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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 13 de dezembro de 2014

SANTA LUIZA DE MARILLAC, Viúva e Co-Fundadora da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo.



Breve cronologia:
1591 – Nascimento a 12 de agosto. Não se sabe onde e nem quem era sua mãe
1595 – Seu pai casa novamente. Sua madrasta tem já 03 filhos.
1604 – Morre seu pai. Luísa tem 13 anos.
1613 - Casamento com Antônio Legras a 05 de fevereiro.
1623 - “LUMIÀRE” (Luz)
1625 - Morte de Antônio Legras. Encontro com São Vicente.
1629 – São Vicente envia Luísa a visitar as confrarias.
1633 – Reúne as primeiras Filhas da Caridade.
1642 – Faz votos com mais 04 irmãs.
1647 - Estruturação da Companhia.
1650 - Casamento de seu filho Miguel.
1655 - Começa a explicação das regras às primeiras irmãs.
1658 – Consagração oficial da Companhia a Nossa Senhora.
1660 – Morte de Santa Luísa.


 
Biografia de Santa Luísa Marillac
Luísa de Marillac nasceu no dia 12 de agosto de 1591, filha natural, de mãe desconhecida. E, por conseguinte, sofreu as consequências disso: falta de um lar carinhoso, desprezo dos parentes e, naturalmente muitos conflitos afetivos.
Era de constituição frágil, de baixa estatura, magra, bonita, nariz afilado, olhos expressivos, boca pequena. Dotada de grande capacidade intelectual e de vontade enérgica. Era muito sensível e inclinada ao escrúpulo, à timidez, à insegurança, minuciosa e perfeccionista, muito aberta às coisas de Deus e do próximo.
Sua infância e adolescência foram machucadas por acontecimentos dolorosos que marcaram profundamente, o seu ser.
Em tenra idade, seu pai, Luís de Marillac, colocou-a no Convento de Poissy, onde recebeu uma esmerada educação. Aí permaneceu enquanto ele viveu. Depois foi morar numa pensão familiar. Ali, ela adquiriu conhecimentos para a vida prática como cozinhar, costurar, bordar, senso de responsabilidade e organização enquanto que sua permanência no Convento de Poissy proporcionou-lhe uma grande bagagem de piedade, de ciência e de instrução, uma educação de elite.
Quis ser religiosa Capuchinha, entre as Filhas da Cruz, mas não foi aceita, porque sua saúde não suportaria os rigores da penitência que caracterizava a Ordem. Em particular, fez o voto de consagrar-se a Deus, em penitência e oração.
Em 1613, casa-se com Antônio Legras, matrimônio “combinado” como era costume na época. Desse casamento, nasceu-lhe um filho que recebeu o nome de Miguel, em homenagem a seu tio. Luísa foi fiel e dedicada ao esposo, sendo também mãe carinhosa, uma “supermãe”, prejudicando assim a educação do filho.
Em 1621-1622, Antônio Legras contraiu uma moléstia, que afetou até o seu comportamento. Luísa foi boníssima para com ele. Entretanto, grandes escrúpulos e dúvidas invadem a sua alma e ela chega a pensar ser vítima de castigos de Deus. Sente-se rejeitada por todos, mesmo do próprio Deus. Densas trevas a envolvem e só no dia 04 de junho de 1623, na Igreja de são Nicolau dos Campos, recebe a célebre “LUZ DE PENTECOSTES”. Liberta-se então de suas penas e incertezas e começa a descobrir ainda que não muito claramente os planos divinos a seu respeito.
Em 1625 o marido veio a falecer, na paz, depois de muita revolta e intranquilidade.
Quando Luísa encontra o Padre Vicente, ela tem 34 anos, é uma viúva angustiada, inquieta na busca da vontade de Deus, com uma vida de oração toda estruturada em exercícios, em devoções, em jejuns e disciplinas. O Padre Vicente descobre as marcas que a dureza da vida deixou nesta mulher supersensível e sofrida. Acolhe seu sofrimento e com paciência começa a trabalhar sobre esta inquietude de Luísa, desdramatizando as coisas e jogando-a no amor de Deus que liberta. Recomenda-lhe muito a meditação da Palavra de Deus
Descobre logo a rica personalidade de Luísa e solidez de sua fé. Então, ele orienta sua inteligência e seu coração para os pobres. Recorre com frequência à sua colaboração para preparar roupas para os pobres, para visitá-los, solicita pequenos serviços nas confrarias e ela vai recuperando pouco a pouco a confiança em si mesma.
Apreciando sua disponibilidade, seu juízo reto e seguro, seu sentido de organização e intuição feminina, o Padre Vicente faz dela sua principal colaboradora e confia-lhe a animação das Confrarias da Caridade.
Chegando às aldeias, Luísa se informa das pessoas que pertencem à Confraria, reúne as senhoras da Caridade e dirige-lhes a palavra. Observa como funciona a Confraria, o estado financeiro das coisas, o papel de cada um dos membros, informa-se sobre a vida espiritual, visita pessoalmente os pobres, interessa-se pela instrução das (dos) jovens. Terminada a visita, ela reúne as responsáveis, dá orientação segura e envia ao Padre Vicente um relatório minucioso, com sua própria apreciação.
No trabalho das Confrarias, o Padre Vicente intervém quando necessário, mas deixa toda a liberdade de ação a sua colaboradora e recorre muitas vezes ao seu espírito de organização.
Beata Margarida Naseau
Com o tempo, as necessidades aumentam, as consequências da guerra se fazem sentir e Vicente e Luísa se interrogam sobre o futuro do serviço dos pobres. Apresenta-se uma camponesa: Margarida Naseau e, com ela, outras camponesas que seguem o seu exemplo de dedicar a vida a serviço dos pobres
As jovens que se reúnem ao redor de Luísa de Marillac em 29 de novembro de 1633, são camponesas rudes, que não tem instrução nem mesmo elementar, a maioria não sabe ler. Luísa dá formação espiritual às jovens ensina a ler, a escrever, a costurar, como cuidar dos doentes, a fazer chás caseiros, como ensinar o catecismo. Juntas refletem e enfrentam as dificuldades que aparecem nos serviços, os mais variados.

Santa Luiza de Marrilac com suas filhas
da Companhia das Filhas da Caridade. 
A experiência sofrida de sua infância e a educação diversificada que recebera muito contribuíram para a organização da Companhia das Filhas da Caridade, tanto na parte humana como na espiritual. A maneira de viver, as virtudes, a vida fraterna e o serviço dos pobres são frutos de sua experiência humana e fidelidade à graça de Deus.
Luísa, com a ajuda do Padre Vicente, que soube ouvi-la e compreendê-la, lutou contra os seus defeitos e chegou a ser a fervorosa imitadora de Jesus Crucificado, desapegada de si mesma, zelosa para com a Comunidade e o serviço dos pobres.

A morte de Luísa de Marillac deu-se em 15 de março de 1660. Suas últimas recomendações no leito de morte, ou seja, o testamento espiritual que deixa para suas filhas é um legado de fidelidade a Deus, à Virgem Maria, à vida fraterna e aos pobres. Disse: “Tende muito cuidado com o serviço dos pobres, vivei juntas em grande cordialidade para imitar a união e a vida de Nosso Senhor e tende a Santíssima Virgem por vossa única Mãe.”
Seu testemunho de vida simples, humilde, cheia de amor, tem muito a nos ensinar. Ela foi a primeira voluntária da Caridade. Quando no momento atual, a Igreja pede a todos nós, uma opção preferencial pelos pobres, Luísa, essa mulher dinâmica e corajosa, já antecipou os tempos, fazendo uma opção não somente preferencial, mas radical pelos pobres. Em qualquer pessoa que sofresse, ela sabia contemplar Jesus Cristo crucificado e para resgatar a imagem e semelhança de Deus presentes nos marginalizados, ela dedicou o melhor de si, colocou em ação as suas potencialidades femininas agilizando os meios de que dispunha para transformar a realidade de pobreza de seu tempo. Ela nos ensina, sobretudo, a buscar sempre a realização do projeto de Deus sobre nós, com humildade, criatividade e abertura de coração.
Foi canonizada em 1934 e proclamada pelo Papa João XXIII, a Patrona das Obras Sociais.

Os traços principais do rosto de Luísa de Marillac e sua evolução espiritual.
     – Vivacidade.
     – Humildade.
     – Tenacidade
     – Cordialidade.

São Vicente descobriu a miséria material e espiritual de sua época e consagrou sua vida ao serviço e à evangelização dos pobres. Para isso fundou as Confrarias da Caridade (Senhoras da Caridade, hoje, Voluntárias da Caridade) e os Padres da Missão. Nesta ocasião encontrou-se com Luiza de Marillac e associou-a a sua atividade com os pobres. As senhoras da Caridade, impedidas por seus maridos, deixaram de assistir pessoalmente os pobres, mandando suas criadas. Uma jovem camponesa, Margarida Naseau, apresentou-se ao Padre Vicente para dedicar-se aos mais humildes trabalhos que as senhoras das confrarias não assumiam junto aos pobres. Com grande amor evangélico, fez-se a serva dos mais abandonados. Seu exemplo foi comunicativo, pois logo outras jovens a seguiram. Vicente as confia à Luiza de Marillac para instruí-as.
A 29 de Novembro de 1633 as (4) quatro primeiras Irmãs se reúnem com Luiza para viver um mesmo ideal, em comunidade fraterna. Seis meses depois já são (12) doze. Foi uma novidade na época, pois até então só havia vida consagrada em clausura. E agora elas vivem no meio do povo, indo à casa dos pobres para atender os doentes. Depois, à medida das necessidades, ocuparam-se dos doentes nos hospitais, da instrução das jovens, das crianças abandonadas, dos galés, dos soldados feridos, dos refugiados, das pessoas idosas, dos dementes e outros…
Alguns anos mais tarde, convictos de que a Caridade de Cristo que deve impulsionar a Companhia não conhece fronteiras, os Fundadores enviaram à Polônia um primeiro grupo de Irmãs.
A 18 de janeiro de 1655, a Companhia foi aprovada pelo Cardeal de Retz, Arcebispo de Paris, e, a 8 de junho de 1668, recebeu a aprovação pontifícia do Papa Clemente IX.




 DISCURSO DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II ÀS IRMÃS DA CARIDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO


11 de Janeiro de 1980
Minha Reverenda Madre
Minhas Irmãs
Imaginai comigo que São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac — os vossos dois fundadores, tão unidos na sua paixão evangélica de servir os pobres, Santos que voltaram para o Senhor com poucos meses de intervalo um do outro, há mais de três séculos — imaginai que se encontram presentes nesta reunião de família. Mas estão deveras conosco embora misteriosamente. Permiti-me que lhes dê a palavra, tornando-me eu intérprete apenas.
Enquanto vós continuais os trabalhos da Assembleia geral da Companhia, aqueles que venerais como vosso Pai e vossa Mãe querem, primeiro que tudo, confirmar-vos na consciência da atualidade da vocação que tendes. O calor da caridade é com certeza aquilo de que os homens mais precisam hoje, como sempre, aliás.
Certamente que as misérias sociais do século XVII e da época da Fronda estão já bem longe. Mas «tendes sempre pobres convosco». Quem nos dará estatísticas exatas sobre a pobreza real em cada país e à escala do mundo inteiro? São muitas vezes publicados números relativos ao comércio, à agricultura, à indústria, aos bancos, aos armamentos, etc. Mas, na época dos «computers», sabemos porventura quais os números exatos dos analfabetos, das crianças abandonadas, dos subalimentados, dos cegos, dos doentes, dos lares desunidos, dos presos, dos marginalizados, das prostitutas, dos desempregados, das pessoas que vivem nos bairros de lata ou favelas do mundo inteiro? Caras Irmãs, não tenhais olhos nem coração senão para os pobres, como «monsieur Vincent» e «Mademoiselle Legras». E para vos estimulardes mais — se necessário fosse! — considerai que vos dizem: Contemplai Nosso Senhor Jesus Cristo, ouvi-O repetir-vos qual o sentido da Sua missão: O Espírito do Senhor está sobre Mim… Ungiu-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos, fazer recobrar aos cegos a vista, e mandar em liberdade os oprimidos… (Lc 4, 18) É verdade, o Evangelho apresenta-nos quase sempre Cristo entre os pobres. É o meio em que decorre a Sua vida.

Parece-me igualmente que estes dois grandes Santos da caridade vos impelem, com ternura e firmeza, a que defendais e desenvolvais a vossa entrega radical a Jesus Cristo, segundo as promessas que renovais cada ano a 25 de Março. A castidade, por causa de Cristo e do Evangelho, é dessa entrega o sinal mais profundo. E longe de ser alienação da pessoa, é admirável promoção das capacidades e necessidades de maternidade, inerentes a toda a mulher. Vós sois mães. Colaborais na proteção, na orientação, desenvolvimento, na cura e no encerramento em paz de tantas vidas humanas, tanto no plano físico como no moral e religioso. O vosso celibato consagrado vede-o sempre como caminho de vida até aos outros, e revelai este segredo às jovens que hesitam em enveredar pelo caminho que vós seguistes. 
Amai não somente os pobres, amai também serdes vós mesmas pobres, em espírito e em atos. São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac disseram mais com o serviço concreto dos pobres — dia e noite —, do que fariam com extensos tratados sobre a pobreza. Do mesmo modo São Francisco de Assis foi mais eloquente despojando-se do seu vestuário, do que se publicasse uma revista periódica sobre o desapego dos bens terrenos. E Charles de Foucault mais enriqueceu com o seu sorriso e a sua bondade o ambiente dos pobres, do que se desse à imprensa a autobiografia de jovem oficial convertido, que escolheu estar no último lugar e entre os pobres. Poder-se-ia recordar também que o meu veneradíssimo predecessor Paulo VI, pondo de parte o uso da tiara, fez um gesto que não acabou de dar os seus frutos na Igreja.
Vós ouvis, por último, instar convosco os vossos dois modelos devida para que não deixeis que se apague o espírito de dependência, quando cada pessoa tanto tende hoje para se reservar um espaço livre em que não dependa de ninguém, para melhor se entregar à imaginação e fantasia. A obediência religiosa, bem o sabeis, é sem dúvida o mais agudo dos três cravos de ouro que prendem à vontade de Jesus os seus imitadores e as suas imitadoras. É lá possível contemplar alguém a cruz do Senhor Jesus sem se conformar ao Seu mistério de obediência ao Pai? Sejam os superiores religiosos, humanos e compreensíveis, é dever que têm. Mas sejam também os súbditos cada vez mais adultos e responsáveis, de maneira que aprofundem e vivam o valor de oblação da obediência.
Numa palavra, os vossos fundadores dizem-vos, como a todas as vossas companheiras: «Estai no mundo, sem nunca vos deixardes contaminar pelo espírito do mundo de que fala São João». Sabeis que o sal, se ficar insosso, não há com que temperar. E o que brilha é a pureza do cristal.
A vós, minha Reverenda Madre, que fostes agora reeleita, sinto especial alegria dirigir os meus votos de frutuoso serviço da Companhia. As Capitulares, a quem agradeço a visita, e a todas as Irmãs da Caridade, que servem a Cristo nos Seus pobres no mundo inteiro — sem esquecer o serviço muito apreciado que prestam no Vaticano —, concedo a minha afetuosa Bênção Apostólica.



Santa Luiza de Marillac, rogai por nós!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

SANTA CATARINA LABOURÉ, Virgem das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e Vidente de Nossa Senhora das Graças.



Santa Catarina Labouré:
A Santa do silêncio e da confiança

Somente após sua morte foram descerrados os véus da heroica humildade daquela freira cujo silêncio ocultara aos olhos do mundo sua grandiosa missão: vidente e mensageira da Rainha dos Céus.

Em fins de 1858, corriam por Paris notícias a respeito das aparições de Nossa Senhora a uma camponesa dos Pirineus, em Lourdes, rincão de pouca relevância do território francês. Trocavam-se impressões sobre as extraordinárias curas constatadas após o uso das águas da miraculosa nascente da Gruta de Massabielle e, sobretudo, comentava-se a celebridade da jovem vidente, Bernadete Soubirous, cuja despretensão e inabalável fé suscitavam a admiração do povo, que já a venerava como santa.

Difundindo-se célere pela capital francesa, a novidade chegou aos ouvidos também das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, que serviam aos idosos do asilo de Enghien. Entabularam uma animada conversa, na qual se ouviu uma exclamação saída dos lábios de uma religiosa que, embora discreta, mostrava-se tomada por veemente entusiasmo naquele momento: "É a mesma!". Nenhuma delas alcançou o significado destas palavras. Entreolhando-se com estranheza, continuaram a falar, como se nada tivessem ouvido.


"Um arco-íris místico entre a Rue du Bac e Lourdes"

Em 1830, uma noviça da Casa-Mãe da Companhia das Filhas da Caridade, situada em Paris à Rue du Bac, também fora contemplada com aparições de Nossa Senhora, as quais já haviam adquirido fama mundial. Além de fazer importantes revelações sobre o futuro da Congregação e da França, a Mãe de Deus confiara à vidente a missão de mandar cunhar uma medalha através da qual Ela derramaria abundantes graças sobre o mundo. A distribuição dos primeiros exemplares deu-se em razão da epidemia de cólera que grassava por Paris, e foram tantas e tão surpreendentes as curas atribuídas ao uso dessa medalha - não sem razão denominada pelo povo de Milagrosa -, que em pouco tempo ela já se difundira por diversos países.

O nome da vidente, contudo, permanecia incógnito, mesmo entre suas irmãs de hábito. E só foi revelado após sua morte: era a silenciosa, diligente e sempre bem humorada Irmã Catarina Labouré! Seus olhos azuis, serenos e límpidos, brilhavam de alegria ao ouvir falar pela primeira vez das recentes aparições de Lourdes, um eco das ocorridas na Rue du Bac. Era outra luz que despontava no mesmo caminho de misericórdia traçado pela Rainha do Céu para conduzir a humanidade a uma nova era de graças marianas.

Não havia dúvida, era "a mesma"! À noviça de Paris, a Virgem ensinara a fórmula para invocá-La: "Ó Maria concebida sem pecado". A Bernadete, assim se apresentara: "Eu sou a Imaculada Conceição". Exultante de contentamento, Irmã Catarina passou a nutrir profunda admiração pela nova vidente, embora não a conhecesse. Não sabia ela que, em Lourdes, Bernadete trazia ao pescoço a Medalha Milagrosa quando viu a Mãe de Deus, e provavelmente nutria em seu coração nobres sentimentos de veneração pela incógnita vidente da Virgem da Medalha... Pelo prisma sobrenatural, havia uma estreita união de almas das duas santas, formando "como que um arco-íris místico entre a Rue du Bac e Lourdes".

Santa Bernadete dava provas de heroica humildade, restituindo à Rainha do Céu as honras e louvores que o povo lhe tributava. Santa Catarina praticava de modo diferente igual humildade: vivia entregue às mais modestas funções no asilo de Enghien, onde serviu aos idosos e pobres durante mais de quarenta anos.


Infância nimbada de fé e seriedade

Quando Catarina nasceu, em 02 de maio de 1806, permaneciam ainda na França as chagas da irreligião abertas pela Revolução de 1789. No pequeno povoado borgonhês de Fain-lès-Moutiers, onde a família Labouré residia, não havia sacerdote. Para batizar a recém-nascida, foi preciso chamar o pároco do lugarejo vizinho. Apesar da generalizada negligência religiosa do tempo, da qual não se excluía seu pai, Pedro Labouré, a fé de Catarina e de seus nove irmãos foi salvaguardada e fortalecida graças ao empenho da mãe, Madalena Gontard, cuja principal preocupação na educação dos filhos foi inculcar-lhes uma ilimitada confiança na Santíssima Virgem.

Os primeiros anos de Zoé - assim se chamava nossa santa, antes do ingresso na vida religiosa - transcorreram sem nuvens, em meio às alegrias de uma infância perfumada pela inocência. Adquiriu desde cedo gosto pela oração e não hesitava em abandonar os infantis divertimentos quando a mãe a chamava para rezarem juntas diante da singela imagem de Nossa Senhora entronizada numa sala da residência.

Dotada de um precoce senso de responsabilidade e seriedade, Zoé logo percebeu as dificuldades da mãe na execução das árduas tarefas de manutenção da casa, e resolveu ajudá-la. Antes de completar oito anos, já sabia costurar, ordenhar as vacas, preparar a sopa e varrer o chão. E a compenetração que a movia a abraçar com alegria a monótona faina diária - tanto no lar, durante a infância e juventude, quanto no asilo de Enghien, ao longo de mais de quatro décadas - foi por ela mesma explicitada com palavras simples e cheias de luz: "Quando se faz a vontade de Deus, jamais se sente tédio".



Uma graça transformante

Aos nove anos de idade, a pequena Zoé viu o horizonte de sua vida toldar-se pela tragédia: em outubro de 1815, faleceu sua mãe. Ao contemplar seu corpo inerte, chorou copiosamente, mas não por muito tempo, pois ela própria lhe havia ensinado a quem recorrer nos momentos de aflição. Passado o primeiro choque, dirigiu-se à sala onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora, diante da qual tantas vezes rezara em companhia da mãe. Resoluta, subiu numa cadeira para pôr-se à altura da imagem, abraçou-a e exclamou, entre soluços: "De agora em diante, Vós sereis minha Mãe!" A resposta da Rainha do Céu foi imediata. A menina, que ali chegara débil e desfeita em lágrimas, retirou-se forte e disposta a enfrentar as adversidades. Foi essa a última vez que ela chorou na vida, pois a virtude da fortaleza a acompanhou num crescendo até o fim de seus dias.

Momento "a sós" com a Virgem Maria. 
Nossa Senhora conversa com a santa noviça
durante uma a duas horas... Nunca a santa
revelou o conteúdo dessa conversa. 
Em 1871, quando já era uma religiosa de 65 anos, o movimento revolucionário da Comuna de Paris proporcionou-lhe diversas ocasiões de manifestar, com heroísmo, essa virtude. Um dia, por exemplo, tomou a iniciativa de dirigir-se ao quartel-general dos insurrectos para defender sua superiora, contra quem fora expedida uma ordem de detenção. Expôs seus argumentos com tal firmeza ante quase sessenta comunheiros ali presentes que terminou por sair vitoriosa. Impressionados, os revolucionários passaram a tratá-la com muita deferência; chegaram inclusive a pedir-lhe para depor no julgamento de uma prisioneira, e tomaram seu depoimento, favorável à ré, como última palavra no caso.

Um desdobramento dessa graça recebida na infância foi a constância de ânimo com a qual suportou as inúmeras manifestações de impaciência e incredulidade de seu confessor quando, por ordem de Nossa Senhora, lhe relatava as visões havidas. Poucos meses antes de sua morte, ela confidenciou à superiora que a atitude desse sacerdote constituíra para ela um verdadeiro martírio. Ela padeceu com a fortaleza dos mártires esse holocausto silencioso, que lhe fora anunciado pela própria Santíssima Virgem, na primeira de suas aparições: "Minha filha, o Bom Deus quer te encarregar de uma missão. Terás muitas dificuldades, mas as superarás, considerando que ages para a glória d'Ele. Saberás discernir o que vem do Bom Deus. Serás atormentada até que o digas àquele que está encarregado de te conduzir. Serás contraditada. Mas terás a graça. Não temas. Dize tudo com confiança e simplicidade. Tem confiança".


Sonho com São Vicente de Paulo, que a
convida a ser Filha da Caridade... Engraçado
que, em nota, a santa afirmou que o "aspecto
físico" do padre lhe causou certo medo, pois, 
acho-o feio... Não sabia quem era aquele
padre "feio" que lhe aparecia... 
Uma verdadeira filha de São Vicente de Paulo

"Ficarás feliz em vir a mim. Deus tem desígnios a teu respeito". Quando tinha cerca de 14 anos, Catarina ouviu em sonho estas palavras dirigidas a ela por um sacerdote desconhecido, cujo olhar penetrante e cheio de luz gravou-se para sempre em sua lembrança. Alguns anos mais tarde, visitando uma casa das Filhas da Caridade, deparou-se com um quadro do fundador da Congregação, São Vicente de Paulo, em cuja fisionomia reconheceu o sacerdote do sonho. Ficou-lhe clara, então, a vocação à qual já se sentira tantas vezes atraída: seria filha de São Vicente!

Entretanto, quando no seu 21º aniversário, em 02 de maio de 1827, anunciou em casa sua decisão, o pai se opôs taxativamente. Após tentar, em vão, dissuadi-la de abraçar a vida religiosa, ele a enviou a Paris, para trabalhar no restaurante de um de seus irmãos, na ilusão de que ali ela acabaria por encontrar um bom partido e casar-se.

Aquele ambiente, porém, frequentado por operários rudes e muitas vezes imodestos, não fez senão fortalecer a pureza ilibada da jovem. Tal era seu amor pela vocação que já se portava como uma autêntica Filha da Caridade, cumprindo com perfeição as recomendações feitas pelo Santo às suas filhas espirituais, entre as quais esta: "Se às religiosas [de clausura] é exigido um grau de perfeição, às Filhas da Caridade devem ser exigidos dois".

Catarina não desejava outra coisa senão abraçar por inteiro essa ousada meta, e perseverou em seu propósito até vencer a obstinação do pai. "Se observarmos bem as pequenas coisas, faremos bem as grandes", escreveria ela, décadas mais tarde, ao terminar um período de exercícios espirituais.


Nossa Senhora aparece-lhe na capela
do convento da Rue du Bac, em Paris,
no dia 27 de novembro de 1830. 
A confiança e a simplicidade de uma alma inocente

Finalmente, em 21 de abril de 1830, Catarina chegou ao Convento da Rue du Bac. O Conselho das Superioras logo discerniu nela uma autêntica vocação: "Tem 23 anos e convém muito à nossa comunidade: piedosa, bom caráter, temperamento forte, amor ao trabalho e muito alegre", foi o parecer escrito a seu respeito. Ademais, era uma genuína camponesa, tal qual desejava São Vicente, que tomara os bons predicados das aldeãs como base natural para perfilar o ideal de virtude das Filhas da Caridade. E, quer na vida comunitária, quer no serviço dos pobres, e mesmo durante as manifestações sobrenaturais das quais foi objeto, sempre brilhou em Irmã Catarina uma das virtudes mais amadas pelo Santo Fundador: a simplicidade de coração.

"O espírito das camponesas é simplíssimo: nem rastro de fingimento nem palavras de duplo sentido; não são teimosas nem apegadas às suas opiniões. [...] Assim, minhas filhas, devem ser as Filhas da Caridade, e sabereis que o sois se fordes simples, sem recalcitrâncias, submissas ao parecer dos outros e cândidas em vossas palavras, e se vossos corações não pensarem uma coisa enquanto vossas bocas pronunciam outra". Este ideal delineado por São Vicente encontrou, quase dois séculos depois, perfeita realização na alma desta dileta filha.

Na semana seguinte à sua chegada ao convento, apareceu-lhe três vezes, em dias consecutivos, o coração de São Vicente, prenunciando as iminentes desgraças que se abateriam sobre a França, com a promessa de que as duas Congregações por ele fundadas não pereceriam. A feliz noviça teve a graça de ver também Cristo presente na Sagrada Hóstia, durante todo o tempo de seu seminário, "exceto todas as vezes que eu duvidava", confidenciou ela.

Imbuída da Fé que move as montanhas e atrai a benevolência de Deus, Catarina não titubeou em pedir mais: queria ver Nossa Senhora. Na véspera da festa do Fundador - que então se comemorava a 19 de julho -, confiou-lhe seu desejo numa breve oração e foi dormir esperançosa: "Deitei-me com a ideia de que naquela mesma noite veria minha boa Mãe. Havia muito tempo que queria vê-La". E foi generosamente atendida, não só "naquela mesma noite", como também em duas outras aparições, uma em novembro e outra em dezembro do mesmo ano de 1830.

Com o passar dos anos, intensificou-se nela a confiança filial e ilimitada que depositava nesses três pilares de devoção, a tal ponto que, pouco antes de falecer, ela não pôde esconder o espanto quando a superiora lhe perguntou se não tinha medo da morte: "Por que temeria ir ver Nosso Senhor, sua Mãe e São Vicente?".


Catarina conservou-se sempre em grande
humildade e recolhimento em sua comunidade.
Ninguém, com exceção a madre, sabia
que ela era a vidente da Medalha Milagrosa.
"A Santíssima Virgem escolheu bem"

Santa Catarina jamais violou o segredo acerca de sua condição de vidente e mensageira das aparições da Medalha Milagrosa. Contudo, muitas pessoas chegaram a vislumbrar nela a predileta da Rainha do Céu, tal era seu amor a Deus, não só afetivo, pois inegável era sua ardorosa piedade, mas também efetivo, como o testemunhou uma de suas contemporâneas: "Suas ações, em si mesmas ordinárias, ela as fazia de maneira extraordinária". Havia nela algo de discreto, alcandorado e inefável.

Sua santidade era a principal mantenedora do segredo. Às irmãs que ousaram interpelá-la nesse sentido, sua resposta consistiu sempre num absoluto silêncio. Um silêncio nascido da humildade, sem nada de taciturno nem de ríspido; pelo contrário, um silêncio sacral, que chegava a despertar veneração.

Foto do corpo da santa em seu leito de morte... 



Quando, após sua morte, foi anunciado às Filhas da Caridade o nome da vidente da Rue du Bac, tiveram elas uma reação marcada mais pela admiração do que pela surpresa. Não era difícil associar a exemplar irmã à figura - já um tanto mitificada - da vidente ignota. E era impossível não ficarem deslumbradas ao constatar a excelência de sua humildade, que a mantivera no anonimato, embora exercendo uma missão de alcance universal.

Quiçá naquele momento tenha ocorrido à lembrança das irmãs o ingênuo dito que as crianças do orfanato dirigido pelas Filhas da Caridade costumavam repetir entre si, observando de longe a Irmã Catarina Labouré: "A Santíssima Virgem escolheu bem".15 Teriam sido estas palavras, tão verdadeiras, mero fruto da imaginação infantil ou haveria Deus, mais uma vez na História, revelado aos pequeninos os mistérios ocultados aos sábios e entendidos?
Seu corpo conserva-se incorrupto, sob um dos altares
da capela da Rue de Bac, casa mãe da congregação. 

Sem embargo, mais luminosa que o heroico silêncio é a lição de confiança filial deixada por Santa Catarina na Mãe que nunca desampara. "A confiança tem sempre esse prêmio. Pedindo com confiança, recebe-se mais, com mais certeza e mais abundantemente. A confiança abre-nos o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria".
(Revista Arautos do Evangelho Dez/2012, n. 132, p. 22 à 25).



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SANTA BRÍGIDA DA SUÉCIA, Viúva, Fundadora, Religiosa e Mística (uma das maiores místicas da Igreja). Catequese do Papa Bento XVI.



Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010.


"Estimados irmãos e irmãs!
Na férvida vigília do Grande Jubileu do Ano 2000, o Venerável Servo de Deus João Paulo II proclamou Santa Brígida da Suécia co-Padroeira de toda a Europa. Hoje de manhã, gostaria de apresentar a sua figura, a sua mensagem e os motivos pelos quais esta santa mulher tem muito a ensinar — ainda hoje — à Igreja e ao mundo.
Conhecemos bem os acontecimentos da vida de Santa Brígida, porque os seus padres espirituais redigiram a sua biografia para promover o seu processo de canonização imediatamente depois da sua morte, ocorrida em 1373. Brígida nasceu setenta anos antes, em 1303, em Finster, na Suécia, uma nação do norte da Europa que, havia três séculos, tinha acolhido a fé cristã com o mesmo entusiasmo com que a Santa a recebera dos seus pais, pessoas muito piedosas, pertencentes a nobres famílias próximas da Casa reinante.


Podemos distinguir dois períodos na vida desta Santa.

O primeiro é caracterizado pela sua condição de mulher felizmente casada. O marido chamava-se Ulf e era governador de um importante distrito do Reino da Suécia. O matrimônio durou vinte e oito anos, até à morte de Ulf. Nasceram oito filhos, dos quais a segunda Karin (Catarina), é venerada como Santa. Isto é um sinal eloquente do compromisso educativo de Brígida em relação aos seus próprios filhos. De resto, a sua sabedoria pedagógica foi apreciada a tal ponto, que o rei da Suécia, Magnus, a chamou à corte por certo período, com a finalidade de introduzir a sua jovem esposa, Bianca de Namur, na cultura sueca.

Mãe e filha santas: Santa Brígida e sua filha Santa Catarina. 




Brígida, espiritualmente guiada por um douto religioso que a iniciou no estudo das Escrituras, exerceu uma influência muito positiva sobre a própria família que, graças à sua presença, se tornou uma verdadeira «igreja doméstica». Juntamente com o marido, adotou a Regra dos Terciários franciscanos. Praticava com generosidade obras de caridade em prol dos indigentes; fundou também um hospital. Ao lado da sua esposa, Ulf aprendeu a melhorar a sua índole e a progredir na vida cristã. Quando regressou de uma longa peregrinação a Santiago de Compostela, realizada em 1341 juntamente com outros membros da família, os cônjuges amadureceram o projeto de viver em continência; mas pouco tempo mais tarde, na paz de um mosteiro onde se tinha retirado, Ulf concluiu a sua vida terrena.

Contemplada por maravilhosas e 
frequentes visões celestes, Santa Brígida
e uma das mais importantes santas místicas 
da História da Igreja 
Este primeiro período da vida de Brígida ajuda-nos a apreciar aquela que hoje poderíamos definir uma autêntica «espiritualidade conjugal»: juntos, os cônjuges cristãos podem percorrer um caminho de santidade, sustentados pela graça do Sacramento do Matrimónio. Não poucas vezes, precisamente como aconteceu na vida de Santa Brígida e de Ulf, é a mulher que, com a sua sensibilidade religiosa, com a delicadeza e a docilidade consegue levar o marido a percorrer um caminho de fé. Penso com reconhecimento em muitas mulheres que, dia após dia, ainda hoje iluminam as próprias famílias com o seu testemunho de vida cristã. Possa o Espírito do Senhor suscitar também nos dias de hoje a santidade dos cônjuges cristãos, para mostrar ao mundo a beleza do matrimônio vivido segundo os valores do Evangelho: o amor, a ternura, a ajuda recíproca, a fecundidade na geração e na educação dos filhos, a abertura e a solidariedade para com o mundo e a participação na vida da Igreja.

Quando Brígida ficou viúva, teve início o segundo período da sua vida. Renunciou a outras bodas para aprofundar a união com o Senhor através da oração, da penitência e das obras de caridade. Portanto, também as viúvas cristãs podem encontrar nesta Santa um modelo a seguir. Com efeito, após a morte do marido, Brígida distribuiu os seus próprios bens aos pobres e, mesmo sem jamais aceder à consagração religiosa, estabeleceu-se no mosteiro cisterciense de Alvastra. Ali tiveram início as revelações divinas, que a acompanharam durante o resto da sua vida. Elas foram ditadas por Brígida aos seus secretários-confessores, que as traduziram do sueco para o latim e as reuniram numa edição de oito livros, intitulados Revelationes (Revelações). A estes livros acrescenta-se um suplemento, que tem como título precisamente Revelationes extravagantes (Revelações suplementares).

As Revelações de Santa Brígida apresentam um conteúdo e um estilo muito diversificados. Às vezes a revelação apresenta-se sob a forma de diálogos entre as Pessoas divinas, a Virgem, os Santos e até os demônios; diálogos em que também Brígida intervém. Outras vezes, ao contrário, trata-se da narração de uma visão particular; e noutras ainda narra-se aquilo que a Virgem Maria lhe revela acerca da vida e dos mistérios do Filho. O valor das Revelações de Santa Brígida, por vezes objeto de algumas dúvidas, foi especificado pelo Venerável João Paulo II, na Carta Spes aedificandi: «A Igreja, ao reconhecer a santidade de Brígida, mesmo sem se pronunciar sobre cada uma das revelações, acolheu a autenticidade do conjunto da sua experiência interior» (n. 5).

Com efeito, lendo estas Revelações somos interpelados sobre muitos temas importantes. Por exemplo, volta-se a descrever frequentemente, com pormenores bastante realistas, a Paixão de Cristo, pela qual Brígida teve sempre uma devoção privilegiada, contemplando nela o amor infinito de Deus pelos homens. Nos lábios do Senhor que lhe fala, ela põe com audácia estas palavras comovedoras: «Ó, meus amigos, Eu amo tão ternamente as minhas ovelhas que, se fosse possível, gostaria de morrer muitas outras vezes, por cada uma delas, daquela mesma morte que padeci pela redenção de todas elas» (Revelationes, Livro I, C. 59). Também a dolorosa maternidade de Maria, que a tornou Mediadora e Mãe de misericórdia, é um argumento que aparece com frequência nas Revelações.

Ao receber estes carismas, Brígida estava consciente de ser destinatária de um dom de grande predileção da parte do Senhor: «Minha filha — lemos no primeiro Livro das Revelações — Eu escolhi-te para mim; ama-me com todo o seu coração...”. mais do que tudo quanto existe no mundo» (c. 1). De resto, Brígida sabia bem, e disto estava firmemente convencida, que cada carisma está destinado a edificar a Igreja. Precisamente por este motivo, não poucas das suas revelações eram dirigidas, em forma de admoestações até severas, aos fiéis do seu tempo, também às Autoridades religiosas e políticas, a fim de que vivessem coerentemente a sua vida cristã; mas fazia isto sempre com uma atitude de respeito e de fidelidade integral ao Magistério da Igreja, de modo particular ao Sucessor do Apóstolo Pedro.

Em 1349, Brígida deixou para sempre a Suécia e veio em peregrinação a Roma. Não só tencionava participar no Jubileu de 1350, mas também desejava obter do Papa a aprovação da Regra de uma Ordem religiosa que ela queria fundar, intitulada ao Santo Salvador, e composta por monges e monjas sob a autoridade da abadessa. Trata-se de um elemento que não nos deve surpreender: na Idade Média existiam fundações monásticas com um ramo masculino e outro feminino, mas com a prática da mesma regra monástica, que previa a direção de uma abadessa. Com efeito, na grande tradição cristã, à mulher são reconhecidos a própria dignidade e — sempre a exemplo de Maria, Rainha dos Apóstolos — o próprio lugar na Igreja que, sem coincidir com o sacerdócio ordenado, é igualmente importante para o crescimento espiritual da Comunidade. Além disso, a colaboração de consagrados e de consagradas, sempre no respeito pela sua vocação específica, tem uma grande importância no mundo contemporâneo.

Em Roma, acompanhada pela filha Karin, Brígida dedicou-se a uma vida de intenso apostolado e de oração. E de Roma partiu em peregrinação a vários santuários italianos, em particular a Assis, pátria de São Francisco, por quem Brígida nutriu sempre uma grande devoção. Finalmente, em 1371, coroou a sua maior aspiração: a viagem à Terra Santa, aonde foi em companhia dos seus filhos espirituais, um grupo ao qual Brígida chamava «os amigos de Deus».

Durante aqueles anos, os Pontífices encontravam-se em Avinhão, longe de Roma: Brígida dirigiu-se sentidamente a eles, a fim de que voltassem para a Sé de Pedro, na Cidade Eterna.

Faleceu em 1373, antes que o Papa Gregório XI tivesse voltado definitivamente para Roma. Foi sepultada provisoriamente na igreja romana de São Lourenço «in Panisperna», mas em 1374 os seus filhos Birger e Karin trasladaram-na para a pátria, no mosteiro de Vadstena, sede da Ordem religiosa fundada por Santa Brígida, que conheceu imediatamente uma expansão notável. Em 1391 o Papa Bonifácio IX canonizou-a solenemente.


A santidade de Brígida, caracterizada pela multiplicidade dos dons e das experiências que eu quis recordar neste breve perfil biográfico-espiritual, faz dela uma figura eminente na história da Europa. Proveniente da Escandinávia, Santa Brígida testemunha como o cristianismo permeou profundamente a vida de todos os povos deste Continente. Declarando-a co-Padroeira da Europa, o Papa João Paulo II fez votos por que Santa Brígida – que viveu no século XIV, quando a cristandade ocidental ainda não estava ferida pela divisão — possa interceder junto de Deus, para obter a graça tão almejada da plena unidade de todos os cristãos. Por esta mesma intenção, que é por nós muito desejada, e para que a Europa saiba alimentar-se sempre a partir das suas raízes cristãs, queremos rezar, caros irmãos e irmãs, invocando a poderosa intercessão de Santa Brígida da Suécia, discípula fiel de Deus e co-Padroeira da Europa. Obrigado pela atenção"!
(Bento XVI) 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SANTA MARIA MARGARIDA ALACOQUE, Virgem, Mística e Vidente do Sagrado Coração de Jesus






Santa Margarida Maria Alacoque nasceu na aldeia de Lautecour, na Borgonha, no dia 22 de Julho de 1647, no seio duma família religiosa, honesta, de boa posição, reputação e de seriedade. Seu pai, Claude Alacoque, era notário real. Sua mãe, Philiberte Lamyn era filha também dum notário do rei, François Lamyn.



Horror ao pecado

Os seus pais perceberam logo o horror que Margarida Maria tinha pelo pecado quando ainda era pequena de três anos. Bastava lembrar-lhe que um ato qualquer ofendia a Deus para que a menina se afastasse horrorizada. Nas suas memórias a Santa afirma que Deus lhe fez ver “o grande horror do pecado, o que me horrorizou tanto que a mais mínima mancha resultava para mim num tormento insuportável.” (1)
A essa aversão ao pecado acrescentou-se logo um agrado muito grande pela oração e pela penitência, juntamente com uma tendência enorme para ajudar os pobres. “Deus, escreve a Santa, deu-me um amor tão terno pelos pobres que eu teria desejado só ter contato com eles. Ele incutiu-me uma compaixão tão grande pelas suas misérias que, se estivesse em meu poder, abandonaria tudo por eles. Quando tinha dinheiro, dava-o aos pobres para estimulá-los a aproximarem-se de mim e então lhes ensinava o Catecismo e a rezar.” (2)
Dos quatro aos sete anos, ou seja entre 1652 e 1655, seguindo um costume comum na época, foi morar no castelo de sua madrinha, Madame de Corcheval, dama nobre da região. Ali, num ambiente sereno e austero, começou a sua formação.
Duas senhoras ocupavam-se da sua educação. Uma era simpática e gentil. Margarida Maria, porém, fugia dela. A outra era severa e impertinente. Curiosamente Margarida sentia atração por esta última. Ninguém conseguia compreendê-lo. Mais tarde perceberam que este fato era mais um sintoma de que a proteção divina pairava sobre a menina. A primeira senhora levava uma vida irregular; a segunda era de uma conduta sem mancha. Nisto se manifestava o seu horror instintivo ao pecado.
A sua educação teve de ser interrompida quando morreu Madame de Corcheval. A sua afilhada tornou à casa paterna. Mas em 1655, no mesmo ano da morte de sua madrinha, falece também o seu pai. A mãe, com o objetivo de melhorar a situação patrimonial que o marido deixara complicada, e não dispondo do tempo necessário para providenciar a educação da filha, mandou-a como pensionista para um convento de Clarissas, o que era muito frequente então.
No silêncio dos claustros, refletindo durante longas horas no recolhimento e observando a modéstia e o espírito de oração das irmãs, Margarida sentiu o chamamento à vida religiosa. Foi ali onde, por volta dos nove anos, recebeu pela primeira vez Jesus Sacramentado. A partir de então, as graças na oração e o seu gosto pelo recolhimento aumentaram sensivelmente.
A jovem Margarida Maria tinha de completar junto às Clarissas a educação que recebia habitualmente uma menina de sua condição para ser mãe de família e também dama de sociedade. Isto significava uma sólida formação moral, na qual se punha especial cuidado nos hábitos de modéstia, discrição e domínio de si mesma.
Tal educação completava-se com o ensino da arte da conversa, música, pintura, dança... que desenvolviam a delicadeza, o tato, o bom gosto. Dessa forma florescia nas pensionistas o sentido da proporção, da naturalidade bem educada, ao mesmo tempo em que recebiam uma capacidade de julgar as pessoas e os fatos.



Judiciosa, sensata e caritativa

O seu espírito equilibrado e alguns traços da educação recebidos por Santa Margarida Maria foram entendidos mais tarde pela Madre Greyfié, uma das suas superioras em Paray-le-Monial, que a descreveu assim: “Era naturalmente judiciosa, sensata e tinha um espírito bom, humor agradável e o coração mais caritativo que se possa imaginar; numa palavra pode dizer-se que era uma criatura das mais aptas para ter êxito em tudo.” (3)
No pensionato das Clarissas, Margarida Maria contraiu uma doença grave, pelo que foi preciso reenviá-la à casa da mãe. Ali permaneceu cerca de quatro anos prostrada na cama, sem conseguir levantar-se. Deus Nosso Senhor visitava-a com o sofrimento. Só em 1661 recuperou a saúde depois de fazer um voto à Santíssima Virgem.
Na sua casa, outra situação muito dolorosa a aguardava. Sua mãe tinha transferido a gestão do patrimônio a um cunhado, Toussaint Delaroche, homem avaro e de temperamento irritável. A Santa suportou durante anos a quase escravidão a que a submetiam as injustiças do tio. Às vezes tinha de mendigar pão ao vizinho. A casa materna transformou-se então numa prisão torturante. “Não tínhamos já nenhum poder em casa e não ousávamos fazer nada sem seu consentimento”, escreveu a Santa. Passava horas num canto do jardim a rezar ou refugiava-se na capela da aldeia. Mas nem sequer lá encontrava repouso: o tio acusava-a de sair de casa para ver os rapazes. “Às vezes os pobres da aldeia, por compaixão, davam-me um pouco de pão, de leite ou alguma fruta na parte da tarde”. (4)


Reparação, desagravo, amor à Cruz

Deus permitia esses sofrimentos para prepará-la para a vida de renúncia e expiação que depois abraçaria com entusiasmo. Santa Margarida Maria devia pregar a devoção da reparação o do desagravo ao Sagrado Coração de Jesus; precisava ser um modelo dessa atitude de alma. Os sofrimentos desta etapa da sua vida, aceites com paciência exemplar, fortificaram-na para a vida de reparação que a Providência tinha escolhido para ela. Durante este período a Santa recebeu graças místicas extraordinárias. Além disso, já desde muito pequena, teve um trato muito familiar com Nosso Senhor. “(O Salvador) sempre estava presente sob a figura do crucificado ou do Ecce Homo a carregar a Cruz, o que me produzia tanta compaixão e amor ao sofrimento, que todos os meus sofrimentos pareciam leves em comparação com o desejo que experimentava de sofrer para me conformar com o meu Jesus sofredor.” (5)
Tal compreensão do valor do sofrimento na vida espiritual foi crescendo nela e será uma das características da sua santidade. Mais tarde, já visitandina, esta pioneira dos caminhos de Deus, dirá: “Deus deu-me tanto amor à Cruz que não consigo viver um momento sem sofrer: mas sofrer em silêncio, sem consolo, alívio ou compaixão; e morrer com este Soberano da minha alma, sob o peso de toda sorte de opróbrios, dores, humilhações, esquecimentos e desprezos...” (6)
O amor à Cruz foi característico em Santa Margarida Maria e é também condição indispensável de qualquer forma de santidade: “Jesus disse então aos discípulos: se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua Cruz e siga-me.” (Mt. 16,24)



Provações familiares

A sua família, de início, quis encaminha-la para um convento de Ursulinas onde já vivia uma prima. Santa Margarida Maria – que era muito afeiçoada a essa prima, deu-lhe uma resposta gentil em que transparece o seu grande desejo de perfeição: “Olha, se entro no teu convento será por amor a ti. Mas quero ir a um convento onde não tenha parentes nem conhecidos para ser religiosa só por amor a Deus.” (7)
Uma voz interior tinha-lhe advertido: “Não te desejo lá, mas em Santa Maria”, que era o nome do convento de Paray-le-Monial. (8) Estava claro que o Senhor a destinara para a Congregação das  Irmãs  da  Visitação e isto já era prefigurativo de como ela iria glorificar o Senhor na propagação do Coração de Jesus. As palavras do fundador da Ordem da Visitação, São Francisco de Sales,  quando escreveu a  São Jeanne de Chantal em 10/06/1611, demonstravam já a devoção da congregação aos Corações de Jesus e Maria:  "Realmente, a nossa  pequena congregação é uma obra do Coração de Jesus e de Maria".   Devoção correlatada por São Jeanne de  Chantal:  "As Irmãs da Visitação são bem  humildes e  fiéis a  Deus, e terão o Coração de Jesus como residência e estada neste mundo".  
Entretanto as pressões familiares para que optasse pelas Ursulinas continuavam. Mas uma doença da mãe e também de um irmão, forçaram-na a prolongar os seus planos de vida religiosa.
Numa certa altura, um sacerdote franciscano hospedou-se na casa dos Alacoque durante uma missão. Santa Margarida Maria aproveitou a ocasião para fazer uma confissão geral. Ao conhecer o alto grau de virtude e os desejos de vida religiosa da jovem, o padre julgou que devia seguir a sua vocação. O religioso falou com o irmão e convenceu-o a mudar de atitude. A prova em casa acabava. Outras cruzes, mais dolorosas, viriam no Convento da Visitação de Paray-le-Monial, aonde foi ter em seguimento de uma clara inspiração da Providência.
A nossa Santa foi ali aceita como noviça a 20 de Junho de 1671; vestiu o hábito a 25 de Agosto do mesmo ano e fez a profissão solene a 06 de Novembro de 1672. Assim ficava preparado o quadro para a mensagem do Sagrado Coração de Jesus.


Santa Margarida e o Sagrado Coração de Jesus

Santa Margarida foi acolhida no convento das Irmãs da Visitação de Paray-le-Monial.  Ali mesmo o Senhor se manifestaria a ela em revelações distintas, relativas à difusão da consagração e amor ao Seu Coração.  Apareceu-lhe por numerosas vezes, e deu a conhecer que seria ela o instrumento para arrebanhar o maior número de pessoas ao Amor de Seu Coração.    A essência da mensagem, porém, agrupa-se em três revelações:
1)                   A primeira ocorreu em 27 de dezembro de 1673, conforme relatou Santa Margarida: “Diversas vezes, diante do Santíssimo Sacramento”... “encontrei-me inteiramente investida desta divina presença”... eu abandonei-me ao Seu Divino Espírito, por força do Amor o Seu divino Coração... Ele me fez repousar de forma extrema e por um longo tempo sobre o Seu divino peito, onde pude descobrir as maravilhas do Seu amor, e os segredos mais profundos e inexplicáveis do Sagrado Coração... Ele me disse: "O Meu divino Coração transborda de amor para os homens, de modo especial por você, que não poderá mais conter para si a luz das chamas da brilhante caridade; é necessário que seja difundida aos homens, e que lhes seja manifesto para enriquecê-los dos preciosos tesouros que te revelei..." 
2)                   A segunda provavelmente deu-se em uma das primeiras sextas-feiras do ano 1674:  "E numa das vezes,  entre tantas outras,  em que o Santíssimo Sacramento estava exposto,  após ser eu retirada do interior de mim mesma... Jesus Cristo,  Meu suave Mestre, apresentou a mim,  repleto da sua glória, suas cinco chagas, brilhantes como cinco sóis,  e  desta sagrada Humanidade  saíam chamas de todas as partes, sobretudo do Seu adorável peito, semelhante a uma fornalha;  neste instante revelou-me todo o amor e todo o  seu amável Coração e o estado da fonte viva destas chamas. Ele  revelou-me as  maravilhas inexplicáveis de seu Puro Amor,  excessivamente entregue aos homens,  dos quais recebia apenas frieza e ingratidão...”. 



3)                   Na terceira, ocorrida durante o mês de junho de 1675, Jesus exigiu que fosse feita uma festa especial ao Seu Sagrado Coração: “Numa das tantas vezes em que me encontrava diante do Santíssimo Sacramento, revelou-me Deus as  graças excessivas de Seu Amor”... Então, mostrando-me Seu divino Coração, disse:  “Aí está o Coração que tanto tem amado os homens, a ponto de nada poupar até exaurir-se e  consumir-se para demonstrar-lhes o seu amor;”... Eu te exijo mais,  que  na primeira Sexta-feira de acordo com a oitava do Santíssimo Sacramento, seja dedicada e junte-se a esta festa por honra ao Meu Sagrado Coração, fazendo que seja de igual honra  àquele dia, a fim de reparar as indignidades e ultrajes durante o tempo em que o viram exposto sobre os altares.



São Cláudio de La Colombiére, diretor
espiritual da santa e grande incentivador
e apóstolo da devoção ao Coração de Jesus
Santa Margarida, porém,  enfrentaria  diversos  obstáculos na propagação das revelações feitas a ela por Nosso Senhor.  Não tardou que fossem levantadas  críticas e  colocadas  em dúvida as suas experiências místicas. Submetida às mais duras provações e intensas humilhações, Deus enviou ao mosteiro um santo sacerdote que, a princípio passou a estudar minuciosamente os  fenômenos relatados. Posteriormente, tornar-se-ia ele propagador e  apóstolo do Sagrado Coração de Jesus: Padre Cláudio de La Colombiere.
No último ano da sua vida, Santa Margarida  teve a oportunidade de ver a propagação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus;  viu também um grande número de críticos e opositores tornarem-se fervorosíssimos propagadores da santa devoção. Deus revelou-lhe o mistério da Santíssima Trindade, durante uma das suas aparições.
Jesus deixou grandes promessas às pessoas que,  aproveitando-se da Sua divina misericórdia, participassem das comunhões reparadoras das primeiras sextas-feiras: "Prometo-te, pela Minha excessiva misericórdia e pelo amor todo-poderoso do meu Coração, conceder a todos os que comungarem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, a graça da penitência final;  não morrerão em minha inimizade, nem sem receberem os sacramentos, e meu divino Coração lhes será seguro asilo nesta última hora".
Tais manifestações divinas sucederam num período em que a heresia jansenista,  retratava um braço do protestantismo a propagar seus erros no seio da Igreja, tentando aniquilar a  concepção da misericórdia de Deus e  da confiança dos fiéis em relação ao Pai Celeste.  A mensagem misericordiosa de Cristo, que aos poucos foi se impondo no convento da Visitação, acabou espalhando-se rapidamente entre as nações e em seguida instituída a sua prática em  toda a Igreja Universal.




"Eis o Coração que tanto amou os
homens"... 
A missão de Santa Margarida Maria Alacoque

Em 1647, quando nasceu Santa Margarida Maria, a devoção ao Sagrado Coração não era muito conhecida, se bem que já existia. A sua missão foi dar-lhe um impulso e uma difusão universal, precisar o seu espírito, adapta-lo às necessidades da Igreja nos tempos modernos e fixar as práticas de piedade mais adequadas às novas circunstâncias.
Santa Margarida Maria foi uma simples freira que nunca transpôs os muros do seu convento e morreu antes de completar 45 anos, em 1690. A Providência compraz-se deste modo em realizar um desígnio imenso a partir de uma humilde religiosa que, para fugir do mundo, tinha-se retirado a um obscuro convento da Ordem da Visitação e levou ali uma vida apagada aos olhos dos homens e até das freiras visitandinas com as quais convivia.
O quadro hoje é completamente diverso. Ornato da Ordem da Visitação, a religiosa então apagada foi elevada ao ápice de glória na Igreja e, do alto dos altares, da sua santidade despede raios de salvação à terra inteira, enquanto a maioria dos homens famosos e importantes da sua época é desconhecida pelos nossos contemporâneos.
O Papa Pio XII, depois de fazer a lista dos Santos que a precederam na prática e difusão da devoção ao Coração de Jesus, diz a este propósito: “Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção, merece um lugar especial Santa Margarida Maria Alacoque que, com a ajuda do seu diretor espiritual, o Beato Cláudio de la Colombière (hoje santo) e com o seu zelo ardente, obteve, não sem a admiração dos fiéis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã.” (9).


1. Bougaud, História de Santa Margarida Maria, citado em Péricles Capanema Ferreira e Melo, membro da Academia Marial de Aparecida, “O Estandarte da Vitória - A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e as necessidades de nossa época”, pg 28.

2. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.52 in Op. Cit. p. 28

3. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.456 in Op. Cit. p. 30

4. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.40 in Op. Cit. p. 31

5. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.41 in Op. Cit. p. 32

6. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, tI, p.44 in Op. Cit. p. 33

7. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, p.25 in Op. Cit. p. 33

8. Sainte Margarite-Marie Alacoque, Vie et ouvres, p.25 in Op. Cit. p. 33

9. Encíclica Haurietis Aquas, 49