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sábado, 17 de janeiro de 2015

Beato Isidoro Bakanja, Leigo e Mártir - o "Mártir do Escapulário do Carmo"


Beato Isidoro Bakanja
A data do nascimento do jovem congolês de pele negra, futuro mártir do escapulário, de nome Isidoro Bakanja, deve ter sido entre 1885 e 1890, em Bokendela. Ele, contudo, nasceu no seio de uma família da tribo Boangi. Nessa época o seu país, era domínio exclusivo do rei Leopoldo II da Bélgica, fazia parte de seu patrimônio pessoal. Mais tarde essa propriedade foi transformada na colônia chamada Congo Belga, atual República Democrática do Congo.

Os dados concretos revelam que, como todos os africanos de sua tribo, conheceu a pobreza logo cedo. Ainda na infância precisava trabalhar para o sustento próprio, como pedreiro ou como lavrador no campo. Na adolescência conheceu a religião cristã através dos dois religiosos trapistas, que foram em missão converter essa tribo africana. Totalmente convertido e devoto de Maria, Isidoro foi batizado no dia 06 de maio de 1906. Nessa ocasião recebeu de presente um Rosário e o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo, que nunca mais deixou de usar. Ele conhecera a história do Escapulário e contava a todos os irmãos africanos, que interessados no cristianismo, procuravam os dois missionários. Estes por sua vez chamavam Isidoro de o "Leigo do Escapulário", pela vocação ao apostolado.

Mais tarde, Isidoro estava trabalhando numa plantação de borracha, em Ikiri. Pertencia a um colonizador belga, ateu, que não suportava os africanos cristãos e
menos ainda os missionários. Preferia a população africana como estava, era mais fácil para ser explorada como mão de obra quase gratuita. Não gostava de ter africanos convertidos trabalhando na plantação, "perdiam tempo rezando", dizia. Isidoro, no entanto, nunca escondeu que era cristão, usava o Escapulário com fé e devoção. Trabalhava duro e produzia bem, mas era cada vez mais perseguido.

Quando foi impedido de rezar em voz alta, enquanto trabalhava, resolveu deixar a plantação. Mas foi proibido de voltar para casa, e ordenaram que jogasse fora o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo, sinal de sua fé. Como Isidoro recusou, foi chicoteado pelo próprio belga, ateu, até ter suas costas transformadas em uma grande chaga. A ferida infeccionou e ao longo de seis meses Isidoro viveu um calvário de sofrimentos. Sua agonia foi muito mais dolorosa que o açoitamento. Durante esse período, foi solidário com seu povo e outros sofredores, repartindo com eles sua fé e os alimentos que recebia.

Esta foto na verdade não é de nosso Beato,
mas, de um jovem congolês. Muito
provavelmente, o Beato Isidoro
 era parecido com ele... 

Morreu entre seus irmãos africanos, com o rosário nas mãos e o escapulário de Nossa Senhora do Carmo em seu pescoço. Perdoou e prometeu rezar pelo seu algoz ao ingressar no céu. Foi o que disse, antes de entregar sua alma ao Pai, envolto em seu pequeno "hábito de carmelita" a 15 de agosto de 1909.

O Papa São João Paulo II beatificou esse jovem africano cristão que chamou de: o "Mártir do Escapulário", em 1994. O Beato Isidoro Bakanja é celebrado no dia de sua morte. O seu testemunho fez florescer muitas obras de caridade promovidas pelos leigos carmelitas e devotos do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo, em todos os continentes.



Bem-Aventurado Isidoro Bakanja... Rogai por nós!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

SANTA RAFAELA MARIA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS, Virgem e Fundadora das Escravas do Coração de Jesus.



     Ildefonso Porras e Rafaela Ayllón, abastado casal, não suspeitaram quais eram os misteriosos desígnios de Deus quando lhes nasceu a décima de seus treze filhos, Rafaela, no dia 1º de março de 1850. Rafaela Maria Porras y Ayllón nasceu em Pedro Abad, província de Córdoba (Espanha). Dos seus pais recebeu uma educação cristã, especialmente eficaz porque baseada no exemplo.
     Santa Rafaela Maria tinha quatro anos quando seu pai, Presidente da Câmara de Pedro Abad, tombou vítima de sua religiosidade e de seu heroísmo: ao cuidar dos doentes de cólera, ele próprio contraiu a doença. Sua viúva, mulher forte, passou a dirigir a família. Dedicou especial atenção na educação das "duas perolazinhas", como eram chamadas as duas únicas meninas, Rafaela e Dolores, esta última quatro anos mais velha que a irmã.
     A educação recebida de sua mãe, uma mistura de solícita ternura e de suave exigência, fez amadurecer nela os melhores traços do seu temperamento. Ao chegar à adolescência, era uma criança precocemente reflexiva, doce e tenaz ao mesmo tempo, senhora de si, sempre disposta a ceder nos seus gostos perante os gostos dos outros.
     Rafaela e a irmã, jovens finas, cultas, bem dotadas, podiam frequentar a melhor sociedade de Córdoba e Madri. Mas Rafaela, de joelhos diante do altar de São João dos Cavaleiros, em Córdoba, consagrou-se a Nosso Senhor com um voto de castidade perpétua aos quinze anos de idade. Isto aconteceu no dia da Anunciação de Nossa Senhora, a Escrava do Senhor. Mais tarde ela diria: "É tão formosa a flor da pureza!" Por uma coincidência providencial, a propriedade daquela igreja seria mais tarde entregue às Escravas do Sagrado Coração de Jesus, obra que Rafaela fundaria.
     A morte da sua mãe, quando ela tinha dezenove anos, foi outro momento forte na reta trajetória da sua entrega a Deus. A partir de então se dedicou completamente aos mais carentes e não havia na povoação uma necessidade ou dor que ela não consolasse. Em tudo isto era acompanhada por sua irmã Dolores, que iria ser também sua companheira inseparável na fundação do Instituto das Escravas do Sagrado Coração de Jesus.
     Por caminhos inesperados, as duas irmãs viram-se convertidas em fundadoras. A 14 de abril de 1877 estabelecia-se em Madri a primeira comunidade das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, dedicadas a adorar o Santíssimo Sacramento e a educar crianças e jovens, principalmente as pobres. Aprovadas pelo Cardeal Moreno, das dezoito noviças que haviam começado aquela aventura "nenhuma se perdera".
     Testemunhas de Deus num mundo desgarrado pela dor de frequentes guerras, as primeiras Escravas trataram de dar a conhecer o amor de Cristo, amor até à morte, expressivamente simbolizado no seu Coração aberto. Rafaela Maria e a sua irmã Dolores fizeram disto a missão do Instituto, que impulsionaram com a sua atividade e deram vida com o seu espírito. Santa Rafaela Maria foi a encarnação do ideal de uma Escrava. O nome que adotou na vida religiosa – Maria do Sagrado Coração de Jesus – exprime a sua atitude constante de resposta ao Amor.
     Em 29 de janeiro de 1887, o papa Leão XIII aprovava definitivamente o Instituto e, temporariamente, as Constituições pelas quais elas tinham lutado com denodo.
     As Escravas espalharam-se rapidamente, e Rafaela dirigiu-as, com Maria del Pilar, nome que sua irmã adotara, como ecônoma geral, até 1893.
     Neste ano, Irmã Maria del Pilar convenceu-se que a irmã errava muito na administração econômica, fez campanha e as Religiosas Conselheiras declararam a Madre Rafaela incapaz de governar a Congregação. Irmã Maria del Pilar substituiu-a no cargo; teve, deste modo, o gosto de ser Superiora geral durante dez anos (1893-1903).

     Estes dez anos e os 22 seguintes passou-os Rafaela a um canto, esquecida e desprezada, mas feliz por não ter senão que dar bom exemplo e entregar-se continuamente à oração e à humildade. Sem amargura de coração, sem críticas, sem o menor ressentimento, vendo a mão invisível de Deus que com infinito amor modelava o seu barro, aceitou para o resto da sua vida – tinha quarenta e três anos – o martírio do “não fazer”.
     Entregue à oração e às simples tarefas domésticas, nas quais soube traduzir o seu imenso desejo de ajudar o Instituto e a Igreja, Santa Rafaela Maria pode ver o crescimento daquela obra nascida do seu amor e fecundada pela sua dor. Sempre serena, acreditou contra toda a esperança no Deus fiel que levaria a feliz término a empresa que por meio dela e de sua irmã tinha começado.

     Naqueles anos de isolamento, só teve o consolo de uma viagem a Loreto e Assis, e outra a Espanha. Por todas as casas que visitou deixou uma esteira de edificação. As religiosas mais jovens podiam comprovar o que tinham ouvido as mais velhas comentarem sobre a fundadora. Ela nunca mais exerceu a autoridade no Instituto, mas edificava a todas o verem-na, já idosa, ajudando a uma postulante recém-chegada a pôr as mesas.
     O prolongado e doloroso holocausto estava para se consumar. Devido às longas horas que passava ajoelhada diante do Santíssimo Sacramento, centro de sua vida, contraiu uma doença no joelho direito que pouco a pouco a foi consumindo em meio a dores intensas. Os últimos oito meses que passou retida em seu leito foram de acerbo sofrimento. "Aceitai todas as coisas como se viessem das mãos de Deus", repetia ela.
     No dia 06 de janeiro de 1925, Santa Rafaela morre santamente na casa de Roma, onde permanecera os últimos anos de sua vida. Depois de seu falecimento as autoridades eclesiásticas compreenderam o que se tinha passado; foi aberto o processo de sua beatificação.


O corpo milagrosamente incorrupto de Santa Rafaela, com foi encontrado, na exumação feita
vinte anos após sua morte. Estava ainda flexível, como se apenas dormisse... 



     Quase ao final da II Guerra Mundial, um bombardeio americano atingiu o cemitério onde Madre Rafaela estava sepultada. Seu túmulo milagrosamente foi preservado e, ao fazerem a exumação de seus despojos, encontraram seu corpo incorrupto e flexível como se ela dormisse.
     Pio XII beatificou-a em 1952 e Paulo VI canonizou-a no dia 23 de janeiro de 1977.

Reflexão:

Uma religiosa santa é, basicamente, uma mulher realizada em Cristo. Isto é, uma mulher na qual os melhores valores do ser feminino, na sua forma específica de ser pessoa humana, à imitação de Cristo e sob o impulso do Espírito Santo, alcançaram plena maturidade.

Partindo desta base, podemos passar a descrever alguns aspetos distintivos desta mulher santa que alcançou a plenitude cristã enquanto consagrada e fundadora de um novo Instituto na Igreja.

Um santo é uma testemunha excecional da transcendência de Deus. A vida duma religiosa, como diz Paulo VI, deve ser para o homem “testemunho privilegiado duma procura constante de Deus, de um amor único e indiviso a Cristo, duma dedicação absoluta ao crescimento do Seu Reino”. (ET,3). Enquanto religiosa e santa, Rafaela Maria Porras y Ayllón deu esse testemunho. Enquanto fundadora, recebeu ainda a graça de transmitir o modo especial de viver o cristianismo que Deus lhe inspirou. Não recebeu o carisma da vocação só para ela. Recebeu-o também para nós. Para as Escravas, em primeiro lugar, mas também para todos os que de alguma forma se sintam vinculados a elas. Todos formamos uma grande família à volta deste carisma e espiritualidade que Santa Rafaela Maria recebeu para entregar ao Mundo.

A sua vocação à vida religiosa e a fundação do Instituto são uma longa procura na fé. O plano de Deus vai sendo revelado a ela por etapas; que é como quem diz, em doses humanas. Ela e a sua irmã, que em Pedro Abad (aldeia perto de Córdova onde nasceram) tiveram uma vida de oração e de caridade que qualificaríamos de heroica, começam a caminhar por caminhos desconhecidos. Deus apresentasse-lhes como o Senhor, o Dono dos nossos destinos, com direito a alterar os planos que fazemos para nós próprios. Nesse caminho que terminará por convertê-la em fundadora dum Instituto, não há outra luz senão a vontade de Deus, a Sua Palavra.

A propósito disto, é bom dizer que, para Rafaela Maria, o chamamento de Deus não tem nunca o eco duma voz misteriosa, espetacular. É como se, desde o princípio da sua vida, por uma compreensão profunda da Encarnação do Verbo, tivesse entendido que a voz de Deus adquire o timbre das vozes humanas; que Deus fala através dos acontecimentos. Mas esse coro de vozes da terra precisa duma espécie de intérprete, e Rafaela Maria, sempre humilde, escutará o “intérprete oficial”, o único intérprete autorizado: a Igreja.

Por caminhos inesperados, encontrar-se-á convertida em fundadora. Ela procurou puramente a Deus, com esse estilo especial, tão feminino, que é o deixar-se procurar e o deixar-se encontrar por Ele. Toda a sua vida é uma escuta, um acolhimento da Palavra de Deus, uma atitude de resposta incondicional. E Deus procurou-a a ela. Encontraram-se nesse ponto: ela, a pedra fundamental do Instituto e Ele, o sábio construtor. É um posto – o de fundadora – que, naturalmente, a ela não lhe agrada. O aceita com simplicidade, como aceita tudo na sua vida. Vive-o em plenitude e, quando chega a hora, abandona-o em completa paz. É a personificação da escrava, que, como diz um salmo, “tem os olhos postos nas mãos dos seus senhores”. É, sem comparações nem metáforas, a escrava. É modelo de Escrava do Sagrado Coração.

“Testemunha dum amor único e indiviso a Cristo”. Todos os santos procuraram Cristo com todo o seu ser, mas não há santo algum capaz de abarcar na sua procura, e muito menos no seu encontro, toda a riqueza de Cristo. Deus desborda-nos.

Rafaela Maria, desbordada por Deus, transmite-nos a todos nós a sua experiência pessoal de Cristo. Cristo é para ela o Deus que quis encarnar-se por amor, o Deus que ama com um amor pessoal, tão imediato e tão humano, que teve de concretizar-Se no Coração de um Homem, Cristo, para que pudéssemos palpar, duma maneira tangível, algo da Sua riqueza. Nos escritos de Santa Rafaela Maria é constante a memória de Jesus Cristo, do Seu Coração, do Seu amor, da Sua entrega. Às vezes fala num tom, diríamos, oficial ou litúrgico, como quando nos diz que “todos os bens nos vêm pelo Unigénito de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo; que por Seus méritos devem pedir-se todas as coisas, e que na Sua imitação está a nossa saúde e vida.”; “devo trabalhar em Cristo, por Cristo, para Cristo…”. Outras vezes em tom mais familiar, como quando diz que os homens do mundo inteiro são “filhos do Coração do nosso bom Jesus, e custaram-lhe todo o Seu sangue…”. Outras vezes com entusiasmo, como quando, nuns apontamentos de Exercícios Espirituais, diz que sai disposta, “animosa e alegre” por poder fazer algo pelo Seu Capitão Jesus. Quem nos dera a nós falar de Jesus Cristo com tanta espontaneidade e com tal riqueza de matizes.

Todas estas expressões poderiam ser simplesmente palavras sonoras, se não estivessem validadas por toda a sua vida de entrega a Cristo. Nuns Exercícios oferecia-se para dar “quanta maior glória pudesse ao Coração de Jesus, ainda que lhe custasse a honra e vida”. Quando chegou o momento de dar a honra, manteve-se firme nesse propósito. Firme, serena, constante. E é nessa época, no meio da escuridão da sua vida, que escreve o que na realidade vivia: “que Ele me ame ainda que seja perdendo a pele, que esta a perderam por desfrutá-lo os inumeráveis santos que encerra esta bendita e santa cidade”.

Rafaela Maria fez da sua vida inteira um ato continuado de confiança e fidelidade. E essa sua vida ensina-nos que a primeira resposta que o homem pode dar ao amor é, precisamente, crer n’Ele. Como escreveu S. João: “Nós conhecemos o amor que Deus nos tem e acreditámos n’Ele” (1Jo.4,16). Ela teve uma experiência muito profunda do Coração de Cristo e está convencida de que dar-Lhe glória é sobretudo entregar-se pela salvação do mundo. Daí, o seu extraordinário interesse, a sua paixão pelos homens, pela humanidade. “Que se nos infunda bem o espírito do Instituto, que é o amor verdadeiro a Jesus na Eucaristia, e o interesse que devorava o Seu Coração pela salvação dos homens”. A sua vivência íntima, entranhável, do Coração de Cristo, leva-a à Eucaristia e, ao mesmo tempo, na Eucaristia encontra a fonte dum conhecimento cada vez maior, duma experiência mais íntima do Coração. Quer moldar a sua vida à vida mortal de Cristo, diz ela, e acrescenta de seguida: “ou à que tem no Santíssimo Sacramento”. Cristo está na Eucaristia renovando continuamente a Sua entrega pela salvação dos homens. Modelar a própria vida à de Cristo na Eucaristia é pôr-se em atitude de entrega contínua e “não por um número determinado de pessoas, mas pelo mundo inteiro”. São palavras suas: “fomentar muito o zelo pelas almas, arder e abrasar-me em rogar para que nenhuma se perca”.

“Testemunho duma dedicação absoluta ao crescimento do Reino”, disse o Papa Paulo VI sobre a vida religiosa. Rafaela Maria, tanto na primeira fase da sua vida, em plena atividade, como nos anos do seu grande silêncio, ensina-nos como devemos viver unicamente para o Reino. Nuns apontamentos dos Exercícios Espirituais de 1890, expressava os seus enormes desejos de “como pudesse, ou senão com orações, fazer tudo para que Cristo seja conhecido e seja amado”. “Quando me veja sem ação física para estender o meu zelo, como são os meus desejos, contentar-me-ei em rogar e fazer suavemente o que possa da minha parte, como me ensina o meu Senhor”. Referia-se, aqui, a uma situação que entrevia como possível. Esta situação tornou-se realidade. Quando, em 1892; entrou no seu estado de ocultação, de vida oculta, Rafaela Maria compreendeu que tinha chegado a hora de “rogar e fazer suavemente o que podia da sua parte”. E com que plenitude o fez! Sem amargura, sem críticas. Ajudar todos e em tudo foi a sua forma de colaborar na extensão do Reino, na atividade apostólica do Instituto. Com a enorme generosidade do seu coração, soube alegrar-se com a vida, que continuava, enquanto ela avançava num caminho de esquecimento, de obscuridade. Nunca teve reticências para as pessoas nem para as novas situações. Em certa ocasião disse: “A mim não se me apaga o entusiasmo pelas coisas e gosto de ver que se o tenha”. E noutra ocasião comentava que o próprio da juventude é o desejo de trabalhar muitíssimo para dar glória a Deus; pelo que ver uma jovem religiosa, apática ou menos entusiasmada lhe produzia verdadeiro assombro e tristeza. Até poucos dias antes da sua morte, falou com carinho das novas gerações, daquelas jovens que vinham continuar a ação apostólica que ela se tinha visto obrigada a deixar, tão contrariamente à sua inclinação e desejo.





Rafaela Maria foi canonizada no dia 23 de janeiro de 1977. Quando a Santa Sede aprovou o nosso Instituto, foi como se nos dissesse, às Escravas, que este era um caminho de vida capaz de levar-nos à santidade. A canonização da nossa Fundadora é a afirmação rotunda, existencial, de que por este caminho, efetivamente, já chegou à santidade uma pessoa. Uma pessoa com as nossas dificuldades, com a nossa debilidade, feita da mesma carne e do mesmo sangue que todos nós.

A canonização de Rafaela Maria é para nós um chamamento a vivermos mais profundamente a nossa vocação e a transmitirmos a todos o que por graça recebemos. Ensina-nos a procurar a Deus, a deixar-nos levar por Ele, sabendo que Ele é fiel. Convida-nos a uma maior experiência do Coração de Cristo, a uma revisão da nossa fé no amor, desse amor de Deus intensamente humano, que O faz entregar-Se até à morte e permanecer constantemente entre nós.
Como Rafaela Maria, nós, Escravas, somos chamadas a procurar essa presença na Eucaristia, nos homens e mulheres e nos acontecimentos dos nossos dias.  A receber no mistério de Cristo que atualiza a Sua morte e ressurreição, e na Sua glória invisível entre nós, o amor que nos une aos nossos irmãos e nos leva a procurar com eles a vinda do Reino.


Imaculada Yáñez, aci

SÃO MAURO (ou Amaro), Abade Beneditino, primeiro discípulo de São Bento.


São Mauro foi o primeiro discípulo de São Bento de Núrsia. Ele é mencionado na biografia de São Gregório o Grande do segundo como o primeiro oblato; oferecido ao mosteiro por seus nobres pais romanos como um jovem rapaz a ser trazido para a vida monástica.


Quatro histórias envolvendo São Mauro, recontadas por Gregório, formam um padrão para a formação ideal de um monge Beneditino. A mais famosa dessas envolve o resgate, feito por São Mauro, a São Plácido, um jovem menino oferecido a São Bento na mesma época de São Mauro.

 O incidente vem sendo reproduzido em muitas pinturas medievais e Renascentistas. São Mauro e São Plácido são venerados juntos no em 05 de outubro.

Uma longa “Vida de São Mauro” aparece no fim do Séc. IX, supostamente composta por um dos contemporâneos de São Mauro.

De acordo com esta história, o bispo de Le Man, no oeste da França enviou uma delegação solicitando a São Bento que um grupo de monges viajasse da nova abadia Beneditina de Monte Cassino para estabelecer vida monástica na França, de acordo com a Regra de São Bento.

A Vida reconta a longa jornada de São Mauro e seus companheiros da Itália à França, acompanhada por muitas aventuras e milagres, na qual São Mauro é transformado de um obediente discípulo de São Bento em um poderoso santo milagreiro da sua própria maneira.

De acordo com este conto, após a grande jornada, São Mauro fundou a Abadia de Glanfeuil como o primeiro mosteiro Beneditino na França. Ela se localiza no banco sul do Rio Loire, a alguns poucos quilômetros a leste de Angers. A nave de sua igreja do décimo terceiro século e algumas vinhas permanecem até hoje (de acordo com a tradição, o vinho chenin foi primeiramente cultivado neste mosteiro).



Resumo Biográfico

São Mauro, abade e diácono, filho de Equitius, nobre de Roma, nasceu por volta de 510 e morreu em 584, aos 74 anos.

 Por volta de doze anos, foi confiado por seu pai aos cuidados de São Bento, em Subíaco, para ser educado na piedade e na ciência. Adulto, São Bento o escolheu como seu auxiliar no governo do mosteiro. Ele era um modelo de perfeição para todos os monges, um homem de grande virtude, modelo de obediência, humildade e caridade. Austero para consigo mesmo, era condescendente e caridoso para com os outros. A ele se atribuem vários milagres realizados em vida.

Pintura retratando o famoso milagre de São Mauro. 


Um dos mais lembrados é o que narro a seguir. São Plácido, um de seus companheiros, filho do senador Tertullus, indo um dia buscar água, caiu no lago e foi imediatamente arrastado pela corrente.

São Bento viu isso em espírito, em sua cela, e mandou que Mauro fosse salvá-lo. Tendo pedido e recebido a bênção do Santo Abade, Mauro correu para o lago, andou sobre as águas, sem se dar conta, e puxou Plácido pelos cabelos para a margem, sem pensar em si mesmo. Ele atribuiu o milagre à ordem e à bênção de São Bento, mas o Santo Abade atribuiu-o à obediência do discípulo.

São Mauro foi mandado à França em 543 para instaurar a ordem de São Bento naquela região. Ele fundou a famosa Abadia de Glanfeuil, que governou como Abade por volta de 38 anos.

Em 581, ele renunciou ao abaciado, construiu para si mesmo uma pequena cela junto à igreja de São Martinho para que, na solidão e na oração, pudesse preparar-se para passar à eternidade.

 Depois de dois anos, doente de febre, recebeu os últimos sacramentos e, deitado diante do altar de São Martinho, morreu no dia 15 de janeiro de 584, aos 74 anos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Beata Maria Dolores Rodriguez Sopeña, Virgem e Fundadora.


Beata Maria de los Dolores Rodriguez Sopeña
     Maria Dolores foi a quarta dos sete filhos de Tomás Rodríguez Sopeña, um jovem magistrado, e Nicolasa Ortega Salomón. Sua infância foi um “lago de tranquilidade”, segundo ela mesma. Trasladou-se para Almería e com dezessete anos começou a frequentar festas levando uma vida social, porém descobriu que o que lhe interessava era fazer o bem aos demais. Atendia aos pobres, especialmente a um leproso e a duas irmãs doentes de tifo.
     Seu pai foi transferido para Porto Rico e vai para lá com seu filho mais velho, enquanto o resto da família vai viver em Madrid. Ali Maria Dolores colabora ensinando doutrina católica na prisão feminina, no Hospital da Princesa e nas Escolas Dominicais. Pouco tempo depois toda a família se reúne em Porto Rico, onde ela funda as Filhas de Maria e as Escolas Dominicais para meninas.
A Beata quando jovem.
     Devido a uma nova transferência de seu pai como fiscal do rei na Audiência de Cuba, ela se mudou para Santiago de Cuba. Ali visita os doentes do hospital militar. Começou a trabalhar nos bairros de periferia e fundou, com a ajuda de algumas colaboradoras, os Centros de Instrução em três bairros diferentes, onde se ensina cultura geral, catecismo e se dá assistência médica. Fundou em Cuba as Damas Catequistas, Instituto para catequizar a população mais pobre, que incluía negros e mestiços. Colaborou com ela José Maria Orberá, vigário desta arquidiocese naquela época e que anos mais tarde seria bispo de Almería. Maria Dolores estabeleceria depois vários destes Centros em várias cidades cubanas e espanholas.
     Com a morte de sua mãe, seu pai se aposenta e volta para Madrid em 1877. Seu pai falece em Madrid. Ela inicia seus trabalhos no bairro das Injúrias e funda Centros de Instrução. Por sugestão do bispo de Madrid, o Beato Ciríaco Sancha, em 1892 funda uma associação de apostolado secular, hoje denominada Movimento de Leigos Sopeña. Também criou Centros Operários de Instrução, onde assistiam os operários fortemente influenciados pelo anticlericalismo, pois não se podia pretender ensinar a religião diretamente.
Beato Ciríaco Sancha, Cardeal
     Em 1896, ela estendeu suas comunidades e centros por toda Espanha, sobretudo pelas cidades mais industrializadas de então. Em 1901 fundou o Instituto que atualmente é denominado Instituto Catequista Dolores Sopeña. Em 1902, o Governo da Espanha aprovou os estatutos de sua associação civil de Obra social, atualmente chamada ' (OSCUS).
     A primeira fundação fora da Espanha a faz na Itália em 1914, e em 1917 as primeiras catequistas viajam para abrir no Chile a primeira casa na América. Entra em contato com os principais movimentos sociais da época. Em 1915 recebeu a Cruz de Afonso XII por seus desvelos pelos mais humildes.
     Maria Dolores faleceu em Madrid no dia 10 de janeiro de 1918. Em 23 de março de 2003 foi beatificada em Roma.

     Atualmente a família Sopeña, formada pelas três instituições que ela fundou: o Instituto Catequistas Dolores Sopeña, o Movimento de Leigos Sopeña e a OSCUS, está presente na Espanha, Itália, Argentina, Colômbia, Cuba, Chile, Equador, México e São Domingos.

Beato Tito Brandsma, Presbítero Carmelita e Mártir


Beato Tito Brandsma
            Sua vida

Em Bolsward, povoado holandês de 10.000 habitantes, do matrimônio de Tito e Postma, em 23/ 02/ 1881, vinha ao mundo “o quinto” de seis filhos com que o Senhor abençoou aqueles pais cristãos. Desde menino deu provas de uma preclara inteligência e de um coração de ouro, ainda encerradas em um corpo franzino e debilitado.

Aos 17 anos vestiu o hábito do Carmelo exclamando: “a espiritualidade do Carmelo que é vida de oração e de terna devoção a Maria, me levaram à feliz decisão de abraçar esta vida. O espírito do Carmelo me fascinou!”. Emitiu seus votos religiosos em 03/ 10// 1899 e se ordenou sacerdote em 17/ 06/ 1905.

O Beato quando jovem
presbítero carmelita
Cursou brilhantemente seus estudos, primeiro em sua Pátria e depois passou a Roma, onde se doutorou em filosofia. Retornando à Holanda, se entregou de cheio a toda classe de apostolado: escreveu livros e artigos em várias revistas; dá aulas dentro e fora do convento; prega e dirige cursilhos; organiza congressos; confessa e administra outros sacramentos. Todos se admiram de como pode chegar a todos os lugares (a todas as partes). E do que mais se admiram é que, antes de tudo, é religioso observante, alma de profunda oração, fervoroso sacerdote e profundamente sensível e humilde.




Foi cofundador da Universidade Católica de Nimega, catedrático e reitor magnífico da mesma. Assessor religioso de todos os editores de periódicos (revistas, jornais) da Holanda, em cujo campo trabalhou com grande zelo e acerto. Era a pessoa pública mais conhecida da Holanda.
No jardim de sua alma floresceram todas as virtudes. É um enamorado de Jesus Cristo, da Virgem Maria e de sua Ordem do Carmo.






Imagem do bem-aventurado mártir
pintada por um companheiro de
prisão. 
Na tarde de segunda-feira, 19 de janeiro de 1942, foi capturado pelos “SS” nazistas e encarcerado em vários campos de concentração. Seis longos meses de calvário, sobretudo no “inferno” de Dachau (campo de concentração tão terrível como o de Auchwitz). Por fim, por seu grande amor à Igreja e a seus irmãos, no domingo, dia 26 de julho de 1942, seu corpo caía por terra, como o “grão de trigo” do Evangelho, por obra de uma injeção mortal de ácido fênico. Todos no campo repetiam: “morreu um santo”!





Padre Tito Brandsma, em seus meses de prisão, sempre se conservou sereno, levando a todos a bondade e o amor que ardiam em seu coração. Foi um “anjo” para os demais prisioneiros, já acabrunhados e desesperados por tanto sofrimento. A própria enfermeira alemã que lhe aplicou a injeção mortal, mais tarde, no processo de beatificação, testemunhou emocionada a mansidão e a paz conservadas por nosso querido Beato.
Foi beatificado por Sua Santidade São João Paulo II, em 03 de novembro de 1985. Sua festa é celebrada no dia 27 de julho.

  
Beato Tito Brandsma, presbítero carmelita e mártir. Foi um
homem santo, mas, também, de ciências e letras. Teólogo e
jornalista ilustres, suscitou o ódio dos nazistas por causa de
seus escritos que denunciavam os erros e desmandos da
doutrina nazista. Foi assessor religioso de todos os
diretores de periódicos (jornais e revistas) da Holanda.
Era a pessoa pública mais conhecida de seu país. Sua
atividade apostólica pela escrita não poderia passar
despercebida pela Gestapo e as SS nazistas. 

Sua espiritualidade

As notas fundamentais de sua espiritualidade as resumia o decreto que a Sagrada Congregação Para a Causa dos Santos dava em 09 de novembro de 1984, quando dizia:
“De pequena e grácil estatura e de saúde sempre delicada, soube combinar uma intensa vida interior e uma grande solicitude por todas as formas de apostolado moderno: missões, união de igrejas (ecumenismo), escolas e educação católicas, meios de comunicação social, etc. De caráter pacífico, porém firme, se destacava por sua fé viva, por sua imensa confiança em Deus e por sua doce caridade, para com os pobres, especialmente pelo quê muitos, já antes de seu martírio, o tinham por santo... Passou seus últimos meses em cárceres e campos de concentração, dando a todos exemplo de uma fé inquebrantável, de fortaleza de ânimo, de paciência e de extraordinária caridade. Perdoou a seus inimigos e rezava por eles...”.
Seu ardente amor a Jesus Cristo e à Virgem Maria, seu zelo pelas almas, sua observância regular, seu amor à Igreja e aos “perseguidos”, sua sensibilidade e bom humor... Foram os “cimentos” sobre os quais, dia-a-dia, edificava sua santidade, que foi coroada pelo martírio!

Sua mensagem

·       Que Jesus, Maria e o Carmelo “fascinem nossas vidas”.
·       Que colaboremos com todas as formas de apostolado possíveis.
·       Que preguemos a verdade, ainda que nos custe a vida.
·       Que perseveremos na fé até o generoso martírio.


Oração:

 Senhor Deus, fonte e origem da vida, infundistes no Beato Tito, a força do vosso Espírito para que proclamasse a liberdade da Igreja e a liberdade do homem, mesmo durante a crueldade da perseguição e do martírio. Concedei-nos, por sua intercessão, empenharmo-nos na construção do Reino da justiça e da paz, sem nos envergonhar do Evangelho e, descobrir, a vossa presença misericordiosa, em cada momento da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na Unidade do Espírito Santo. Amém!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SANTO IVO HÉLORY DE KERMARTIN, Presbítero e Advogado. É o Patrono dos Advogados, dos Juízes e dos e Defensores Públicos. Dois textos biográficos.




 Primeiro texto biográgico: 
Ivo, ou melhor, Yves Hélory de Kermartin, filho de um nobre, nasceu em 17 de outubro de 1253, no castelo da família, na Baixa Bretanha, França. Educado e orientado por sua mãe, muito religiosa, até a idade de catorze anos, recebeu uma sólida formação religiosa e cultural. Nessa ocasião, decidiu continuar os estudos em Paris, acompanhado de seu professor, João de Kernhoz.

Os próximos doze anos foram dedicados aos estudos de teologia e filosofia na escola de são Boaventura e de direito civil e canônico, cursados na cidade de Orleans, junto ao famoso jurista Peter de la Chapelle. Era muito respeitado no meio acadêmico, por sua aplicação nos estudos e devido à sua vida de piedade muito intensa. Dessa forma, atender o chamado do Senhor pelo sacerdócio seria apenas uma questão de tempo para Ivo.

Atuou como destacado advogado, tanto na corte civil quanto na corte eclesiástica. Aos vinte e sete anos, passou a trabalhar para o diaconato da diocese de Rennes, onde foi nomeado juiz eclesiástico. Pouco tempo depois, o bispo o convocou para trabalhar junto dele na mesma função, mas antes o consagrou sacerdote.

Ivo, aos poucos, se despojou de tudo para se conformar de maneira radical a Jesus Cristo, exortando os seus contemporâneos a fazerem o mesmo, por meio de uma existência diária feita de santidade, no caminho da verdade, da justiça, do respeito pelo direito e da solidariedade para com os mais pobres.

Seus conhecimentos legais estavam sempre à disposição dos seus paroquianos, defendendo a todos, ricos e pobres, com igual lisura. Foi o primeiro a instituir, na diocese, a justiça gratuita para os que não podiam pagá-la. A fama de juiz austero, que não se deixava corromper, correu rapidamente e Ivo se tornou o melhor mediador da França, sempre tentando os acordos fora das cortes para diminuir os custos legais para ambas as partes.

Essa sua dedicação na defesa dos fracos, inocentes, viúvas e pobres lhe conferiu o título de "advogado dos pobres". Muitos foram os casos julgados por ele, registrados na jurisprudência, que mostraram bem seu modo de agir. Ficou constatado que, quando lhe eram denunciados roubos de carneiros, bois e cavalos, com a desculpa de impostos não pagos, Ivo ia pessoalmente aos castelos recuperar os animais. Famosa também era sua caridade.

Contam os devotos que ele tirava a roupa do corpo, mesmo no inverno, e ia distribuindo aos pobres e mendigos, indo para sua casa muitas vezes só com a camisa. Diz a tradição que, certa vez, deu sua cama a um mendigo que dormia na porta de uma casa e foi dormir onde dormia o mendigo.

Por tudo isso, sua saúde ficou comprometida. Em 1298, a doença se agravou e ele se retirou no seu castelo, o qual transformara num asilo para os mendigos e pobres ali tratados com conforto, respeito e fervor. Morreu em 19 de maio de 1303, aos cinquenta anos de idade. O papa Clemente VI declarou-o santo 1347. Ele é o padroeiro da Bretanha, dos advogados, dos juízes e dos escrivães.






 Segundo texto biográfico: 

Infância

Nasceu em 17 de outubro de 1253, perto de Treguier, na baixa Bretanha, França. Seu nome, Yves Hélory, (Helori ou Heloury) era filho do lorde Helory de Kermartin e Azo Du Kenquis.  Era de família da pequena nobreza, com educação apurada e cristã.
Quando termina os primeiros estudos é enviado em 1267 com 14 anos de idade à Universidade de Paris, onde estudou teologia, tendo a oportunidade de ser aluno do grande e famoso Santo Tomás de Aquino.

Juventude e estudos

Participou com São Boaventura de várias conferências aprendendo o espírito franciscano, depois foi para Orléans em 1277, onde se especializou em Direito Civil e Direito Canônico, voltando posteriormente para a Bretanha.

A profissão de Advogado

Foi conselheiro jurídico e juiz eclesiástico, trabalhando como juiz episcopal em 1280, na arquidiocese de Rennes, cidade capital de Ducado da Bretanha por quatro anos, depois volta para Tréguier. Julgava todo tipo de litígio, contratos, heranças, casos matrimoniais, menos os processos criminais.

Sacerdote e advogado

Em 1824, foi ordenado Sacerdote a convite de seu Bispo, continuando a trabalhar como advogado e juiz, multiplicando suas atividades, pois naquele tempo ainda era permitido varias atividades para o sacerdote, e muitas pessoas se recorriam a ele. Obteve o título de "Advogado dos Pobres" por sua intransigente defesa dos menos favorecidos, construindo até um hospital onde ajudava a cuidar dos doentes pessoalmente, pois era terceiro Franciscano.

Vida de oração

Gostava de passar a noite em vigília alimentando-se apenas de pão e água. Essas noites ele passava em estudo e orações, mas também saía à procura dos mais necessitados para pregar, orientar, ajudar com seu dinheiro os mais pobres. Com isso, Ivo conseguia o respeito e a admiração de todos.

Falecimento

Santo Ivo de Kemartin (como também era conhecido) morreu aos 50 anos de causas naturais em 19 de maio de 1303. Está sepultado na Catedral de Tréguier, onde é objeto de devoção dos fiéis até os dias de hoje.

Canonização

No ano de 1347 a pedido de Bispos e autoridades civis, após processo de investigação conduzido pelo Vaticano, o Papa Clemente VI, com a solene Bula de 19 de maio, assinada em Avignon, proclama Ivo inscrito no catálogo dos Santos e confessores, sendo venerado como Santo da Igreja Católica. Sua festa é anualmente no dia 19 de maio.

Santo Ivo era da Ordem Franciscana
Secular. Daí sua representação com o
cordão de São Francisco.
Representação

A igreja de Sant’Ivo Allá Sapienza em Roma (Itália) é dedicada a Santo Ivo.
Sua imagem é representada com uma bolsa na mão direita por todo o dinheiro que ofertou aos pobres, e um papel enrolado na outra, por causa de seu oficio de advogado e magistrado. Outra representação do Santo é entre um homem rico e um pobre.

Legado para a humanidade

A criação da Instituição dos Advogados dos Pobres, como a Defensoria Pública dos dias atuais, foi inspiração de Santo Ivo, que sempre defendeu as causas dos pobres, viúvas e menos favorecidos. Por isso, em vários países, na data de seu falecimento comemora-se o dia da Defensoria Pública. A Constituição brasileira em seu artigo 134 e parágrafo único foi uma das pioneiras a instituir no mundo a Defensoria Pública, realizando, de certa forma, o sonho de Santo Ivo.

Devoção

No Brasil existe uma relíquia de Santo Ivo, doada pelo Bispo de Saint-Brieuc em Tréguier, para o Bispo de Santa Maria no Rio Grande do Sul. Ela está na capela em honra ao Santo, na cripta do Santuário da Medianeira de todas as Graças, com o altar inaugurado em 19 de maio de 1986, local de peregrinação de muitos fiéis e de muitos advogados do Brasil.
Ele é o Patrono dos advogados, dedicando toda a sua vida à defesa dos pobres e fracos contra os poderosos, conquistando o respeito de todos. Umas de suas grandes frases era:
"Jura-me que sua causa é justa e eu a defenderei gratuitamente".


Oração a Santo Ivo:

Glorioso Santo Ivo, lírio da pureza, apóstolo da caridade e defensor intrépido da justiça. Vós que, vendo nas leis humanas um reflexo da lei eterna, soubestes conjugar maravilhosamente os postulados da justiça e o imperativo do amor cristão, assisti, iluminai, fortalecei a classe jurídica, os nossos juízes e advogados, os cultores e intérpretes do direito, para que nos seus ensinamentos e decisões, jamais se afastem da equidade e da retidão.
Amem eles a justiça, para que consolidem a paz; exerçam a caridade, para que reine a concórdia; defendam e amparem os fracos e desprotegidos, para que, posposto todo interesse subalterno e toda afeição de pessoas, façam triunfar a sabedoria da lei sobre as forças da injustiça e do mal.
Olhai também para nós, glorioso Santo Ivo, que desejamos copiar os vossos exemplos e imitar as vossas virtudes. Exercei junto ao trono de Deus vossa missão de advogado e protetor nosso, a fim de que nossas preces sejam favoravelmente despachadas e sintamos os efeitos do vosso poderoso patrocínio. Amém.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

SÃO FRANCISCO DE BORJA, Presbítero Jesuíta e segundo sucessor de Santo Inácio na Companhia de Jesus




Decidido a nunca mais servir um soberano que pudesse morrer, o Duque de Gandia abandonou a corte para se pôr nas mãos de Santo Inácio. Na Companhia de Jesus, haveria de ser grande na santidade, no governo e na dor.


A imperial Toledo trocou as habituais vestes festivas pelo negro de luto naquele 1º de maio de 1539. A morte viera bater às portas de suas muralhas, ceifando a preciosa vida da imperatriz Isabel, cujo passamento deixou no esposo, Carlos V, e em todo o povo espanhol, uma tristeza inconsolável.
O formoso semblante da mais bela soberana das cortes europeias não mais encantaria a nobreza e a plebe. Só cabia sepultá-la junto a seus avós Fernando e Isabel, os Reis Católicos. Partiu, pois, para Granada um faustoso préstito conduzindo seus restos mortais.
O imperador confiou os cuidados do traslado a um homem da máxima confiança, para que nenhum imprevisto viesse aumentar sua dor, de si já tão grande. Era ele Francisco de Borja, Marquês de Lombay, dedicado vassalo da mais alta linhagem, o qual lastimava como ninguém o fato de a imperatriz ter deixado esta vida no auge de sua esplendorosa existência. Silencioso e reflexivo, avançava à testa do cortejo que cruzou quase metade do país, chegando a Granada, onde o aguardava o monarca.



"Nunca mais servirei um senhor que possa vir a morrer"!

O longo trajeto propiciou ao jovem marquês graves e profundas meditações sobre o fim último do homem, semeando bons propósitos em seu interior, pois não em vão promete o Eclesiástico: "Pensa nos teus novíssimos e não pecarás eternamente" (Eclo 7, 40). O acontecido fez evanescer a seus olhos as esperanças até então depositadas nas honras e dignidades deste mundo, uma vez que à sua senhora de nada serviram quando Deus a chamou para junto de Si.

Mas o instante decisivo ainda estava por vir. Com efeito, "depois de morta, a imperatriz pagou os serviços que lhe prestara em vida o marquês; estando viva, nunca fez a nosso Dom Francisco tão grande bem como fez sendo já defunta, como se verá pelo que em seguida aconteceu".1

Ao chegar a Granada, precisava o marquês testemunhar perante os notários ser realmente aquele o corpo da soberana. Mas ao abrir-se o caixão, espalhou-se no mesmo instante por todo o recinto o pior dos odores e constatou-se ser impossível reconhecer naquele cadáver, já putrefato, os traços daquela cuja beleza fora objeto da admiração geral.

Diante do cadáver putrefato da rainha, destituído agora de
toda beleza, o piedoso duque tomou a firme decisão: 
"nunca mais servirei um senhor que possa vir a morrer"! 


Ali mesmo, depois de cumprir sua dolorosa obrigação, Francisco de Borja consumou com uma resolução concreta as inspirações vindas da graça. Uma famosa sentença, tantas vezes repetida pelos seus biógrafos, teria selado essa decisão: "Nunca mais servirei um senhor que possa vir a morrer!".

E assim como Isabel perecera para esta vida, o futuro Duque de Gandia estava, dali em diante, morto para o mundo. Continuou ainda, é verdade, desempenhando suas obrigações e frequentando a corte, porque as circunstâncias o impediam de abandoná-la, mas isso seria apenas uma questão de tempo.

Tal mudança decisiva de espírito deu-se quando ele contava 28 anos, dividindo sua existência em duas fases bem distintas. O cristão exemplar que fora até então, transformou-se interiormente no santo religioso cuja virtude "lavaria a mancha que outros tinham lançado sobre o seu nome de família".2



Homem de confiança do imperador

Francisco de Borja y Aragón-Gurrea nasceu em 28 de outubro de 1510, no palácio que a família possuía em Gandia, a uns 60 km de Valência. Era filho primogênito do terceiro Duque de Gandia e estava aparentado por linha materna com o Rei Católico, Fernando I de Aragão. Ainda menino perdeu a progenitora e conviveu muito pouco com o pai, homem intensamente dedicado aos assuntos do Estado.

Após ter recebido a mais completa educação que o século de ouro espanhol podia oferecer, foi enviado a servir como pajem na corte, onde desempenhou brilhante papel. Não tardou o imperador Carlos em perceber o valor desse jovem, no qual estavam reunidas todas as qualidades que se poderia esperar de alguém de sua linhagem, sustentadas e sublimadas por notável humildade.

Aos 18 anos, por conselho da imperatriz, Francisco contraíra núpcias com uma das mais nobres e virtuosas damas da corte: Dona Leonor de Castro Melo e Menezes. Com ela teve oito filhos, todos educados segundo seu exemplo de justiça e piedade.

Por ocasião desse casamento, Carlos V outorgou-lhe o título de Marquês de Lombay e nomeou-o Cavalariço-Mor da imperatriz. E, pouco depois da morte da soberana, confiou-lhe o encargo extremamente árduo e delicado de Vice-Rei da Catalunha, porque "julgou Borja competente para começar pelo governo mais difícil".3

Não eram poucas nem de pouca monta as obrigações que o espinhoso cargo lhe impunha. Porém, em meio a todas elas, o Marquês mantinha-se assíduo na oração e cultivava o costume da Comunhão diária, séculos antes de este se tornar comum entre os fiéis.


Antes mesmo de se tornar religioso, Francisco de Borja era
um católico piedoso e fervoroso, cumpridor fiel cumpridor
de seus deveres cristãos. Era chamado de "o duque santo". 


"O Duque Santo"

Com o falecimento de seu pai, em 1543, Francisco de Borja tornou-se o novo Duque de Gandia, título que trazia anexa a dignidade de Grande de Espanha, da qual desfrutavam apenas os 25 principais nobres do reino. Logo perceberam seus súditos como eram beneficiados em todos os sentidos pelo invulgar governante e passaram a chamá-lo de "o Duque Santo". Transparecia nele a bondade de sua alma "harmoniosa, serena, digna e delicada", qualidades para as quais contribuíam "sua nobre educação, sua fervorosa, implacável e constante ascese".4

Mas o anseio de abandonar o mundo falava em seu coração mais forte do que todas as grandezas terrenas. E a morte da esposa em 1546, quando ele contava apenas 36 anos, veio possibilitar a realização de seus desejos de entregar-se por inteiro à vida de perfeição.

Um fato ocorrido bem mais tarde, quando esteve em visita a Portugal, já como membro da Companhia de Jesus, ilustra o impacto provocado por essa decisão. Convidado de improviso a pregar na Catedral de Évora, o santo lamentou não estar preparado para tanto e pediu licença para não fazê-lo. O Cardeal Infante Dom Henrique, contudo, saiu-se com esta réplica: "Para sermão basta verem minhas ovelhas no púlpito um homem que deixou tanto por Deus".5


Admitido em segredo na Companhia

Nessa época, outro espanhol de nobre estirpe, que tudo abandonara para dedicar-se exclusivamente ao serviço de Deus, consolidava em Roma a sua providencial fundação, alicerçando com sabedoria uma obra iniciada com audácia: era Inácio de Loyola expandindo a Companhia de Jesus.f

Francisco de Borja admirava essa nova família espiritual, então nos seus primeiros anos de existência. Certo dia de 1541, na qualidade de Vice-Rei da Catalunha, escreveu a Inácio uma carta. Tendo-a em mãos, o santo fundador proferiu um surpreendente vaticínio: "Quem acreditaria que, com o tempo, este senhor entrará na Companhia e virá governá-la em Roma?".6

Cerca de sete anos depois, o Duque de Gandia - já viúvo e ignorando essa previsão - procurava saber em qual Ordem religiosa Deus o queria. Na dúvida, consultou seu confessor, o franciscano Frei João Texeda, o qual lhe respondeu: "Vossa Senhoria deve entrar na Companhia de Jesus".7 O conselho realmente vinha de encontro às suas aspirações interiores, fato que o levou a escrever a Santo Inácio, e este o admitiu logo na Ordem Jesuíta. Recomendou-lhe, porém, manter por enquanto tudo em segredo até que estivesse livre das obrigações inerentes ao ducado de Gandia e à sua família.

Assim, ele fez a profissão em fevereiro de 1548, dando mostras de impressionante compenetração, mas continuou a exercer suas importantes funções públicas. Em agosto de 1550, recebeu o doutorado, finalizando os estudos preparatórios para o sacerdócio, assinou seu testamento e transferiu provisoriamente o governo do Ducado de Gandia ao seu herdeiro, Dom Carlos.



Encontro com Santo Inácio

Gozando agora da plena liberdade dos filhos de Deus, Francisco dirigiu-se a Roma, a fim de conhecer Inácio de Loyola. Partiu com sobrenatural sofreguidão por chegar logo, mas não pôde esquivar-se de uma ilustre comitiva de clérigos e nobres. Em fins de outubro, chegava à porta da Casa Professa dos Jesuítas, onde o esperava Santo Inácio, à frente de toda a Comunidade. Os dois santos prostraram-se de joelhos um diante do outro, e Francisco osculou repetidas vezes as mãos de seu fundador.

De Roma, escreveu ao imperador Carlos V, em 10 de janeiro de 1551: "Tendo, pois, após a morte da Duquesa, pesado minha escolha, e tendo pensado durante quatro anos, e tendo feito orar, por esta intenção, diversos servos de Deus, e crescendo cada dia o meu desejo e desaparecendo as trevas do meu coração, embora eu não merecesse ser empregado na vinha do Senhor, sobretudo chegando tão tarde e limitando-se até agora a minha tarefa de arrancar as vides, que outros plantavam; mesmo assim, sendo sem medida a bondade divina e sua clemência um oceano imenso, aprouve-lhe decidir seus servos da Companhia de Jesus a admitir-me em sua Ordem, na qual desde há muito eu desejo viver e morrer".8

Um mês depois, em carta a Guilherme de Prat, Bispo de Clermont, demonstrou o quanto estava convicto do importante papel da Ordem Jesuíta naqueles que foram os anos mais candentes da Contrarreforma: "A divina sabedoria prodigalizou, noutros tempos, outros meios de prover às necessidades da Igreja; hoje parece ter escolhido esta Companhia para que pela palavra, pelo exemplo e por todas as obras de caridade, ela socorra a sua Esposa".9


De joelhos, São Francisco de Borja pede
a benção a Santo Inácio de Loyola.

Convívio com o fundador

Certamente quis Deus compensar os dissabores sofridos por Santo Inácio nos primeiros anos da Ordem recém-fundada, ao mandar-lhe este filho de ouro. Todos em Roma mostravam-se assombrados com sua despretensão. Esta o levava, por exemplo, a servir a mesa e a lavar as vasilhas com a mesma naturalidade com a qual pouco antes governava a Catalunha. E nada podia encantar mais os circunstantes do que ouvi-lo falar sobre Nossa Senhora, pois, quando o fazia, tinha o dom de aumentar a devoção dos ouvintes.





Intensos e fecundos foram os meses passados junto ao fundador. Como São Francisco Xavier, foi este outro Francisco um daqueles que mais profundamente conheceu seu coração e de modo mais integral soube espelhá-lo no próprio. Seguindo o exemplo de fidelidade a Santo Inácio dado pelo Apóstolo das Índias, Francisco de Borja foi confidente e, mais tarde, executor dos grandes anseios do fundador, pois se sabe que neste período inicial, "os dois santos se comunicaram longamente seus projetos".10 Ao longo de algum tempo de convívio, pôde ele receber o carisma inaciano em sua pureza e plenitude.



Grande também na hora da dor

De volta à Espanha, o Duque de Gandia renunciou perante tabelião público a todos os seus Estados, títulos e bens, revestiu-se do traje jesuíta e foi ordenado sacerdote em 23 de maio de 1551.

        Celebrou sua primeira Missa pública no mês seguinte, perante uma assistência de dez mil fiéis, e todos os que comungaram quiseram receber a Sagrada Eucaristia das suas mãos. Peregrinou ao Castelo de Loyola, em cujo oratório celebrou uma Missa, e por fim se estabeleceu em Onhate, no País Basco, bem longe da corte e dos seus familiares.

Apesar de seus anelos, não conseguiu passar despercebido naquelas paragens, inclusive porque seu apostolado arrastava multidões. Mas o êxito inicial não impediu a chegada de indizíveis sofrimentos que se entrelaçaram num quadro dramático.

         Uns advinham da hostilidade do rei Felipe II, que tinha queixas contra a família Borja, outros decorriam de problemas internos da Companhia, aos quais vieram somar-se uma longa série de enfermidades. Provando-o assim, a Providência manifestava, por um prisma mais elevado, a predestinação de Francisco, que foi grande em tudo, especialmente na dor.


São Francisco de Borja foi o segundo
sucessor de Santo Inácio no governo
da Companhia de Jesus. 


Sucessor de Santo Inácio

Após a morte de Santo Inácio, em 1556, o padre Diego Laynez governou a Companhia por nove anos, dois como Vigário Geral e sete como Superior Geral, vindo a falecer em 1565. Em seu leito de morte, fitou longamente o padre Francisco de Borja, numa premonição do futuro que o aguardava. As eleições realizadas nesse mesmo ano confirmaram seu mudo presságio, pois foi ele o escolhido. A unanimidade com que todos se voltaram para o Santo constitui uma prova de estarem convictos do quanto este representava o espírito da Instituição.

Deste período de sua vida chegaram até nós preciosos documentos, como seu diário e cartas. As missivas por ele redigidas enquanto Geral revelam o perfil do santo e do homem de governo: em linguagem clara e direta, oferecem diretrizes dadas por quem conhece tanto as agruras dos caminhos quanto a fragilidade do homem que os trilha.

Aos superiores locais, por demais severos com os subalternos, exigia maior brandura e afabilidade. Já aos missionários tentados de desânimo pelas fadigas do apostolado, não escondia o quanto seu coração de pai era sensível à bravura de que vinham dando mostras: "Animem-se ainda pensando na consolação que nós, na Europa, sentimos, louvando o Senhor pela coragem que Ele dá aos que lá longe lutam por seu amor",11 escreveu em 1568 ao padre Gregório Serrano, em missão no Brasil recém-descoberto.

Entretanto, diante de religiosos empedernidos sabia valer-se da autoridade facultada por seu cargo e não admitia contemporizações. Em caso de necessidade, comenta um de seus biógrafos, "era enérgico, dizendo que Santo Inácio preferia ver sair da Companhia um sujeito mau a ver entrar nela um bom".12



Partida para a glória eterna

Por sete anos governou a Companhia de Jesus. Neles coube-lhe a grave responsabilidade de formar a primeira geração de religiosos que não conheceu o fundador, tarefa desempenhada com exímia fidelidade. Sob seu generalato, a Ordem adquiriu estabilidade, abriu numerosos colégios e consolidou-se nas missões. Em tão curto período, 66 jesuítas foram martirizados, entre os quais Padre Inácio de Azevedo e seus 39 companheiros.

O falecimento de São Francisco de Borja, ocorrido em Roma, na madrugada de 1º de outubro de 1572, foi uma partida cheia de alegria para a Pátria Eterna, própria de quem deu tudo por Deus e estava prestes a receber d'Ele incomparavelmente mais.



Aguilhão na consciência dos mundanos e poderosos

Ao gênio inspirado do quarto Duque de Gandia deve a Santa Igreja dois notáveis benefícios: a instituição das casas de noviciado, adotada por outras ordens e congregações religiosas à vista dos bons resultados colhidos pelos jesuítas, e a fundação da Universidade Gregoriana de Roma.

Num plano menos imediato, que os séculos de distância nos permitem distinguir melhor, vemos nele um expoente da Contrarreforma, cujo exemplo foi um aguilhão na consciência dos mundanos e poderosos de seu tempo, os quais, ao abrirem as portas de suas almas para o fermento neopagão do Renascimento, "já eram os legítimos precursores do homem ganancioso, sensual, laico e pragmático de nossos dias, da cultura e da civilização materialista em que cada vez mais vamos imergindo".13

Hoje, embora nosso contexto sociocultural seja diverso daquele no qual viveu este Grande de Espanha e Geral da Companhia de Jesus, sua entusiasmante fidelidade a Cristo e à Igreja nos convida a pedir homens que façam, na época presente e com os métodos atuais, obras ainda maiores às realizadas por ele na sua. Roguemos que, do Céu, São Francisco de Borja nos conduza às mais ousadas e corajosas iniciativas evangelizadoras que a maior glória de Deus tanto merece.


(Revista Arautos do Evangelho, Set/2011. n. 117, p. 32 a 37).