Páginas

Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 24 de janeiro de 2015

Beata Arcângela Girlani, Virgem Carmelita (da Antiga Observância)


Em Mântua, cidade da Lombardia, Beata Arcângela (Leonor) Girlani, virgem da Ordem das Carmelitas, prioresa do convento de Parma e fundadora do cenóbio de Mântua (1495). Data de beatificação: em 1 de outubro de 1864 pelo Papa Pio IX. Nasceu em Trino (Monteferrato-Itália) na segunda metade do século XV. Chamou-se Leonor no mundo.
          Seus pais se opunham a que abraçasse a vida religiosa. A célebre Congregação Mantuana, que em inícios estava em todo seu esplendor, fundou um convento de monjas de clausura em Parma e nele, no ano 1477, vestiu o hábito Leonor, mudando seu nome pelo de Arcângela. Por sua virtude e seus dotes naturais, foi eleita prioresa pela mesma comunidade, cargo que aceitou para cumprir a vontade de Deus.
          Foi desde então o refrigério e a consolação de todas as monjas e entre elas a mais humilde e serviçal. As enfermas consolava com carinho maternal e lhes fazia considerações oportunas, animando-as a sofrer com resignação. Quinze anos levava residindo no convento de Parma, santificando-se e santificando a suas religiosas com seu bom exemplo e a heroicidade de suas virtudes, quando os superiores determinaram fazer uma nova fundação de monjas em Mântua e elegeram para pedra fundamental a beata Arcângela.
         Com grande sacrifício obedeceu ao ponto e, habituada aos caminhos do Senhor, em Mântua inicia a mesma vida que seguia em Parma, pelo que cedo os habitantes de Mântua se precataram do bem que Deus lhes havia proporcionado com o convento das carmelitas. As matronas, à porfia, levavam a suas filhas, com o fim de que a Beata Arcângela as instruísse nos caminhos do Senhor. O efeito não se fez esperar, pois sete daquelas jovens tomaram o hábito e sob sua direção, se santificaram no claustro.

         Quando depois de penosa enfermidade se sentiu morrer, reuniu a suas monjas para exortá-las e lhes dar à maneira de testamento, seus últimos conselhos. Expirou dizendo: “Jesus, amor meu, tem piedade de mim”. Era 25 de Janeiro de 1495 e foi enterrada no mesmo convento de Mântua. Seu corpo se venera na igreja do Hospital de São Lorenzo de Turim.

SÃO FRANCISCO DE SALES, Bispo e Doutor da Igreja.



No início de novembro de 1622, São Francisco de Sales, Bispo-Príncipe de Genebra, acompanhava o Duque da Sabóia na comitiva que ia de Chambéry a Avignon encontrar-se com o Rei Cristianíssimo, que era então o soberano francês Luís XIII. O Prelado aproveitou a ocasião para visitar os mosteiros da Visitação existentes no percurso, como co-fundador que era dessa Congregação. Assim, chegou no dia 11 ao de Belley.

Entre as freiras que, pressurosas, correram-lhe ao encontro, encontrava-se uma que ele muito estimava por sua inocência, virtude e simplicidade, e a quem por isso dera o nome de Clara Simpliciana. Esta, iluminada por luzes sobrenaturais, chorava desoladamente: “Oh, excelentíssimo Senhor!” disse-lhe sem subterfúgios, “vós morrereis neste ano! Eu vos suplico que peçais a Nosso Senhor e à Sua Santíssima Mãe que isso não ocorra”.

“Como, minha filha?!”, respondeu surpreso o Prelado. “Não, não o farei. Não vos alegrais pelo fato de eu ir descansar? Veja: estou tão cansado, com tanto peso, que já não posso comigo. Que falta vos farei? Tendes a Constituição e deixar-vos-ei Madre Chantal, que vos bastará. Ademais, não devemos pôr nossas esperanças nos homens, que são mortais, mas só em Deus, que vive eternamente”.

Tais palavras como que resumem a vida e a obra de São Francisco de Sales. Embora ele contasse então com apenas 56 anos de idade e aparentemente não estivesse doente, entregou sua grande alma a Deus três dias antes que o ano terminasse, conforme predissera Irmã Simpliciana... (1)


A grande provação

Francisco de Sales, primogênito entre os 13 filhos dos Barões de Boisy, nasceu no castelo de Sales, na Sabóia, em 21 de agosto de 1567. Por devoção dos pais ao Poverello de Assis, recebeu seu nome e, chegado ao uso da razão, o menino escolheu-o por patrono e guia.

A virtuosa baronesa dedicou-se ela mesma, com a ajuda de bons preceptores, à educação de sua numerosa prole. Para seu primeiro filho escolheu, por sua piedade e ciência, o Pe. Déage, o qual, até sua morte, foi para Francisco um pai espiritual e guia. Acompanhava-o sempre, mesmo a Paris, onde o jovem barão radicou-se durante seus estudos universitários no Colégio de Clermont, dos jesuítas.

Com um precoce senso de responsabilidade e intuito de fazer sempre tudo que fosse da maior glória de Deus, Francisco estudou retórica, filosofia e teologia com um empenho que lhe permitiu ser depois o grande teólogo, pregador, polemista e diretor de consciências que caracterizaram seu trabalho apostólico.

Francisco, como primogênito, era herdeiro do nome de família e continuador de sua tradição. Por isso, recebeu também lições de esgrima, dança e equitação. Convencia-se porém, cada vez mais, que Deus o chamava inteiramente a Seu serviço. Fez voto de castidade perfeita e colocou-se sob a proteção da Virgem das virgens.

Aos 18 anos, o jovem enfrentou a mais terrível provação de sua vida: uma tão violenta tentação de desespero, que lhe causava a impressão de ter perdido a graça divina e estar destinado a odiar eternamente a Deus com os réprobos. Tal obsessão diabólica perseguia-o noite e dia, abalando-lhe até a saúde.

Ora, para alguém que, como ele, desde o início do uso da razão não procurava senão amar ardentemente a Deus, tal provação era o que havia de mais terrível.

Seria necessário um ato heróico para dela livrá-lo e ele o praticou: não se revoltava contra Deus, mesmo se Ele lhe fechasse as portas do Céu, e pedia, nesse caso, para amá-Lo ao menos nesta Terra.

“Senhor!” -- exclamou certo dia na igreja de Saint Etienne des Grés, no auge de sua angústia --, “fazei com que eu jamais blasfeme contra Vós, mesmo que não esteja predestinado a ver-Vos no Céu. E se eu não hei de amar-Vos no outro mundo, concedei-me pelo menos que, nesta vida, eu Vos ame com todas as minhas forças!”.

Rezando depois humildemente o “Lembrai-Vos”, aos pés de Nossa Senhora, invadiu-lhe a alma uma tão completa paz e confiança, que a provação esvaiu-se como fumaça (2).




Calcando o mundo aos pés

Aos 24 anos, Francisco, com os estudos brilhantemente concluídos e já doutor em leis, voltou para junto da família. O pai escolhera para ele a jovem herdeira de uma das mais nobres famílias do lugar. Apesar de sua pouca idade, ofereceram ao jovem doutor o cargo de membro do Senado saboiano. Humanamente falando, não se podia desejar mais.

Para espanto do pai, seu primogênito recusou tanto um quanto outro oferecimento. Só à mãe, que sabia de sua entrega a Deus, e a um tio, cônego da catedral de Genebra, explicou Francisco o motivo desse ato tido por insensato.

Faleceu nesse tempo o deão da catedral de Chambéry. O cônego Luís de Sales imediatamente obteve do Papa que nomeasse seu sobrinho para o posto vacante. Com muita dificuldade o Barão de Boisy consentiu enfim que aquele, no qual depositava suas maiores esperanças de triunfo neste mundo, se dedicasse inteiramente ao serviço de Deus. Não podia ele prever que Francisco estava destinado à maior glória que um mortal pode atingir, que é a de ser elevado à honra dos altares; e, por acréscimo, como Doutor da Igreja!



Zelo anti-calvinista

Os cinco primeiros anos após sua ordenação, o Pe. Francisco consagrou-os à evangelização do Chablais, cidade situada na margem sul do lago de Genebra, convertendo, com o risco da própria vida, empedernidos calvinistas. Para isso, divulgava folhetos nos quais refutava suas heresias, contrapondo-lhes as lídimas verdades católicas. O missionário precisou fugir muitas vezes e esconder-se de enfurecidos hereges, e em algumas ocasiões só se salvou por verdadeiro milagre (3).

Assim, reconduziu ao seio da verdadeira Igreja milhares de almas seduzidas pela heresia de Calvino. Ao mesmo tempo dava assistência religiosa aos soldados do castelo de Allinges, os quais, apesar de católicos de nome, eram ignorantes em religião e dissolutos. Seu renome começava já a repercutir como grande confessor e diretor de consciências.

Em 1599, o deão de Chambéry foi nomeado Bispo-coadjutor de Genebra; e, três anos depois, com o falecimento do titular, assumiu a direção dessa diocese.


Apóstolo entre os nobres

Esse fato ampliou muito o âmbito de ação de D. Francisco de Sales. Fundou escolas, ensinou catecismo às crianças e adultos, dirigiu e conduziu à santidade grandes almas da nobreza, que desempenharam papel preponderante na reforma religiosa empreendida na época, como Madame Acarie (depois uma das primeiras religiosas carmelitas na França, morta em odor de santidade), Santa Joana de Chantal, com quem fundou a Visitação. Inúmeras donzelas da mais alta nobreza abandonaram o mundo, entrando nos mosteiros dessa nova congregação, na qual brilharam pelo esplendor de sua virtude.

Todos queriam ouvir o santo Bispo. Convidado a pregar em toda parte, era sempre rodeado de grande veneração, tornando-se necessário escolta militar para protegê-lo das manifestações do entusiasmo popular.

A família real da Sabóia não resistia à atração do Bispo-Príncipe de Genebra, convidando-o constantemente para pregar também na Corte. E não era a mais alta nobreza menos ávida que o povinho de ouvir aquele que já consideravam santo em vida.

Em 1608, ordenou e publicou as notas e conselhos que dera a uma sua prima por afinidade, a Sra. de Chamoisy, num livro que se tornaria imortal: Filotéia ou Introdução à Vida Devota. Essa obra foi ocasião de várias conversões e carreou muitas vocações para os conventos da Visitação.

São Francisco de Sales desenvolveu seu lema no extraordinário livro que escreveu para suas filhas da Visitação, a pedido de Santa Joana de Chantal, o célebre Tratado do Amor de Deus: “a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida”.


Glorificado na Terra e no Céu

O Beato Pio IX declarou São Francisco de Sales como Doutor da Igreja. Os contemporâneos do Bispo-Príncipe de Genebra não tinham dúvidas a respeito de sua santidade. Santa Joana de Chantal, sua dirigida e cooperadora que o conheceu tão intimamente, escreveu: “Oh! meu Deus! Atrever-me-ei a dizê-lo? Sim, di-lo-ei: parece-me que nosso bem-aventurado pai era uma imagem viva do Filho de Deus, porque verdadeiramente a ordem e a economia desta santa alma era toda sobrenatural e divina. Muitas pessoas me disseram que, quando viam este bem-aventurado, parecia-lhes ver a Nosso Senhor na terra” (4). E São Vicente de Paulo, sempre que saia de algum encontro mantido com São Francisco de Sales, exclamava: “Ah! quão bom deve ser Deus quando o excelentíssimo Bispo de Genebra é tão bondoso! (5)

Em seu leito de morte, o resplendor de seu rosto, que já era visível em seus últimos anos de vida, aumentava por vezes muito mais, arrebatando de admiração os que o contemplavam.

Assim que faleceu, verdadeira multidão invadiu o convento das Visitandinas, em Lyon, na França, para oscular-lhe os pés, tocar-lhe tecidos em seu corpo, encostar-lhe rosários. Ao abrirem seu corpo, os médicos constataram que o fígado do Santo se petrificara com o esforço que fizera sempre para dominar seu temperamento sangüíneo, e conservar constantemente aquela suavidade e doçura, aparentemente tão naturais nele, que conquistavam os corações mais empedernidos.

O culto ao santo começou no próprio momento de sua morte. E foi sempre recompensado, algumas vezes com estupendos milagres.


Durante a peste em Lyon, as irmãs visitandinas não bastavam para distribuir ao povo pedaços de tecido tocados no corpo do santo. Em Orleans, a Madre de la Roche mergulhava uma relíquia do venerado Prelado em água, a qual era distribuída à multidão enquanto durou a peste: um tonel por dia em média. Em Crest e em Cremieux, os representantes da cidade foram à igreja da Visitação fazer, em nome da cidade, voto solene de ir em peregrinação ao sepulcro do Bispo, caso cessasse a peste. E todos foram ouvidos.
Foi Santa Joana de Chantal quem iniciou as gestões para o processo de canonização de seu pai espiritual. Recolheu seus escritos privados, cartas, mesmo rascunhos não terminados, e trabalhou com afinco nesse sentido. Escreveu a autoridades civis e eclesiásticas e mesmo a Roma, pedindo que urgissem o início do processo de beatificação.

Mas a alegria de vê-lo elevado à honra dos altares ela só a teria no Céu, pois a celeridade dos processos humanos ficavam muito aquém dos desejos de seu ardente coração.

São Francisco de Sales faleceu em 28 de dezembro de 1622, tendo sido canonizado em 19 de abril de 1665.

O Papa Pio IX declarou-o Doutor da Igreja em 7 de julho de 1877. E Pio XI, na encíclica Rerum omnium, de 1923, atribuiu-lhe o glorioso título de Patrono dos jornalistas e escritores católicos.

_________________

Notas:
1 Mons. Bougaud, Juana Francisca Fremyot, Tipografia Católica, Madrid, 1924, vol. II, pp. 95/96.
2 - Cfr. Butler Vida de los Santos, edição em espanhol, México, D.F., 1968, vol. I., p. 199.
3 - Cfr. Joh J. Delaney, Dictionary of Saints, Doubleday, New York, 1980, p. 236.
4- Carta ao Pe. Juan de San Francisco, apud Mons. Bougaud, op.cit., vol. I p. 145.
5 - Apud Mons. Bougaud, id., pp. 142, 145.






CATEQUESE DO PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 2 de Março de 2011



São Francisco de Sales

Amados irmãos e irmãs

«Dieu est le Dieu du coeur humain» [Deus é o Deus do coração humano] (Tratado do Amor de Deus, I, XV): nestas palavras aparentemente simples vemos a característica da espiritualidade de um grande mestre, do qual gostaria de vos falar hoje: são Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja. Nasceu em 1567, numa região francesa de fronteira, filho do Senhor de Boisy, antiga e nobre família de Sabóia. Viveu entre dois séculos, XVI-XVII, e reuniu em si o melhor dos ensinamentos e das conquistas culturais do século que terminava, reconciliando a herança do humanismo com o impulso rumo ao absoluto, próprio das correntes místicas. A sua formação foi muito atenta; realizou os estudos superiores em Paris, dedicando-se também à teologia, e na Universidade de Pádua fez os estudos de jurisprudência, como desejava o pai, concluindo-os de modo brilhante, com uma licenciatura in utroque iure, direito canônico e direito civil. Na sua juventude harmoniosa, ponderando sobre o pensamento dos santos Agostinho e Tomás de Aquino, teve uma crise profunda que o levou a interrogar-se sobre a própria salvação eterna e acerca da predestinação de Deus no que se lhe referia, padecendo como verdadeiro drama espiritual as principais questões teológicas da sua época. Rezava intensamente, mas a dúvida atormentou-o de maneira tão forte, que durante algumas semanas praticamente não conseguiu comer nem dormir. No ápice da provação foi à igreja dos Dominicanos, em Paris, abriu o seu coração e orou assim: «Aconteça o que acontecer, Senhor, Vós que tendes tudo nas vossas mãos, e cujos caminhos são justiça e verdade; independentemente do que tiverdes estabelecido a meu propósito...; Vós que sois sempre Juiz justo e Pai misericordioso, amar-vos-ei, ó Senhor […] amar-vos-ei aqui, ó meu Deus, e esperarei sempre na vossa misericórdia, e repetirei sempre o vosso louvor... Ó Senhor Jesus, Vós sereis sempre a minha esperança e a minha salvação, na terra dos vivos» (I Proc. Canon., vol. I, art 4).
Francisco, então com vinte anos, encontrou a paz na realidade radical e libertadora do amor de Deus: amá-lo sem nada pedir em troca, confiando no amor divino; já não perguntar o que Deus fará de mim: amo-O simples e independentemente de quanto Ele me concede ou não. Assim encontrou a paz, e a questão da predestinação — sobre a qual se debatia naquela época — tinha sido resolvida, porque ele não buscava mais do que podia receber de Deus; amava-O simplesmente, abandonando-se à sua bondade. E este será o segredo da sua vida, que transparecerá na sua obra principal: o Tratado do Amor de Deus.
Vencendo as resistências do pai, Francisco seguiu o chamamento do Senhor e, no dia 18 de Dezembro de 1593, foi ordenado sacerdote. Em 1602 tornou-se Bispo de Genebra, num período em que a cidade era uma fortaleza do Calvinismo, a tal ponto que a sede episcopal se encontrava «no exílio», em Annecy. Pastor de uma diocese pobre e atormentada, na paisagem montanhosa da qual conhecia bem tanto a dureza como a beleza, ele escreve: «Encontrei-O [Deus] repleto de candor e suavidade, no meio das nossas montanhas mais altas e íngremes, onde muitas almas simples O amavam e adoravam com toda a verdade e sinceridade; cabritos-monteses e corças corriam aqui e ali, no meio de geleiras assustadoras, para anunciar os seus louvores» (Carta à Madre de Chantal, Outubro de 1606, em Oeuvres, Ed. Mackey, T. XIII, p. 223). E no entanto, a influência da sua vida e do seu ensinamento na Europa dessa época e dos séculos seguintes parece imensa. É apóstolo, pregador, escritor, homem de ação e de oração; comprometido na realização dos ideais do Concílio de Trento; empenhado na controvérsia e no diálogo com os protestantes, experimentando cada vez mais, para além do necessário confronto teológico, a eficácia da relação pessoal e da caridade; encarregado de missões diplomáticas a nível europeu, e de tarefas sociais de mediação e de reconciliação. Mas sobretudo, são Francisco de Sales é guia de almas: do encontro com uma jovem, a senhora de Charmoisy, encontrará inspiração para escrever um dos livros mais lidos na era moderna, a Introdução à vida devota; da sua profunda comunhão espiritual com uma personalidade extraordinária, santa Joana Francisca de Chantal, nascerá uma nova família religiosa, a Ordem da Visitação, caracterizada — como o santo desejava — por uma consagração total a Deus, vivida na simplicidade e na humildade, a cumprir extraordinariamente bem as tarefas ordinárias: «…quero que as minhas Filhas — escreve — não tenham outro ideal, a não ser o de glorificar [Nosso Senhor] com a sua humildade» (Carta a mons. de Marquemond, Junho de 1615). Faleceu em 1622, com cinqüenta e cinco anos de idade, depois de uma existência marcada pela dureza dos tempos e da obra apostólica.

A vida de são Francisco de Sales foi relativamente breve, mas vivida com grande intensidade. Da figura deste santo emana uma impressão de rara plenitude, demonstrada na tranquilidade da sua investigação intelectual, mas também na riqueza dos seus hábitos, na «docilidade» dos seus ensinamentos, que tiveram uma grande influência sobre a consciência cristã. Da palavra «humanidade» ele encarnou várias acepções que, tanto hoje como ontem, este termo pode adquirir: cultura e cortesia, liberdade e ternura, nobreza e solidariedade. No aspecto tinha algo da majestosidade da paisagem em que viveu, conservando também a sua simplicidade e naturalidade. As antigas palavras e imagens com que se expressava ressoam inesperadamente, até aos ouvidos do homem contemporâneo, como uma língua nativa e familiar.

Na Filotéia, destinatária ideal da sua Introdução à Vida Devota (1607), Francisco de Sales dirige um convite que, nessa época, podia parecer revolucionário. Trata-se do convite a pertencer completamente a Deus, vivendo em plenitude a presença no mundo e as tarefas da sua condição. «A minha intenção é de instruir aqueles que vivem nas cidades, no estado conjugal, na corte […]» (Prefácio da Introdução à Vida Devota). O Documento com que o Papa Pio ix, mais de dois séculos depois, o proclamará Doutor da Igreja, insistirá sobre esta ampliação da chamada à perfeição, à santidade. Nele está escrito: «[A verdadeira piedade] chegou a penetrar até no trono dos reis, na tenda dos chefes dos exércitos, no pretório dos juízes, nos escritórios, nas oficinas e nas cabanas dos pastores […]» (Breve Dives in misericordia, 16 de Novembro de 1877). Assim nascia aquele apelo aos leigos, o cuidado pela consagração das realidades temporais e pela santificação da vida diária, sobre o qual insistirão depois o Concílio Vaticano II e a espiritualidade do nosso tempo. Manifestava-se o ideal de uma humanidade reconciliada, na sintonia entre ação no mundo e oração, entre condição secular e busca da perfeição, com a ajuda da Graça de Deus, que permeia o humano e, sem o destruir, o purifica, elevando-o às alturas divinas. A Teótimo, o cristão adulto, espiritualmente maduro, ao qual dirige alguns anos depois o seu Tratado do Amor de Deus (1616), são Francisco de Sales oferece uma lição mais complexa. Ela supõe, no início, uma visão específica do ser humano, uma antropologia: a «razão» do homem, aliás, a sua «alma razoável», é aí vista como uma construção harmoniosa, um templo subdividido em vários espaços, ao redor de um centro ao qual ele chama, juntamente com os grandes místicos, «cimo», «ponta» do espírito, ou «fundo» da alma. É o ponto em que a razão, percorrendo todas as suas fases, «fecha os olhos» e o conhecimento se torna um só com o amor (cf. livro I, cap. XII). Que o amor, na sua dimensão teologal e divina, seja a razão de ser de todas as realidades, numa escada ascendente que não parece conhecer fraturas nem abismos, são Francisco de Sales resumiu-o nesta frase célebre: «O homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor é a do espírito, e a caridade a do amor» (Ibid., livro X, cap. I).

Num período de intenso florescimento místico, o Tratado do amor de Deus é uma verdadeira suma, e ao mesmo tempo uma obra literária fascinante. A sua descrição do itinerário rumo a Deus começa a partir do reconhecimento da «inclinação natural» (Ibid., livro I, cap. XVI), inscrita no coração do homem, também do pecador, a amar a Deus acima de todas as coisas. Segundo o modelo da Sagrada Escritura, são Francisco de Sales fala da união entre Deus e o homem, desenvolvendo toda uma série de imagens de relação interpessoal. O seu Deus é pai e senhor, esposo e amigo, tem características maternas e de nutriz, é o sol do qual até a noite é uma misteriosa revelação. Este Deus atrai o homem a Si com vínculos de amor, ou seja, de verdadeira liberdade: «Pois o amor não tem forçados nem escravos, mas reduz tudo à sua obediência com um vigor tão delicioso que, se nada é tão forte como o amor, nada é tão amável como a sua força» (Ibid., livro I, cap. VI). No Tratado do nosso santo encontramos uma meditação profunda sobre a vontade humana e a descrição do seu fluir, passar e morrer para viver (cf. ibid., livro IX, cap. XIII) no abandono completo não apenas à vontade de Deus, mas àquilo que é do seu agrado, ao seu «bon plaisir», ao seu beneplácito (cf. ibid., livro IX, cap. I). No ápice da união com Deus, além dos arrebatamentos da êxtase contemplativa, coloca-se aquele fluxo de caridade concreta, que se faz atenta a todas as necessidades do próximo, à qual ele chama «êxtase da vida e das obras» (Ibid., livro VII, cap. VI).

Lendo o livro sobre o amor de Deus e ainda mais as numerosas cartas de guia e de amizade espiritual, compreende-se bem como são Francisco de Sales foi um grande conhecedor do coração humano. A santa Joana de Chantal, a quem escreve: «[…] Eis a regra da nossa obediência, que te escrevo com caracteres grandes: fazer tudo por amor, nada por força — amar mais a obediência do que temer a desobediência. “Deixo-te o espírito de liberdade, não aquele que exclui a obediência, porque ela é a liberdade do mundo; mas aquele que exclui a violência, a ansiedade e o escrúpulo» (Carta, 14 de Outubro de 1604). Não é por acaso que, na origem de muitas formas da pedagogia e da espiritualidade do nosso tempo, encontramos precisamente o vestígio deste mestre, sem o qual não teriam existido são João Bosco, nem o heróico «pequeno caminho» de santa Teresa de Lisieux.


Caros irmãos e irmãs, num período como o nosso que procura a liberdade, mesmo com violência e inquietação, não deve passar despercebida a atualidade deste grande mestre de espiritualidade e de paz, que transmite aos seus discípulos o «espírito de liberdade», aquela verdadeira, no ápice de um ensinamento fascinante e completo sobre a realidade do amor. São Francisco de Sales é uma testemunha exemplar do humanismo cristão; com o seu estilo familiar, com parábolas que às vezes têm as asas da poesia, recorda que o homem traz inscrita no profundo de si mesmo a saudade de Deus, e que somente nele encontra a alegria autêntica e a sua realização mais completa.

SANTA ZITA, Virgem leiga, Padroeira das Empregadas Domésticas. Dois textos biográficos.


Primeiro texto biográfico

Natural de Montesegradi (Itália), filha de pais pobres, mas honestos e piedosos, nasceu Zita em 1212 e, graças à sólida educação que recebeu na casa paterna, bem cedo seguiu o caminho da virtude e da perfeição cristã. Zita era uma menina, por sua mansidão e modéstia de todos querida.  Educada no santo temor de Deus, pouco falava, tanto mais trabalhando e conservando sua alma em constante recolhimento. Tendo doze anos, se empregou na casa de um nobre, senhor de nome Pagano di Fatineli, que residia perto da igreja de São Fridigiano, na cidade de Luca. Bem cedo, antes dos outros levantarem-se, ia à igreja assistir à missa. À hora marcada infalivelmente se achava no seu trabalho. 48 anos serviu Zita àquela família, sempre com a mesma pontualidade e dedicação.

"Quatro são as principais qualidades, que uma empregada deve ter - costumava ela dizer: temor de Deus, obediência, fidelidade e amor ao trabalho".  Zita possuía todos estes predicados no mais alto grau.

O que nela mais se admirava, era a paciência e o bom humor, que a acompanhavam em toda a parte, e a submissão a seus patrões, mesmo nas condições mais difíceis. O tempo que lhe restava de seus afazeres, empregava-o com orações e boa leitura, não deixando nunca de elevar seu espírito a Deus também no meio do trabalho. 

Zita fugia dos divertimentos profanos; tanto maior era seu amor à oração e à penitência. O jejum e as esmolas faziam parte de sua vida.   O cilício o tinha em uso constante, e para dar descanso ao corpo, o leito era substituído por umas duras tábuas. Pessoas que a conheciam de perto testemunharam terem-na visto freqüentes vezes em estado de êxtase.

Fatos admiráveis e extraordinários em grande número provam com quanto agrado Deus olhava para as obras de sua serva Zita. Certa vez, um mendigo pediu a esta um copo de vinho. Zita, não dispondo de nenhuma gota desta bebida para servir ao pobre, foi com o cântaro à fonte, e cheio deu-o ao mendigo. Este não pouco se admirou quando, levando-o à boca, provou um vinho delicioso. 

As frutas no celeiro, a farinha na dispensa multiplicavam-se nas mãos de Zita todas as vezes que, com licença dos patrões, tirava um tanto para seus pobres. Certa ocasião, quando todos iam assistir à missa do galo na noite de Natal, fazendo um frio intensíssimo, o patrão de Zita ofereceu-lhe sua pelúcia. Zita aceitou-a, mas para dá-la a um pobre que tiritava de frio.  Disse-lhe, porém, que no fim da missa, devia restituir. Terminada a missa o pobre não apareceu e Zita teve de voltar para casa sem a pelúcia e que lhe importou forte censura do patrão.  Pelo meio dia à hora do jantar, veio o pobre, e com muitos agradecimentos entregou a pelúcia retirando-se. O patrão ao ver isto, começou a formar conceito mais elevado de sua empregada.

Jamais alguém a visto encolerizado. Só se em sua presença alguém se atrevia a dizer uma palavra que ofendesse a virtude angélica, Zita não continha sua indignação.  A um jovem que menos respeitosamente se atrevera a aproximar-se de sua pessoa com malícia, aplicou-lhe uma forte bofetada, pondo imediato fim aos seus intentos.

Quanto Zita chegou a completar sessenta anos, quiseram seus amos aliviá-la em seu trabalho, a que a santa empregada se opôs.

Deus, porém, mandou-lhe sinais indubitáveis de sua próxima morte.  Zita preparou-se então santamente para a última recepção dos santos sacramentos. No dia 27 de abril de1272, sua alma voou para o Céu.   Neste dia, apareceu sobre sua morada uma estrela de brilho extraordinário. As crianças do lugar, vendo-a, exclamaram: "De certo morreu a Santa Zita, vamos vê-la".  Seu corpo foi depositado na igreja de São Fridigiano.

No ano de 1580 foi aberto o túmulo e o corpo encontrado intacto. Muitos milagres foram registrados no lugar de sua sepultura. Santa Zita foi canonizada pelo Papa Inocêncio XII.  



Reflexões:
A vida e o exemplo de Santa Zita nos mostram que é possível santificar o mundo. Condição indispensável para a perfeição cristã é que nós nos contentemos com a sorte que Deus nos deu.  A palavra de Cristo: "Meu alimento é cumprir a vontade de meu Pai", deve ser lema de todos nós. Não podem ser todos grandes senhores, sábios e poderosos; é preciso que haja operários, empregados e jornaleiros.   Nem tudo convém a todos.  Perante Deus todas as profissões são boas e nenhuma há que se ache excluída do amor paternal divino.

Que os humildes e pobres não se esqueçam de que na humildade e na pobreza é mais fácil se santificar do que na riqueza e em altas posições sociais.  

Lê-se na vida de Ganfredo, humilde e piedoso sacerdote do convento de São Bernardo, que renunciou ao bispado de Dornik, que o Papa lhe oferecera. Depois de sua morte apareceu a um amigo seu e disse-lhe: "Sou feliz: estaria, porém, entre os condenados, se tivesse aceitado a dignidade episcopal".

(Fonte: Página Oriente)




Segundo texto biográfico

Zita nasceu no ano de 1218 em Montsagrati, aldeia próxima de Lucca, na Toscana, Itália. Sua família era pobre, mas muito católica. Sua irmã mais velha tornou-se freira cisterciense e seu tio Graziano era um eremita que a população local tinha como santo.
     Filha de camponeses tementes a Deus, sua mãe, apesar de ser uma mulher muito sofrida e totalmente analfabeta, fazia questão que Zita estudasse e para isso a incentivava dizendo que Deus teria muito orgulho dela se pusesse afinco em seu estudo.
     Aos 12 anos Zita tornou-se criada na residência de um rico negociante de lã de Lucca, a oito quilômetros de sua casa. Ela permaneceria com essa família pelos restantes 48 anos de sua vida. O conselho que sua mãe lhe deu ao despedir-se dela foi este: “Em tuas ações e palavras deves pensar: Isto agradará a Deus?” Foi um conselho que ajudou muito a jovem a comportar-se bem.
     O chefe da família, Pagano di Fatinelli, tinha um temperamento violento e mandava com gritos e palavras muito humilhantes. Todos os empregados protestavam por este trato tão rude, menos Zita que tudo aceitava de boa vontade para assemelhar-se a Nosso Senhor que foi humilhado e ultrajado.
     A residência dos Fatinelli ficava próxima da Igreja de São Frediano, na qual ela assistia a Santa Missa todos os dias. Zita rezava muitas orações e ao mesmo tempo cuidava de seus deveres de criada tão perfeitamente, que as outras empregadas a invejavam por sua abnegação no trabalho e por sua bondade. De fato, seu trabalho era parte de sua religião. Ela costumava dizer: “Uma criada não é santa se não estiver ocupada; na nossa posição pessoa preguiçosa é santidade falsa”.
     Para Zita seu emprego era um presente divino pelo qual ela agradecia a Deus todos os dias. As outras empregadas a humilhavam continuamente, porém Zita jamais respondia às suas ofensas nem guardava rancor ou ressentimento. Os empregados não gostavam dela porque ela demonstrava aversão às palavras grosseiras e às conversas imorais. Chamavam-na de “beata”, porém, com o correr dos anos, todos se deram conta de que ela era uma verdadeira santa.
     Um homem quis desrespeitá-la em sua castidade e ela o arranhou no rosto, o que o fez afastar-se. Entretanto, ele foi ter com o dono da casa e a caluniou. O patrão insultou-a. Zita não disse uma só palavra para defender-se, deixou que Deus se encarregasse de fazê-lo. Depois se soube toda a verdade e o patrão arrependeu-se dos maus tratos que lhe havia imposto. O seu apreço por aquela humilde criada cresceu enormemente.
     No princípio seus patrões ficavam muito irritados com suas generosas doações de alimento para os pobres, mas com o tempo eles foram vencidos por sua paciência e afabilidade, e se tornou uma amiga muito íntima deles. Eles a encarregaram de todos os assuntos domésticos. Na sua posição de comando, ela a todos os empregados tratava com bondade. Ela só era severa quando havia necessidade de combater algum vício entre os criados.
     Zita tinha total liberdade de fazer o seu horário de trabalho, o que lhe permitia ocupar-se com visitas aos doentes e aos encarcerados. Ela gastava o dinheiro que recebia por seu trabalho ajudando os pobres. Dormia no chão, numa esteira, porque havia dado sua cama e colchão a uma família muito necessitada.

     Um dia, em pleno inverno, com vários graus abaixo de zero, a senhora da casa lhe emprestou seu manto de lã para que ela fosse à igreja ouvir Missa. Eis que na porta da igreja Zita encontra um pobre tiritando de frio. Ela deixou o manto com ele, advertindo-o que devia devolvê-lo depois da Missa, para que ela pudesse por sua vez devolvê-lo à sua patroa. Ao sair da igreja não o encontrou: o pobre havia desaparecido... O Sr. Fatinelli ficou furioso e a estava repreendendo quando um ancião bateu na porta e devolveu o manto. As pessoas da cidade interpretaram que aquele ancião era um Anjo, e desde então a porta de São Frediano é chamada “O Portal do Anjo”.
     Numa época de grande escassez e fome, Zita repartiu entre os mais pobres os grãos que havia na dispensa. Quando o furibundo capataz da casa chegou para contar a quantidade de grãos que ainda havia na dispensa, a Santa se pôs a rezar pedindo a Deus que a ajudasse. O homem encontrou ali todos os grãos, não faltava nada.
     Rapidamente espalhou-se em Lucca a notícia de suas boas ações e das visões celestes com as quais Deus Nosso Senhor a obsequiava. A ela também foram atribuídos vários milagres. Ela era muito procurada por pessoas importantes.
     Por ocasião de sua morte, em 27 de abril de 1278, o povo aclamou-a Santa. A família Fatinelli, a quem servira toda a vida, de joelhos a venera. Durante 48 anos trabalhou como criada, demonstrando que qualquer ofício pode levar a uma grande santidade.
     Tão venerada era Santa Zita após sua morte, que tanto o poeta Fazio degli Uberti (Dittamonde, III, 6), quanto Dante (Inferno, XI, 38) designam a cidade de Lucca simplesmente como “Santa Zita”.
     O ofício em sua honra foi aprovado por Leão X. Em 1580 seu túmulo foi descoberto na Igreja de São Frediano e quando seu corpo foi exumado, 300 anos depois de sua morte, se conservava incorrupto (1652). Foi sugerido então que o seu culto fosse aprovado solenemente. O Papa Inocêncio XII a declarou Santa em 5 de setembro de 1696. Em 1748 seu nome entrou para o Calendário Romano.
     A mais remota biografia da Santa é preservada num manuscrito anônimo pertencente à família Fatinelli, e foi publicada em Ferrara no ano de 1688 pelo Mons. Fatinelli (“Vita beata Zita virginis Lucensis ex vetustissimo códice manuscripto fideliter transumpta”). Para a publicação de uma “Vita e miracoli di S. Zita vergine lucchese” (Lucca, 1752), Bartolomeo Fiorito usou aquele manuscrito e outras informações tiradas do processo levado a efeito para provar o culto imemorial da Santa.

     Ainda hoje seu corpo incorrupto pode ser venerado na Capela de Santa Zita da Igreja de São Frediano (*), em Lucca. São milhares de peregrinos que vão visitar o seu sepulcro, e Santa Zita continua dando-nos uma lição: num trabalho humilde se pode ganhar uma grande glória para o Céu.


Corpo incorrupto de Santa Zita



     Ela foi proclamada padroeira das empregadas domésticas do mundo inteiro pelo Papa Pio XII. Santa Zita é apresentada com uma sacola e chaves, ou com filões de pão e um rosário.

(*) São Frediano, viveu no século VI, era príncipe da Irlanda. Foi em peregrinação a Roma e fixou-se numa ermida no Monte Pisano, perto de Lucca. O papa elegeu-o Bispo de Lucca, mas a diocese foi atacada pelos Lombardos. Acredita-se que São Frediano tenha fundado um grupo de eremitas o qual se uniu ao de São João Latrão em 1507.

Etimologia: Zita = do toscano antigo, “menina, moça” (hoje citta).

(Fonte: Heroínas da Cristandade) 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SÃO PEDRO DE VERONA, presbítero, grande pregador contra os hereges, inquisidor, taumaturgo e mártir. É o protomártir da Ordem de São Domingos.



São Pedro de Verona ou São Pedro Mártir,
grande pregador santo da Ordem de São Domingos
 e Protomártir de sua Ordem. 
      Dotado de raro carisma de pregador e convertedor de hereges, esse extraordinário frade dominicano libertou, por meio de uma Cruzada, toda a Toscana da heresia dos maniqueus, sendo por eles martirizado
No domingo, 5 de abril de 1252, dois frades dominicanos viajavam pela estrada que liga as cidade de Como e Milão, na Itália. Enquanto caminhavam, iam rezando o Saltério. De repente, saindo da mata, dois homens os atacaram, desferindo sobre um deles terrível golpe de maça. O frade caiu por terra e, lentamente, molhando dois dedos no próprio sangue, escreveu no chão: “CREDO”. Mal tinha acabado a escrita, cravaram-lhe um punhal no coração. Morto o grande inimigo de sua seita – seita dos cátaros ou maniqueus – os dois hereges lançaram-se sobre o outro dominicano que, de joelhos, rezava, matando-o no mesmo instante.
Esses frades assassinados tão barbaramente eram dois filhos espirituais de São Domingos. Um deles, Pedro de Verona, o Inquisidor-Mor de toda a Itália, era tão grande pregador e polemista, que os hereges tinham sido obrigados a proibir seus correligionários de ouvi-lo devido ao número de conversões; o outro, era seu companheiro, Frei Domingos.
São Pedro de Verona tinha tal fama de santidade, que foi canonizado no mesmo ano de sua morte.



Lírio nascido no lodo
Nada pode ser mais favorável para a formação de um Santo do que um lar verdadeiramente cristão, pois de uma árvore má não pode sair um bom fruto. Mas a Providência pode abrir exceções a essa regra, e muitas vezes abre. Foi o que sucedeu com São Pedro de Verona, filho de pais hereges maniqueus.
Como nota um biógrafo seu, “parece que havia nascido com uma aversão natural pelas máximas desta abominável seita e a todos que pretendiam encaminhá-lo a ela. Prevenido por uma graça oculta, igualmente desprezava, mesmo antes do uso da razão, os afagos, carícias, solicitações bem como as ameaças, golpes e maus tratos dos que desejavam, com a maior ânsia, instruí-lo desde cedo nos elementos de sua heresia”.[i]
Como os hereges não tinham escolas na cidade, o pai enviou-o a um professor católico para aprender as primeiras letras. Este semeou no coração do pequeno Pedro, ávido das verdades eternas, os fundamentos da única Religião verdadeira, a católica.
Certo dia, um tio herege dos mais fanáticos, encontrou-se com o menino que voltava das aulas, e o interrogou sobre o que estava aprendendo. Pedro inflamou-se então na explicação do Símbolo dos Apóstolos (o Credo), que refuta o erro fundamental daqueles hereges. Por mais que o tio argumentasse, o menino defendia com ardor o que aprendera.
Preocupado, o herege foi procurar o irmão e alertou-o no sentido de que, caso não impedisse o menino de continuar a freqüentar as aulas, este estaria perdido para a seita. O pai de Pedro, seja por não ser dos mais fanáticos maniqueus, supondo talvez que depois de adulto, ser-lhe-ia mais fácil convencê-lo, deixou-o com o professor. E, mais tarde, enviou-o à Universidade de Bolonha.
"Era lastimável a corrupção de costumes que reinava entre a juventude daquela Universidade. E é verossímil que isto mesmo movesse o pai de Pedro a enviá-lo para lá, parecendo-lhe que, uma vez que a licenciosidade de costumes lhe estragasse o coração, seria então fácil apagar dele as impressões da doutrina católica”.[ii] Mas Deus preservou-o do vício como o tinha protegido da heresia.
Foi em Bolonha que Pedro tomou conhecimento de uma nova ordem de frades pregadores e de seu fundador, Domingos de Gusmão, em cujo hábito, negro e branco, estão refletidas as duas virtudes que ele mais amava: a humildade e a pureza. Apesar de ter apenas 16 anos, o adolescente apresentou-se a São Domingos, que o admitiu incontinenti no noviciado.
O noviço julgou seu dever domar de vez todas as más inclinações, triste herança dos pobres filhos de Eva, por uma mortificação espantosa. Praticamente não comia, pouco dormia, e retalhava o corpo com flagelações. Em pouco tempo seu organismo ressentiu-se e ele foi atacado por mortal doença. Mas uma milagrosa intervenção divina salvou-lhe a vida.


A iconografia do santo é um tanto
"exótica" para os tempos atuais. Porém,
na Idade Média era comum os mártires
serem representandos com os instrumentos
de seus martírios e com as marcas das
torturas que sofreram. 
           Zeloso demolidor das heresias 
     Após sua profissão religiosa, Frei Pedro dedicou-se com afinco aos estudos, tornando-se capaz de, em pouco tempo, receber a ordenação sacerdotal e “de subir no púlpito, de atacar os hereges, e de parecer nas mais belas ocasiões para a defesa e sustentáculo da Igreja. Ele se comportava com tanto zelo que, segundo os termos de Santo Antonino, todas suas ações pareciam animadas de uma muito viva fé e ardente caridade”.[iii] Desde sua ordenação, Frei Pedro pedia sempre no Santo Sacrifício da Missa a graça de derramar seu sangue pela Fé.
Começou então a parte verdadeiramente extraordinária de sua vida, que tem poucas similares na História da Igreja.
Com um dom especial para mover os corações mesmo dos pecadores mais endurecidos e dos hereges, sua pregação era acompanhada de milagres portentosos. O que convertia muitos, para desespero do inimigo infernal que procurava de todos os modos impedi-lo de falar.
Certa vez pregava ele na praça do mercado de Florença, pois não havia igreja suficientemente grande na cidade para conter a multidão que fora ouvi-lo. De repente, surgiu um enorme corcel negro, correndo a toda brida em direção aos ouvintes, parecendo disposto a esmagar tudo que encontrasse pela frente. O Santo, com o Sinal da Cruz, dissipou como fumaça esse fantasma feito pelo demônio.
De outra feita, depois de uma pregação, um rapaz pediu para se confessar. Acusou-se de ter dado um pontapé em sua mãe. Frei Pedro repreendeu-o severamente, dizendo-lhe que por esse ato ele merecia ter o pé decepado. O infeliz ficou compungido, mas interpretou mal a admoestação do Santo, pois chegando em casa, cortou o pé. Houve um vozerio contra Frei Pedro, acusado de imprudência. Este foi até a casa do penitente, pegou-lhe o pé decepado, e com uma bênção juntou-o de novo à perna.
Como os líderes dos hereges estavam desesperados pelas perdas que sofriam, um deles resolveu “desmascarar” o Santo. “Eu vou, disse ele aos seus, fingir-me de doente, e aproximar-me-ei dele com a multidão; ele impor-me-á as mãos e dir-me-á que eu estou curado. Então eu declararei sua impostura”. E fez isso. Frei Pedro, no entanto, disse-lhe: “Se estás doente, sejas curado; se não, fiques doente”. No mesmo momento, o homem foi atacado por uma terrível febre, que o levou a um estado desesperador. Confessando sua falta, pediu ao Santo que tivesse pena de sua alma e de seu corpo. Fez uma abjuração de seus erros e foi curado.[iv]
Numa outra ocasião um pseudo-bispo dos maniqueus desafiou o Santo para um debate público. Como o sol estava abrasador e ele não conseguia refutar os argumentos do Santo, para provocá-lo e desviar o assunto, disse-lhe: “Por que não pedes ao teu Deus que nos envie uma nuvem para nos proteger?”. - Fá-lo-ei da melhor vontade, respondeu o servo de Deus sem hesitar, se me prometeres abjurar tua heresia, caso vejas a oração ouvida”. Isto foi aceito; então disse Frei Pedro: “Para conhecerdes todos, e confessardes à uma, que o nosso Deus, único onipotente é o criador das coisas visíveis e invisíveis, peço-Lhe, em nome de seu Filho Jesus Cristo, que nos envie uma nuvem para nos defender dos raios do sol”. E ao fazer o sinal da Cruz, imediatamente apareceu no céu sereno uma nuvem amena que aliviou a todos.[v]
A fama do grande taumaturgo precedia-o nas cidades, sendo ele acolhido com o repicar dos sinos das igrejas. Todos queriam receber sua bênção, vê-lo de perto, tocá-lo. Foi mesmo necessário, em Milão, preparar uma cadeira portátil fechada, para protegê-lo da multidão em seus deslocamentos de um lugar para outro.

   Colóquios com três bem-aventurados celestes
     São Pedro de Verona foi muito favorecido com visões celestes. As virgens e mártires Santa Catarina, Santa Inês e Santa Cecília freqüentemente lhe apareciam, e tinham com ele familiar entretenimento. Isso foi-lhe causa de uma grande provação, pois um dia um frade ouviu aquelas vozes femininas na cela do santo, e comunicou ao Superior. Este, no capítulo, repreendeu Frei Pedro, que em vez de se defender, disse apenas: “Sou um grande pecador”, pois, em sua humildade, não queria que soubessem dos favores celestes que recebia. Foi então relegado a um convento distante, com a proibição de sair e de pregar.
Certo dia, nessa reclusão forçada, Frei Pedro lamentou-se amorosamente diante de um Crucifixo, dizendo: “E, então, meu Deus! Vós, que conheceis minha inocência, como podeis sofrer que eu permaneça tanto tempo na infâmia?”. Nosso Senhor respondeu-lhe: “E eu, Pedro, não era inocente? Merecia os opróbrios e as dores com que fui acabrunhado no curso de minha Paixão? Aprende assim de mim a sofrer com alegria as maiores penas, sem ter cometido os crimes que te são imputados”.[vi]Mas os superiores deram-se conta de seu erro e chamaram de volta o grande pregador.
Em 1232 o Papa Gregório IX, que conhecia o zelo e a pureza de doutrina de Pedro de Verona, nomeou-o Inquisidor-Geral da Fé. Foi enviado então a Florença para examinar uma Ordem religiosa que estava surgindo, fundada por sete varões daquela cidade. Graças a seu testemunho favorável, a Ordem dos Servos de Maria foi confirmada.
Frei Pedro de Verona não combatia a heresia só com palavras mas “persuadiu os católicos a se coligarem em uma espécie de cruzada para expulsar do país todos os hereges; e, em menos de seis anos, logrou ver católica a Toscana inteira”.[vii]

       Ardor apostólico coroado com o martírio
Os hereges não se conformavam com o desaparecimento de sua seita. Assim, coligaram-se para exterminar aquele que tantos estragos fazia.
Por uma luz sobrenatural, São Pedro conheceu que o momento de seu tão desejado martírio estava próximo. E o disse a muita gente, por exemplo, a uma multidão de 10 mil pessoas que o ouviam em Milão, no Domingo de Ramos.
No sábado seguinte à Páscoa, como vimos, dirigia-se de Como, onde era Prior, para Milão, quando foi martirizado aos 46 anos. Como foi o primeiro mártir da Ordem Dominicana, é também conhecido como São Pedro Mártir, e foi imortalizado por seu irmão de hábito, o célebre Beato Fra Angélico, em várias pinturas.


Pintura de Fra Angelico, representando o
momento do martírio do santo, no qual ele
embebe os dedos com seu sangue para, com
ele, escreve no chão: "CREDO". 


––––––––––––––––––
Notas:
1. Abbé J. Croisset, S.J., Año Cristiano, Madrid, Saturnino Calleja, 1901, t. II, p. 342.
2. Id. ib., p. 343.
3. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, par Mgr. Paul Guérin, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo V, p. 80.
4. Vies des Saints à l’usage des Prédicateurs, Abbé C. Martin, Librairie Religieuse et Ecclésiastique, Paris, 1865, tomo II, p. 133.
5. Cfr. Santos de Cada Dia, organização do Pe. José Leite, SJ., Editorial Apostolado da Oração, Braga, 1987, vol. II, p. 181.
6. Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 81.
7. Abbé Croisset, op. cit. p. 345.