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domingo, 13 de setembro de 2015

SANTO ANSELMO DE CANTUÁRIA (ou Canterbury), Bispo e Doutor da Igreja - segunda publicação neste blog.



Bispo, Confessor e Doutor da Igreja, considerado o primeiro teólogo-filósofo, muitos de seus ensinamentos e textos passaram para o ensino comum da Igreja. Arcebispo de Cantuária, lutou denodadamente pelos direitos de sua Sé contra a prepotência de reis ingleses.

Anselmo nasceu em Aosta, na Itália, filho do nobre Gondulfo e da piedosa Ermenberga, verdadeira matrona cristã. Formado na escola da mãe, entregou-se cedo à virtude e, segundo seu primeiro biógrafo, era amado por todos, tendo muito sucesso nos estudos. Bons tempos aqueles, em que as pessoas virtuosas eram amadas, e não perseguidas. Aos 15 anos já se preocupava com altas questões metafísicas e teológicas, e quis entrar num mosteiro. Mas os monges negaram-lhe a entrada, por medo de desagradar seu pai.

Não podendo ingressar na vida religiosa, Anselmo entregou-se gradualmente aos prazeres mundanos, só não chegando a excessos por amor à sua mãe, a quem não queria desagradar. Mas essa âncora, que ainda evitava que ele se afogasse no mar do mundo, faltou-lhe. Com o falecimento de sua genitora, quando Anselmo tinha 20 anos, seu pai tornou-se mal-humorado e violento, maltratando frequentemente o filho. Anselmo resolveu então fugir de casa, acompanhado só por um servo. Vagou pela Itália e pela França, conheceu a fome e a fadiga, até que chegou ao mosteiro de Bec, na França, onde havia a escola mais afamada do século XI, dirigida por seu famoso conterrâneo, Lanfranco.


Discípulo suplanta o mestre
Anselmo tornou-se discípulo e amigo de Lanfranco, e entregou-se então vorazmente ao estudo, esquecendo-se às vezes até das refeições e recreação. “Seus progressos eram tão admiráveis quanto sua amabilidade, e logo foi tido como um prodígio de saber e seus condiscípulos creram que fazia milagres, por sua piedade e virtude”.

Apesar de todos seus sucessos, Anselmo tinha uma grande perplexidade: “Estou resolvido a fazer-me monge; mas, onde? Se vou para Cluny, todo o tempo que dediquei às letras terá sido perdido para mim; e o mesmo se permaneço em Bec. A severidade da disciplina em Cluny e a ciência de Lanfranco, em Bec, tornarão inúteis todos meus estudos. Assim pensava, em meu orgulho. Mas, em meio à luta, senti a ajuda divina: O quê?! É próprio de um monge buscar as honras, os louvores, a celebridade? Claro que não. Pois bem, far-me-ei monge onde possa pisotear minhas ambições, onde seja estimado menos que os demais, onde seja pisoteado por todos”.  E resolveu permanecer em Bec, onde foi ordenado sacerdote em 1060. Mas se ele fugia das honras, estas o perseguiam.

Em 1066 foi eleito Abade de Bec. E seu primeiro biógrafo, Eadmer, conta a pitoresca e comovente cena ocorrida nessa ocasião, típica da Idade Média: o eleito abade prosterna-se diante de seus irmãos, pedindo-lhes com lágrimas que não o onerassem com aquele fardo, enquanto os irmãos, também prosternados, insistem com ele para que aceite o ofício.

Sob sua direção, Bec alcançou sua maior celebridade, sendo para a Normandia e Inglaterra o que Cluny era para a Borgonha, França e Itália.

Em Bec, “escreveu vários de seus livros, que abrem um novo caminho para o estudo da Teologia e se distinguem pela profundidade de pensamento, delicadeza de investigação, ousado voo metafísico que, não obstante, nunca se separa do terreno da fé tradicional”.

Combates em defesa da Fé
No século XI, a importância de um abade era enorme, pois estava ligada a todo o movimento religioso e político do país. Assim, Anselmo teve que viajar várias vezes para a Inglaterra, por interesses de seu convento. Lá encontrou novamente Lanfranco, então Arcebispo de Cantuária, tornando-se também muito estimado na corte. “Guilherme, o Conquistador, ele próprio tão temível e inacessível aos ingleses, se humanizava com o Abade de Bec e parecia tornar-se todo outro em sua presença”.

O amável abade era uma figura imponente e majestosa, mas sempre serena. A calma era um dos seus traços característicos. Era também um grande lutador: “Enquanto luta com os senhores da região em defesa de seu mosteiro, defende a pureza da fé contra Berengário, discute com os hereges e confunde o racionalista Roscelino”.

Em 1087, Guilherme II, o Ruivo, sucedeu seu pai no trono da Inglaterra. Príncipe “que temia a Deus muito pouco, e nada aos homens”, tornar-se-ia um espinho na vida de Anselmo. Ele se apoderava das rendas das sés vacantes e, para gozar mais esses privilégios, não queria nomear novos bispos para as preencherem.

Ora, Anselmo, que já havia sucedido Lanfranco como Abade de Bec, foi escolhido pelo povo para sucedê-lo também, à sua morte, na Sé de Cantuária. Disso não queria saber nem o abade, por humildade, nem o rei, por prepotência, pois dizia: “O Arcebispo de Cantuária sou eu!”.




Arcebispo de Cantuária contra a vontade
A Providência veio resolver o caso. Atacado por estranha doença, o rei viu-se reduzido a uma situação extrema, e temeu por sua alma. Os prelados e barões então o pressionaram para que não deixasse mais vacante a Sé de Cantuária; e ele, acedendo aos desejos do clero e do povo, nomeou Anselmo.

Como este continuasse recusando o cargo, sucedeu então outra cena que só podia acontecer naqueles tempos: “Ele [Anselmo] foi arrastado à força até o lado do leito do Rei, um báculo foi enfiado em sua mão fechada, e o Te Deum foi cantado”. Contra a vontade, Anselmo tornou-se assim Arcebispo de Cantuária.

 Entretanto, o arrependimento do rei foi-se com a doença. Apenas restabelecido, tentou dobrar o Arcebispo, que se opôs à alienação das terras da arquidiocese em favor de apaniguados do rei. Começou uma verdadeira batalha entre altar e trono, e Anselmo preferiu exilar-se no continente a ceder nos princípios. Essa tendência absolutista dos soberanos ingleses manifestar-se-á no século seguinte com o martírio de São Tomás Becket, e, no século XVI com o cisma de Henrique VIII.





Luminar do Concílio de Bari
Em Roma, Anselmo foi recebido por Urbano II, que o convenceu a voltar para sua diocese. Mas antes participou ele do Concílio de Bari, em 1098, do qual foi um dos luminares, desfazendo o sofisma dos gregos, que negavam que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Para isso pronunciou belo discurso, que depois se tornou um tratado intitulado Da procedência do Espírito Santo. Na Itália escreveu outro tratado, Cur Deus homo, e regressou à Inglaterra em 1100, a pedido de Henrique, que sucedera no trono a seu pai, Guilherme, morto impenitente durante uma caçada.

 Para melhor praticar a obediência, Anselmo havia pedido ao Papa que lhe desse alguém a quem ele pudesse se submeter em todas as ações, como um monge ao seu superior. O Papa designou para esse ofício o monge Eadmer, que se tornou amigo íntimo, discípulo e biógrafo do Santo.

 Henrique II obrigou o Santo a permanecer três anos no desterro, devido à ingerência indébita desse monarca no âmbito eclesiástico.



Desterro do Santo Arcebispo
Henrique II, querendo assegurar para si o trono em detrimento de seu irmão mais velho, Roberto, que voltava da Cruzada na Terra Santa, restituiu à Igreja todos seus antigos direitos e prometeu não vender as prebendas vacantes nem arrendá-las ou retê-las em benefício do Tesouro. Por uma série de medidas assim também no campo civil, obteve a simpatia do clero e povo em seu favor.

Quando Roberto chegou à frente de um exército, para reivindicar seus direitos, o Arcebispo Anselmo obteve que os ingleses permanecessem na fidelidade a Henrique II, e que ambos entrassem num acordo pelo qual Roberto ficaria com a Normandia e passaria a receber uma renda anual de três mil marcos. Para mostrar que o filho não era melhor que o pai, na primeira oportunidade Henrique atacou Roberto de surpresa, derrotou-o, e fez prisioneiro até o fim da vida.
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Também a aliança entre Henrique II e Anselmo em breve se rompeu devido à contínua questão das investiduras. O Arcebispo mantinha-se firme, escudado pelos decretos de Bari e Roma, e o rei alegava o que considerava prerrogativas da Coroa.

Para resolver a questão, Santo Anselmo resolveu ir mais uma vez a Roma. Mas ao voltar foi impedido de entrar no país, e teve que permanecer três anos no desterro, no continente. Sob pena de excomunhão lançada pelo Papa, Henrique II finalmente chegou a um acordo com o Arcebispo, que pôde voltar assim à sua Sé.


Homem de governo, de letras, santo
Os últimos anos da vida de Anselmo transcorreram em atividades para a reforma de sua diocese e em trabalhos literários.  “A virtude havia feito dele o tipo do homem de governo, se bem que a posteridade o tenha recordado sobretudo como homem de letras, poeta, filósofo, polemista e escriturista. Em seus cantos a Maria, a facilidade e o sentimento não cedem em nada ao frescor e sinceridade da inspiração”.

Seis meses antes da morte, Santo Anselmo foi tomado por extrema fraqueza, que não lhe permitia sequer celebrar o Santo Sacrifício. Ele se fazia transportar diariamente à capela para assisti-la.

Na véspera de sua morte, esse homem fecundo, sempre em elucubrações metafísicas e teológicas, lamentava que não tivesse tido tempo para escrever um tratado sobre a origem da alma, tema sobre o qual havia meditado constantemente.

Enfim, carregado de anos e de virtude, faleceu no dia 21 de abril de 1109, sendo canonizado pelo Papa Alexandre III.



FRASES CÉLEBRES DE SANTO ANSELMO

Tenho dentro de mim a ideia de um Ser tal que não se pode imaginar nada maior, isto é, um Ser infinito. Logo, este Ser existe, pois eu O vejo em certo sentido, desde o momento em que penso Nele. O que está na realidade, além de estar no pensamento, é mais perfeito que o que só está no pensamento: portanto, Deus é real, porque se não existisse, não seria tal que não se pode pensar em outro maior.

Só Deus tem em Si a razão de Sua existência.

Pai e Filho são distintos e, todavia, são tão idênticos pela substância, já que sempre a essência do Filho está no Pai, e a essência do Pai está no Filho, e nunca ela é diferente, porque a essência de ambos não é diferente, mas a mesma; não é múltipla, mas única.

Deus é uma unidade indivisível porque sua imensidade é interminável.

Não é possível pensar nada maior que Deus (id quo maius cogitari non potest).

Deus é onipresente, isto é, Deus está presente no intelecto do homem, mesmo daqueles que, insipientes, afirmam que Ele não existe, a não ser como simples conceito (nuda intellecta). Também está na realidade (res), que o filósofo compreende como outra coisa que não o homem. A onipresença de Deus mostra-se como uma totalidade, fruto de um somatório destas duas partes (intelecto e realidade).
O que és Tu, ó Senhor, Deus meu, Tu de quem não é possível pensar nada maior? Mas quem poderia ser, senão aquele que – supremo entre todas as coisas, único existente por si mesmo – criou tudo do nada.

Não havia nada antes de ser feito o que foi feito.

Deus é um ser que contém, em sua unidade, toda perfeição (summum ommnium bonorum cunctaque bona intra se continens).

Deus é um Ser do qual nada maior se pode conceber.

Somente Tu, ó Senhor, és aquilo que és, e somente Tu és aquele que és. Com efeito, o ser que não é o mesmo em sua totalidade e em partes ou que está sujeito em algum ponto a variações, esse, certamente não é aquilo que é. Assim, também, todas as coisas que tiveram início, porque antes não existiam, podem ser pensadas como não existentes e, se não forem mantidas na existência por meio de outro, voltam ao nada. E tudo aquilo, cujo passado não existe mais e cujo futuro ainda não é, não existe em sentido próprio e absoluto. Tu, ao contrário, és verdadeiramente aquilo que Tu és, ainda que apenas uma vez e de alguma maneira, continues sendo completamente e sempre.

Relação entre o tempo e Deus: Não existes ontem, nem existes hoje, nem existirás amanhã, porque ontem, hoje e amanhã Tu existes. Mas não se deve dizer ontem, hoje, amanhã, e, sim, simplesmente, existe; e fora de qualquer tempo.

Tu (Deus) preenches e abranges todas as coisas existentes, pois Tu existes antes e depois delas.

Deus (teos) pode ser interpretado como o fundamento de todo ente (ón) que, verdadeiramente, é a ser provado sob a exigência da lógica (logia).


Não tento, Senhor, penetrar a Vossa profundidade, porque não posso sequer de longe comparar com ela o meu intelecto; mas desejo entender, pelo menos até certo ponto, a Vossa verdade, em que o meu Coração crê e ama. Com efeito, não procuro compreender para crer, mas creio para compreender.

Certamente, algo tal que não se pode pensar maior, não pode estar somente na inteligência. Porquanto, se está somente na inteligência, poder-se-ia pensar também na coisa, o que é maior. Portanto, se algo tal que não se pode pensar maior está somente na inteligência, este mesmo algo tal que não se pode pensar maior é tal que se pode pensar maior. Ora, certamente isto não pode ser. Existe, portanto, sem dúvida, algo tal que não se pode pensar maior, tanto na inteligência como na coisa.

A Essência Suprema existe em todas as coisas e tudo depende Dela.


O pensamento tem algo de divino, e Deus tem uma razão. Sua Palavra é sua Essência, e Ele é pura Essência Infinita, sem começo nem fim, pois nada existiu antes da Essência Divina e nada existirá depois.

O presente, o passado e o futuro são uma coisa só (para Deus).

O Verbo e o Espírito Supremo são uma coisa só, pois o Espírito Supremo usa o Verbo consubstancial para se expressar.

Nenhuma alma é privada do bem do Ser Supremo, e deve buscá-lo, através da fé.

Deus, rogo-vos, desejo conhecer-Vos, quero amar-Vos e poder regozijar-me em Vós. E, se nesta vida não sou capaz disto na medida plena, que eu possa, pelo menos, progredir cada dia, até alcançar a plenitude.

A alma humana é imortal. Nenhuma alma é privada do bem do Ser Supremo, e, através da fé, deve buscá-Lo.

O fogo do inferno não emite nenhuma luz. Assim como, ao comando de Deus, o fogo da fornalha babilônica perdeu o seu calor, mas não perdeu a sua luz, assim, ao comando de Deus, o fogo no inferno, conquanto retenha a intensidade do seu calor, arde eternamente nas trevas... Qual o nome, então, que devemos dar às trevas do inferno, que hão de durar não por três dias apenas, mas por toda a eternidade? O nosso fogo terreno foi criado por Deus para benefício do homem, para manter nele a centelha de vida e para ajudá-lo nas artes úteis, ao passo que o fogo do inferno é de outra qualidade e foi criado por Deus para torturar e punir o pecador sem arrependimento. O sulfuroso breu que arde no inferno é uma substância que foi especialmente designada para arder para sempre e ininterruptamente com indizível fúria. É um fogo que procede diretamente da ira de Deus, trabalhando não por sua própria atividade, mas como um instrumento da vingança divina. Assim como as águas do batismo limpam tanto a alma como o corpo, assim o fogo da punição tortura o espírito junto com a carne.

Parece-me descuido se, depois de firmarmos nossa fé, não lutarmos para compreender aquilo em que acreditamos.

Quem tem a intenção de fazer Teologia não pode contar somente com a sua inteligência, mas deve cultivar ao mesmo tempo uma profunda experiência de fé.

Somente o homem deve fazer reparação pelos seus pecados, visto que foi ele quem pecou. Somente Deus pode fazer a reparação necessária, visto que foi Ele quem a exigiu.

A atividade do teólogo desenvolve-se em três fases: 1ª) a fé, dom gratuito de Deus, a acolher com humildade; 2ª) a experiência, que consiste em encarnar a palavra de Deus na própria existência quotidiana; e 3º) o verdadeiro conhecimento, que jamais é fruto de raciocínios assépticos, mas, sim, de uma intuição contemplativa.

A razão não pode ser sua própria luz; para realizar sua obra, ela necessita de uma fonte de iluminação mais alta – a fé.

Enquanto a verdade lógica é uma retidão só perceptível pelo espírito, a justiça é a retidão da vontade observada por si mesma, ou seja, desinteressadamente.



Uma vez que o livre-arbítrio parece contradizer a graça, a predestinação e a presciência de Deus, desejo saber o que é a liberdade do arbítrio e se o temos sempre. Se, de fato, a liberdade do arbítrio é poder pecar e não pecar, como alguns costumam dizer, e se está sempre na nossa posse, como é que às vezes temos necessidade da graça? Mas, se não o temos sempre, porque o pecado nos é imputado, quando pecamos sem livre-arbítrio? Não penso que a liberdade do arbítrio seja o pode de pecar e de não pecar. Seguramente, se esta fosse a definição, nem Deus, nem os anjos, que não podem pecar, não teriam liberdade de arbítrio, e é um sacrilégio dizê-lo. E se disséssemos que o livre-arbítrio de Deus e dos anjos é diferente do nosso? Se bem que o livre-arbítrio dos homens difira do de Deus e do dos bons anjos, a definição desta liberdade deve, contudo, segundo o próprio nome, ser a mesma para todos. Portanto, o poder de pecar não é a liberdade nem parte da liberdade.

 Portanto, porque toda a liberdade é poder, aquela liberdade de arbítrio é o poder de conservar a retidão da vontade por causa da própria retidão. Não pode ser de outro modo. É agora claro que o livre-arbítrio não é senão o arbítrio capaz de conservar a retidão da vontade por causa da própria retidão.

Se o anjo ou o homem sempre dessem a Deus o que lhe é devido, nunca pecariam, pois nada mais é pecar do que não dar a Deus o que lhe é devido, isto é, toda a vontade da criatura racional sujeita à vontade de Deus. Quem não dá a Deus isto que lhe é devido, tira de Deus o que lhe é devido e o desonra, e isto é pecar. Enquanto não devolver o que é devido, permanece em culpa. Não é suficiente, porém, devolver o que lhe foi tirado, pois pela injúria feita sempre deve-se devolver mais do que se tirou. É assim que não é suficiente para quem lesa a saúde de outro que lhe devolva a saúde, pois deve também, pela dor impingida, recompensar-lhe com algo mais. Do mesmo modo não é suficiente para quem viola a honra de alguém que lhe devolva a honra, pois deve também, de acordo com o dano que lhe causou, restituir-lhe algo a mais que seja de seu agrado.

Ninguém está acima de tudo o que não é Deus senão Deus.

Quem poderá conceber uma misericórdia maior do que o pecador, condenado ao eterno tormento, sem ter como se redimir, ao qual Deus Pai se dirige e lhe diz: — 'Aceita o meu Filho Unigênito, e ele te redimirá.' E o próprio Filho: — Toma-me contigo, e redime-te. Pois é de fato isto o que dizem, quando nos chamam à fé cristã e a ela nos trazem.

Quem pensa continuamente em morrer não morre de repente.

Quer se entenda que a verdade tenha um princípio e um fim, quer se diga que não tenha, a verdade não pode ser confinada por nenhum princípio e nenhum fim.

Se não crermos, não compreenderemos. Quanto mais recorremos ao intelecto tanto mais nos aproximamos de tudo aquilo a que os homens aspiram.

No Reino dos céus, todos os homens em conjunto, e como se fossem um só, serão um só rei com Deus, pois todos quererão uma só coisa e a sua vontade cumprir-se-á. Eis o bem que, do alto do céu, Deus declara pôr à venda. Se alguém perguntar por que preço, eis a resposta: Aquele que oferece um Reino no céu não precisa de moeda terrestre. Ninguém pode dar a Deus o que já Lhe pertence, porque tudo o que existe é dEle. E, no entanto, Deus não dá coisas importantes sem que lhes seja estimado o preço: Ele não as dará a quem não as apreciar. De fato, ninguém dá coisas que lhe são queridas a quem não demonstrar ter apreço por elas. Então, e porque Deus não precisa dos teus bens, não deve dar-te uma coisa importante se desdenhares amá-Lo: Ele apenas reclama amor, e sem amor nada O obrigará a dar. Por isto, ama, e receberás o Reino. Ama, e possui-Lo-ás. Ama, portanto, a Deus mais do que a ti mesmo, e logo começarás a ter o que queres possuir em plenitude no céu.


Prefiro estar em desacordo com os homens, do que concordar com eles e discordar de Deus. 

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