Páginas

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

SÃO JORGE DA CAPADÓCIA, Mártir



A origem do nome
      
São Jorge nasceu no século III, na Capadócia – atual Turquia – de origem romana. Seu nome original é Georgius. Jorge vem de geos (terra) e orge (cultivar) o que significa, literalmente, "cultivando a terra".



A vida de São Jorge

O Concílio de Nicéia considerou a legenda de São Jorge apócrifa, pois vários fatos relatados são discrepantes e impossíveis de serem confirmados como verídicos. Assim nos relata Jacoppo em sua Legenda Áurea e, de fato, não há muito como mudar essa situação, em virtude da carência de fontes.

Mas o importante é saber que São Jorge realmente existiu e foi um grande exemplo de vida cristã, muito embora não seja mais possível reconstruir todos os seus passos sobre a terra, como podemos fazer com certa facilidade com outros grandes santos antigos, como São Cipriano e Santo Agostinho.
São Jorge era um tribuno romano. As fontes antigas dizem que ele teria sido martirizado na cidade persa de Diáspolis, chamada anteriormente de Lida, perto de outra cidade persa chamada Jope. Essa é a versão do calendário de São Beda. Outras versões dizem que seu martírio ocorreu sob os imperadores Dioclesiano (sem a participação dele) e Maximiano. Outros dizem ainda que teria sido sob o Governador Daciano, nos tempos de Dioclesiano e Maximiano.



As perseguições romanas

O governador Daciano, nos tempos de Dioclesiano, em apenas um mês, martirizou 17 mil cristãos. Esse massacre seria muito maior se não tivesse havido muitos abjurações, em que cristãos amedrontados sacrificaram aos ídolos pagãos, como era a vontade do Imperador.
São Jorge ficou consternado com o que via. Distribuiu tudo que possuía, trocou suas vestes de tribuno pelas humildes vestes dos cristãos e chamou os deuses romanos de demônios, o que enfureceu o Governador. Jorge identificou-se a Daciano como vindo de nobre estirpe da Capadócia, que, com a ajuda de Deus, havia submetido a Palestina, mas que deixaria tudo para seguir ao Deus do Cristo.
Daciano mostrou toda a sua “civilidade” romana ao ouvir a declaração de Jorge. Mandou-o suspender no potro (um instrumento de tortura romano que recebeu esse nome por ser parecido com um cavalo) e que seus membros fossem dilacerados com garfos de ferro.  Para complementar, mandou ainda que Jorge fosse queimado com tochas e suas feridas salgadas. Na noite seguinte, o Senhor apareceu a São Jorge e o confortou de forma tal que os tormentos pelos quais passou pareciam não ter acontecido, pois mesmo alquebrado, Jorge permanecia fiel e sereno.

Um mágico foi convocado por Daciano, que julgava que os cristãos, na verdade, eram embusteiros, como ele o era. O mágico prometeu ao governador que dobraria São Jorge ou perderia sua cabeça (literalmente).  Envenenou vinho e deu para São Jorge beber. Fazendo o sinal da cruz sobre a bebida, o santo a tomou e nada lhe aconteceu. O mago se lançou aos pés de Jorge e pediu para tornar-se cristão. Foi decapitado em seguida.
A “farra” de Daciano continuou. Jorge foi colocado na roda de espadas, que quebrou e nada lhe ocorreu. Foi mergulhado em um caldeirão de chumbo derretido e retirado de lá como quem sai de um banho quente.
Daciano viu que, por mais que tentasse, não conseguia seu intento. Então, tentou comprar Jorge e, com mansidão, procurou convertê-lo ao paganismo. Fingindo entrar no seu jogo, Jorge concordou. A cidade então compareceu ao templo para ver o impenitente abjurar. São Jorge então caiu de joelhos e pediu a Deus que castigasse os pagãos. O templo, seus deuses e seus altares foram destruídos por uma chuva de enxofre e os sacerdotes quedaram mortos.
Alexandrina, esposa de Daciano, vendo o sofrimento de Jorge e as crueldades de seu marido, resolveu abraçar a cruz, o que lhe custou a vida. Seu marido mandou pendurá-la pelos cabelos e surrá-la duramente. Durante esse martírio, temeu Alexandrina o fato de não ter sido banhada nas águas batismais. Jorge acalmou-lhe o coração e disse-lhe que seu sangue mártir seria seu batismo. E assim foi.


A Morte de São Jorge

No dia seguinte à morte de Alexandrina, Jorge foi condenado pelo governador a ser arrastado por toda a cidade e, ao final, ser decapitado.
Ele orou a Deus pedindo que todos aqueles que implorassem pedindo a assistência divina, por onde ele passasse teriam seus pedidos atendidos. A voz divina concedeu o seu pedido.  Terminada a horrenda tortura, São Jorge teve a cabeça decapitada. Era o ano de Nosso Senhor de 247.
Daciano não ficou sem castigo: nesse mesmo dia, o fogo do céu caiu sobre ele e sobre sua guarda pessoal, matando-os instantaneamente.

São Jorge da Capadócia, rogai por nós!




Disseminação da devoção a São Jorge

Na Itália, era padroeiro da cidade de Gênova. Frederico III da Alemanha dedicou a ele uma Ordem Militar. Desde Dom Nuno Álvares Pereira, o santo é reconhecido como padroeiro de Portugal e do Exército. Na França, Gregório de Tours era conhecido por sua devoção ao santo cavaleiro; o Rei Clóvis dedicou-lhe um mosteiro, e sua esposa, Santa Clotilde, mandou erguer várias igrejas e conventos em sua honra. A Inglaterra foi o país ocidental onde a devoção ao santo teve papel mais relevante.

O monarca Eduardo III colocou sob a proteção de São Jorge a Ordem da Jarreteira, fundada por ele em 1330. Por considerá-lo o protótipo dos cavaleiros medievais, o rei inglês Ricardo I, comandante de uma das primeiras Cruzadas, constituiu São Jorge padroeiro daquelas expedições que tentavam reconquistar a Terra Santa dos muçulmanos. No século XIII, a Inglaterra já celebrava o dia dedicado ao santo e, em 1348, criou a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge. Os ingleses acabaram por adotar São Jorge como padroeiro do país, imitando os gregos, que também trazem a cruz de São Jorge na sua bandeira.

Ainda durante a Grande Guerra, muitas medalhas de São Jorge foram cunhadas e oferecidas aos enfermeiros militares e às irmãs de caridade que se sacrificaram ao tomar conta dos feridos de guerra.

As artes, também, divulgaram amplamente a imagem do santo. Em Paris, no Museu do Louvre, há dois quadros famosos de Rafael intitulados São Jorge e o dragão. Na Itália, existem diversos quadros célebres, como um de autoria de Donatello.

A mais conhecida imagem brasileira de São Jorge seria, possivelmente, de autoria de Martinelli.


Padroeiro da Inglaterra

Não há consenso, porém, a respeito da maneira como teria se tornado padroeiro da Inglaterra. Seu nome era conhecido pelos ingleses e irlandeses muito antes da conquista normanda, o que leva a crer que os soldados que retornavam das cruzadas influíram bastante na disseminação de sua popularidade. Acredita-se que o santo tenha sido escolhido o padroeiro do reino quando o rei Eduardo III fundou a Ordem da Jarreteira, também conhecida como Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, em 1348. De acordo com a história da Ordem da Jarreteira, Rei Artur, no século VI, colocou a imagem de São Jorge em suas bandeiras. Em 1415, a data de sua comemoração tornou-se um dos feriados mais importantes do país.

Hoje em dia na Inglaterra, todavia, a festa de São Jorge comemorada todo dia 23 de abril tem tido menos popularidade ao longo das últimas décadas. Algumas rádios locais, como a BBC já chegaram a promover enquetes perguntando qual seria, de acordo com a opinião pública, o orago dos ingleses, e eis que o eleito foi Santo Alba. Muitos fatores contribuíram a isso. Primeiramente por ter sido substituído, segundo bula do Papa Leão XIII de 2 de junho de 1893, por São Pedro como padroeiro da Inglaterra — recomendação que perdura até hoje.

Posteriormente, pelas reformas do Papa Paulo VI, São Jorge foi rebaixado a santo menor de terceira categoria (segundo hierarquia católica), cujo culto seria opcional nos calendários locais e não mais em caráter universal. No entanto, a reabilitação do santo como figura de primeira instância, e arcanjo, lembrando a figura do próprio Jesus Cristo, pelo Papa João Paulo II em 2000, conferiu nova relevância a São Jorge. Atualmente, haja vista a grande popularidade e apelo turístico de festas como a escocesa St. Andrew's Day, a irlandesa St. Patrick's Day e mesmo a galesa St. Dave's Day, têm-se formado grande iniciativa de setores nacionalistas para que o St. George's Day volte a gozar da mesma popularidade entre os ingleses como antigamente.


Padroeiro de Portugal

Pensa-se que os Cruzados ingleses que ajudaram o Rei Dom Afonso Henriques a conquistar Lisboa, em 1147 terão sido os primeiros a trazer a devoção a São Jorge para Portugal. No entanto, só no reinado de Dom Afonso IV de Portugal que o uso de "São Jorge!" como grito de batalha se tornou regra, substituindo o anterior "Sant'Iago!".
O Santo Dom Nuno Álvares Pereira, Condestável do Reino, considerava São Jorge o responsável pela vitória portuguesa na batalha de Aljubarrota e aí está a Ermida de São Jorge a testemunhar esse facto. O Rei Dom João I de Portugal era também um devoto do Santo, e foi no seu reinado que São Jorge substituiu Santiago maior como padroeiro de Portugal. Em 1387, ordenou que a sua imagem a cavalo fosse transportada na procissão do Corpus Christi.
Assim, séculos mais tarde, chegaria ao Brasil.



Padroeiro da Catalunha

A presença documental da devoção a São Jorge em terras catalãs remonta ao século VIII: documentos da época falam de um sacerdote de Tarragona chamado Jorge que fugiu para a Itália. Já no século X, um bispo de Vic tinha o nome de Jorge, e no século XI o abade Oliba consagrou um altar dedicado ao santo no mosteiro de Ripoll. Encontram-se exemplos do culto a São Jorge dessa época, na consagração de capelas, altares e igrejas em diversos pontos da Catalunha. Os reis catalães mostraram a sua devoção a São Jorge: Tiago I de Catalunha explica em suas crônica que foi visto o santo ajudando os catalães na conquista da cidade de Malorca; Pedro o Cerimonioso fundou uma ordem de cavalaria sob a sua proteção; Afonso, o Magnânimo dedicou-lhe capelas nos reinos da Sardenha e Nápoles.

Os reis e a Generalidade da Catalunha impulsionaram a celebração da festa de São Jorge por todas as regiões catalãs. Em Valência, em 1343, já era uma festa popular; em 1407, Mallorca celebrava-a publicamente. Em 1436, a Generalidade da Catalunha propôs, nas côrtes reunidas em Montsó, a celebração oficial e obrigatória de São Jorge; em 1456, as côrtes reunidas na Catedral de Barcelona ditaram uma constituição que ordenava a festa, inclusa no código das Constituições da Catalunha. As remodelações do Palácio da Generalidade (sede do governo catalão) feitas durante o século XV são a prova mais clara da devoção impulsionada por esse órgão público, ao colocar um medalhão do santo na fachada gótica e ao construir no interior a capela de São Jorge.

A lenda do dragão

Essa é a parte que o povo gosta. Às margens de um lago grande como um mar escondia-se uma enorme e pestilento dragão, que aterrorizava a população local.
Para impedi-lo de procurar alimentos na cidade, os moradores ofereciam em holocausto à fera um tributo de duas ovelhas por dia. Mas em pouco tempo passou a faltar ovelhas e, para compensar o bicho, passaram a oferecer uma ovelha e um humano – um rapaz ou uma moça. Só que, depois de algum tempo, também passou a faltar gente, e o sorteio designou a filha do rei para ser entregue ao monstro.
Desesperado o rei implorou ao povo que não oferecesse ao dragão sua filha, só que o povo manteve-se irredutível. O rei apenas conseguiu um prazo de oito dias para prantear sua amada filha. Depois desse período, nada podendo fazer, contra a turba enlouquecida, o rei entregou sua filha ao seu destino e ela dirigiu-se ao lago onde habitava a fera.
Narra a lenda que Jorge passava casualmente pelo local e viu a jovem princesa chorando às margens do lago. Ao longe, a galera, como não podia deixar de ser, esperava para ver o bicho vir cobrar seu tributo (devia ter gente vendendo pipoca e cachorro-quente). A jovem avisou ao Santo que ele deveria sair correndo o mais rápido possível dali. São Jorge insistiu para que ela explicasse o quê estava acontecendo, enquanto isso, o monstro surgiu, vindo de dentro do lago. O Guerreiro montou em seu cavalo, fez o sinal da cruz e, recomendando-se a Deus, atingiu o monstro na cabeça com força, fazendo-o cair no chão.
Em seguida, Jorge mandou que a princesa colocasse seu cinto no pescoço do dragão, sem medo. Depois disso, o bicho começo a segui-la como segue um cão manso, seu cinto servindo de coleira guia.  Ambos então foram para a cidade, e o povo entrou em pânico ao ver o cavaleiro, a dama e o dragão. São Jorge tratou de acalmá-los, exortando as pessoas a aceitarem o Salvador através do batismo. A cidade toda o fez. Fato consumado, em seguida, São Jorge matou o dragão. Sem contar mulheres e crianças, 20 mil homens foram batizados.
Em homenagem a Maria e ao beato Jorge, o Rei mandou construir na cidade uma enorme igreja, sob cujo altar surgiu uma fonte de água curativa para todos os enfermos. O rei ofereceu a São Jorge muito dinheiro, mas o santo não aceitou e mandou que o rei o distribuísse aos pobres. Ao rei, Jorge deixou ainda quatro conselhos: cuidas das igrejas, honrar os padres, ouvir com atenção o ofício divino e nunca esquecer os pobres. Em seguida, beijou o rei e foi embora.


Beato Afonso Maria do Espírito Santo (Afonso Mazurek), Carmelita Descalço e Mártir.


No dia 13 de junho de 1999, o Papa São João Paulo II, quando de sua viagem apostólica à Polônia, beatificou 108 mártires poloneses da Segunda Guerra Mundial, vítimas da perseguição nazista. No grupo, no qual se encontram três bispos, 52 sacerdotes diocesanos, 26 religiosos sacerdotes, oito irmãos religiosos, oito religiosas, nove leigos e dois seminaristas, encontrava-se um Carmelita Descalço, frei Afonso Maria do Espírito Santo (Mazurek).
 Nascido no dia 1º de março de 1891, em Baranówka, na Polônia, ingressou no Carmelo Descalço em Wadowice, no ano de 1908. Fez sua profissão solene em 1912. A partir de 1914, prosseguiu seus estudos na Áustria, por causa da guerra. Ordenou-se sacerdote em Viena, no dia 16 de julho de 1916. Até 1930 dedicou-se à formação inicial dos futuros religiosos carmelitas no Seminário Menor de Wadowice. Eleito Prior do convento de Czerna, cumpriu esta missão até ser executado pelos nazistas.



O Martírio

 Quase ao final da segunda guerra mundial, em agosto de 1944, aumentaram a hostilidade dos nazistas e suas perseguições na Polônia. Os Carmelitas do convento de Czerna sofreram na pele a violência daqueles que ocupavam o território polonês desde 1939.
Em 24 de agosto de 1944, o noviço Frei Francisco Powiertowski foi fuzilado. Quatro dias depois, o comando militar nazista invade o convento, obrigando os religiosos a dirigir-se à aldeia de Rudawa, a cerca de dez quilômetros, para escavar trincheiras. O prior, Frei Afonso Maria, foi separado dos confrades e obrigado a subir em um carro dos militares, sendo logo brutalmente torturado e maltratado por eles. Três quilômetros antes de chegar a Krzeszowice, o carro onde se encontrava  Frei Afonso desviou-se para uma estrada secundária, nas imediações do povoado de Nawojowa Góra. O automóvel parou em um prado e o Padre foi obrigado a descer e a caminhar. Em seguida dois soldados chamaram-no aos gritos. Quando ele voltou-se para atendê-los dispararam sobre ele. Frei Afonso caiu ao chão. Os assassinos aproximaram-se dele e ao constatarem que ainda vivia encheram sua boca de terra. Ferido e desfalecido foi conduzido numa carroça ao cemitério de Rudawa, distante a três quilômetros. Os Carmelitas, que se dirigiam para as escavações em Czerna, encontraram a carroça no caminho e descobriram Frei Afonso moribundo. Um dos sacerdotes ainda pôde-se ministrar-lhe a absolvição. Era o dia 28 de agosto, vigília da memória litúrgica do martírio de São João Batista, de quem o Carmelita era grande devoto.
 No dia 2 de setembro de 1945, a comunidade de Czerna ergueu um monumento do local da execução. Na epígrafe expressou a certeza de seu martírio, apresentando-o como um dom de amor: "Venceste com a vitória de Deus...".


Reconhecimento canônico dos restos mortais do então
Servo de Deus Frei Afonso Mazurek







Em 1976, durante o regime comunista na Polônia, foi celebrada uma missa junto ao monumento, com a participação de grande número de fiéis, que pediam ao governo permissão para ali construir uma igreja. A permissão foi concedida.  Um carmelita, que testemunhou o martírio de Frei Afonso, assim declarou: "Para mim, o Servo de Deus é um mártir. Não havia nenhum motivo para ser fuzilado. Meus conhecidos de Czerna e arredores são da mesma opinião... Foi um religioso exemplar, um homem de fé profunda. O martírio foi o coroamento de sua vida".


Bem-aventurado Afonso Mazurek,  rogai por nós!


SANTA CLÉLIA BARBIERI, Virgem e Fundadora das Irmãs Mínimas de Nossa Senhora das Dores (é a mais jovem fundadora da Igreja)


Clélia Barbieri nasceu no dia 13 de fevereiro de 1847, no bairro popularmente chamado de "Budrie", pertencente a São João in Persiceto, Arquidiocese de Bolonha, filha de José Barbieri e Jacinta Nannetti.
     Os pais eram de diferentes classes sociais: José Barbieri veio das mais pobres famílias de "Budrie", enquanto Jacinta era das mais proeminentes famílias; ele, criado do tio de Jacinta, o médico local; ela, filha do abastado Pedro Nannetti. Jacinta, abastada, abraçou a pobreza de um operário e, deixando uma casa rica, passou a viver na humilde casa de Santo Barbieri, pai de José, mas eles construíram uma família sobre a rocha da fé e da prática cristã.
     O batismo foi administrado no mesmo dia de seu nascimento, e segundo o desejo expresso da mãe, a criança recebeu o nome de Clélia Rachel Maria.
     Jacinta ensinou a pequena Clélia a amar a Deus, a tal ponto que logo ela desejou ser santa. Um dia ela perguntou: "Mamãe, como posso ser santa"?
     A seu tempo, Clélia aprendeu a arte de costurar, de fiar e tecer o cânhamo, o produto característico da região.
     Aos 8 anos, durante a epidemia de cólera de 1855, Clélia perdeu o pai. Com a morte do pai, graças à generosidade do tio médico, a mãe, a irmã mais nova de Clélia, Ernestina, e ela foram viver em uma casa mais acolhedora, perto da igreja paroquial.
     Para Clélia os dias se tornaram mais santificados. Quem a quisesse encontrar, invariavelmente a achavam em casa fiando ou cozinhando, ou na igreja rezando.
     Foi por esta época, Domingo de Ramos de 1857, que a Divina Providência fez chegar ao povoado o Padre Gaetano Guidi, que devia substituir o pároco falecido. Ele tomou para si o encargo de guiar Clélia na estrada da santidade.
     Embora fosse comum naquele tempo a pessoa se aproximar da Comunhão quase adulta, Clélia, devido sua precoce preparação eucarística e espiritual, foi admitida à Primeira Comunhão no dia 24 de junho de 1858, com onze anos.
     Foi o dia decisivo para o seu futuro, porque viveu a sua primeira experiência mística: uma contrição excepcional de seus próprios pecados e dos pecados dos outros. Pesou sobre ela a angústia do pecado que crucificou Jesus e fez sofrer Nossa Senhora. No dia da Primeira Comunhão, o Crucificado e Nossa Senhora das Dores inspiraram sua espiritualidade. Foi também daquele tempo uma intuição interior do seu futuro na dúplice linha: contemplativa e ativa.
     Diante do tabernáculo, em adoração, parecia uma estátua imóvel, absorta em oração; em casa era a maior companheira das jovens obrigadas a trabalhar. Com maturidade precoce, ela percebia ser o trabalho o modo de se aproximar das jovens, pois no “Budrie” o trabalho, especialmente no cânhamo, era a única fonte de sobrevivência.
     O Padre Gaetano Guidi, vendo a extraordinária capacidade de Clélia e sua maneira esplêndida de atrair as almas para Deus, resolveu iniciar na paróquia um movimento da juventude feminina que se difundia naqueles tempos na Itália: as Filhas de Maria. Em torno de Clélia, em sua casa e sob o olhar maternalmente vigilante de Jacinta, as jovens da paróquia se reuniam.
     Clélia era a alma das orações em comum, a guia na formação espiritual das jovens, a amiga e a confidente de todas, a incansável animadora de um serviço ao próximo.
     Acolhem as meninas ensinando-as a rezar, a trabalhar: cozinhar e tecer, ler e estudar. Visitam os doentes pobres da região e cuidam deles. Ensinam o catecismo e levam os pequenos à igreja para freqüentar os Sacramentos. Promovem e animam a oração dos adultos na igreja paroquial. Procuram, em particular, atrair a juventude fazendo-a desejar as coisas santas.
     Já eram quatro as amigas mais íntimas de Clélia, e um dia ela manifesta às companheiras a sua idéia: “Por que não fazemos nós o nosso convento? Nós já somos quatro! Depois, se outras jovens pobres tiverem os mesmos desejos, nós as acolhemos!” Elas não têm dinheiro, nada. Mas Clélia e Úrsula, Teodora e Violante voltam para casa com o olhar mais brilhante diante de um futuro cheio de esperança.
     Seria um núcleo de jovens voltadas para a vida contemplativa e apostólica; um serviço que devia brotar da Eucaristia, se consumar na Comunhão diária e sublimar-se na instrução dos camponeses e operários do lugar.
     A idéia não pode se concretizar logo devido aos acontecimentos políticos depois da unidade da Itália de 1866-67.
     Foi possível realizá-la no dia 1º de maio de 1868; e após resolverem as questões burocráticas, Clélia com suas amigas puderam ocupar a casa dita do mestre, onde até então se reuniam os Operários da Doutrina Cristã. Foi o início humilde da família religiosa de Clélia Barbieri, que os superiores chamaram de “Irmãs Mínimas de Nossa Senhora das Dores”.
     Mínimas, devido a grande devoção que Clélia tinha por São Francisco de Paula, patrono e protetor da comunidade nascente; de Nossa Senhora das Dores, porque Ela era muito venerada no “Budrie” e porque era o título de Nossa Senhora preferido de Clélia.
     Depois, na “Casa do mestre” aconteceram fatos extraordinários que atestavam o favor da Providência pela pequena comunidade, que de outra forma não teria perseverado. Clélia passou por sofrimentos físicos e morais na noite escura do espírito e na humilhação mais incompreensível por parte de pessoas que deveriam compreendê-la. A sua fé, porém era sempre proverbial como seu recolhimento na oração.
     Na pequena comunidade se respirava um clima de fé, uma verdadeira fome e sede de Deus, um instinto missionário cheio de criatividade e de fantasia. Clélia era a sua alma.
     O grupo inicial aumentou e, ao seu redor, também o número de pobres, de doentes, de moços e moças a catequizar e a instruir.
     Pouco a pouco as pessoas viram Clélia num papel de guia, de mestra na fé. Apesar de seus 22 anos, começaram a chamá-la de “Mãe”. A chamaram assim até a morte, que veio logo... A tuberculose, que a acompanhava de forma incubada, explodiu violenta somente dois anos após a fundação.

     Clélia morreu profetizando: “Eu vou, mas não as abandonarei jamais. Vede, quando lá, naquele campo de erva medicinal próximo da igreja, surgir a nova casa, eu não estarei mais aqui. Vocês crescerão em número e se espalharão na planície e pelo monte, a trabalhar na vinha do Senhor. Virá dia que aqui no “Budrie” acorrerá tanta gente, com carroças e cavalos...”. E acrescenta: “Vou para o Paraíso e todas as Irmãs que morrerem na nossa família terão a vida eterna”.
     A morte a colheu no dia 13 de julho de 1870. Tinha 23 anos, 4 meses, 28 dias.
     No dia 13 de julho de 1871, primeiro aniversário de sua morte, Úrsula e as outras Irmãs estavam em oração no pequeno aposento em que Madre Clélia expirara santamente. Têm no coração amor, gratidão e saudades dela, e desejariam que estivesse entre elas como antes. Eis que durante a oração uma voz celeste, dulcíssima, as acompanha e as enche de alegria. Úrsula de repente a reconhece: “É Madre Clélia! Está conosco como havia prometido!”

     Daquele dia em diante, até os dias atuais, a doce voz acompanha milagrosamente suas filhas em oração em qualquer parte do mundo em que elas estejam. Sua voz é ouvida acompanhando as Irmãs nos hinos, nas leituras religiosas, em suas conversas. Acompanha o sacerdote durante a celebração da Missa e é ouvida com freqüência durante os sermões.

    A obra de Santa Clélia foi aprovada por Decreto Pontifício em 20 de março de 1934. Paulo VI a beatificou em 27 de outubro de 1968; no dia 9 de abril de 1989 foi canonizada por João Paulo II.
     Santa Clélia Barbieri pode ser considerada a Fundadora mais jovem da Igreja. É padroeira dos catequistas da região de Emilia - Romagna, Itália.


Santa Clélia na glória intercedendo pelos sofredores. 


     A profecia de Clélia se realizou: a Congregação das Irmãs Mínimas da Dolorosa está presente na Itália, na Índia, na Tanzânia. No Brasil, em Salvador, Bahia, há uma Comunidade de quatro Irmãs que se dedicam à educação cristã de crianças, jovens e mulheres, entre outras atividades paroquiais.
     As Irmãs que vivem à imitação de Santa Clélia são hoje em torno de trezentas, distribuídas em 35 casas.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

SÃO MANUEL GONZÁLEZ GARCÍA, Bispo, grande devoto e apóstolo da Adoração Eucarística.


São Manuel González, o "Bispo
dos Sacrários Abandonados". 
São Manuel González García nasceu na cidade de Sevilha em 25 de fevereiro de 1877, tendo adormecido no Senhor em 04 de janeiro de 1940. Fez o curso do Seminário na sua diocese e também a licenciatura e o doutoramento em Teologia. Foi ordenado sacerdote em 21 de setembro de 1901, e, pouco depois, veio a fazer a licenciatura em Direito Canônico.
Nos primeiros anos de sacerdócio, colaborou com o Cardeal Arcebispo de Sevilha, o Beato Marcelo Spíndola, na fundação do diário diocesano, em que escrevia regularmente. Ao mesmo tempo, era capelão do Asilo das Irmãzinhas Pobres e percorria a arquidiocese em trabalhos de pregação. Uma destas saídas haveria de marcar toda a sua vida. Com efeito, nos primeiros dias de fevereiro de 1902, foi pregar em uma paróquia abandonada e sem prática religiosa, Palomares del Rio, junto ao Guadalquivir. Aqui, na sua oração diante do sacrário pobre e abandonado da igreja paroquial, sonhou vir a ser pároco duma aldeia que não amasse Jesus Cristo, para O fazer amado e acompanhado no sacrário. Em 1905 é destinado a Huelva, uma cidade descristianizada e anticlerical, enão pertencente à Arquidiocese de Sevilha, com cerca de vinte mil habitantes; aqui exerceu o ministério como pároco de São Pedro e, três meses depois, também como arcipreste.
Dotado de um notável carisma catequético e eucarístico, desenvolveu intensa atividade de pregação em todos os setores: homilias muito bem preparadas, uma esmerada catequese das crianças e, ainda, a pregação de rua, conversando com todas as pessoas que encontrava no caminho. Começa por cuidar a formação dos que estavam mais perto, para poder vir a chegar aos que estavam mais longe. Dá grande importância aos Sacramentos da Eucaristia, como centro da vida cristã, e da Penitência, com horário de confessionário todos os dias, logo de madrugada.
Criou uma série de escolas nos diversos bairros, que ele considerava “a obra principal para a regeneração de Huelva”. A sua ação no campo social foi notável, a atenção que prestou aos pobres e excluídos, inclusive ciganos. Veio a ter intervenções importantes nas Semanas Sociais Espanholas. A sua atuação tornou-se conhecida em toda a Espanha, não faltando críticas e incompreensões, inclusive a contradição dos bons. No dia 04 de março de 1910 funda a obra das “Marias do Sacrário”, numa evocação das Três Marias que acompanharam Jesus até o Calvário, quando todos os amigos O abandonaram. Depois, congregou nesta obra eucarística também os homens, os “Discípulos de São João”, e, por fim, as crianças. A obra estendeu-se rapidamente por toda a Espanha e passou para muitos países, como uma Pia União, que veio a tomar o nome de União Eucarística Reparadora (UNER). Em poucos anos, esta obra contava com mais de 70.000 membros. O padre Manuel, sem descurar a sua paróquia, percorreu toda a Espanha, no seu afã de “eucaristizar”, um neologismo que inventou para designar, como dizia, “a ação de fazer enlouquecer todo um povo por amor ao Coração Eucarístico de Jesus”.
Em 1915, o padre Manuel é nomeado Bispo auxiliar de Málaga, Administrador Apostólico em 1917 e Bispo residencial em 1919. A sua ação é notável tanto no campo da evangelização, como da ação social. Mas, a sua prioridade foram os sacerdotes, a formação sacerdotal, as vocações e o Seminário. O novo Seminário de Málaga é uma das suas grandes obras, quer a sua construção material, quer, sobretudo, o nível e a qualidade de formação ali promovida, tanto espiritual, como doutrinal e apostólica; queria que ali se formassem “sacerdotes-hóstias”, para servirem a Igreja desinteressadamente, num sacerdócio que fosse não um “ganha pão”, mas, “ganha almas”. Em pouco tempo, teve a alegria de ver quintuplicar o número dos seus seminaristas. Para consolidar a Obra, que já se estendia por toda a parte, em 1921 criou, com a ajuda da sua irmã Maria Antônia, uma congregação religiosa que veio tomar o nome de Missionárias Eucarísticas de Nazaré.
A proclamação da 2ª República, em 1931, com o horrendo cortejo de incêndios de igrejas, conventos e colégios católicos (só em Málaga foram queimadas 40 igrejas), deu aso a que o santo bispo fosse perseguido. Viu o seu paço episcopal assaltado e incendiado e teve de procurar refúgio fora da diocese, continuando a governa-la desde Gibraltar e Madrid. Durante o seu exílio em Madrid, o jovem sacerdote, fundador do Opus Dei, São Josémaria Escrivá, lidou com ele, a quem considerava um santo. O ponto nº 531 de “Caminho”: “tratai-o bem (a Jesus Eucarístico), tratai-o bem! Dizia entre lágrimas, um prelado, de joelhos, aos novos sacerdotes que acabava de ordenar”... refere-se a quando Dom Manuel, cedendo às instâncias de Dom Leopoldo Eijo y Garay, ordenou 14 sacerdotes da diocese madrilena, em 15 de junho de 1935; no fim, já na sacristia, com estes dispostos em duas filas, pôs-se de joelhos e beijou as mãos recém consagradas de cada presbítero, enquanto lhes dizia, banhado em lágrimas: “trai-O bem, tratai-O bem”!

Impossibilitado de regressar à sua Málaga querida, aceitou por obediência ser nomeado Bispo de Palência. Embora debilitado, aqui continuou a sua missão, até que, minado por tantos sofrimentos e pela doença, adormeceu santamente no Senhor, em Madrid, no dia 04 de janeiro de 1940, na Clínica Nossa Senhora do Rosário. Foi transladado para a catedral de Palência, onde seu corpo foi recebido por multidões de fiéis, com a veneração que se presta aos Santos. Atualmente repousa num túmulo de pedra construído debaixo do sacrário da catedral palentina, para assim, segundo seu desejo, continuar repetindo a todos: “Jesus está aqui! Está aqui! Não O deixeis abandonado”


São Manuel González, rogai por nós! Que possamos
imitar-vos em vosso amor e devoção eucarísticos! 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

SANTA FILOMENA, Virgem e Mártir




No dia 25 de maio de 1802, os ossos de uma mulher entre 13 e 15 anos foi descoberto no cemitério de Santa Priscila, nas escavações das catacumbas em Roma. Uma inscrição próxima ao túmulo dizia “A paz seja contigo, Filomena”, junto com inscrições de uma âncora, três flechas e uma palma. Próximo aos ossos foi descoberto um vaso de vidro com um depósito de sangue ressequido. Por ser costume dos primeiros mártires deixar símbolos e sinais como estes, foi facilmente determinado que Santa Filomena havia sido uma virgem mártir.
                                                                      
No reinado do Papa Pio VII, quando foram encontradas essas relíquias, o padre Francisco de Lúcia, da cidade de Mugnano delle Cardinale (Itália), desejou levar as relíquias de um santo para sua paróquia e foi à Santa Sé em Roma para solicitá-las.

Quando estava na Capela do Tesouro (onde ficavam as sagradas relíquias), dentre tantas apenas três possuíam nomes: um adulto, uma criança e Santa Filomena. Quando ajoelhou-se diante das relíquias de Santa Filomena, sentiu-se possuído de uma alegria espiritual jamais experimentada. Sentiu também um incontrolável desejo de levar aquelas Sagradas Relíquias para sua igreja em Mugnano.

Terminada essa visita, dirigiu-se ao Sr. Bispo de Potenza e ficou sabendo então que precisaria de uma graça muito especial, ou talvez um milagre. Não havia precedentes de a Santa Sé haver confiado tão preciosos tesouros à guarda de um simples sacerdote. E nesse caso seria praticamente impossível, por se tratar das relíquias de uma virgem mártir cujo nome era conhecido.

Tendo caído gravemente enfermo, padre Francisco recorreu ao auxílio de Santa Filomena, prometendo tomá-la como especial padroeira e levar suas relíquias para Mugnano, caso obtivesse autorização para tanto. Curado milagrosamente, retornou então à Santa Sé narrando a graça alcançada e obteve o pedido, levando triunfalmente as relíquias para sua paróquia. Assim que lá chegou começaram a acontecer tantos milagres que ia gente de toda a Itália e Europa a pedir e agradecer graças alcançadas.

Santos e santas que foram devotos (as)
de Santa Filomena
A popularidade da Santa logo se espalhou, sendo seus mais memoráveis devotos São João Vianney (o Cura D’Ars), Santa Madalena Sofia Barat, São Pedro Julião Eymard, e São Pedro Chanel.

Muitos Papas foram devotos de Santa Filomena. Entre eles, Pio IX, que no dia 07 de novembro de 1849 celebrou a Santa Missa no altar onde estão as Santas Relíquias e, no dia 15 de janeiro de 1857, concedeu ofício próprio com Missa. São Pio X, que em peregrinação a Mugnano doou à imagem da Virgem Mártir um riquíssimo anel. Leão XIII, que peregrinou ao Santuário de Mugnano duas vezes, e em 1884 aprovou, consagrou e indulgenciou o cordão de Santa Filomena.

Depois de ser curada milagrosamente, a Venerável Pauline Jaricot insistiu para que o Papa Gregório XVI iniciasse o exame para a canonização de Santa Filomena, que já estava sendo conhecida como grande taumaturga.

Gregório XVI, tendo recebido o parecer favorável da Sagrada Congregação dos Ritos à canonização de Santa Filomena, elevou-a à honra dos altares, instituindo ofício próprio para o culto e a festa, proclamando-a a grande taumaturga do Século XIX, padroeira do Rosário Vivo e padroeira dos Filhos de Maria.
As relíquias de Santa Filomena ainda são preservadas em Mugnano, na Itália.


A vida de Santa Filomena Santa Filomena

O que sabemos historicamente sobre Santa Filomena, resume-se ao que foi descoberto nas catacumbas de Roma: uma jovem entre 13 e 15 anos, que morreu mártir pela fé.

A revelação de sua vida foi feita de maneira extraordinária, tendo a Santa aparecido de maneira particular a três pessoas. Essa narrativa recebeu o “imprimatur” (autorização) da Congregação do Santo Ofício para divulgação. O relato mais detalhado, aqui reproduzido, foi concedido à Irmã Maria Luísa de Jesus:

“Santa Filomena era filha de um rei da Grécia, e sua mãe era também de sangue real; como não lhes vinham filhos, ofereciam sacrifícios e preces constantemente a seus falsos deuses para consegui-los. Providencialmente, o médico do palácio, de nome Públio, era cristão.
Penalizado pela cegueira espiritual de seus soberanos e inspirado pelo Divino Espírito Santo, falou-lhes da nossa Fé, garantindo-lhes que suas orações seriam ouvidas se abandonassem os falsos deuses e abraçassem a Religião Cristã.
Impressionados com o que ouviram, e tocados pela Graça, resolveram receber o Batismo, após o qual lhes nasceu uma linda filhinha no dia 10 de janeiro do ano seguinte. Imediatamente, chamaram-na de Lumena ou luz, por ter nascido à luz da fé. Na pia batismal deram-lhe o nome de Filomena, isto é, Filha da Luz, da Luz Divina que lhe iluminou a alma por meio desse Augusto Sacramento.
Aos cinco anos de idade recebeu pela primeira vez a Sagrada Comunhão e desde então lhe aumentavam os desejos de íntima união com o Divino Redentor, até que, na idade de 11 anos, a Ele se consagrou por voto de virgindade perpétua.
Contava 13 anos quando seu pai foi ameaçado de uma injusta guerra pelo Imperador Diocleciano, obrigando-o a ir a Roma numa tentativa de paz. Acompanharam-no na viagem a esposa e a filha, que era, de ambos, inseparável. O Imperador os admitiu imediatamente à sua presença, para impor, sem dúvida, seus cruéis objetivos em relação à soberania da pequena Grécia. Mas ao ver a Princesa, tudo se mudou em sua mente doentia. A beleza da menina-moça o encantou e de pronto concordou, não só com uma paz duradoura, mas com uma sincera amizade complementada com privilégios políticos e econômicos, desde que lhe fosse dada a mão da linda princesinha por esposa. Seus pais sentiram-se aliviados e de imediato concordaram com a interessante proposta imperial.
De regresso à Grécia, em lágrimas, declarou Santa Filomena, que tudo fizera para convencer seus pais a retirarem a aprovação dada a Diocleciano, que seu coração já pertencia a outro Senhor, o único Soberano, o Rei dos Reis, Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem se consagrara por voto de virgindade quando completara 11 anos de idade. E que nada deste mundo, nem mesmo a morte, a impediria de cumprir sua promessa.
Seus pais ficaram arrasados. Amavam-na demasiadamente e sabiam que tal recusa ao Imperador trar-lhes-ia, no mínimo, a morte da sua única e adorada filhinha, dor que certamente não teriam forças para suportar. Então, seu pai, com doçura, procurou convencê-la que seu voto, aos 11 anos, não tinha nenhum valor, porque nessa idade não podia dispor de si. Era um voto nulo.
Fora esta, talvez, a parte mais difícil do seu martírio. Enquanto seu pai esforçava-se por dissuadi-la, sua mãe com o rosto encostado ao seu, banhava-o com abundantes lágrimas… Mas que fazer? Seu coração ansiava por encontrar-se com seu Celeste Esposo e, depois, era também por amor a eles – seus pais – que fazia aquele sacrifício, pois queria recebê-los, um dia, no Céu.
Entretanto, seu pai, vendo esgotados todos os seus argumentos, aplicou o último recurso. Valeu-se de sua autoridade moral e legal. Disse que a forçaria a obedecer-lhe. Mas o bom Jesus não abandona quem a Ele se consagra de verdade. Dera-lhe forças para, sem ferir a susceptibilidade dos pais, permanecer irredutível.
O Imperador considerou a recusa da jovem princesa como um pretexto de deslealdade ao Império e ordenou que a trouxessem a sua presença. Seus pais, antes de levá-la, atiraram-se aos seus pés e suplicaram-lhe que se apiedasse deles e do seu reino. Respondeu-lhes que o único reino pelo qual deveriam lutar era o Reino dos Céus, e que lá os esperaria. Encerrara aqui a primeira batalha do seu martírio.
Chegada à presença do Imperador, este usou a mesma tática do seu pai. Primeiramente, empregou todos os recursos possíveis para convencê-la a ser Imperatriz de Roma. Fez-lhe mil lisonjas e promessas, mas como seu esforço foi inútil, enfureceu-se, e ordenou que a encarcerassem nos subterrâneos do palácio. Todavia, ia visitá-la diariamente na prisão, na esperança de, galanteando-a, conseguir quebrar sua resistência. Durante tais visitas, permitia que a aliviassem das correntes e lhe dessem um pouco de água e pão, Mas sem nada conseguir, retirava-se, cada vez mais enfurecido e ordenando que se lhe aumentassem as torturas.
Impossível era que, uma frágil menina de apenas 13 anos, que vivera sempre cercada do máximo conforto e desvelo no Palácio de seus pais, resistir a tantas torturas, não fora a proteção especial que lhe dispensavam seu Divino Esposo e a Virgem Santíssima, os quais visivelmente encorajavam-na com frequentes aparições.
Decorridos 37 dias em que se encontrava em tão lastimável estado, a Rainha do Céu lhe apareceu aureolada por uma deslumbrante luz, trazendo desta vez, em seus braços, o Deus-Menino, e disse-lhe que, depois de mais três dias, iria ser retirada daquele cárcere, quando então teria que sofrer cruéis tormentos por amor ao seu Divino Filho. Tal aviso deixou a “Princesinha do Paraíso” apavorada. Mas a Celeste Rainha encorajou-a com as seguintes palavras:
‘Minha filha, tu me és mais querida acima de todas, porque trazes o meu nome e o do meu Filho. Tu te chamas Lumena. Meu Filho, teu Esposo, chama-se Luz, Estrela, Sol. E eu me chamo Aurora, Estrela, Luz, Sol. Serei o teu amparo. Agora é o momento transitório da fraqueza e da humilhação humanas; quando chegar, porém, a hora extrema do teu julgamento, da tua decisão ante os horríveis tormentos que te serão impostos, receberás a graça da divina força. Além do teu Anjo da Guarda, terás a teu lado o Arcanjo São Gabriel, cujo nome significa ‘a Força do Senho’. Quando eu estava na terra era ele o meu protetor. Mandá-lo-ei agora àquela que é a minha mais querida filha’.
Após tão maravilhosa visita, a Rainha dos Céus desapareceu deixando a jovem prisioneira reanimada, disposta mesmo a sofrer os maiores tormentos por amor ao Divino Filho de Maria que por ela dera a vida no madeiro da Cruz.
Ao enlevo em que ficara pela presença da Mãe de Deus, juntara-se um celeste perfume com o qual a Excelsa Senhora a inebriara e que permaneceu no cárcere enquanto lá esteve prisioneira.

Anjos aparecem à Santa no cárcere e curam-lhe as feridas... 


Passados os três dias, cumpriu-se o que a Celeste Rainha anunciara. O Imperador vendo-se irremediavelmente derrotado pela firmeza da princesa, resolveu mandá-la torturar publicamente. O primeiro dos suplícios foi o dos açoites, acompanhado por horrorosas blasfêmias. O corpo da menina ficou reduzido a uma única chaga e, já agonizante, foi a mesma atirada na escura prisão onde deveria exalar os últimos suspiros. Mas quando julgava haver chegado o momento de se apresentar ante seu Celeste Esposo, dois formosos Anjos lhe apareceram, ungiram seu dilacerado corpo com um bálsamo celeste e deixaram-na completamente curada.
Na manhã seguinte, o Imperador, ao tomar conhecimento da assombrosa notícia, ordenou que a levassem à sua presença. Ao vê-la mais encantadora que nunca, desmanchou-se em lisonjas procurando convencê-la de que fora o deus Júpiter que a havia curado por destiná-la a ser Imperatriz de Roma.
Iluminada pelo Divino Espírito Santo, a Princesa Mártir repeliu firmemente o sofisma e respondeu ao tirano que seus deuses coisa alguma poderiam fazer. Eram simples estátuas de matéria inerte, cujos ilusórios trunfos não passavam de frutos da imaginação doentia dos homens que os criaram. Advertiu-o que se despertasse e procurasse ver o único Deus existente, Criador do Universo, dos Anjos e dos homens, o Deus que os cristãos adoram e diante do qual também ele, Imperador, teria de comparecer um dia para prestar contas dos seus atos.
Diocleciano, vendo-se mais uma vez derrotado, louco de raiva por não poder responder aos argumentos sensatos da princesinha cristã face à impotência dos deuses do Império, ordenou que lhe amarrassem uma âncora no pescoço e a lançassem no rio Tibre. Entretanto, o Divino Redentor veio em socorro da sua consagrada, confundindo seus inimigos e convertendo a muitos: no exato momento em que a mesma estava sendo atirada no rio Tibre, dois Anjos apareceram, cortaram a corda que prendia a âncora, e a transportaram para a outra margem, sem que as águas lhe tocassem sequer as vestes.
Esse grandioso milagre foi presenciado por centenas de pessoas, das quais muitas se converteram, inclusive os soldados que a lançaram no Tibre. O Imperador, porém, mais obstinado que Faraó, atribuiu o maravilhoso prodígio a algum poder mágico da menina, declarou-a feiticeira e ordenou que fosse arrastada pelas principais ruas da cidade e depois transpassada por setas. Mortalmente ferida, foi abandonada no cárcere como se já estivesse morta. Mas seu Celeste Esposo fê-la cair num sono reparador, despertando-a mais tarde completamente curada e mais formosa que nunca.
O Imperador, no entanto, ao invés de se curvar ante a evidência do indiscutível poder do Deus único e verdadeiro, enfureceu-se ainda mais e ordenou que a flechassem ininterruptamente até ficar comprovadamente morta. Mas, que maravilha! Por mais que se esforçassem os arqueiros, nenhuma seta saiu dos respectivos arcos. Julgou ainda o Imperador, que tal fato se verificara em razão do forte poder mágico de que era possuidora a princesa, o qual só poderia ser vencido pelo fogo. Determinou então que todas as setas fossem colocadas numa fornalha até ficarem totalmente rubras. Mas o Divino Esposo da sua eleita fez com que as setas em brasa se voltassem contra os que as haviam lançado, seis dos quais tiveram morte instantânea.
Esse extraordinário prodígio foi causa de numerosas conversões, passando o povo a reverenciar a fé e a reconhecer o ilimitado poder do Deus dos cristãos que tão bem protegia a sua mártir.
Temendo o Imperador maiores consequências, e já bastante confuso, ordenou que a Princesa fosse imediatamente decapitada. Mas ainda desta vez nenhum poder teria o tirano, não fora a vontade do Altíssimo permitir a consumação do martírio, a fim de que a ‘Princesinha do Céu’ – conforme a chamara a Virgem Santíssima – pudesse receber na Glória o prêmio eterno da sua incondicional fidelidade a Cristo Jesus.
Assim, a Virgem Mártir doou sua vida por amor ao divino Filho da Virgem Santíssima, transformando seu precioso sangue virginal em semente fecunda que haveria de gerar milhões de almas para o eterno serviço de Deus. Colheu a palma do martírio numa sexta-feira, às três horas da tarde, sendo 10 de agosto o dia”.


A poderosa intercessão de Santa Filomena

Irmã Maria Luísa teve a ventura de receber várias vezes a visita de Santa Filomena. Contemplou certa vez, em belíssima visão, um trono de nuvens muito alvas no Céu, no qual estava sentada a Santíssima Virgem Maria, com vestes de ouro que resplandeciam como os raios do Sol, e com um celeste manto recamado de vivas estrelas que giravam por si mesmas. Ornava-lhe a fronte uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas. Do semblante irradiava tal beleza, que de pronto se podia identificá-la como sendo a Mãe de Deus. Viu, a seguir, aproximar-se da Excelsa Rainha do Céu, como dama de honra, Santa Filomena, que, retirando da sua cabeça uma coroa de ouro, ajoelhou-se e suplicou: “Senhora do Céu e da terra, venho pedir-Vos graças”. E apresentou-lhe algumas dezenas para diversas pessoas.

Estendendo-lhe as mãos, sorrindo, a Rainha dos Anjos e dos Santos lhe respondeu:

“A Filomena, nada se nega; sejam-lhe concedidas todas as graças.”


A Irmã viu, também, ao lado da Celeste Rainha, o Arcanjo São Gabriel, que com uma pena de ouro e em letras igualmente de ouro, escreveu: “Sejam concedidas as súplicas apresentadas por Filomena”.

A seguir, Santa Filomena, sob o encanto do sorriso maternal da Rainha do Céu, ergueu-se com reverência e, dirigindo-se à Irmã, disse-lhe: “Vês, peço as graças a Maria e por Ela me são concedidas”.


Padre Vianney, o Santo Cura d’Ars, dizia de Santa Filomena: “É ela a ‘Princesa do Paraíso’, a quem nada é negado. É grande seu poder junto dos Tronos de Jesus e Maria. Tenham confiança nela”. O próprio santo foi contemplado algumas vezes com aparições da gloriosa santa.