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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Princesa Isabel, a Serva de Deus.


Os governantes santos buscaram evitar que a política fosse usada para a prática da iniquidade.  Assim agiu José do Egito, e tantos ao longo da História.
No Brasil, tivemos a Princesa Isabel, uma governante cristã e santa, que amou o País, talvez mais do que qualquer outra liderança política em nossa História, e sofreu por isso o mais longo exílio impingido a uma autoridade pública, e morreu sem poder ter voltado ao Brasil que tanto amou.


Seus inimigos e detratores, especialmente os republicanos de inspiração positivista e anticlerical, foram implacáveis em lançar sombras sobre a sua vida, patrulhando-a ideologicamente, silenciando sobre suas reconhecidas virtudes pessoais e cívicas, pois temiam o seu reinado por justamente ela ter comprovado ser uma governante cristã. Temiam mais ainda o seu retorno, porque ela tinha a afeição do povo, que a chamou em vida de “A Redentora”. Quando lhe propuseram recorrer às armas para retornar ao Brasil, ela recusou, pois “considerava o uso da força incompatível com o cristianismo”, do mesmo modo como agiu em relação ao movimento abolicionista, evitando a via da violência, para obter a libertação dos escravos. “Quando a política deixará de empregar meios que diminuem a grandeza moral dos povos e das pessoas? – Escreveu do exílio a João Alfredo Correia de Oliveira – É assim que tudo se perde e que nós nos perdemos. O senhor, porém, conhece meus sentimentos de católica e brasileira”.

No ditado em português, do caderno da Princesa D. Isabel, nº 12, ela exorta como os homens devem estampar a sua vida na história: como “uma alma pura, patriota e caridosa”, e exclama: “Como é belo passar-se à posteridade com a reputação de São Luiz, de Felipe Camarão!” Vidas exemplares marcadas por pureza, patriotismo e caridade”. Tais valores não foram mencionados como um exercício meramente retórico, mas almejados por sua vida inteira, mesmo depois de ter perdido o trono, por justamente ser fiel a tais valores. Destaca também sua admiração por Henrique Dias “um dos grandes heróis do Brasil. Era preto e sua valentia não era menor do que a dos primeiros generais do seu tempo. Achou-se muitas vezes com Felipe Camarão e defendeu o Brasil contra a invasão holandesa. Assistiu à segunda batalha dos Guararapes, ficando ferido. El-Rei de Portugal quis recompensá-lo e deu-lhe um hábito de Cristo”.

Ainda no mesmo caderno de ditado em português, escreveu a Princesa: “A caridade é uma grande virtude. Deus nos diz no primeiro mandamento: ‘Amai a Deus sobre tudo e ao próximo como a ti mesmo’. Quantos exemplos de caridade nos deu Jesus Cristo em sua vida. Deixai os meninos vir a mim, disse ele um dia quando os discípulos despediam umas crianças (…) como não considerar esta virtude uma das primeiras? Ela deve sobretudo existir nos soberanos para serem considerados como pais de seus súditos. São Luís, rei de França, Santa Isabel de Portugal e Santo Estevão da Hungria são excelentes exemplos desta virtude”.
As decisões que a Princesa Isabel tomou como regente, tornaram evidente que reconheceu antes de mais nada, o primado de Deus. Em seu tempo, surgiram e se intensificaram forças ideológicas contrárias à doutrina social cristã (cabe lembrar que o Manifesto Comunista é de 1848). E que ela perdeu o trono justamente no enfrentamento destas forças espirituais (cujas tensões ficaram evidentes no próprio movimento abolicionista, e que tal movimento só foi bem sucedido porque teve na Princesa Isabel a firmeza de fazer valer a fé católica no processo. E por isso é que foi possível evitar derramamento de sangue, e conter os ímpetos dos que queriam que se repetisse no Brasil as violências ocorridas, por exemplo, no Haiti e nos Estados Unidos. Foi o catolicismo defendido pela Princesa Isabel, que permitiu o êxito do maior movimento social da história deste país, e com um resultado jubilante. Tudo isso porque prevaleceu no processo o primado de Deus, que ela tão bem expressou em suas ações decisivas. No exílio, ela pôde melhor compreender o alcance do significado do mistério da fé na história.



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Matéria postada pelo Pe. João Dias Rezende:
Recentemente, foi veiculada a notícia de que a Princesa Isabel seria canonizada pela Igreja Católica. Alguém poderia perguntar: quem é a Princesa Isabel? Teria feito algo que a fizesse merecer a honra dos altares? Alinhavamos breves palavras que podem ajudar a vislumbrar quem foi Dona Isabel de Bragança e Bourbon e, após o casamento, Dona Isabel de Orleans e Bragança. Trata-se da mulher brasileira que, durante toda a segunda metade do séc. XIX, foi educada para governar nosso País, ainda que esse preceito constitucional não tenha sido cumprido em 1889, como veremos adiante.

Em texto publicado no Jornal Testemunho de Fé, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, edição de 20 de novembro de 2011, Dom Antônio Augusto Dias Duarte, Bispo auxiliar do Rio de Janeiro ressalta as qualidades que ornaram o caráter de D. Isabel e o desconhecimento que muitos brasileiros têm sobre ela: “Conhecendo com mais detalhes a vida dessa regente do Império brasileiro e conversando com várias pessoas sobre a sua possível beatificação e canonização num futuro próximo, fico admirado com suas qualidades humanas e sua atuação política sempre inspirada pelos princípios do catolicismo, e, paralelamente, chama-me atenção o desconhecimento que há no nosso meio cultural e universitário sobre a personalidade dessa princesa brasileira”.
A Princesa D. Isabel exerceu três vezes a regência do Brasil mostrando-se sempre uma estadista irrepreensível no cumprimento de seus altos encargos constitucionais, como destaca o historiador Otto de Alencar de Sá Pereira, antigo professor titular da Universidade Católica de Petrópolis e decano do Instituto D. Isabel I: “Antes do advento da República, as atuações da Princesa Imperial Regente demonstraram a competência governativa, a firmeza de princípios e a caridade cristã pujante da Redentora no âmbito político e social. Para além da Lei Áurea, sua ação de Estado é, sob todos os aspectos, modelar.” (CERQUEIRA (org.), 2006, p. 34).

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Acusada muitas vezes de carola, menosprezada pela sua profunda fé e piedade, a Princesa D. Isabel procurava colocar em prática, em todos os âmbitos de sua vida, sobretudo em sua atuação política, os princípios basilares de sua fé, o que incomodava a classe política, formada em sua maioria por homens pouco afeitos à religião e influenciados pelos famosos “ismos” do fim de século: positivismo, cientificismo, anticlericalismo etc. Com certeza, a sua visão cristã, influenciou-a na defesa dos mais necessitados, sobretudo, como incentivadora da causa abolicionista que abraçou. D. Isabel dirigindo-se ao abolicionista André Rebouças, ainda a bordo do navio que desterrava a Família Imperial disse: “Senhor Rebouças, se houvesse ainda escravos no Brasil, nós voltaríamos para libertá-los.” (NABUCO, Minha Formação, p.182).

E é o reconhecimento pela sua ação em prol do fim da liberdade que levou o mulato José do Patrocínio, um dos tigres da abolição, a cognominar a Princesa Imperial de “A Redentora”. Em interessante depoimento do Sr. Heidimar Marques, no IV volume da obra Memória de Velhos, fica registrado um desses atos de verdadeira gratidão que o povo simples, porém sábio, devotava a D. Isabel. Ao referir-se a uma antiga escrava maranhense, falecida em 1957, ainda lúcida aos 115 anos, o sr. Heidimar conta-nos: A festa anual de Mãe Calu era 13 de maio, em homenagem à Princesa Isabel. Todos nós sabemos o que significou, na abolição da escravatura, a Princesa Isabel e os revolucionários. Para Mãe Calu, a Princesa Isabel era uma santa. Ela chamava de Santa Isabel.  E prossegue descrevendo as festas que a velha negra fazia em reverência à memória da Princesa. É fácil concluir que o culto popular do sensus fidei fidelium, isto é, o senso de fé do povo, não está restrito ao Maranhão, mas se estende por todo Brasil.

D. Isabel está, pois, credenciada ao “posto” de santa? O Concílio Vaticano II, na Constituição Lumem Gentium ao tratar da santidade dos fieis diz: “devem os fiéis conhecer a natureza íntima e o valor de todas as criaturas, e a sua ordenação para a glória de Deus, ajudando-se uns aos outros, mesmo através das atividades propriamente temporais, a levar uma vida mais santa, para que assim o mundo seja penetrado do espírito de Cristo e, na justiça, na caridade e na paz, atinja mais eficazmente o seu fim”.

D. Isabel viveu para promover a justiça e a paz entre os brasileiros, colocando em primeiro lugar, em todas as suas ações, fosse como filha, esposa, mãe, católica, estadista, a Caridade que ilumina os corações e redime das misérias deste mundo. Vivendo em alto grau as virtudes evangélicas, ela preenche os requisitos necessários para ser “candidata” aos altares. Que venham as provas de sua intercessão para que em breve tenhamos, oficialmente, mais uma amiga junto de Deus a nos servir de modelo de discípula de Cristo, Rei dos Reis do Universo e servo fiel.

Postado em 29 de dezembro de 2012 por Padre João Dias Rezende Filho

2 comentários:

Irmã Maria de Fátima disse...

Fico feliz ao saber que a princesa Isabel é Serva de Deus. Quando eu exercia o magistério sempre procurei exaltar o seu amor pelos irmãos escravos, procurei ajudar os meus alunos a descobrirem a beleza interior de nossa princesa querida. Agora, ao ler o artigo sobre ela, agradeço a Deus tamanha graça concedida à Igreja e ao mundo.

Que nosso Pai querido e nossa Mãe amada os abençoem!

paduaprs disse...

Muito bom o artigo. Somente a citação ao Manifesto Comunista é descabida.

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