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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Beata Irene Stefani, Virgem da Congregação das Missionárias da Consolata, a "mãe misericordiosa" dos Quenianos.



Resumo Biográfico
Nascida em Anfo, norte da Itália, em 1891, a missionária da Consolata foi uma das primeiras religiosas a entrar na congregação, tendo sido recebida pelo próprio fundador, o beato José Allamano. Logo após o noviciado, partiu para o Quénia, em 1915, onde se dedicou aos doentes e à formação das jovens quenianas. Faleceu a 31 de Outubro de 1930, com apenas 39 anos, deixando um exemplo de dedicação que lhe rendeu o título de "mãe misericordiosa" - "Nyaatha" na língua kikuyu. 


“Acolhia a todos, a qualquer hora do dia ou da noite. Uma força interior impelia-a a ir ao encontro das pessoas mais necessitadas, que tratava com respeito, delicadeza, doçura e afabilidade, sem fazer distinção", afirmou o postulador da causa de beatificação da irmã Irene Stefani, o missionário da Consolata, Gottardo Pasqualetti. “O povo recorda-a como mãe, a boa mãe, aquela que quer bem a todos, a misericórdia personificada: Nyaatha”, explicou o sacerdote que recolheu testemunhos de Irene Stefani em Itália e no Quênia.



      Biografia
Irmã Irene Stefani, no século Maria Mercedes Stefani, nasceu no dia 22 de agosto de 1891 em Anfo, no Val Sabbia (Brescia, Itália).
Em 19 de junho de 1911, aos 19 anos de idade, deixou sua terra natal, Anfo, onde já era conhecida como “o anjo dos pobres”, e se dirigiu a Turim onde o Beato José Allamano, o fundador do Instituto dos Missionários da Consolata, aca­bava de dar inicio também às Missionárias da Consolata. Ele a recebeu no pequeno grupo das primeiras jovens desejosas de entregar a vida a Deus por meio da obra missionária.
Terminada sua preparação, até fins de 1914, com confiança e humilde valentia, aceitou com entusiasmo o mandato para as missões do Quênia, consciente das dificuldades que a esperavam. Seu coração não treme, porque está confiante em Deus. Em 29 de janeiro de 1914, dia de sua consagração a Deus, Irmã Irene condensou em poucas linhas seu programa de vida: “Só Jesus! Tudo com Jesus... Toda de Jesus... Tudo para Jesus... Nada para mim”.
Chegou ao Quênia em janeiro de 1915, experimentou a pobreza extrema, o cansaço, a solidão. Teve que se esforçar para aprender um idioma novo e penetrar em uma cultura muito diferente. Irmã Irene encontrou espaço em seu coração para aquele mundo ao qual se entregava com todo seu ser: é mulher humilde, cheia de fé ardente, de caridade intrépida e esperança inquebrantável para anunciar que Jesus é o Filho de Deus e o Salvador da humanidade.
Em 1915, poucos meses após sua chegada ao Quênia, os efeitos da 1ª guerra mundial são sentidos nas colônias inglesas e alemãs, e envolvem diretamente numerosos missionários presentes na África Oriental.
A partir de agosto de 1916, Irmã Irene exerce a tarefa de enfermeira da Cruz Vermelha no Quênia e na Tanzânia nos hospitais de campo erguidos pelos “carriers”, os trezentos mil e mais indígenas mobilizados pelos ingleses para defender e alargar suas fronteiras. Com piedade e abnegação ela passa dias e noites nas grandes tendas onde se amontoam até dois mil enfermos e feridos. Naquelas condições miseráveis falta tudo, porém Irmã Irene supre a falta de remédios e de assistência médica multiplicando os gestos de caridade e de afeto maternal a cada um desses po­bres jovens. “Essa irmã é um anjo”, eram os comentários.



No fim da guerra Irmã Irene voltou para o Quênia, entre seus Agikuyus, e se entregou totalmente à obra de evangelização com inesgotável espírito apostólico. Ela era mestra, enfermeira, parteira, visitadora familiar e a todos levava amor e gestos concretos de solidariedade. Tanto que as pessoas começaram a chamá-la com carinho “Nyaatha”, que significa “a mãe toda misericórdia”.

Ao completar 39 anos de idade, diante das necessidades incalculáveis da obra missionária e sempre mais consciente de sua pequenez, Irmã Irene sentiu um chamado interior para oferecer a Deus o supremo sacrifício de sua vida para o advento do seu reino. Duas semanas apenas depois do seu oferecimento, assistindo um doente de peste que morreu em seus braços, contraiu a mesma doença que em poucos dias a levou a morte, vítima de sua caridade heroica.
Era o dia 31 de outubro de 1930. Enquanto a dolorosa notícia de sua morte se difundia, as pessoas aturdidas e consternadas acorriam em massa à missão para ver seu rosto pela última vez, superando o temor supersticioso dos mortos, ainda muito arraigado naquele tempo.
Meio século depois, a Igreja de Nyeri (Quênia) e a de Turim pediram à Congregação dos Santos em Roma que sejam reconhecidas as virtudes heroicas de Irmã Irene Stefani, para a glória de Deus e exemplo aos fieis.
Seus restos, exumados em 1995, repousam na igreja da Consolata em Nyeri ­Mathari (Quênia). Ela foi proclamada Venerável em 2 de abril de 2011. Após o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão, Irmã Irene Stefani foi beatificada em 23 de maio de 2015.


A água que se multiplicou
O milagre aprovado pela Igreja para sua beatificação é atípico e raro: uma pia batismal utilizada em batismos, com restos de água, misteriosamente não se esgotou nos três dias em que foi consumida por cerca de 250 pessoas escondidas numa igreja de Nipepe (Moçambique), que haviam fugido dos guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo).
Irmã Anair Voltolini, catarinense de Blumenau, que foi missionária por oito anos em Moçambique e hoje é a Provincial da Congregação da Consolata em São Paulo, conhece bem o milagre, pois sua missão estava distante apenas 130 km de Nipepe e ainda hoje há inúmeras testemunhas do fato. Ela conta “que apenas havia algumas bolachas para todas as pessoas. Não havia banheiros. Duas salas da igreja foram reservadas para as necessidades fisiológicas dos homens e mulheres. A única água existente eram seis litros que ficaram armazenados num tronco da pia batismal. No domingo anterior tinha havido batizados na paróquia. Durante estes três dias, todas as 250 pessoas tomaram dessa água que nunca secava, inclusive durante o evento nasceu uma criança que foi lavada com a mesma água”.
“Um verdadeiro milagre científico. Depois de três dias, um homem saiu da igreja e foi obrigado a denunciar os demais. Os guerrilheiros entraram no recinto e obrigaram a homens e mulheres a viajar com eles até a base da Renamo, 200 km distante da vila”.
O padre Frizzi estava celebrando a missa quando se deu o ataque. Os guerrilheiros, depois de pilharem a Missão e as casas dos catequistas, obrigaram o missionário a escolher um grupo de homens para carregarem os bens roubados e acompanhá-los até à sua base. O padre se negou proceder a tal escolha e evitou a todo o custo que alguém fosse levado com eles. Segundo a tradição maúa, sentou-se no chão, como sinal de recusa.
Seguiu-se um longo impasse. O missionário negava-se a deixar partir a sua gente e os guerrilheiros não queriam voltar sozinhos. Ao final, alguns ficaram com o padre e as demais famílias com mulheres e crianças foram forçadas a ir para a base. Passados dois meses, todos fugiram e voltaram para Nipepe são e salvos. Um grande milagre da Irmã Irene.

http://www.crbnacional.org.br
Publicado no Jornal digital Parceiros das Missões, n.35, maio de 2015

Postado por Zeni

Venerável Servo de Deus Rodolfo Komórek, Presbítero Salesiano


Venerável Rodolfo Komórek, sacerdote salesiano polonês que viveu no Brasil

Rodolfo Komorek nasceu em Bielsko, na Silésia polonesa, então austríaca, no dia 11 de agosto de 1890. Foi o terceiro de sete filhos de João e Inês Goch, pais verdadeiramente cristãos.
Aos 19 anos entrou no seminário, e ali era comparado a São Luís. Aos 24 anos foi ordenado sacerdote na diocese de Breslavia. Durante a primeira guerra mundial trabalhou como capelão militar no hospital e, a seu pedido, também na frente de batalha. Exerceu por três anos o ofício de pároco em Frystak, onde testemunhou a pobreza, a oração e o zelo apostólico. O seu confessionário estava sempre cheio. P. Rodolfo foi amado e respeitado por todos, sobretudo pelas crianças.

Com 32 anos pediu para entrar na Congregação Salesiana e, em 1922, iniciou o noviciado. Aspirava ser missionário. Por isso, em outubro de 1924 foi destinado a São Feliciano, no Brasil, para cuidar da pastoral dos poloneses imigrantes e sem assistência religiosa. Distinguiu-se como evangelizador e confessor de exceção. Chamavam-no “o padre santo”. Foi exemplar na vivência do voto de pobreza tão amado por Dom Bosco. Vivia em união com Deus na presença do Senhor. Diziam dele: “Nunca se viu visto um homem rezar tanto”. E ainda: “A sua genuflexão valia por uma pregação e a sua compostura quando estava ajoelhado no chão persuadia-nos do seu extraordinário espírito de piedade e de mortificação”.

Passou por várias paróquias e comunidades salesianas. Foi enviado como confessor ao estudantado salesiano de Lavrinhas, onde se distinguiu pela santidade. Dava 28 aulas por semana. A casa de saúde de São José dos Campos foi a última etapa dos seus 25 anos de missão.
Em São José, o padre foi examinado pelo médico Nelson D'Avila, que teria se surpreendido com a gravidade de sua doença e recomendado repouso absoluto. O médico teria dado a ele três meses de vida, mas ele viveu ainda nove anos.
Contrariando as ordens médicas, padre Rodolfo realizava todos os dias uma procissão particular pela cidade, oferecendo assistência aos doentes e realizando missas na capela do sanatório Vicentina Aranha. O padre teria realizado curas milagrosas e outros sinais, que acenderam a hipótese sobre sua santidade.
Vivia contente, nos últimos oito anos de vida, por consumir-se lentamente e oferecer a Deus, até o fim, o respiro de seus pulmões doentes de tuberculose. Assistia os demais doentes exercendo durante o dia todo o ministério sacerdotal. Dormia sobre três tábuas.



Passou os últimos dias em contínua oração. Queria que os remédios, já inúteis, fossem dados aos pobres que não conseguiam comprá-los. Não quis aceitar nem oxigênio nem água. Morreu aos 59 anos, no dia 11 de dezembro de 1949. Está sepultado em São José dos Campos, onde a sua profunda piedade – sobretudo o amor pela Eucaristia –, o seu serviço incansável ao próximo e o seu espírito de contínua penitência formaram e continuam a formar gerações de crentes.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

São Rafael Arnáiz Barón, monge


 A heroicidade de um apagamento total


O grande êxito de sua vida foi aceitar o aparente fracasso de seu ideal, conformando-se inteiramente à vontade divina. Nada foi aos olhos humanos, mas foi santo aos olhos de Deus, que julga pelo coração, e não pelas aparências.

Rafael Arnáiz Baron era rico, de nobre família, inteligente, elegante, simpático e alegre. Tinha alma de artista e dotes de poeta, aprimorados por uma esmerada educação. Cursava em Madri a Escola Superior de Arquitetura, apreciava os magníficos concertos do Palácio da Música e freqüentava os bons restaurantes madrilenhos. Diante de si, abria-se a perspectiva de uma carreira brilhante.

Aos 22 anos, ele ouviu o convite de Jesus no interior de sua alma: “Renuncia a tudo isso, vem e segue-Me”. Bem ao contrário do “moço rico” do Evangelho, atendeu com prontidão e generosidade a esse chamado. Em sua curta vida, elevou-se a um alto grau de santidade e deixou aos católicos uma importante mensagem: “Deus não exige de nós mais do que simplicidade por fora e amor por dentro”.




Um menino privilegiado

Rafael Arnáiz Barón nasceu em Burgos, Espanha, a 09 de abril de 1911, numa aristocrática família. Seus pais, católicos fervorosos, educaram- -no com esmero na prática dos Mandamentos e no amor à virtude. Aos 10 anos, vendo-se impossibilitado de acompanhar seus colegas à Missa de domingo, por estar enfermo, suplicou a um sacerdote que lhe levasse o Santíssimo Sacramento. Impressionado com a piedade daquela criança, o padre acedeu e, a partir daí, Rafael nunca mais abandonou a comunhão dominical.

Diante do olhar profundo do jovem Rafael, seu futuro se descortinava em tons róseos e azulados. Sua inteligência penetrante, a vivacidade de sua conversa e seu trato ameno conquistavam-lhe todas as simpatias e aumentavam o atrativo natural que exercia sobre os que dele se aproximavam. Um marcado pendor artístico veio completar o encanto de sua pessoa.

Rafael, porém, parecia feito mais para a contemplação das coisas celestes que para as banalidades da vida terrena. Levava uma vida semelhante à dos outros moços de sua idade, mas seu olhar voava com facilidade até Deus. Dir-se-ia que sua nobre alma experimentava o exílio deste vale de lágrimas e ardia em desejos de horizontes sublimes. A resposta da Providência a tais anseios, plantados por Ela mesma naquele inocente jovem, não se faria esperar.


São Rafael Arnáiz Barón antes
de entrar na vida monástica 
Na juventude, o despontar da vocação

Aos 19 anos, estando na casa de seu tio em Ávila, foi solicitado a levar uma carta ao abade do mosteiro cisterciense de San Isidro de Dueñas. Essa visita seria para ele a clarinada reveladora de sua vocação.

"Aquilo que vi e passei na Trapa, escreveria ele mais tarde, as impressões que tive nesse santo mosteiro, não podem ser explicadas; pelo menos eu não sei explicá-las, somente Deus o sabe. [...] O que mais me impressionou foi o canto da Salve Regina, ao escurecer, antes de irem deitar-se. [...] Aquilo foi algo sublime.1 "

Com efeito, desde a época de São Bernardo, era costume nos mosteiros cistercienses cantar a Salve Regina em gregoriano logo após as Completas, em homenagem à Santíssima Virgem. Diante da unção daquele hino entoado por mais de 50 religiosos revestidos de brancos hábitos, Rafael sentiu-se convidado a imitá-los. Nesse dia, o projeto de dar-se à vocação monacal começou a germinar em sua mente.

Ele continuou a levar sua vida comum. Dados os seus dotes para o desenho, estudou dois anos na escola de arquitetura, em Madri. Entretanto, a graça operara em seu interior uma verdadeira transformação, como ele mesmo descreve: "Ali [na Trapa] a sós com Deus e a própria consciência, muda-se o modo de pensar, o modo de sentir e, o mais importante, o modo de agir nos atos do mundo.2 "


A decisão de abraçar a vida religiosa

Em 1933, estando de novo em Ávila, Rafael surpreendeu seu tio com uma notícia: estava resolvido a abandonar o mundo e ingressar na Ordem de Cister, sem mesmo avisar seus pais, residentes ao norte do país, na cidade de Oviedo. Assim descreve seu tio a impressão que lhe causou a decisão do sobrinho:

Rafael "era débil fisicamente, mas a fortaleza que faltava a seu corpo tinha em sua alma medida completa e transbordante. [...] Sua vontade era de aço; eu tinha a firme convicção de que aquela determinação era de Deus; não era um capricho, nem uma impressão, nem um engano; era o fruto divino de uma correspondência à graça, que o Espírito Santo dignava-Se sustentar com um de seus mais preciosos dons: o da fortaleza.3 "

Para demovê-lo de sua resolução de não ir antes a Oviedo, seu tio recorreu ao Núncio Apostólico, que se encontrava em Ávila. Ante o desejo da autoridade religiosa, Rafael dobrou-se, por amor à obediência, reconhecendo naquela ordem o primeiro passo rumo à cruz, que desejava abraçar.

Partiu para Oviedo e lá, após comemorar o Natal numa aparente alegria, comunicou a seus pais a decisão que tomara. Estes, como bons cristãos, acolheram- na com verdadeira emoção, agradecendo a dádiva que o Senhor lhes concedia.


Uma nova etapa na vida do jovem Rafael

Para o jovem Rafael começava uma nova etapa: deixava para trás as comodidades, o carinho familiar, os passatempos mundanos, as promessas de um brilhante porvir. Sobretudo, renunciava àquilo que a criatura humana possui de mais arraigado: a vontade própria. Doravante esta se acharia inteiramente conformada à vontade divina.

No dia 15 de janeiro de 1934, as portas de Cister abriam-se para o jovem postulante. Seu coração estava cheio de bons propósitos, que ele resumiu com estas palavras escritas poucos dias antes: "Quero ser santo, diante de Deus, e não dos homens; uma santidade que se desenvolva no coro, no trabalho, sobretudo, no silêncio; uma santidade conhecida somente de Deus e da qual nem mesmo eu me dê conta, pois, então, já não seria verdadeira santidade.4 "

Essa santidade seria alcançada em meio a indizíveis sofrimentos e provações, na aparente inutilidade, sem em nada manifestar-se exteriormente.

O primeiro período de vida religiosa foi para Rafael um verdadeiro paraíso. Se os jejuns e as mortificações por vezes arrancaram-lhe algumas lágrimas, sua alma sentia-se inundada de consolações. A humildade que demonstrava ao acusar-se de suas faltas no capítulo de culpas e sua atitude estática diante do tabernáculo impressionavam favoravelmente a comunidade, que logo se lhe afeiçoou.


A dura prova da enfermidade

Para Rafael, o rompimento com o mundo já ficara definitivamente para trás. Porém, não eram estes os desígnios divinos. Gozava de grande felicidade espiritual quando, em maio, sentiu os primeiros sintomas da doença que o levaria à morte. O abatimento de suas forças obrigou-o a ser transferido para a enfermaria. Pouco tempo depois, o médico diagnosticava uma diabetes sacarina que progredia de forma alarmante e exigia um tratamento apropriado, que só poderia ser-lhe ministrado fora do mosteiro...

Começava para ele a subida ao calvário, a aceitação submissa do cálice que lhe era oferecido. Via-se obrigado a voltar para o mundo, ao qual tão generosamente havia renunciado!

Seu confessor, Pe. Teófilo Sandoval, narra a cena de sua partida do mosteiro:

"Os suspiros e as lágrimas do angustiado Rafael faziam-me ver que em seu interior se desenrolava uma tremenda crise espiritual que lhe oprimia o coração. Quando deixei o mundo - dizia-me - despedi-me de todos até a eternidade, e pela imprensa, Astúrias inteira soube que a graça havia triunfado em mim, sobre a natureza... Agora volto para lá desfeito, inútil, com a mortalha dentro da mala... O que dirá o mundo, tão propenso a se escandalizar? Eu quero morrer aqui, quisera que esta noite fosse a última de minha vida! Diante dessas expressões, compreendi que Rafael havia penetrado na terrível noite escura do sentido, do coração.5 "

Rafael voltou para sua casa. Em poucas semanas verificou-se uma melhora em sua saúde e pôde retomar a vida normal. Exteriormente aparentava ser o mesmo Rafael de antes, com sua alegria contagiante e sua sensibilidade artística. Uma profunda mudança, porém, efetuara-se em sua alma, modelando-a por inteiro. Experimentava outra alegria, aquela que só às almas amantes da cruz é dado conhecer.

Assim escreveu ele a um de seus superiores, alguns dias depois de sua saída do mosteiro: "Quando fui para a Trapa, entreguei-Lhe [a Deus] tudo quanto tinha e tudo quanto possuía: minha alma e meu corpo... Minha entrega foi absoluta e total. Justo é, pois, que Deus agora faça de mim o que Lhe pareça e o que Lhe agrade, sem queixa alguma de minha parte, movimento algum de rebeldia. [...] Deus não somente aceitou meu sacrifício, quando deixei o mundo, mas pediu-me maior sacrifício ainda, o de voltar a ele... Até quando? Deus tem a palavra. Ele dá a saúde, Ele a tira.6 "

Essas palavras refletem bem o espírito de obediência com o qual acolhia a prova enviada pela Providência. Um ano e meio haveria de durar aquele exílio, durante o qual seu amor a Deus não fez senão crescer e sublimar-se. Ao ingressar na Ordem Cisterciense, despojara-se de tudo, mas conservava ainda o desejo de chegar a ser um bom trapista, de se tornar sacerdote; buscava-se a si mesmo, como mais tarde afirmaria. Deus, como Pai boníssimo, educava-o de forma a purificar sua alma daquelas asperezas tão legítimas, mas ainda humanas.

Por fim, Rafael implorou ser readmitido na Trapa na qualidade de oblato, uma vez que seu estado de saúde não lhe permitia adaptar-se ao regime da vida monacal.

Em janeiro de 1936, entrou por segunda vez. Lá o esperavam novas tribulações: isolado na enfermaria, sujeito a um regime alimentício que provocava críticas dos companheiros, sofrendo incompreensões de alguns de seus superiores, Rafael sentia-se inteiramente só. Dada sua debilidade física, proibiram-lhe até de participar do cântico do Ofício na igreja. A esses sofrimentos juntavam-se terríveis tentações que lhe sugeriam a ideia de ter errado de vocação. Ele tudo enfrentava com vigor de espírito e um inalterável sorriso nos lábios.

Ainda por duas vezes a enfermidade o tiraria de sua amada abadia, mas novamente a ela voltaria, convencido de ser aquele o lugar que lhe designara a vontade divina, apesar dos obstáculos que esta mesma parecia lhe opor.


Os últimos meses de vida

Os derradeiros meses da vida de Rafael foram os últimos passos até o cimo do calvário que se propusera galgar, como o refletem os escritos dessa época, embebidos de intensa espiritualidade e amor à perfeição.

Sua alma atingia aquela indiferença recomendada por Santo Inácio, pela qual o homem nada deseja para si e deixa-se levar pelo beneplácito divino. Uma única paixão dominava- lhe o coração: Deus!

"Tudo o que faço, é por Deus. As alegrias, Ele as manda; as lágrimas, Ele as dá; o alimento, tomo-o por Ele; e quando durmo, faço-o por Ele. Minha regra é Sua vontade, e Seu desejo é minha lei; vivo porque a Ele apraz, morrerei quando Ele quiser. Nada desejo fora de Deus. [...] Quisera que o universo inteiro - com todos os planetas, os astros todos, e os inúmeros sistemas siderais - fosse uma imensa superfície lisa onde eu pudesse escrever o nome de Deus. Quisera que minha voz fosse mais potente que mil trovões, e mais forte que o ímpeto do mar, e mais terrível que o fragor dos vulcões para só dizer ‘Deus'. Quisera que meu coração fosse tão grande quanto o Céu, puro como o dos Anjos, simples como a pomba para nele ter a Deus.7 "

Entretanto, a enfermidade progredia a passos rápidos. Rafael padecia fome - o irmão enfermeiro não lhe proporcionava os alimentos que a doença exigia - e, sobretudo, sede... Uma sede insaciável e devoradora que o acompanharia até os últimos instantes. Ele, porém, nada deixava transparecer no exterior, dando a todos a impressão de encontrar-se melhor.

No fim do mês de abril já não pôde mais ocultar seu alarmante estado. Aos delírios da febre sucediam-se instantes de lucidez, durante os quais manifestava-se sereno e resignado. Recebeu a unção dos enfermos no dia 25, mas Deus pediu-lhe o sacrifício de ver-se privado do viático. Às palavras alentadoras que lhe dirigiam os monges, procurando infundir-lhe a esperança da cura, Rafael respondia estar convencido de que logo partiria para o Céu.

Faleceu na manhã do dia 26 de abril de 1938, em consequência de um coma diabético. Sua fisionomia plácida e seu sorriso refletiam a glória de que sua alma já gozava na eterna bem-aventurança.



Uma alma enamorada de Cristo

Sob o ponto de vista humano, sua curta vida parece ter sido um monumental fracasso: não completou a carreira, não se projetou na sociedade, não realizou seus sonhos de sacerdócio, nem mesmo teve o consolo de observar a regra trapista e emitir os votos.

Não foi assim aos olhos de Deus, que não julga pelas aparências, mas sim segundo o coração. Rafael praticou uma forma de santidade peculiar: sua alma enamorada de Deus atingiu a heroicidade das virtudes em meio ao silêncio, à dor e ao apagamento mais completos.

Sirva-nos seu exemplo de humildade e de caridade ardente para, também nós, aceitarmos com alegria aquilo que a Divina Vontade quiser nos mandar.

"Dei-me conta de minha vocação. Não sou religioso... não sou leigo..., nada sou... Bendito seja Deus, não sou nada mais que uma alma enamorada de Cristo. [...] Vida de amor, eis minha Regra... meu voto... Eis a única razão de viver.8 "

1) RAFAEL. Obras Completas. Preparadas por Fray Maria Alberico Feliz Carbajal. 4. ed. Burgos: Editorial Monte Carmelo, 2002, pp. 23-31.
2) Idem, ibidem, p.47.
3) Idem, ibidem, p. 92.
4) Idem, ibidem, p. 123.
5) Idem, ibidem, pp. 193-194.
6) Idem, ibidem, pp. 200-201.
7) Idem, ibidem, pp. 788 e 831-832.
8) Idem, ibidem, pp.795-796.

(Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP)



Apêndice

Voto de amar sempre a Jesus  (São Rafael Arnáiz Barón)
 “Na oração desta manhã fiz um voto. Fiz o voto de amar sempre a Jesus.

Me dei conta de minha vocação. Não sou religioso..., não sou leigo..., não sou nada... Bendito Deus, não sou nada mais que uma alma enamorada de Cristo. Ele não quer mais que meu amor, e me quer desprendido de tudo e de todos.

Virgem Maria, ajuda-me a cumprir meu voto!

Amar a Jesus, em tudo, por tudo e sempre... Só amor. Amor humilde, generoso, desprendido, mortificado, em silêncio… Que minha vida não seja mais que um ato de amor.

Bem vejo que a vontade de Deus é que não faça os votos religiosos, nem seguir a Regra de São Bento. Hei de querer, eu, o que não quer Deus?

Jesus me manda uma enfermidade incurável; é sua vontade que humilhe minha soberba ante as misérias de minha carne. Deus me envia a enfermidade. Não hei de amar tudo o que Jesus me envie?

Beijo com imenso carinho a mão bendita de Deus que dá a saúde quando quer e a tira quando Lhe apraz.

Dizia Jó, que depois recebemos com alegria os bens de Deus. Por que não havemos de receber assim também os males? Mas acaso tudo isso me impede de amar-Lhe?... Não, com loucura devo fazê-lo.

Vida de amor, eis aqui minha Regra..., meu voto... Eis aqui a única razão de viver.

Começa o ano de 1938. Que me prepara Deus nele? Não sei... Talvez não importe?... Fora ofender-Lhe tudo o mais dá no mesmo... Sou de Deus, que faça comigo o que quiser. Eu hoje Lhe ofereço um novo ano, no qual não quero que reine mais que uma vida de sacrifício, de abnegação, de desprendimento, e guiada somente pelo amor a Jesus, por um amor muito grande e muito puro.

Quisera meu Senhor, amar-Te como ninguém. Quisera passar esta vida tocando o chão somente com os pés, sem deter-me em olhar em mim tanta miséria, sem deter-me em nenhuma criatura, com o coração abrasado de amor divino e sustentado pela esperança.

Quisera, Senhor, olhar somente ao céu, onde Tu me esperas, onde está Maria, onde estão os santos e os anjos, bendizendo-Te pela eternidade e passando pelo mundo somente amando tua lei e observando teus divinos preceitos.

Ah, Senhor, quanto quisera amar-Te!.... Ajuda-me, minha Mãe!.
Hei de amar a solidão, pois Deus nela me põe.
Hei de obedecer às cegas, pois é o que Deus me ordena.
Hei de mortificar continuamente meus sentidos.
Hei de ter paciência na vida de comunidade.
Hei de exercitar-me na humildade.
Hei de fazer tudo por Deus e por Maria”.

domingo, 27 de abril de 2014

Beata Maria Antônia Bandrés y Elósegui, Virgem e Religiosa da Congregação das Filhas de Jesus


      Foi a primeira flor de santidade a desabrochar na Congregação das Filhas de Jesus fundada por Santa Cândida Maria de Jesus Cipitria em Salamanca, em 1871.
     Maria Antonia Bandrés y Elósegui nasceu em Tolosa (Guipúzcoa, Espanha), no dia 6 de maio de 1898, a segunda de 15 filhos do advogado Raimundo Bandrés e de Teresa Elósegui, em família era chamada Antoninha.

     Naquele lar a fé e a caridade eram vividas com empenho. Dona Teresa era uma mulher exemplar e santa que soube ajudar seus filhos a crescer em tudo, porém especialmente no amor a Deus, a Maria Santíssima e aos pobres e necessitados.

     A saúde de Antoninha era um pouco frágil; seus pais tiveram com ela cuidados especiais. A debilidade e o excessivo zelo dos seus parentes ajudaram a acentuar naquela menina um caráter sensível até a suscetibilidade, que nos primeiros anos chegou a preocupar Dona Teresa: “Que menina fastidiosa! Quanto vai sofrer com esse caráter”! E sofreu mesmo, porém sem que o sorriso se apagasse de seus lábios.

     Recebeu os primeiros estudos com as irmãs de seu confessor o Pe. Ilario Oscoz. Frequentou depois o Colégio das Filhas de Jesus, fundado em Salamanca em 6 de janeiro de 1874 pela Madre Cândida Maria de Jesus.

     Maria Antonia foi um admirável exemplo de virtude especialmente para seus numerosos irmãos mais novos. A família usufruía de todo conforto, mas ela sentia como suas as preocupações e as necessidades dos pobres. Assim sendo, desde muito jovem dedicou-se a um trabalho voluntário nos subúrbios de Tolosa, e ao trabalho social e de evangelização junto aos operários, bastante raro naqueles dias.


Santa Cândida Maria e beata Maria Antônia, a funda-
dora e sua filha espiritual. Foram
 beatificadas  no mesmo dia. 
     Em 1913, durante um retiro em Loyola, ela se lembrou do que alguns anos antes Madre Cândida lhe havia dito: “Tu serás Filha de Jesus” e, em seguida, tomou a decisão de ser integral e inteiramente de Nosso Senhor.

     Ingressou na Congregação das Filhas de Jesus no dia 8 de dezembro de 1915 aos 17 anos e em 31 de maio de 1918 fez os votos religiosos em Salamanca. Antoninha sentia um profundo amor por seus pais e irmãos, e ao ingressar no noviciado separar-se deles lhe custou muito, por isto ouviram-na dizer: “Só por Deus eu os deixei”.

     Pouco tempo depois a sua saúde, que já não era boa, começou a enfraquecer ainda mais. As várias biografias não dizem qual era a doença, mas logo se soube que era inexorável.

     A evolução do mal foi acompanhada pelo Dr. Filiberto Villalobos, que confessou ficar “comovido por aquela serenidade de espírito e por aquela fé que a faziam tão feliz em suas últimas horas de vida”.

     Segundo seu depoimento, o médico confidenciou suas impressões a dois amigos intelectuais agnósticos, exclamando: “Quão errada é nossa vida! Isto sim que é morrer”, provocando na mente daqueles homens um impacto emocional vendo Maria Antonia morrer, na idade de apenas 21 anos, com a certeza de quem “sabe para onde vai".

     Poucos meses antes, movida por um impulso do Espírito Santo, Irmã Maria Antonia havia oferecido sua vida pela salvação de seu tio, padrinho de batismo, que começou a trilhar um mau caminho. Ele havia manifestado desacordo quando ela entrou no noviciado, por ter uma postura agnóstica. Entretanto, esse tio, entendendo a espiritualidade da sobrinha, num momento de graça voltou ao bom caminho.

     Irmã Maria Antonia faleceu no dia 27 de abril de 1919, em Salamanca, dia da festa de Nossa Senhora de Montserrat, um ano depois de sua profissão.  Ela morreu invocando Maria, Mãe de Misericórdia. Nos últimos instantes, foram-lhe concedidas graças de paz e de consolação. Ela exclamou: “Isto é morrer? Que doce é morrer na vida religiosa! Sinto que a Virgem está a meu lado, que Jesus me ama e eu O amo”...

     Ela foi beatificada em 12 de maio de 1996 juntamente com a Fundadora, Madre Cândida Maria de Jesus. Sua celebração litúrgica é 27 de abril.