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sábado, 31 de janeiro de 2015

SÃO JOÃO DE DEUS, Fundador da Ordem dos Hospitaleiros (Fatebenefratelli). Patrono dos Doentes, dos Hospitais e dos Enfermeiros.



João nasceu na cidade de Montemor-o-Novo (Évora, Portugal), em 1495. Com oito anos de idade, juntamente com um clérigo que pernoitou em sua casa, foi para a Espanha e fixou-se em Oropesa (Toledo) ao serviço da família de Francisco Cid Maioral, que se dedicava à criação de gado.
Acompanhado por essa família decorreu quase a metade da sua vida. João foi pastor durante quase vinte anos. Todos apreciavam o seu trabalho. Durante esse tempo foi amadurecendo o verdadeiro sentido da sua vida, passando pelas vicissitudes próprias da adolescência e juventude.

Por duas vezes saiu de Oropesa e ambas para integrar contingentes militares. Em 1523 deslocou-se até à fronteira com a França, em Fuenterrabía. Nesta experiência, porém, não se saiu muito bem e chegou a estar condenado a morte. Regressou a Oropesa, vencido. Em 1532 seguiu para Viena (Áustria) para combater os Turcos. E já não voltaria mais a Oropesa.

Ao regressar de Viena, de barco, entrou na Espanha pela Galiza, visitou o santuário de S. Tiago de Compostela e dirigiu-se à sua terra natal, Montemor-o-Novo, onde teve notícia da morte dos pais e não encontrou quase ninguém conhecido. Sentiu então, fortemente o chamado a seguir Jesus Cristo, dedicando-se aos pobres e aos doentes. Convidado a ficar, preferiu seguir de novo para Espanha, sem rumo definido, mas inquieto.

Ficou alguns meses em Sevilha, depois Ceuta e Gibraltar, finalmente, Granada, onde se estabeleceu como livreiro. Vendia livros de cavalaria, mas também de conteúdo e caráter religioso, pelos quais cobrava mais barato.

Em 1537, escutando um sermão de S. João de Ávila no eremitério dos Mártires, sentiu-se profundamente tocado: vivenciou uma grande crise mística/fisiológica; saiu do eremitério aos gritos, dizendo-se grande pecador, atirando-se no chão e, destruiu a sua livraria…

Este comportamento repetiu-se durante vários dias, de tal forma que foi julgado louco, sendo internado no Hospital Real de Granada. Após alguns meses de dura experiência no hospital estava completamente sereno, harmonizado e disposto a seguir o Senhor, dedicando-se à assistir os doentes e os pobres com mais humanidade do que tivera experimentado.

Escolheu como guia espiritual S. João de Ávila. Foi em peregrinação ao Santuário da Virgem de Guadalupe, onde aproveitou para aprender algumas técnicas para cuidados básicos de saúde na escola de medicina dos monges e no regresso, passou por Baeza, onde permaneceu com o seu Mestre durante algum tempo. Depois voltou novamente para Granada, onde iniciou a sua atividade de ajuda aos pobres, doentes e necessitados, fundando um hospital bem diferente dos existentes.

Começou do nada. Na cidade, todos pensavam que se tratava de uma nova forma de loucura. Mas, aos poucos compreenderam a sua verdadeira sensatez. Trabalhava, pedia esmolas, recolhia os pobres, dedicava-se a eles… De início, sozinho; depois, progressivamente, foram unindo-se a ele outras pessoas, voluntários, benfeitores e os primeiros discípulos. Era muito original a maneira como pedia esmola, utilizando a expressão: “Irmãos fazei o bem a vós mesmos, ajudando aos pobres”. Foi pioneiro na história da humanidade ao separar os doentes por patologia e ao dar um leito para cada paciente.

Foi um profeta da caridade. Aos 43 anos vivia na cidade de Granada, tocado por Deus e pela situação de abandono e marginalização que viviam os pobres e os doentes, deu uma virada radical em sua vida e passou da compaixão à ação.

Interiorizou a convicção de que qualquer mulher e qualquer homem eram seus irmãos e passou a viver para todos os que precisavam: "chagados, tolhidos, incuráveis, feridos, desamparados, tinhosos, loucos, prostitutas, mendigos, andarilhos, órfãos, pobres envergonhados... todos, aqui, tem um lugar" dizia João em uma de suas cartas.

Por volta do ano 1539 fundou um hospital, inovador para a época, ao qual deu o nome de "Casa de Deus", já que em cada paciente via o próprio Cristo. Nesta casa eram acolhidas todas as pessoas, sem distinção. Com a colaboração de alguns companheiros que se juntaram a ele, organizou a assistência conforme considerava que os pobres mereciam. O povo vendo tanta bondade nele começou a chamá-lo João de Deus, o Bispo de Tuy vendo que era verdade o que sobre João diziam, lhe mudou o nome de João Cidade para João de Deus.

Convidava as pessoas a fazer o bem a si mesmas ajudando aos que mais precisavam, pois estava convicto de que quando alguém faz o bem aos outros é para si mesmo o bem maior. João de Deus pronunciava estas palavras com a autoridade de quem tinha feito a experiência. Ele se sentia o menor de todos e era feliz por sê-lo.

Com a coragem dos profetas e uma postura de não-violência, denunciou as injustiças sociais, desmandos morais e a desumanização dos cuidados em hospitais. Foi voz para os fracos e excluídos em meio a uma sociedade marcada pelo egoísmo, fanatismo religioso e muitas injustiças.

Resumimos a sua postura de acolhimento integral às pessoas com a palavra HOSPITALIDADE . Ela era misericordiosa, solidária, holística, criativa, profética e geradoras de seguidores. Sua hospitalidade não conhecia fronteiras.

Seu estilo atraiu muitos discípulos. Estes, ajudados por muitos, continuaram e ainda continuam o seu trabalho. Fundaram outros hospitais, embarcaram em muitas missões. Em 1572 o Papa reconheceu-os como Instituto Religioso para o carisma da Hospitalidade, considerando que, "era a flor que faltava no jardim da Igreja". Hoje, os Irmãos de São João de Deus estão presentes nos cinco continentes em 50 países, com cerca de 300 obras apostólicas.


São João de Deus é o patrono dos doentes, dos hospitais e dos enfermeiros.


No dia 8 de Março de 1550, de joelhos, entregou a sua alma a Deus. Tinha nas mãos um crucifixo. Morreu como tinha vivido: de joelhos perante Deus, abraçando a cruz redentora de Cristo.

João de Deus soube arriscar tudo pela causa que servia. Arriscou a saúde, a fama, a vida! A sua festa celebra-se no dia 8 de Março.


HISTÓRIAS INUSITADAS

É sabido que São João de Deus fazia o bem a todos quanto pudesse e até o que não pudesse. Seus inscritos e suas cartas relatam que ele se endividou a fim de poder acolher a todos que necessitassem e não lhes deixar faltar nada. Pedia esmolas dia e noite e dedicava a sua vida inteiramente ao próximo. Algumas histórias são contadas por terem um teor inusitado. Estão a seguir:



O MENDIGO QUE NÃO ERA POBRE

Ocorreu que um homem, desconfiado de João de Deus e da "loucura" com que dizia levar a sua vida - porque para muitos trata-se de verdadeira loucura abandonar a própria vida em favor dos outros - quis testar a João de Deus para saber se ele realmente usava as esmolas que conseguia para cuidar dos pobres.

Ao ver João de Deus aproximar-se pelo caminho, deu-lhe uma esmola. Saiu dali apressadamente, vestiu-se de mendigo a fim de lhe testar a caridade e foi para a beira do caminho solicitar ajuda a São João de Deus. Qual não foi a surpresa do homem quando João de Deus tirou dos bolsos tudo o que tinha e entregou-lhe tudo sem hesitar. Com isso, o homem converteu-se, aderiu a causa do Santo e passou a ser Colaborador de sua obra.


AS CORTINAS QUE ALIMENTAM OS POBRES

Certo dia, chegando João de Deus a casa de um rico, percebeu ele que as janelas de sua casa possuíam belas cortinas. Todas elas aveludadas e grossas.
É sabido que na Espanha, assim  como em toda Europa, os invernos são muito rigorosos e milhares de pessoas acabavam morrendo de frio por serem muito pobres. Os mesmos pobres os quais cuidava São João de Deus.
Observando aquilo, João de Deus disse ao homem que enquanto as janelas de sua casa eram cobertas por cortinas luxuosas, com tecidos finos, os seus pobres morriam de frio por falta de roupas.
O homem sentiu-se tão envergonhado com tal comentário, que mandou que fossem retiradas todas as cortinas da casa e serem entregues a João de Deus.
Ao recebê-las, João de Deus agradeceu-lhe. E imediatamente perguntou ao homem se não gostaria de comprar as tais cortinas, pois estava precisando de dinheiro para os pobres.

ORAÇÃO A SÃO JOÃO DE DEUS

        Senhor, que inflamastes São João de Deus no fogo da caridade para que fosse na terra o Apóstolo dos pecadores, Socorro dos pobres e Saúde dos doentes; no céu o constituístes Alívio dos que sofrem, Padroeiro e Modelo dos profissionais de saúde. Concedei-nos, por sua intercessão, a graça que neste momento vos pedimos, prometendo imitá-lo nas suas virtudes, na construção do Vosso Reino de Paz, Justiça, Amor e Misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo. Amém.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Beata Boleslava Maria Lament, Virgem e Fundadora da Congregação das Irmãs Missionárias da Sagrada Família.


Beata Boleslava Lament
Primeira dos oito filhos do casal Martino Lament e Lúcia Cyganowska, Boleslava Lament, nasceu em 3 de julho de 1862 em Lowicz, Polônia.
Durante sua infância viu com dor a morte de suas irmãzinhas Helena e Leocádia, e do pequeno Martino; era um tempo em que a mortalidade infantil dizimava as crianças, fazendo com que as famílias numerosas perdessem muitos de seus membros. A pequena Boleslava foi marcada irremediavelmente por estas dolorosas experiências.
Depois dos cursos elementar e colegial, Boleslava foi para Varsóvia onde conseguiu o diploma de modista em uma escola de artes e profissões; de volta a Lowicz abriu, junto a sua irmã Estanislava, uma casa de modas, enquanto vivia uma intensa vida espiritual em seu interior.
Em 1884, aos 22 anos, decidiu entrar na Congregação da Família de Maria, que estava se organizando em Varsóvia, na clandestinidade, por causa das perseguições czaristas.
Como religiosa, distinguiu-se pelo dom da oração, do recolhimento, da seriedade e da fidelidade no cumprimento de seus deveres. Depois do noviciado e da profissão dos votos simples, trabalhou como mestra de costura e educadora em muitas casas da congregação, abertas no território do império russo.
Mas, depois de nove anos, antes de pronunciar os votos solenes, teve uma profunda crise que a fez sentir-se insegura de sua vocação naquela congregação, por isto a deixou e voltou para sua casa em Lowicz, com a intenção de entrar em um convento de clausura.
Aconselhada por seu confessor, optou pelas obras de assistência aos sem-teto, atividade que também continuou em Varsóvia, quando a família mudou-se para lá. Para ajudar nos gastos familiares, abriu uma casa de modas com sua irmã Maria.
Logo lhe confiaram a direção de uma hospedagem para os sem-teto, onde também se preocupou em por em ordem a vida ética e religiosa de seus socorridos. Ela os preparava para receber os Sacramentos, visitava os doentes em suas pobres casas ou nos refúgios, cuidava das crianças.
Em 1894, o cólera vitimou seu pai, colocando sobre seus ombros outras responsabilidades familiares; levou consigo sua mãe e seu irmão Estevão, que era aluno do colégio em Varsóvia e que desejava ser sacerdote.
Ingressou na Ordem Terceira Franciscana onde conheceu o Beato Honorato Kozminski (1829-1916), frade capuchinho, fundador de diversas congregações religiosas que trabalhavam na clandestinidade por causa dos acontecimentos políticos que afetavam a Polônia naqueles tempos.
Em 1900, uma vez mais a morte golpeou sua família: aos pés do caixão de seu irmão Estevão, Boleslava Lament prometeu voltar à vida de religiosa. Dois anos depois o Pe. Honorato apresentou-a a uma senhora chegada da Bielorrússia, que buscava religiosas para dirigir a Ordem Terceira e um centro educativo em Mogilev, cidade junto ao Rio Dnieper.
Boleslava, consciente de todas as dificuldades que enfrentaria, aceitou a tarefa e em 1903 partiu para Mogilev, uma cidade de cerca de 40.000 habitantes. No início, morou com Leocádia Gorczynska, que dirigia uma oficina de costura, para ensinar ali essa profissão às meninas das famílias pobres; depois Boleslava alugou uma casa de madeira para convertê-la em sua casa de modas.
Admirada com a laboriosidade de Boleslava, Leocádia Gorczynska decidiu ir viver com ela; em seguida juntou-se a elas Lúcia Czechowska. Neste ponto Boleslava começou a pensar em fundar uma congregação, rigorosamente religiosa, entregue ao apostolado entre os ortodoxos.
Com a ajuda do Padre Félix Wiecinski, que contribuiu diretamente com a fundação, em outubro de 1905 as três mulheres começaram a nova Congregação, chamada inicialmente Sociedade da Sagrada Família, mas que em seguida mudou o nome para Congregação das Irmãs Missionárias da Sagrada Família. Boleslava foi sua primeira superiora.
No outono de 1907, Boleslava mudou-se para Petersburgo com as seis freiras que então formavam a comunidade, onde desenvolveu um ampla atividade educativa, dedicada sobretudo aos jovens, e em 1913 estendeu sua atividade à Finlândia, abrindo um colégio para meninas em Wyborg.
Em Petersburgo empreendeu uma intensa atividade catequética, educativa e assistencial nos bairros mais pobres, se esforçou para criar bom relacionamento entre as alunas e as famílias de diferentes nacionalidades e religiões.
Como consequência das dificuldades geradas pela I Guerra Mundial e o Movimento Bolchevique que tomou o poder na Rússia em outubro de 1917, Boleslava foi obrigada a deixar a Rússia em 1921 e voltar para a Polônia. Tudo isto produziu enormes perdas materiais, também na Polônia; a Congregação vivia pobremente, mas Madre Boleslava Lament, com sua grande fé, se encomendou totalmente à vontade de Deus e paulatinamente aquilo foi sendo superado.
Durante alguns meses, Madre Boleslava dirigiu o trabalho das monjas em Wolynia e, em 1922, fundou uma nova Casa na Pomerânia, na Polônia oriental, onde a população era pobre e a maior parte de religião ortodoxa.
A partir de 1924, começou a abrir outras Casas na arquidiocese de Vilna e na diocese de Pinsk; em 1935 já existiam 33 casas espalhadas por toda Polônia e uma em Roma.
Em 1925, Madre Boleslava foi a Roma para conseguir a aprovação pontifícia de sua Congregação, mas não a conseguiu por falta de clareza sobre as tarefas das irmãs, divididas em dois ramos: apostolado e ensino e direção doméstica das Casas.
Em 1935, Madre Boleslava Maria Lament decidiu renunciar ao cargo de Superiora Geral por graves motivos de saúde, e num acordo com a nova Superiora, se retirou em Bialystok, onde, embora idosa e gravemente doente, se dedicou a abrir escolas, um hospital para mulheres sozinhas e um refeitório para os desempregados.
A II Guerra Mundial gerou novas dificuldades para a idosa Madre Boleslava, incluindo a ameaça nazista; foi obrigada a mudar a forma de atuar, adaptando-se às necessidades da época. Em 1941 foi atacada pela paralisia e se dedicou a uma vida mais ascética, transmitindo preciosos conselhos às suas irmãs de hábito.
Morreu santamente em Bialystok em 29 de janeiro de 1946, aos 84 anos; foi levada para o convento de Ratow e enterrada na cripta da Igreja de Santo Antônio.

A Congregação das Irmãs Missionárias da Sagrada Família está difundida na Polônia, Rússia, Zâmbia, Líbia, EUA e Itália.

                                                                            (Fonte: Heroínas da Cristandade/ santiebeati.it) 

SÃO LUÍS SCROSOPPI, Presbítero e Fundador. Patrono dos Portadores do HIV/AIDS e dos Jogadores de Futebol


Luís Scrosoppi nasce aos 4 de agosto de 1804, em Údine, cidade do Friuli, no Norte da Itália, filho de Domenico Scrosoppi, joalheiro, e de Antônia Lazzarine. Cresce num ambiente familiar rico de fé e caridade cristã. Aos doze anos inicia o caminho do sacerdócio, freqüentando o seminário diocesano de Údine e em 1827 é ordenado sacerdote; ao seu lado estão os irmãos Carlos e João Batista, ambos sacerdotes. 
O ambiente paupérrimo do Friuli de 1800, debilitado pela carestia, guerras e epidemias (principalmente o Tifo e o Sarampo), são para Luís como um apelo para assumir os cuidados dos fracos. dedica-se com outros sacerdotes e um grupo de jovens professoras, à acolhida e à educação das "derelitas", as jovens mais sozinhas e abandonadas de Údine e dos arredores. Para elas coloca à disposição os seus bens, as suas energias, o seu afeto; não economiza nada de si e quando as necessidades são mais constrangedoras vai pedir esmolas: ele tem confiança na ajuda das pessoas e sobre tudo confia no Senhor. A sua vida, de fato, é uma expressão palpável da grande confiança na Providência divina. Assim escreve, a respeito da obra de caridade na qual está envolvido: "A Providência de Deus, que dispõe os ânimos e rende os corações para favorecer as suas obras, foi a única fonte da existência deste Instituto... aquela amorosa Providência, que não deixa confundir quem nela confia". Não perde ocasião para infundir esta confiança e serenidade nas meninas acolhidas e nas jovens senhoras que se dedicam à sua educação. Entre essas senhoras estava Felicita Calligaris, Rosa Martins, Caterina Bros, Cristina e Amália Borghese e Orsola Baldasso. 

Estas são chamadas "mestras" porque são hábeis no trabalho de costura e de bordado, mas são também aptas para ensinar a "escrever, ler e fazer contas", como se costumava dizer. São senhoras de idade e de origem diversas, e em cada uma delas vai amadurecendo a decisão de colocar a própria vida nas mãos do Senhor e de consagrar-se a Ele, servindo-O na família das "derelitas".
Na tarde do dia 1 de fevereiro de 1837, as nove senhoras, como sinal da decisão definitiva, depõem o seu "ouro" e escolhem viver na pobreza e na doação total de si. É nesta simplicidade que nasce a Congregação das Irmãs da Providência, a família religiosa fundada pelo padre Luís. Às primeiras mestras unem-se outras. Existem as ricas e as pobres, as cultas e as analfabetas, as nobres e aquelas de origem humilde: na Casa da Providência há lugar para todas e todas se tornam irmãs.
O fundador as encoraja ao sacrifício e as exorta aos cuidados afetuosos das meninas, que devem considerar a "pupila dos seus olhos". Disse-lhes: "Mais que qualquer outra coisa, estas filhas dos pobres têm necessidade de educar o coração e de aprender tudo o que é necessário para conduzirem honestamente a sua vida". E ainda: "O cansaço, a aplicação, a ocupação contínua e as preocupações fastidiosas para ajudá-las, socorrê-las e instruí-las, não vos desencorajem, sabendo que fazeis tudo isto a Jesus".
Entretanto, Luís vai amadurecendo a necessidade de uma consagração mais total ao Senhor. Está fascinado pelo ideal de pobreza e de fraternidade universal de Francisco de Assis, mas os acontecimentos da vida e da história o conduzirão sobre os passos de São Felipe Neri, o cantor da alegria e da liberdade, o santo da oração, da humildade e da caridade. A vocação "oratoriana" de Luís se realiza em 1846 e na maturidade dos seus 42 anos, torna-se filho de São Felipe: dele aprende a mansidão e a doçura que o ajudarão a ser mais idôneo na função de fundador e pai da Congregação das Irmãs da Providência.
Profundamente respeitoso e atento ao crescimento humano das irmãs e ao seu caminho de santidade, não poupa nem ajudas, nem conselhos, nem exortações. Ele considera atentamente a sua vocação, coloca-lhes a fé à prova, a fim de que se tornem fortes. Não é terno diante da vaidade, do desejo de aparecer, e é severo quando colhe atitudes de hipocrisia e de superficialidade. Porém, que ternura paterna sabe ter frente às fragilidades e à necessidade de compreensão, de apoio e de conforto!
Lentamente se delineia no Padre Luís as características fundamentais de uma vida espiritual centralizada em Jesus Cristo, amado e imitado na humildade e pobreza da sua encarnação em Belém, na simplicidade da vida laboriosa de Nazaré, na completa imolação da cruz sobre o Calvário, no silêncio da Eucaristia. Ainda pelo fato que Jesus disse: "Qualquer coisa que fizestes a um dos meus irmãos menores, o fizestes a mim" é a eles que Pe. Luís dedica a vida de cada dia, com o empenho concreto de "buscar antes de tudo o Reino de Deus e a sua justiça" seguro de que todo o restante será dado a mais, segundo a promessa evangélica.
Todas as obras por ele empreendidas durante a sua vida, refletem esta escolha preferencial para os mais pobres, para os últimos, os abandonados. "Doze casas - havia profetizado - abrirei antes da minha morte" e isto aconteceu. Doze casas nas quais as Irmãs da Providência se dedicam num serviço humilde, empenhativo e alegre às jovens à mercê de si mesmas, aos doentes pobres e transcurados, aos anciãos abandonados.
Todavia, profundamente interessado no cumprimento do bem, Padre Luís não se ocupa somente de suas obras, nas quais as irmãs colaboram com pessoas generosas e disponíveis para dar-lhes uma ajuda. Oferece com entusiasmo o seu apoio espiritual e econômico, também às iniciativas projetadas em Údine por outras pessoas de boa vontade; sustenta toda atividade da Igreja e tem um olhar de particular predileção para os jovens do seminário de Údine, especialmente os mais pobres.Milagrosamente não contraia nenhuma das pestes da época e, ainda em vida, era considerado um homem santo. 
Na segunda metade de 1800, a Itália, região após região vai se unificando. Os acontecimentos políticos e militares desta unificação representam um período particularmente difícil para Údine e todo o Friuli, terra de confim e lugar de fácil passagem entre o norte e o sul da Europa, entre leste e oeste. Uma das conseqüências desta unificação, que aconteceu infelizmente num clima anticlerical, é o decreto de supressão da "Casa das Derelitas" e da Congregação dos Padres do Oratório, de Údine.
Tem início para o Padre Luís uma dura luta para salvar as obras a favor das "derelitas" e consegue, mas não pode fazer nada para impedir a supressão da Congregação do Oratório. A triste situação política consegue assim destruir as estruturas materiais da Congregação do Oratório de Údine, contudo não pode impedir a Padre Luís de permanecer para sempre discípulo fiel de São Felipe.
Já ancião, com a sua habitual abertura de espírito, compreende que é chegado o momento de ceder o timão e o transfere às irmãs com serenidade e esperança. Mantém, todavia, com todas um relacionamento epistolar que contribui para consolidar os laços de afeto e de caridade e, na sua solicitude paterna, jamais se cansa de recomendar a fraternidade e a confiança.
Através da sua comunhão profunda com Deus e os longos anos de experiência, Padre Luís adquiriu sabedoria e intuito espiritual não comuns que lhe permitem ler nos corações; às vezes demonstra também conhecer situações interiores secretas e fatos conhecidos somente da pessoa interessada.
No fim de 1883 é constrangido a suspender toda atividade, as forças começam a diminuir e é atormentado por uma febre constantemente alta. A doença progride de modo inexorável. Recomenda às Irmãs de nada temer" porque foi Deus que fez nascer e crescer a Família religiosa e será ainda Ele que a fará progredir".
Quando sente chegar o fim, deseja saudar a todos. Portanto dirige as últimas palavras às Irmãs: "Depois da minha morte, a vossa Congregação terá muitas tribulações, mas depois renascerá a vida nova. Caridade! Caridade! Eis o espírito da vossa família religiosa: salvar as almas e salvá-las com a Caridade".
Na noite de quinta-feira, 03 de abril de 1884, acontece o seu encontro definitivo com Jesus. Toda Údine e a gente das cidades vizinhas acorrem para vê-lo pela última vez e pedir-lhe a proteção do céu.
Com a sua intercessão a favor dos pequenos, dos pobres, da juventude em dificuldade, das pessoas que sofrem, de quantos vivem situações penosas, padre Luís continua também hoje, a indicar a todos a estrada da união com Deus, da compaixão e do amor e está pronto para acompanhar ainda os passos daqueles que se entregam à Providência de Deus.
Foi beatificado em 04 de outubro de 1981 e canonizado em 10 de junho de 2001, pelo Papa São João Paulo II. 

São Luís Scrosoppi foi proclamado pela Igreja como patrono dos portadores do HIV/AIDS em virtude de ter alcançado, para a sua canonização, a cura extraordinária e inexplicável de um paciente com AIDS em estágio terminal. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

SANTO TOMÁS DE AQUINO, Presbítero Dominicano e Doutor da Igreja.



Ninguém se aproximou da teologia ou da filosofia tomista sem ter haurido nesta fonte a mais excelente doutrina. O nome de São Tomás de Aquino é um marco para todos aqueles que buscam a verdade. Entretanto, nos pormenores de sua vida e em sua extraordinária personalidade descobrimos mais do que um teólogo: um grande santo.

A busca da verdade é tão antiga quanto o próprio homem, e não há um só entre os seres racionais que não deseje possuí-la. Por outro lado, a privação desse excelente bem acaba dando à coletividade humana uma face desfigurada, que se explica pela adesão a falsas doutrinas ou a meias verdades. Nossa sociedade ocidental é um exemplo dessa profunda carência que não encontra nos avanços da técnica nem na fugacidade dos vícios uma resposta satisfatória.


Um menino que buscava o Absoluto

Mas, afinal, o que é a verdade? Esta era uma das perguntas que o pequeno Tomás fazia em seus tenros cinco anos de idade. Segundo um costume da época, sua educação foi confiada aos beneditinos de Monte Cassino, onde ele passou a morar. Vendo um monge cruzar com gravidade e recolhimento os claustros e corredores, puxava sem hesitar a manga de seu hábito e lhe perguntava: "Quem é Deus?" Descontente com a resposta que, embora verdadeira, não satisfazia inteiramente seu desejo de saber, esperava passar outro filho de São Bento e indagava também a ele: "Irmão Mauro, pode me explicar quem é Deus?" Mas... que decepção! De ninguém conseguia a explicação desejada. Como as palavras dos monges eram inferiores à idéia de Deus que aquele menino trazia no fundo da alma!

Foi nesse ambiente de oração e serenidade que transcorreu feliz a infância de São Tomás de Aquino. Nascido por volta de 1225, era o filho caçula dos condes de Aquino, Landolfo e Teodora. Entrevendo para o pequeno um futuro brilhante, seus pais lhe proporcionaram uma robusta formação. Mal podiam imaginar que ele seria um dos maiores teólogos da Santa Igreja Católica e a rocha fundamental do edifício da filosofia cristã, o ponto de convergência no qual se reuniriam todos os tesouros da teologia até então acumulados e do qual partiriam as luzes para as futuras explicitações.


Santo Tomás era dotado de
extraordinária inteligência e virtude
angélica, especialmente, a pureza
do corpo e da alma
A vocação posta à prova

Muito jovem ainda, São Tomás partiu para Nápoles a fim de estudar gramática, dialética, retórica e filosofia. As matérias mais árduas, que custam até aos espíritos robustos, não passavam de um simples joguete para ele. Entretanto, nesse período de sua vida não avançou menos em santidade do que em ciência. Seu entretenimento era rezar nas diversas igrejas e fazer o bem aos pobres.

Ainda em Nápoles Deus lhe manifestou sua vocação. Seus pais desejavam vê-lo beneditino, abade em Monte Cassino ou Arcebispo de Nápoles, entretanto, o Senhor lhe traçara um caminho bem diverso. Era na Ordem dos Pregadores, recém fundada por São Domingos, que a graça haveria de tocar-lhe a alma. São Tomás descobriu nos dominicanos o carisma com o qual se identificou por completo. Após longas conversas com Frei João de São Julião, não duvidou em aderir à Ordem e fez-se dominicano aos catorze anos de idade.

Costuma a Providência Divina solidificar no cadinho do sofrimento as almas às quais confere um chamado excepcional, e São Tomás não escapou à regra. Quando sua mãe soube de seu ingresso nos dominicanos, tomou-se de fúria e quis tirá-lo à força. Fugindo para Paris, com o objetivo de escapar da tirania materna, o santo doutor foi dominado por seus irmãos que o buscavam com todo empenho. Após terem-no espancado brutalmente, procuraram despojá-lo de seu hábito religioso. "É uma coisa abominável - dirá depois São Tomás - querer repreender os Céus por um dom que de lá recebemos".

Assim capturado, levaram-no à mãe, a qual tentou fazê-lo abandonar seu propósito. Na incapacidade de convencê-lo, encarregou suas duas filhas de dissuadir a qualquer preço o irmão "rebelde". Com palavras sedutoras, elas lhe mostraram as mil vantagens que o mundo lhe oferecia, até mesmo a de uma promissora carreira eclesiástica, desde que renunciasse à Ordem Dominicana. O resultado desta entrevista é assombroso: uma delas decidiu fazer-se religiosa e partiu para o convento de Santa Maria de Cápua, onde viveu santamente e foi abadessa. Eis a força da convicção e o poder de persuasão deste homem de Deus!



Confronto decisivo

Farta de vãos esforços, a família tomou uma medida drástica: prendem-no na torre do castelo de Roccasecca, com o intuito de mantê-lo encarcerado enquanto não desistisse de sua vocação. Em completa solidão, o santo passou ali quase dois anos, os quais foram aproveitados para um aprofundamento nas vias da contemplação e do estudo. Os frades dominicanos o acompanhavam espiritualmente através de orações e enviavam com sagacidade livros e novos hábitos que lhe chegavam às mãos por intermédio de suas irmãs.

Como passava o tempo sem o jovem detido esmorecer, seus irmãos - instigados por Satanás - montaram um plano execrável: enviaram à torre uma moça de maus costumes para fazê-lo cair em pecado. Contudo, São Tomás há muito se solidificara na prática de todas as virtudes, e não se deixaria arrastar. Vendo aquela perversa mulher aproximar-se, pegou na lareira um tição em chamas e com ele se defendeu da infame tentadora que fugiu apavorada para salvar a própria pele.

Insigne vitória contra o inimigo da salvação! Reconhecendo nesse episódio a intervenção divina, São Tomás traçou com o mesmo tição em brasa uma cruz na parede, ajoelhou-se e renovou sua promessa de castidade. Comprazidos por tal gesto de fidelidade, o Senhor e sua Mãe lhe mandaram um sono durante o qual dois anjos o cingiram com um cordão celestial, dizendo: "Viemos da parte de Deus conferir- te o dom da virgindade perpétua, que a partir de agora será irrevogável".

Nunca mais São Tomás sofreu qualquer tentação de concupiscência ou de orgulho. O titulo de Doutor Angélico não lhe foi dado apenas por ter transmitido a mais alta doutrina, mas também por ter em tudo se assemelhado aos espíritos puríssimos que contemplam a face de Deus.


Santo Tomás possuía uma
inteligência brilhante.
Possivelmente foi um dos homens
mais inteligentes da história
da Igreja e da humanidade
O aluno supera o mestre

Agora com o assentimento dos seus, São Tomás partiu para consolidar sua formação intelectual em Paris e Colônia. Falava-se muito da pregação que fazia nesta última cidade o bispo Santo Alberto Magno, o mais conceituado mestre da Ordem dos Pregadores. São Tomás rezou, pedindo para conhecê-lo e receber dele as maravilhas da fé, e, para sua alegria, foi atendido. O que Santo Alberto não podia imaginar era que aquele frade despretensioso, de poucas palavras e presença discreta, tivesse tamanha envergadura espiritual.




Certo dia, caiu nas mãos do mestre um trecho escrito por seu aluno. Admirado pela profundidade do conteúdo, pediu a São Tomás para expor a toda a classe aquela temática. O resultado foi uma explanação em tudo surpreendente, na qual os demais alunos comprovaram quão temerário era o juízo pejorativo que faziam de seu companheiro: ele logrou explicitar com mais riqueza, expressividade e clareza que o próprio Santo Alberto.

Daí em diante, a vida do Doutor Angélico foi uma seqüência de sublimes serviços prestados à sagrada teologia e à filosofia. Aos 22 anos de idade interpretou com genialidade a obra de Aristóteles; aos 25, juntamente com São Boaventura, obteve o doutorado na Universidade de Paris. Estes dois arquétipos doutrinários nutriam grande admiração recíproca, a ponto de disputarem afetuosamente, no dia de receberem o título máximo, quem seria nomeado primeiro, cada qual desejando ao outro a primazia.


Não somente era inteligente, mas, sua alma
ardia de amor por Deus e vivia na contemplação
contínua de seus santíssimos Mistérios.
Era na oração que Santo Tomás iluminava
a inteligência extraordinária com a qual
Deus o dotara. 
Obra portentosa

Tão vasta é a obra tomista que a simples enumeração de seus escritos ocupa várias páginas. Formam um total de quase sessenta grandes obras - entre comentários, sumas, questões e opúsculos - das quais não está excluída nenhuma das principais preocupações do espírito humano.

Sua prodigiosa faculdade de memória lhe permitia reter todas as leituras que fizera, entre elas a Bíblia, as obras dos filósofos antigos e dos Padres da Igreja. Todas as oitenta mil citações contidas em seus escritos brotaram espontaneamente de sua capacidade retentora. Nunca precisou ler duas vezes o mesmo trecho. Ao lhe ser perguntado qual era o maior favor sobrenatural que recebera, depois da graça santificante, respondeu: "Creio que o de ter entendido tudo quanto li".

Em suas obras vemos uma incrível acuidade de espírito, um raro dom de formulação e uma superior capacidade de expressão. Costumava resolver quatro ou cinco problemas ao mesmo tempo, ditando para diversos escreventes respostas definitivas às questões mais obscuras. Não sucumbiu ao peso de seus conhecimentos, mas, pelo contrário, os harmonizou num conjunto incomparável que tem na Suma Teológica a mais brilhante manifestação.


Sabedoria e oração

Falar das qualidades naturais do Doutor Angélico sem considerar a supremacia da graça que resplandecia em sua alma seria uma deturpação. Frei Reginaldo, seu fiel secretário, disse tê-lo visto passar mais tempo aos pés do crucifixo do que em meio aos livros.

A fim de obter luzes para solucionar intrincados problemas, o santo doutor fazia freqüentes jejuns e penitências, e não raras vezes o Senhor o atendeu com revelações celestiais. Em certa ocasião, enquanto rezava fervorosamente, pedindo luzes para explicar uma passagem de Isaías, apareceram-lhe São Pedro e São Paulo e esclareceram todas as dúvidas.

Recorria também a Jesus Sacramentado. Às vezes colocava a cabeça no sacrário e rezava longamente. Assegurou depois ter aprendido mais desta forma do que em todos os estudos que fizera. Por seu entranhado amor à Eucaristia, compôs o Pange Lingua e o Lauda Sion para a festa de Corpus Christi: obras-primas jamais superadas.

Um dia, estando imerso em adoração a Jesus Crucificado, o Senhor dirigiu-se a ele com estas palavras:

- Escreveste bem sobre Mim, Tomás. Que recompensa queres?
Nada mais que a Vós, Senhor - respondeu ele.




A recompensa demasiadamente grande

Em 1274 São Tomás partiu para Lion a fim de participar do Concílio Ecumênico convocado pelo Papa Gregório X, mas no caminho adoeceu gravemente. Como não havia nenhuma casa dominicana próxima, foi levado para a abadia cisterciense de Fossanova, onde faleceu a 07 de março, antes de completar cinqüenta anos de idade. Suas relíquias foram transportadas para Toulouse em 28 de janeiro de 1369, data em que a Igreja Universal celebra sua memória.


Ao receber por derradeira vez a Sagrada Eucaristia, disse ele:

"Eu Vos recebo, preço do resgate de minha alma e Viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, vigiei, trabalhei, preguei e ensinei. Tenho escrito tanto, e tão freqüentemente tenho discutido sobre os mistérios da vossa Lei, ó meu Deus; sabeis que nada desejei ensinar que não tivesse aprendido de Vós. Se o que escrevi é verdade, aceitai-o como uma homenagem à vossa infinita majestade; se falso, perdoai a minha ignorância. Consagro tudo o que fiz e o submeto ao infalível julgamento da vossa Santa Igreja Romana, na obediência à qual estou prestes a partir desta vida."

Belo testamento de elevada santidade! A Igreja não tardou em glorificá-lo, elevando-o à honra dos altares em 1323. Na cerimônia de canonização, o Papa João XXII afirmou: "Tomás sozinho iluminou a Igreja mais do que todos os outros doutores. Tantos são os milagres que fez, quantas as questões que resolveu". No Concílio de Trento, as três obras de referência postas sobre a mesa da assembléia foram: a Bíblia, os Atos Pontificais e a Suma Teológica. É difícil exprimir o que a Igreja deve a este seu filho ímpar.
Santo Tomás entre os mais sábios e gloriosos
Doutores da Igreja: Gregório Magno, João
Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho. 
Da fé extraordinariamente vigorosa do Doutor Angélico brotava a convicção profunda de que a Verdade em essência não é senão o próprio Deus, e a partir do momento em que ela fosse proclamada em sua integridade, seria irrecusável e triunfante.  Eis o grande mérito de sua doutrina imortal: ela continua ecoando ao longo dos séculos, pois nada pode abalar a supremacia de Cristo.

Em São Tomás a Igreja contempla a realização plena da oração feita pelo Divino Mestre nos derradeiros momentos que passou nesta terra: "Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. Por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo, para que também sejam santificados na verdade" (Jo 17, 17-19).


(Revista Arautos do Evangelho, Janeiro/2008, n. 73, p. 32 a 35)

SANTO AFONSO DE OROZCO, Presbítero Agostiniano.


Nasceu em Ortopesa, Toledo (Espanha). Era o ano de 1500 e seus pais, católicos fervorosos, puseram-lhe o nome de Afonso ou Alonso em honra de Santo Ildefonso, que tinha sido defensor da virgindade de Maria. Estudou em Talavera de la Reina e serviu como menino de coro na Catedral de Toledo. Teve a música como grande paixão ao longo da sua vida. Enviado a Salamanca para continuar os seus estudos, sentiu-se atraído pelo ambiente de santidade do convento dos Agostinianos, tendo entrado na Ordem, onde fez os primeiros votos em 1523, sendo prior do convento São Tomás de Vilanova.
Depois de ordenado sacerdote, foi nomeado pregador da Ordem, ocupando ainda vários cargos como os de prior e definidor da Província de Castela, a que pertencia. Era duro consigo mesmo, mas cheio de compreensão para com os outros. Pretendeu ser missionário no México, mas o seu estado de saúde não lho permitiu, apesar de ter começado a viagem, em 1547.
Quando era superior do convento de Valladolid, foi nomeado pregador real do imperador Carlos V, depois também de Filipe II, tendo, por esse motivo, transferido a sua residência de Valladolid para Madrid, pois a sede da corte também fora transferida para esta Cidade. Estava-se em 1560. Passou a viver no convento agostiniano, conhecido com o nome de São Filipe, o Real.
Dotado de uma extraordinária popularidade mesmo nos ambientes mais diversos, conseguia aproximar-se de todos, sem distinção. Mereceu a estima do Rei, dos nobres e de grandes personagens da época. A Infanta Isabel Clara Eugênia deixou o seu testemunho favorável no processo de canonização; os escritores Francisco de Quevedo e Lope de Vega fizeram o mesmo.
O conjunto das cartas que escreveu e recebeu mostra a amplitude das suas relações sociais; mas também o povo simples e humilde o estimava e admirava o seu estilo de vida; ele a todos ajudava nas suas dificuldades materiais e morais; gostava ainda de visitar os doentes nos hospitais, bem como os encarcerados.
Apesar de ter fama de uma vida de santidade, pelo que o chamavam "o santo de São Filipe", ele não se sentia confirmado na graça, nem experimentou a vida como um mar de rosas. Com os escrúpulos a atormentarem-lhe o espírito, sentiu fortemente a tentação de abandonar a vida religiosa no período da sua formação; sentiu os atrativos do amor natural, da liberdade, a dificuldade da solidão e o temor das asperezas da vida religiosa.
Escreveu várias obras em língua latina e na castelhana, distinguido-se: Vergel de Oración e Monte de Contemplación, (1544), Desposorio espiritual (1551), Las siete palabras de la Virgen (1556), Bonum certamen (1562), Arte de amar a Dios e al próximo (1568), La corona de Nuestra Señora (1588). Os seus escritos de carácter ascético-místico ressentem-se da sensibilidade da contra-reforma, própria da época, e neles são abundantes as expressões afetivas. Grande devoto de Maria, sentia-se impelido por Ela a escrever.
Dedicou-se, de modo particular, a espalhar o seu amor pela Ordem em que professara, interessou-se pela sua história e espiritualidade, compondo várias obras sobre esses temas: "Instruções para os religiosos", um "Comentário à Regra" e a "Crônica do Glorioso padre e doutor Santo Agostinho, dos santos e beatos e dos doutores da Ordem" são exemplos disso. Renunciou a todos os privilégios que podia auferir da sua posição de pregador régio, participando assiduamente nos atos da comunidade e tendo o comportamento de um simples frade. Fundou ainda dois conventos de agostinianos e três de monjas agostinianas de clausura, transmitindo a todos um testemunho de amor pela vida contemplativa.

Morreu em Madrid a 19 de Setembro de 1591, no Colégio de D. Maria de Aragão, que ele próprio fundara. Foi beatificado por Leão XIII em 1882. Os seus restos mortais conservam-se incorruptos no Mosteiro das Agostinianas em Madrid, chamado do Beato Afonso de Orozco. Foi canonizado por São João Paulo II em 2003. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Beato Guilherme José Chaminade, Presbítero e Fundador (de vários Institutos).



Guilherme José Chaminade nasceu em 8 de abril de 1761, em Perigueux, na França meridional, décimo quarto filho de pequenos comerciantes de estofados, profundamente cristãos, que tiveram a alegria de ver quatro filhos se tornarem sacerdotes . Em 1771, ingressou no seminário onde, aos catorze anos, emitiu os votos primados de castidade, obediência e pobreza. Dois anos depois, com o irmão Luiz Xavier, vestiu o hábito e continuou o estudo de teologia.
Aos vinte e quatro anos, em 1785, recebeu a ordenação sacerdotal. Em 1791, começou o período de terror da Revolução Francesa. Padre Chaminade foi perseguido, por se negar a jurar a chamada Constituição Civil do Clero, onde se devia obediência ao Estado e não à Igreja. Decidiu ir para a cidade de Bordeaux, onde exerceu o sacerdócio clandestinamente, pondo a sua vida em constante perigo. Nesse período conheceu a venerável Marie-Thérèse Charlotte de Lamourous (1754-1836), que se tornou uma das suas mais estreitas colaboradoras e que ele ajudou a fundar a Obra de Misericórdia de Bordeux para a proteção das jovens.
Corajoso e atuante, em 1795, se dedicava a acolher na paróquia os sacerdotes que, por medo, tinham feito o juramento constitucional, mas desejavam se reconciliar com a Igreja. Atendeu neste ministério cerca de cinquenta sacerdotes.
Em 1797, não teve saída, precisou fugir para Saragoça, Espanha, onde permaneceu exilado por três anos, perto do santuário de Nossa Senhora de Pilar. Alí, fortaleceu suas convicções mariano-apostólicas e recebeu a inspiração de fundar uma família de leigos e religiosos dedicados a Maria.
Retornou em 1800 para Bordeaux, onde organizou as novas bases da Congregação Mariana, para ser uma instituição de leigos, que, depois de dez anos, se tornou o primeiro Instituto Secular do mundo. Esforçou-se por dar aos seus membros uma sólida formação religiosa e orientou-os para objetivos apostólicos bem precisos, exortando-os a oferecer à sociedade indiferente e descristianizada o exemplo de um povo de santos, como fizeram os cristãos da Igreja primitiva.
Esta Congregação foi a motivação da sua incansável atividade evangelizadora, orientada para a cristianização da França. Por isto, padre Chaminade foi considerado um precursor da participação ativa dos leigos na vida da Igreja. Em 1801, foi nomeado, pela Santa Sé, missionário apostólico, que para ele constituiu a confirmação oficial das suas intuições sobre a Igreja desse novo tempo.
Nestes anos cuidou também da reorganização da diocese de Bazas, da qual foi nomeado Administrador Apostólico.
Em 1816, juntamente com a Adèle de Batz de Trenquelléon (1789-1828), fundou o Instituto das Filhas de Maria Imaculada e, no ano seguinte, em Bordeaux, fundou a Companhia de Maria. Os seus primeiros membros eram congregados marianos, mulheres e homens, que queriam servir ao Senhor com uma entrega mais radical, como extensão do compromisso do batismo e da sua consagração à Virgem Maria. Com o tempo o nome mudou para Marianistas
Os dois Institutos desenvolveram-se rapidamente na França e, em 1839, receberam o "decretum laudis" do Papa Gregório XVI. Dado que o ensino era uma necessidade prioritária nessa época, os dois ramos de Marianistas dedicaram-se a escolas primárias, secundárias e de artes e ofícios, unindo à educação moral a formação na fé. Nasceram assim algumas escolas, mas a Revolução de 1830 fez com que não prosperassem.
Padre Chaminade se dedicou especialmente a redigir as Constituições das Congregações, do Instituto e importantes circulares sobre a consagração-aliança com Maria e a vida religiosa marianista. 
As comunidades e as obras continuavam a crescer na França, depois na Suíça (1839) e nos Estados Unidos da América (1849). A partir de 1836 as Filhas de Maria Imaculada, pondo em prática o desejo da sua fundadora, falecida em 1828, criaram escolas rurais no sudeste da França, assegurando assim a instrução e educação cristã das jovens e a promoção da mulher.
 Os últimos dez anos da sua vida constituíram para ele um período de dura prova:  dificuldades de saúde, problemas financeiros, defecção de alguns discípulos, incompreensões e desconfianças, obstáculos no exercício da sua missão de fundador. Mas enfrentou tudo com confiança em Maria, fiel à sua consciência e à Igreja. Morreu em paz, em Bordeaux, rodeado de muitos de seus filhos espirituais, no dia 22 de janeiro de 1850. Beatificado em 2000, pelo papa São João Paulo II, Guilherme José Chaminade teve seu culto autorizado para o dia de sua morte.






SÃO TITO, Bispo. Discípulo de São Paulo.

Também discípulo de São Paulo, São Tito era de origem pagã. Juntamente com Sã Timóteo, trabalhou com o apóstolo São Paulo, que os liderou sem lhes tirar o brilho. E deu à eles "a glória de uma perene lembrança", como disse Eusébio de Cesarea no primeiro milênio, e será ainda assim nos outros que se seguirão: toda a Igreja os veneram juntos. Mas suas trajetórias foram diferentes.

As únicas informações concretas nos são dadas pelas cartas do apóstolo Paulo. Tito era grego e pagão. Ainda jovem se converteu ao cristianismo e se tornou companheiro e inestimável colaborador do apóstolo. Quando Paulo disse a Tito: "Isto deves ensinar, recomendar e reprovar com toda autoridade", fez surgir um outro grande evangelizador, que permaneceu trabalhando ao seu lado.

Encarregado pelo apóstolo para executar importantes missões, foi uma vez a Jerusalém para entregar a importância duma coleta em favor dos cristãos pobres. "Meu companheiro e colaborador" como escreveu o apóstolo na segunda carta aos Corintos. Companheiro dos momentos importantes, como a famosa reunião do concílio de Jerusalém, que tratou da necessidade de renovação e diversificação dos ritos devido a evangelização no mundo pagão. Tito, porém, foi também um mediador persuasivo, e entusiasmou Paulo resolvendo uma grave crise entre ele e os Corintos.

Nos anos 64 e 65, tendo sido libertado da prisão romana o apóstolo Paulo foi com ele para a ilha de Creta, onde fundou uma comunidade cristã, que confiou à Tito. Mais tarde, visitou a Paulo em Nicópolis. Voltou novamente à ilha de Creta, onde recebeu uma carta do próprio mestre, Paulo, que figura entre os livros sagrados. Depois, retornou à Roma para se avistar com o apóstolo que o mandou provavelmente evangelizar a Dalmácia, onde seu culto ainda hoje é intenso.

Relatos mais antigos contam que, Tito permaneceu como Bispo de Creta até sua morte, que ocorreu em idade avançada, por causa natural e não por martírio. Ele teria conservado a virgindade até a morte. São Paulo o chama repetidamente "meu companheiro e colaborador", e na segunda carta aos Corintos, num momento de especial amargura, diz: "Deus me consolou com a chegada de Tito".
Sua memória litúrgica é celebrada juntamente com a de São Timóteo, no dia 26 de janeiro.