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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sábado, 2 de agosto de 2014

Santa Cristina, a Admirável, Virgem (memória em 24 de julho)



Martirológio Romano: Em Sint-Truiden, no Brabante, moderna Bélgica, Beata Cristina, virgem, dita a Admirável, porque nela, na mortificação do corpo e nos êxtases místicos, o Senhor operou maravilhas.

     Nascida de família aldeã, em Brusthem, na diocese de Liège, cerca do ano de 1150, Cristina ficou órfã aos quinze anos; vivia com duas irmãs mais velhas e ocupava-se em guardar os rebanhos nos campos.
     Os fatos que a seu respeito narram o dominicano Tomás de Cantimpré (+ 1270) e o Cardeal Tiago de Vitry não merecem grande crédito, mas compõem a sua legenda.
     Tomás de Cantimpré, antigo professor de Teologia em Lovaina, afirma narrar o que ouviu da boca dos que a conheceram, mas mostra-se demasiado crédulo. Quanto a Tiago de Vitry, trata-se de cronista sério que afirma ter conhecido Cristina pessoalmente.
     “Deus operou nela”, escreve ele, “coisas verdadeiramente maravilhosas. Já estava morta há muito tempo, mas conseguiu a graça de retomar o corpo, a fim de sofrer o seu Purgatório cá na terra. Desta forma sujeitou-se a mortificações inauditas, ora rolando-se por cima do fogo, ora permanecendo nos túmulos dos mortos. Acabou por ser favorecida com graças sublimes e gozar duma paz profunda. Muitas vezes, transportada em êxtase, levou as almas dos mortos para o Purgatório e outras vezes tirou-as do Purgatório para as levar para o Paraíso”. (ed. in Acta SS. Iulii, V, Veneza 1748, pp. 650-60).
     Ativados pela contemplação, os ardores da sua alma tornaram-se tão intensos, que o corpo não pôde resistir: ela caiu doente e “morreu” pela primeira vez quando tinha pouco mais de vinte anos. No dia seguinte, levaram os seus despojos à igreja para a cerimônia dos funerais.
     Durante a missa de Réquiem, viram-na de repente mexer-se, levantar-se no esquife e voar, como um pássaro, até à abóbada do templo, tal era o desgosto que lhe causava a presença dos pecadores que assistiam às cerimônias. Os assistentes fugiram espantados, à exceção da irmã mais velha, que ficou imóvel, mas não sem terror, até ao fim da missa. Atendendo à ordem do sacerdote, Cristina desceu ilesa e voltou para casa, onde tomou a refeição com as suas irmãs.
     Contou depois aos amigos, que vieram interrogá-la, que logo depois da sua morte os anjos a tinham sucessivamente transportado ao Inferno, onde encontrara muitas pessoas conhecidas; a seguir ao Purgatório, onde ainda encontrara mais; e por fim ao Paraíso, onde lhe foi dada a escolha de ficar para sempre ali ou de voltar a Terra para, com os seus sofrimentos, trabalhar no resgate das almas do Purgatório, orar e sofrer pelos fiéis defuntos, o que ela aceitara sem hesitação.
     A sua existência transcorreu no meio de milagres e fenômenos misteriosos. O odor do pecado repugnava-lhe de tal forma, que só depois de algum tempo conseguia suportar o contato com os seus semelhantes. Envergonhados das suas aparentes extravagâncias, que o público atribuía a uma legião de demônios, suas próprias irmãs e amigos a perseguiam.
     Cristina retirou-se primeiro no castelo de Looz, depois em Saint-Troud, onde faleceu cerca do ano de 1224, no Convento de Santa Catarina, cuja superiora declarou ter sido Cristina sempre duma submissão perfeita.
     Suas relíquias, conservadas em Nonnemielen, se encontram atualmente na igreja dos Redentoristas de Saint-Troud.

Fonte: www.portalcatolico.org.br; Santos de cada dia, Pe. José Leite, S.J. 3a. ed. Editorial A.O. – Braga.


Beato Zeferino Giménez Malla, Leigo, Franciscano Secular e Mártir (Guerra Civil Espanhola, 1936)



Bem-aventurado Zeferino Gimenez Malla (1861-1936), o "Pelé", Mártir da Ordem Franciscana Secular. Beatificado por São João Paulo II no dia 4 de maio de 199.

Zeferino Gimenez Malla nasceu na Catalunha, Espanha, aos 26 de agosto de 1861. Descendia do povo cigano daquela localidade, que chamava o menino de “El Pelé”. A família vivia na pobreza, que se intensificou quando o pai a abandonou, para ficar com outra mulher. Por isso, Zeferino não pôde ir à escola, precisou ajudar no sustento da casa, confeccionando e vendendo cestas de vime. Quando completou vinte anos, se transferiu para Barbastro e ali se casou com Teresa Gimenez Castro, ao modo cigano, sem rito religioso. O casal não pôde ter filhos, então resolveu adotar Pepita, uma sobrinha de Teresa.

Zeferino não tinha uma profissão fixa, era habilidoso com cavalos e mulas, mas se tornou um comerciante autônomo depois de um episódio que encantou toda Barbastro. Um homem tuberculoso, vertendo sangue contaminado pela boca, estava agonizando na estrada. Todos tinham receio de ajuda-lo, afinal, a tuberculose era extremamente contagiosa. Porém, isto não intimidou Zeferino que o ajudou prontamente, abrigando-o em sua casa, tratou de sua doença. Quis o destino que a família daquele homem fosse uma das mais poderosas do local, que gratificou muito bem Zeferino pela sua boa ação. Com este dinheiro ele iniciou um pequeno negócio que rapidamente prosperou.

Ele acabou enriquecendo, mas, mesmo assim, continuou praticando sua caridade. Com o sangue nômade nas veias, passou a pregar pelas estradas, munido do Rosário. Socorria aos mais pobres, especialmente os ciganos, seus irmãos de sangue. Porém, para ele todos eram o “próximo”, tornando-se a razão de sua existência e de seu trabalho caridoso.

Cristão, devoto da Virgem Maria e da Eucaristia, frequentava a Santa Missa todos os dias, na qual fazia questão de receber a comunhão. Zeferino oficializou seu casamento pelo rito católico, em 1912. Nesta ocasião passou a frequentar a “Quarta-feira Eucarística”, da Ordem Terceira de São Francisco. Quando então todos os religiosos reconheceram naquele comunicativo cigano um grande modelo de virtude e santidade. Empenhou-se com grande generosidade nas Conferências de São Vicente de Paulo, porque desejava tornar sua caridade mais eficiente. Mesmo sendo analfabeto, também se dedicava à catequese das crianças, ciganas ou não. Era muito querido por elas, pois, conhecendo muitas passagens da Bíblia ele as contava com especial inspiração.

Em 1936 explodiu a guerra civil espanhola. No dia 02 de agosto deste ano, Zeferino foi preso ao tentar libertar um padre que era prisioneiro de um grupo anarquista. Tinha então setenta e cinco anos de idade. Mesmo sob a mira das armas, Zeferino protestou de cabeça erguida. Todos puderam ouvir seu último grito, brandindo o Rosário, seu companheiro, antes do fuzilamento: “Viva Cristo Rei!”.


Por ordem dos rebeldes, todos os fuzilados foram enterrados numa cova coletiva. Dentre eles estava Zeferino, cujo corpo nunca pôde ser encontrado. Em 1997, numa bela cerimônia solene celebrada pelo Papa João Paulo II, em Roma, na presença de milhares de ciganos cristãos do mundo todo, Zeferino Gimenez Malla foi declarado Beato. Assim, ele se tornou o primeiro cigano a ser elevado aos altares pela Igreja, cuja festa foi marcada para o dia de sua morte: 02 de agosto. 



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Servo de Deus Jerônimo Gracián da Mãe de Deus, Presbítero Carmelita Descalço e fidelíssimo amigo de Santa Teresa de Jesus.




PRIMEIROS ANOS
Jerônimo Gracián nasceu em Valladolid em seis de junho de 1545. Dos vinte filhos do casal Diego Gracián Alderete e Juana Dantisco, somente treze superaram a infância, entre eles Jerônimo foi o terceiro.
No lar Gracián-Dantisco o estilo de vida e os costumes eram dominados pelo sentimento religioso e o amor às letras. Dois fatores que explicam, ao menos em parte, o futuro dos filhos: sete se consagraram a Deus na vida religiosa ou sacerdotal, e em letras e piedade sobressaiu-se Jerônimo, cuja alma dirigiram desde seus oito anos os padres da Companhia de Jesus.
Cursou brilhantemente seus estudos na Universidade de Alcalá, graduando-se Mestre em Artes aos 19 anos.
Durante os anos de estudante em Alcalá, Jerônimo viveu profundas experiências espirituais. O afã cultural não abafou os fervores religiosos da adolescência. Os passos dados em busca de uma clarificação vocacional evidenciam a profundidade de suas inquietudes religiosas.
O exercício de oração mental a que se havia dedicado e sua intensa vida espiritual, contribuíram sem dúvida para despertar no jovem Gracián o grande desgosto que lhe davam “somente regras de exterioridades sem espírito” e o haviam preparado admiravelmente para abraçar o ideal de interioridade de que se havia feito propagadora Teresa de Jesus.
Ao iniciar o sacerdócio em 1570 era amado e estimado nos ambientes religiosos e clericais em Alcalá.
Prosseguiu os estudos com o intento de doutorar-se em teologia e faltava somente uma prova para graduar-se quando decidiu abandonar tudo e ingressar no noviciado Carmelita em Pastrana, recebendo o hábito no dia 25 de abril de 1572.


VOCAÇÃO AO CARMELO

O último combate vocacional foi muito intenso, porque todas as razões naturais eram contrárias: falta de saúde, fraqueza natural e cansaço de estudos, obrigação a seus pais e irmãos, carentes de outros bens fora das mercês que o Rei lhes fazia em pagamento de seus serviços. Até os confessores viam com maus olhos a decisão.
Não obstante, sentia outras forças poderosas: Um inflamado desejo que tinha de servir a Nossa Senhora, parecendo que o convidava a esta Ordem e que a ouvia dizer: “Filho, serve-me em minha Ordem, que tenho necessidade de ti”. Apertava de tal maneira estas palavras, que não as podendo sofrer, algumas vezes cobria com um véu a imagem de Nossa Senhora que possuía.
E outro impulso que desconhecia então: a oração intensa da Madre Teresa. “Depois ouvi de sua boca que lhe custei um ano de orações para trazer-me à Ordem entendendo que lhe havia de ajudar”.
O ano do noviciado foi de genuína prova vocacional. Eram os primeiros anos da recente fundação dos frades pela Madre Teresa. A nova família carecia de sujeitos aptos para o governo e a formação das novas vocações, que iam aumentando de forma vertiginosa.
Começou imediatamente sua carreira fulgurante dentro da própria Ordem Religiosa. Aos poucos meses de professar foi nomeado Visitador dos Carmelitas Calçados de Andaluzia e no ano seguinte também dos Descalços, encontrando não poucas dificuldades.


Encontro de Padre Gracián com Santa Teresa de Jesus



ENCONTRO COM SANTA TERESA

No mês de maio de 1575 tem lugar um episódio fundamental na vida de Gracián e para o futuro do Carmelo Teresiano: o primeiro encontro pessoal com a Madre Teresa de Jesus em Beas de Segura.
O que para a Santa significou a descoberta, entre seus frades, da figura do P. Gracián ficou gravado em sua carta de 12 de maio de 1575: "Ó minha Madre, como desejei tê-la comigo nestes últimos dias! Saiba que, a meu parecer, foram os melhores de minha vida, sem encarecimento. Passou aqui mais de vinte dias o Padre Mestre Gracián. Eu lhe asseguro que, embora tenha tratado tanto com ele, ainda não entendi todo o valor deste homem. A meus olhos é perfeito, melhor do que o saberíamos pedir a Deus para nós. O que agora há de fazer vossa reverência, e todas, é suplicar a Sua Majestade que no-lo dê por Prelado. Se assim for, posso descansar do governo destas casas, pois tanta perfeição com tanta suavidade nunca vi. Deus o tenha de Sua mão e o guarde; por nenhuma coisa no mundo quisera eu deixar de tê-lo visto e tratado com ele".(Carta 12/05/1575 à Madre Inês)
E a impressão que a Madre Fundadora causou no jovem Comissário Apostólico não foi menor: "Estive em Beas" - conta Gracián - "muitos dias, durante os quais comentávamos muitas coisas da Ordem, tanto passadas como presentes, e o que era necessário para prevenir as futuras; e, além disso, da maneira de proceder no espírito e como os frades e as monjas haviam de proceder para manter essa vida. Ela examinou-me de todas as maneiras sobre essa doutrina, tanto na teoria como na prática. Ensinou-me tudo quanto sabia, dando-me tanta doutrina, regras e conselhos que poderia escrever um livro bem extenso de tudo o que me ensinou, porque, como disse, foram muitos dias; e durante todo o dia, tirando o tempo da Missa e das refeições, gastávamos o tempo nisso. Deu-me conta de toda a sua vida e espírito. Fiquei tão rendido, que desde então nenhuma coisa importante fiz sem seu parecer". (Scholias..., MC 68)
Desde este primeiro momento ficava selada para sempre a mútua estima e confiança. A Santa fará voto de obedecer em tudo a Gracián como superior; ele responderá sempre com um respeito filial à vontade da Fundadora.

1º PROVINCIAL DO CARMELO TERESIANO

Durante três anos carregados de dificuldades, Gracián trabalhou incansavelmente para cumprir a missão que se lhe havia confiado, sendo vítima de calúnias e perseguições sem conta; até que se chegou à ereção da Província independente dos Descalços.
Ao reunirem-se em Capítulo no dia 4 de março de 1581, saiu eleito Provincial. O primeiro do Carmelo Teresiano.
Desempenhou seu provincialato com o apoio incondicional da Madre Fundadora, estendendo amplamente a obra iniciada por ela, inclusive com a abertura das primeiras missões na África.
A suavidade que entusiasmava a Madre Teresa, desagradava profundamente a muitos amantes da rígida observância regular. Não perdoavam a brandura e as dispensas na correção em favor da caridade e da compreensão.
Após a morte de Santa Teresa (1582), começaram a surgir grandes mudanças na família do Carmelo e na vida pessoal do P. Gracián.
Longe de aferrar-se no poder, Gracián pensou em seu sucessor à frente do Carmelo Teresiano, e o apresentou como candidato à Provincial no Capítulo celebrado em Lisboa (maio 1585). Era o P. Nicolás Doria.
O P. Gracián foi eleito Primeiro Definidor e designado Vigário Provincial de Portugal. Tendo assumido cargos de governo aos 28 anos, contava 40 ao deixar o timão da Província.


EXPULSÃO DA ORDEM

Seu governo anterior e as atuações recentes chocaram com as ideias do novo Provincial. A impressão em Lisboa de um livro sobre as missões (1586) foi o primeiro toque de atenção. Não levava aprovação do Provincial e, segundo este, se excedia no zelo missionário.
A atuação do P. Gracián como Provincial foi julgada duramente. Nos anos seguintes o cerco foi fechando-se sempre mais e após um vergonhoso e injusto processo foi finalmente expulso da Ordem aos 17 de fevereiro de 1592.
Na sentença de expulsão está escrito: “... foi declarado incorrigível e, como tal, mandavam e mandaram que se lhe tire o santo hábito de nossa Ordem e seja expulso dela e que não mais vista aquele hábito, sob as censuras e penas contidas no Breve[1] que a Ordem tem do Sumo Pontífice Sixto V”.
Da noite para o dia o P. Gracián se vê na rua, despojado do “hábito da Virgem”, afastado da obra teresiana pela qual tanto havia lutado.
Depois de madura reflexão e aconselhamento com seus melhores amigos, optou por defender essa vocação irrenunciável da única maneira possível: com o recurso à suprema autoridade da Igreja. Decidiu ir a Roma em busca de uma reabilitação para voltar ao seu querido Carmelo Teresiano. Os Superiores Descalços, sabendo de suas intenções, enviaram dois frades na mesma direção, embora com o intuito de impedir-lhe o recurso.
Depois de sete meses tentando provar sua inocência partiu para a Sicília a fim de exercer seu ministério sacerdotal, catequizando soldados e assistindo enfermos nos hospitais, na espera que a Santa Sé se pronunciasse. Infelizmente seus inimigos, com o apoio do Rei Felipe II, conseguiram que o Papa Clemente VIII confirmasse a sentença de expulsão.

Deixemos que o P. Gracián mesmo nos conte estes episódios:
“Recebi, nesse tempo, um Breve de sua Santidade ordenando que eu tomasse o hábito dos Agostinianos Descalços, acompanhado de uma patente do Procurador Geral dos Agostinianos para fundar em Roma o Convento de São Pedro e Marcelino e outro Convento em Nápoles para Agostinianos Descalços. Aqui me ocorreu a grande angústia espiritual de treva interior e batalha entre razões contrárias, indecisão sobre o que haveria de fazer para agradar a Deus e a Nossa Senhora e agir de acordo com suas vontades. Porque de um lado tinha a ordem do Papa, vigário de Cristo que me mandava [tomar hábito agostiniano] e meus antagonistas o instavam, pois pretendiam jogar-me, definitivamente, para fora da Ordem Carmelitana e retirar-me toda a esperança de voltar a ela. Meus parentes e amigos imploravam para me verem com aquela honra e quietude. Por outro lado, eu mesmo estava cansado de andar tanto tempo em peregrinações e desterros e nutria um pouco da honra de ser o primeiro fundador de uma Ordem reformada, nova e tão santa como a de Santo Agostinho.
Por outra parte, não me afastava da presença da Virgem Maria, a qual sempre trazia presente, que me dizia - como se a visse - para não deixar o seu hábito, fazendo que eu recordasse os motivos que me levaram a tomá-lo, quando entrei na Ordem. Esta batalha foi tão forte e eficaz que não saberei descrever. Mas, ao final, venceu em meu coração a parte contrária e decidi tomar o hábito de Santo Agostinho. Isto eu fiz com tão grande contrariedade, medo e vergonha da Virgem Maria, que me pareceu aceitaria de maior boa vontade a morte que retornar a Roma para vestir-me de negro como Agostiniano e fazer as fundações que me ordenavam.


PRISIONEIRO DE TURCOS

Não durou quatro horas esta minha determinação. Saindo de Gaeta em uma fragata para ir a Roma, encontramos uma galeota de turcos que nos aprisionou. Fui despido de toda a roupa que levava, manietado com algemas de ferro e lançado nos porões da galeota. Confesso a Vossa Senhoria que este acontecimento, que costuma ser o mais desastrado que pode acontecer no mundo, foi para mim, naquele momento, de grande descanso, contentamento e alegria, vendo claramente ser vontade de Deus 'vestir-me' o hábito com que nasci e morrer remando um remo de turcos.
Levaram-me para Túnis. Estive por quase dois anos com quatro arrobas de ferro nos pés em uma masmorra escura e hedionda. Mas com poucos dias os pés se acostumaram aos ferros, o nariz ao fedor, os olhos à escuridão e o corpo a estar deitado sobre uma grelha da qual não podia levantar-me senão para dizer missa, que com muito esforço a dizia cada dia atando com um cordel o peso dos ferros ao pescoço.
Consolou-me Nosso Senhor com o grande fruto que se fazia confessando e pregando cada dia a seiscentos cristãos cativos que estavam dentro daquela masmorra e a outros que vinham de fora. Com os discursos que o entendimento e espírito fazia, tendo todo o dia e noite para isso, sem outra ocupação, que se tivesse escrito o que ali pensei, muitos livros se poderia encher de diversos assuntos.
Cheguei a pensar que jamais sairia daquela prisão. Resgatou-me Nosso Senhor por milagre ou mistério, pois pediam trinta mil escudos por minha liberdade, acreditando que eu era um arcebispo que ia a Roma para se tornar cardeal. Uma falsidade inventada pelos turcos que teve seu lado bom: impediu que eu fosse queimado vivo pelos janízaros[2] que me acusavam de inquisidor”. Carta a um amigo
Como durante seu cativeiro, que durou até o mês de abril de 1595, teve lugar a morte do P. Dória e a mudança de superiores na Ordem, o P. Gracián recobrou a esperança de voltar a viver entre os seus e apresentou uma nova súplica ao Papa em 29 de novembro de 1595. Desta vez foi escutado e, com o Breve Apostolicae Sedis Benignitas de 6 de março de 1596, anulava-se a sentença de expulsão, restituindo ao P. Gracián sua posição de antigamente e seus privilégios na Ordem e mandava-se aos superiores que o admitissem de novo.
Ainda que no documento pontifício se ordenasse aos superiores que o recebessem benignamente, estes não o julgaram conveniente, fechando-lhe as portas para um retorno definitivo à Espanha.



CARMELITA TEÓLOGO DO CARDEAL

“O Papa mandou, então que eu tomasse o hábito de Calçado. Seu secretário, Véstrio, instruiu-me sobre a inconveniência de voltar aos Descalços, mesmo que eles me rogassem.
Os Calçados me receberam com muito agrado e amor, mesmo sem um Breve para isso, mas somente vivae vocis oráculo do Papa ao protetor Pinelli. Hospedaram-me nos aposentos do Geral do Convento de São Martinho in Montibus, onde fiquei por pouco tempo, pois o cardeal Deza, protetor da Espanha e dos mais antigos da Inquisição, com ordens de Sua Santidade, levou-me para sua casa com o ofício de ser seu teólogo. Aí fiquei cinco anos envolvido com graves assuntos, tanto da Inquisição como das Ordens e de frades espanhóis, referentes às apostasias e com a incumbência de organizar, com o meu Geral e o Protetor, as coisas da Ordem”. Carta a um amigo
Aqui aconteceu um fato curioso e transcendental para a história do Carmelo e que o P. Gracián considerou pura obra da Providência: na sua tarefa de teólogo do Cardeal e informado de todos os assuntos, descobriu um memorial enviado à Inquisição que impediria a beatificação da Madre Teresa de Jesus, dando a sua doutrina como herética.


MISSIONÁRIO INCANSÁVEL

Continuou sua missão de pregador e diretor espiritual em Nápoles, Roma e outros lugares. Trabalhou incansavelmente pela causa dos cativos na África, chegando a ter uma audiência com Clemente VIII. Em virtude das suas informações e sugestões que apresentou, o Papa decidiu por criar uma comissão de cardeais para estudar e promover as missões. Foi o primeiro embrião da futura Congregação Propaganda Fide[3].
Em 1600 foi escolhido pelo Pontífice para pregar o Jubileu do Ano Santo aos povos do Norte da África, tarefa que ele aceitou com seu proverbial entusiasmo e viajou à Espanha para preparar a viagem. Depois de conseguir as autorizações necessárias, partiu para Marrocos.
A posse de cartas do rei de Espanha converte a sua missão em não somente espiritual, mas atua como embaixador e mediador entre o conflito entre os dois reis. Existia uma grave tensão entre Espanha e Marrocos. Com verdadeiro tato diplomático consegue apaziguar a situação, atravessando muitas vezes o Estreito, com grave perigo de naufrágio.
O seu ingrato ministério de Pregador Apostólico dura até meados de 1602, quando dá por concluída sua missão na África. No mês de maio instala-se em Madrid. Escreve aos Cardeais de Propaganda Fide, dando conta do término de sua missão e oferecendo-se para dar continuidade ao seu apostolado missionário em terras de Etiópia. Não receberá resposta sobre este oferecimento.



ÚLTIMA PEREGRINAÇÃO: BÉLGICA

Cinco anos permaneceu na Espanha, entregando-se a uma intensa atividade apostólica e promovendo a edição de seus escritos e os da Madre Teresa de Jesus. Durante este período foi chamado com insistência na Itália, especialmente por parte do Cardeal Federico Borromeo. Não chegou a realizar-se este projeto, ainda que se preparasse várias vezes a viagem. Em lugar da Itália, sua última “peregrinação” terrena teve por cenário Flandres, solicitado também pelas autoridades espanholas daqueles territórios. Saiu de Pamplona em direção a Bruxelas em 26 de maio de 1607 e, depois de atravessar várias cidades da França, detendo-se em Paris alguns dias, chegou ao destino a mediados de julho de 1607.

Àqueles que o aconselhavam a não empreender esta viagem o P. Gracián explicou suas razões: “Dizem que aqui estou com mais descanso, e que já minha idade pede mais quietude, repouso e vida sossegada que novos trabalhos e ocupações, pois passo dos 60 anos, de onde havia de procurar descansar dos trabalhos passados. Se é fogo verdadeiro o do meu espírito [...] que me move, mais rápido há de caminhar enquanto mais se aproxima de seu centro e esfera da morte e prêmio; quanto mais que como em toda a vida não fiz nada de bom, queria empregar bem este pouco que dela me fica. Os Santos que professaram vida apostólica não os pôs Deus para estarem parados, senão “ut eatis” (Jo 15,16) para andar de uma parte a outra dando fruto como nuvens que voam e pombas que vão velozes a seus abrigos, e correm como centelhas no canavial”. Carta 148

À sua chegada instalou-se no Convento dos Calçados de Bruxelas. Entregou-se sem reservas desde o primeiro momento aos ideais que o levaram a Flandres; alternando entre a vida de observância religiosa com um dilatado apostolado sacerdotal centrado na pregação, direção espiritual, luta contra as heresias, impressão de suas obras e a difusão das obras teresianas.
Entre suas preocupações dominantes destacou-se o empenho para realizar-se a chegada dos Descalços à França e Flandres.
Poucos dias antes de morrer escreveu à sua irmã Juliana, testemunhando seu amor ao Carmelo Teresiano: “aos quais nunca os tive no coração como agora; embora quisesse morrer entre eles... calo-me e busco a Deus, que sabe que minha intenção é os servir”. Carta 231 (15/09/1614)
Não pôde realizar aquele desejo, pois no dia 21 de setembro de 1614, às seis da tarde, expirou muito suavemente, sem dor excessiva nem trabalho, porque a quem tantos havia Deus dado em vida, quis privilegiar-lhe deles na morte e concluindo com a Madre Maria de São José: “O Senhor que para tantos [trabalhos] o dispôs, espero fará seu nome glorioso”. Ram. de Mirra


BIBLIOGRAFIA
Carta a um amigo – P. Jerônimo Gracián de la Madre de Dios
Carmelo Teresiano – Páginas de sua história – Ildefonso Moriones OCD
Revista Monte Carmelo vol.91 nº3 1983
Diccionario de San Juan de la Cruz – Org. Eulogio Pacho. OCD Ed.MC 2000
O P. Jerônimo Gracián de la Madre de Dios – “Pioneiro das Missões do Carmelo Teresiano” – Tese – Frei Davi Alves Soares OCD
Jerônimo Gracián de la Madre de Dios: o herdeiro exilado – José Alberto Pedra
Ana de Jesús y la herencia teresiana – Ildefonso Moriones OCD
O Carisma Teresiano – Ildefonso Moriones OCD

Beato Pedro To Rot, esposo, pai de família, catequista e mártir (Mártir do Sacramento do Matrimônio)



Pedro To Rot, catequista casado, foi martirizado aos sete de julho de 1945, com apenas 33 anos de idade. João Paulo II o beatificou em sua viagem ao Extremo Oriente, em janeiro de 1995. Pedro é o primeiro beato de Papua-Nova Guiné.
Pedro nasceu em 1912 no distrito de Rakunai, próximo à capital de Nova Bretanha (Papua-Nova Guiné). “Originário de uma família profundamente cristã, recebeu dos próprios pais os elementos fundamentais da fé e a instrução religiosa”. Aluno exemplar e assíduo na prática religiosa, distinguiu-se desde a juventude pela sua profunda piedade. Inscreveu-se no curso de catequese, a fim de tornar-se um válido colaborador na obra da evangelização do meio em que vivia.
Em novembro de 1936 casou-se com Paula La Varpit. Desse matrimônio nasceram três filhos. Os deveres familiares não o impediam de desempenhar a função de catequista. “O Beato Pedro, inspirado pela sua fé em Cristo, foi um esposo devotado, um pai amoroso e um catequista empenhado. Foi conhecido pela gentileza, cordialidade e compaixão. A Missa cotidiana e a Sagrada Comunhão, além das freqüentes visitas a nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, sustentaram-no e deram-lhe a sabedoria para aconselhar aqueles que haviam perdido a esperança, como também lhe deram a coragem de perseverar até a morte. O seu testemunho do Evangelho inspirou a outros, em situações muito difíceis, porque ele vivia a sua vida cristã com grande alegria e pureza. Sem o saber, preparou-se durante toda a vida para o maior dom: renunciando a si mesmo todos os dias, caminhou com seu Senhor ao longo da estrada que conduz ao calvário” (cf. Mateus 10, 38s).
A aldeia de Rakunai foi ocupada durante a Segunda Guerra Mundial por tropas japonesas. Os sacerdotes foram aprisionados. O Beato Pedro “assumiu a responsabilidade da vida espiritual dos habitantes de Rakunai. Não só continuou a instruir os fiéis e visitar os doentes, mas batizou, assistiu aos matrimônios, orientou o povo na oração” e “socorreu os pobres”.
O Beato Pedro “era um marido devotado”. “Tratou a sua esposa Paula com profundo respeito. Orava com ela todas as manhãs e todas as noites”. “Viveu profeticamente a recomendação do Evangelho, segundo a qual os esposos ‘se sujeitam um ao outro no temor de Cristo’ (cf. Efésios 5, 21)”. Era um pai amoroso, que honrava seus filhos. Nutria por eles um afeto profundo. E passava com eles o maior tempo possível.
“O Beato Pedro tinha em alta consideração o matrimônio. Não obstante o grande risco pessoal e a oposição, defendeu o ensinamento da Igreja sobre a unidade matrimonial e sobre a necessidade de fidelidade recíproca”. “Quando as autoridades legalizaram e encorajaram a poligamia, o Beato Pedro, sabendo que isto era contra os princípios cristãos, denunciou firmemente esta prática. Graças ao Espírito Santo, que habitava nele, proclamou de modo corajoso a verdade acerca da santidade do matrimônio. Recusou o ‘caminho mais fácil’ (cf. Mateus 7, 13)” de compactuar com o mal. “Devo cumprir o meu dever como testemunha da Igreja de Jesus Cristo”, explicou. “O temor do sofrimento e da morte não o deteve”.
Aumentada a atitude hostil dos japoneses, Pedro To Rot chegou a ser preso. Mas depois de alguns dias de detenção foi libertado. Em abril de 1945 foi novamente preso, por causa de uma denúncia falsa. Condenado a dois meses de detenção, quando já estava prestes a deixar a prisão, um médico militar aplicou-lhe uma injeção letal. Era o dia 07 de abril de 1945. Durante o período de seu último aprisionamento, Pedro permaneceu sereno, até mesmo alegre. Ele disse às pessoas que estava pronto a morrer pela fé e pelo seu povo. No dia de sua morte, o Beato Pedro pediu à sua esposa que lhe trouxesse o seu crucifixo de catequista. Esta cruz acompanhou-o até o fim. Pedro morreu mártir, em defesa da fé e como testemunho fiel de seu ardente apostolado na obra da evangelização.
Foto rara do beato Pedro To Rot
No Beato Pedro To Rot os fiéis têm um mestre da SANTIDADE DO MATRIMÔNIO E DA FAMÍLIA. Confirmou a sua pregação com o seu sangue. A morte do Beato Pedro foi decidida, sobretudo, devido a sua inflexível defesa da dignidade sacramental do matrimônio.
João Paulo II beatificou Pedro To Rot durante a solene concelebração eucarística, aos 17 de janeiro de 1995. A Missa foi rezada em Port Moresby, capital da Papua-Nova Guiné. Estavam presentes a esposa e uma filha do Beato. Durante o ofertório elas apresentaram alguns dons ao Papa.
Beato Pedro To Rot, Mártir do Matrimônio, rogai pelos casais, rogai pelas famílias!


Fonte: Livro da Família de 1997, pp 44 e 45