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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 20 de dezembro de 2014

SANTA GENOVEVA, Virgem (Padroeira de Paris, França). Uma história maravilhosa.


Vivendo entre dois mundos — o da Gália romana, que se extinguia, e de cujo desmoronamento foi testemunha, e o da Gália franca, que nascia de suas cinzas e em cuja conversão trabalhou denodadamente — Santa Genoveva serviu de ponto de união entre romanos e bárbaros. E recebeu de Deus a missão de transmitir a fé católica dos vencidos aos vencedores, preparando assim as sementes daquela que seria a nação cognominada Filha Primogênita da Igreja, a França.
Corria o ano 400 de nossa era. O gigantesco Império Romano do Ocidente vivia seus últimos dias. Na província romana da Gália (atual França), em meio aos pagãos que ainda faziam sacrifícios humanos ao deus Thor, o cristianismo começava a lançar suas raízes quando, vinda de além Reno, uma horda de bárbaros devastou a região quase sem encontrar resistência. “Por que os gauleses, outrora tão bravos, não se defenderam? Porque os romanos, com seu luxo, tinham-lhes dado sua moleza e seus vícios”.(1) Com o tempo, a vida recomeçou com os novos bárbaros sendo assimilados pela população do país.

Foi nesse período que, no ano 422, na pequena cidade de Nannetodorum (hoje Nanterre), nos arredores de Paris, nasceu em uma família cristã Genoveva, que tão importante papel desempenharia na vida da futura nação convertida ao cristianismo.


Instrumento de grandes maravilhas

 São Germano exortou Santa Genoveva a consagrar-se inteiramente a Deus. Seus pais, Severo e Gerôncia, sendo católicos fervorosos, procuraram formar a filha nos mesmos princípios religiosos. Dócil e sempre aberta à ação da graça, Genoveva crescia de modo análogo ao do Menino Jesus: “em graça e santidade diante de Deus e dos homens”.

Quando tinha de sete a oito anos, em 430, passaram por Nannetodorum os Bispos Germano, de Auxerre, e Lobo, de Troyes. Enviados pelo Papa São Celestino I, esse dois luminares da Igreja na época, dirigiam-se à Inglaterra a fim de combater uma perniciosa heresia defendida pelo monge Pelágio. Toda a população católica reuniu-se para ouvir o sermão que Germano pregaria. Como os que são amigos mais íntimos de Deus logo se reconhecem, o grande Prelado discerniu, entre seus ouvintes, a menina Genoveva, que trazia na fronte o sinal dos eleitos.

Quis saber quem era, e falar com seus pais. Quando estes se apresentaram com a filha, São Germano, pondo a mão na cabeça da menina, disse: “Bendito dia aquele em que o Senhor vos concedeu tal filha; os anjos a saudaram sem dúvida no seu nascimento, e Deus Nosso Senhor a destina a ser instrumento de grandes maravilhas”.(2)

Voltando-se depois para Genoveva, exortou-a a consagrar-se inteiramente a Deus e a não ter outro esposo que Jesus Cristo. A menina respondeu-lhe que nunca tivera outro desejo senão o de viver como virgem cristã. O Bispo, vendo no chão uma moeda, na qual estava gravada uma Cruz, tomou-a e, entregando-a a Genoveva, recomendou-lhe que a usasse ao pescoço como sinal de sua consagração a Jesus Cristo. Segundo alguns autores, é este o primeiro exemplo que se conhece do uso de medalhas ao pescoço.
 

Certo dia de festa, sua mãe, que por qualquer motivo não estava de bom humor, negou-lhe permissão para ir com ela à igreja. Como Genoveva insistisse, alegando que havendo se tornado esposa de Jesus Cristo tinha obrigação de servi-Lo do melhor modo, a genitora, irritada, deu-lhe uma bofetada, ficando cega no mesmo instante. Depois de um ano de cegueira, iluminou-se o espírito de Gerôncia, que reconheceu no castigo uma justa punição de Deus. Pediu então à filha, cuja virtude agora reconhecia, que lhe trouxesse água do poço, fazendo sobre ela o sinal da Cruz e lavando-lhe os olhos.

Neste momento, a cegueira foi curada. O episódio revela a humildade da mãe e o Dom dos milagres de que já era dotada a filha.


Na cidade da qual seria a Padroeira

Naquele tempo, não havendo em Paris e redondezas convento para as virgens que se consagravam ao Senhor, estas, para melhor dar o exemplo, permaneciam em suas casas, em meio a todos. Tinham lugar reservado somente na igreja. Quando chegavam a uma idade conveniente (que era habitualmente os 25 anos), apresentavam-se ao Bispo que, depois das preces e cerimônias apropriadas, lhes concedia o véu. Como a virtude de Genoveva e sua piedade eram já eminentes, o Prelado  admitiu-a com a idade de 15 anos. A partir de então, como faziam as virgens consagradas, a adolescente passou a alimentar-se apenas de legumes, a beber somente água, e cobriu-se com um cilício, passando longas horas em oração.

Tendo seus pais falecido nessa época, Genoveva mudou-se para a casa de sua madrinha, na cidade de Lutécia, atual Paris, que mais tarde terá a honra de tê-la como Padroeira.


Queriam  queimá-la como feiticeira

Pouco depois de estabelecida em Lutécia, Genoveva foi acometida por uma paralisia quase total, acompanhada de fortes dores. Não podia servir-se de nenhum de seus membros. A estranha doença chegou a um auge no qual ela perdeu os sentidos. Permaneceu durante três dias nesse estado, conhecendo-se que estava viva somente pelo fraco pulsar do coração. Durante esse período ela foi transportada, em espírito, entre os coros dos Anjos, dando-lhe Deus a conhecer o muito que deveria fazer e padecer por seu amor no resto de sua vida.

Parte desse sofrimento começou para ela logo em seguida, porque, em  sua inocência,  comunicara a algumas pessoas indiscretas o grande benefício de que tinha sido objeto. Ora, as almas medíocres não podem suportar que outras vivam em horizontes mais altos. Vingam-se delas pela calúnia e pela difamação. Assim, começaram a dizer que Genoveva aparentava santidade para exibir-se, que suas pretensas virtudes não passavam de fingimento, e outras coisas no gênero, sem olhar para os bons frutos que produzia.  E como a calúnia atrai mais as almas soezes que a verdade, iniciou-se contra a Santa uma verdadeira campanha de difamação, chegando-se ao ponto de querer-se queimá-la como feiticeira.

Ora, sucedeu então que voltava a Lutécia, novamente a caminho da Inglaterra, o ilustre São Germano, agora nimbado por fama universal de santidade e com o crédito de muitos milagres e prodigiosas conversões. Ouviu as calúnias em silêncio. Limitou-se a dirigir-se à casa onde vivia a Santa, sendo nisso acompanhado pela multidão. Lá chegando, saudou-a com  profundo respeito e reverência, após o que foi refutando calúnia por calúnia, mostrando, pelo contrário, o mérito dessa virgem diante de Deus. Voz tão autorizada teve uma ação verdadeiramente exorcística, cortando pela raiz todo o vendaval levantado pela maledicência.



A Santa salva Paris diversas vezes

 A virtude de Genoveva voltou a brilhar perante os homens. “Ela penetrava, graças a uma luz sobrenatural, no fundo das consciências, e levava a todos, pelo seu discurso inflamado, ao amor de Jesus Cristo. Passava sua vida em oração e lágrimas contínuas. .... Sua abstinência era prodigiosa, e mal se poderia crer se não se visse um excelente modelo na vida de seu mestre e diretor, São Germano de Auxerre”.(3)

Enquanto ela edificava a todos com suas virtudes, uma grande calamidade ameaçava abater-se sobre Paris. O terrível Átila, rei dos mais ferozes bárbaros da época, os hunos, tendo atravessado os Alpes e o Reno, invadia com suas hordas a Gália. Paris estava na sua rota de sangue e destruição. Na consternação geral, muitos pensavam em fugir da cidade, pois por onde passava o “Flagelo de Deus” – como era conhecido –, nada mais crescia no solo devastado.

Genoveva saiu então de seu retiro para exortar o povo a obter misericórdia de Deus, por meio de orações, jejuns e penitências. E  àqueles que queriam fugir, disse com autoridade: “Eu vos predigo que, pela proteção de Cristo, Paris será poupada, enquanto os lugares onde vos quereis refugiar tombarão sob o poder do inimigo, não restando lá pedra sobre pedra”.(4) Muitos foram os parisienses dóceis aos seus conselhos que  se revezavam na igreja, numa contínua prece ao Céu. Mas novamente o demônio suscitou outros contra ela, alegando que os levava a uma ruína inevitável com suas pseudo-profecias. Os ânimos novamente se acirraram de tal modo, que desejavam outra vez queimá-la. Mais uma vez São Germano, que já gozava da glória celeste, livrou-a, desta feita por meio de seu Arcediago. Este, chegando a Paris, reuniu o povo, mostrando como o Santo Bispo Germano, durante sua vida, havia honrado Genoveva. Citou-lhes os testemunhos que dela havia dado antes de morrer. Com isso, apaziguou de novo a tempestade.

A profecia da Santa cumpriu-se à risca, pois apesar de Átila ficar correndo da cidade de Champagne a Orléans e de Orléans a Champagne, não avançou até Paris. Finalmente, foi derrotado por uma coligação de romanos, francos e visigodos, na estupenda vitória de Chalons-sur-Marne, em 451.

Alguns anos mais tarde, Paris foi sitiada, desta vez por Meroveu, terceiro rei dos francos. Os romanos, que ainda aí conservavam forte guarnição, resistiram vários anos, até caírem ante essa nova força. “Não se deve espantar se Santa Genoveva, que estava lá, não evitou esse golpe, pois não tinha intenção de se opor aos desígnios de Deus, que queria fazer dessa cidade a capital do mais florescente reino que jamais houve sobre a Terra”(5)

Entretanto, durante esse prolongado cerco, que reduziu Paris à mais extrema penúria, “Genoveva, compadecida de tanta fome, juntou grande quantidade de trigo. Conduziu-o a Paris através de inúmeras dificuldades, salvando assim a vida daquele povo aflito”.(6)

“Essa magnânima caridade, acompanhada de muitos milagres, deu novo lustro às suas virtudes, fazendo-a ser venerada mesmo pelos pagãos. Chilperico, pai de Clóvis, estimava tanto a nossa santa que nunca se atreveu a negar-lhe coisa alguma que pedisse”.(7) Foi às suas instâncias que ele construiu um magnífico templo primitivamente consagrado aos Apóstolos São Pedro e São Paulo e mais tarde dedicado a essa Santa. Muitos consideram que ela contribuiu poderosamente  para a conversão de Clóvis. A seu pedido, este primeiro Rei cristão da França libertou prisioneiros, deu grandes esmolas ao Clero e aos pobres, e edificou várias igrejas.

Seguindo o exemplo de Genoveva, muitas jovens consagraram-se a Deus, algumas delas, como Santa Aude, sob sua direção, chegaram a santidade eminente. A rainha Santa Clotilde, esposa de Clóvis, tinha Genoveva em alta consideração, e sempre que possível ia entreter-se com ela.

A fama dessa Santa chegou tão longe, que o famoso São Simão Estilita, do alto de sua coluna na Ásia Menor, pediu a peregrinos franceses que o recomendassem às orações dela.

Cheia de anos e de virtudes, Santa Genoveva entregou sua puríssima alma a Deus em 512. Toda Paris chorou.


Milagrosa atuação post mortem

No ano 887, do Céu, novamente salvou ela sua cidade de Paris, sitiada pelos terríveis normandos. Pela primeira vez sua urna, cinzelada pelo famoso Santo Elói, foi levada pelo Clero e Magistrados, o que fez levantar milagrosamente o cerco, no momento em que o inimigo se preparava para o assalto final.

E, em 1129, quando a epidemia chamada “dos ardentes” – porque provocava alta temperatura e fazia inúmeras vítimas em Paris – grassava na cidade, sua intercessão foi decisiva. Outra vez, a urna contendo seus restos percorreu a cidade, curando-se repentinamente 14 mil enfermos.

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Notas
1- Sabine du Jeu, Sainte Geneviève, Les Éditions du Clocher, Toulouse, 1939,  p. 4.
2- Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1946, p. 32.
3- Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, d’aprés de Père Giry, par Mgr Paul Guérin, Paris, Boloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo I, p. 95.
4- Sabine du Jeu, op. cit. p. 26.
5- Les Petits Bollandistes, op.cit., p. 97.
6- Santos de cada dia, organização do Pe. José Leite, S.J., Editorial A.O., Braga, 1993, p. 19.

7- Abbé Croisset, Año Cristiano, Madrid, Saturnino Calleja, 1901, tomo I, p. 27.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Servo de Deus Antônio de Almeida Lustosa, Bispo e Salesiano (foi arcebispo de Fortaleza, CE, por 22 anos)


Cronologia e breve histórico:
·        Nascimento  : no dia 11 de fevereiro de 1886, em São João Del-Rey, MG.
·        Ingressou na congregação dos Salesianos no dia 29 de janeiro de 1905.
·        Ordenação presbiteral: 28 de janeiro de 1912, em Taubaté, São Paulo. Como padre salesiano, ensinou filosofia, teologia, foi mestre de noviços, diretor e vigário.
·        Ordenação episcopal: 11 de fevereiro de 1925
·        Lema episcopal: “SUB UMBRA ALARUM TUARUM”
·        Faleceu em Carpina, Pernambuco, no dia 14 de agosto de 1974 (88 anos).





Atividades como Bispo:
Bispo de Uberaba
O Papa Pio XI nomeou o padre Antônio Lustosa como o segundo bispo de Uberaba, no dia 4 de julho de 1924. Sua ordenação episcopal deu-se a 11 de fevereiro de 1925, em São João Del-Rey pelas mãos de Dom Helvécio Gomes de Oliveira, SDB, Dom Emanuel Gomes de Oliveira, SDB e Dom Benedito Paulo Alves de Sousa. Permaneceu no governo da diocese até 1928.
Bispo de Corumbá
No dia 17 de dezembro de 1928, o Papa Pio XI nomeia Dom Lustosa para ser bispo de Corumbá, onde permaneceria até 1931.
Arcebispo de Belém do Pará
Dom Antônio é promovido a arcebispo de Belém do Pará, pelo Papa Pio XI, no dia 10 de julho de 1931.
Dom Lustosa toma posse por procuração no dia 15 de novembro de 1931, nomeando imediatamente Monsenhor Argemiro Maria de Oliveira Pantoja, governador do Arcebispado que já vinha exercendo a função de vigário capitular da Arquidiocese desde 21 de julho. Sua chegada Belém foi no dia 17 de dezembro do mesmo ano, fazendo sua entrada solene na catedral no mesmo dia.
Em 1932 Monsenhor Argemiro Maria de Oliveira Pantoja é nomeado, pelo arcebispo, vigário geral da Arquidiocese.
Nos dez anos de seu governo, ele visitou todo o território da Arquidiocese, apesar das grandes dificuldades de acesso e excessiva extensão territorial. A partir de setembro de 1932, Dom Lustosa passa a publicar no periódico católico "A Palavra", suas crônicas relativas às visitas pastorais. Esta coluna terá o nome de "A Margem da Visita Pastoral"; a coletânea destes artigos foi publicada como livro. De sua pena saíram ainda muitos outros livros, entre os quais uma biografia de Dom Macedo Costa, Bispo do Pará.
Dentre as muitas realizações de Dom Antônio Lustosa, destacam-se a reabertura do Seminário Nossa Senhora da Conceição, confiado à administração dos salesianos; criação de diversas paróquias; instalação de comunidades religiosas dos Padres Crúzios, das Irmãs Filhas de Maria Auxiliadora, das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, das Irmãs Capuchinhas, das Angélicas de São Paulo e das Irmãs de Nossa Senhora da Anunciação.
No dia 19 de julho de 1941, por ordem do Papa Pio XII, Dom Lustosa é transferido para a Arquidiocese de Fortaleza, Ceará, onde permanecerá por 22 anos.
No dia 30 de setembro de 1941 ele realiza uma de suas últimas funções litúrgicas como Arcebispo de Belém: a sagração da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, santuário dedicado à Padroeira do Pará e da Amazônia, para onde converge o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.

Arcebispo de Fortaleza
Dom Antônio de Almeida Lustosa toma posse na Arquidiocese de Fortaleza no dia 5 de novembro de 1941.
Em 1952 Dom Almeida Lustosa participou da fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Foi co-fundador do Instituto Josefino.
É o autor dos vitrais que ornamentam a Catedral de Fortaleza.
Participou da fase ante preparatória do Concílio Vaticano II e do primeiro período (outubro – dezembro 1962) do Concílio.
O Papa São João XXIII aceitou sua renúncia no dia 16 de fevereiro de 1963. Passou ao título de Arcebispo de Velebusdus (sé titular), à qual renunciou em 1971, passando a ter o título de Arcebispo emérito de Fortaleza.

Morte
Dom Lustosa faleceu no dia 14 de agosto de 1974, aos 88 anos de idade, na casa salesiana de Carpina, Pernambuco, Brasil, onde viveu os seus últimos quinze anos. Está sepultado na catedral de Fortaleza, Ceará.

Processo de canonização
Em 1993 a Arquidiocese de Fortaleza abriu o processo canônico para sua canonização.
Em Belém do Pará, no dia 1º de janeiro de 2006 o Arcebispo de Belém Dom Orani Tempesta assinou o processo arquidiocesano, remetendo-o para Roma.
Brasão de armas
Os elementos presentes no brasão de Sua Excelência são o Coração de Jesus, a Basílica de São Pedro, o Rio Amazonas e a Ilha de Marajó cobertos com um par de asas.
Moto: Sub umbra alarum tuarum (Sob a sombra de tuas asas). Referência ao Salmo 17 que recita: "Guarda-me como a pupila dos olhos, esconde-me à sombra de tuas asas, longe dos ímpios que me oprimem, dos inimigos mortais que me cercam".

Ordenações episcopais
Dom Lustosa foi o principal sagrante dos seguintes bispos:
1.    Dom Raimundo de Castro e Silva
2.    Dom Expedito Eduardo de Oliveira
3.    Dom Vicente de Paulo Araújo Matos
4.    Dom Ladislau Paz, SDB
Foi concelebrante da sagração episcopal de:
Dom Sebastião Tomás, OP


"Continuarei aqui simplesmente a trabalhar pelo Pai Nosso: Santificado seja o Vosso nome! Venha a nós o Vosso Reino, o programa de um bispo é sempre o mesmo: cumprir o seu dever". 
Dom Antônio de Almeida Lustosa


"Não quero terminar estas palavras e encerrar este encontro sem evocar as figuras de Bispos, que ao longo de quatro séculos e meio foram neste País os legítimos sucessores dos Apóstolos e aqui dedicaram toda a vida, todas as energias à construção do Reino de Deus. Diversas as circunstâncias histórico-culturais em que foram chamados a exercer sua missão, diversas suas fisionomias humanas, diversas suas histórias pessoais, todos porém homens que deixaram marcas de sua passagem, desde aquele Dom Pedro Fernandes Sardinha que foi o primeiro Bispo a exercer aqui no Brasil seu ministério episcopal. Qualquer citação de nomes é forçosamente limitada mas como não evocar figuras como as de Dom Vital de Oliveira e Dom Antônio Macedo Costa, de Dom Antônio Ferreira Viçoso, dos dois primeiros Cardeais brasileiros Dom Joaquim Arcoverde e Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra, de Dom Silvério Gomes Pimenta e de Dom José Gaspar de Affonseca e Silva. Como não evocar aqui em Fortaleza a figura admirável de Dom Antônio de Almeida Lustosa que repousa nesta Catedral e que deixou nesta Diocese a imagem luminosa de um sábio e de um santo. Possa a recordação destes irmãos, e de tantos e tantos outros, que nos precederam com o sinal da fé, estimular-nos mais e mais no serviço do Senhor."
Papa São João Paulo II - Discurso aos bispos do Brasil. Fortaleza, 10 de julho de 1980



Primeiro texto biográfico
Dom Antônio de Almeida Lustosa nasceu em l886 e foi ordenado padre em l912, bispo de Uberaba de (1925-1928), bispo do Corumbá de (1928-1931) e faleceu em l974, com 88 anos de idade, que segundo o Escritor e Médico Vinícius Barros Leal, foi um homem profundamente de Deus, que se colocou muito além de um religioso comum, com seu comportamento fundamentado na ética, decidido no caminho do bem, repleto de serenidade e equilíbrio, bondade e disciplina, nunca perdendo um só minuto do seu precioso tempo”, tem um recado muito importante e atual, para nós povo de Deus, nos nossos dias.
Viveu sua fé, numa atitude de escuta e contemplação, a partir da Palavra de Deus. Através das visitas pastorais, procurou realizar a vontade de Deus, imitando o Bom Pastor, no maravilhoso dom de sua riqueza interior e convicção permanente, no seu zelo, mansidão e prudência, acompanhada da virtude da caridade, que para ele era transbordante, no convívio com suas ovelhas, na dura realidade vivida por elas na nossa Arquidiocese de Fortaleza.
Na sua atividade de pastor da Igreja de Fortaleza (1941-1963), envolvida, evidentemente, em fervorosas preces e meditações, na nossa realidade do nosso Ceará, castigada e marcada pelo sofrimento das consequentes secas, desenvolveu um apostolado prodigioso, nas obras e gestos concretos, dando o melhor de si mesmo, não obstante seu aspecto doentio, oriundo da malária, na austeridade da missão pastoral, nas viagens e desobrigas pela floresta amazônica, na qualidade de bispo da Arquidiocese de Belém do Pará (1931-1941).
Dom Lustosa foi um homem sábio e santo, com toda a sua vida e o que ele produziu através da sua palavra falada e escrita, indo ao encontro do mistério que ela professava, revelado no conhecimento, inspirado nas coisas do alto. A sabedoria de suas palavras e o exemplo de sua vida, na busca da retidão e santidade, tendo sua origem no Filho de Deus, que é a sabedoria encarnada do Pai, com certeza, convenceu e encorajou muitas pessoas a viverem a sua fé.
A Arquidiocese de Fortaleza, tendo a frente o Senhor Arcebispo, Dom José Antônio, abriu e encerrou o processo local de beatificação e canonização, remetendo-o a Roma, onde há mais de dez anos se encontra a causa de beatificação do salesiano Dom Antônio de Almeida Lustosa, conhecido como o “bispo brasileiro da justiça social”. Homem que viveu intimamente unido a Deus, sempre preocupado com o bem-estar das pessoas. Foi pai e amigo de todos, especialmente dos empobrecidos do seu tempo, praticando a caridade, no seu modo simples e santo de viver, até seus últimos dias de vida.
Resta para nós, povo de Deus rezar e divulgar a vida e a missão do amado Servo Dom Lustosa, que foi fiel a Deus em tudo e tinha como lema: “Sub umbra alarum tuarum”, referindo-se ao salmo l7: “Guardai-me como a pupila dos olhos, esconde-me à sombra de tuas asas, longe dos ímpios que me oprimem, dos inimigos mortais que me cercam”.
Dom Lustosa, ao assumir seu múnus de bispo e pastor da Arquidiocese de Fortaleza disse: “Continuarei aqui simplesmente a trabalhar pelo Pai Nosso: Santificado seja o Vosso nome! Venha a nós o Vosso Reino, o programa de um bispo é sempre o mesmo: cumprir o seu dever”. “Dignai-vos SENHOR, aceitar a caminhada do nosso Dom Lustosa rumo ao altar. Ele que em vida soube ser vosso servo”(...).
 


Dom Antônio, ao centro, já bem idoso. 


Segundo texto biográfico

Antônio de Almeida Lustosa nasceu no dia 11 de fevereiro de 1886 de uma família da burguesia de São João Del Rey, Minas Gerais, Brasil. Dos pais, ele aprendeu o espírito de sacrifício e o valor do trabalho. Os salesianos tinham aberto há poucos anos o Colégio Dom Bosco de Cachoeira do Campo, e Antônio foi para ele aos dezesseis anos.
Dois anos depois decidiu ser salesiano. Distinguiu-se pela perspicácia intelectual e pelo empenho na vida religiosa. Foi ordenado sacerdote aos 26 anos. Foi logo escolhido como mestre dos noviços. Depois, como diretor em Lavrinhas, encarregou-se da formação dos aspirantes salesianos e dos estudantes de filosofia e de teologia. Além de ensinar, formava numerosos clérigos no apostolado salesiano, animando com a ajuda deles as paróquias e oratórios próximos.

Bispo de Uberaba

Em 1925 foi convidado a aceitar a nomeação de Bispo de Uberaba, diocese de operários e mineradores. Quis ser consagrado no dia 11 de fevereiro, data que recordava a presença de Nossa Senhora em sua vida. Encontrou o seminário praticamente vazio. Depois de um ano tinha ao seu redor cerca de trinta seminaristas do ginásio. Ocupou-se dos marginalizados, fazendo sua a urgência da justiça social. Depois de nem mesmo quatro anos, foi transferido para Corumbá, Mato Grosso, sede maior e com maiores dificuldades para a evangelização. Depois de apenas dois anos era nomeado Arcebispo de Belém do Pará, imensa diocese do norte do Brasil. Ali ficou por dez anos, prodigalizando-se com a generosidade de sempre.

Transferido para a importante sede de Fortaleza

Em 1941 foi transferido para a importante sede de Fortaleza, capital do Ceará. Ali deu o melhor de si mesmo nos 22 anos de permanência, vivendo intensamente o "Da mihi animas" de Dom Bosco. É considerado o bispo da justiça social. Percebeu que a primeira evangelização consiste em dar novamente dignidade às pessoas e às famílias mais pobres. Pensou então em fundar ambulatórios, o hospital São José, escolas populares gratuitas e círculos operários. Inaugura a Sopa dos pobres e os Serviços Sociais da Arquidiocese.

Um escritor prolífico

Sem deixar de cuidar das almas, dá vida ao pré-seminário, ao Santuário Nossa Senhora de Fátima, e à emissora de rádio Assunção Cearense. A fim de assistir as famílias do campo, funda a Congregação das Josefinas, atualmente presentes em vários estados do Brasil. Dom Lustosa foi, como Dom Bosco, um escritor prolífico nos mais variados setores: teologia, filosofia, espiritualidade, hagiografia, literatura, geologia, botânica. Foi muito dotado também no campo artístico: são seus os vitrais da catedral de Fortaleza (isso mesmo: ele os projetou e desenhou). São belíssimos, de grande perfeição.

Em 1963, depois de 38 anos de atividade episcopal, retirou-se na casa salesiana de Carpina onde passou seus últimos quinze anos de vida e onde morreu em 14 de agosto de 1974. Seus restos mortais repousam na catedral de Fortaleza.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Venerável Servo de Deus Nicola d'Onofrio, Estudante Camiliano.



Venerável Nicola d'Onofrio, estudante camiliano,
modelo de santidade para os jovens religiosos.
OS PRIMEIROS ANOS

Nicola d’Onofrio nasceu em Villamagna, Diocese de Chieti – Abruzzo (Itália) – no dia 24 de março de 1943. Foi batizado na Igreja paroquial de Santa Maria Maggiore no dia 27 de março sucessivo, recebendo o nome de Nicola. Seu pai chamava-se Giovanni. Homem moralmente íntegro, trabalhador tenaz do campo, cheio da sabedoria popular da gente do campo das antigas famílias do Abruzzo. Religioso, pio e austero, como são normalmente os homens dessa região italiana. A mãe, Virginia Ferrara, era uma mulher forte e delicada, eleita pela piedade e espírito cristão. Soube incutir no filho o culto da religiosidade da vida, delicadeza e uma notável gentileza e serenidade de espírito.

Recebeu o sacramento da Crisma no dia 17 de outubro de 1953, e três anos antes - no dia da festa do Corpus Domini, 08 de junho de 1950 - a Primeira Comunhão. Frequentou a escola primária de Villamagna, na vila Madonna del Carmine, destacando-se pela diligência, bondade e disponibilidade para com os outros, como confirmam a professora e os colegas. Não esqueceu o serviço do Altar da igreja paroquial, onde se dirigia também no inverno, apesar da sua casa se situar a vários quilômetros, na divisa com Bucchianico, terra natal de S. Camillo de Lellis.



NO SEMINÁRIO EM ROMA

Um sacerdote da Ordem de São Camillo, o padre Santino, seu conterrâneo, dirigiu-lhe o convite para entrar no seminário camiliano de Roma. D’Onofrio o acolheu com alegria e logo manifestou aos pais a sua decisão. Estes se opuseram. A mãe, porque queria que entrasse no seminário diocesano da cidade vizinha, Chieti. O pai, porque via que iria perder fortes braços para o trabalho no campo, sendo Nicola o primeiro de dois filhos – o outro, Tommaso, era mais jovem – já trabalhando em úteis serviços da casa e do campo, próprios para a sua idade. Também duas tias solteiras, irmãs do pai, que viviam com a família, o adulavam dizendo que o fariam único herdeiro, se ficasse. Toda a vida de Nicolino foi de uma simplicidade genuína.
A oposição da família durou um ano. Tempo esse que Nicolino viveu em oração e estudo, e finalmente obteve a permissão de entrar no Studentato Camilliano de Roma. Era o dia 03 de outubro de 1955 quando entrou, festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, que se tornará depois sua guia espiritual. No concorrido seminário, como ainda o eram naqueles tempos estes centros de seleção ao sacerdócio, o jovem Nicola não escapou à observação de quem devia colher os sinais de uma vocação certa. Logo se percebeu uma seriedade de intenções em trabalhar sobre si mesmo, entregando-se totalmente aos Superiores na direção do espírito. Dois anos depois tomou conhecimento que o pai queria que voltasse para casa. Escreveu, então, uma forte carta comunicando a sua irremovível vontade de continuar para o sacerdócio na Ordem Camiliana, custasse o que custasse. Várias as motivações apresentadas para sustentar a sua decisão, entre tantas o pensamento de S. João Bosco: “A mais bonita dádiva para uma família é ter um filho sacerdote”.


D'Onofrio (extremidade direita), com seus companheiros do seminário camiliano. 


NOVIÇO
No dia 06 de outubro de 1960, vestiu o hábito dos religiosos de São Camilo, iniciando assim o ano do noviciado. No final do curso de exercícios espirituais, dessa etapa muito importante da sua vida, escreveu: “...Jesus, se um dia terei que abandonar como tantos o hábito santo, faça que eu morra antes de recebê-lo pela primeira vez; não tenho medo de morrer agora, estou na tua Graça. Que coisa suave poder ver-Te junto à Tua e minha mãe: Maria!”
Durante todo o ano do noviciado registrou no seu “Diário” propósitos e pequenas conquistas, momentos de luta e de aridez. Nesse escrito se evidencia a vontade firme de continuar no caminho da chamada divina, entregando-se à ajuda do Céu, sintetizado nessa expressão: “O demônio se vence estando próximo de Jesus e Maria pelos sacramentos e oração”.
Já nesse momento vivia intensamente o carisma camiliano. De maneira singular brilha pela assistência prestada a um coirmão de idade, o Pe. Del Greco, gravemente doente por causa de um tumor na garganta. Vale, particularmente, lembrar o que disse ao mesmo sacerdote na Sexta Feira Santa daquele ano: “Padre, una as suas dores àquelas de Jesus agonizante... hoje é Sexta Feira Santa, dia bonito para o senhor que sofre junto de Jesus”.

Conservava sempre um espírito alegre e bem
humorado, sinal da alegria interior que
possuía. 

PRIMEIROS VOTOS RELIGIOSOS
Na manhã do dia 07 de outubro de 1961, festividade da Beata Virgem do Rosário, pronunciou, com validade de três anos, os votos de Pobreza, Castidade, Obediência e Caridade para com os doentes, mesmo que contagiosos, depois de um intenso ano de preparação, considerado ótimo pelos Padres Capitulares . Teve início, naquele dia, o período de formação como Religioso Professo Camiliano. Sereno e feliz, disponível para com todos, observante da vida em comum, assíduo nas orações e diligente nos estudos, com humildade e simplicidade, sem assumir comportamentos atípicos ou teatrais.
Os seus superiores diretos – o Provincial, Padre Andrea C. e o Mestre dos clérigos Padre Renato D. – são os seus guias e testemunhas do seu progredir, lento, mas, constante, ao cimo do Monte Santo de Deus. Teve um amor ardente para Jesus Eucarístico, que recebia diariamente e visitava frequentemente de dia na igreja do seminário, ou da Universidade Gregoriana. Matriculou-se também na “Guarda de Honra ao Sagrado Coração de Jesus”, escolhendo o horário das 8:00 às 9:00 horas como seu momento de reparação. Tinha uma filial e tenra devoção para a Virgem Maria, sem cair nunca em banais e superficiais sentimentalismos. Uma acesa devoção para Santa Teresinha do Menino Jesus, levou-o a assumir a espiritualidade da Pequena Via.


NO CARISMA DE SÃO CAMILO

Um amor profundo ao seu Pai e Fundador São Camilo, estudando profundamente o seu espirito, sonhando intensas jornadas de trabalho no serviço dos doentes, quando no futuro se tornaria sacerdote. Não tinha medo de manifestar a todos o seu ardor para a vocação camiliana. Diligente nos estudos, aplicava-se seriamente nas tarefas escolares, cultivando estima e afeto para os professores. Era dócil e atento, ansioso para compreender a ciência que lhe era apresentada, considerada necessária para desenvolver dignamente o seu sacerdócio no serviço dos irmãos sofredores.
No breve período de vida como estudante religioso camiliano, demonstrou grande amor e apego à sua nova família, declarando-se feliz de permanecer na Casa religiosa, saindo pouco, e dedicando seu coração, talento e tempo às várias necessidades da comunidade religiosa.



A DOENÇA

No fim do ano de 1962, começou a sentir os primeiros sintomas do mal que o levaria à morte aos 21 anos de idade. Submeteu-se obediente às decisões dos superiores e dos médicos desde o primeiro momento. No dia 30 de julho de 1963, foi operado no setor de urologia do hospital São Camilo de Roma. O exame histológico da parte extirpada deu uma clara resposta de um final já marcado para um breve prazo: teratosarcoma.

O período pós-operatório na casa dos capelães do mesmo hospital revelou um doente paciente e sempre sorridente, atento a não disturbar os coirmãos atenciosos para com ele. Sucessivamente, no dia 19 de agosto, foi internado no Policlínico Umberto I da capital para a cobaltoterapia na região subtorácica, com a secreta esperança do médico, Dr. Mario L., de circunscrever o mal. Desde o dia 24 do mesmo mês continuou essa terapia no ambulatório do mesmo hospital.
O seu comportamento nesse período é de grande exemplo para todos pela paciência que tem em suportar as dores, e a disponibilidade que manifesta em fazer a vontade de Deus, seja qual for. Que soubesse, ou ao menos suspeitasse, de ter um mal de certa gravidade desde o verão anterior, se pode deduzir de uma anotação achada entre os seus papéis, onde escreve: “Fim de junho: em 2-3 dias toma proporções desmedidas. Tratamento com penicilina e “Strepto” dissolvidas com vitaminas B e C”, e mais adiante - além das datas de baixas e cirurgias nos dois hospitais romanos - escreve: “...12-08 Inicio de aplicações de raios y e não y (200 ao dia)...20-08 7ª aplicação, 2 chapas dos pulmões e análises de sangue... 23-08 10ª aplicação, 22 chapas do aparelho digestivo...”.
No recomeço do Ano Acadêmico, no outono, os Superiores o matricularam no primeiro ano de filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana, apesar de já estar tomado profundamente pelo câncer. Também nesse ambiente – para professores e colegas – se evidencia a sua diligência, serenidade e bondade de ânimo.
No começo de janeiro de 1964, foi feita mais uma radiografia no tórax. O pulmão direito apareceu invadido quase completamente pelo câncer. D’Onofrio percebeu definitivamente o seu real estado de saúde, mesmo se ninguém ainda lhe tivesse falado da gravidade de sua situação, aliás todos concorriam para esconder e simular as suas condições, já então sem esperança. Isso se deduz da conversa que teve com o seu irmão Tommaso, em que acenava da certeza de sua próxima partida deste mundo, expressando somente preocupação para a grande dor que a mãe iria sentir.
No final do mês de março daquele ano, pediu para ter uma conversa com o superior provincial para que lhe falasse claramente sobre o seu verdadeiro estado de saúde. Acuado, o superior não pôde esconder a verdade, apesar de falar também de grande esperança e sobretudo da grande confiança na bondade e no poder de Deus, que tudo pode operar, mesmo um grande milagre como aquele que ele precisava.
Conhecida a realidade não reagiu com desespero, mas depois de um momento de intensa reflexão passado quase totalmente na frente de Jesus Eucarístico na igreja do seminário, retomou o seu sorriso normal e intensificou a oração, dando ênfase à meditação. Nas conversas com amigos sobre a realidade de uma morte iminente, não evitava o assunto, e nem dramatizava, mas enfrentava com serenidade e frieza. Quem estava perto dele lembra a sensação de estar lidando com alguém que já vivia da realidade do além como presente já da sua existência, que cedo demais estava indo para o ocaso. Lembram ainda vivamente do seu jeito de discorrer sobre a outra vida com calma e serenidade, sem fanatismos, e que um grande espírito de fé iluminava a sua existência, que ele continuava a conduzir na normalidade, participando da vida em comum do seminário camiliano. Com a secreta esperança de alcançar um grande milagre, os Superiores o enviaram em peregrinação a Lourdes e a Lisieux. D’Onofrio obedecendo foi, principalmente com o objetivo de pedir a ajuda da Virgem Imaculada, e da sua grande pequena Santa Teresinha, para cumprir a vontade de Deus até as consequências mais extremas, serenamente unido à Cruz de Cristo. É o dia 10 de maio: faltam apenas 33 dias para seu encontro com Deus na eternidade.



TOTALMENTE DE DEUS

Com a licença “super triennium”, o Papa Beato Paulo VI de venerável memória, concedeu-lhe de professar os Votos Perpétuos. Nas festividades de Corpus Domini, no dia 28 de maio, na igreja do seminário camiliano romano, consagrou-se ao Deus eterno: último ato de amor de uma breve vida intensamente vivida “orando e amando”. Na manhã do dia 05 de junho, festividade do Sagrado Coração de Jesus, em plena consciência, aceita receber a Unção dos Enfermos, como lhe havia aconselhado o superior provincial. Momento de intensa comoção para os numerosos coirmãos no final da Santa Missa celebrada no quarto onde vive há alguns meses, no andar térreo, para facilitar-lhe os movimentos na cadeira de rodas, e onde recebe as visitas da mãe e dos numerosos amigos.
Os últimos dias da sua vida terrena são um terrível, dramático e contínuo sofrimento. O câncer que avança e toma conta dos pulmões, além de dores terríveis lhe causa momento de sufocamento. Nicolino vive heroicamente o sofrimento junto à cruz de Cristo , invocando a ajuda de Maria e dos santos Camilo e Teresa do Menino Jesus, sempre sereno e nunca se deixando levar ao desespero, atento em não provocar incômodo para quem o assistia, e esforçando-se para esconder quanto possível a inevitável máscara de sofrimento , para evitar dor à mãe que lhe estava- perto. Também para quem o conhece desde pequeno, essa extraordinária entrega à Vontade de Deus desperta admiração e devoção.


UMA FLOR NO CORAÇÃO DE DEUS

Chegou o último dia para Nicolino em 12 de junho de 1964. Uma longa agonia que inicia às 16:00 horas, para encerrar-se às 21:15 horas, depois de um dia passado em oração e manifestações de intensa fé e ardente amor para Jesus e Maria, com a ajuda dos seus dois Santos prediletos, e o conforto da oração comovida dos coirmãos e amigos. O seu superior ainda hoje lembra os seus últimos instantes assim: “Eu entoava as orações, que eram respondida por todos os jovens coirmãos, reunidos ao seu redor no seu quartinho, com ânimo cheio de fé. De vez em quando ele nos animava dizendo: mais, mais... mais forte!, e misturava às nossas invocações algumas suas particulares, que revelavam a sua fé viva na presença de algo ultra sensível perto dele”.
Esse contato com o “ultra sensível” foi notado também por alguns que estavam presentes ao trespasse. As portas do Céu se abriram para ele enquanto, lúcido até o fim, repetia em continuação o ato de oferenda da própria vida e do seu sofrimento, recusando os analgésicos, e incitando os presentes a orar com ele e para ele. Uma coerente conclusão de vida com aquilo que tinha se proposto viver. A profunda impressão que fora consumada uma Paixão se revela nas simples palavras de uma mulher do povo, amiga da família desde sempre: “O médico, percebendo que tinha morrido, abriu a porta e chamou a mãe: Senhora, eis seu filho!, quase fosse a Nossa Senhora recebendo o filho Crucificado”.[12]
Um dos coirmãos ligado a Nicolino por profunda amizade, escrevia nos dias seguintes à morte: “Agora aqui entre nós ficou somente um caule truncado, o seu caule. A flor voou até o coração de Deus. Por isso que, pensando ou falando de Nicolino, naturalmente olho para o alto, desnorteado, inclinado. O meu herói! Tinha entrevisto, sonhado o ideal da santidade, nunca tinha alcançado, porque para tocar uma coisa tem que estar perto, e para que a admiração seja sem sombra, tem que se poder imitar o herói que a inspira. Toquei no meu herói, e depois... pareceu fugir. Mas como Teresina com Celina, eu creio que ele caminhará sempre ao lado de quem soube descobri-lo. Amo-o, já é o meu pequeno grande Santo, com a sua e minha Teresina”.




NA ESPERA DA RESSURREIÇÃO

Presente no sagrado rito fúnebre uma multidão de coirmãos, amigos, conhecidos. Os aflitos e dilacerantes pedidos da mãe induziram os superiores a conceder que os restos mortais de Nicola D’Onofrio fossem enterrados em Villamagna, sua terra natal, no jazigo da família. A última viagem de volta à sua aldeia aconteceu o dia 15 de junho, acompanhado pelos superiores e coirmãos.
Depois da solene celebração eucarística, que contou com a participação de toda a população, foi sepultado na Cappella Ferrara, da família da mãe. Desde o dia 08 de outubro de 1979, Nicola D’Onofrio repousa nos arredores da Cripta do Santuário S. Camilo em Bucchianico, à vista da sua casa natal, reunido à sua família religiosa, na espera da ressurreição no último dia quando voltará o Cristo triunfador sobre a Morte.



...E VEM DE LONGE!

Aqueles que o conheciam intimamente, ou somente tiveram oportunidade de ter contato com ele na fase conhecida por todos do rápido fim, enfrentado com serenidade e o sorriso nos lábios, dão testemunho que foi um comportamento excepcional. E não foi improvisado, nem superficial. A sua ascensão ao Monte Santo de Deus vem de muito longe.
As páginas dos seus escritos originais nos revelam este caminho iniciado desde os primeiros momentos de sua vida no seminário camiliano. A fase terminal de sua vida e a morte são somente o momento revelador de sua dimensão espiritual.



A HERANÇA ESPIRITUAL 

A extraordinária emoção afetiva e religiosa que acompanhou o seu fim, tornada mais dramática pelos terríveis sofrimentos provocados pela doença, deve ser atribuída à verdade “que no sofrimento um homem se torna completamente novo... quando esse corpo é profundamente doente, totalmente inábil e o homem é quase impossibilitado de viver e agir, mais ainda se destacam a maturidade e grandeza espiritual interior, constituindo-se em uma comovente lição para os homens sãos e normais”.
Exceto casos esporádicos de incompreensão, todos advertiram que naquela alma Deus tinha provocado umas respostas extraordinárias, e o caminho tinha sido veloz até a Santa Montanha. Uma religiosa sua coetânea e amiga de infância escreveu que quando soube do seu falecimento sentiu ressoar no seu coração as palavras da Sabedoria : “Chegado em pouco tempo à perfeição, completou uma longa carreira; e sendo sua alma aceita a Deus, por isso foi tirado às pressas do meio da malícia”(4,13-14a).
Um final de vida assim não pode ser improvisado. Vem de longe, e o tempo da morte é somente a ocasião da revelação do trabalho interior desenvolvido. E ele o construiu fundamentalmente sobre a Cruz e a Paixão do Senhor Jesus, com o olhar dirigido sempre para a Glória da Ressurreição. Testemunham isso os seus “Escritos”[15] e aqueles que o frequentaram.