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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 6 de junho de 2014

SANTA CLOTILDE, ESPOSA E RAINHA


Santa Clotilde, Rainha. Cena mostrando o batismo
do Rei Clóvis, juntamente com toda a corte dos
francos. 
Nota biográfica:
Clotilde nasceu em Lion, França, no ano 475, filha do rei ariano Childerico de Borgonha. Mais tarde, o rei, junto com a esposa e três dos seus cinco filhos, foi assassinado pelo próprio irmão, que lhe tomou o trono. Duas princesas foram poupadas, uma era Clotilde.

A menina foi entregue a uma tia, que a educou na religião católica. Cresceu muito bonita, delicada, gentil, dotada de grande inteligência e sabedoria. Clóvis, rei dos francos, encantou-se por ela. Foi aconselhado pelos bispos católicos do seu reino a pedir a mão de Clotilde. Ela aceitou e tornou-se a rainha dos francos.

Ao lado do marido, pagão, irrascível, ambicioso e guerreiro, Clotilde representava a gentileza, a bondade e a piedade cristã. Imbuída da vontade de fazer o rei tornar-se cristão, para que ele fosse mais justo com seus súditos oprimidos e parasse com as conquistas sangrentas, ela iniciou sua obra de paciência, de persuasão e de bom exemplo católico.

Clóvis, de fato, amava muito a esposa. Com ela teve três herdeiros, que, infelizmente, herdaram o seu espírito belicoso. Não se importava que Clotilde rezasse para seu Deus, em vez de ir ao templo pagão levar oferendas aos deuses pagãos, quando partia e voltava vitorioso dos combates. Por outro lado, apreciava os conselhos do bispo de Reims, Remígio, agora santo, que se tornara confessor e amigo pessoal da rainha. Com certeza, a graça já atuava no coração do rei.

Foi durante a batalha contra os alemães, em 496, que ele foi tocado pela fé. O seu exercito estava quase aniquilado quando se lembrou do "Deus de Clotilde". Ele se ajoelhou e rezou para Jesus Cristo, prometendo converter-se, bem como todo o seu exército e reino, se conseguisse a vitória. E isso aconteceu.

Clóvis (ou Clodovico), ao vencer os alemães, unificou o reino dos francos, formando o da França, do qual foi consagrado o único rei. Pediu o batismo ao bispo Remígio, assistido por todos os súditos. Em seguida, todos os soldados do exército foram batizados, seguidos por toda a corte e súditos. Ele tornou a França um Estado católico, o primeiro do Ocidente, em meio a tantos reinos pagãos ou arianos.

Clotilde e Clóvis construíram a igreja dos Apóstolos, hoje chamada de igreja de Santa Genoveva, em Paris. Mas logo depois Clodoveu morreu. Pela lei dos francos, quando o rei morria o reino era dividido entre os filhos homens, que eram três.

Foi então que começou o longo período de sofrimento da rainha Clotilde, assistido por todos os seus súditos que a amavam e a chamavam de "rainha santa". Os filhos envolveram-se em lutas sangrentas disputando o reino entre si, gerando muitas mortes na família. Então, Clotilde retirou-se para a cidade de Tours, perto do sepulcro de são Martinho, para rezar, construir igrejas, mosteiros e hospitais para os pobres e abandonados.



Depois de trinta e quatro anos, a rainha faleceu, no dia 3 de junho de 545, na presença de seus filhos. Imediatamente, a fama de sua santidade propagou-se. O culto a santa Clotilde foi autorizado pela Igreja. A sua memória tornou-se uma bênção para o povo francês e para todo o mundo católico, sendo venerada no dia de sua morte.

Comentário do autor do blog: 

Santa Clotilde, rainha dos francos, foi esposa do famoso rei Clóvis, que se converteu ao catolicismo, ele e toda corte e exército, graças à pregação da santa rainha. 
Foi uma das grandes mulheres na história da Igreja e, graças a ela, a nação francesa (oriunda dos francos), tornou-se a "primeira filha da Igreja". 
Numa época na qual até muitos sacerdotes e bispos tornaram-se hereges arianos (adeptos do Arianismo, que negava a divindade de Cristo), Clotilde manteve-se sempre católica, muito fervorosa e praticante da religião. Sua bondade era conhecida por todos os seus súditos. Empregou o "status" de rainha não para ser "servida", mas, para servir aos que dela necessitavam: os pobres e humildes que tanto ajudava. 
Soube aliar um espírito enérgico a uma grande bondade, o que causava admiração em todos os que dela se acercavam. Seu marido, Clóvis, a amava, respeitava e tinha em grande consideração, o que colaborou e muito para sua conversão do paganismo ao catolicismo. 
Durante sua vida e, após sua morte, ocorrida em odor de santidade, já era tida por "santa". Mereceu, com toda certeza, ser elevada pela Igreja à honra dos altares. 
Santa Clotilde vem nos lembrar que para sermos santos não precisamos ser "pobrezinhos" (diferente da pobreza evangélica). Uma pessoa rica, se ela for desapegada de seus bens (e é aí onde se encontra a grande dificuldade, ao ponto do Mestre dizer: "é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus"), se ela empregar a riqueza que tem pelo bem do próximo, se conservar o caráter, a moral e bons costumes íntegros, certamente poderá chegar à santidade. 


A Igreja mesma canonizou muitos reis católicos: São Luís IX, Santo Eduardo, Santo Estevão da Hungria, São Canuto, São Gumaro, São Bóris Miguel, São Judoc, Santo Henrique II, Santo Osvaldo de Northumbria, Santo Alfredo, Santo Edwin, etc, bem como muitos príncipes e princesas. O que eles tinham em comum? Mesmo sendo reis e imperadores, eram cristãos católicos fervorosos, praticantes, tementes a Deus, respeitadores da autoridade e hierarquia eclesiástica, justos, bondosos, misericordiosos, generosos e caridosos. 

Deus não condena a riqueza em si, mas, quando ela é "endeusada", quando é posta "acima" de Deus, do que é direito, do que é justo e do bem comum do próximo. 
Que Santa Clotilde, lá do Céu, interceda por nós, especialmente pela Santa Igreja Católica, à qual tando amava. Amém! 
Santa Clotilde, rogai por nós! 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

SÃO FÉLIX DE NICÓSIA, Irmão Capuchinho (dois textos biográficos)


Primeiro texto 


Num intervalo de 200 anos, o Senhor se dignou nos dar em São Félix de Nicosia (1715) uma identificação com São Félix de Cantalício (1515). É surpreendente a coincidência nas mais importantes datas de suas vidas: ambos entraram nos Capuchinhos aos 28 anos; professaram aos 29, e aos 72, sendo Irmãos leigos, concluíram a sua meritória jornada.
De família pobre e numerosa, Félix de Nicosia teve de adiar o ingresso na vida religiosa para procurar, como sapateiro, o seu sustento. Por isso, desde criança, habituou-se à santa paciência, com uma vida bondosa e de quotidiano sacrifício. Reza e espera... Espera e reza...
Mas, finalmente, Deus dignou-se ouvir o seu clamor ardente. Como lhe batia o coração a primeira vez que, radiante e ansioso, foi pedir aos Capuchinhos que o recebessem! Queria ficar com eles para melhor salvar a sua alma! Foi fácil de ver, naquele jovem já maduro, a sua total predisposição para o bem e o perfil de um santo. Grande seria a responsabilidade dos Superiores se, com tal têmpera, lhe tivessem roubado o manto da glória.
E, de fato, não faltou esse hábil discernimento. O padre Macário, superior austero e capaz, religioso estimado pelos confrades e por toda a gente, espera, de propósito e com desapiedada firmeza, fazer dele um homem de Deus, estimulando-o a subir até ao vértice do genuíno heroísmo. Para conseguir tal objetivo, usou um método educativo parcial, estranho e, até mesmo, injusto, que seria sem dúvida reprovável e condenável, se não reconhecêssemos em tudo isso o dedo de Deus. Habitualmente padre Macário não o chamava pelo seu nome de Félix, mas por um apelido humilhante: "Frei Descontente". Contudo, dos seus lábios não se ouvia mais do que esta resposta: "Seja pelo amor de Deus sua santa caridade".
Uma noite, Frei Félix, totalmente absorto em meditação, não se dá conta do sinal para o jantar e entra no refeitório depois da bênção da mesa. "De pé" - grita o padre Guardião à comunidade - "Eis o peregrino que vem de Meca". O humilde irmão ajoelha-se, beija o chão e agradece. Vai depois, tranquilamente, para o seu lugar. Mas o padre Macário continua: "Como ousas, Frei Descontente, depois de ter perturbado os religiosos, sentar-te à mesa? Vai comer no curral: é lá o teu lugar". Não dando sinais de qualquer perturbação, Frei Félix levanta-se, beija o chão e sai. Passados poucos minutos, o Superior manda ver o que se passa: ele estava de joelhos, num ângulo do curral, comendo a sua comida em paz. "Ide chamá-lo". Ele vem. O mesmo acolhimento anterior: "De pé! Eis o peregrino que vem de Meca". Depois acrescenta: "Desta vez, Frei Descontente, vais para o teu lugar, mas de agora em diante não perturbes mais a família religiosa". Era assim todos os dias; era assim quase todas as horas. Não seria demais?
Certa vez veio ao convento um cavalheiro saudar um amigo. Encontra o servo de Deus: "Oh, Frei Félix, como está?" "Bem, Deus seja louvado". E o amável esmoleiro oferece-lhe a cigarreira, que consistia num simples pedado de cana, fechada por uma tira de lata. Logo o vozeirão do padre Macário se fez ouvir: "Mas, que modo de proceder é este, Frei Descontente"? Frei Félix ajoelha-se diante do Superior. "Que impostura andas por aí a contar? Que és um santo? Que fazes milagres? É para mostrar que tens amor à santa pobreza que metes debaixo do nariz deste nosso benfeitor a tua imunda cigarreira? Vai para o quarto imediatamente! Andas sempre em lugares de passagem, à espera dos seculares para lhes dar a entender que és um santo. Desaparece daqui, hipócrita". - "Seja pelo amor de Deus". E Frei Félix retira-se, calmo e inalteravelmente, em paz. O cavalheiro fica atônito e, depois de um momento de nervosismo, diz: "Caro padre Guardião, se agísseis comigo assim, ter-vos-ia atirado à cara o primeiro objeto que me viesse às mãos; depois abriria a porta e desapareceria". E o padre Macário: "Meu bom amigo, se conhecesses os tesouros de humildade, de paciência, de mansidão, escondidos no nosso Frei Descontente, compreenderias e desculparias o meu modo de agir. Todos os incômodos e todas as injustiças do próprio inferno não poderão perturbar-lhe a serenidade. O meu dever? O meu dever é de ajudá-lo no exercício das preciosas virtudes e de fazê-lo sempre mais amigo de Deus". Acabou o espanto, cresceu a admiração, confortou o bom exemplo.
E os prodígios! Quando um homem chega a tanta virtude, tem o poder de Deus. No regresso de pedir esmola, Frei Félix parava sempre diante de uma imagem de Nossa Senhora das Dores. Um dia, uns garotos, vendo-o imerso em profunda oração, aproximam-se devagarzinho, sem fazer barulho, e metem-lhe no alforje dois grandes pedaços de pedra. Frei Félix não se dá conta e, terminada a oração, entra tranqüilamente no convento. Contudo, uma pessoa vira, de longe, a brincadeira dos rapazolas e prontificou-se a denunciar os culpados. "Boa senhora - responde-lhe o Irmão encarregado do refeitório - na saca apenas encontrei pão, embora alguns pedaços tivessem forma e volume maiores que o costume". Noutra ocasião, após brincadeira semelhante, enquanto ele rezava diante da sua Virgem Dolorosa, os autores da proeza, como se nada fosse, dizem-lhe: "Frei Félix, faz a caridade de nos dar um pouco de pão"? "Tendes fome, filhos do Senhor? Eis"! Mete a mão no alforje e tira alguns pães. Tinham a forma de pedras; mas eram mesmo pães. E oferece-lhos. Os desordeiros ficam atrapalhados, olham uns para os outros, refletem e aprendem a lição.
Uma outra vez, andava o irmão com o seu habitual alforje - heróico e admirável alforje - quando uma bondosa senhora se aproxima, a chorar, e lhe pede que vá com ela a um pobre moribundo. "Sim, sim, minha boa cristã". A casa era muito pobre e a escada bastante empinada e escura. O doente encontrava-se num mísero quarto, agonizando. Antes de entrar, Frei Félix tira o alforje, dependura-o num raio de sol que entrava por uma fresta, e, maravilha das maravilhas, aí fica suspenso. A primeira a dar-se conta foi uma menina: "Mamã, mamã, vem ver: Frei Félix dependurou o alforje num raio de sol, pensando que fosse uma trave"!

E os milagres da obediência! Como já vimos, que Frei Félix estava totalmente nas mãos do padre Macário: boas, mas tremendas mãos! Tentará, porventura, nosso Frei escapar-se-lhe alguma vez? Nunca! As mãos do Superior são as mãos de Deus. E jamais se permitirá fazer alguma observação a qualquer ordem.
No quarto do padre Guardião encontram-se um dia uns cavalheiros, falando sobre Frei Félix. E, como ele estava no convento, desejam vê-lo. O padre Macário chama-o: "Frei Félix, toma esta bilha, vai depressa àquela cisterna e traze-ma cheia". Ele, diligente, dirige-se à escada. "Depressa - grita o Superior - que estes meus amigos não podem demorar: vai pela janela". Frei Félix, sem dizer uma palavra, salta o peitoril da janela, cai sobre o teto do gracioso claustro e ei-lo lá em baixo, sem medo, sem qualquer arranhão, como se fosse um passarinho, para grande admiração de todos.
São Francisco amava os animais, porque eram também criaturas de Deus. Chamava-os "irmãos" e "irmãs": "Irmãos passarinhos, irmãs cotovias." Trata-se duma herança transmitida aos seus filhos. Também nisso Frei Félix era uma delicada e encantadora alma franciscana. Perto de Nicosia, vivia, longe dos homens, mas perto de Deus, um eremita; alimentava-se do silêncio, da solidão e do diálogo com Deus. O povo tinha-lhe veneração e, confiadamente, recorria às suas orações.
Sabemos que os santos se entendem admiravelmente. O eremita, não se sabe bem por quem, veio a saber que Frei Félix, o esmoleiro dos Capuchinhos, caíra doente. "Sim, sim, vou enviar-lhe um presente, um presente que o ajude a restabelecer-lhe as forças". Escolhe o mais belo pombo que tinha e, adivinhando que o servo de Deus não teria coragem para o matar, ele mesmo corta-lhe o pescoço. Vai depressa levar a pobre ave a Frei Félix, regressando imediatamente ao seu pobre eremitério. Frei Félix fica radiante pela visita; escuta as palavras do Irmão enfermeiro, abre os olhos, levanta-se sobre a mísera cama, toma entre as suas trêmulas mãos o inanimado pombo, olha-o bem, começa a acariciá-lo e diz-lhe: "Ó formosa avezinha do bom Deus, por que estás morta"? E, enquanto fala, continua a passar-lhe suavemente as mãos nas suas belas asas, as asas de seus vôos. E eis que a ave começa a se mover, a agitar, e, viva como dantes, salta-lhe sobre os ombros. A janela está aberta: "Vai, pequenina criatura de Deus; regressa ao teu ninho". Quando o eremita chegou ao seu eremitério, o pombo arrulhava, alegremente, em cima do pequeno telhado.

Em toda a história de Frei Félix, percebemos a manifestação da ação divina pelos muitos milagres. E o mais extraordinário de todos foi a sua bem-aventurada morte. O padre Macário não o queria deixar partir. No seu pobre leito, depois de tantos sofrimentos e tantas cruzes, o bom Irmão encontrava-se completamente desfeito; era mais do céu que da terra. Esperava apenas a tão desejada obediência para o vôo derradeiro. Mas a obediência não chegava. Mostrava todos os sinais da morte, mas estava ainda na vida. O médico, deveras assombrado, diz para o Guardião: "Padre, Frei Félix está certamente morto, há já três horas pelo menos; contudo ele ainda tem alma. Não compreendo nada"! O padre Macário explicou-lhe o mistério. Se o soubessem, até as pedras se comoveriam. "Então, por que não permites que ele deixe este vale de lágrimas?" Finalmente, o padre Macário, deixando cair a habitual máscara de impassibilidade, prorrompe em soluços. Aproxima-se do santo Irmão, cuja admirável vida tinha sido um exemplo edificante para todos e, sinceramente comovido, dirige-lhe as últimas palavras e a primeira saudação: "Frei Félix, se é vontade de Deus que deixes imediatamente a terra, em nome da adorável Trindade, em nome do Seráfico Pai São Francisco, eu te abençôo". Era a libertação. Frei Félix partiu ao encontro de Deus. Era o dia 31 de maio de 1787.
Desde então, a fama da sua santidade difundiu-se por toda a parte, especialmente na Sicília. A sua simples e paciente vida ficou como um forte convite à sua imitação por todos os Irmãos.
Pela sua intercessão, os prodígios continuaram. Pio IX declarou as suas virtudes heróicas em 1862 e, 26 anos depois, a 12 de fevereiro de 1888, Leão XIII o incluiu entre os Beatos. E, finalmente, em 23 de outubro de 2005, o Papa Bento XVI o declarou Santo: São Félix de Nicosia.


Oração:
Ó Senhor Deus, que ensinaste ao teu confessor São Félix de Nicósia a servir-Te com simplicidade e humildade e a dispor o seu coração a admiráveis ascensões, concedei-nos benigno, que depois de haver imitado os seus exemplos na terra, possamos participar no Céu da sua glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo,vosso Filho, nosso Irmão, na unidade do Espírito Santo. Amém.


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Segundo texto 


O primeiro santo Capuchinho, Félix de Cantalício, contribuiu para dar um tom particular de simplicidade, de humildade, de pobreza e de alegria à santidade Capuchinha, tornando-se quase um modelo insubstituível para muitos de nossos irmãos não clérigos.

Assim foi para Tiago Amoroso, o nosso São Félix de Nicosia. Na terra fértil da Sicília, em 1743, com 28 anos, iniciou, no convento de Mistretta, o ano de noviciado, assumindo também no nome a figura e o exemplo do santo frade Félix de Cantalício, canonizado uns 30 anos antes. Mas não tinha sido fácil esta sua vocação, não obstante tivesse ele transcorrido a sua juventude de maneira extraordinariamente virtuosa, porque os seus pais, Felipe Amoroso e Carmela Pirro, que o receberam de Deus no dia 05 de novembro de 1715, tendo já uma grande família pobre de bens, mas ricos do temor de Deus e no testemunho cristão.

O Pai Felipe, sapateiro, queria também que o filho se especializasse na sua profissão e para isso o enviou a João Ciavarelli que tinha a melhor sapataria da cidade com muitos empregados.

Ainda muito jovem começou a freqüentar a Pia união dos "Cappuccinelli" no convento de Nicosia e se inscreveu e vestia a capa dos congregados, com um pequeno capuz franciscano, assimilando bem a espiritualidade Capuchinha, espiritualidade que estava presente em todos os seus atos e durante o seu trabalho. Se alguém o ofendia, simplesmente dizia: "Seja por amor de Deus", o que se transformaria num programa de toda a sua vida. Desde quando era "Cappuccinello", ouvindo soar o sino do convento vizinho dos Capuchinhos, se colocava de joelhos a rezar e convidava também os companheiros: "Está na hora das completas, servos de Deus rezemos o santo rosário à Virgem Santíssima".

Queria muito ser Capuchinho, mas como era muito jovem teve que esperar muitos anos ainda. Aos dezoito anos bateu à porta do convento para ser recebido como frade não clérigo, porque não tinha recebido instrução acadêmica. Recebeu sempre um não, porque a pobreza da sua família exigia a sua contribuição insubstituível no trabalho para sustento da mesma. Mortos os pais, Tiago pediu novamente ao novo provincial dos Capuchinhos, Padre Boaventura de Alcara, em visita a Nicosia, para ser recebido.

Finalmente, depois de 10 (dez) anos de espera, o "Cappuccinello" podia se tornar um completo frade Capuchinho, decidido, com o nome de Felix de Nicosia, no mesmo caminho de São Felix de Cantalício, inclusive com surpreendentes coincidências: noviciado aos 28 anos, profissão aos 29, esmoler por 43 anos em Nicosia, sua terra (assim como São Félix em Roma) e morte aos 72 anos. "Bisaccia eroica" o definirá uma bibliografia popular de Icilio Felici.

Depois do ano de noviciado em Mistretta, Frei Félix foi enviado para Nicosia, onde fez o esmoler (questuante) por toda vida, tornando-se na cidade uma presença de espiritualidade radicada na população e por isso intocável. Ele permaneceu sempre no convento de Colle dos capuchinhos de Nicosia. No convento se prestava a todo serviço: porteiro, hortelão, sapateiro, enfermeiro.

Para esmolar ia mais adiante de Nicosia e atingia Capizzi, Cerami, Gagliano, Mistretta e outros lugares. De casa em casa, muito recatado e mortificado, silencioso, a coroa na mão, caminhava. A sua única palavra era o "Seja por amor de Deus".
Nas estradas instruía as crianças na catequese, atraindo-as com pão e favas. Como São Félix de Cantalício, ele ensinava pequenas canções.
Quando encontrava pobres que transportavam lenha ou outras coisas pesadas, ele se prestava em ajudá-los. Não ficava contente enquanto não pudesse fazer qualquer coisa pelos necessitados. Para os doentes estava sempre pronto para servi-los, dia e noite. Todos os domingos ia visitar os encarcerados e leva-lhes alimento.

Frei Félix era analfabeto. A sua devoção era simples, a palavra um fato da vida, não uma consideração intelectual. Era devotíssimo da Eucaristia, da Virgem das Dores e de Jesus Crucificado.

Seria interminável recontar os numerosos fatos e anedotas acontecidos durante toda a sua vida.

Acabado pelos muitos trabalhos, o físico alquebrado pelas muitas penitências e mortificações, estava sempre pronto para qualquer forma de serviço, sobretudo para os doentes na enfermaria do convento. Enquanto as forças diminuíam nos seus 72 anos de vida, crescia em intensidade a sua concentração em Deus e a sua simples obediência. Se de Francisco de Assis se diz que se tornara a personificação da oração, de Frei Félix de Nicosia se poderia dizer que era a obediência em pessoa, como ato de puro amor. E foi esta a sua última e única mensagem. No final do mês de maio de 1787, no seu leito, recebidos os sacramentos, recomenda-se ao Pai São Francisco e invoca também Nossa Senhora. Sexta, 31 de maio, pede ao seu superior a obediência para morrer, e recebido o consentimento diz: "Seja por amor de Deus", inclinando a cabeça.








(Frei Eurípedes Otoni da Silva - OFMCap.)


Beata Maria Gabriela Sagheddu, Virgem da Ordem das Trapistas (Vítima de Amor pela Unidade dos Cristãos)


Beata Maria Gabriella Sagheddu, Virgem 
Maria Sagheddu (1914-1939) nasceu em Dorgali, na Sardenha, de uma família de pastores.

As testemunhas de sua infância e adolescência falam-nos de um carácter teimoso, crítico, contestador, rebelde, mas também com forte senso do dever, de fidelidade, de obediência, embora com aparências contraditórias: "obedecia resmungando, mas era submissa", "dizia não, porém ia logo", dizem dela.

O que todos notaram foi a mudança que nela se realizou aos dezoito anos: pouco a pouco, tornou-se dócil e desapareceram os impulsos de ira; assumiu um perfil reflexivo e austero, dócil e reservado; aumentou o seu espírito de oração e de caridade; adquiriu uma nova sensibilidade eclesial e apostólica; entrou para a Ação Católica.

Surgiu nela a radicalidade da "escuta" que se abandona totalmente à vontade Deus. Aos vinte e um anos decidiu consagrar-se a Deus e, seguindo as indicações do seu diretor espiritual, entrou no Mosteiro de Grottaferrata, uma comunidade pobre de meios econômicos e de cultura, governada, então, pela Madre Maria Pia Gullini.

Sua vida caracteriza-se por poucos elementos essenciais:

O primeiro e mais visível é a gratidão pela misericórdia de Deus que a escolhera para Si. Encontrava prazer em comparar-se ao filho pródigo, e só sabia dizer "obrigada" pela vocação monástica, pela casa, pelas superioras, pelas irmãs, por tudo. "Como é bom o Senhor"!, era a sua contínua exclamação. Esta gratidão acompanhou-a também nos momentos supremos da sua doença e agonia;

O segundo elemento é o desejo de corresponder com todas as suas forças à graça: que nela se cumprisse o que o Senhor iniciara; que se fizesse a vontade de Deus, pois nela se encontra a paz.

Durante o noviciado, temia que a mandassem embora, mas depois da profissão religiosa, vencido este temor, assumiu uma atitude de abandono tranquilo, que a levou ao sacrifício total de si mesma: "Agora faz Tu", dizia simplesmente. A sua breve vida claustral (três anos e meio) consumou-se como uma Eucaristia, no empenho quotidiano de negar totalmente a si mesma para seguir a Cristo, obediente ao Pai até à morte.

Gabriela via na missão do sacrifício o sentido da sua vida. "A glória de Deus não consiste em fazer grandes coisas, mas no sacrifício total do próprio eu", escreveu numa carta.

As recordações das irmãs são simples, mas significativas; a sua prontidão em reconhecer-se culpada, em pedir perdão às irmãs, sem justificar-se; a sua humildade simples e sincera; a sua disponibilidade em fazer de boa vontade qualquer trabalho, oferecendo-se para os trabalhos mais cansativos sem que isto fosse percebido. Com a profissão religiosa, cresceu nela a experiência da pequenez: "a minha vida não vale nada... posso oferecê-la tranquilamente".

A sua abadessa, Madre Maria Gullini, tinha uma grande sensibilidade e um grande amor pela causa ecumênica, que soube comunicar também à sua comunidade.

Quando a Madre Pia, solicitada pelo Padre Couturier, apresentou à comunidade o pedido de orações e de oferecimentos pela grande causa da Unidade dos Cristãos, a Irmã Maria Gabriella sentiu-se logo comprometida e chamada a oferecer a sua jovem vida: "Sinto que o Senhor me pede" — confessa à Abadessa. "Sinto-me chamada mesmo quando não o quero pensar".

Foi através de um caminho rápido e direito — entregue totalmente à obediência, consciente de sua fragilidade, e tendo como único desejo "a vontade de Deus e a Sua glória" — que Gabriela alcançou aquela liberdade que a impelia conformar-se com Jesus, que "tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até à consumação". Perante a "laceração" do Corpo de Cristo, sentia a necessidade de oferecer-se até à consumação. A tuberculose manifestou-se no físico da jovem irmã, até então muito sadio, a partir do mesmo dia da sua oferta, levando-a à morte no espaço de quinze meses de sofrimento.

Na tarde do dia 23 de abril de 1939, concluiu a sua longa agonia, totalmente abandonada à vontade de Deus, enquanto os sinos tocavam sem parar, no fim das vésperas do Domingo do Bom Pastor, no qual o evangelho proclamava: "Haverá um só rebanho e um só Pastor".

Sua oferta ainda antes da sua consumação, foi aceita pelos irmãos anglicanos, e encontrou correspondência profunda no coração dos crentes de outras confissões. A afluência de vocações, que surgiram em grande número nos anos sucessivos, é o dom mais concreto de Irmã Maria Gabriela à sua comunidade.

Seu corpo, encontrado intacto quando foi feito o reconhecimento em 1957, repousa agora numa capela adjacente ao Mosteiro de Vitorchiano, para onde se transferiu a comunidade de Grottaferrata.

Foi beatificada por João Paulo II a 25 de janeiro de 1987, quarenta e quatro anos depois da sua morte, na Basílica de São Paulo, no dia da Festa da Conversão do Apóstolo e da conclusão da Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos.



Beata Maria Gabriella, rogai pela Unidade dos Cristãos,
especialmente pelos anglicanos. Amém! 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

BEATO INOCÊNCIO DE BERZO, Presbítero Capuchinho




Beato Inocêncio de Berzo
O beato Inocêncio nasceu em Niardo, Vale Camônica (Bréscia), de família modesta e religiosa, e morreu em Bérgamo. Foi primeiro sacerdote na diocese de Bréscia, na qual desenvolveu um fecundo apostolado, até que, em 1874, ingressou na Ordem Capuchinha. Distinguiu-se sempre por sua austeridade, simplicidade, caridade para com os pobres, penitência e vida contemplativa. A Eucaristia e a Virgem foram devoções suas acentuadas. O beatificou João XXIII em 1961.

O domingo, dia 12 de novembro de 1961, a “glória de Benini” na Basílica Vaticana vestia suas melhores galas e fulgores para honrar a um novo beato, esta vez na figura de um humilde frade da Ordem Capuchinha. Referimo-nos ao beato Inocêncio de Berzo (seu nome civil era Giovanni Scalvinoni), cuja causa de beatificação, introduzida em 22 de janeiro de 1919 na Sagrada Congregação dos Ritos, cerrava, então, seu primeiro ciclo solene.

Brota esta humilde flor – como um “edelweis” entre branca neve – em um dos mais pitorescos vales alpinos, ao norte da Itália, em Val Camônica, província de Bréscia, em 19 de março de 1844. Eram seus pais Pietro Scalvinoni e Francesca Poli, tão escassos de recursos como ricos de espírito cristão, sempre abandonados nas mãos do Senhor e confiados em sua divina providência. Oração, trabalho e amor mútuo era o programa de vida e ninguém ira dormir na família sem haver participado na reza coletiva do santo Rosário. Em tal ambiente deu início a sua formação interior que o levaria logo à santidade.

Quando contava apenas três meses se encontra já sem pai, vítima de enfermidade. De sua mãe aprende logo o santo temor de Deus, uma devoção filial à Santíssima Virgem e um delicado amor à pureza. Aos nove anos, o bispo diocesano (de Bréscia) lhe dava a primeira comunhão, que recebeu com indescritível contentamento e candura. Seus olhinhos vivos se cravavam no tabernáculo e na sagrada espécie com a fé consciente do adulto, como se visse a presença real do Senhor. Mas aquele primeiro abraço eucarístico parecia assinalar uma transformação fundamental. O que lhe havia dito Jesus? Pronto se desvelaria o segredo quando um dia disse todo feliz a sua mãe que o Senhor lhe chama. Notícia que ela acolhe com emoção e lágrimas, dando profundas graças a Deus pela predileção tão singular: a vocação ao sacerdócio.

Caminho do Altar

Recebido o sacramento da Confirmação em 03 de outubro de 1861 do mesmo Dom Verzeri, que lhe havia dado a comunhão, ingressa no Colégio Marinoni, de Lovere. Cinco anos esteve nele, superando com brilhantismo os estudos do ginásio, até que passou seguidamente ao seminário diocesano de Bréscia, onde completaria seus estudos. Ali foi um maravilhoso exemplo para seus companheiros. Para melhor corresponder à graça de sua vocação se pôs desde os primeiros dias debaixo da proteção da celestial Senhora, como fizera também em seus anos o santo Cura d’Ars.
Em 23 de dezembro de 1865 dava seu  primeiro passo solene do subdiaconato, caminho do altar, ao qual chegaria com a ordenação em 02 de junho de 1867, aos 23 anos de idade, das mãos do mesmo prelado que lhe deu a Comunhão e a Confirmação. Que viva emoção para o mesmo e para sua mãe, e para os bem feitores ali presentes que lhe haviam auxiliado em suas despesas até o altar!

Seu primeiro destino é a paróquia de Cevo, uma dessas rurais, implantadas entre riscos montanhosos na alta Val Camônica, como coadjutor de um venerável e boníssimo pároco, dom Codenatti. Este, ao dar conta à cúria diocesana, escreve: “O Senhor me abençoou ao mandar-me este piedoso e zeloso coadjutor”.

O centro de seu ministério apostólico será o confessionário. Sabia insinuar-se suavemente nas almas com aquela bondade e afabilidade que são as melhores medicinas para curar as almas e conduzi-las a Deus. Muitos acorriam a ele como a um santo; não poucos pecadores, inclusive obstinados, regressavam convertidos. Imitava, assim, ao Bom Pastor, que com gozo e ternura acolhia às ovelhas desgarradas e não as perdia de vista até reconduzi-las ao redil.
Sua pessoa era uma benção para toda a comarca. Os párocos o disputavam para a pregação, porque sua palavra vibrante de doutrina, de unção e de graça procedia de um coração ardente de fé e de amor que agradava a todos e a todos edificava.


“Onde está o colchão, filho meu”?

Sua caridade não tinha limites. Por ele, daria tudo. Tirava da panela as melhores porções da comida para leva-los aos pobres mais famintos e necessitados. Um dia, sua mãe reprovou este proceder. Contestando-lhe, ele, de joelhos e respeitosamente, lhe disse: “perdoa-me, os reparti entre uns pobres enfermos”. Ao que replicou ironicamente sua mãe: “bendito filho, até o pote eu devo fechar a ‘sete chaves’”?

Um dia, sua mãe, ao limpar sua habitação, repara que não tem colchão na cama. “Onde tens dormido esta noite, filho meu”? Pergunta-lhe.  Ele finge não compreendê-la. “Onde posso ter dormido senão em minha habitação”?

“Quero dizer, sobre que coisa tens descansado, já que não está aqui o último colchão que com tantos sacrifícios procurei conseguir para ti semana passada”?

“Ah, sim! Havia me esquecido de dizê-lo.  Ontem, durante sua ausência... Se houvésseis visto aquela casa e aquela enferma de sete anos já! Creia-me, a mim me vai melhor dormir assim”.
E na habitação, em lugar do colchão, a mãe havia achado uns feixes de lenha...

Outro dia, apresentando-se um pobre, necessitado de tudo. O santo vai olhar a dispensa e os armários. Tudo fechado. Porém, ah!, no fogão há um frango que está cozinhando. Ó providência! Sem titubear, pega o frango e o dá ao pobre. Regressa a mãe à casa e, mecanicamente, coloca nova lenha ao fogo do forno; mas, quando logo se dispõe a destampar a panela para retirar o frango, este havia “voado”!
Dadas suas atitudes para tratar com a juventude, o prelado, às instâncias do reitor Bertazzoli, o nomeia vice-reitor do seminário diocesano, o que serviu para a edificação de todos. Em uma manhã invernal, ao regressar ao seminário, viu um pobre ancião, descalço e mal vestido, que tremia de frio. Tanta compaixão o inspirou que retirando o calçado presenteou-o ao pobre velho. Alunos e professores creram que naquele dia ele havia esquecido de por os sapatos...
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Buscando as pisadas seráficas...

De Bréscia passa a Berzo inferior, de coadjutor de dom Geresetti, com iguais mostras de santidade que em Cevo entre seus paroquianos. A poucos quilômetros dali, em frente, sobre um monte quebrado, se ergue o antigo convento da Anunciação, dos padres capuchinhos da Lombardia. Gostava de visitar este solitário convento, fundado em 1475 pelo beato Amadeo de Silva, nobre português, e que, com o tempo, foi lugar de retiro de varões ilustres em ciência e virtude.
Ali ouviu a voz do Senhor que o convidava a seguir as pegasdas do “serafim de Assis” (São Francisco). Recebidas as letras testemunhais da cúria diocesana e a conseguinte aceitação do provincial dos frades, em 16 de abril de 1874 vestia o hábito capuchinho tomando o nome de Frei Inocêncio. Tentou-lhe o demônio com escrúpulos e remorsos vãos, até que ao fim, com o auxílio de Deus e da Virgem, recobrou a paz em sua alma atormentada.
Em 29 de abril de 1875 emitia sua profissão religiosa. Aos dois meses partia para o “professório” de Albino. Em outubro de 1876 regressava a Berzo como vice-mestre de noviços da Anunciação, onde, por espaço de dez anos foi uma estampa vivente de profunda humildade, contínua oração e austeríssima penitência.

Sua austeridade havia sido rigorosíssima, tanto que evocava à de São Pedro de Alcântara. No inverno, metia os pés e as mãos em água gelada. No verão se expunha aos ardentes raios do sol e suportava aos molestos insetos tais como moscas, mosquitos e besouros. Disciplinava seu corpo com chibatadas e cilícios. A pele dos ombros, escápulas e dorso estavam muitas vezes salpicadas de sangue. Parecia um esqueleto, de modo que aos quarenta anos de idade, encurvado e decrépito, as pernas trêmulas e vacilantes, inspirava verdadeira lástima. Não dava satisfação alguma a seu corpo; temia sempre que o corpo predominasse sobre o espírito.


Em 1886 o destinaram ao convento de Milão para colaborar na redação dos “Anais Franciscanos”. Daqui passa ao convento de Crema; e, de novo, ao convento da Anunciação, de Berzo, como preceptor dos jovens estudantes. Então, sua saúde terrivelmente minada por suas tremendas penitências e achaques preocupa aos superiores que pensam transladar-lo a um melhor trato em Bérgamo; porém, já demasiado tarde. Seus últimos instantes são assistidos pelo monsenhor Celestino Cattaneo, prelado também capuchinho, amigo e admirador seu. Recebe os santos sacramentos e saúda à “irmã morte” louvando o Senhor, em 03 de março de 1890. Seu enterro foi um plebiscito popular de veneração ao santo, até o ponto que, apesar da vigilância, as pessoas foram cortando-lhe o cabelo, barba e hábito, que teve que ser mudado por três vezes.
Como dado curioso, diremos que os dois milagres apresentados a sua causa de beatificação se realizaram em dois meninos: um de sete anos, afetado de oclusão intestinal com perfuração e peritonite séptica mortal, e o outro, de quatro anos, com tumor maligno cerebral, que, praticada a biópsia, dava prognóstico letal.


[Luis Sanz Burata, El nuevo Beato Inocencio de Berzo, en Eccesia 21 (11-XI-1961) pp. 1437-38]

SÃO FRANCISCO CARACCIOLO, Presbítero e Fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Mínimos




São Francisco Caracciolo
Curado da lepra aos 22 anos, dedicou-se inteiramente ao serviço de Deus na Ordem dos Clérigos Regulares Mínimos, que fundou.

Deus Nosso Senhor suscitou no século XVI várias Ordens religiosas para fazer frente à heresia protestante e à decadência de costumes. Uma delas foi a dos Clérigos Regulares Mínimos, fundada por São Francisco Caracciolo e pelo Venerável João Agostinho Adorno para o cuidado das paróquias e da vida conventual.

Ascânio Caracciolo (nome de batismo) nasceu no dia 13 de outubro de 1563 em Vila Santa Maria, no reino de Nápoles, numa ilustre família da nobreza local.

Desde pequeno destacou-se por sua suma gentileza, retidão, amor à penitência e uma terna devoção à Santíssima Virgem. Tão logo aprendeu a ler, começou a rezar diariamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora e o terço, e a jejuar aos sábados em honra da Mãe de Deus.

Na adolescência, a fim de evitar a ociosidade e vencer a concupiscência da carne, mantendo uma ilibada pureza, Ascânio dedicava-se à caça e a outros exercícios corporais.

Entretanto, não havia ainda escolhido um estado de vida quando, aos 22 anos, contraiu violenta lepra, que lhe provocou uma chaga no estômago, colocando sua vida em risco. Ascânio sentiu então na própria pele quão frágil e efêmera era sua existência terrena, e pensou na eternidade. Prometeu então a Deus que, se fosse curado, consagrar-lhe-ia o resto de seus dias. Esse era o beneplácito divino, pois ele foi curado milagrosamente com tanta prontidão e eficácia, que não lhe restou no corpo nenhuma marca da mortal doença.



Uma carta: um engano providencial

Ascânio comunicou então a seus pais sua resolução e, de posse da parte que lhe tocava da herança paterna, distribuiu-a aos pobres e dirigiu-se a Nápoles, a fim de principiar seus estudos eclesiásticos. Em 1587, graças à sua portentosa inteligência e aplicação, foi ordenado sacerdote.

Havia em Nápoles uma benemérita confraria chamada dos Penitentes Brancos, cujos membros se ocupavam particularmente em preparar para a morte os condenados, auxiliar espiritual e materialmente os cativos e condenados às galés, e evangelizar os pobres e necessitados. O santo ingressou nessa confraria, passando a dedicar, até o fim de seus dias, parte de seu tempo a esse apostolado.

Entretanto o Pe. Ascânio suplicava muito a Deus que o fizesse compreender o que queria dele, pois sentia que ainda não tinha encontrado sua verdadeira vocação.


Foi assim que, em certo dia de 1588, ele recebeu uma carta de um parente seu, Pe. Fabrício Caracciolo, que mudou sua vida. Com efeito, tratava-se de um convite para que o destinatário fosse à residência do Pe. Fabrício para conversar sobre algo que lhe poderia interessar. Lá encontrou também um outro sacerdote, o Pe. João Agostinho Adorno, de ilustre família de Gênova, que tinha abandonado o mundo e desejava fundar uma nova Ordem religiosa unindo a vida ativa à contemplativa. O mais extraordinário é que o destinatário da missiva era outro com o mesmo nome do nosso Ascânio, mas ela, por um engano, foi entregue a este. Os três sacerdotes viram nisso a mão da Providência, tanto mais quanto o futuro santo interessou-se muito pelo projeto e quis dele participar.

Ascânio e Agostinho dirigiram-se então a uma camáldula perto de Nápoles para, no recolhimento e na oração, amadurecerem o projeto. Como eram pessoas sérias, para alcançar as bênçãos de Deus estabeleceram entre si um turno de penitências, de maneira que enquanto um jejuava a pão e água, o outro se disciplinava. Surgiram assim os Clérigos Regulares Mínimos, para maior glória da Igreja.


Cuidado paroquial e vida conventual

O que distinguia esses clérigos regulares dos simples sacerdotes e dos religiosos com votos? “Por clérigos regulares entende-se esses corpos de homens na Igreja que, pela própria natureza de seu instituto, unem a perfeição do estado religioso com o ofício sacerdotal. Isto é, sendo essencialmente clérigos, devotados ao exercício do ministério da pregação, da administração dos Sacramentos, da educação da juventude, e de outras obras de misericórdia espirituais e corporais, são ao mesmo tempo religiosos no mais estrito sentido da palavra, professando solenes votos, e vivendo a vida de comunidade de acordo com a regra solenemente aprovada pelo soberano Pontífice”.(1)

Os dois fundadores encontraram logo muitos seguidores: “os clérigos regulares foram tão bem sucedidos e populares quanto bem adaptados às modernas necessidades, que seu modo de vida foi escolhido como modelo para várias comunidades de homens, quer religiosas ou seculares, vivendo sob uma regra, no que a Igreja tem sido tão prolífica em tempos recentes”.(2) Os primeiros religiosos a adotar esse modelo de vida tinham sido os Teatinos, fundados por São Caetano de Tiene em Roma, em 1524.

Assim, congregação fundada por São Francisco Caracciolo e pelo venerável Adorno era ao mesmo tempo contemplativa e ativa. E aos três votos usuais — pobreza, obediência e castidade — acrescentavam um quarto: o de não aspirar a dignidades eclesiásticas fora da Ordem, nem procurá-las dentro dela. Faziam adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento em turnos. A Ordem também prescrevia frequentes exames de consciência, a prática contínua da oração, e rigorosas mortificações. Assim, os irmãos se alternavam nos sacrifícios diários: enquanto um jejuava a pão e água, outro aplicava a disciplina e um terceiro portava o cilício, de modo que a penitência não cessasse jamais de aplacar a cólera de Deus e atrair suas bênçãos.(3) O moto da Ordem era Ad majorem Dei Resurgentis gloriam, escolhido por Francisco e Adorno quando fizeram sua profissão no Domingo da Paixão de 1589.(4)

Quando perfizeram o número de 12, Ascânio e Agostinho dirigiram-se a Roma para tentar a aprovação de sua Ordem. “Ao recebê-los, o Papa Sixto V, com aquela doçura e amabilidade que o caracterizavam, fixou neles seu bondoso e penetrante olhar, e em um instante mediu a prodigiosa sabedoria, piedade e prudência do mais jovem, Ascânio, que tinha 25 anos, e ficou muito agradavelmente surpreso. Encomendou o exame do projeto da nova ordem religiosa a uma comissão de três cardeais, que ele mesmo nomeou. [...] Transcorreram dois meses quando, contra toda a esperança, no dia 1º. de julho de 1588, Sixto V expediu uma bula criando a Ordem dos Clérigos Regulares Mínimos”.(5) O Papa deu-lhes então o convento de Santa Maria Maior ou Pietrasanta, em Nápoles.

Ascânio Caracciolo mudou então seu nome para Francisco, por devoção a São Francisco Xavier.



Em perigo de naufrágio, recurso à Estrela do Mar

Seguindo o desejo do Sumo Pontífice, no ano seguinte os dois fundadores partiram para a Espanha com o intuito de lá fundar uma casa de sua Ordem.

Mas esta não estava ainda nos planos da Providência e os dois religiosos tiveram que voltar à Itália. Passando por Valência, um religioso inglês que fugira da Inglaterra por causa das perseguições da ímpia rainha Isabel I, predisse aos dois religiosos: “Vós sois os fundadores de uma Ordem nova, que se espalhará em breve para a glória de Deus e a salvação das almas, e que florescerá particularmente neste reino”. O que confortou muito os dois amigos.

Antes de partirem para Nápoles, São Francisco Caracciolo reuniu toda a tripulação do navio em uma ermida às margens do Mediterrâneo, exortando-a a colocar-se sob o amparo da Estrela do Mar, pois haveriam de correr grandes riscos na travessia. Realmente foi o que aconteceu, só se evitando um naufrágio graças às orações dos dois religiosos. O navio desgovernado acabou encalhando num banco de areia de uma praia deserta. Para fugir às manifestações de regozijo e agradecimento da tripulação, os dois mínimos entraram em um bosque. Nele se perderam, mas foram salvos milagrosamente.

João Agostinho Adorno faleceu, em odor de santidade, em setembro de 1591, com apenas 40 anos. São Francisco foi então escolhido por unanimidade como Superior Geral dos Mínimos.



A glória de Deus é a única finalidade

São Francisco Caracciolo foi novamente à Espanha para tentar fundar uma Casa. Desta vez o monarca Felipe II entregou seu pedido para estudo ao cardeal Quiroga, Arcebispo de Toledo, que se manifestou favorável à empresa. Fundou-se assim a primeira casa na Espanha, dedicada ao glorioso patriarca São José.
           
A obra progredia a olhos vistos, de maneira a suscitar o ódio dos adversários que toda obra de Deus encontra. Um poderoso e influente senhor da corte conseguiu que o Conselho Real mandasse fechar imediatamente a Casa, concedendo um prazo de dez dias para que os religiosos saíssem da Espanha. Após várias tentativas, como último recurso, São Francisco foi lançar-se aos pés de Felipe II, implorando sua ajuda. O monarca ficou tão impressionado com o santo que, apesar de seu Conselho Real, ratificou a fundação e a permanência dos religiosos no país.

Numa terceira viagem à Espanha, São Francisco fundou também uma residência da Ordem em Valladolid e outra em Alcalá de Henares. Inúmeros milagres e prodígios marcaram sua estadia em Madrid, de modo que o povo passou a chamá-lo de Apóstolo do amor divino, pois o santo tinha sempre nos lábios as palavras de Davi: “O zelo de tua casa me devora” (Sl 68, 10), sendo a glória de Deus o único fim de todos os seus atos.

Notável pelo seu trabalho junto aos pobres , era um fazedor de milagres e tinha o dom da profecia. Ele curava fazendo o sinal da cruz sobre os doentes que lhe eram levados, e do mesmo modo expulsava o demônio dos possessos. Era um pregador muito popular em sua região. O Papa Paulo V desejava que ele fosse bispo, mas, recusou repetidamente, citando o voto da Congregação que proibia aceitar qualquer alta posição na Igreja. No final de sua vida ele renunciou de suas funções e passou seu tempo em oração e a se preparar para a morte.




Lugar do repouso pelos séculos dos séculos

São Francisco escolheu para seu aposento em Nápoles um vão muito pequeno e incômodo embaixo da escada da Casa, onde entrava frequentemente em êxtase. Foi lá que o encontraram os eclesiásticos que, da parte do Papa Paulo V, foram lhe oferecer o episcopado, que ele rejeitou.


Apesar de ser relativamente novo — pouco mais de 40 anos de idade — São Francisco obteve dispensa de todos os cargos e ofícios para, como dizia, preparar-se para a morte. Mas teve que ceder quando lhe pediram que fosse estabelecer uma fundação em Agnona, pois no caminho poderia venerar a Santa Casa de Loreto. Lá, passando a noite em oração, viu-se de repente rodeado por uma claridade celeste, aparecendo-lhe então Agostinho Adorno, resplandecente de luz: “Caríssimo irmão, disse-lhe ele, sou mensageiro de Maria para dizer-te, da parte dessa bondosa Mãe, que Ela amorosamente cobre com seu manto nossa família, convertendo-se desde já em sua Protetora e Advogada. Deu-me Ela outro encargo: de dizer-te que, dentro de poucos dias, serás chamado à bem-aventurança eterna”.

Desse modo, quando chegou a Agnona, o santo exclamou jubiloso: “Haec est requies mea in saeculum saeculi” (Eis aqui o lugar de meu repouso pelos séculos dos séculos). Os religiosos não entenderam o que ele queria dizer com isso.

Em sua estadia em Agnona, São Francisco encontrou um jovem que levava vida muito licenciosa. Instou-o então a se converter ao Senhor, para evitar a perdição eterna. O insensato acolheu essas palavras com um sorriso de superioridade, caçoando da ameaça. Então São Francisco disse-lhe, com um olhar severo: “Está bem, já que caçoas desse último apelo da misericórdia de Deus, dentro de uma hora cairás nas mãos de sua justiça!” Antes que terminasse a hora predita, o jovem mundano caiu morto.

Pouco tempo depois, foi atacado por uma febre que se tornava cada vez mais alta. No dia em que morreu, uma hora antes do amanhecer, ele levantou-se e gritou: “Para o Céu” e, logo depois, faleceu. Era o dia 4 de junho de 1608, aos 44 anos. Ele foi beatificado por Clemente XIV em 10 de setembro de 1769, e canonizado por Pio VII em 27 de maio de 1807.