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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Serva de Deus Zélia Pedreira Abreu e a Beata Nhá Chica.










          Uma santa visitando outra... O dom profético de Nhá Chica. 
Certa vez, a Beata Nhá Chica recebeu em sua pequenina casa o nobre conselheiro do Império, João Pedreira do Couto Ferraz. Era o ano de 1873. Ele, casado com Elisa Amália de Bulhões Pedreira, fazia-se acompanhar, entre outras pessoas, de sua filha primogênita que na ocasião contava 15 anos de idade e alimentava o desejo de consagrar-se ao Senhor. Era a jovem Zélia, nascida a 05 de abril de 1857.
A família encontrava-se no vizinho povoado de Caxambu para desfrutar das suas ricas águas minerais. A boa fama de sábia conselheira da beata Nhá Chica, que naquele tempo já trespassara os limites da pequena vila Baependi, atraia muitos à sua procura. Aquela ditosa família acorreu ao encontro da piedosa serva de Deus para recomendar às suas orações a jovem menina desejosa de Deus.
Nhá Chica recebeu-os em sua modesta casa e logo depois de «um dedo de prosa» já conhecia as aflições daquela família. Recolheu-se então ao seu quartinho e à intimidade da oração à sua «Sinhá», modo carinhoso como se referia à pequenina imagem da Senhora da Conceição que herdara de sua mãe. Os hóspedes esperavam na sala. Pouco tempo depois, voltou a velha senhora e, sem transparecer sombra alguma de dúvida, pronunciou o oráculo profético:

- «Ela vai se casar! Terá muitos filhos e no fim da sua vida será toda de Nosso Senhor».
Regressaram a Caxambu, mas não se esqueceram das palavras proféticas de Nhá Chica.
Zélia recebera primorosa educação literária, artística e científica e revelava especial pendor para o estudo dos idiomas. Falava e escrevia corretamente o francês, o inglês, o espanhol e o italiano. Conhecia ainda o alemão, o latim e o grego.

«Ela vai se casar!»
O ingresso na vida religiosa feminina não era algo fácil, visto que naquela altura não eram muitas as casas religiosas femininas no Brasil e o noviciado era normalmente feito na Europa. Por esses ou outros motivos, o certo é que Zélia não ingressou então na Vida Religiosa, mas pelo contrário, cerca de três anos depois, em 27 de julho de 1876 casou-se com o Dr. Jerônimo de Castro Abreu Magalhães, engenheiro civil e homem de particular espírito religioso.

Após uma temporada em Petrópolis, o casal fixou-se na Fazenda Santa Fé, na Vila do Carmo de Cantagalo, Província do Rio de Janeiro. Lá se constituía em um autêntico lar cristão. Na Fazenda havia uma capela, na qual inúmeras vezes ao dia Zélia era encontrada rezando. Os escravos da fazenda sempre iniciavam o trabalho do dia com uma oração guiada por ela e seu esposo no pátio da fazenda onde havia um coreto. Zélia muito se preocupava com a vida espiritual deles, por isso, sempre participavam da missa, se confessavam e recebiam sólida catequese, oferecida por Zélia e Jerônimo. Ela mesma os catequizava: adultos e crianças.
Eles nunca tratavam seus escravos como propriedade. Na fazenda dos servos de Deus eles viviam em liberdade e recebiam salário. Quando foi assinada a Lei Áurea em 13 de maio de 1888, que abolia a escravidão negra no Brasil, eles permaneceram na Fazenda Santa Fé, pois sempre viveram e foram tratados como pessoas livres. Na fazenda, o piedoso casal construiu uma enfermaria para tratar dos escravos doentes e periodicamente vinha um médico, e Zélia mesma com seus filhos iam visitá-los e inclusive tratar deles.




«Terá muitos filhos»
Desse feliz matrimônio nasceram treze filhos, dos quais quatro faleceram em tenra idade. Os demais, três homens e seis mulheres abraçaram a Vida Religiosa em diferentes Ordens e Congregações: um lazarista, um jesuíta e um franciscano; quatro doroteias e duas irmãs do Bom Pastor.

Sabe-se que também o casal sempre desejou consagrar-se ao Senhor, mas Jerônimo não pode, morreu em 1909, deixando viúva sua amada esposa que, quatro anos mais tarde em 1913, depois de cuidar do seu pai até a morte, entrou com uma permissão especial, para o Convento das Servas do Santíssimo Sacramento, estabelecido em 1912 no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Contudo, uma de suas filhas gravemente enferma e seu jovem filho, Fernando, jesuíta, não tendo ainda os votos perpétuos, fizeram com que Zélia esperasse ainda mais um pouco para concretizar sua plena consagração a Cristo.
Somente em 1918, após vender todos os seus bens e doá-los aos pobres e à Igreja, cumprindo assim a ordem do Evangelho (Mt 19,21) de vender tudo e dar aos pobres para depois seguir a Jesus Cristo mais de perto, Zélia pode concretizar a sua consagração há tantos anos predita profeticamente por Nhá Chica: «… no fim da sua vida, ela será toda de Nosso Senhor».


Zélia, não achando suficiente ter renovado nove vezes o sacrifício de entregar seus filhos a Deus, entregou a si mesma, como sua maior prova de amor. Passou então a chamar-se Irmã Maria do Santíssimo Sacramento, ao tomar o hábito religioso em 22 de janeiro 1918.
Ela terminou sua edificante e modelar existência, a 8 de setembro de 1919, em justa fama de santidade. Foi sepultada em um simples jazigo no Cemitério São João Batista, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro. Em 1937 por causa do grande número de fiéis que frequentemente iam rezar no seu túmulo, resolveram transladar os seus restos mortais para a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana. A transladação seria muito discreta e constaria somente de uma Missa na Paróquia, celebrada pelos seus três filhos. Quando, porém a multidão soube da transladação acorreu ao Cemitério e o número de fiéis era tão grande que parecia uma procissão, o trânsito parou e no dia seguinte todos os jornais noticiaram o que havia ocorrido. A igreja não comportou todo o povo e por isso uma grande multidão se acomodou nas ruas laterais da Paróquia.
Um dos seus filhos, o franciscano, Frei João José Pedreira de Castro, visitou em 07 de janeiro de 1953 a Igreja da Conceição, onde se encontram os restos mortais da Beata Francisca Paula de Jesus – Nhá Chica e registrou o seguinte depoimento: «Tive hoje mais uma vez a oportunidade de visitar o túmulo de Nhá Chica. É sempre com profunda emoção que me achego deste túmulo que encerram os despojos venerandos de quem em vida só teve uma preocupação: a piedade e a caridade. Alma simples do povo, Nhá Chica avantajou-se prodigiosamente. Acentuo esse advérbio, quer em vista dos muitos prodígios (profecias, graças, quiçá milagres), que dão atestados terem sidos recebidos por sua intercessão durante a sua vida e após a sua morte, quer relativamente à sua personalidade (…) Permita a providência divina que a Autoridade Eclesiástica tenha por bem aprovar sempre mais e promover a devoção de Nhá Chica, esse maravilhoso exemplo de uma cristã que soube objetivar em si plenamente o evangelho». Já no céu, frei João vê elevada às honras dos altares a Beata Nhá Chica e com certeza, aguarda o mesmo para sua piedosa mãe.
Inúmeras são as graças alcançadas pela intercessão da Serva de Deus Zélia, esta grande mãe de família, viúva, filha fiel e toda de Deus. Mas, não só! Também são incontáveis as graças alcançadas pela intercessão de seu piedoso esposo, Jerônimo.


Processo de Beatificação
No dia 20 de janeiro de 2014, o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta inaugurou oficialmente o processo de beatificação do casal Jerônimo e Zélia que poderá ser o primeiro casal brasileiro a receber o título de beatos da Igreja.
As relíquias de ambos foram transladadas para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Gávea, onde estão expostas para veneração pública. Um dia foi predita tal santidade junto à pequena capela de Nossa Senhora da Conceição, edificada pela Beata Nhá Chica, agora aguarda o reconhecimento oficial da Igreja, repousando noutro templo dedicado ao mesmo orago.




Servos de Deus, Zélia e Jerônimo podem se transformar no primeiro casal de bem-aventurados do Brasil

Quando se casaram, no dia 27 de julho de 1876, na Chácara da Cachoeira, no Rio de Janeiro, Zélia e Jerônimo, então com 19 e 25 anos, não imaginavam que estavam prestes a escrever uma bela história de amor. Em 33 anos de casados, os dois tiveram 13 filhos. Quatro deles morreram ainda pequenos e nove, três homens e seis mulheres, seguiram a vocação religiosa. Entre os homens, um tornou-se Lazarista, outro Franciscano e o terceiro Jesuíta. Das seis mulheres, quatro ingressaram na Congregação das Irmãs de Santa Doroteia e duas na Congregação do Bom Pastor. Mas a bela história de amor a que me referi no começo da matéria ainda não chegou ao fim.

Com a morte de Jerônimo em 1909, aos 58 anos, Zélia resolveu vender tudo o que tinha, dar aos pobres e ingressar no Convento das Servas do Santíssimo Sacramento. Foi quando passou a ser chamada de Irmã Maria do Santíssimo Sacramento. “Mesmo tendo excelentes condições financeiras, os valores evangélicos sempre prevaleceram na casa de Zélia e Jerônimo. Os dois conseguiram transmitir aos filhos uma espiritualidade muito rica”, destaca dom Roberto Lopes, delegado para a Causa dos Santos da Arquidiocese do Rio de Janeiro. “A morte não conseguiu separá-los. Mesmo depois de mortos, Zélia e Jerônimo continuam unidos pelas virtudes heroicas”, enfatiza.

Um dado curioso da biografia de Zélia é que, aos 15 anos, ela conheceu Nhá Chica em Baependi, Minas Gerais. Apesar de jovem, a menina já manifestava o desejo de ingressar na vida religiosa. Foi quando seu pai, João Pedreira do Couto Ferraz, a levou para conversar com Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica. Embora fosse um católico ardoroso, o pai de Zélia não gostaria que a filha ingressasse tão cedo numa ordem religiosa. Depois de conversar com a menina e pedir a intercessão de Nossa Senhora da Conceição, de quem era devota, Nhá Chica disse a Zélia que ela seria freira, sim, mas não agora. Antes, se casaria com um homem santo e seria mãe de uma grande prole.

Modelos de vida cristã – Jerônimo de Castro Abreu Magalhães nasceu em Magé, na Baixada Fluminense, no dia 26 de julho de 1851. Depois de estudar Ciências Humanas na Alemanha, formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1873. Sua futura esposa, Zélia Pedreira Abreu Magalhães, nasceu em Niterói, em 5 de abril de 1857. Poliglota, aprendeu a falar e a escrever fluentemente em quatro idiomas: inglês, francês, espanhol e italiano. Depois de passar a lua de mel em Petrópolis, região serrana do Rio, o casal fixou residência na Fazenda Santa Fé, no município do Carmo, que pertencia à aristocrática família Abreu Magalhães.

Uma das primeiras medidas que Jerônimo tomou ao assumir a propriedade foi desativar a senzala. No lugar dela, ergueu moradia para os 500 empregados da fazenda. Doze anos antes da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, que aboliu a escravatura no Brasil, em 13 de maio de 1888, Jerônimo concedeu alforria para os escravos da Santa Fé. Também pagava salário e oferecia atendimento médico a eles. Zélia não ficou atrás. Construiu uma capela e, todos os dias, mandava celebrar missa. Ela própria se encarregou da formação catequética dos empregados e de seus familiares. Exortava a todos em Santa Fé que recebessem os sacramentos do Batismo e do Matrimônio.

Santo casal – Zélia tornou-se freira em 22 de janeiro de 1918 e morreu em 8 de setembro de 1919. Seu jazigo no Cemitério São João Batista, em Botafogo, logo virou lugar de romaria e devoção. A primeira tentativa de beatificá-la aconteceu no ano de 1937. Na ocasião, a ideia era reverenciar apenas a matriarca da família. Os restos mortais de Zélia – ou Irmã Maria do Santíssimo Sacramento, como ficou mais conhecida – chegaram a ser trasladados para a Paróquia Nossa Senhora de Copacabana, mas o caso foi arquivado sem motivo aparente. Décadas depois, os postuladores da Congregação das Causas dos Santos do Vaticano recomendaram à Arquidiocese do Rio de Janeiro que o processo contemplasse também Jerônimo. “Zélia não foi santa sozinha. O marido dela também é”, argumentaram.

“A vida exemplar de Zélia e Jerônimo é um testemunho contundente e irrefutável de que é possível, sim, ser santo nos dias de hoje. Não apenas e tão somente na vida consagrada, como padre, freira ou religioso, mas também e, principalmente, na vida cotidiana, como pai amoroso e mãe dedicada. Os dois souberam viver a santidade em plenitude”, salienta padre João Geraldo Bellocchio, presidente da Associação Cultural Zélia e Jerônimo e pároco da Igreja Nossa Senhora da Conceição, na Gávea. É lá que estão expostos os restos mortais do casal para veneração pública até a conclusão do processo de beatificação.

Em defesa da família – Por sua inegável dedicação à caridade, Zélia e Jerônimo podem se tornar o primeiro casal brasileiro a ser beatificado. No mundo inteiro, são apenas dois os casais de beatos: os italianos Luigi Beltrame e Maria Corsini Quatrocchi e os franceses Luís Martin e Zélia Guérin, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. O primeiro casal foi beatificado pelo papa João Paulo II, em 2001, e o segundo por Bento XVI, sete anos depois. Na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, o número de famílias que pedem a intercessão de Zélia e Jerônimo tem crescido nos últimos meses. Os pedidos são os mais variados possíveis e vão desde casar e ter filhos até arranjar emprego e largar o vício.

Um dos relatos que mais tocou padre João Bellocchio é o de uma moradora da Rocinha, que se inscreveu no Curso de Crisma da paróquia. Por mais que ela tentasse convencer o companheiro a se casar na Igreja e regularizar a situação, o rapaz permanecia irredutível. “Era do tipo que não podia sequer ouvir falar de padre”, brinca o pároco. Quando soube da história de Zélia e Jerônimo, resolveu fazer a novena. Um dia, ao chegar a casa, o marido se virou para ela e, do nada, perguntou: “E aí, já marcou a data do casório?”. Por um momento, ela pensou que o sujeito estivesse de brincadeira. Não estava. Para felicidade de padre João Bellocchio, os dois se casaram ali mesmo, na paróquia.


Das devotas de Zélia e Jerônimo, a aposentada Cecília Duprat de Britto Pereira, 86, é a mais fervorosa. Sobrinha-neta do casal, ela conta que, na adolescência, pegou crupe, infecção bacteriana que podia levar à morte. Seu irmão já havia morrido da doença, um ano antes. Mesmo assim, sua mãe não esmorecia e, todas as noites, pedia a intercessão de Tia Zélia. “Naquela noite, mamãe dormiu rezando o terço. No dia seguinte, eu estava totalmente curada”, relata Cecília. No caso de Zélia e Jerônimo, santo de casa faz milagre, sim.





2 comentários:

Germana Almeida disse...

Como se pode ver e avaliar que é possível ser santo, basta ser humano, discípulo missionário e entregar sua vida e seu amor ao evangelho, levando uma vida de amor a causa do Evangelho, "Sede Santo como Eu sou Santo", pedras vivas da Igreja sois chamados a santidade diz São Pedro em suas cartas.

JFLIMA disse...

"Santo de casa faz milagre sim!". Que bom saber disso!!!, diante de tantas incertezas reinantes nos dias de hoje essa frase soa como um canto celestial.É por esta e outras tantas histórias de pessoas puras existentes, já falecidas e tantas outras ainda convivendo no meio de nós, que Deus trabalha sua Incansável e Infinita Misericórdia, com o Objetivo Fixo de restaurar o Jardim do Éden aqui na Terra, o Paraíso Terrestre . Isso só será possível se todos formos puros ou Santos. Impossível?, não! Para Deus nada é impossível. Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo!!!

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