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quarta-feira, 29 de abril de 2015

SANTA CATARINA TEKAKWITHA, Virgem (O "Lírio dos Mohawks", a primeira índia canonizada)





"Um exemplo da liberalidade de Deus para com aqueles que não põem obstáculos à graça divina. Sua vida prova como a graça operou maravilhas na floresta norte-americana”.

“Kateri, eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", disse pausadamente o missionário, enquanto derramava a água purificadora sobre a cabeça de uma jovem índia norte- americana de 19 anos, até então chamada Tekakwitha. Num gesto de gratidão e admiração, ela cobriu a face com as mãos. Assim foi ela recebida na Santa Igreja Católica, com o nome de Kateri ou Catarina.

Foi uma cerimônia singela, como singela era a alma da recém-batizada. Contudo, o oficiante, um missionário jesuíta francês, emocionou-se. "Foi o momento mais feliz de meu ministério", recordaria ele anos mais tarde.

O que encheu tanto de admiração esse sacerdote? O que transformou essa filha de uma feroz nação indígena numa brilhante estrela do firmamento da Igreja?


A resposta se resume nesta única palavra: graça.

Catarina é um exemplo da liberalidade de Deus para com aqueles que não põem obstáculos à graça divina. Sua vida prova como a graça operou maravilhas na floresta norte-americana antes mesmo de ali se firmar a influência da civilização europeia.



À procura do belo, numa infância atribulada

Ela nasceu em abril de 1856, num aldeamento localizado no atual Estado de Nova York. Seu pai era um chefe dos Mohawk, um dos cinco ramos em que então se dividiam os Iroqueses, hostis à presença de missionários na região. Sua mãe pertencia a uma tribo mais pacífica e era cristã, mas, sendo prisioneira de guerra desde a infância, via-se reduzida a praticar a fé no isolamento e em segredo. Mesmo nessas condições adversas, ela nunca esqueceu as verdades fundamentais do Catolicismo e plantou as sementes da fé na alma de sua filha.

Aos quatro anos Tekakwitha perdeu seus pais e seu irmão menor, vítimas de uma epidemia de varíola. Ela escapou com vida, mas enfraquecida, com cicatrizes e quase cega. Muito pior do que isso, a morte da mãe significava a perda do vínculo vivo com o Cristianismo.

Órfã, ela passou a viver com parentes, recuperando uma relativa boa saúde. Contudo, a vida na tribo em nada favorecia a prática da virtude. Mais do que as demais nações iroquesas, os Mohawk mostravam-se ferozes na guerra e frequentemente cruéis na vitória. O canibalismo não lhes era desconhecido, e os costumes rudimentares e abomináveis se agravavam pela prática de cultos demoníacos.

Apesar de todas essas circunstâncias adversas, os ensinamentos e o exemplo da falecida mãe fizeram germinar na suave e silenciosa alma de Tekakwitha uma certa retidão e um anelo de ordem e beleza. Fugindo das orgias pagãs nos grandes festivais, ela se recolhia à solidão. Facilmente se encantava com as belezas da natureza, por exemplo, com as lindas ninfeias brancas que flutuavam na superfície da água. Eles simbolizavam algo que ela, embora sem saber explicitar, admirava e anelava no mais profundo da alma.

Primeiro encontro com os missionários

Aos 11 anos, um acontecimento a marcou profundamente. Três sacerdotes jesuítas chegaram à aldeia e foram hospedados na habitação do chefe, tutor de Tekakwitha. Segundo a lei da hospitalidade em vigor entre os índios, os viajantes deviam ser bem recebidos, mesmo persistindo as hostilidades entre franceses e iroqueses; e os missionários, por sua vez, implicitamente se comprometiam a não evangelizar ninguém da tribo.

A menina encontrou-se, assim, na feliz circunstância de servir a refeição aos hóspedes. Nunca antes ela tinha visto um europeu. Timidamente, ofereceu a um dos três uma posta de carne de cachorro ainda gotejante de sangue... Ele aceitou e disse-lhe com bondade: "Muito obrigado, minha filha, e que Deus te abençoe!" Os três sacerdotes fizeram o sinal-da-cruz e as orações de costume, antes de iniciar a refeição.

Nos dias seguintes - discretamente, para não incorrer na ira de seus parentes - ela observava admirada a dignidade desses Ministros de Deus no trabalho, na oração e na conversa. Desejava muito tocar o crucifixo que eles levavam nas visitas aos doentes. Em segredo, tentava fazer o sinal-da-cruz e do fundo de sua alma brotava uma ardente prece: "Ó Deus, ajudai-me a Vos conhecer e amar!"



Primeira índia a fazer voto de virgindade

O tempo passava, e essa graça frutificava na alma da inocente jovem. Sua humilde existência era marcada pelo serviço dócil à família que lhe deu acolhimento: trabalhos manuais, nos quais ela revelava excelente habilidade, cuidado dos doentes e idosos da aldeia. As crianças especialmente eram atraídas por sua afetuosa personalidade.

À sua maneira, ela dispensava tanto tempo quanto possível à contemplação. Sua alma tinha sede de Deus, e essa sede não fez senão crescer ao longo de sua curta vida.

Assim chegou Catarina aos 17 anos de idade. Segundo as tradições dos iroqueses, para ela só havia um caminho, o de "casar-se" com algum guerreiro da tribo. Competia aos parentes a escolha do noivo, problema, aliás, fácil de resolver em se tratando da família de um cacique.

Organizou-se para isto uma festa, para a qual foram convidados um valente guerreiro e seus familiares. Tekakwitha ficou encarregada de preparar os pratos de costume e, sem desconfiar de nada, aquiesceu em vestir-se com os festivos trajes e ornamentos próprios à sua categoria de filha de cacique. Quando viu chegarem os convidados, ela ficou um tanto inquieta, mas só percebeu inteiramente o jogo na hora de servir ao jovem a refeição. Segundo o costume iroquês, o casamento se efetuava pelo simples fato de ela passar a "seu noivo" o "prato tradicional" na presença de ambas as famílias!

Demonstrando uma firmeza de resolução geralmente oculta sob sua costumeira suavidade, lançou ao chão o "tradicional prato" e fugiu. Retornando horas mais tarde, depois da apressada partida dos hóspedes, ela teve de suportar a fúria dos parentes.

Durante cerca de um ano, até esgotar- se sua saúde, ela foi tratada como escrava da família, que pretendia pela força quebrar sua vontade. Calmamente, ela deixou passar a tempestade, sofrendo em paz.

Que se passou no coração dessa adolescente - que não era batizada e nunca ouvira falar de virgindade - capaz de levá-la a recusar com tanta decisão o que hoje se chama um bom partido? A pergunta fica sem resposta. Pode-se, porém, conjeturar algo a partir do fato de que poucos anos depois ela, já cristã, foi a primeira índia a fazer voto formal de virgindade.

A graça do Batismo

Com jeito, os missionários jesuítas conseguiram estender seu trabalho de evangelização até mesmo aos terríveis iroqueses. A instrução catequética era dada a pequenos grupos na aldeia, mas a futura Beata estava proibida de frequentá-la. Sempre desejosa de participar, ela ouvia os hinos à distância e secretamente examinava as pinturas dos missionários, depois de encerradas as pregações ao ar livre. Seu isolamento era penoso, mas finalmente Deus interveio.

Certo dia, em suas rondas pela aldeia, um missionário passou diante da habitação do tio de Tekakwitha. Rezando em silêncio, ele pretendia continuar seu caminho, mas um impulso irresistível o fez entrar. Junto com algumas mulheres de mais idade, ela estava calmamente trabalhando na obscuridade. Para ela, a entrada do sacerdote representou quase como uma visão, e foi uma oportunidade enviada por Deus. Abandonando sua habitual reserva, ela expôs-lhe suas lutas para praticar as virtudes e seus desejos de ser batizada.

Profundamente tocado por ver a ação da graça nessa alma, o missionário se dispôs a dar-lhe assistência, mas advertiu-a das probabilidades de uma perseguição. Com toda sinceridade, a valente jovem pôde responder que já conhecia a perseguição e estava pronta para o sacrifício. Ele então providenciou sua instrução formal.

Surpreendentemente, sua família não se opôs. Seu rápido progresso em assimilar as verdades da fé causou admiração aos missionários jesuítas. Pouco depois, em 18 de abril de 1676, ela recebeu a inapreciável graça do Batismo.


Novas provações

Foi uma imensa alegria, mas não o fim das provações.

Na aldeia ainda de maioria pagã muitos tratavam cruelmente essa moça extraordinária e fervorosa cristã. Preocupados com sua segurança, os jesuítas prepararam sua fuga para uma aldeia católica em Caughnawaga, perto de Montreal. Apesar da feroz perseguição de seu tutor, Catarina lá chegou levando nada mais que um cobertor e uma carta para o padre superior dessa aldeia: "Catarina Tekakwitha vai agora juntar-se à sua comunidade. Dê-lhe guia e direção espiritual e o senhor logo perceberá que joia nós lhe enviamos. Sua alma está muito próxima de Deus Nosso Senhor..."

Na aldeia católica ela estava finalmente livre para praticar sua fé, assistir à Missa diária e, enfim, expandir seus desejos de perfeição.

Mas aqui também não lhe faltaram sofrimentos. Algumas pessoas, não tomando em conta a pureza de vida e a santidade dessa heroica jovem, sugeriram- lhe ásperas penitências em reparação por pecados passados. Ela quase perdeu totalmente sua frágil saúde com as severas austeridades às quais se submeteu, afligindo-se por pecados que nunca lhe tinham sequer passado pela cabeça.

Outras pessoas, mal orientadas, murmuravam a respeito de suas ausências durante as horas de recreação. Uma nuvem de suspeita desceu sobre ela, estendendo-se ao sacerdote que dirigia sua alma. Uma tosca cruz gravada num tronco de árvore, e o espaço muito pisado em torno dela, serviram de eloquentes testemunhas para justificar suas ausências e restaurar seu bom nome. Esta provação, contudo, partida da comunidade cristã, foi para ela especialmente dolorosa.

Partida para o Céu

Aos poucos, os habitantes da aldeia começaram a perceber sua santidade e a considerá-la com respeito e admiração. "Catarina só pode ser encontrada em seu caminho para a igreja, para os pobres e para os campos", diziam eles. Até mesmo os franceses habitantes de uma aldeia próxima não escondiam sua admiração por aquela "garota índia que vive como uma freira", assim a qualificavam.

Embora reservada, Catarina se apresentava sempre bem disposta e alegre com todos, e diligente no serviço aos idosos e doentes.

As tribulações e as austeridades de sua vida em breve acabaram com sua saúde. Com alegria sobrenatural sentiu aproximar-se o seu fim. Durante a Quaresma de 1680, alguém lhe perguntou o que ofereceria a Jesus. "Eu entreguei minha alma a Jesus no Santíssimo Sacramento, e meu corpo a Jesus na Cruz", confidenciou ela com candura.

Reverentemente e sem ostentação, ela preparou-se para receber os últimos sacramentos. Tendo distribuído suas poucas posses aos pobres, ela aceitou com gratidão o presente de um novo traje para receber Nosso Senhor Sacramentado com o maior respeito. Não apenas os jovens, mas a aldeia inteira chorava essa inevitável perda.

Sentindo que a vida a ia abandonando, disse ela tranquilamente: "Jesus, eu Vos amo". Sempre que repetia o doce nome de Jesus, as marcas de sofrimento em sua face mudavam para uma expressão de alegria. Assim entregou ela a Deus sua casta alma no dia 17 de abril de 1680, aos 24 anos de idade.

Milagre comovente

Várias pessoas presentes testemunharam um notável milagre que teve lugar poucos minutos depois da morte de Catarina. Sua face, até então marcada pelas cicatrizes da doença e pelos sofrimentos, tornou-se suave, de frescor infantil e incrivelmente bela. A ponta de um sorriso iluminou seu radiante semblante. Todos os circunstantes se mostravam surpresos. Até mesmo os duros guerreiros índios comoveram- se até as lágrimas à vista deste lindo fato.

Com este semblante milagroso, desceu à sepultura. Quebrando os costumes indígenas, ela foi enterrada em um caixão e, assim, seus preciosos restos mortais puderam ser facilmente preservados.

Em 22 de junho de 1980, o Papa João Paulo II a proclamou Bem-Aventurada. É a primeira índia norte-americana a receber essa glória. Em 18 de fevereiro de 2012, o Papa Bento XVI anunciou na Basílica de São Pedro a sua canonização em 21 de outubro de 2012.

(Elizabeth MacDonald; Revista Arautos do Evangelho, Fev/2005, n. 38, p. 38 à 41)

terça-feira, 28 de abril de 2015

SANTO ANTÔNIO MARIA PUCCI, Presbítero Servita e Fundador.


No Batismo recebeu o nome de Eustáquio Pucci e nasceu em Pogiolo de Vernio, na região de Florença, Itália, no dia 16 de abril de 1819. De família católica praticante, teve seis irmãos e enfrentou a resistência destes para seguir a vida de religioso.

Entretanto, aos dezoito anos, ele ingressou no convento dos Servos de Maria da Santíssima Anunciação de Florença, apoiado por todos os familiares, onde mudou o nome para Antonio Maria. Em 1843 fez a profissão religiosa e depois de alguns meses foi ordenado sacerdote. Quatro anos depois foi enviado como vice-pároco para a nova paróquia de santo André, em Viarégio, confiada aos servitas e três anos depois se tornou o pároco, função que executou, durante quarenta e oito anos, até morrer.

Dedicou-se com zelo heroico à cura espiritual e material dos seus fiéis, que o chamavam afetuosamente de "o curador". Padre Antonio Maria enfrentou duas epidemias na cidade, tratando pessoalmente dos mais doentes, pois tinha o dom da cura e do conselho. Os paroquianos respondiam com afeto a esta completa doação.

Ao mesmo tempo, durante vinte e quatro anos, foi o superior do seu convento em Viarégio, e por sete anos superior da Província toscana dos Servos de Maria. Antecipou a forma organizadora da Ação Católica, instituindo as Associações conforme a categoria dos seus paroquianos. Para os jovens: a Companhia de São Luiz e a congregação da Doutrina Cristã; para os homens, aperfeiçoou a já existente: Alma Companhia da Santíssima Maria das Dores; para as mulheres: a Congregação das Mães Cristãs.

Em 1853 fundou a Congregação das Irmãs Auxiliares Servas de Maria direcionadas para a educação dos adolescentes, e criou o primeiro orfanato mariano para as crianças doentes e pobres. Alem disto, introduziu outras organizações já existentes, todas dedicadas às obras de caridade que atendiam os velhos, crianças, doentes e pobres.

Depois de socorrer um doente, numa noite fria e de tempestade, contraiu uma pneumonia fulminante, que o levou à morte em 12 de janeiro de 1892. Foi sepultado no cemitério da congregação, onde permaneceu até 1920, intercedendo e alcançando graças para seus devotos. As relíquias do "curador" padre Antonio Maria Pucci foram trasladadas, em 1920, para a igreja de Santo André, onde ele havia desenvolvido todo o seu ministério sacerdotal.
O papa João XXIII celebrou sua canonização em 1962, e elevou a igreja, que guarda a sua memória, a condição de basílica. Na cerimônia solene ele declarou Santo Antonio Maria Pucci "um exemplo fúlgido de vida religiosa e aplicada à pastoral das almas".

(Fonte: Portal Paulinas) 

domingo, 26 de abril de 2015

SÃO PEDRO ARMENGOL, Mercedário. Grande pecador convertido, modelo de confiança em Maria.


São Pedro Armengol é modelo da confiança. Pecador, arrependeu-se; confiou em Nossa Senhora e foi perdoado.

Nasceu São Pedro Armengol em meados do século XIII, na Catalunha, sendo então o mais novo rebento da ilustre família dos Condes de Urgel. Seus pais eram minto chegados ao rei de Aragão, o soberano daquela região ibérica, frequentando com liberdade a corte.

Nessa atmosfera de alta nobreza, o menino Pedro recebeu esmerada educação. Mas, à medida que foi crescendo, ao invés de permanecer nos bons ambientes e de se deixar influenciar pelos ditames e pela moral da Igreja Católica, foi decaindo nos costumes e na piedade. Passou a conviver com más companhias e se desviou das sendas do bem.

Em vão, os pais fizeram todo o possível para retê-lo. Pedro se desclassificou a tal ponto que abandonou a casa paterna, embrenhou-se no meio da última ralé de bandidos, de sem-vergonhas, e ali se perdeu completamente. Com o tempo, chegou a se tornar chefe de uma quadrilha de salteadores de estrada. Ladrão perigoso, assassino e fugitivo, se a polícia real o apanhasse, certamente seria morto.


Fulminante golpe da graça

Aconteceu porém que, estando ele um dia a vagar pelo mato com seus companheiros de perdição, ouviu ao longe um toque de clarim, típico de gente da corte. Imaginando os preciosos despojos que aquele séquito lhe proporcionaria, Pedro resolve ataca-lo com sua quadrilha.

Mal os dois grupos se encontram, Pedro sai em busca do chefe do destacamento e está prestes a lhe desferir um golpe quando... Percebe tratar-se de seu próprio pai.

Como que tocado por fulminante raio, o bandido permanece imóvel, detendo no ar seu braço armado. Ele, e não o pai. Recebera o golpe fatal: um golpe da graça divina. Por certo, naquele instante alguém, em algum lugar, devia estar rezando por ele a Nossa Senhora…

A vista da nobreza e da respeitabilidade de seu pai deu a ele a ideia de como tinha caído, de como se tornara a escória da sociedade e, por isso mesmo, indigno do ambiente no qual vivia sua família. “Que diferença — pensou ele. Meu pai e minha mãe numa situação honrosa, e eu, entre bandidos! De pessoa limpa e decente, transformei-me num canalha!”

Essas reflexões de índole humana, sugeridas pela graça, foram acompanhadas de outra: “Pequei contra Deus! Isto é o mais grave, infinitamente mais grave, em tudo o que fiz. Ó Senhor, como é grande a minha maldade!”

Confuso e envergonhado, Pedro teve verdadeira contrição dos pecados cometidos. Como o filho pródigo do Evangelho, lançou-se aos pés do pai e pediu perdão. Acabou sendo agraciado pelo Rei, deixando para sempre a roda de malfeitores no meio dos quais vivera. Depois, com toda a humildade, procurou um religioso mercedário, a quem confessou os crimes que perpetrara e expôs os remorsos que lhe torturavam a alma.

Na Ordem de Nossa Senhora das Mercês

Uma vez absolvido de seus pecados, Pedro solicitou, por misericórdia, que o admitissem como mercedário. Os frades resolveram aceitá-lo, reconhecendo seu profundo e sincero arrependimento.

Os mercedários são membros de uma Ordem religiosa consagrada a Nossa Senhora sob esta linda invocação: Nossa Senhora das Mercês. Mercês são os favores que Nossa Senhora concede aos seus devotos. Tanto valeria dizer, pois, Nossa Senhora da Bondade, Nossa Senhora da Generosidade ou Nossa Senhora dos Presentes...

Era missão dos mercedários trabalhar pela libertação dos cativos que viviam sob o jugo de infiéis. De fato, no tempo de Pedro Armengol, o Mediterrâneo era infestado de piratas maometanos que assaltavam os navios católicos, não apenas para roubar, mas para capturar tripulantes e passageiros a fim de transformá-los em escravos. Assim, o norte da África estava repleto desses cativos, tiranizados pelos bárbaros para o resto de suas vidas.

A situação desses infelizes era física e espiritualmente horrenda, posto praticarem os mouros a poligamia e terem uma péssima moralidade, criando deste modo um ambiente venenoso para seus cativos. Porque, tal o mestre, tal o escravo.

Ora, no intuito de cumprir sua heroica missão, os frades mercedários não só se arriscavam a viver em território maometano, como faziam um voto admirável: por amor às almas, oferecerem-se como reféns, para serem trocados por cativos católicos que estivessem no meio dos mouros. Trata-se de uma das mais elevadas manifestações de dedicação que eu conheço. Um homem pode ser grande herói porque assaltou as muralhas de tal cidade, porque combateu como ninguém, etc. Mas, oferecer-se para correr os riscos da escravidão nos domínios maometanos...


No norte da África

Foi esta, precisamente, a forma de heroísmo abraçada por Pedro Armengol. Convertido, ingressou na Ordem dos Mercedários e se tornou excelente religioso. Passaram-se alguns anos e, certo dia, aconteceu o que tinha de acontecer. O Superior mandou chamá-lo e lhe disse:

— Frei Pedro, o senhor está designado para ir libertar os cativos na África.

- Pois não — respondeu ele sem hesitar, certamente pensando no seu intimo: Eu mereço isso pelos meus pecados.”

Atendendo à voz da obediência. Frei Pedro passou um número de anos no norte da África. Numa arriscada existência.

Quando já se preparava para voltar à Espanha, soube que 137 jovenzinhos cristãos, escravizados, jaziam nas casas de seus senhores expostos à depravação e ao risco de perderem a Fé.

Com religioso desvelo. Frei Pedro procurou os mouros e negociou a libertação daqueles cativos. Os infleis exigiram muito dinheiro. Soma tão avultada só poderia vir da Espanha, o que prolongaria ainda mais o tempo da perigosa escravidão dos jovens católicos.

Sem hesitação, Frei Pedro ofereceu-se como refém no lugar deles, até que lhe fosse enviada da Espanha a quantia necessária para o resgate. Os mouros concordaram, impondo entretanto a seguinte condição:

— Damos a eles um prazo para irem à Espanha, recolherem o dinheiro e no-lo enviarem. Durante esse tempo você fica aqui à nossa disposição. Se o dinheiro não chegar até o dia X, nós o enforcamos.

Pendurado na forca, sem perder a confiança em Nossa Senhora

Nos seus insondáveis desígnios, queria a Providência colocar à prova o ex-salteador de estradas. Esgotara-se o prazo estipulado pelos maometanos. Furiosos, cumpriram a ameaça: enforcaram Frei Armengol e, acreditando-o já morto, abandonaram-no pendente da corda.

Pouco tempo depois chega o navio com o dinheiro do resgate. Problemas de navegação haviam determinado o atraso.

— Onde está o Frei Armengol — perguntaram os emissários. A resposta do chefe mouro foi aterradora:

— Chegaram tarde. Ele está no cadafalso, enforcado há três dias, conforme prometi. Indignados com a crueldade do infiel, os frades quiseram ver o corpo de seu irmão de habito.

Ao chegarem junto ao patíbulo, grande surpresa: Frei Pedro, ainda na forca, estava vivo, embora pálido como um cadáver. (Ele conservaria no rosto, por toda a vida, essa palidez cadavérica: e no pescoço, bem visível,a marca da corda.)

Era um milagre extraordinário!

Por humildade, Pedro Armengol nada disse a respeito desse milagre. De volta à Espanha, porém, o Superior lhe ordenou em nome da santa obediência:

— Frei Pedro, conte o que se passou. Com a mesma humildade, ele simplesmente respondeu:

“Nossa Senhora ficou me sustentando o tempo inteiro”. Quer dizer, ele confiara na Santíssima Virgem, e Ela realizou esse estupendo milagre em favor de seu heroico devoto.

Com autorização dos superiores, Pedro Armengol se retirou para um convento nas montanhas, onde viveu solitário, fazendo penitência por sua vida passada e rezando pelos católicos cativos nas mãos dos mouros. Ali cresceu ele em graça e santidade, até o dia em que “adormeceu no Senhor”. Anos depois, a Santa Sé o canonizou.


Admirável modelo de confiança

Para mim, São Pedro Armegol é o modelo da confiança. Pecador medonho, arrependeu- se, confiou e foi perdoado. Mais ainda: recebeu a vocação religiosa! O bandido fora chamado por Nossa Senhora para abraçar a condição de frade.

Insondável desvelo foi também o atraí-lo para a Ordem das Mercês, onde o antigo ladrão haveria de correr riscos que lhe dariam a oportunidade de, ao mesmo tempo, expiar seus pecados e fazer muito bem ao próximo. Subitamente, mais uma prova: ficar como refém, com perigo de morte. A calma da espera, e o navio que não chega...

Vêm os carrascos para matá-lo, ele caminha sereno e tranquilo para o patíbulo. Suspenso na corda, ele percebe naturalmente estar sendo objeto de um milagre.

Outra espera. O que vai acontecer? Chega o dinheiro do resgate, descem-no da corda. A sua confiança estava preenchida.

Este é o tipo de confiança que todo católico deve ter. Ainda que — segundo as pungentes palavras do salmista — imersos no limo profundo, onde nossos pés não encontram terreno sólido, temos de confiar em Nossa Senhora.

(Santos comentados por Mons. João Clá Dias,

sábado, 25 de abril de 2015

SÃO JOÃO PIAMARTA, Presbítero e Fundador da Família Piamartina.


São João Piamarta nasceu na cidade de Bréscia (Itália), no dia 26 de novembro de 1841. Filho de José e Regina Ferrari.
Ainda em tenra idade, experimentou a dor de perder sua irmã - dois anos mais velha - e, um ano depois, viveu seu pior luto: a morte de sua amada mãe Regina. A morte novamente o golpearia – três anos depois - levando a outro de seus irmãos.
Quando ficou órfão, seu avô materno se encarregou de sua educação.
Talvez essas grandes perdas levaram-no a experimentar desde muito pequeno, uma grande ternura e compaixão para com os órfãos, pobres e desamparados - com quem se sentia identificado e comprometido.
Logo cedo, experimentou o chamado do senhor, entrando no seminário. Assim, em 23 de dezembro de 1865, foi ordenado sacerdote, exercendo seu ministério em diversas paróquias.
Sua condição de pobreza marcou profundamente sua vida em favor dos mais necessitados. Desde o início do seu ministério sacerdotal, distinguiu-se por um grande amor à juventude que vivia nos Oratórios, formando-a através da catequese em várias paróquias, nas quais também os doentes recebiam os seus cuidados espirituais.
O seu contacto com os jovens, sobretudo das categorias mais simples e pobres, convenceu-o de que era necessário interessar-se por todos eles. Dedicava-se com zelo apostólico a formação integral de crianças e jovens. Movido por sua experiência de vida, fundou em 03 de dezembro de 1886, o Instituto Artigianelli, para meninos pobres e abandonados, um instituto artesanal onde, com grandes sacrifícios e muitíssimas dificuldades, preparou centenas de jovens para a vida profissional e cristã.
 Preocupado também em auxiliar os jovens que moravam em regiões rurais, em 11 de novembro de 1895, junto ao Padre Bonsignori, fundou a Escola Agrícola de Remedello: referência e orientação para muitos jovens e famílias camponesas de toda Itália.
Em 1902 foi aprovada a Congregação dos Padres da Sagrada Família de Nazaré, por ele fundada com o objetivo de formar cristãmente as famílias e se dedicar à educação da juventude. Mais tarde, juntamente com a Madre Elisa Baldo, criou o Instituto das Humildes Servas do Senhor. Dedicou-se também à imprensa católica e fundou a Editora Queriniana, contribuindo assim para a difusão do pensamento cristão junto dos jovens e das pessoas cultas.
Falece santamente na Colônia Agrícola, em Remedello, no dia 25 de abril de 1913, mas não antes de deixar um legado de amor e educação para aqueles que continuam a sua grande obra de evangelização e de educação.
No dia 22 de março de 1986, o Papa João Paulo II reconheceu as virtudes do Pe. Piamarta. Ele viveu as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. E as virtudes morais: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança.
O segredo de tanto fervor e atividade apostólica eficaz do Padre Piamarta consistiu na firme fidelidade a um programa de intensa oração e numa inabalável confiança na Providência. Na sua profunda humildade considerava-se um obstáculo para as obras de Deus, mas acreditava que a bênção divina jamais lhe faltaria.
Viveu pobre e morreu pobre, depois de ter ajudado milhares de jovens do mundo do trabalho a tornarem-se protagonistas da própria promoção humana e cristã.
No dia 12 de outubro de 1997, na Praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II proclamou Bem-Aventurado o Padre Piamarta. Com a sua Beatificação, o Papa João Paulo II o doa como pai aos jovens, o indica como exemplo aos sacerdotes e religiosos, o propõe como modelo para os educadores, o apresenta como intercessor das famílias e o oferece como protetor dos trabalhadores.
Na manhã do dia 21 de outubro de 2012, Padre Piamarta declarado Santo pelo Papa Bento XVI, em Roma.
O motivo da canonização, conforme contou o padre Sidney, teria sido um milagre realizado justamente em Fortaleza, no bairro Montese, onde existe a paróquia Nossa Senhora de Nazaré, administrada pelos padres piamartinos. 
Assim nos relata o padre:
“Em 2003, um senhor paroquiano estava engasgado com uma espinha de peixe, que desceu e ficou alojada no intestino, causando uma infecção generalizada”, explicou o padre. "O homem - continua o padre - foi desenganado pelos médicos. Então, uma novena foi rezada invocando o Pe. Piamarta. Foi quando as coisas começaram a melhorar”, disse o religioso. Após quatro anos de investigação, o Vaticano constatou que não havia explicação científica para a cura do enfermo. O milagre de João Piamarta foi reconhecido.
      Na lateral esquerda da igreja de Nossa Senhora de Nazaré, de Fortaleza, existe um memorial-oratório de São João Piamarta, onde estão expostas uma relíquia de primeiro grau ("ex ossibus") do santo e várias relíquias de segundo grau: vestes sacras, crucifixo e outros objetos que pertenceram a ele. Vale a pena a visita. Realmente é um lugar bonito e os devotos de São João Piamarta sentirão grande emoção ao visitar o lugar. 


Uma das raras fotos do santo. 





ORAÇÃO DE SÃO JOÃO PIAMARTA:

Nós vos louvamos, ó Deus misericordioso, porque suscitastes no São João Batista Piamarta um grande exemplo de doação para a educação da juventude à vida cristã; no trabalho, na família e na sociedade. Dai-nos por sua intercessão que possamos viver e agir no vosso amor de Pai; experimentando a força da vossa graça, para, assim, alcançarmos a felicidade eterna AMÉM!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

SANTA MARIA ROSA JÚLIA BILLIART, Virgem e Fundadora


Santa Júlia Billiart nasceu em 12 de julho de 1751 em Cuvilly, perto de Beauvais, Picardia, França. No batismo recebeu o nome de Maria Rosa Julieta. Era a sexta de sete filhos de Jean-François Billiart, um fazendeiro razoavelmente próspero, que também era dono de uma pequena loja, e de sua esposa Marie-Louise-Antoinette Debraine.
     Desde tenra idade Júlia demonstrou piedade e virtudes incomuns: aos sete anos sabia todo o Catecismo de cor e costumava reunir as amigas em torno dela para ouvirem a catequese que ela explicava. Sua educação era limitada à escola da aldeia de Cuvilly, que era conduzida por seu tio, Thibault Guilbert.
     Em assuntos espirituais, seu progresso foi tão rápido que o padre da paróquia, Pe. Dangicourt, permitiu que ela recebesse a 1ª Comunhão na idade de nove anos, enquanto o normal era 13. O pároco deu-lhe permissão para fazer um voto privado de castidade aos 14 anos de idade. Ele ensinou-lhe como fazer oração mental, a controlar o seu temperamento e incutiu-lhe um profundo amor por Jesus na Eucaristia.
     Em 1767, a família perdeu sua fortuna devido a maus investimentos e Júlia teve que realizar um trabalho duro para ajudar a família a sobreviver, mas continuou a ensinar catecismo às crianças mais jovens e aos trabalhadores agrícolas da freguesia, além disso, visitava os doentes.
     Júlia estava com vinte anos quando sua vida foi subitamente mudada. Uma noite, no inverno de 1774, alguém fez uma tentativa de ferir ou mesmo matar o pai: os dois estavam sentados juntos em casa, quando foi disparado um tiro pela janela. Júlia, sensível, teve um choque que a levou a uma paralisia nervosa, e progressivamente a doença a tornou incapaz de andar, o que lhe causou grande dor. Tentativas de tratamento não deram resultado, e ela ficou completamente inválida. Ela recebia a comunhão diária, e passava quatro a cinco horas por dia em contemplação. Ela oferecia seu sofrimento ao Sagrado Coração de Jesus como reparação pelos pecados, especialmente aqueles que eram cometidos contra a Sagrada Eucaristia.
     O pároco continuava a ser seu diretor espiritual, e a encorajou a continuar com o seu trabalho de catequese da cama. Ela desenvolveu o seu próprio apostolado, dando conselhos espirituais a um número crescente de pessoas. Algumas mulheres ricas começaram a visitá-la, impressionadas com o que tinham ouvido da sua paciência, dedicação e bom humor.
     Em 1789, a famigerada Revolução Francesa se instala. Entre os que a visitavam e conversavam com ela naquela época estavam os Bem-aventurados irmãos François-Joseph de Rochefoucauld e Louis de la Rochefoucauld, Bispos de Beauvais e Saintes, respectivamente, ambos martirizados no massacre do Mosteiro dos Carmelitas, na Rue de Rennes, em Paris, em 2 de setembro de 1792 e fazem parte dos 191 Mártires de Setembro.
     Em 1790, o padre da paróquia de Cuvilly foi substituído por um padre juramentado do governo revolucionário. Foi principalmente graças à influência que Júlia tinha sobre o povo que houve boicote ao intruso. Mas quando ela ficou sob suspeita pelo governo revolucionário por receber em sua casa os sacerdotes perseguidos, e na praça da aldeia o carrasco pôs fogo no mobiliário da igreja, onde Julia deveria ser queimada como bruxa, ela foi forçada a se esconder.
       Seus amigos foram exilados de Cuvilly, e nos três anos seguintes ela viveu na clandestinidade em Compiègne, onde foi transferida de um abrigo para outro. Ela sofreu dores e a doença se deteriorou a tal ponto, que ela perdeu a fala durante vários meses. Nesse tempo, ela teve uma visão: ela viu o Calvário cercado por freiras em trajes incomuns e ouviu uma voz dizendo-lhe: "Veja essas filhas espirituais que vos dou em um instituto marcado pela cruz".
     Em Compiègne ela morou perto do bendito Carmelo onde 16 freiras carmelitas enfrentaram a guilhotina cantando em 17 de julho de 1794.
     Após o primeiro intervalo das perseguições que se seguiram ao fim do período do terror, Júlia foi resgatada por um velho amigo, e em outubro de 1794, ela foi trazida para Amiens, para a casa do Visconde Blin de Bourdon.
     Neste lar hospitaleiro, Júlia se recuperou e conheceu a irmã do Visconde, Françoise Blin de Bourdon, Viscondessa de Gézaincourt, que se tornou sua amiga íntima e sua assistente em todos os trabalhos, co-fundadora do seu Instituto e sua primeira biógrafa. Françoise tinha 38 anos quando conheceu Júlia e havia passado sua juventude na piedade e em boas ações. Ela havia sido presa com toda a família durante o Terror, e só escapou da morte por causa da queda de Robespierre.
     Entre 1794 e 1804, Júlia tenta dar ao seu trabalho uma forma permanente. Mas uma nova perseguição se espalhou e forçou Júlia e sua nova amiga a se retirarem para uma casa que pertencia à família Doria, em Bettencourt. Neste tempo, foram visitadas várias vezes pelo Pe. Joseph Desire Varin (1769-1850), superior dos Padres da Fé, que ficou impressionado pela personalidade e habilidade de Júlia. Ele estava convencido de que Deus a tinha escolhido para fazer grandes coisas pela Igreja.
     Após a Revolução, Júlia voltou a Amiens, e fundou, sob orientação do Pe. Varin o "Instituto de Nossa Senhora Para Educação Cristã". O seu principal objetivo era o cuidado espiritual das crianças pobres, mas também a educação de meninas de todas as classes e de formação de professores. A fundação foi aprovada pelo Bispo de Amiens, Mons. Demandolx, ex-bispo de La Rochelle.
     Em 1804, os Padres da Fé realizaram uma grande missão em Amiens. Júlia pediu a um dos sacerdotes, o Pe. Enfantin, que tinha sido ordenado em uma granja durante a Revolução, para acompanhá-la em uma novena. No quinto dia, 1º junho, Festa do Sagrado Coração de Jesus, ele ordenou-lhe: "Madre, se tendes alguma fé, dê um passo em honra do Sagrado Coração de Jesus". Ela se levantou imediatamente e estava completamente curada após 22 anos de invalidez.
     Algumas senhoras se juntaram a Júlia e a Françoise, e o Pe. Varin escreveu uma regra provisória para elas. As primeiras quatro irmãs fizeram seus votos no dia 15 de outubro de 1804: Júlia Billiart, Françoise Blin de Bourdon, Victoire Leleu e Justine Garson. A regra temporária foi tão presciente que os seus princípios nunca foram alterados. Antes que um ano se passasse eram dezoito irmãs.
     Após sua recuperação, Júlia continuou a expansão de sua Congregação a passos rápidos, a qual se espalhou para Gent, Namur e Tournai, em Flandres (atual Bélgica). Agora ela também podia participar pessoalmente de missões conduzidas pelos Pais da Fé em outras cidades, mas as suas atividades foram interrompidas pelo governo.
     Quando a Congregação foi aprovada por decreto imperial de 19 de junho de 1806, tinha 30 membros. De 1804 até sua morte em 1816, Júlia viajou incessantemente e foi responsável pela rápida expansão do novo Instituto.
     Por causa da Revolução Francesa o povo não havia recebido nenhuma formação religiosa, e ela estava preocupada com a descristianização do país. Esta foi a principal motivação para o seu trabalho educacional. Embora o seu interesse inicial tivesse sido sempre os pobres, ela compreendeu que as outras classes na sociedade também tinham uma grande necessidade de educação cristã saudável e que suas irmãs nunca poderiam cobrir sozinhas toda a demanda.
     Em 1809, após problemas com o novo diretor do Instituto, Madre Júlia se instalou em Namur (Bélgica), levando consigo a maioria das Irmãs. O bispo da cidade, Mons. Joseph Pisani de la Gaude, aprovou a Congregação alterando o seu nome para "Irmãs de Nossa Senhora de Namur”.
     Várias circunstâncias levaram ao fechamento de todos os conventos e as escolas na França, e, em 1815, e os conventos belgas foram saqueados pelos soldados, antes e depois da Batalha de Waterloo.
     Madre Júlia enfrentava as dificuldades com bom humor e uma total confiança na Providência de Deus, e ela manteve a Congregação firme por meio de viagens intermináveis de convento a convento, onde ela incentivava, apoiava e contribuía ensinando ou lavando, se necessário. Françoise (Madre São José), por sua vez manteve um governo empreendedor, com uma segurança aristocrática, uma força tranquila e a convicção de que Madre Júlia fizera a obra de Deus.
     Madre Júlia, que foi a fundadora de uma das principais Congregações da Igreja, não escreveu nenhum tratado sobre o ensino ou o funcionamento das escolas. Suas ideias são encontradas nas cartas e nas instruções que deu às Irmãs, e como Madre São José colocou essas ideias em prática após sua morte.
     Em 1844, a regra foi aprovada pelo Papa Gregório XVI (1831-46). Quando Madre São José (Françoise Blin) morreu em 1838, a nova Congregação estava firmemente estabelecida, a sua filosofia de trabalho e a sua presença aceita e apreciada. Até o final do século XIX, a Congregação das Irmãs de Nossa Senhora se espalhou para os Estados Unidos, Grã-Bretanha, Guatemala, Congo e da Rodésia (Zimbabwe). Em 1900, ela chegou ao Japão, China, Brasil, Peru, Nigéria e Quênia.
     Madre Júlia adoeceu em janeiro de 1816, e após três meses de sofrimento, em meio ao silêncio e a paciência, faleceu em 8 de abril 1816, em Namur, enquanto calmamente recitava o Magnificat. O Bispo de Namur disse: “A Madre Julia é uma dessas pessoas que podem fazer mais pela Igreja de Deus em poucos anos do que os outros fazem em um século”.
     Ela foi enterrada no dia 10 de abril no cemitério da cidade. Sua reputação de santidade foi reforçada por vários milagres. Seu processo de canonização foi iniciado em 1881 e seus restos mortais foram removidos em 1882.

     Ela foi beatificada em 13 de maio de 1906 (o documento foi datado de 19 de março) por São Pio X (1903-14), e canonizada em 22 de junho de 1969 pelo Beato Paulo VI (1963-78).

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SÃO MIGUEL DOS SANTOS, Presbítero Trinitário e Místico (Patrono da Juventude Trinitária). Dois textos biográficos.


Primeiro texto biográfico:

São Miguel dos Santos, pertencente à Ordem Trinitária e apelidado de o “estático” por causa dos frequentíssimos arrebatamentos aos quais estava sujeito, nasceu no dia 29 de setembro de 1591 em Vich, na Catalunha (Espanha), era o sétimo dos oito filhos que Henrique Argemir teve de Margarida Montserrat, ambos de nobre prosápia, mas decaídos da primitiva grandeza. À fonte batismal lhe foi imposto o nome de Miguel.

O pai, tabelião e conselheiro da municipalidade, antes de se dedicar ao seu trabalho ia para escutar toda manhã a Missa com os filhos mais crescidos e à noite recitava em casa, com os criados e os familiares, o terço. Miguel, dotado de excelente índole e de precoce inteligência, aprendeu dos pais a elevar cedo a mente e o coração a Deus, a obedecer também ao preceptor, a ser paciente com os irmãos, serviçal com os companheiros e caridoso com os infelizes.

Desde criança o santo demonstrou um invencível horror ao pecado e um vivo desejo de vida penitente. Divertia-se construindo altarzinhos, cantando louvores sagrados ou repetindo as cerimônias litúrgicas que tinha visto realizar-se na igreja. Passava longo tempo do dia no oratório doméstico aonde conduzia outros menininhos aos quais recomendava serem bons e obedientes.

Mais de uma vez foi surpreendido chorando, enquanto beijava o crucifixo, agachado num cantinho solitário. À leitura da vida dos santos anacoretas, teve a ideia de se retirar para fazer vida eremítica na gruta de Montseni, nos arredores da cidade, junto com alguns companheiros afervorados por seu zelo. O pai, naturalmente, se opôs. Permitiu-lhe somente observar o jejum quaresmal três vezes por semana, e de distribuir aos pobres quanto subtraía às refeições. Miguel adaptou também às suas costas uma cruz de madeira e começou a passar a noite acomodado, com frequência, sobre uns sarmentos com uma pedra abaixo da cabeça. Açoitava-se com correias, e um dia, enquanto os seus familiares vindimavam, avançou num bosque para revolutear-se numa sarça de espinhos pela irresistível necessidade que sentia em sofrer “por amor a Jesus e à imitação de São Francisco”.

O desejo de levar uma vida retirada e crucificada induziu Miguel a bater às portas dos conventos de Vich. Foi por todos rejeitado por causa da tenra idade. O que fazer? Decidiu emitir, apesar de ter somente nove anos, o voto de virgindade, na igreja das Dominicanas de Santa Clara. Mereceu, com tal gesto, ser livrado por toda a vida das tentações de impureza.

Aos quatro anos Miguel tinha ficado órfão de mãe; aos onze ficou órfão também de pai. O tutor lhe fez interromper os estudos para empregá-lo como garçom num comércio. Tanto ele como seus irmãos não queriam que abraçasse a vida religiosa porque, para eles, não convinha ao decoro da estirpe. Guiado pelo Espírito Santo, em 1603 fugiu para Barcelona a pé, com a esperança que o Senhor teria guiado os seus passos. Às portas da cidade uma pobre mulher teve compaixão dele e ofereceu-lhe hospitalidade. No dia seguinte foi para escutar a Missa na igreja mais perto, que era a dos Trinitários. Enquanto rezava, Deus lhe fez compreender que o queria entre aqueles religiosos. No começo foi acolhido como coroinha. Vestiu o uniforme branco dos Trinitários somente no mês de agosto de 1604.

Desde aquele dia Miguel fez consistir a essência da vida religiosa não apenas nos jejuns, nos cilícios e nas vigílias, como na abnegação da própria vontade. Durante o noviciado era tão virtuoso que foi apontado como modelo também aos religiosos mais velhos. Ao toque de levantar da meia noite para rezar as Matutinas foi sempre encontrado desperto. Diz a tradição que uma noite apareceu-lhe Nossa Senhora e ofereceu-lhe um lírio. Encontrava o seu prazer em servir o maior número possível de Missas. No altar parecia um serafim e após a comunhão permanecia absorto. Às vezes, transbordando de alegria, passava a correr pelo jardim, exclamando: “É tão violento o ardor interno, que se não lhe abrisse uma saída, ficaria queimado”.

Pela vivacidade da inteligência e a dedicação ao estudo, Miguel, bem antes de emitir a profissão, foi enviado para o convento de São Lamberto, nos arredores de Zaragoza, para que frequentasse aquela célebre universidade. No século XVI, sob o influxo do Concílio de Trento, também a Ordem dos Trinitários tinha sido reformada pela obra de São João Batista da Conceição (1561-1613) com a aprovação do papa Clemente VIII.

Depois da profissão religiosa (1607), frei Miguel, sedento de perfeita abnegação e de rígida penitência, pediu para passar à estreita observância. Tendo-lhe sido concedido aquele favor, dirigiu-se a pé, no inverno, a Pamplona, para vestir em Oteiza (1608), nos arredores da capital de Navarra, o tosco saio dos Trinitários Descalços. Após alguns dias foi enviado a Madri para o ano de noviciado. Em Alcalá emitiu a profissão religiosa e em La Solana aperfeiçoou-se nos conselhos evangélicos através de um segundo tirocínio exigido pelas Constituições.

Foi então que Deus começou a favorecer o seu servo com dons extraordinários. Um dia, enquanto encontrava-se com os seus confrades em recreio fora do convento e discutia com eles sobre o paraíso, de repente deu um grito, voou como uma flecha sobre uma plantação de cevada e foi pousar-se perante o tabernáculo, onde permaneceu longamente extasiado.

Desde aquele dia os gritos improvisos, os arrebatamentos e os êxtases repetiram-se frequentemente na igreja, no refeitório, pela estrada, apesar da formal proibição dos superiores para não perturbar o sossego do convento. Para fazê-lo sair dos sentidos era suficiente falar-lhe da Santíssima Trindade, da Eucaristia, da Paixão do Senhor, da Santíssima Virgem. Uma quinta-feira santa, depois de ter elevado os olhos para um grande crucifixo fora do refeitório, deu um grande grito e arremessou-se para abraçá-lo.

Não sempre conseguia subtrair-se àqueles impulsos do Espírito Santo, e então arrastava consigo o objeto ou o confrade ao qual se agarrava. O seu Ministro Provincial, frei Francisco de Santana, o enviou a Sevilha para ter com o Padre Hernando Mata, experto mestre de espírito, para que o examinasse. O piedoso sacerdote declarou não ter conhecido em sua vida alma mais cândida e mais inflamada de amor divino como frei Miguel dos Santos. Confirmando tal opinião, exatamente naquele tempo Jesus concedeu ao seu servo fiel, absorto em oração, o singularíssimo privilégio da substituição do coração com o seu.

No mês de outubro de 1611, frei Miguel foi enviado a Baeza para estudar filosofia e, após três anos, à Universidade de Salamanca para estudar teologia. Certo dia, enquanto um sacerdote agostiniano entremostrava, na sala de aula, a gratidão devida ao Sangue Preciosíssimo de Jesus pelos homens, o santo lançou-se ao alto e permaneceu uns vinte minutos suspendido sobre as cabeças dos alunos com os braços abertos e os olhos dirigidos ao céu. Por isso, acorria continuamente ao convento pessoas ávidas de consultar o santo estudante.

Durante o carnaval, para impedir tantos escândalos, concebeu um projeto audaz. Junto com seus confrades vestidos como penitentes, flagelando-se sem piedade, tendo nas mãos uma caveira e na cabeça uma coroa de espinhos, dirigiu-se à praça pública, em meio ao estupor das pessoas.  Um pregador subiu, então, sobre um banco para lembrar aos gozadores da vida a vaidade dos prazeres mundanos. De repente, frei Miguel deu um formidável grito, levantou voo até o crucifixo que encabeçava o cortejo e, por quinze minutos, permaneceu suspendido no ar, em êxtase.  É inútil dizer que, a tal prodígio, o festim carnavalesco mudou-se em uma procissão de penitência.

Concluídos os estudos, frei Miguel foi ordenado sacerdote em Faro (Portugal) em 1615. Havia desejado tanto aquele dia porque lhe permitia receber cotidianamente Jesus Sacramentado. Para exercer o sagrado ministério foi enviado a Baeza. Em 1622 foi nomeado ministro do convento de Valladolid, não obstante que se reputasse indigno e incapaz. Frei Miguel foi um religioso perfeito. Sobretudo a sua obediência aos superiores foi sempre pronta, alegre e sem reservas também quando lhe proibiam entrar em êxtase ou lhe mandavam alimentar-se como todos os outros, preocupados com sua saúde.

O Senhor, que não o queria naquele caminho, permitiu que piorasse realmente, motivo pelo qual, após continuadas provas, os superiores permitiram-no continuar alimentando-se com um pouco de pão, com alguns cachos de uva seca ou com um bocado de salada somente a cada três dias. Às vezes chegou a prolongar o jejum absoluto até duas semanas. Não saboreou outra bebida a não ser água. Passava até semanas inteiras sem beber. A língua se lhe transformava, então, numa espécie de sobreiro, mas, ao invés de matar a sede, frei Miguel era capaz de ir até o chafariz somente para aumentar o espasmo da sede ao contemplar a água fresca. A quem o exortava para se nutrir, respondia brincando: “O meu cozinheiro é Deus”.
Amantíssimo da pobreza evangélica, frei Miguel considerou-se feliz mesmo quando lhe faltou o necessário. Pode-se dizer que nada possuía, nada desejou, nada usou como próprio. Por diversos anos repousava um pouco no sótão do convento e somente nos últimos anos aceitou, por obediência, um cobertor velho e corroído. Tinha à disposição só um hábito, deixado de lado pelos outros religiosos e remendado por si mesmo. Jamais se conseguiu fazer-lhe vestir hábitos novos, apesar de que lhos oferecessem para ganhar e guardar aquele por ele usado.

Em sua incomparável humildade frei Miguel dizia que era capaz somente de rezar. Pelo contrário, quando foi eleito Ministro do Convento de Valladolid, deu prova de grande habilidade ao afrontar a construção de uma nova igreja sem recursos. Aos seus religiosos a obra pareceu insensata, mas ele os tranquilizou dizendo: “Se formos bons, mesmo se trancarmos a porta, o Senhor nos lançará o necessário pelos muros da horta”.

Inflexível ao exigir a observância das regras, sabia, porém, torná-la amável e jubilosa, como sacrifício feito a Deus, sem considerações humanas. O único escopo de sua vida foi de conformar-se à vontade d’Ele “querendo – dizia – não somente aquilo que Deus quer, mas aquilo que Deus quer que eu queira”. Tinha assim alcançado tal união com a Santíssima Trindade que não sabia se comia, se bebia, se dormia ou se caminhava.

Interrogado pelo Ministro Provincial sobre quantas horas por dia dedicava à oração, respondeu com simplicidade: “Eu rezo sempre”. De noite descansava apenas duas horas no chão, agachado sobre um banquinho com o rosto entre as mãos. “O meu bom Deus – dizia – me acorrenta e não me deixa dormir”. Habitualmente a sua Missa durava duas horas, por causa dos frequentes arrebatamentos aos quais estava sujeito. Todavia a igreja estava sempre muito cheia de fiéis.

Uma vez, à elevação do cálice, permaneceu elevado no ar por quase meia hora, e outra vez, tendo permanecido com os braços abertos em forma de cruz, não se deu conta que a chama de uma vela queimava-lhe a mão direita. Mais de uma vez foi visto emanar da sua pessoa um celestial esplendor e fulgurar-lhe ao redor da cabeça uma auréola de glória que deslumbrava a vista. O incêndio espiritual do amor divino se refletia no corpo com tal calor que não conseguia controlar-se. Um dia, enquanto discutia com o pároco de Marmel sobre o mistério da Santíssima Trindade, onde tinha ido para pregar, do seu peito jorrou algo como um vulcão de chamas resplandecentes. Admirado, o pároco quis abraçá-lo, mas caiu desmaiado por terra pela grandeza do calor e do fulgor daquela chama.

O apostolado de Frei Miguel não se limitou à oração pelos pecadores, à penitência rigorosa, às conversações particulares ou ao ministério das confissões, mas se afirmou vigorosamente também no púlpito. Aos fiéis falava, sobretudo, do amor de Deus aos homens e do mistério da Eucaristia, sem cair nas pomposidades de seu tempo histórico. Para salvar até mesmo uma só alma estava disponível a tolerar infinitas labutas. Os contínuos êxtases, que o surpreendiam bem no meio das pregações, turbavam-lhe as alegrias procuradas por tal apostolado. De vez em quanto protestava: “Se desta vez me acontecer a mesma ‘desgraça’, não subirei jamais ao púlpito”. Todavia, a cada convite, era incapaz de resistir à manifesta vontade de Deus para o bem do povo.

Nobres e plebeus, ricos e pobres, eclesiásticos e seculares, acorriam a ele como a um oráculo para todas as suas necessidades, sem jamais ficar desiludidos, pois Deus tinha concedido a frei Miguel o dom de perscrutar os corações, de predizer eventos distantes e futuros, de sarar os enfermos com a simples imposição das mãos, com um sinal de cruz ou com a leitura de um trecho do Evangelho. Porém, não obstante tudo isso, o santo considerava-se “um miserável, um ingrato, uma terra estéril, incapaz de fazer frutificar os dons recebidos do céu”. Era-lhe, portanto, de grande confusão ouvir-se chamar por todos “o santo”, ver as pessoas ajoelhar-se diante dele e procurar beijar-lhe a ponta do hábito.

Enquanto era pároco em Baeza, em uma conversação entre amigos sobre a morte inexorável e a felicidade do céu, frei Miguel tinha exclamado improvisamente: “O Senhor na sua infinita misericórdia me fez conhecer que preciso trabalhar e pregar muito, até os trinta e três anos; então me chamará a si quando eu for Ministro do Convento de Valladolid”.

Ao aproximar-se do tempo de sua morte, confirmou a penitentes e a confrades que morreria à idade do Senhor. Na segunda-feira de Páscoa de 1625 foi, de fato, constrangido a ficar de cama por causa de uma febre violenta que o pegou no momento em que pregava. Viveu ainda dez dias em uma contínua oração.

A quem lhe perguntou quais graças desejava alcançar, respondeu: “Peço ao Senhor sobretudo para sofrer os tormentos e as penas que os mártires e os santos sofreram e sofrerão até o fim do mundo, e depois que se forme uma só chama de amor do qual ardem os beatos e os espíritos celestes e me consome o coração”. Um confrade lhe perguntou se temia a morte. Respondeu-lhe: “Perturba-me somente o pensamento de morrer em um lugar onde se tem muita estima de mim, que sou um miserável”.

Faleceu no dia 10 de abril de 1625, após ter beijado o crucifixo e exclamado, levantando os olhos ao céu: “Creio em Deus, espero em Deus, amo Deus!”. Logo que se espalhou a notícia de seu falecimento, uma enorme multidão amontoou-se perante a porta do convento gritando: “Queremos ver o santo”.

Foram assim numerosos aqueles que desejavam ter um pedacinho do saio do defunto como relíquia, que seus confrades precisaram revesti-lo com outro saio por até três vezes. Pouco depois do enterro de frei Miguel foram verificados cinquenta milagres, recebidos de Deus, por sua intercessão, pelos devotos.

Pio VI o beatificou em 02 de maio de 1779 e Pio IX o canonizou no dia 8 de junho de 1862. João XXIII o nomeou padroeiro da cidade em que nasceu, VICH. As relíquias de São Miguel dos Santos, padroeiro da juventude trinitária, são veneradas em Valladolid, na paróquia de São Nicolau.


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 Segundo texto biográfico (do blog: juventude trinitária)

Miguel Argimir Mitjana nasceu em Vich (Barcelona) no dia 29 de setembro de 1591. Seus pais se chamavam Henrique e Monserrat. Deus os abençoou com oito filhos. Miguel era o sétimo. Pertencia, pois, a uma família numerosa e cristã. Recitavam diariamente o Santo Rosário, liam os Evangelhos e aos sábados rezavam as Vésperas na catedral.


“Miguel é um bom menino”, diziam os que lhe conheciam. Chamava a atenção sua piedade e seu espírito de sacrifício. Conta-se que se deitava debaixo da cama e que usava uma pedra como travesseiro.

Sua inclinação para a vida religiosa e retirada do mundo o levou um dia a fugir de casa e refugiar-se no monte Montseni com o fim de dedicar-se à vida eremítica.

Tinha apenas onze anos quando se tornou órfão dos dois genitores. Teve que ficar sob a tutela de seus parentes, que o tornaram comerciante. Sua vocação não era dedicar-se à venda. Mas não agradou muito e foi despedido.

Com somente doze anos foi admitido como coroinha no convento dos Trinitários calçados de Barcelona. Desde então chamava sua atenção o fervor e a devoção para com o sacramento da Eucaristia.

Ao cumprir os quinze anos (1606) foi destinado ao convento de São Lamberto, fora de Zaragoza, com o fim de iniciar seu ano de noviciado. No dia 30 de setembro de 1608 fez sua profissão, e a partir daí começa seus estudos superiores na mesma cidade do Pilar.

No mesmo ano de 1608, passa pela cidade do Ebro um religioso trinitário descalço, Frei Manuel da Cruz, que vinha de Pamplona, da nova fundação descalça trinitária. Frei Miguel fica apaixonado pelo testemunho de sua santidade. Era o que ele buscava. Uma voz interior o chamava pelo caminho dos trinitários descalços. “Leva-me contigo!”, exclama. Em 28 de janeiro de 1609, em Madrid, fez sua profissão como religioso trinitário descalço com o nome de Miguel dos Santos.

Na capital da Espanha teve a honra de conhecer pessoalmente o nosso Santo Reformador, São João Batista da Conceição.

Um dado curioso: Durante o ano de 1609, no convento trinitário descalço de Solana (Cidade-Real) residem três santos: São João Batista da Conceição, São Miguel dos Santos e o Venerável Frei Tomás da Virgem. São Miguel dos Santos chega rapidamente às profundidades da mística: oração de união, êxtase, arrebatamentos... São fenômenos que nele se deram com frequência. Em certa ocasião, o irmão Provincial lhe pergunta: “Frei Miguel, quantas horas dedicas à oração?” “Sempre estou em oração”, ele lhe responde. Pode-se dizer que ele “vivia sem terra pela terra caminhando”. Sua grande devoção era Jesus Sacramentado. Frequentemente passava as noites em adoração diante de Jesus Sacramentado. Era um adorador permanente. A Igreja o declarou ‘co-patrono’ da Adoração Noturna, juntamente com São Pascoal Bailón.

Deixou suas experiências místicas refletidas num pequeno tratado, por ele escrito, intitulado “A tranquilidade da alma”. Um dos fenômenos místicos mais conhecidos de São Miguel foi a troca do seu coração com o de Jesus, que aconteceu diante do sacrário, em uma noite de graça e de glória.

Cursou seus estudos superiores em Salamanca e em Baeza. De sua estada na cidade de Tormes se conta que o mestre Antolínez estava explicando o mistério da Encarnação quando, de repente, frei Miguel deu um grito e se elevou cerca de um metro, com os braços em forma de cruz e com seu olhar apontando fixamente um ponto misterioso. Permaneceu assim durante quinze minutos. Diante de tal fenômeno, o professor comentou: “Quando uma alma está cheia do amor de Deus, dificilmente pode escondê-lo”. Foi ordenado sacerdote em Baeza. Exerceu na cidade e nos arredores o ministério da pregação e da direção espiritual. Conversões milagrosas testemunhavam sua santidade.

Antes de preparar seus sermões passava três dias em oração aos pés de um crucifixo e outros três dias estudando o que no caderno tinha escrito. Celebrando a Eucaristia e pregando, com frequência se extasiava: era possível perceber isso porque ele se elevava do solo com os braços abertos em cruz, com o olhar fixo para cima e com a cabeça inclinada para trás. Por todos estes fenômenos místicos o chamavam de ‘o extático’.

De Baeza o transferiram para Valladolid. A um homem tão espiritual encarregaram a construção do convento da cidade de Pisuerga. Sua fama de santidade se espalhou pela cidade. O convento foi levantado como que por encanto. Os ‘grandes’ visitavam-lhe e pediam-lhe conselho. Entre eles estão o Duque de Lerma, o senhor Bispo, os nobres. O veem como um homem do céu que passa pela terra tocando-a levemente, como um raio de luz celestial.

Aos 33 anos, como seu Jesus, nasce para o céu, que era o seu lugar natural, no dia 28 de outubro de 1624. Sua morte foi um triunfo. Mesmo com o pouco tempo que esteve em Valladolid, toda a cidade acorreu às suas honras fúnebres. Mais que um funeral foi uma celebração das maravilhas de Deus realizadas em frei Miguel.


Em 1779, Pio VI o beatificou. Setenta e um anos mais tarde, Pio IX o canonizou. Na ordem é considerado e venerado como patrono da juventude trinitária. Suas relíquias são veneradas na paróquia de São Nicolau (Valladolid). É a Igreja de nosso antigo convento. Atualmente é paróquia diocesana.