Páginas

terça-feira, 18 de novembro de 2014

SÃO LEOPOLDO MANDIC´, Presbítero Capuchinho (Apóstolo e Patrono do Sacramento da Confissão).


São Leopoldo Mandic: Apóstolo do confessionário

Era o dia 14 de maio de 1944. A Europa estava em plena guerra e a Itália, aliada da Alemanha, sofria as consequências do seu envolvimento no conflito. Pádua tinha sido escolhida como alvo da aviação inimiga. As bombas choviam, devastando a cidade. A igreja dos capuchinhos foi duramente atingida, bem como grande parte do convento.
Cessada a tempestade, quando a fumaça se dissipou, o trágico alcance da destruição apareceu aos olhos de todos. Algo, porém, chamava enormemente a atenção: uma pequena parcela daquele mosteiro permanecia intacta no meio das ruínas. A fúria demolidora do bombardeio respeitara de modo miraculoso apenas um aposento e uma imagem de Nossa Senhora das Graças.
Doze anos antes – em 23 de março de 1932 –, um frade desse mesmo mosteiro, chamado frei Leopoldo, predissera que a Itália seria envolvida num mar de fogo e sangue. Iniciada a guerra, perguntaram- lhe se Pádua seria bombardeada. Sua resposta foi clara: “Será, e duramente. Também o convento e a igreja serão atingidos, mas esta pequena cela, não, esta não! Aqui Deus usou de tanta misericórdia para com as almas, que deve ficar como monumento de Sua bondade”!
E o lugar que permaneceu intacto durante o bombardeio foi precisamente a cela-confessionário de frei Leopoldo Mandic, onde, durante quase quarenta anos, de dez a doze horas por dia, ele ouviu em confissão milhares e milhares de almas arrependidas.


São Leopoldo Mandic, capuchinho
Dalmácia: terra de tradições cristãs
Tal como São Jerônimo, frei Leopoldo era dálmata. Nasceu em 12 de maio de 1866, na pequena cidade de Castelnovo, localizada na belíssima Baía de Cátaro. Embora a região da Dalmácia integre em nossa época o território croata, não se desvinculou, nos panoramas da História, dos dias em que abrigara os palácios de férias dos imperadores romanos, atraídos pelos irresistíveis encantos de sua costa. Com efeito, desde aqueles remotos tempos até os dias de hoje, a proximidade com a Península Itálica propiciou um intercâmbio cultural ininterrupto.
Por tais influências, a família de frei Leopoldo era profundamente católica. Os pais, Pedro Mandic e Carolina Zarevic, descendiam da antiga nobreza local, e cultivavam tradições legadas por seus maiores, fruto de um passado rico em serviços prestados à nação e à Igreja. Isso marcou indelevelmente a alma do futuro sacerdote.
Dos doze filhos do casal, ele era o mais jovem e, também, o menos robusto. Sua compleição, menos avantajada que a da média de seus conterrâneos, escondia entretanto uma alma de gigante, daquela sorte de homens que, quanto mais se conhece, maiores parecem ser, sobretudo pela união e entrega a Deus, fazendo jus ao nome recebido na pia batismal: Bogdan, que significa Adeodato, "dado a Deus".


Confessava, quer fizesse frio, quer fizesse
calor, de 10 a 12 horas por dia... 
"Não posso chorar; vou para a casa do Senhor"

Sua infância e adolescência foram assinaladas por admirável clarividência de espírito, a qual só podemos explicar pelo vigor da Fé que ele possuía desde tenra idade.
Menino de agudo senso analítico, sentiu-se chocado ante os embates surgidos do ódio entre raças e religiões, ocasionados na Croácia por anos consecutivos de guerra e ocupações estrangeiras. À medida que passava o tempo, o jovem Bogdan penetrava na raiz daquelas discórdias, compreendendo como os homens, quando se afastam de Deus, acabam por se render às suas más inclinações. Discernia também, com toda clareza, o quanto podia a Igreja Católica ser naquela conjuntura um poderoso instrumento de paz.
As primeiras decisões por ele tomadas na vida foram coerentes com a luz interior que Deus lhe havia concedido. Sem titubear, abraçou a vocação franciscana, em seu ramo capuchinho, aos 16 anos de idade. Alimentava desde o início o veemente desejo de dedicar-se às missões nos Bálcãs, para trazer de volta ao seio da Igreja aqueles que dela se haviam separado.
Designado pelos superiores para realizar o noviciado na Itália, não podia ocultar seu contentamento aos parentes quando, em prantos, dele vieram se despedir. Indagado sobre sua isenção de ânimo num momento tão difícil para a maioria dos vocacionados, respondeu sorrindo: “Não posso chorar. Vou para a casa do Senhor. Como querem que eu chore”? 



São Leopoldo era de compleição franzina
e de estatura muito baixa. Seu ardente desejo
pelas missões foi frustado por causa disso. 
Submisso à vontade de Deus, fez do
confessionário sua "terra" de missão. 
Deus o chama a ser missionário

Os meses de inverno se aproximavam no seminário capuchinho de Údine, quando chegou Bogdan, em novembro de 1882. Ali, o noviço aplicou-se aos estudos e fez rápidos progressos, mas, sobretudo, dava bons exemplos.
Em 1884, foi transferido para Bassano Del Grappa, onde recebeu o hábito da ordem, com o nome de Frei Leopoldo. Sofreu muito devido à sua débil compleição física (era franzino e de baixa estatura, em torno de 1,4 metro) e ao rigor do noviciado dos capuchinhos, mas tudo enfrentou com heroísmo, tendo a alma sempre posta no ideal das missões. Professou no ano seguinte e retomou os estudos em Pádua, onde fez Filosofia; depois iria para Veneza, cursar Teologia.
Em junho de 1887, quando ainda era estudante em Pádua, ouviu claramente no fundo da alma a voz de Nosso Senhor que o convidava a ser missionário entre os ortodoxos para reconduzi-los ao seio da Santa Igreja. A data ficou-lhe tão marcada que, meio século depois, escrevia: “Este ano é o quinquagésimo aniversário de quando, pela primeira vez, ouvi a voz de Deus que me chamava para rezar e promover o retorno dos dissidentes orientais à unidade católica”.
Para melhor compenetrar-se dessa missão, obrigou-se por voto a cumpri-la. Estudava com afinco as línguas balcânicas e confiava em converter aqueles povos, sobretudo por meio da devoção a Nossa Senhora, que pretendia difundir pela palavra escrita e falada.
Tão logo recebeu a ordenação sacerdotal, em 20 de setembro de 1890, em Veneza, pediu autorização para partir e lançar-se na missão. Mas esta lhe foi negada, devido a seu precário estado de saúde.


Dotado de dons e carismas extraordinários,
São Leopoldo foi um grande apóstolo no
confessionário. Muitas almas ali encontraram
conforto, libertação, salvação e santificação. 
Inúmeros pecadores deixaram os pecados e os 
vícios por uma vida digna e santa. 
Inesperada terra de missão e campo de batalha

Deus tem misteriosos desígnios a respeito de seus santos! Frei Leopoldo nunca pôde viajar para os Bálcãs, como tanto havia desejado. Os verdadeiros contornos de sua missão eram outros e foram se delineando pouco a pouco ante seus olhos: a Providência queria que ele se sacrificasse por aquele povo separado da Igreja, sofrendo, como vítima expiatória, um martírio interior.
O confessionário foi o principal instrumento para a realização de tal oferecimento: nele permanecia todos os dias mais de dez horas, às vezes doze, atendendo almas às quais consolava, orientava e ministrava o Sacramento da Reconciliação. Jamais deixou de mostrar-se solícito com quem o procurava, mesmo quando se tratava de pessoas impertinentes ou quando o horário já era tardio. O pequeno espaço de sua cela-confessionário transformou-se para ele num verdadeiro campo de batalha. Dizia com frequência: “Devo fazer tudo só para o bem das almas, tudo, tudo mesmo! Quero e devo morrer lutando”.
Só no fim da vida, Frei Leopoldo iria revelar a um irmão leigo capuchinho um esclarecedor fato ocorrido no início de sua vocação. Certo dia, após ministrar a Sagrada Comunhão a uma pessoa piedosa, esta lhe confidenciou: “Padre, Jesus me mandou dizer-lhe que cada alma que o senhor assiste aqui em confissão é o seu Oriente”.
Ele nunca pôde ser missionário nos Bálcãs, mas exerceu uma profícua atividade apostólica sem jamais perder de vista esse grande horizonte. Em setembro de 1914, deixou escrito este testemunho: “O fim de minha vida deve ser procurar o retorno dos dissidentes orientais à unidade católica, isto é, devo dirigir todas as ações de minha vida diante de Deus, na fé e na caridade de Nosso Senhor, vítima propiciatória pelos pecados do mundo, de modo que, no que toca à minha insignificância, minha vida dê alguma coisa a tamanha obra, pelo mérito do sacrifício”.


Como tinha o dom de ler as consciências
e de conhecer as profundezas das almas, 
não poucos pecadores, tendo descobertos
seus pecados, mesmo os mais ocultos e 
esquecidos, choravam copiosamente diante
de sua presença... 
Dons de exímio confessor

Franzino, de pequena estatura, voz fraca, frei Leopoldo nada aparentava, do ponto de vista natural, que pudesse atrair as pessoas. Entretanto, suas palavras simples, embebidas de amor a Deus e ao próximo, penetravam profundamente nos corações e os transformavam.
Possuía em tão alto grau o dom da sabedoria e do conselho que pessoas de todas as classes sociais vinham pedir sua sábia orientação. Inclusive altos dignitários eclesiásticos o consultavam sobre intricados problemas de suas dioceses ou funções.
Recebeu de Deus também o dom de perscrutar os corações e disto nos dá testemunho, por exemplo, o Sr. José Bolzonella, de Pádua, o qual frequentemente acorria a Frei Leopoldo para receber o Sacramento da Reconciliação. Numa manhã, quando ele se ajoelhou no confessionário, o capuchinho narrou-lhe, em pormenores, tudo quanto ele havia feito. Vendo seu penitente profundamente impressionado, o padre concluiu, fitando-o com amabilidade: “Fique tranquilo! Fique tranquilo e não pense mais nisso”.
O santo confessor demonstrava particular zelo em reconduzir ao bom caminho os penitentes que se acusavam de faltas contra a pureza, de modo superficial e sem manifestar arrependimento sério, sobretudo quando se tratava de atos públicos. Reagia com severidade, objetivando movê-los à contrição e acordá-los do seu letargo. Esse gênero de pecados causava-lhe um verdadeiro horror, pois ele era de uma castidade ilibada. Chegou a dizer, em sua velhice, que sentia ter ainda uma alma de criança, dando a entender que conservara intacta a inocência batismal.
Seu trato com as almas vinha marcado por uma extrema bondade. E se alguém manifestasse estranheza diante de tanta afabilidade, sempre apontava para o Crucifixo, dizendo ter sido Jesus quem lhe havia ensinado e dado o exemplo.
Pouco antes de morrer, declarou que confessava há mais de 50 anos e não sentia remorso por ter quase sempre absolvido o penitente, mas, sim, pesar pelas poucas ocasiões nas quais não pudera fazê-lo; e examinava-se rigorosamente para saber se, nesses casos, havia feito tudo quanto estava a seu alcance para que aquelas almas fossem tocadas pela graça do arrependimento.
Contudo, quando necessário, sabia manifestar uma fortaleza capaz de vencer os corações mais duros. Certo dia, apresentou-se diante dele um pecador inveterado, alegando falsas teorias para legitimar seus erros. Frei Leopoldo, com grande caridade, procurou dissuadi-lo de sua má atitude. Mas quando percebeu que todos os argumentos eram inúteis, levantou-se com o rosto inflamado de santa indignação e apontou-lhe a porta, dizendo em tom severo: “Olhe, com Deus não se brinca; vá e morrerá no seu pecado”!  Como que atingido por um raio, o pecador caiu de joelhos aos seus pés e, debulhado em lágrimas, pediu perdão, prometendo renunciar totalmente aos seus falsos princípios. O santo sacerdote abraçou-o, misturando suas lágrimas às dele, e emocionado por ver a ação da graça, disse-lhe: “Agora somos irmãos”!

Mesmo idoso, fraco e doente, lutou até o fim 
pela salvação das pobres almas dos pecadores. 

Pediu a graça de morrer combatendo

O amor enlevado à Cruz marcou a vida de Frei Leopoldo. Além do heroico empenho no atendimento diário das confissões, vivia em constante luta contra seu temperamento forte e impetuoso. Também não lhe faltaram sofrimentos físicos: dores gástricas, oftalmias, artrite deformante. Depois da celebração do seu jubileu de ouro sacerdotal, em 1940, seu estado de saúde piorou muito. Uma breve melhoria permitiu-lhe voltar ao "campo de batalha", mas pouco depois lhe foi diagnosticada a doença que o levaria à morte: um tumor maligno no esôfago. A enfermidade progrediu a ponto de não lhe ser possível deglutir alimento algum, com exceção das Sagradas Espécies, graça singular que lhe causava imensa alegria.
Vendo aproximar-se a hora final, Frei Leopoldo pediu a graça de morrer combatendo, e a obteve. No dia 30 de julho de 1942, levantou-se às cinco e meia da manhã e dirigiu-se à capela da enfermaria. Na véspera, apesar do seu estado precário, tinha atendido várias confissões. Após uma hora de orações, caminhava rumo à sacristia a fim de preparar-se para celebrar a Santa Missa, quando subitamente caiu ao solo. Levado para o leito, recebeu a Unção dos Enfermos, ainda com inteira lucidez. O superior do convento recitou três vezes a Ave Maria e depois a Salve Rainha. O santo frade repetia as palavras, com voz cada vez mais fraca. Quando terminou de dizer: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria", sua alma voou para o Céu.

O venerando corpo do Santo em suas exéquias

O bom pastor oferece a vida por suas ovelhas

A notícia do falecimento se espalhou rapidamente pela cidade e aldeias vizinhas. Multidões desfilaram diante de seu corpo e um clamor popular dizia a uma só voz: “Morreu um santo”! No dia seguinte, um imenso cortejo triunfal o conduziu ao cemitério, entre alas de pessoas que permaneciam ajoelhadas e lançavam flores sobre o féretro.
Em 1963, o corpo incorrupto de Frei Leopoldo foi trasladado para uma capelinha construída ao lado de sua cela-confessionário. O Papa Paulo VI o proclamou bem-aventurado em 1976, e São João Paulo II o canonizou em 1983, quando se realizava o Sínodo Mundial dos Bispos, convocado para tratar do Sacramento da Penitência; precisamente o Sacramento que o santo capuchinho tanto amou.
As palavras do Papa, nessa ocasião, foram muito significativas e resumem a vida de virtude heroica de São Leopoldo: "Para todos aqueles que o conheceram, ele não foi mais que um pobre frade, pequeno e doentio. A sua grandeza está em outra parte: em oferecer-se como sacrifício, em doar-se, dia após dia, por todo o tempo da sua vida sacerdotal, ou seja, por 52 anos, no silêncio, na discrição, na humildade de uma pequena cela-confessionário: ‘O bom pastor oferece sua vida pelas ovelhas'".


São Leopoldo Mandic, rogai por nós! 


Outras fotos de São Leopoldo Mandic´: 






Foto do santo em uma visita sua
à casa de um paroquiano 
amigo dos frades. 

Nesta foto de São Leopoldo com uma família
de paroquianos, vê-se claramente a baixa
estatura do santo... Apesar disso, era um 
"gigante" na fé, na caridade e santidade. 






Foto do santo poucos dias antes de sua
santa morte... 



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

SÃO JOÃO CÂNCIO, Presbítero (santo muito venerado na Polônia)



Considerado um dos santos mais representativos e queridos da heroica Polônia, são João Câncio é chamado, pelo povo, de a "glória da nação polonesa" e o "pai da pátria". Isso num país que sempre teve orgulho de sua fé no cristianismo e da fidelidade à cátedra de Pedro.
João Câncio nasceu em 23 de junho de 1390, no povoado de Kenty, e viveu sempre em sua cidade, Cracóvia. Lá, conquistou todos os graus acadêmicos e lecionou em sua principal universidade até morrer. A grande preocupação de seu magistério era transmitir aos alunos os conhecimentos "não à luz de uma ciência fria e anônima, mas como irradiação da ciência suprema que tem sua fonte em Deus".
Mesmo depois de ordenar-se sacerdote, continuou a cultivar a ciência, ao mesmo tempo em que fazia seu trabalho pastoral como vigário da paróquia de Olkusz. Homem de profunda vida interior, jejuava e penitenciava-se semanalmente, ao mesmo tempo em que espalhava o amor pelo próximo entre os estudantes e os pobres da cidade.
Sua vida de oração e amor a Deus profundos, logrou-lhe aparições e visões celestes da Virgem Maria e de anjos. Era verdadeiramente um homem "angélico", pela pureza de sua alma e pelo fervor que devotava a Deus. 
Destacou-se também por uma profunda humildade. Quando a sua humildade e a sua paciência eram postas a prova, sem perder a costumeira serenidade de espírito, se limitava a responder: “Graças a Deus!” Na qualidade de preceptor dos príncipes da Casa real polonesa, às vezes não podia se subtrair a participação de alguma festa mundana.
Um dia se apresentou a um banquete com roupas humildes e um doméstico o colocou porta afora. João foi se trocar e voltou ao lugar onde se dava a recepção. Desta vez pode entrar, mas durante o almoço um servente desastrado esvaziou um copo nas suas vestes. João sorriu afirmando: “Está certo que também a minha roupa tenha a sua parte, foi graças a ela que pude entrar aqui”. Tanto nas pequenas como nas grandes adversidades, João teve sempre em mira algo de bem superior ao prestígio, a carreira e ao bem-estar materiais: “Mais para o alto”, repetia frequentemente querendo exprimir com este lema o seu programa de vida ascética. Ele se distinguiu sobretudo pela caridade evangélica. 
Há um exemplo claro de sua personalidade em sua biografia, que remonta às inúmeras peregrinações e romarias aos túmulos dos mártires em Roma, bem como aos lugares santos da Palestina. Numa dessas incontáveis viagens, foi assaltado. Os bandidos exigiram que João Câncio lhes desse tudo que tinha, depois perguntaram ainda se não estava escondendo mais nada. Ele afirmou que não.
Depois que os ladrões partiram, ele se lembrou de que ainda tinha algumas moedas no forro do manto. Achou-as, correu atrás dos bandidos, deu-lhes as moedas e ainda pediu desculpa pelo esquecimento.
São João Câncio o o milagre da
bilha de água que se "consertou"
milagrosamente em suas mãos. 
Anos depois, ao perceber a proximidade da morte, distribuiu os poucos bens que possuía aos pobres, falecendo às vésperas do Natal de 1473. Morreu em Cracóvia, com a idade de oitenta e três anos, na noite de Natal de 1473 e foi canonizado em 1767. A memória do santo, celebrada a 20 de outubro, foi agora trazida para mais perto da data de sua morte.Foi canonizado por Clemente II em 1767. São João Câncio era celebrado no dia 20 de outubro, mas agora sua festa acontece um dia antes daquele que marca sua morte.
Para homenagear o "professor santo", que foi modelo para gerações inteiras de religiosos, o papa João Paulo II foi à Polônia em 1979. Na ocasião, consagrou uma capela em memória do padroeiro da Polônia, são João Câncio, na igreja de São Floriano. Nela, na metade do século XX, o mesmo papa, então um jovem sacerdote, iniciava o seu serviço de vigário paroquial.


São João Câncio, rogai por nós! 


domingo, 16 de novembro de 2014

LADAINHA DE TODOS OS SANTOS (CANTO GREGORIANO)




video

SÃO PEDRO DE ARBUÉS, Presbítero e Mártir (o "inquisidor mártir")


São Pedro de Arbués, mártir vitimado pelos que odiavam a Inquisição. Inquisidor, defensor da fé no reino de Aragão, foi morto a mando de judeus pretensamente convertidos ao cristianismo, quando rezava na catedral de Zaragoza.

A maior glória da Espanha era sua catolicidade destemida, ufana, realista. O espírito racionalista do século XIX detestava particularmente esse admirável espírito espanhol. Daí organizar uma campanha de difamação contra esse país e contra suas mais legítimas instituições, cobrindo-os com uma legenda negra, que nosso tempo herdou sem espírito de crítica. O objeto de maior difamação dessa “legenda” foi o Santo Tribunal da Inquisição contra a Perfídia dos Hereges.

É bem verdade que historiadores conscienciosos têm recentemente mostrado a parcialidade e exagero dos críticos desse Santo Tribunal, sobretudo as cifras exageradas que apresentam. Um historiador, insuspeito por ser protestante, afirma que “um auto-de-fé não se passava nem a queimar nem a pôr à morte [suas vítimas], mas, em parte, a pronunciar a quitação das pessoas falsamente acusadas, em parte a reconciliar com a Igreja os arrependidos. E houve muitos autos-de-fé nos quais não se viu queimar senão o círio que os penitentes tinham na mão, em sinal de sua fé”.(1) “O mesmo Llorente, o historiador que, sob pretexto de falar sobre a Inquisição, a desfigurou com tanta obstinação, cita para o ano de 1486 quatro autos-de-fé em Toledo, onde não havia menos que um total de três mil, trezentos e cinquenta culpados punidos. Sobre esse número, quantos foram postos à morte? Nenhum! Llorente o reconhece. As punições consistiam, geralmente, em uma penitência ou uma recitação de salmos”.(2)
O Santo Ofício tinha por lema Misericórdia e Justiça, desconhecido então pelos tribunais civis do tempo.



A Santa Inquisição, para os males da Espanha

Após a reunificação da Espanha sob seus cetros, os Reis Católicos, Isabel e Fernando, tiveram que enfrentar dois perigos: os mouriscos, que conspiravam procurando recuperar sua antiga supremacia; e os judeus conversos, ou cristãos novos, que muitas vezes, aparentando verdadeira conversão, procuravam, através da riqueza e do poder político cada vez mais em suas mãos, também a supremacia, com perigo para a verdadeira fé.

“O que fazer em tal conflito religioso, com tais inimigos domésticos?” –– indaga o renomado escritor espanhol Menéndez y Pelayo. E responde: “O instinto da própria conservação se sobrepôs a tudo; e, para salvar a qualquer preço a unidade religiosa e social, para dissipar aquela dolorosa incerteza em que não se podia distinguir o fiel do infiel, nem ao traidor do amigo, surgiu em todos os espíritos o pensamento da Inquisição”. Sobre seu resultado, afirma: “Nunca se escreveu mais nem melhor na Espanha que nesses dois séculos de ouro da Inquisição. No século XVI, inquisitorial por excelência, a Espanha dominou a Europa, ainda mais pelo pensamento que pela ação, e não houve ciência nem disciplina em que não se marcasse a sua garra”.(3) E o historiador Pe. Mariana acrescenta: “Nenhum tribunal há em todo o mundo para maior espanto dos maus, nem de maior proveito para toda a Cristandade. É um remédio dado pelo Céu, que sem dúvida não bastaria prudência humana para preveni-lo”.(4)

O antigo confessor da rainha Isabel na infância, o frade dominicano Tomás de Torquemada, conhecido por sua virtude e saber, foi designado como Inquisidor Geral e encarregado de levar avante a antiga instituição. Escolheu para auxiliá-lo como Primeiro Inquisidor o cônego do capítulo da Sé de Zaragoza: Pedro de Arbués, conjuntamente com Frei Gastar Inglário, dominicano.




 Quem foi Pedro de Arbués?

Pedro de Arbués era oriundo de nobilíssima família, nascido em Epila, no reino de Aragão, no ano de 1441. Tinha cinco irmãs, quatro das quais se casaram com os mais ilustres gentis-homens de Aragão.

Depois de terminar seus estudos em Huesca, foi para a então famosa universidade de Bolonha, uma das mais brilhantes na época. “Companheiro amável, coração generoso e caritativo, talento humilde quanto esplêndido, centrava sobre si a admiração de seus mestres e o aplauso de seus condiscípulos, diante dos quais passava como o melhor representante do mundo estudantil”.(5) Com o grau de doutor, voltou então para a pátria.

Sendo seu talento e virtude logo reconhecidos, foi eleito membro do capítulo da Sé de Zaragoza, como cônego regular, seguindo a regra de Santo Agostinho.

Não é de admirar que ele fosse escolhido para o difícil cargo de Primeiro Inquisidor, pois por seu caráter firme, douto e austero, já se havia tornado conhecido na cidade, onde o povo começara a chamá-lo de “el santo Maestro de Epila”, ou simplesmente “Mastrepila”. Esse instinto salutar do povo não deixava de ser atraído pela sua virtude. Diz um seu antigo biógrafo que ele, desde sua infância, havia dourado o ferro do pecado original com o ouro celeste das virtudes.(6)

Pedro de Arbués entregou-se por inteiro à sua nova função: “Ardente em procurar conversões, ele não era menos prudente em aceitar senão as sinceras e provadas, tanto para evitar a profanação dos sacramentos quanto para diminuir o perigo de defecções que expusessem em seguida o culpado a todo o rigor da lei. [...] Era encontrado por toda parte onde se achasse uma alma tocada pela graça de Deus, por toda parte onde um coração vacilante e de perseverança duvidosa lhe era apontado: na cabana do pobre e no balcão do rico, na cabeceira dos doentes, nas prisões onde estavam encerrados os relapsos e apóstatas, e até ao pé dos cadafalsos onde alguns iam expiar tristemente sua inconstância”.(7)

Entretanto, o novo tribunal encontrou oposição entre os aragoneses, que queriam preservar vários privilégios regionais. Uma revolta, fomentada e alimentada por muitos conversos judeus, foi num crescendo.

Mas a atitude franca e destemida do novo Inquisidor enfrentou toda oposição, pela palavra e sobretudo pelo exemplo. Sendo cônego, baniu de sua casa todo luxo, e entregava-se a severas privações. Mostrava-se um pai para os pobres e procurava toda ocasião para exercer as obras de misericórdia, tanto espirituais quanto temporais. Ele foi mesmo dotado do dom de profecia, tendo predito a queda de Granada quando parecia temerário fazê-lo.

Matar um inquisidor, para não surgir outros...

No ano de 1484, tendo falecido o outro inquisidor, Frei Inglário, e não tendo ainda sido substituído, todo o ônus do ofício caiu sobre o Cônego Pedro de Arbués.

Muitos dos judeus pseudo-convertidos, temendo que o Tribunal da Inquisição pesquisasse suas duvidosas vidas de piedade e sua sinceridade na prática da religião, se reuniram contra aquele que era seu inimigo comum. O que fazer contra ele? O veredito foi dado por Garcia de Moros: “Matemos um inquisidor, e com o medo não virão outros”. A sorte de Pedro de Arbués estava selada.

Vários atentados foram praticados contra ele, sendo que uma vez mal se livrou do punhal assassino, e outra teve as grades da habitação limadas, o que foi descoberto a tempo. Alertaram-no para que andasse protegido. Ele resolveu confiar só em Deus, dizendo que, de mau padre que era, queria fazer um bom mártir.

“Morro por Jesus Cristo. Louvado seja seu Nome”...
Na madrugada de 14 para 15 de setembro, o Cônego Arbués dirigiu-se para a catedral, como fazia diariamente, para rezar com os cônegos o Ofício Divino. Chegando próximo ao altar, ajoelhou-se para rezar as orações preparatórias. Saindo os sicários dos judeus das trevas onde se tinham escondido, um deles deu-lhe uma punhalada na garganta. O mártir tentou ainda escapar indo para o coro, onde estavam os outros religiosos. Mas um segundo assassino o varou com sua espada. Caindo ao solo, Pedro de Arbués exclamou: “Morro por Jesus Cristo. Louvado seja seu Nome”. Levado para casa, aí morreu dois dias depois, tendo perdoado seus assassinos que, encontrados depois, foram decapitados.

A consternação e a revolta popular pelo sacrílego atentado atingiu o auge. O povo saiu pelas ruas, clamando por punição para os conversos e pedindo a expulsão de todos os judeus da Espanha. Para evitar um massacre dos judeus, foi preciso que o vice-rei Fernando de Aragão, meio-irmão do rei, saísse às ruas prometendo severo castigo do crime.

O mártir Pedro de Arbués teve um apoteótico enterro. Quando seu corpo chegou à catedral onde seria sepultado, e foi depositado no solo, viu-se um milagre: seu sangue, que, por respeito, não haviam limpado do piso, e que se encontrava seco e escuro, readquiriu vida ao contato com o caixão, tomou brilhante cor e aumentou em tal abundância, que a multidão pôde molhar nele lenços e outros objetos, que guardaram como relíquias. O prodígio se repetiu 15 dias depois, como é relatado na Acta Sanctorum.


“Santo Mastrepila, ressuscita meu filho”
Entre os milagres aprovados para a beatificação do mártir, estão as ressurreições de dois meninos, um dos quais era dos arredores de Zaragoza. Quando o corpo ia descer ao túmulo, a mãe, tomada por súbita inspiração, pegou-o nos braços, clamando em altas vozes: “Santo Mastrepila, eu te ofereço este fruto de minhas entranhas. Ele é teu. Ressuscita-o, por favor, meu Santo”. No mesmo instante as cores voltaram ao menino, que se levantou. A mãe levou como ex-voto ao túmulo de São Pedro de Arbués o sudário em que o menino estava sendo sepultado.


Notas:

1. Héfélé, Ximenes, p. 322, apud Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, t. XI, p. 190, nota.

2. Les Petits Bollandistes, id., ib.

3. In Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, tomo V, p. 172.

4. In Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo III, p. 619.

5. Edelvives, op. cit., p. 173.

6. In Frei Perez de Urbel, op. cit., p. 619.

7. Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 190.



(Fonte: site “Catolicismo”)