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domingo, 8 de março de 2015

São Francisco Maria de Camporosso, Irmão Capuchinho (modelo de humildade e serviço aos sofredores).




A 20 de Maio de 1929, o Papa Pio XI, na sessão preparatória da sua Beatificação, saudava em Francisco de Camporosso «o irmão humilde que se ergue como um colosso, como um gigante, ao longo de quarenta anos de vida santa e de uma santidade difícil…; consolador incansável, conselheiro e mestre de almas, de um povo inteiro, por mais de uma geração». São Francisco Maria de Camporosso (diocese de Ventimiglia) é, no século XIX, o mártir da caridade.


Francisco nasceu em Camporosso, pequena aldeia da Ligúria, na diocese de Albenga, a 27 de dezembro de 1804. Seus pais chamavam-se Anselmo Criese e Maria Antonia Gazzo. Seus pais eram trabalhadores e profundamente religiosos. Era o caçula de quatro filhos. Aos doze anos foi encarregado de tomar conta do pequeno rebanho da família, pois o ar livre faria bem às sua frágil saúde. Daí nasce a forte amizade com os outros pastores, que costumavam reunir para rezar e explicar-lhes um pouco de catecismo. Seus colegas tinham-lhe uma grande admiração e o chamava de eremita. Filho de lavradores, ocupava o tempo, desde a sua infância, ou na guarda do rebanho pelos montes, ou na oração, ou no ensino do Catecismo aos seus conterrâneos.
Desde a adolescência, a sua grande paixão era socorrer os pobres. Eles eram todo o seu desvelado amor: se tinham necessidade de ajuda nos trabalhos do campo, ele estava sempre pronto para lhes dar uma mão; destinava-lhes as suas pequenas economias, os seus parcos recursos, as suas privações.
Um pouco mais velho, começou a ajudar os pais e irmãos nos trabalhos pesados do campo. Mas, fazia-se ouvir cada vez mais clara e forte uma voz que o chamava a doar-se totalmente a Deus, na vida religiosa.



Grata manhã de um meio-dia esplendoroso.

Certo dia, o jovem camponês recebeu o convite de um capuchinho e entrou no convento de Sestro Ponente, onde vestiu o hábito de irmão terceiro. Porém, não se sentia satisfeito. Deus irá apagar as suas ânsias de perfeição e dilatar os seus inflamados desejos de santidade, chamando-o à Ordem dos Capuchinhos. Uma voz interior não o deixou em paz até que teve a alegria de vestir o hábito capuchinho. Fez o noviciado no convento de São Bernardo de Gênova.
Admirável é a sua caridade desde o Noviciado. Terminado o seu trabalho, corria a ajudar os companheiros, que lhe diziam: “Descansa um pouco, Irmão! Nós terminamos depressa este trabalho”. — “Descansar, eu? Se, quando estava em casa, não descansava, antes trabalhava sempre para ajudar a minha família, como poderei descansar agora que trabalho para o meu Deus”? Frei Francisco Maria expressou seu programa num lema: “Quero ser o jumento do convento”. E viveu este lema a cada dia com empenho e amor redobrados.
Em 1826 faz a profissão perpétua. Após a profissão, foi destinado ao Convento da Santíssima Conceição, em Gênova, onde permaneceu até morrer. Irá empenhar-se ainda mais na prática do bem e virtude. Como enfermeiro, às quatro da manhã já está de pé: vai à Capela, prepara o altar e os paramentos, ajuda à santa Missa, dá uma volta pelos quartos, inteira-se do estado de saúde de cada um, e, sorridente, leva aos doentes a comida e dá-lhes os medicamentos prescritos. Em seguida põe tudo em ordem para a visita médica das oito horas e, com diligência e atenção, acompanha o médico.
Durante o dia anda sempre pelos pequenos quartos da enfermaria, junto dos seus queridos enfermos: cuida da sua limpeza, ministra-lhes os medicamentos, leva-lhes sempre qualquer dádiva, sorri, encoraja-os e sugere-lhes algumas jaculatórias.
Os médicos diziam que era «um irmão de ouro»! Reconheciam-no também todos os recuperados, que não tinham palavras para exprimir os seus carinhos maternais.
Mas a sua obra de caridade iria alargar-se a um campo mais vasto, a uma cidade inteira. Como esmoleiro, todos os dias passava em casas ricas e pobres pedindo esmolas e repartindo com os mais necessitados. Procurou imitar nisso São Félix de Cantalício e São Crispim de Viterbo. Vestido com uma túnica velha e toda remendada, debaixo de sol ou chuva, pés descalços, saco aos ombros, uma sacola nos braços e o terço mãos: assim se apresentava ao povo.
Tornou-se uma figura característica das ruas da cidade, sempre acompanhado por um menino, para evitar situações escabrosas em certos ambientes que era obrigado a visitar. Para todos tinha uma palavra de conforto e esperança; parecia conhecer os segredos mais íntimos do coração. E o povo passou a chamá-lo de “padre santo”.
“No desempenho do seu ofício de esmoleiro, o mais humilde que a Ordem lhe podia confiar, ele encontrará terreno propício para o exercício das mais heroicas virtudes e, ao mesmo tempo, um campo fecundo para desenvolver um apostolado de bem-fazer” (P. Melchior de Benissa).

A figura de frei Francisco era popular, inclusive no porto de Gênova entre os trabalhadores, estivadores, marinheiros e tripulantes. À noite quando chegava em casa cansado, um numeroso grupo de pessoas o aguardava na praça do convento para recomendar-se às suas orações, para pedir conselhos e contar os próprios problemas. Ele ouvia a todos e para todos tinha uma palavra de conforto.
Quem poderia enumerar todas as almas de quem se aproximou e consolou; todos os corações doloridos e desesperados, por ele reconciliados com a vida; todas as famílias desunidas que ele soube unir e pacificar; todos os pecadores que, pela sua bondade, foram reconduzidos ao reto caminho? E quanto pobres, pequenos e grandes, ele socorreu e salvou, arrancando-os da abjeção moral aonde a miséria os havia conduzido?
Se jamais pedia para o convento, esperando apenas a oferta espontânea, quando se tratava de ir ao encontro dos abandonados, desaparecia toda a sua timidez natural: uma santa audácia o possuía e não se importava de ser importuno. «Por amor de Deus, dai-me qualquer coisa para os meus pobres». E não ia embora, sem antes receber.
Naturalmente tudo isto supunha nele uma paciência de santo. «Com os meus próprios olhos — testemunha um seu confrade que, como porteiro, ao longo de quarenta anos lhe abriu a porta — vi-o regressar, quase todos os dias, cansado até à exaustão, encharcado de suor ou gelado de frio, conforme a estação, e ainda em jejum até à uma e duas horas da tarde». Se às vezes lhe dizia que não perdesse tempo, ele respondia: “Que queres, Irmão? Não é tempo perdido consolar uma alma, oprimida por cruzes verdadeiras ou imaginárias”.
Antes de entrar no convento, para refazer as forças, detinha-se na pracinha fronteiriça ao mesmo convento a ouvir, com bondosa serenidade, os numerosos necessitados que a ele se recomendavam.
Havia um negociante que gostava dele, mas tinha mau gênio. O Irmão encontra-o num dia em que está de má vontade e, infelizmente, este o recebe muito mal: blasfêmias contra Deus e impropérios contra o Irmão. O «Padre Santo», de cabeça inclinada, sem se enervar, recebe toda aquela saraivada de injúrias, e pergunta: «Tens alguma outra coisa para me dar»? O pobre homem compreende então que tinha agido mal, fica envergonhado, sem dizer palavra. «Agora — diz então o humilde Capuchinho, atirando para o chão a sacola — agora vamos à desforra». O pobre homem, comovido, pede-lhe perdão.
Certa ocasião recebe uma pedrada na fronte. Quem lha teria atirado? O sangue jorra da ferida aberta aos borbotões. Mas o santo não se mostra perturbado: inclina-se, recolhe a pedra e beija-a como se fosse uma bênção do céu.
Um capitão de longo curso, novo na região e novo para os frades, dá de caras com ele, ali no porto, e fica aborrecido: “Quem é esse miserável que, em vez de trabalhar, vagabundeia a mendigar no cais? Um miserável, com certeza”. E chovem os insultos. O servo de Deus ouve tudo em silêncio e, quando deu por findo o seu desabafo, diz ao homem: “Meu caro senhor, tudo isso é para mim, e eu vos agradeço, mas agora me dai qualquer coisa para os meus pobres”. O capitão, vencido, tira do bolso uma moeda; e o bom Irmão exulta.
Qual a virtude mais admirável nele? O Beato Maria de Camporosso — dirá Pio XI — é todo ele um prodígio de humildade, de paciência, de caridade: a humildade de esmoleiro pobre, do Capuchinho pobre que estende a mão a toda a gente; a paciência de esmoleiro ao longo de quarenta anos, uma paciência verdadeiramente prodigiosa, dir-se-ia quase milagrosa, que germinou sobre outra grande virtude: a paciência. Basta, com efeito, dizer ‘um bom capuchinho’ para dizer um grande paciente; basta falar do ser, da vida, da alma capuchinho para dizer de quanta paciência é formada aquela vocação.
E encantador, entre os Capuchinhos, o costume de agradecer ao Superior, de joelhos, no regresso da pregação e de outros ministérios sacerdotais; no regresso da esmola e dos outros deveres impostos ou permitidos pela santa obediência. Quem está fatigado, quem está cansado, agradece. É encantador. Mas é também uma doce verdade: se o religioso contribuiu, com o seu sacrifício e com o seu trabalho, para a sustentação dos Irmãos, o primeiro proveito é seu — dá o esforço material e recebe o bem espiritual; dá um pouco de cansaço, abençoado pelo Senhor, que é para ele fonte de incalculáveis méritos.
Quando o Beato Francisco de Camporosso, no regresso da esmola, exausto, pronunciava, ajoelhado diante do padre Superior, aquelas maravilhosas palavras: «Padre, seja por amor de Deus a sua santa caridade», ele reconhecia que o bem feito a si e aos outros era devido ao seu santo hábito e à filial dependência dos seus Superiores.
Sabia encontrar palavras de encorajamento e de conforto para todos os desanimados, e em todos os casos. Dizia a uma pobre mãe desesperada: “Ide à igreja da Senhora das Graças. Dizei à Virgem Santa que vos manda o seu pobre servo Francisco. Vereis que ela vos consolará”.
O seu pensamento estava sempre voltado para o céu, para os seus amigos Bem-aventurados, e sobretudo para Nossa Senhora. Chamava-lhe a «Minha Senhorinha». E a Virgem pagava-lhe o seu afeto com preciosas graças.
Todos os sábados recebia um presente de uma família senhorial: um belo ramo de flores frescas para pôr no altar de Maria. Certa vez passa lá por casa como era seu costume. O criado abre-lhe a porta, mas… flores nem vê-las. Tinham ido todos a um casamento. «Ide ver, se terá deixado algumas flores para oferecer à Virgem Maria». — «Oxalá, caro Padre, mas não deixou nenhuma». O Irmão insiste. O criado, para lhe fazer a vontade, vai ao jardim. Deixemos em paz os santos e atendamo-los sempre. Dois minutos depois volta com um estupendo molho de belíssimas flores.
A veneração dos benfeitores permitia-lhe tratá-los com uma santa e grata familiaridade. Um dia vai à casa da marquesa Eugênia Pallaviccini e pede-lhe com urgência cem liras. A nobre senhora não está de bom humor e mostra-se aborrecida. “Mas vós estais sempre a vir aqui; vindes aqui vezes demais”. Ele tem resposta pronta: “Noutro dia comprastes um vestido novo de seda. Vamos indo para velhos, senhora marquesa, é preciso pensar na eternidade”. Fê-la rir, e teve a quantia que pedia.
Um ou outro Irmão mais zeloso não deixará de lhe fazer observações e de lhe dirigir impropérios. Ele sorrirá e ficará calado. Só uma vez, ficando muito sério, respondeu: “Vós falais muito bem; mas Aquele — e, com o dedo indicava um grande crucifixo — Aquele e São Francisco não puseram limites à sua caridade. Deixai, pois, em paz esta besta de carga. Deixai-a caminhar sob a orientação do Mestre”.
Assim, fatigando-se, exercitando a paciência e enchendo-se de méritos, o caritativo Irmão tinha chegado aos sessenta anos. Pouco tempo depois irá dar aos genoveses, razão para lhe chamarem «padre santo», nome com que era por todos conhecido.
No verão de 1866, em Gênova e seus arredores, irrompe a epidemia da cólera. As famílias fogem, aterradas, para os montes. Não mais sinais de vida e de comércio, mas de solidão e morte! O Beato não pode ficar de braços cruzados: apresenta-se nos lazaretos, mas os médicos não aceitam os seus serviços.

Não importa: oferece-se para assistir os pobres doentes diretamente. Ei-lo de casa em casa a dar-se prodigamente, a assistir e a ajudar os mais abandonados. É o anjo da bondade, acolhido com alegria em toda a parte.
A epidemia, contudo parecia recrudescer. Então, certo dia, antes da festa da Assunção de Nossa Senhora, o «Padre Santo» vai ajoelhar-se aos pés da Virgem Maria e oferece-se como vítima a Deus pela cessação do flagelo e a salvação do seu povo. Depois, retoma a sua heróica obra de caridade. Passadas umas semanas, também ele se sente acometido de um mal estar estranho. Terá de fazer um pouco de repouso, mas os sintomas não enganam: é a terrível cólera. Levam-no para a enfermaria. Ele mostra três dedos abertos e diz claramente: «três dias»!
Em 1866, a cidade foi atingida por uma grande epidemia; as ruas começaram a ficar desertas e a cada dia aumentava o numero de mortos. Frei Francisco Maria se oferece em sacrifício, como vitima de expiação para a saúde da cidade, diante de altar da Imaculada Conceição. Tem a certeza de que será atendido.

Ao terceiro dia, muito cedo, pede a Santa Unção. Às quatro horas é-lhe dada a absolvição «in articulo mortis». Vai murmurando preces. Os confrades acotovelam-se ao seu redor e choram. Mas ele, apenas com um fiozinho de voz, diz-lhes: “Porque chorais? Vou para o Senhor. Pedi por mim, que eu não me esquecerei de vós. Adeus! Até ao Paraíso”. Às cinco e poucos minutos repete pela última vez os dulcíssimos nomes de Jesus e de Maria, e, vítima voluntária da caridade, parte para o gozo da Pátria. Era o dia 17 de Setembro de 1866. Deste dia em diante a epidemia começou a diminuir e em pouco tempo acaba; todos tiveram a certeza de que foram salvos pelo padre santo.
Mesmo depois de morto, conseguirá de Deus para os seus devotos graças e milagres.
E a 30 de Junho de 1929, será inscrito por Pio XI no Catálogo dos Beatos. Será elevado por João XXIII à glória dos Santos a 09 de Dezembro de 1962.



Oração
Senhor, que em São Francisco Maria de Camporosso, vosso humilde servo, nos destes um exemplo singular de verdadeira caridade, fazei que, à sua imitação e com a vossa ajuda, nos entreguemos generosamente ao serviço do nosso próximo. Por Cristo nosso Senhor. Amém.


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