada em busca do irmão.

Encontrando-o, explicou-lhe suas intenções de passar o resto da vida numa solidão como a dele e suplicou-lhe que fosse seu pai espiritual, prescrevendo-lhe as regras que deveria seguir para o aperfeiçoamento de sua alma. São Bento, já conhecendo a vocação da irmã, aceitou-a e mandou construir para ela e a criada uma cela não muito longe do mosteiro, dando-lhe basicamente a mesma regra de seus monges.

A fama de santidade desta nova eremita foi crescendo e, pouco a pouco, se juntaram a ela muitas outras jovens que se sentiam chamadas para a vida monástica, colocando-se todas sob a sua direção, juntamente com a de São Bento, formando assim uma nova Ordem feminina, mais tarde conhecida como das Beneditinas, que chegou a ter 14.000 conventos espalhados por todo o Ocidente.

A cada ano, alguns dias antes da Quaresma, encontravam-se Bento e Escolástica a meio caminho entre os dois conventos, numa casinha que ali havia para este fim. Passavam o dia em colóquios espirituais, para depois tornarem a ver-se no ano seguinte. Um dos capítulos do livro "Diálogos", de São Gregório Magno, ajudou a salvar do esquecimento o nome desta grande santa que tem lugar de predileção entre as virgens consagradas. O grande Papa santo narra com simplicidade o último encontro de São Bento e Santa Escolástica, em que a inocência e o amor venceram a própria razão.

Era a primeira quinta-feira da Quaresma de 547. São Bento foi estar com sua irmã na casinha de costume. Passaram todo o dia falando de Deus. Ao entardecer, levantou-se São Bento decidido a regressar a seu mosteiro, para voltar apenas no próximo ano. Pressentindo que sua morte viria logo, Santa Escolástica pediu ao irmão que passassem ali a noite e não interrompessem tão abençoado convívio. Ao que o irmão respondeu:

- Que dizes? Não sabes que não posso passar a noite fora da clausura do convento?

Escolástica nada disse. Apenas abaixou a cabeça e, na inocência de seu coração, pediu a Deus que lhe concedesse a graça de estar um pouco mais com seu irmão e pai espiritual, a quem tanto amava. No mesmo instante o céu se toldou. Raios e trovões encheram o firmamento de luz e estrondos. A chuva começou a cair torrencialmente. Era impossível subir o Monte Cassino naquelas condições. Escolástica apenas perguntou a seu irmão?

- Então, não vais sair? São Bento, percebendo o que se havia passado, perguntou-lhe:

- Que fizeste, minha irmã? Deus te perdoe por isso...

- Eu te pedi e não quiseste me atender. Pedi a Deus e Ele me ouviu - respondeu a cândida virgem.

Passaram aquela noite em santo convívio, podendo o santo fundador regressar ao seu mosteiro apenas no outro dia pela manhã. De fato, confirmou-se o pressentimento de Escolástica. Entregou sua alma ao Criador três dias depois deste belo fato. São Bento viu, da janela de sua cela, a alma de Escolástica subir ao céu sob a forma de uma branca pomba, símbolo da inocência que ela sempre teve. Levou o corpo para seu mosteiro e aí o enterrou no túmulo que havia preparado para si próprio. Alguns meses mais tarde também faleceu São Bento. Ficaram assim unidos na morte aqueles dois irmãos que na vida terrena se haviam unido pela vocação.

Comentando este fato da vida dos dois grandes santos, São Gregório diz que o procedimento de Santa Escolástica foi correto, e Deus quis mostrar a força de alma de uma inocente, que colocou o amor a Ele acima até da própria razão ou regra. Segundo São João, "Deus é amor" (I Jo 4, 7) e não é de admirar que Santa Escolástica tenha sido mais poderosa que seu irmão, na força de sua oração cheia de amor. "Pôde mais quem amou mais", ensina São Gregório. Aqui o amor venceu a razão, nesta singular contenda.


Peçamos a Santa Escolástica a graça da restauração de nossa inocência batismal, para que cresça o amor a Deus em nossa alma e possamos ter sua força espiritual para dizer com toda propriedade as palavras de São Paulo: "Tudo posso naquele que me conforta" (Fl 4, 13).




São Francisco Antônio Fasani, Presbítero Franciscano Conventual.



São Francisco Antônio Fasani nasceu em Lucera (Itália), a 06 de agosto de 1681, e lá morreu a 29 de novembro de 1742. Foi beatificado no dia 15 de abril de 1951 e canonizado a 13 de abril de 1986 pelo Papa São João Paulo II.

Fez os estudos no convento dos Frades Menores Conventuais. Sentindo o chamamento divino, ingressou no noviciado da mesma Ordem.

Fez a profissão em 1696 e a 19 de setembro de 1705 recebeu a Ordenação Sacerdotal. Doutorou-se em Teologia e tornou-se exímio pregador e diretor de almas. Exerceu os cargos de Superior do convento de Lucera e de Ministro Provincial.

“Ele fez do amor, que nos foi ensinado por Cristo, o parâmetro fundamental da sua existência. O critério basilar do seu pensamento e da sua ação. O vértice supremo das suas aspirações”, afirmou São João Paulo II a respeito de São Francisco Antônio Fasani.

O santo se nos apresenta de modo especial como modelo perfeito de Sacerdote e Pastor de almas.

Por mais de 35 anos, no início do século XVIII, São Francisco Fasani dedicou-se, em Lucera, e também nos territórios ao redor, às mais diversificadas formas de ministério e do apostolado sacerdotal.

Verdadeiro amigo do seu povo, ele foi para todos irmão e pai, eminente mestre de vida, por todos procurado como conselheiro iluminado e prudente, guia sábio e seguro nos caminhos do Espírito, defensor dos humildes e dos pobres.

 Disto é testemunho o reverente e afetuoso título com que o saudaram os seus contemporâneos e que ainda hoje é familiar ao povo de Lucera: ele, outrora como hoje, é sempre para eles o “Pai Mestre”.

Como Religioso, foi um verdadeiro “ministro” no sentido franciscano, ou seja, o servo de todos os frades: caridoso e compreensivo, mas, santamente exigente quanto à observância da Regra, e de modo particular em relação à prática da pobreza, dando ele mesmo incensurável exemplo de regular observância e de austeridade de vida.

Embora sua escolaridade fosse notável, era mais conhecido pelos seus sermões na cidade e no campo. Falava de um jeito que as pessoas podiam entender e dirigiu seus esforços para catequizar os pobres.  Produziu vários volumes de sermões, alguns em Latim.

Francisco Antonio era devotado aos pobres , aos que sofriam e aos prisioneiros. Várias vezes ele acompanhava aqueles condenados à morte até o patíbulo.

Francisco Antonio promoveu a devoção à Imaculada Conceição de Maria à qual tinha grande devoção e especial amor muito antes deste dogma  ter sido definido.

Ele trouxe de Nápoles uma estátua da Imaculada Conceição que colocou na igreja de São Francisco de Assis e escreveu hinos a Ela para serem cantados pelo povo de sua terra. Essa estátua é objeto de veneração em Lucera.

Estabeleceu na paróquia a Novena a Nossa Senhora da Imaculada Conceição. No dia 29 de novembro, no primeiro dia  desta Novena à Imaculada, Francisco Antonio faleceu.

Com sua canonização, foi proclamado como “padroeiro dos encarcerados”.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Santa Josefina Bakhita, Virgem Canossiana (dois textos biográficos).



Muitas vezes as vias de Deus são incompreensíveis aos olhos humanos. Mas Ele sabe como conduzir as almas e os acontecimentos para realizar Seu plano de amor e salvação.


Dotada de um caráter fácil e submisso, com uma marcada propensão para fazer o bem aos outros, a pequena descendente da tribo dos Dagiu dava, desde a mais tenra infância, mostras de ser uma predileta de Deus .

Certa vez, estando com uma amiga nas proximidades de sua aldeia, situada na região de Darfur, no oeste do Sudão, Bakhita deparou-se com dois homens que surgiram de improviso de trás de uma cerca. Um deles pediu-lhe que fosse pegar um pacote que esquecera no bosque vizinho e disse à sua companheira que podia continuar o caminho, pois ela logo a alcançaria. "Eu não duvidava de nada, obedeci imediatamente, como sempre fazia com a minha mãe" - narrou ela.1

Protegidos pela floresta e longe de qualquer testemunha importuna, os dois estrangeiros agarraram a menina e levaram-na à força com eles, ameaçando-a com um punhal. Sua ingenuidade, bem compreensível em seus oito anos, custara-lhe caro.

Contudo, eram essas as misteriosas vias da Providência, por meio das quais se realizariam os desígnios de Deus a seu respeito. Se tal fato não tivesse ocorrido talvez sua vida teria continuado na normalidade do convívio familiar, em meio aos afazeres domésticos e às práticas rituais do culto animista que professavam seus parentes. Provavelmente ela jamais conheceria a Fé Católica, e permaneceria submersa nas trevas do paganismo.


Uma escravidão providencial

Empurrada violentamente por seus raptores, foi levada para uma cruel e penosa escravidão. E, embora ela o ignorasse, estava dando os primeiros passos que a conduziriam, à custa de sofrimentos atrozes, rumo à verdadeira liberdade de espírito e ao encontro com o grande Senhor a Quem já amava antes de conhecer.

Sim, desde muito pequena, Bakhita deleitava-se em contemplar o Sol, a Lua, as estrelas e as belezas da natureza, perguntando-se maravilhada:

"Quem é o ‘patrão’ destas coisas tão bonitas? E sentia uma grande vontade de vê-lo, de conhecê-lo, de prestar-lhe homenagem".

Ensina São Tomás de Aquino que "uma pessoa pode conseguir o efeito do Batismo pela força do Espírito Santo, sem Batismo de água e até sem Batismo de sangue, quando seu coração é movido pelo Espírito Santo a crer e amar a Deus e a arrepender-se de seus pecados".2 É o que se chama Batismo "de desejo", ou "de penitência" . Apoiando-nos nessa doutrina, podemos supor que na alma admirativa da escrava sudanesa brilhava a luz da graça santificante, muito antes de ela receber o Batismo sacramental.

Para Bakhita, porém, apenas começara a terrível série de padecimentos que se prolongaria durante 10 anos. Tal foi o choque produzido em seu espírito pela violência do sequestro, que ela esqueceu-se até do próprio nome. Assim, quando foi interrogada pelos bandidos, não pôde pronunciar sequer uma palavra. Então um deles disse-lhe: "Muito bem... Chamar-te-emos Bakhita". Em sua voz havia um acento irônico, uma vez que este nome, em árabe, significa "afortunada".



Padecimentos no cativeiro

Chegando a um povoado, Bakhita foi introduzida numa cabana miserável e trancada num quarto estreito e escuro, onde permaneceu durante um mês. "Quanto eu tenha sofrido naquele lugar, não se pode dizer com as palavras", escreveria ela mais tarde. Por fim, depois desses dias nos quais a porta não se abria senão para deixar passar um parco alimento, a prisioneira pôde sair, não para ser posta em liberdade, mas para ser entregue a um traficante de escravos que acabava de adquiri-la.

Bakhita haveria de ser vendida cinco vezes sucessivas, aos mais variados patrões, exposta nos mercados, presa pelos pés a pesadas correntes e obrigada a trabalhar sem descanso para satisfazer os caprichos de seus amos. Colocada a serviço da mãe e da esposa de um general, a jovem escrava ali enfrentou os piores anos de sua existência, como ela mesma descreve: "As chicotadas caíam em cima de nós sem misericórdia; de modo que nos três anos que estive a serviço deles, não me lembro de ter passado um só dia sem feridas, porque não havia ainda sarado dos golpes recebidos e recebia outros ainda, sem saber a causa. [...] Quantos maus tratos os escravos recebem sem nenhum motivo! [...] Quantas companheiras minhas de desventura morreram pelos golpes sofridos"!

Além desses e de outros tormentos, fizeram-lhe uma tatuagem que a obrigou a permanecer imóvel sobre sua esteira por mais de um mês. Bakhita conservou até o fim da vida 144 cicatrizes sobre o corpo, além de um leve defeito ao caminhar.

Certa vez, interrogada sobre a veracidade de tudo quanto fora contado a seu respeito, ela afirmou ter omitido em suas narrativas detalhes verdadeiramente espantosos, vistos apenas por Deus e impossíveis de serem ditos ou escritos. Entretanto, a mão do Senhor não a abandonou sequer um instante. Mesmo nos piores momentos, Bakhita sentia dentro de si uma força misteriosa que a sustentava, impelindo-a a comportar-se com docilidade e obediência, sem nunca se desesperar.



Proteção amorosa de Deus

Anos mais tarde, lançando um olhar sobre seu passado, reconhecia a intervenção divina nos acontecimentos de sua vida: "Posso dizer realmente que não morri por um milagre do Senhor, que me destinava a coisas melhores". E a Ele manifestava sua gratidão: "Se eu ficasse de joelhos a vida inteira, não diria, nunca, o bastante, toda a minha gratidão ao bom Deus".

Prova dessa proteção amorosa de Deus, que a acompanhou desde a infância, foi a preservação de alma e de corpo na qual se manteve, mesmo em meio às torturas, sem que jamais sua castidade fosse atingida. "Eu estive sempre no meio da lama, mas não me sujei. [...] Nossa Senhora me protegeu, ainda que eu não A conhecesse. [...] Em várias ocasiões me senti protegida por um ser superior".



A mudança para a Itália

Em 1882, o general que a comprara teve de retornar à Turquia, seu país, e pôs à venda seus numerosos escravos Bakhita, fazendo jus a seu nome, logo despertou a simpatia do cônsul italiano Calixto Legnani, que se dispôs a adquiri-la. "Desta vez fui verdadeiramente afortunada, porque o novo patrão era bastante bom e começou a querer-me tanto bem".

Embora o cônsul não pareça ter-se esforçado em iniciar nas verdades da Fé a jovem escrava, durante os anos em que esta viveu em sua casa, este período foi para ela a aurora do encontro com a Igreja. Como católico que era, Legnani tratou Bakhita com bondade. Ali não havia castigos, pancadas, nem mesmo repreensões, e ela pôde gozar da doçura característica das relações entre aqueles que procuram cumprir os mandamentos da caridade cristã.

Ante o avanço de uma revolução nacionalista no Sudão, Calixto Legnani teve de voltar para a Itália. A pedido de Bakhita, levou-a consigo. Porém, chegados a Gênova, o cônsul cedeu a jovem sudanesa a seus amigos, o casal Michieli. Assim, ela passou a morar na residência desta família, em Mirano, na região do Veneto, tendo por encargo especial o cuidado da filha, a pequena Mimina.


O encontro com seu verdadeiro Patrão e Senhor

Estando ali, Bakhita recebeu de um amável senhor, que se interessara por ela, um belo crucifixo de prata: "Explicou-me que Jesus Cristo, Filho de Deus, tinha morrido por nós. Eu não sabia quem fosse [...]. Recordo que às escondidas o olhava e sentia uma coisa em mim que não sei explicar". Pouco a pouco, a graça foi trabalhando a alma sensível da ex-escrava africana, abrindo-a para as realidades sobrenaturais que ela desconhecia.

Em sua Encíclica Spe Salvi, o Santo Padre Bento XVI assim descreve o milagre que se operou no interior de Bakhita: "Depois de ‘patrões' tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um ‘patrão' totalmente diferente - no dialeto veneziano que agora tinha aprendido, chamava ‘Paron' ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um ‘Paron' acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo ‘Paron' supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela ‘à direita de Deus Pai'".3


Uma inesperada decisão cheia de valentia

Mais sofrimentos ainda a aguardavam, embora de ordem muito diversa dos anteriormente suportados: Deus lhe pediria uma prova de sua entrega, de sua renúncia a tudo, em razão do amor a Ele, oferecida de livre e espontânea vontade.

Quando Bakhita, já instruída na Religião Católica pelas Irmãs Canossianas de Veneza, preparava-se para receber o Batismo, sua patroa quis levá-la de novo ao Sudão, onde a família Michieli resolvera fixar-se definitivamente. De caráter flexível e submisso, acostumada a se considerar propriedade de seus donos, revelou ela, naquela conjuntura, uma coragem até então desconhecida mesmo pelos seus mais próximos. Temendo que aquela volta pusesse em risco sua perseverança, negou-se a seguir sua senhora.

As promessas de uma vida fácil, a perspectiva de rever sua pátria, a profunda afeição a Mimina e a gratidão a seus amos, nada disso pôde mudar sua decisão de dar-se a Jesus Cristo para sempre. Bakhita mostrara-se sempre dócil a seus superiores. Agora manifestava de outra forma essa virtude, obedecendo mais a Deus do que aos homens (cf. At 4, 19). "Era o Senhor que me infundia tanta firmeza, porque queria fazer-me toda sua".


A entrega definitiva a Deus

Tendo saído vitoriosa dessa batalha, Bakhita foi batizada, crismada e recebeu a Eucaristia das mãos do Patriarca de Veneza, no dia 09 de janeiro de 1890. Foram-lhe postos os nomes de Josefina Margarida Afortunada. "Recebi o santo Batismo com uma alegria que só os Anjos poderiam descrever", narraria mais tarde.

Pouco depois, querendo selar sua entrega a Deus de maneira irreversível, solicitou seu ingresso no Instituto das Filhas da Caridade, fundado por Santa Madalena de Canossa, a quem devia sua entrada na Igreja. Na festa da Imaculada Conceição, em 1896, após cumprir seu noviciado com exemplar fervor, Josefina pronunciou seus votos na Casa-Mãe do Instituto, em Verona.

A partir daí, sua vida foi um constante ato de amor a Deus, um dar-se aos outros, sem restrições, nem reservas. Ora encarregada de funções humildes, como a cozinha ou a portaria, ora enviada em missão através da Itália, a santa sudanesa aceitava com verdadeira alegria tudo quanto lhe ordenavam, conquistando a simpatia daqueles que a rodeavam, sem se cansar de dizer: "Sede bons, amai o Senhor, rezai por aqueles que não O conhecem".

Sobre o espírito missionário de Bakhita comenta Bento XVI em sua encíclica: "A libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a ‘redimira', não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos".4



Submissão até o fim

Por fim, após mais de 50 anos de frutuosa vida religiosa, durante os quais suas virtudes se acrisolaram no fogo da caridade, Bakhita sentiu a morte aproximar-se. Atacada por repetidas bronquites e pneumonias que foram minando sua saúde, suportou tudo com fortaleza de ânimo. Em suas últimas palavras, proferidas pouco antes de seu falecimento, deixou transparecer o gozo que lhe enchia a alma: "Quando uma pessoa ama tanto uma outra, deseja ardentemente ir para junto dela: por que, então, tanto medo da morte? A morte nos leva a Deus".

Em 8 de fevereiro de 1947, a Irmã Josefina recebeu os últimos Sacramentos, acompanhando com atenção e piedade todas as orações. Avisada de que aquele dia era um sábado, seu semblante pareceu iluminar-se e exclamou com alegria: "Como estou contente! Nossa Senhora, Nossa Senhora”! Foram estas suas últimas palavras antes de entregar serenamente sua alma e encontrar-se face a face com o "Paron", que desde pequenina ansiava por conhecer.

Seu corpo, transladado para junto da igreja, foi objeto da veneração de numerosos fiéis, que durante três dias ali afluíram, desejosos de contemplar pela última vez a querida Madre Moretta, como era carinhosamente conhecida, que com tanta bondade os tratara sempre. Miraculosamente, seus membros conservaram-se flexíveis durante esse período, sendo possível mover seus braços para pôr sua mão sobre a cabeça das crianças.



Por este meio, Santa Josefina Bakhita revelava o grande segredo de sua santidade, refletido em seu próprio corpo. A via pela qual Deus a chamara fora a da submissão heroica à vontade divina e, para a posteridade, ela deixava um modelo a ser seguido. A humildade, a mansidão e a obediência transparecem em suas palavras, numa disposição verdadeiramente sublime de sua alma: "Se encontrasse aqueles negreiros que me raptaram, e mesmo aqueles que me torturaram, ajoelhar-me-ia para beijar as suas mãos; porque, se isto não tivesse acontecido, eu não seria agora cristã e religiosa".

1 Salvo indicação em contrário, todas as citações entre aspas pertencem a DAGNINO, Ir. Maria Luísa, Bakhita racconta la sua storia. Trad . Cecília Maríngolo, Canossiana. Roma: Città Nuova, 1989. p. 38 .
2 Cf. Suma Teológica, III, q. 66, a.11 .
3 BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3 .
4 BENTO XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, 30/11/2007, n. 3

(Revista dos Arautos, Fev/2009, n. 86, p. 34 à 38)


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Segundo texto biográfico: site do Vaticano

JOSEFINA BAKHITA (1869-1947)
Religiosa sudanesa da Congregação das Filhas da Caridade (Canossianas) 

Irmã Josefina Bakhita nasceu no Sudão (África), em 1869 e morreu em Schio (Vicenza-Itália) em 1947.   Flor africana, que conheceu a angústia do rapto e da escravidão, abriu-se admiravelmente à graça junto das Filhas de Santa Madalena de Canossa, na Itália.


A irmã morena
Em Schio, onde viveu por muitos anos, todos ainda a chamam«a nossa Irmã Morena». O processo para a causa de Canonização iniciou-se doze anos após a sua morte e no dia 1 de dezembro de 1978, a Igreja emanava o Decreto sobre a heroicidade das suas virtudes.
A Providência Divina que «cuida das flores do campo e dos pássaros do céu», guiou esta escrava sudanesa, através de inumeráveis e indizíveis sofrimentos, à liberdade humana e àquela da fé, até a consagração de toda a sua vida a Deus, para o advento do Reino.

Na escravidão
Bakhita não é o nome recebido de seus pais ao nascer. O susto provado no dia em que foi raptada, provocou-lhe alguns profundos lapsos de memória. A terrível experiência a fizera esquecer também o próprio nome.
Bakhita, que significa «afortunada», é o nome que lhe foi imposto por seus raptores. Vendida e comprada várias vezes nos mercados de El Obeid e de Cartum, conheceu as humilhações, os sofrimentos físicos e morais da escravidão.

Rumo à liberdade
Na capital do Sudão, Bakhita foi, finalmente, comprada por um Cônsul italiano, o senhor Calixto Legnani. Pela primeira vez, desde o dia em que fora raptada, percebeu com agradável surpresa, que ninguém usava o chicote ao lhe dar ordens mas, ao contrário, era tratada com maneiras afáveis e cordiais. Na casa do Cônsul, Bakhita encontrou serenidade, carinho e momentos de alegria, ainda que sempre velados pela saudade de sua própria família, talvez perdida para sempre.
Situações políticas obrigaram o Cônsul a partir para a Itália. Bakhita pediu-lhe que a levasse consigo e foi atendida. Com eles partiu também um amigo do Cônsul, o senhor Augusto Michieli.

Na Itália
Chegados em Gênova, o Sr. Legnani, pressionado pelos pedidos da esposa do Sr. Michieli, concordou que Bakhita fosse morar com eles. Assim ela seguiu a nova família para a residência de Zeniago (Veneza) e, quando nasceu Mimina, a filhinha do casal, Bakhita se tornou para ela babá e amiga.
A compra e a administração de um grande hotel em Suakin, no Mar Vermelho, obrigaram a esposa do Sr. Michieli, dona Maria Turina, a transferir-se para lá, a fim de ajudar o marido no desempenho dos vários trabalhos. Entretanto, a conselho de seu administrador, Iluminado Checchini, a criança e Bakhita foram confiadas às Irmãs Canossianas do Instituto dos Catecúmenos de Veneza. E foi aqui que, a seu pedido, Bakhita, veio a conhecer aquele Deus que desde pequena ela «sentia no coração, sem saber quem Ele era».
«Vendo o sol, a lua e as estrelas, dizia comigo mesma: Quem é o Patrão dessas coisas tão bonitas? E sentia uma vontade imensade vê-Lo, conhecê-Lo e prestar-lhe homenagem».

Filha de Deus
Depois de alguns meses de catecumenato, Bakhita recebeu os Sacramentos de Iniciação Cristã e o novo nome de Josefina. Era o dia 9 de janeiro de 1890. Naquele dia não sabia como exprimir a sua alegria. Os seus olhos grandes e expressivos brilhavam revelando uma intensa comoção. Desse dia em diante, era fácil vê-la beijar a pia batismal e dizer: «Aqui me tornei filha de Deus!».
Cada novo dia a tornava sempre mais consciente de como aquele Deus, que agora conhecia e amava, a havia conduzido a Si por caminhos misteriosos, segurando-a pela mão.
Quando dona Maria Turina retornou da África para buscar a filha e Bakhita, esta, com firme decisão e coragem fora do comum, manifestou a sua vontade de permanecer com as Irmãs Canossianas e servir aquele Deus que lhe havia dado tantas provas do seu amor.
A jovem africana, agora maior de idade, gozava de sua liberdade de ação que a lei italiana lhe assegurava.

Filha de Madalena
Bakhita continuou no Catecumenato onde sentiu com muita clareza o chamado para se tornar religiosa e doar-se totalmente ao Senhor, no Instituto de Santa Madalena de Canossa.
A 8 de dezembro de 1896, Josefina Bakhita se consagrava para sempre ao seu Deus, que ela chamava com carinho «el me Paron!».
Por mais de 50 anos, esta humilde Filha da Caridade, verdadeira testemunha do amor de Deus, dedicou-se às diversas ocupações na casa de Schio.
De fato, ela foi cozinheira, responsável do guarda-roupa, bordadeira, sacristã e porteira. Quando se dedicou a este último serviço, as suas mãos pousavam docemente sobre a cabecinha das crianças que, diariamente, freqüentavam as escolas do Instituto. A sua voz amável, que tinha a inflexão das nênias e das cantigas da sua terra, chegava prazerosa aos pequeninos, reconfortante aos pobres e doentes e encorajadoras a todos os que vinham bater à porta do Instituto.

Testemunha do Amor
A sua humildade, a sua simplicidade e o seu constante sorriso, conquistaram o coração de todos os habitantes de Schio. As Irmãs a estimavam pela sua inalterável afabilidade, pela fineza da sua bondade e pelo seu profundo desejo de tornar Jesus conhecido.
«Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se, soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!».
Chegou a velhice, chegou a doença longa e dolorosa, mas a Irmã Bakhita continuou a oferecer o seu testemunho de fé, de bondade e de esperança cristã. A quem a visitava e lhe perguntava como se sentia, respondia sorridente: «Como o Patrão quer».

A última prova
Na agonia reviveu os terríveis anos de sua escravidão e vária vezes suplicava à enfermeira que a assistia: «Solta-me as correntes ... pesam muito!».
Foi Maria Santíssima que a livrou de todos os sofrimentos. Assuas últimas palavras foram: «Nossa Senhora! Nossa Senhora!», enquanto o seu último sorriso testemunhava o encontro com a Mãe de Jesus.
Irmã Bakhita faleceu no dia 8 de fevereiro de 1947, na Casa de Schio, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Uma multidão acorreu logo à casa do Instituto para ver pela última vez a sua «Santa Irmã Morena», e pedir-lhe a sua proteção lá do céu. Muitas são as graças alcançadas por sua intercessão.