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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

SANTOS MÁRTIRES DA CHINA (bispos, sacerdotes e religiosos missionários, sacerdotes, religiosos e leigos nativos).




Sempre se acreditou que a Igreja católica se fez presente na China a partir do ano 1294, quando os primeiros missionários enviados pela Santa Sé chegaram à capital do país pelo caminho da seda, que os comerciantes costumavam fazer e que já tinha sido descrito por Marco Polo em sua obra "O milhão".
É verdade que foram encontrados sinais da presença do cristianismo muito anteriores a essa data, mas pensava-se que os primeiros evangelizadores da China fossem os nestorianos, Igreja que não estava em comunhão com Roma e que parecia não explicar suficientemente a unidade da natureza humana e divina em Cristo.
Mas a data de 1294 deve ser modificada: podemos afirmar hoje, com toda certeza, que já por volta de 650 a aventura da Igreja católica na China tinha começado. É isso que podemos ler numa publicação da agência de notícias UCAN, que divulgou um estudo do Padre Gianni Criveller, PIME, do Centro de Pesquisas Espírito Santo, de Hong Kong.
Sabemos, por exemplo, que numa ampla região da Ásia central, que corresponderia hoje ao Iraque, Irã e Paquistão, a Igreja católica estava bem enraizada e estruturada já nos primeiros séculos do primeiro milênio. Foi essa Igreja, que chamaríamos de Igreja do Leste, que teve um papel determinante na evangelização de muitos países do centro da Ásia, como Índia, Sri Lanka, Tibete e Afeganistão, num período que vai do Séc. IV ao Séc. VIII. Mais tarde, iniciou também a evangelização da China. Pelos achados arqueológicos, podemos afirmar que houve, já naquela época, um grande esforço de inculturar a mensagem do Evangelho na cultura budista reinante nesse país.
Foram descobertos, perto de Xi´an, na província do Shaanxi, os restos de um templo que antes fora cristão e que remonta ao ano 650. Portanto, já nessa época tinha iniciado a evangelização da China. Sempre perto da cidade de Xi'an, foi descoberta uma coluna com inscrições gravadas em 781 por um grupo de monges persas que mostra um considerável esforço de inculturação da mensagem evangélica, que ali aparece comentada e explicada com termos próprios da cultura taoísta e budista, bem diferentes da cultura persa daqueles primeiros missionários.
Há mais um sinal claro da presença da Igreja na China nessa época: a divindade mais venerada na China é Guan Yin, a deusa da misericórdia. Ela é a única entidade feminina a ser cultuada no budismo e suas estátuas começaram a aparecer nessa época, em que já podiam ser encontradas imagens de Nossa Senhora. Poderia ser um exemplo de contaminação religiosa.
A Igreja expandiu-se durante um bom período apoiada pelos imperadores da época, até que, em 841, começou a perseguição contra as várias religiões, só deixando espaço livre ao confucionismo e ao taoísmo. Sobreviveram somente algumas comunidades ao longo do caminho da seda, talvez pelos contatos que podiam ter com os comerciantes vindos do Ocidente.
Com a chegada dos primeiros missionários enviados por Roma em 1294, o catolicismo na China refloresceu durante quase um século para depois ser perseguido novamente com o advento da dinastia Ming. Recomeçou em 1600, quando, de novo, os missionários jesuítas chegaram e foram aceitos na corte do imperador. E foi sempre assim nos séculos seguintes: períodos de calma e de crescimento e períodos de perseguição e de martírio. Isso continua até hoje. A semente do Evangelho nunca morreu definitivamente ainda que, depois de mais de mil anos, ainda não tenha conseguido encontrar o terreno para poder brotar e produzir frutos como em outros países.
A perseguição à Igreja de Cristo na China sempre foi muito constante e gerou milhares e milhares de mártires. Muitos foram beatificados e canonizados pela Igreja, o que não agradou muito ao governo comunista de Pequim. Segue-se uma lista de santos e santas gerados nas terras chinesas.

Quatro santos que foram mortos em 28 de outubro de 1748:
1. São Francisco Serrano, padre dominicano,
2. São Joaquim Royo, padre dominicano,
3. São João Alcober, padre dominicano,
4. São Francisco  Diaz, padre dominicano.

Quando o catolicismo foi autorizado por alguns imperadores nos séculos anteriores, o imperador Kia Kin (1796-1821), publicou um decreto contra a igreja. Esses editos foram publicados em 1805 e 1811; um decreto de 1813 proibia a fé católica e convidava a negar a fé através da apostasia: negar a Cristo. Neste período o martírio foi uma constante. Entre os mártires estão:
5. São Pedro Wu, um leigo catequista, nascido de família pagã e recebeu o batismo, foi morto em 7 de novembro de 1814.
6. São José Zhang Dapeng, um leigo catequista e comerciante, foi batizado em 1800, morto em 12 de março de 1815.

Também neste mesmo ano, três novos decretos foram aprovados e foram martirizados um bispo e sacerdotes da Missão Estrangeira de Paris e alguns leigos chineses. Os seguintes mártires pertencem a este período:
7. São Gabriel-Taurin Dufresse, M.E.P., bispo. Foi preso no dia 8 de maio de 1815 e condenado à execução em 14 de setembro de 1815.
8. Santo Agostinho Zhao Rong, um padre diocesano chinês. Foi preso e torturado até à morte em 1815.
9. São João da Triora, O.F.M., padre, colocado na prisão junto com outros no verão de 1815, foi condenado à morte em 7 de fevereiro de 1816.
10. São José Yuan, um padre diocesano chinês, que tendo ouvido ao bispo Dufresse sobre a fé cristã recebeu o batismo e foi ordenado padre, foi preso em agosto de 1816 e morto em 24 de junho de 1817.
11. São Paulo Liu Hanzuo, um padre diocesano chinês, morto em 1819.
12. São Francisco Regis Clet, da Congregação da Missão (Vicentinos) foi morto de 17 de fevereiro de 1820.

13. São Tadeu Liu, um padre diocesano chinês, que recusou negar a fé e foi condenado à morte em 30 de novembro de 1823.
14. São Pedro Liu, um leigo catequista chinês, foi preso em 1814 e condenado ao exílio onde permaneceu durante 20 anos e foi morto em 17 de maio de 1834.
15. São Joaquim Ho, um leigo catequista chinês, foi batizado na idade de 20 anos e mandado ao exílio em Tartary, onde permaneceu durante quase 20 anos e depois solto foi preso por negar a apostatar, foi preso novamente e mortoem 9 de julho de 1839.
16. Santo Agostinho Chapdelaine, M.E.P., um padre francês da Diocese de Coutances, embarcou para a China em 1852 e chegou em Guangxi no final de 1854, preso em 1856, foi torturado e condenado à morte em fevereiro de 1856
17. São João Gabriel Perboyre, Lazarista (Vicentino). Foi denunciado e preso na perseguição de 1839. Permaneceu um ano no cativeiro, sofrendo torturas cruéis, até ser amarrado a uma cruz e estrangulado no dia 11 de setembro de 1840.
18. São Lourenço Bai Xiaoman, um leigo chinês, foi decapitado em 25 de fevereiro de 1856.
19. Santa Inês Cao Guiying, viúva, nascida de família cristã, foi presa e condenada à morte na prisão, foi executada em 1 de março de 1856.

Mártires de MaoKou e Guizhou
Três catequistas, conhecidos como os mártires de MaoKou foram mortos no dia 28 de fevereiro de 1858, por ordem do mandarim de MaoKou. Foram, chamados a apostatarem a fé cristã, como recusaram, foram decapitados. São eles:
20. São Jerônimo Lu Tingmei,
21. São Lourenço Wang Bing,
22. Santa Agatha Lin Zao,

Em Guizhou, dois seminaristas e dois leigos, um era fazendeiro e outra viúva, que trabalhava como cozinheira no seminários, sofreram o martírio juntos no dia 29 de julho de 1861. São eles:
23. São José Zhang Wenlan, seminarista,
24. São Paulo Chen Changpin, seminarista,
25. São João Batista Luo Tingying, leigo,
26. Santa Marta Wang Luo Mande, leiga,

 No ano seguinte, nos dias 18 e 19 de fevereiro de 1862, outras cinco pessoas perderam suas vida por amor a Cristo, também em Guizhou; são eles:
27. São João Pedro Neel, padre das Missões Estrangeiras de Paris,
28. São Martinho Wu Xuesheng, leigo catequista,
29. São João Zhang Tianshen, leigo catequista,
30. São João Chen Xianheng, leigo catequista,
31. Santa Lucia Yi Zhenmei, leiga catequista,

Com a revolução Boxer no século XX, e com as políticas de desenvolvimento chinês, novamente a Igreja foi durante perseguida e milhares perderam a vida por Cristo dando testemunho de sua fé. Como resultado, o martírio foi uma realidade em muitos lugares e pessoas e grupos de pessoas foram executadas por ódio à fé.

A) Mártires de Shanxi, mortos em 9 de julho de 1900, foram os Frades Franciscanos Menores:
32. São Gregório Grassi, bispo,
33. São Francisco Fogolla, bispo,
34. Santo Elias Facchini, padre,
35. São Teodorico Balat, padre,
36. Santo André Bauer, irmão religioso.

b) Mártires de Hunan, também franciscanos menores:
37. Santo Antônio Fantosati, bispo (martirizado em 7 de julho de 1900),
38. São José Maria Gambaro, padre (martirizado em 7 de julho de 1900),
39. São Cesidio Giacomantonio, padre (martirizado em 04 de julho de 1900),

São sete as mártires das Franciscanas Missionárias de Maria, sendo três francesas, duas italianas, uma belga e uma holandesa; são elas:
40. Santa Maria Hermina de Jesus,
41. Santa Maria da Paz,
42. Santa Maria Clara,
43. Santa Maria do Santo Nascimento,
44. Santa Maria de São Justo,
45. Santa Maria Adolfine,
46. Santa Maria Amandina.

Mártires franciscanos na China. 


Dos mártires pertencendo à família franciscana, estes onze foram seculares e todos chineses, são eles:
47. São João Zhang Huan, seminarista,
48. São Patricio Dong Bodi, seminarista,
49. São João Wang Rui, seminarista,
50. São Filipe Zhang Zhihe, seminarista,
51. São João Zhang Jingguang, seminarista,
52. São Tomás Shen Jihe, leigo,
53. São Simão Qin Cunfu, leigo catequista,
54. São Pedro Wu Anbang, leigo,
55. São Francisco Zhang Rong, leigo,
56. São Mateus Feng De, leigo e neófito,
57. São Pedro Zhang Banniu, leigo.


 A esses foram unidos uma multidão de leigos fiéis chineses, e entre esses estão:
58. São Tiago Yan Guodong,
59. São Tiago Zhao Quanxin,
60. São Pedro Wang Erman.

Também foram mortos em ódio à fé, quatro  padres missionários franceses jesuítas e pelo menos 52 leigos chineses: homens, mulheres e crinaças, o mais velho tinha 79 anos de idade e o mais novo apenas 9 anos de idade. Foram mortos em uma igreja na vila de Tchou-kia-ho no mês de julho de 1900. São eles:
61. São Leo Mangin, S.J., padre, 59 anos,
62. São Paulo Denn, S.J., padre, 60 anos,
63. São Rémy Isoré, S.J., padre, 61 anos,
64. São Modesto Andlauer, S.J., padre.

Os nomes e as idades dos leigos chineses são como seguem:
65. Santa Maria Zhu Wu, 50 anos,
66. São Pedro Zhu Rixin, 19 anos,
67. São João Batista Zhu Wurui, 17 anos,
68. Santa Maria Fu Guilin, 37 anos,
69. Santa Bárbara Cui, 51 anos,
70. São José Ma Taishun, 60 anos,
71. Santa Lucia Wang Cheng, 18 anos,
72. Santa Maria Fan Kun, 16 anos,
73. Santa Maria Chi Yu, 15 anos,
74. Santa Maria Zheng Xu, 11 anos,
75. Santa Maria Du  Zhao, 51 anos,
76  Santa Magdalena Du Fengju, 19 anos,
77. Santa Maria du Tian, 42 anos,
78. São Paulo Wu Anjyu, 62 anos,
79. São João Batista Wu Mantang, 17 anos,
80. São Paulo Wu Wanshu, 16 anos,
81. São Raimundo Li Quanzhen, 59 anos,
82. São Pedro Li Quanhui, 63 anos,
83. São Pedro Zhao Mingzhen, 61 anos,
84. São João Batista Zhao Mingxi, 56 anos,
85. Santa Teresa Chen Jinjie, 25 anos,
86. Santa Rosa Chen Aijie, 22 anos,
87. São Pedro Wang Zuolung, 58 anos,
88. Santa Maria Guo Li, 65 anos,
89. Santa Joana Wu Wenyin, 50 anos,
90. Santo Zhang Huailu, 57 anos,
91. São Marcos Ji Tianxiang, 66 anos,
92. Santa Ana An Xin, 72 anos,
93. Santa Maria An Guo, 64 anos,
94. Santa Ana An Jiao, 26 anos,
95. Santa Maria An Linghua, 29 anos,
96. São Paulo Liu Jinde, 79 anos,
97. São José Wang Kuiju, 37 anos,
98. São João Wang Kuixin, 25 anos,
99. Santa Teresa Zhang He, 36 anos,
100. São Lang Yang, 29 anos,
101. São Paulo Lang Fu, 9 anos,
102. Santa Elizabeth Qin Bian, 54 anos,
103. São Simão Qin Chunfu, 14 anos,
104. São Pedro Liu Zeyu, 57 anos,
105. Santa Ana Wang, 14 anos,
106. São José Wang Yumei, 68 anos,
107. Santa Lucia Wang Wang, 31 anos,
108. Santo André Wang Tianqing, 9 anos,
109. Santa Maria Wang Li, 49 anos,
110. Santo Chi Zhuze, 18 anos,
111. Santa Maria Zhao Guo, 60 anos,
112. Santa Rosa Zhao, 22 anos,
113. Santa Maria Zhao, 17 anos,
114. São José Yuan Gengyin, 47 anos,
115. São Paulo Ge Tingzhu, 61 anos,
116. Santa Rosa Fan Hui, 45 anos.

Além desses já mencionados que foram martirizados pelos Boxers, ainda é necessário fazer memória dos seguintes mártires da fé cristã:
117. Santo Alberico Crescitelli, um padre do Instituto Pontifício das Missões Estrangeiras de Milão, que exerceu seu ministério na região sudeste de Shanxi e foi martirizado em 21 de julho de 1900.

        Alguns anos mais tarde, membros da Sociedade Salesiana de São João Bosco foram acrescentados ao considerável número dos mártires recordados acima, são eles:
118. São Luis Versiglia, bispo,
119. São Calisto Caravario, padre.
Eles foram martirizados juntos no dia 25 de fevereiro de 1930 em Li-Thau-Tseul.

Observação: ao todo, encontrei os nomes (e os dados de alguns) de 119 mártires, porém a figura acima enumera 120 mártires chineses. Os leitores do blog me perdoem, mas não encontrei o nome do mártir que falta... 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

SANTA JOANA MARIA DA CRUZ (Joana Jugan), Virgem e Fundadora das Irmãzinhas Servas dos Pobres.



    Joana nasceu numa aldeia de Cancale, França, em 25 de outubro de 1792. Era a sexta de oito filhos de José e Maria Jugan. Seu pai era um pescador e morreu no mar quando ela tinha quatro anos; sua mãe cuidou sozinha desta grande família.
     Logo conheceu a pobreza e, com 16 anos, começou a trabalhar como empregada na cozinha dos Viscondes de la Choue para ajudar no sustento da família. A viscondessa era uma piedosa católica que Joana acompanhava em suas visitas aos doentes e aos pobres. Joana era sensível à miséria dos idosos que encontrava nas ruas, dividindo com eles seu salário, o pão e o tempo de que dispunha.
     Aos dezoito anos de idade recusou uma proposta matrimonial de um jovem marinheiro, sinalizando: “Deus me quer para Ele”. Aos vinte e cinco anos deixou sua cidade para ser enfermeira no Hospital Santo Estevão. Nesse meio tempo ingressou na Ordem Terceira, fundada no século XVII por São João Eudes.
     Ela trabalhava muito neste emprego, mas seis anos depois, em 1823, ela deixou o hospital e foi trabalhar como cuidadora de uma senhora de 72 anos de idade, a Srta. Francisca Aubert Lecog, mais como amiga do que enfermeira, onde ficou por doze anos.
     Em 1837, elas alugaram parte de uma pequena propriedade e a elas de juntou Virginia Tredaniel, uma órfã de 17 anos. Durante este período, as três mulheres formaram uma comunidade católica de oração e começaram a ensinar o catecismo para as crianças e a cuidar de pobres e outros necessitados, até o falecimento da Srta. Lecog.
     Joana trouxe uma viúva cega, Ana Chauvin, para viver com elas e inclusive permitiu que a mulher dormisse em sua cama. Este ato de caridade, aprovado por suas amigas, levou Joana a focar sua atenção na missão de assistência às mulheres idosas abandonadas.
     Sozinha Joana iniciou sua campanha junto à população para recolher auxílios, tarefa que cumprirá até a morte. Mas logo sensibilizou uma rica comerciante e com essa ajuda conseguiu comprar um antigo convento. Ele se tornou a casa mãe da nascente Congregação das Servas dos Pobres, sob a assistência da Ordem Hospitaleira de São João de Deus.
     Joana escreveu uma regra simples para esta nova instituição de mulheres; elas devem ir diariamente de porta em porta pedir alimento, roupas e dinheiro para as mulheres sob seus cuidados. Esta era a missão de Joana, e ela a desempenhou pelas próximas quatro décadas.
      Ao receber o hábito de religiosa, tomou o nome de Joana Maria da Cruz. Adotando o voto de hospitalidade, imprimiu sua própria vocação: “a doação como apostolado de caridade para com quem sofre por causa da idade, da pobreza, da solidão e outras dificuldades”.
    A Congregação rapidamente se estendeu por vários países da Europa. Em 1847, a pedido de Leo Dupont (conhecido como o Santo Homem de Tours), ela estabeleceu uma casa em Tours. Ela trabalhou com as autoridades religiosas e civis buscando ajuda para os pobres.
     Quando Joana Jugan morreu na França, em 29 de agosto de 1879, na casa mãe de Pern, França, as Irmãzinhas eram quase duas mil e quinhentas, com cento e setenta e sete casas em dez países. Ela foi sepultada naquela casa de Pern.
     Naquele ano, Leão XIII aprovou as Constituições da Congregação. Em setembro de 1885, a Congregação chegou à América do Sul e fez sua primeira fundação em Valparaiso, Chile, que logo foi destruída por um terremoto e reconstruída em Viña Del Mar. Hoje são quase duzentas casas em trinta e um países na Europa, América, África, Ásia e Oceania.
     Madre Joana Maria da Cruz, que “soube intuir as necessidades mais profundas dos anciãos e entregou sua vida à seu serviço”, foi beatificada por São João Paulo II em 3 de outubro de 1982 e canonizada em 11 de outubro de 2009 por Bento XVII.

     Hoje os peregrinos podem visitar a casa onde ela nasceu em Cancale, a Casa da Cruz em Saint-Servan, e a casa mãe onde ela viveu os últimos 23 anos de sua vida, em La Tour Saint Joseph, em Saint-Pern.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Beato Domingos do Santíssimo Sacramento (Domingos Iturrate), Presbítero Trinitário.



Domingos nasceu em Dima, Vizcaya, Espanha, em 11 de maio de 1901. Seus pais eram lavradores no vilarejo de Biteriño. Era o primeiro de uma numerosa família de 11 filhos e filhas.

A educação cristã e sua inclinação aos atos de piedade o conduziram a pedir ao pároco que o admitisse como coroinha. Mesmo ficando seu vilarejo bem distante da paróquia, não faltava nem um só dia ao seu encontro com o Senhor.

Sentindo-se chamado por Deus para uma vida de seguimento radical a Jesus, pede para ser admitido no convento Trinitário de Algorta (Vizcaya). Seu mestre dá este testemunho sobre sua vida de aspirante: “Vi nele um adolescente humilde, devoto, obediente, recolhido, equilibrado, alegre, sensato”. É belo dizer isso, mas custou muito a Domingos adquirir estas virtudes.

Tinha já 16 anos completos quando, no dia 11 de dezembro de 1917, foi admitido ao noviciado, que foi feito no santuário de Nossa Senhora Bien Aparecida (Marrón-Santander). Um lugar de incomparável beleza natural. Um grande mirante que se desponta sobre La Vega del Asón.

Sua santidade ia revelando-se. Alguns começam a chamá-lo “o santinho”. Sobressai-se, de modo especial, por sua piedade, modéstia, amor à pobreza e à obediência. Jesus Sacramentado é seu novo nome na Ordem. A Santíssima Virgem é a confidente de suas penas e alegrias.

Por seu testemunho pessoal se sabe que durante o noviciado “sentiu aridez de espírito, sensação de ser condenado, obscuridade, amargura”. Tudo isto desapareceu no dia de sua profissão.

Foi enviado a São Carlino (Roma) para cursar seus estudos de filosofia e teologia.

Na Universidade Gregoriana demonstrou aplicação e talento. As máximas qualificações e uma medalha de honra dão testemunho de seu aproveitamento. Queria preparar-se bem para ser “um apto instrumento nas mãos de Deus”.

Destacou-se na comunidade por sua piedade e seu espírito de serviço: a sacristia, a cozinha e, sobretudo, os enfermos eram seus “preferidos”.

Por suas qualidades e sua “ascendência” ante os companheiros, antes de ser ordenado sacerdote, já foi nomeado Mestre dos estudantes. Tinha prática no ofício, pois durante alguns anos, havia exercido o de zelador. Um mestre seu afirmava: “Tão alto conceito eu tinha do bem-aventurado, que me considerava mais discípulo seu do que mestre. Guiava-me por ele, mais que por minha própria iniciativa”.

Frei Domingos afirmava: “Sofri muito cada vez que me via obrigado a chamar a atenção de algum de meus subordinados. Tinha que vencer-me interiormente. Sei que nem todos estavam satisfeitos com a minha atuação. Dói-me pensá-lo, mas estou satisfeito de ter cumprido o meu dever. Não me escolheram para que agradasse aos religiosos, mas para que os levasse a Deus”.

Chegou o dia tão esperado da sua ordenação sacerdotal. Recebeu-a no dia 9 de agosto de 1925. Era o Ano Santo da Redenção. Escreve a seus pais: “Fui constituído mediador entre Deus e os homens. Sejam felizes e mil vezes felizes as famílias que entre seus membros têm um sacerdote que interceda por eles. Felizes os pais que em sua velhice, quando veem próxima a morte, podem dizer: Tenho um filho sacerdote que oferece sacrifícios por mim”.

Tinha se preparado conscientemente para ser um bom sacerdote, um missionário. No entanto, os desígnios de Deus eram outros. Frei Domingos do Santíssimo Sacramento estava gravemente enfermo. Apenas com 25 anos e com seu sacerdócio recém estreado.

Alguns dias antes de sua ordenação sacerdotal precisava fazer o exame de Doutorado em Teologia. Sua enfermidade já se havia manifestado. Os professores que lhe aplicavam o exame se deram conta da palidez de seu rosto. A tuberculose estava destruindo-o. Já ordenado sacerdote e com a prova que o Senhor lhe enviava, redobrava sua oração ante o Sacrário.

Seu Padre Provincial dizia: “Celebrou missa enquanto pôde e sofria o indizível quando, por seu grave estado de saúde, não podia fazê-lo. Em certa ocasião, num estado de gravidade, pediu-me insistentemente que lho concedesse; poderia celebrar ainda que com muito esforço. Permiti-lhe que celebrasse e escutei dele estas palavras: ‘Padre Provincial, é inacreditável o tesouro de graças que se obtém com a celebração de uma só Missa’”.

Naquele verão de 1925, os médicos recomendaram-lhe que voltasse à Espanha.

Seu primeiro destino foi a casa de Algorta. “Chegou debilitado, muito cansado. Passou a noite toda tossindo por causa da pleurite. De manhã se levantou para celebrar a Missa”.

Não podendo dedicar-se ao apostolado direto, procurou escrever alguns artigos para a revista O Santo Triságio. Afirmava: “É consolador que se possa chegar às almas de diversas maneiras”.

Desejava ser missionário. “Falei com o Padre Provincial sobre a conveniência de que a Província se faça cargo de uma Missão. Não perco minhas esperanças de que se me permita ir ao Canadá ou ao Madagascar”. No entanto, a enfermidade deixava-o imóvel e fechado em seu quarto: “Quando entrava em seu quarto, diz o Padre Provincial, encontrava-o como imerso em alta contemplação, a julgar pelo grande esforço que tinha de fazer para conversar comigo”.

Os especialistas não sabiam o que fazer com seu organismo tão debilitado. Sugeriram como último recurso que fosse enviado a uma casa da Ordem que estava em Belmonte (Cuenca). Ali havia um clima mais seco, para realizar uma cura com repouso absoluto. Era o dia 28 de dezembro de 1926. Ao entrar pela portaria daquele convento, disse: “Hic dormiam et requiescam”.

No início notou-se uma melhora. Mas ele já havia dito ao entrar naquela casa: “Aqui dormirei e descansarei”, aludindo à sua morte próxima.

No dia 5 de janeiro de 1927, escreve a seu companheiro Félix da Virgem: “Na casa de Deus há muitas moradas. Importa que cumpramos a vontade de Deus. Deus chama a alguns na flor da idade, antes que se envolvam com negócios e responsabilidades. A outros lhes reserva grandes trabalhos e lutas. Tudo pode ser ocasião de mérito e ninguém se perde senão por sua negligência”.

Este é o testemunho do enfermeiro em Belmonte: “O atendi como enfermeiro durante os quatro meses que permaneceu neste convento de Belmonte. É certo que observei nele uma paciência santa em seus duros sofrimentos, uma alegria inalterável, uma prudência excelente e uma resignação sem limites à vontade de Deus”.

No fim de sua vida revisava seus propósitos:
1. O voto de fazer o que acreditasse ser mais perfeito.
2. Não negar nada a Deus, nosso Senhor; seguir em tudo suas santas inspirações com generosidade e alegria.

Podia ter a satisfação de que havia sido fiel a estes compromissos.

Em 05 de abril de 1927 começa sua agonia. Passou os dias 5 e 6 delirando. Administraram-lhe os sacramentos, que recebeu com grande fervor e serenidade. No dia 7 de abril de 1927, quando a luz do dia iluminava a terra, ele foi gozar da luz inacessível e perene do céu.

Escreveram na cruz de seu túmulo: Tudo fez bem.

Foi beatificado pelo Papa São João Paulo II em 30 de Outubro de 1983. Em sua homilia o Sumo Pontífice o elogiou com estas palavras:

“Como religioso trinitário, procurou viver segundo as duas grandes diretrizes da espiritualidade da Ordem: o mistério da Santíssima Trindade e a obra da redenção que nele se tornava vivência de intensa caridade. Enquanto sacerdote, teve uma clara ideia de sua identidade como ‘mediador entre Deus e os homens’, ou ‘representante do Sacerdote Eterno, Cristo’. Tudo isto o levava a viver cada Eucaristia como um ato de imolação pessoal, unido à suprema Vítima, em favor dos homens”.

“Não menos notável foi a presença de Maria na trajetória espiritual do novo bem-aventurado. Desde a infância até a morte. Uma devoção que viveu com grande intensidade e que procurou inculcar sempre aos demais, tão convencido estava de ‘quanto é bom e seguro esse caminho: ir ao Filho por meio da Mãe’”.

Seu lema foi: “Farei o ordinário extraordinariamente bem”.

Seus santos espólios são venerados na igreja trinitária do “Redentor” (Jesus Nazareno), de Algorta (Espanha).


TRÍDUO À SANTÍSSIMA TRINDADE

Para alcançar graças por intercessão do  Bem-aventurado DOMINGOS:

Ó Trindade amabilíssima, em Vós creio, em Vós espero, Vos amo com todo o meu coração, e Vos peço: enchei a minha alma da vossa graça e sustentai-a de modo que jamais deixe de ser vosso santo templo e a morada de vossas delícias. Dignai-vos glorificar a vosso Bem-aventurado DOMINGOS, concedendo-me a graça que solicito, se há de ser para maior glória Vossa, bem e proveito de minha alma.

      (Reza-se três Pai Nosso à Santíssima Trindade.)

Beatos Mártires Espanhóis Filhos da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.



No dia 10 de maio de 2012, o então Papa Bento XVI autorizou a promulgação do decreto de martírio de 19 religiosos e sacerdotes do Instituto dos Filhos da Sagrada Família de Jesus, Maria e José e alguns jovens ex-alunos leigos.
O Instituto da Sagrada Família de Jesus, Maria e José foi fundado por São José Manyanet, no intuito de difundir a devoção à Sagrada Família e a formação cristã das famílias, principalmente através da educação católica das crianças e dos jovens.
Atualmente eles se esforçam para cumprir o lema de seu santo fundador: “fazer de cada casa uma nova Nazaré”. Trabalham na Espanha, Itália, Estados Unidos, México, Colômbia, Venezuela, Brasil e Argentina. São afiliados com a Associação da Sagrada Família e publicam a revista “Sagrada Família”. Seguindo os ensinamentos de seu fundador, São José Manyanet, encontram na Sagrada Família o modelo para definir a vida de suas comunidades religiosas e a inspiração para o ministério junto às famílias e a educação das crianças e jovens.
Entre as vítimas, reconhecidas como testemunhas da fé (mártir = testemunha) pelo então Papa Bento XVI, dois morreram em Blanes (Girona), um em Barcelona, dois em Lleida, quatro em Vila-Rodona (Tarragona), um Cervera (Lleida) Munter, um em Vic (Barcelona), dois em San Fruitós de Bages (Barcelona) e seis em Moncada (Barcelona).
Todos eles morreram por fidelidade a Jesus Cristo e à sua vocação como Filhos da Sagrada Família. Suas vidas oferecidas a Deus para trabalhar para as famílias, foram confirmadas pelo martírio. Eles são, portanto, mártires da família.

O processo (investigação) diocesano, iniciado em 1994, foi realizado conjuntamente com a Arquidiocese de Barcelona. Foi agraciado com a validade jurídica do processo em 1997 e recebeu a “Positio” (parecer favorável) em 1999. A partir da comissão de teólogos e cardeais foi reconhecido oficialmente o martírio de todos os Servos de Deus, e confirmados pelo Papa em 10 de maio de 2012. 

Paz aos gloriosos mártires! Glória e paz aos mártires! 

Serva de Deus Hermínia de Reims, Viúva e Mística (venerada em Reims - 25 de agosto)


Nos últimos dez meses de sua vida, a serva de
Deus foi atormentada por aparições de demônios
e também consolada por aparições da Virgem
Maria e outros santos. 
Em 1384, uma camponesa pobre e iletrada chamada Hermínia mudou-se para a cidade de Reims (França) com seu esposo idoso. A época em que ela viveu era afligida por guerras, pragas e pelo cisma no interior da Igreja Católica, e a vida de Hermínia poderia facilmente não ser notada entre as rupturas da História.
Porém, após a perda de seu esposo, as coisas tiveram uma reviravolta: nos últimos dez meses de sua vida, Hermínia foi atormentada por visões noturnas de demônios. Durante seus horrores noturnos ela era atacada por animais, surrada e sequestrada por demônios disfarçados, e exposta a espetáculos carnais; em outras noites, ela era abençoada por santos, visitada pela Virgem Maria. Ela confessou estas coisas estranhas a um frade agostiniano conhecido pelo nome de Jean le Graveur, que relatou tudo com detalhes vívidos.
Em uma Vita escrita por Radulfo, vice-prior de um mosteiro próximo a Reims, é relatado que Hermínia era pobre de dinheiro, mas rica de paciência e de humildade.

Hermínia faleceu no dia 25 de agosto de 1396. Foi sepultada na nave da Igreja de São Paulo, onde atualmente se vê o coro dos monges, sob uma pedra branca com sua imagem e uma breve inscrição. Uma relação das visões de Hermínia foi enviada por João Morelli para Paris, onde foi examinada por Pedro d’Ailly, superior da universidade de Navarra e por Gerson. Os dois concluíram que o culto a Hermínia poderia ser difundido.

Nota: o texto foi extraído do blog: "Heroínas da Cristandade" no qual está com o título "Santa Hermínia". No entanto, resolvi não colocar o título de "santa", visto que não encontrei em lugar algum a referência de sua canonização. Possivelmente a mesma seja somente "Serva de Deus" ou, no máximo, "venerável". Seu culto é praticamente restrito à região de Reims, na França. 

SÃO HILARIÃO, Eremita e Taumaturgo (o texto é um pouco longo, mas vale a pena ler na íntegra).




Hilarião, nascido na aldeia de Tavata, situada a uns sete quilômetros e meio de Gaza, cidade da Palestina, floresceu, segundo o provérbio, como uma rosa entre os espinhos, já que seus pais eram idólatras. Eles o enviaram para a Alexandria e o confiaram a um gramático; ali Hilarião, tendo em conta a sua idade, deu mostras do seu grande talento e bons costumes. Em pouco tempo, era amado por todos e chegou a ser bem versado na arte de falar. Porém, mais importante que tudo isto, é que acreditava no Senhor Jesus.
 Não se deleitava nas paixões do circo, nem no sangue da arena, nem na luxúria do teatro; todo seu afã era para participar das assembleias da Igreja.
Assim, depois da morte dos pais, voltou à pátria para distribuir aos pobres todos os bens herdados, depois se retirou a Maiuna, nas margens do deserto, e levou vida de árdua penitência, sendo alvo do demônio, que se lhe apresentava sob falsas aparências para tentá-lo.
"Tantas foram as suas tentações e tão variadas as ciladas dos demônios noite e dia, que se eu quisesse relacioná-los, um volume não seriam suficientes. Quantas vezes quando ele se deitou apareciam mulheres nuas do nada para ele, quantas vezes festas suntuosas, quando ele estava com fome"! (São Jerônimo, Vida de Santo Hilarião)


Uma vida extraordinária.

Tentações e ascese.
[O diabo,] então, atacava seus sentidos e sugeria ao seu corpo adolescente os costumeiros ardores da voluptuosidade. Assim, o soldado de Cristo se via obrigado a pensar naquilo que ignorava e a revolver seu espírito na pompa que não havia conhecido pela experiência. Irritado, pois, consigo mesmo e golpeando o peito com os punhos, como se pudesse expulsar os pensamentos com os golpes das suas mãos, dizia: “Burro! Não te deixarei dar coices, nem te alimentarei com cevada, mas com palha; esgotar-te-ei de fome e sede, e irei te carregar com pesado fardo; submeter-te-ei ao calor e ao frio para que penses mais no alimento que na concupiscência!”. Por isso, a cada dois ou três dias sustentava sua frágil vida com algumas ervas e uns poucos figos, orando e salmodiando com frequência, trabalhando a terra com a enxada, para que a fadiga do trabalho redobrasse a dos jejuns. Depois, tecendo folhas de junco, praticava a disciplina dos monges do Egito e a sentença do Apóstolo que diz: “O que não trabalha não coma”. Estava tão fatigado, seu corpo tão consumido, que só sustentava os ossos.

As terríveis tentações sofridas por Hilarião.
Alucinações.
Uma noite ouviu o gemido de uma criança, o balar das ovelhas, o mugido de bois, os cânticos de prostitutas, os rugidos de leões, o ruído de um exército e um monstruoso clamor de vozes de todos os tipos, a ponto que quase cedeu àqueles sons, antes de ver o que os provocava. Compreendeu que eram armadilhas montadas pelos demônios e, ajoelhando-se, persignou sua fronte com o sinal da cruz. Armado com aquele elmo e envolto com a couraça da fé, prostrado na terra, lutava mais vigorosamente, desejando ver de alguma maneira aqueles que o aterrorizavam ouvir e, olhando ao seu redor, aqui e ali, com olhos ansiosos. De repente, sob a claridade da lua, viu precipitar sobre ele um carro de cavalos de fogo. Invocou, em alta voz, o nome de Jesus e a terra se abriu imediatamente ante seus olhos e todo esse aparato foi tragado pelo abismo. Então disse: “Atirou ao mar o cavalo e seu cavaleiro” e “Uns confiam em seus carros, outros em sua cavalaria; nós, entretanto, invocamos o nome de nosso Deus”.



Os demônios o atormentavam com toda espécie de visões, aparições e sugestões diabólicas para
demovê-los de suas orações, penitências e vida austera. Apareciam em forma de mulheres 

nuas, oferendo-lhe bebidas, banquetes, fazendo barulhos estrondosos, apareciam em forma
de monstros medonhos, etc. 


Visões.
Muitas e variadas foram as tentações e ciladas do demônio, tanto durante o dia quanto durante a noite. Se quisesse narrá-las todas, excederia os limites deste livro. Quantas vezes, enquanto deitado, se lhe apareceram mulheres desnudas; quantas vezes, enquanto com fome, viu suculentas refeições! Algumas vezes, enquanto orava, saltou sobre ele um lobo que uivava e um porco que grunhia; e enquanto salmodiava, se lhe apresentava um espetáculo de lutas de gladiadores e um deles, que parecia ferido mortalmente, se arrastava até seus pés e lhe suplicava para que o sepultasse.



O cavaleiro.
Certa vez estava orando com a cabeça fixa na terra e, como é comum à natureza humana, sua mente se distraiu da oração, pensando em outra coisa. Então saltou sobre seus ombros um cavaleiro impetuoso que, golpeando-lhe as costas com suas botas e açoitando seu dorso com um chicote, gritou: “Ei, por que cochilas?” Depois disto, rindo muito, vendo-o desfalecer, lhe perguntou se desejava sua ração de cevada.

A moradia.
Dos dezesseis aos vinte anos, protegeu-se do calor e da chuva em uma pequena cabana levantada com juncos e folhas de figueira entrelaçados. Depois, teve uma pequena cela, que construiu e que permanece até hoje, de quatro pés de largura e cinco de altura, isto é, mais baixa que sua própria estatura e um pouco mais larga do que necessitava seu corpo. Podia ser considerada mais como sepulcro que como habitação.



O santo vivia em grande penitência e
austeridade de costumes.
Gênero de vida.
Cortava seu próprio cabelo uma vez ao ano, no dia de Páscoa; dormiu até sua morte sobre a terra desnuda, sobre uma esteira de juncos. Nunca lavou o tosco saco que vestia, dizendo que era dispensável buscar limpeza na sujeira. Tampouco trocou sua túnica por outra, a menos que a anterior estivesse quase reduzida a farrapos. Tendo aprendido de memória as Sagradas Escrituras, as recitava após as orações e os salmos, como se Deus estivesse ali presente. E como seria muito amplo descrever seu progresso espiritual em suas diversas etapas, momento a momento, resumirei brevemente apresentando o conjunto de sua vida perante os olhos do leitor e logo voltarei à ordem da narrativa.

Alimentos.
Desde os vinte e um anos, se alimentou, durante três anos, com meio sextário de lentilhas umedecidas em água fria, e, os próximos três anos, com pão seco, água e sal. Dos vinte e sete anos aos trinta e cinco anos, seu alimento consistiu em seis onças de pão de cevada e verduras pouco cozidas, sem azeite. Porém, quando sentiu que seus olhos se obscureciam e que todo o seu corpo queimado pelo sol se enrugava coberto por uma crosta áspera como cascalho, acrescentou azeite ao alimento e, até os sessenta e três anos, seguiu praticando este regime de abstinência, não provando absolutamente nada mais, nem frutas, nem legumes, nem qualquer outra coisa. Então, vendo-se fatigado no corpo e pensando que se aproximava a morte, desde os sessenta e quatro anos até os oitenta, se absteve novamente de pão, impulsionado por um incrível fervor de espírito, próprio de quem se inicia no serviço do Senhor, numa época em que os demais resolveram viver menos austeramente. Como alimento e bebida, fazia uma sopa de farinha e verduras trituradas, que pesava apenas cinco onças. Cumprindo esta regra de vida, nunca rompeu o jejum antes do pôr do sol, nem sequer nos dias de festa ou quando se encontrava gravemente doente. Porém, já faz hora de retornarmos ao relato normal.


A vida eremítica do santo atrai novas vocações.
Como sucedia naquela época, em redor de um eremita conviviam outros monges para fazer vida comum. Nasceu assim o primeiro convento palestino.

A fama de sua santidade e os dotes de taumaturgo atraíram-lhe sempre mais numerosos discípulos, e Hilarião, para subtrair-se à não obstante afetuosa presença de tantos devotos, recorreu a uma verdadeira e própria fuga, em direção à Líbia. Depois de percorrer distâncias, aportou na Sicília.

Mas também aí sua presença não passou despercebida. Subiu então a península itálica e encontrou refúgio na Dalmácia. Daí retomou o caminho do sul e sua última etapa foi a ilha de Chipre, onde viveu os últimos cinco anos, visitado de tempos em tempos por seu fiel discípulo Hesíquio.


Hilarião vai para o Egito (narrativa de São Jerônimo)
“Que outros admirem os milagres e portentos que fez; que admirem sua incrível abstinência, ciência, humildade; quanto a mim nada me assombra tanto como que haja podido pisotear a glória e a honra. A ele acudiam bispos, presbíteros, grupos de clérigos e monges, também nobres damas cristãs – terrível tentação – e, de um ou outro lugar das cidades e do campo, as pessoas de condição humilde, bem como homens poderosos e altos magistrados, para receber pão ou azeite bentos. Porém ele não pensava em nada além da solidão, ao ponto de que um dia decidir partir e, fazendo uso de um asno – já que estava muito consumido pelos jejuns, mal podendo caminhar – tentou pôr-se a caminho. Quando se soube disso, como se houvesse anunciado no Palestina uma calamidade ou luto público, se congregaram mais de dez mil homens de diversas idades e sexos para retê-lo. Ele permanecia inflexível ante as súplicas e, removendo a areia com seu báculo, lhes disse: “Não posso mentir ao meu Senhor”. Não posso ver as Igrejas destruídas, os altares de Cristo pisoteados, o sangue dos meus filhos”. Todos os presentes compreenderam que revelara um segredo que não queria manifestar. Contudo, o vigiavam para que não partisse. Então, chamando a todos por testemunhas, afirmou publicamente que não comeria nem beberia nada se não o deixassem partir. Depois de sete dias de abstinência, finalmente foi liberado e, deixando saudades a muitos, partiu. Chegou a Betélia com uma multidão de acompanhantes. “Ali convenceu ao povo que regressaria e elegeu uns quarenta monges que, levando algumas provisões, puderam segui-lo adiante”.

Morte de Hilarião.  (narrativa de São Jerônimo)
Já ia se esfriando o calor do seu peito e não caía nada nele exceto a lucidez da alma. Com os olhos abertos, dizia: “Graça, que temes? Graça, alma minha, por que duvidas? Durante quase setenta anos serviste a Cristo e agora temes a morte?”. Com estas palavras, exalou seu último suspiro. Imediatamente foi enterrado e assim, na cidade, foi anunciada primeiramente sua sepultura e depois sua morte.

Traslado para a Palestina.  (narrativa de São Jerônimo)
Pouco depois do enterro, Hesíquio, que estava na Palestina, partiu para o Chipre. Fingiu querer permanecer nesse mesmo jardim para dissipar toda suspeita dos habitantes do lugar, que montavam guarda cuidadosamente. Assim, após dez meses, com grande perigo para sua vida, conseguiu retirar o corpo de Hilarião e o levou para Maiuma, acompanhado por todos os monges e multidões que vieram das cidades, e o sepultou na sua antiga cela. Tinha a túnica, o capuz e o manto intactos, bem como todo o corpo, que parecia ainda estar vivo, e exalava tão fragrante perfume que se podia crer ter sido banhado em unguentos.

O culto do santo. (narrativa de São Jerônimo)
Chegando ao final deste livro, creio que não posso calar a devoção de Constança, aquela santíssima mulher: logo que chegou a notícia de que o corpo de Hilarião se encontrava na Palestina, morreu repentinamente, atestando, também, com sua morte, seu verdadeiro amor pelo servo de Deus. Tinha o costume de passar a noite velando em seu sepulcro e, como se estivesse ali presente, pedia a ele para que a ajudasse através de sua intercessão. Ainda hoje se pode ver a grande contenda que existe entre os palestinos e os cipriotas, uns porque têm o corpo de Hilarião, os outros porque têm seu espírito. Contudo, em ambos os lugares ocorrem diariamente grandes milagres, sobretudo no horto de Chipre, talvez porque ele amou mais esse lugar.


A fama de santidade que durou gerações e varou os séculos.
Os cruzados, séculos depois, encontraram em Gaza sempre viva a devoção a este santo eremita, testemunhada por uma igreja a ele dedicada, junto da qual eles construíram sua fortaleza.

Parece que as relíquias do santo não tiveram estável morada na pátria, em Gaza, pois que, segundo uma tradição, teriam sido novamente furtadas e levadas para a França, para Duraval, no tempo de Carlos Magno.

Este mosteiro cristão era um dos maiores no Oriente Médio. O mais antigo edifício, que data do século IV, é atribuído a Santo Hilarião, um nativo da região de Gaza e o pai do monaquismo palestino. Abandonado após um terremoto no século VII e descoberto por arqueólogos locais em 1999, o lugar está no meio de olivais e habitações da cidade adjacente.



Narrativa de alguns dos muitos milagres que fez em vida: 

A mulher sem filhos.
 Já estava há vinte e dois anos no deserto e sua fama era conhecida por todos, eis que difundida por todas as cidades da Palestina. Uma mulher de Eleuterópolis, a quem o marido desprezava em razão da sua esterilidade (durante quinze anos de matrimônio não foi capaz de produzir frutos), foi a primeira que se atreveu a apresentar-se diante de Hilarião e - sem que ele pudesse imaginar algo semelhante - repentinamente se atirou aos seus pés e lhe disse: “Perdoa o meu atrevimento, mas considera a minha necessidade. Por que afastas de mim os teus olhos? Por que foges de quem te suplica? Não me vejas como uma mulher, mas como uma aflita. O meu sexo gerou o Salvador; não são os sadios que precisam de médico, mas os doentes”.
Finalmente, Hilarião lhe deu atenção – depois de tanto tempo sem ver mulher – e lhe perguntou o motivo da sua vinda e das suas lágrimas. Uma vez informando, levantou os olhos para o céu e a exortou a ter confiança e, em lágrimas, a despediu. Após um ano, teve um filho.

Atende ao pedido de uma mãe e cura os três filhos dela
O início de seus milagres se fez ainda mais célebre quando ocorreu outro ainda maior. Quando Aristenete, mulher de Helpídio (que depois foi prefeito do pretório), muito conhecida entre os seus e mais ainda entre os cristãos, regressava com seu marido e seus três filhos após ter visitado Santo Antão e se deteve em Gaza por causa de uma enfermidade que os havia atacado.
Ali, seja pelo ar contaminado, seja – como depois de manifestou – para a glória do servo de Deus, Hilarião, todos foram atacados ao mesmo tempo por febres altas e os médicos já não esperavam recuperação.
 A mãe jazia, gemendo em alta voz, e ia de um filho a outro, semelhantes já a cadáveres, sem saber a qual chorar primeiro. Ouvindo dizer que no deserto próximo havia um monge, deixando de lado a sua fama de senhora respeitável – considerando apenas seu instinto materno – para lá se dirigiu acompanhada de donzelas e eunucos. Seu marido, a duras penas, conseguiu que efetuasse a viagem montada sobre um asno.
Quando chegou à presença de Hilarião, lhe disse: “Em nome de Jesus, nosso misericordiosíssimo Deus, te conjuro por sua cruz e por seu sangue que me devolvas os meus três filhos e assim seja glorificado o nome do Senhor Salvador nesta cidade pagã” Ele resistia, dizendo que nunca saíra de sua cela e que não estava habituado a entrar nas cidades, nem sequer em uma aldeia.
Ela, prostrada na terra, dizia várias vezes: “Hilarião, servo de Cristo, devolva-me os meus filhos. O venerável Antão os teve em seus braços no Egito; salvai-os tu na Síria”. Todos os presentes choravam e ele também, negando, chorou. “Que mais posso dizer?”. A mulher não partiu enquanto ele não prometesse que entraria em Gaza após o pôr-do-sol.
Quando chegou ali, fazendo o sinal da cruz sobre o leito de cada um e sobre os membros acometidos pela febre, invocou o nome de Jesus e – coisa admirável! – de imediato, o suor dos enfermos começou a brotar de três fontes.
Então, nessa mesma hora, se alimentaram e, reconhecendo à sua mãe que chorava, beijaram as mãos do santo, bendizendo a Deus. Quando isto aconteceu e a notícia se espalhou por todos os cantos, se dirigiram a ele multidões da Síria e do Egito, de modo que muitos passaram a crer em Cristo e abraçaram a vida monástica. Todavia, não existia monastérios na Palestina e ninguém na Síria havia conhecido um monge antes de Hilarião. Ele foi o fundador e o primeiro mestre deste estilo de vida e desta ascese naquela província. O Senhor Jesus tinha no Egito o ancião Antão e, na Palestina, o jovem Hilarião.


Um cego vê.
 Facídia é um bairro de Rhinocorura, cidade do Egito. Dali levaram ao beato Hilarião uma mulher cega desde os dez anos de idade. Foi-lhe apresentada por vários irmãos, muitos dos quais eram monges. Ela lhe disse que havia gasto todos os seus bens com médicos. Então ele lhe disse: “Se tivesses dado aos pobres o que perdeste com médicos, Jesus, o verdadeiro médico, te teria curado”. Como ela gritava pedindo misericórdia, ele tocou seus olhos com saliva e, em seguida, a exemplo do Salvador, ocorreu o milagre da cura.


Orión - é exorcizado.
 Tampouco podemos nos calar no que se refere a Orión, homem importante e rico da cidade de Aila, situada junto ao mar Vermelho. Estava possuído por uma legião de demônios e foi conduzido a Hilarião.
Suas mãos, joelhos, quadris e pés estavam acorrentados; seus olhos, torcidos e ameaçadores, expressavam a crueldade do seu furor. Enquanto o santo caminhava com os irmãos e lhes interpretava certa passagem da Escritura, aquele escapou das mãos que o sujeitavam e, tomando Hilarião pelas costas, o levantou às alturas. Um grande clamor brotou de todos, pois temeram que destroçasse seus membros debilitados pelo jejum.
O santo, sorrindo, disse: “Fiquem tranquilos; deixem-me na arena com o meu adversário”. E, assim, passando a mão sobre os seus ombros, tocou a cabeça de Orión e, tomando-o pelos cabelos, o trouxe até seus pés, retendo-o à sua frente, com ambas as mãos, e pisando os pés daquele com os seus pés. E repetia: “Retorce-te!”.
E Orión gemeu e, ajoelhando-se, tocou o solo com sua cabeça. Hilarião disse: “Senhor Jesus: liberta este desgraçado, livra este cativo; assim como vences a um, podes vencer a muitos”. E ocorreu algo inaudito: da boca do homem saíram diversas vozes, como o clamor confuso de um povo. Uma vez curado, também este, pouco tempo depois, foi ao monastério com sua mulher e seus filhos, dar graças e levar muitos presentes.
O santo, então, lhe disse: "Não leste sobre como sofreram Giezei e Simão, um por haver recebido e o outro por haver oferecido dinheiro? Aquele queria vender a graça do Espírito Santo; este outro, queria comprá-la”.
E como Orión, chorando, insistia: “Toma e dá aos pobres”, Hilarião respondeu: “Tu podes distribuir teus bens melhor que eu, pois percorres as cidades e conheces os pobres. Eu, que abandonei o que era meu, por que vou desejar o alheio? Para muitos, o nome dos pobres é um ocasião de avareza; a misericórdia, ao contrário, não conhece artifícios. Ninguém dá melhor que aquele que não reserva nada para si”. Orión, entristecido, jazia em terra. Hilarião, então, lhe disse: “Filho, não te entristeças! O que faço por mim, faço também por ti. Se aceitasse esses presentes, ofenderia a Deus e a legião de demônios voltaria para ti”.


Itálico, criador de cavalos - vence feiticeiro com ajuda de Santo Hilarião.
 Itálico, cidadão cristão da mesma localidade, criava cavalos para o circo, competindo com um magistrado romano de Gaza, que era adorador do ídolo Marnas. Nas cidades romanas se conservava, desde os tempos de Rômulo, a recordação do rapto das Sabinas, que fôra bem sucedido. Os cavaleiros, dirigindo carroças com quatro cavalos, percorrem sete vezes o circuito em honra de Conso, o deus dos conselhos. A vitória consiste em eliminar os cavalos do adversário.
 Como seu rival tinha um feiticeiro que, com seus encantamentos demoníacos, freava os cavalos daquele e estimulava a correr seus próprios cavalos, Itálico foi ver Hilarião e lhe suplicou não tanto para prejudicar ao adversário, mas para proteger seus animais.
 Ao venerável ancião não lhe pareceu razoável orar por um motivo tão fútil. Sorriu e lhe disse: “Por que não dás aos pobres o preço da venda dos teus cavalos, para a salvação da tua alma?”. Ele respondeu que se tratava de um emprego público que realizava não por vontade própria, mas por obrigação.
Como cristão, não podia empregar artes mágicas, mas podia pedir ajuda a um servo de Cristo, especialmente contra os habitantes de Gaza, inimigos de Deus, que insultavam não tanto a ele como a Igreja de Cristo. A pedido dos irmãos que se encontravam presentes, Hilarião ordenou que enchessem de água o vaso de terracota em que ele costumava beber e o dessem àquele homem. Itálico o levou e roçou com ele o estábulo, os cavalos e seus cocheiros, o coche e as celas do recinto. Era extraordinária a expectativa do povo. O adversário ironizava, satirizando esse gesto, mas os partidários de Itálico exultavam, prometendo uma vitória segura. Dado o sinal, uns correram rapidamente enquanto que outros [, os do magistrado,] foram impedidos. Sob o coche daqueles, as rodas ardiam; estes, por outro lado, viam apenas o afastamento daqueles, que se adiantavam como se estivessem voando. Então se elevou um grandiosíssimo clamor entre a multidão, ao ponto que também os pagãos gritaram: “Marnas foi vencido por Cristo”.
Os adversários de Hilarião, furiosos, pediram para que este, como feiticeiro dos cristãos, fosse levado ao suplício. A vitória indiscutível daqueles jogos de circo e os outros feitos precedentes foram ocasião para que um grande número de pagãos abraçassem a fé.


Devido à sua vida de oração, grande penitência e ascese, São Hilarião
tinha grande autoridade ante a presença e ação de demônios. 


Uma jovem libertada de um encantamento mágico.
 Um jovem do mesmo mercado de Gaza, amava perdidamente uma virgem de Deus que morava ali perto. Não havia tido êxito nem com suas frequentes bajulações, nem com seus gestos e assobios, nem outras coisas semelhantes que podem ser o começo para a morte da virgindade. Então foi a Mênfis para revelar sua ferida de amor, regressar e ver a donzela caída por artes mágicas.
 Depois de um ano, instruído pelos sacerdotes de Esculápio - que não curam as almas mas as perdem - retornou com o propósito de estuprá-la, como havia antecipado em sua imaginação. Enterrou sob o umbral da casa da donzela certas palavras e figuras estranhas gravadas sobre uma mina de bronze do Chipre. De repente, a virgem enlouqueceu, arrancou o véu, soltou os cabelos e, rangendo os dentes, chamava o jovem aos gritos. A veemência do amor havia se convertido em loucura. Então foi levada por seus pais ao monastério e recomendada ao ancião.
O demônio uivava e declarava: “Sofri violência! Fui trazido aqui contra a minha vontade! Com meus sonhos enganei os homens em Mênfis! Quantas cruzes, quantos tormentos estou sofrendo! Obrigas-me a sair, porém estou preso sob o umbral! Não posso sair se não me soltar o jovem que me retém!”. Então o ancião lhe disse: “Grande é a tua força por te reterdes em troca de um cordão de uma mina! Diz-me: por que te atreveste a entrar em uma donzela consagrada a Deus?”. Respondeu aquele: “Para conservá-la virgem”. [Disse Hilarião:] “Irás conservá-la? Tu, inimigo da castidade? Por que não entraste naquele que te enviou?”.
Porém, ele respondeu: “Por que iria entrar nele, se ele já tem um colega meu, o demônio do amor?”. O santo quis purificar a virgem antes de mandar buscar o jovem e seus objetos mágicos. Assim não pareceria que o demônio só se retiraria porque os encantamentos foram pagos ou porque se dera crédito às palavras do demônio, justamente ele que assegurava que os demônios são mentirosos e astutos em fingimento. Por isso, depois de devolver a saúde à virgem, a repreendeu asperamente por ter feito algo que permitiu ao demônio entrar nela.


Animais curados.
Porém, não basta falar dos homens. Todos os dias levavam até ele animais furiosos. Por exemplo: um dia levaram-lhe um camelo de enorme tamanho, conduzido por mais de trinta homens e amarrado com fortes cordas, em meio a grandes gemidos. Já havia pisoteado a muitos. Seus olhos estavam cheios de sangue, saía espuma da sua boca e movia a língua inchada. Porém, o que atemorizava mais era o barulho dos seus ferozes rugidos.
 O ancião ordenou que o desamarrassem. Imediatamente, tanto os que haviam trazido [o animal], como os que estavam com o ancião, fugiram, sem exceção, para todas as direções. Então ele avançou ao encontro do animal e lhe disse: “Diabo, não me assustas com esse teu imenso corpo. Em uma raposa ou em um camelo, és sempre o mesmo”.
E assim se mantinha firme, com a mão estendida. Quando a besta, furiosa, se cercou dele como que para devorá-lo, subitamente desaprumou e caiu com a cabeça sobre a terra. Todos os presentes se maravilharam ao ver tão repentina mansidão, após tanta ferocidade.
O ancião os ensinava que, para prejudicar os homens, o diabo atacava também os animais domésticos; que nutria um ódio tão grande contra os homens que queria fazê-los perecer, não apenas eles, como também suas posses. Para ilustrar isto, propunha o exemplo de Jó: antes de obter a permissão para tentar [o homem], o diabo havia destruído todos os seus bens. E a ninguém devia perturbar o fato de que, por ordem do Senhor, dois mil porcos foram aniquilados pelos demônios. De outro modo, os que presenciaram esse fato não teriam acreditado que tal multidão de demônios pudesse sair de um só homem, se não vissem com seus próprios olhos, semelhante quantidade de porcos precipitando-se ao mar, ao mesmo tempo.


Oração

Senhor nosso Deus, que destes a Santo Hilarião a graça de viver uma vida heroica de contemplação e oração, concedei-nos, por sua intercessão, que, renunciando a nós mesmos, Vos amemos sempre sobre todas as coisas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.