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domingo, 1 de fevereiro de 2015

SANTO TOMÁS DE VILLANUEVA, Bispo Agostiniano, grande apóstolo contra a heresia protestante.


Primeiro texto biográfico

Quase na mesma época em que um ex-frade agostiniano, Martinho Lutero, pervertia a Alemanha com sua pseudo-reforma, outro agostiniano, São Tomás de Vilanova, promovia com firmeza a verdadeira reforma religiosa e de costumes na Espanha.

São Tomás de Vilanova nasceu em Fuenllana (Espanha) no ano de 1488 e criou-se em Villanueva de los Infantes, de onde tomou seu nome ao entrar na Ordem dos Agostinianos.

Seus pais, Alonso Tomás Garcia e Lucia Martinez de Castellanos, emulavam nas obras de caridade. Socorriam a toda espécie de necessidades e eram conhecidos na região como “os santos esmoleres”.

Tomás herdou dos pais essa virtude. Dava a seus coleguinhas mais necessitados tudo o que podia inclusive suas próprias vestes e calçados. Um dia em que os pais não estavam em casa, chegaram seis pobres pedindo esmola. O menino, não encontrando nada para dar-lhes, foi ao galinheiro e pegou seis franguinhos, dando a cada um dos pobres um destes. E disse à mãe que, se houvesse mais um pobre, ter-lhe-ia dado também a galinha.

Seguindo o exemplo da mãe, desde muito cedo começou a jejuar, não só nos dias prescritos pela Igreja, como também em outros de sua devoção. Flagelava-se e fazia outras sortes de penitências como se fosse um adulto. Diz um seu biógrafo que Tomás “começou a praticar a mortificação a fim de fazer sentir à sua carne as dores da penitência, mesmo antes que ela fosse suscetível aos prazeres da concupiscência”. (1) Seu confessor, o Padre Tiago Montiel, depôs publicamente que ele guardou a inocência batismal até o túmulo.


Estudante modelar na universidade de Alcalá

Aos 15 anos, os pais enviaram-no à famosa Universidade de Alcalá, para cursar humanidades, retórica, filosofia e teologia.

Ele o fez com tanto sucesso, nos nove anos de estudos naquela instituição, que era aclamado por todo mundo. Mas sua virtude era ainda mais notável que sua ciência. Apesar do sucesso que obtinha, jamais perdeu sua modéstia e humildade, aceitando os elogios como se não fosse ele que estivesse em foco.

Aos 17 anos, a morte de seu pai obrigou-o a voltar temporariamente para casa, a fim de pôr em ordem os assuntos domésticos. Coube-lhe por herança uma grande residência, que transformou em hospital para os pobres. Sua mãe cumpriu sua vontade, encerrando-se ela mesma no hospital, para passar os seus anos de viuvez a serviço dos pobres.



De professor de filosofia a frade agostiniano

Voltando para Alcalá, passou a ensinar filosofia na Universidade aos 26 anos. Mas outras eram suas preocupações. Havia muito vinha ele pensando em consagrar-se inteiramente a Deus, mediante a vida religiosa. Por isso, deixou as glórias do mundo, pelo hábito agostiniano, fazendo sua profissão solene em 1517. É sintomático que neste mesmo ano, Lutero, ainda frade agostiniano, iniciou sua rebelião contra a Igreja Católica, afixando na porta da capela do Príncipe Eleitor da Saxônia, na cidade de Wittenberg, suas 95 proposições. Dentro da mesma Ordem, outro frade agostiniano, com sua profissão religiosa, iniciaria uma obra restauradora da fé e dos bons costumes — uma autêntica reforma — na Espanha. Tarefa completada posteriormente por Frei Tomás, como santo Arcebispo da cidade de Valência.

Ordenado sacerdote algum tempo depois, celebrou sua primeira Missa no dia de Natal, entrando em êxtase ao cantar o Glória. Ele conservaria para sempre uma terna devoção à Divina Infância e ao Santo Sacrifício do altar. Costumava dizer que é péssimo sinal para um sacerdote, quando ele é visto celebrar a Missa todos os dias sem se tornar melhor nem mais mortificado.

Não perdia um minuto durante o dia. Podia ser encontrado nos cinco diferentes lugares, que consagrou às cinco chagas de Cristo: no altar, no coro, em sua cela, na biblioteca ou na enfermaria, cuidando dos doentes.

O Santo não podia ver um religioso ocioso e inútil, comparando-o a um soldado sem armas e exposto ao ataque de seus inimigos.

Dizia que a ciência e grande erudição, sem a piedade, é como uma espada na mão de uma criança, arma que pode feri-la, pois não tira proveito daqueles dons de ciência para ninguém. Criticava também os religiosos que, sob pretexto de devoção, não se aplicavam suficientemente ao estudo.


Outro São Paulo ou Santo Elias

Designado à pregação, ele a fazia com tanto empenho, que o consideravam um outro São Paulo, pela profundidade de sua doutrina, ou um outro Elias da nova Lei, por causa do zelo que demonstrava em seus sermões. Reformou de tal maneira Salamanca que, segundo voz corrente, a cidade se havia tornado um mosteiro. Muitos jovens renunciaram ao mundo para seguir a Deus. O próprio Imperador Carlos V quis ouvi-lo, e depois o escolheu para seu pregador. E quando Tomás pregava fora do palácio, o Rei ia disfarçado para ouvi-lo.

O santo não aprovava os pregadores que, para dar mostras de erudição, faziam longos e prolixos sermões. “É na oração, dizia ele, que o homem recebe as luzes que iluminam seu espírito e os ardores que aquecem sua vontade”. E é a esses sentimentos que se deve procurar levar o auditório.

Por uma visão interior, conhecia as necessidades espirituais de seus ouvintes, e o mais admirável era que, por mais diferentes que fossem seus interlocutores, todos saíam com maior piedade após ouvir seu sermão.



Preguiça e ociosidade: inimigas da virtude

Tomás foi eleito prior de Burgos e Valladolid, e duas vezes provincial da Andaluzia e uma de Castela. No governo de seus súditos, sua mansidão de coração e o atrativo de sua pessoa constituíam poderosas armas para exercer sua autoridade.

Nos seus conventos, desejava primeiro que os ofícios divinos fossem celebrados com toda a reverência e atenção possíveis; em segundo lugar, que os religiosos considerassem a meditação e a leitura espiritual como coisas invioláveis; terceiro, que a paz e a união na caridade fraterna fossem guardadas sem nenhuma alteração; e finalmente, que ninguém fosse dominado pela preguiça ou pelo ócio, vícios que são os maiores inimigos da virtude, a ruína da alma, o sorvedouro da castidade e a fonte de todas as desordens.

Com tais normas, fez florescer a observância em todas as casas sob sua jurisdição, ou seja, promoveu uma verdadeira reforma no sentido católico do termo.



Arcebispo de Valência, por inspiração divina

Carlos V já tentara inutilmente fazer Frei Tomás aceitar a Sé de Granada. Vagando a de Valência, o Imperador escolheu para o cargo um monge jerônimo. Entretanto, seu secretário apresentou-lhe o documento para assinar em nome de Frei Tomás de Vilanova. O Imperador perguntou por que havia o secretário alterado suas ordens. “Como, majestade! Eu ouvi claramente que vós dizíeis Frei Tomás de Vilanova. Entretanto, é fácil reparar, pois é só refazer o documento”. — “Não, respondeu o Imperador, o que está escrito permanecerá; vós fizestes melhor do que eu disse; ou eu disse melhor o que não pensava. É a mão de Deus”.

Compelido pela santa obediência e ameaçado de excomunhão, caso não aceitasse o cargo, Frei Tomás teve que curvar a cabeça e conformar-se com os desígnios da Providência. Tinha ele então 56 anos.

Pôs-se a caminho, a pé, acompanhado apenas de um frade e dois criados. Ora, estava havendo uma seca muito grande em Valência, mas a chegada do novo arcebispo ocorreu debaixo de chuva, o que muitos interpretaram como sinal das bênçãos que deveria trazer sua administração à arquidiocese.

Conservou como arcebispo seu hábito religioso, que ele mesmo remendava. O cabido da arquidiocese fez-lhe presente de quatro mil ducados, para que comprasse trajes mais condizentes com seu posto. Imediatamente enviou-os ao hospital, agradecendo muito ao cabido e dizendo que o bem que era feito aos doentes ele o tomava como para si.

Começou sua administração pela visita pastoral à sua circunscrição eclesiástica, pregando por toda parte, resolvendo litígios, reformando conventos, extirpando os vícios. Promoveu um sínodo para acabar com muitos abusos e reformar o clero. Os cônegos do cabido recalcitraram e apelaram ao Papa, alegando que deste dependiam diretamente. “Eles não querem obedecer ao meu sínodo e apelam ao Papa; e eu, eu apelo de sua resistência a Nosso Senhor Jesus Cristo. Que eles escapem, se quiserem, à minha justiça, mas não escaparão da d’Ele”. Isso foi suficiente para dobrar o cabido, que se submeteu.

São Tomás teve também que enfrentar o governador que, intrometendo-se na esfera eclesiástica, quis julgar e condenar dois clérigos antes que eles comparecessem ante o tribunal eclesiástico. Como o governador não quis voltar atrás, lançou contra ele as censuras eclesiásticas. O caso foi parar no Vice-Rei, que teve também que ceder diante da tenacidade do santo prelado.


Extraordinária caridade e milagres

A caridade de D. Tomás era insuperável. Atendia diariamente no palácio a mais de 500 pobres, não importava a hora do dia ou da noite em que acorressem pedindo seu auxílio. Freqüentemente acompanhava seus atos de caridade com milagres. A um paralítico que lhe pedia esmola, perguntou se preferia trabalhar e ganhar o sustento com as próprias mãos. À resposta afirmativa, ele lhe disse: “Em nome de Jesus Crucificado, deixa tuas muletas e anda”. No mesmo instante, o pobre começou a andar e a agradecer.

São Tomás de Vilanova tinha arroubos e êxtases em público, diante de seus diocesanos, o que contribuía para aumentar a veneração que por ele sentiam. Seus milagres também eram conhecidos por todo mundo.

Entretanto, como ele dizia, nunca temera tanto salvar-se como desde o momento em que se tornou arcebispo. Isso, devido às responsabilidades que lhe cabiam, pelo bem das almas de todos seus diocesanos. Por essa razão, aspirava ardentemente a renunciar ao cargo e voltar para sua cela de religioso.

Enfim, quando ele suplicava com lágrimas a Nosso Senhor que o livrasse desse pesado fardo, o Crucificado lhe respondeu: “Tenha ânimo, que no dia do nascimento de minha Mãe virás descansar”.

E no dia 8 de setembro de 1555, foi ele receber o prêmio demasiadamente grande de sua fidelidade.(2)



Segundo texto biográfico

No início do século XVI” — afirma Rohrbacher — “a Alemanha e a Espanha apresentavam um curioso contraste: a Alemanha fora dividida e desviada por um monge agostiniano: Lutero; a Espanha fora edificada e santificada por um monge agostiniano: São Tomás de Vilanova”.
Ouçamos o que o Padre R. F. Rohrbacher nos diz, na sua “Vida dos Santos”, sobre São Tomás de Vilanova.
Nascido no ano de 1488, em Fuenllana, diocese de Toledo, Tomás era filho de velha nobreza empobrecida. Seus pais eram excepcionalmente virtuosos e incutiram no filho um extraordinário amor aos pobres. Sua mãe, mulher de raro valor, possuía até o dom dos milagres. O menino foi digno dos exemplos recebidos. Após uma infância virtuosa, formou-se brilhantemente em Alcalá, passando a lecionar Filosofia entre os eremitas de Santo Agostinho, professando a 25 de Novembro de 1517, no mesmo ano da apostasia de Lutero.

Dedicou-se depois à cátedra, ao púlpito e ao confessionário.  Foi pregador e conselheiro de Carlos V, que nada lhe negava, pois dizia que ele tinha “o dom de vergar os corações”. Escolhido como bispo de Granada, recusou o cargo, mas anos depois foi obrigado a aceitar o de Valência. O imperador escolhera outro religioso, mas o seu secretário ouviu o nome de São Tomás e assim redigiu o diploma de nomeação. Ao saber do acontecido, Carlos V negou-se a retificar o engano, pois o considerou providencial.

Havia muito que o reino de Valência era vítima de seca e aridez. De súbito, quatro dias antes do Natal de 1544, ano da escolha do novo arcebispo, a chuva começou a cair em abundância, como a anunciar dias de graça e redenção. E, de fato, assim foi o governo de São Tomás. Dando ele o exemplo, reformou paulatinamente o clero de sua diocese, voltando-se depois para os demais fiéis. Continuou sua vida mortificada, vendo nos pobres sua maior riqueza. Liberal para com os outros, era tão parcimonioso para consigo mesmo que chegou a ser acusado de avarento por um alfaiate, a quem mandara reformar um velho gibão. Entretanto, a este mesmo alfaiate doou cento e cinqüenta moedas de prata como dote para suas três filhas.

Sua caridade era, freqüentemente, acompanhada de milagres. Seus êxtases também eram tão comuns que deles chegou a falar, em seus vários sermões sobre a Transfiguração. Finalmente, após onze anos de episcopado, São Tomás caiu gravemente enfermo, vindo a falecer em 8 de setembro de 1555, dia da Natividade de Nossa Senhora, por quem demonstrara a maior devoção durante toda a vida. Já agonizante, doou a um pobre carcereiro a cama em que estava deitado, pois já nada mais possuía.

São Tomás deixou grande número de sermões, cujo magnífico estilo lembra São Bernardo, por quem sempre nutriu grande admiração.

Não é muito fácil comentar esta ficha, porque os traços que relata de São Tomás de Vilanova são de um lado, evidentemente admiráveis e, de outro, característicos de muitos santos, estando acima e além de qualquer louvor. Limito-me portanto, a ressaltar algumas coisas digna de meditação, por apresentar certa peculiaridade.

Homem suscitado pela Providência

Em primeiro lugar, o fato de Carlos V ter tido como pregador e conselheiro um tão grande santo quanto este. Vemos aí o dedo da Providência dirigindo os grandes homens de Estado.  Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Alemão, o homem em cujos domínios o sol nunca se deitava, Rei da Espanha, e, portanto, de todas as colônias que esta possuía no Novo Mundo — para a execução da tarefa providencial que cabia à Casa d’Áustria, teve o auxílio de São Tomás de Vilanova.
Há revelações privadas tratando a respeito do papel dos Habsburg, dos desígnios da Providência sobre a Casa d’Áustria, e das graças que lhe concedeu para realizar esses desígnios. Conhecendo tudo isto, compreendemos como é belo ver a Providência amparar por esta forma a Carlos V, de maneira a ajudá-lo a cumprir um dever realmente pesado.


Dom de vergar os corações

De outro lado, entretanto, não se pode deixar de notar com tristeza o resultado causado pela falta de correspondência dos homens às graças de Deus. Carlos V teve um santo como conselheiro, mas, devido à sua moleza e espírito de contemporização, permitiu ao protestantismo se expandir tanto em suas próprias terras. É bem verdade que ele lutava com muitos inimigos, como, por exemplo, a Turquia e a França, a qual se tornou responsável, por este modo, pelo alastramento do protestantismo. Porém, ele desfrutou longos períodos de paz, e teria tido muitos meios para se opor mais seriamente ao alastramento do protestantismo. Suas famosas contemporizações causam tristes reflexões da parte de todos os historiadores da Igreja.

De outro lado, existe o reverso da medalha. Este homem terminou sua existência como penitente. Abandonou todos os seus bens e foi se encerrar no Mosteiro de Yuste, onde passou os últimos anos de sua vida de um modo digno a edificar a Cristandade. Não foram os conselhos de São Tomás que teriam, afinal de contas, repercutido em seu coração? Dizia Carlos V que São Tomás tinha o dom de vergar os corações. Tudo dá a impressão de que ele falava por experiência própria: não teria São Tomás vergado esse coração de ferro?

Por exemplo, se um santo tivesse conseguido que Luís XVI fosse enérgico, teria feito uma proeza sobrenatural — se se pudesse usar esta expressão — maior do que um outro que convencesse Luís XIV a não praticar alguns atos de energia, talvez exagerada, que ele tenha feito em seu reinado. De maneira que, se isso São Tomás de Vilanova conseguiu, foi realmente uma prova de que ele vergava corações de ferro.

Uma via excepcional suscitada pela Esposa de Cristo

Outra coisa bonita é notarmos que os êxtases de São Tomás foram tantos que ele próprio chegou a falar deles em sermões. Essa naturalidade, sinceridade e nobreza com que ele contava, do púlpito, as manifestações da vida da graça em sua alma, demonstram um espírito verdadeiramente elevado, capaz de fazer isso sem se envaidecer nem procurar dar a entender que era por mérito próprio, mas, pelo contrário, atribuindo tudo à graça de Deus.

É o contrário de um certo modo de entender a modéstia, que se generalizou mesmo em certos países católicos, segundo o qual o indivíduo seria imodesto sempre que se elogiasse a si próprio, deixando transparecer suas qualidades, porque a suprema modéstia consiste em escondê-las. Nem sempre isto é bem pensado. Porque os defeitos sempre aparecem. Se escondermos com muito cuidado as qualidades, pergunta-se o que iremos levar de bom para o convívio com os outros. Quer dizer, isso é um cálculo um pouco simplificado.

Que seja perigoso dizer a alguém: “Fale sobre suas qualidades”, eu compreendo. Pois é provável que a pessoa não tenha uma noção inteiramente objetiva a respeito delas. Mas afirmar que ocultar as virtudes seja uma obrigação, até lá não chego. Desprendido, nosso Santo mostrava as maravilhas feitas por Deus em sua alma, sabendo que com isto glorificava-O. É uma via não-habitual, inteiramente justificável.


O conjunto dos santos da Igreja tem este aspecto lindo: quase tudo o que habitualmente não deve ser feito, a título de exceção, um santo pode realizar. A esposa de Cristo suscitou não só bem-aventurados que estão dentro da regra geral, mas, em sua santidade — por assim dizer infatigável —, também gerou santos que fizeram mais ou menos tudo quanto, a título excepcional, seria legítimo.

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