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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Beato Antônio de Categeró (de Évola ou de Noto), Terciário Franciscano.



Na atormentada história da Europa da primeira metade do século XVI, encontramos a vida de Antônio, o Etíope. Nascido em Barco de Cirene (Líbia) de família maometana, religião que ele professou até que, por um acidente providencial, foi capturado e deportado para a Sicília, em Siracusa. Foi comprado como escravo por um agricultor de Avola, um certo João Landanula (ou Landolina) que lhe confiou seu rebanho. John percebeu que aquele seu servo era bastante inteligente, de coração sincero, de índole nobre, honesta, e respeitosa. Então o exortou, pela palavra e pelo exemplo – a renunciar ao Islã pela fé cristã – projeto cujo êxito confiou à providência divina. O servo bom mostrou-se prontamente disposto à catequese.
Foi batizado pela Igreja e passou a chamar-se Antônio em homenagem a Santo Antônio. Amava os pobres, fugia do ócio e passava seu tempo de folga do trabalho em oração. Dedicou-se em nome de Jesus e nunca falhou para corrigir qualquer um que usasse o nome de Deus em vão. Alimentava em si um espírito constante de arrependimento dos pecados, lamentando, com profunda dor e contrição, aqueles cometidos por ele no primeiro período de sua vida, antes de sua sincera conversão.
Durante os 38 anos em que viveu no território avolense desfrutou de uma reputação de homem exemplar, sóbrio e, com sua caridade, conquistou os corações de toda gente. Ele costumava vir regularmente a partir da campanha avolense à Igreja de Santa Venera, bem vagaroso, para a confissão e comunhão; dedicava-se, também, a alimentar a lâmpada do santuário. No altar de São Tiago Apóstolo, ele cuidava das flores e conseguiu enriquecer o altar com um frontal e um par de castiçais. Don Nicholas Cascone, que por muitos anos foi seu confessor em Santa Venera, disse: “Antônio tem progredido de virtude em virtude e de bom para melhor. Tenho-o acompanhado como meu filho espiritual durante 15 anos e o tenho avaliado um homem caridoso, paciente e casto, zeloso no serviço de Deus, não vendo nele a mínima falha, por menor que fosse.”
Entrementes, o fazendeiro João casa dois de suas netas com dois irmãos de Noto: Vicente e Miguel Giamblundo e, como parte do dote, dá-lhes seu rebanho e o escravo líbio, recomendando muito que o tratassem muito bem.
Desde então, Antônio viveu em Noto com seus novos proprietários que lhe indicam as pastagens onde levar as ovelhas e onde construir um galpão e o nomeiam capataz – chefe dos pastores para o rebanho numeroso da grande propriedade de Celso. Este ofício, Antônio irá exercer com precisão e grande bondade para com os pastores subordinados, incentivando a honestidade profissional. Mesmo neste novo ambiente a vida de Antônio ocorre com o mesmo ritmo de trabalho e oração.
Em consideração às qualidades sobrenaturais e aos milagres que Deus se dignava operar por meio do santo homem, que tanto os admiravam e temendo manter como escravo um amigo de Deus, Miguel e Vicente Giamblundo deram-lhe a liberdade: “por sua bondade e vida santa, e porque é muito caridoso e paciente”. Os quatro anos de serviço voluntário, depois de obtida a liberdade, são também vividos com dedicação por Antônio, sem descuidar quaisquer dos deveres de capataz.
Livre da escravidão doméstica, dedicou-se ao voluntariado no hospital de Noto. Assistia diariamente à missa e participou de um grupo de oração. Leu a vida dos santos muitas vezes como um incentivo para imitá-los. Ele queria imitar, especialmente, a vida do Beato Conrado de Piacenza: vestiu por isso o hábito de terceiro franciscano, recebido das mãos do guardião do convento franciscano da região e se retirou para o deserto de Pizzoni, onde levou uma vida mais angelical que humana.
Nas vezes em que Antônio veio a Noto, o povo saiu às ruas, alguns para vê-lo, outros para beijar sua mão e muitos para recuperarem-se de uma doença. Disseram aqueles que o tratavam familiarmente: “Nunca o vi zangado, mesmo quando provocado, em vez disso, mostrava-se mais leve e calmo para que todos se maravilhassem”.  
Um dia, ficou doente, em Noto. Sentindo seu fim chegando, quis receber os últimos sacramentos e entregar a alma devotamente a Deus. Faleceu em 14 de março de 1550.
Seu corpo foi enterrado, por sua própria vontade, na igreja desse convento de Observantes Menores. Tanta estima e devoção popular para com o humilde negro ermitão, fez com que despertasse a admiração do seu biógrafo, o historiador Vicente Netino Littara (1550-1602) que nasceu no ano de sua morte.
Será grande número de milagres alcançados por sua intercessão. No dia 13 de abril de 1599, 49 anos após sua morte, seu túmulo foi aberto para o reconhecimento canônico de seus espólios mortais. Seu corpo foi encontrado intacto e incorrupto, como se tivesse morrido naquele mesmo dia.
Na vida e depois da morte foi conhecido por muitos milagres. Era chamado de “o negro” pela cor de sua pele, sendo ele filho de pais africanos. Muitos já o chamavam de o Santo Negro pela distintiva santidade de sua vida.  Em 1611 é dada licença para divulgar a imagem com a auréola de beato.
No século XVII, o exemplo de sua vida é proposto principalmente para os negros escravizados no Brasil, vindos da África: lá é chamado de “Santo Antônio de Categeró” (ou Cartaginês) por sua origem Africana.
Em 24 de janeiro de 1978, na igreja Santa Maria de Jesus, em Noto, o bispo Dom Salvatore Nicolosi faz o reconhecimento canônico da ossada do Beato Antônio, doando o braço direito à paróquia de Nossa Senhora do Ó, em São Paulo (Brasil)
Por ocasião do Congresso Diocesano (11-12 de janeiro de 1992), o Beato Antônio foi escolhido como o Protetor da caridade diocesana, porque é, hoje, sinal profético e ecumênico que interpela nossa consciência cristã a ser capaz de acolher a tantos imigrantes da África. Um número sempre maior tem vindo habitar a Itália e a Europa. Em cada um deles devemos ser capazes de ver um irmão em Cristo, nosso Salvador. “A memória do Beato Antônio Etíope – escravo negro do século XVI, convertido ao Cristianismo, que viveu em Avola e Noto como exemplar e heroico testemunho evangélico, a ponto de ser venerado, hoje, no Brasil com um culto popular muito vívidofortalece a nossa consciência de estarmos envoltos em um plano equilibrado e abrangente de amor do Pai comum a toda humanidade.” (Mons. Nicolosi)
Em 2003 com os restos mortais do beato negro foi transferida para a Capela Franciscana da Imaculada em Suire de Lipari, Via Silvio Spaventa, 33.

(Mons. Salvatore Guastella)


Notas de rodapé
1. Dele eu publiquei dois livros: “FRATELLO NEGRO, Antonio di Noto, detto l’Etiope” (página 140). Noto 1991 e “LUI E NOI PER LORO. Fontes de arquivos e documentos em B. Antonio de Noto e Avola (1550), dito o etíope, ou ‘de Categerò’ “(página 240). Noto, 2000.
2. Sobre a escravidão doméstica na Sicília entre os séculos XV e XVI, Charles Verlinden oferece uma excelente visão em seu Ensaio Escravidão e Economia no sul no início da era moderna (Annali del Mezzogiorno, III, 1983, 11-18). Corrado Avolio, tratando da escravidão doméstica na Sicília no sec. XVI, observa que a longa existência desta ferida feia foi completamente esquecida pelos sicilianos, embora tenha sido um triste privilégio da ilha. No que concerne ao ilustre dialetólogo de Noto, a partir de registros de notários de Noto e dos cartões do mosteiro do Santíssimo Salvador, é possível perceber a presença de mais de 60 escravos.
3. Processo informativo diocesano, Noto 1550, teste n.9.
4. Antigamente, o domingo, “dia do Senhor”, tornara-se o dia da reconciliação no seio da comunidade dos irmãos na fé, e a data mais adequada e significativa para emancipar seus escravos oficialmente, restaurando-lhes a plena liberdade. Vamos imaginar que, deste modo, o escravo Antônio foi libertado no sinal da ágape eucarística. Não tinham os Giamblundo decidido “Não ter mais por escravo alguém que Deus tinha por amigo?”
5. “Custodem plácida immistum minoris ovilis Aethiopem, quamvis corpore mente servil ingênuo: quamvuis Totosi pice nigrior artus, ast animam nive Candidior, King comprobat ipsa, quam ditado verdadeiro, aethiopum æquo præibit manus. Múltiplas monstrabit miracula rerum, donec signipedum mandarit Templo corpus et ipsum não defraudandum Cultus venerationis honra “(Vincenvo Littara, Conradias, L. VIII, 296-303. Tradução Corrado Gallo).
6. De um Martirológio Franciscano, publicado em Paris, em 1653. A vida do nosso Antonio terciário também foi escrito por Antonio Daça, La vita e i miracoli di fratel Antonio de Categerò (l’Etiope) santo negro del T.O.F., reunidos a partir de três processos autênticos e de noventa testemunhos juramentados. Valadolid, 1611.

Bispo de Noto, 12 de junho de 1978. A partir da esquerda Don Ottavio Ruta, P. Alberto Morinimissionário St. Paulo, o bispo Dom Salvatore Nicolosi, Con. Noé Rodrigues paróquia de NossaSenora do Ó (S. Paulo) e Mons. Guastella. (No Brasil)

4 comentários:

Unknown disse...

Fiquei muito feliz em encontrar essa publicação sobre o Beato Antonio de Categeró. A correção no uso das imagens e texos é algo difícel de ser encontrado. Só pediria que permitisse ter no seu blog o endereço de uma fonte que trabalha a coleta, catalogação e disponibilidade de informações sobre nosso.
Também, salientar que seu processo de "Canonização" encontra-se em tramitação no Vaticano, na Congregação para ofício às causas dos Santos, em propositura da igreja de Santa Maria de Jesus, de Noto, igreja onde encontram em mausoléu público, os restos mortais do Beato António Ethiope (Itália e norte da África), de Ávola ou Noto (Itália e Portugal) e de Cataegeró Brasil). Nosso site/blog é - http://categero.org.br/

Giovani Carvalho Mendes disse...

Obrigado pelo comentário. Infelizmente, sou muito " amador" em mexer com a internet. Não sei fazer o que Vossa Senhoria está me propondo. Eu "vou pegando" arquivos aqui e ali, dou uma "ajeitada" no Word e, publico. Não tenho grandes pretensões, somente catequese santoral católica...

Giovani Carvalho Mendes disse...

Nosso blog é bem generalista e variado. Publico, de preferência, vidas de santos "desconhecidos" ou pouco conhecidos do grande público.

Giovani Carvalho Mendes disse...

Nosso blog é bem generalista e variado. Publico, de preferência, vidas de santos "desconhecidos" ou pouco conhecidos do grande público.

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