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sábado, 19 de abril de 2014

SÃO JOSÉ MOSCATI, o Médico Santo.


São José Moscati, o médico santo
Quem é São José Moscati?

Paulo VI, o Papa que o beatificou:
"Quem é este que se nos propõe para que todos o imitemos e veneremos”?
É um leigo que fêz de sua vida uma missão vivida em plena autenticidade evangélica...
É um professor universitário que deixou entre seus alunos uma marca de profunda admiração...
É um homem de ciência célebre pela sua contribuíção científica a nível internacional... Sua existência é simplesmente tudo isto...

João Paulo II, o Papa que o canonizou:
“O homem que a partir de hoje nós invocaremos como um Santo da Igreja universal representa para nós a realização concreta do leigo cristão”.
José Moscati, Médico diretor de clínica, pesquisador famoso no domínio científico, professor universitário de fisiologia humana e de química fisiológica, tomou suas múltiplas atividades com todo o engajamento que necessita a delicada profissão de leigo.
Sob este ponto de vista Moscati é um exemplo não somente a ser admirado mas a ser seguido, sobretudo pelos representantes sanitários. Ele representa um exemplo até para os que não partilham de sua fé."


 Os Pais

A família Moscati provém de Santa Lucia de Serino, pequena região na província de Avellino.
Em S. Lucia de Serino, em 1836, nasceu Francisco, o pai do futuro Santo, que se diplomou em jurisprudência e percorreu brilhantemente a carreira da magistratura.
Foi juiz do Tribunal de Cassino, Presidente do Tribunal de Benevento, Conselheiro da Corte de Apelo, primeiro em Ancona e depois em Nápoles, onde faleceu em 21 de Dezembro de 1897.
Em Cassino Francisco Moscati conheceu e esposou Rosa de Luca. Do matrimônio nasceram nove filhos: José foi o sétimo.
Assim viveu o pai do Santo, todo ano conduzia a esposa e os filhos a terra natal, para um período de repouso e para estar em contato com a natureza. Se dirigiam juntos à igreja das Clarissas, para participar da Missa, que freqüentemente o próprio Francisco servia.
Em duas cartas S. José Moscati faz referência a terra natal. A primeira é de 20 de Julho de 1923, escrita durante sua viagem à França e Inglaterra:
“Às 14.20 horas partimos para Modane, para a França. [...] Atravessamos os vales fechados de montes recobertos de castanheiras (Borgonha). Aqui e lá o nastro prateado dos rios: como é simples esta paisagem como aquela inesquecível de Serino, o único lugar ao mundo, a Irpinia, onde com prazer passarei os meus dias, porque encerra as mais importantes, as mais doces memórias da minha infância, e os restos mortais dos meus queridos”!
A segunda carta foi escrita em 19 de Janeiro de 1924, depois de ter presenciado a morte de um tio seu:
“O fim de tio Carmelo é o abalo de tantas recordações queridas ligadas à sua pessoa. Oh, as doces memórias da infância, dos montes de Serino! Assim como as pessoas da terra de meu pai me estão plantadas no coração indelével; e a desilusão de mais: Precipita a parte romântica da minha personalidade. E mais me sinto só, só e próximo a Deus”!


 Benevento, cidade natal do santo

José Moscati nasceu em Benevento em 25 de Julho de 1880, festa litúrgica de S. Tiago Maior Apóstolo. A família mudou-se para lá de Cassino em 1877, quando Francisco Moscati foi promovido Presidente do Tribunal, tomando morandia na Rua S.Diodato, nos arredores do hospital dos irmãos de caridade.
Poucos meses depois foram morar em um apartamento da Rua Porta Áurea, próximo ao Arco de Trajano, construído em honra do Imperador em 114 d.C. No palácio Andreotti, comprado depois da família Leo, nasceu José, no último quarto à esquerda. Se tem acesso ao apartamento através de um amplo portal que vai a um pátio ao qual parte uma grande escada de pedra. Uma lápide ao lado do portão de entrada recorda o acontecimento.
Na Catedral de Benevento, na capela do SS. Sacramento, se pode admirar a estátua de mármore de S. José Moscati, obra de P. Mazzei de Pietrasanta.
Em 03 de Setembro de 1860, após cerca de oito séculos de governo pontifício, Benevento era anexada ao Reino da Itália.
O último Delegado Apostólico, Mons. Eduardo Agnelli, ao deixar a cidade havia recebido honra das armas dos soldados do novo regime. A cidade mudava de vida e entrava na ordem territorial da nação italiana.
“Segundo o esquema político piemontês foram desapropriados os conventos, expulsos os religiosos, violados os arquivos, deturpadas ou destruídas as linhas arquitetônicas dos antigos edifícios. Alguns esperavam coisas novas e interessantes. Outros temiam... O clã maçônico, importado da zona limítrofe, então também teve seu tempo favorável”.
À chegada da família Moscati, [...] em Benevento os ardores eram em boa parte às escondidas". (Lauro Maio, S.Giuseppe Moscati e Benevento sua città natale, Benevento 1987, p.13).


Formação humana e cristã

José Moscati nasceu em Benevento no dia 25 de Julho de 1880. Filho de Francisco, Presidente do Tribunal de Benevento e de Rosa de Luca, dos Marqueses de Roseto. José era o sétimo de nove filhos.
Ele foi batizado em casa seis dias após o nascimento, no dia 31 de Julho de 1880, festa de santo Inácio de Loiola, por Dom Inocente Maio.
Em 1881, seu pai foi promovido conselheiro na Corte de Apelação e se transfere para Ancona com sua família. Em 1884, ele se muda para Nápoles como Presidente da Corte de Apelação.
O pequeno José fez seu primeiro encontro com Jesus Eucarístico, no dia 08 de Dezembro de 1888, na igreja das Servas do Sagrado Coração (Ancelle del Sacro Cuore) de Nápoles, durante uma cerimônia celebrada por Monsenhor Henrique Marano. Não possuímos outras informações sobre este acontecimento, mas podemos dizer que foi neste dia que foram lançadas as bases de sua vida eucarística, que será um dos segredos da santidade do professor Moscati.
Após os estudos primários, José Moscati entra no Liceu Clássico, instituto Vittorio-Emanuele, no qual ele prestará o vestibular em 1897.
Dois meses após ter iniciado seus estudos de Medicina, o jovem Moscati é atingido por um grande luto, que o marcará profundamente: seu pai Francisco, em seguida a uma hemorragia cerebral, morrerá dois dias mais tarde, no dia 21 de Dezembro de 1897, após ter recebido os últimos sacramentos.
No ambiente universitário, Moscati se distinguirá pelo seu cuidado e empenho e no dia 4 de Agosto de 1903, obterá seu Doutorado de Medicina, com uma tese sobre a urogenese hepática, e obterá louvores.


Universidade e Hospital

Após a obtenção do Doutorado em Medicina, a universidade e o hospital se tornarão o campo de atividade do jovem médico. Logo ele passará um concurso de Colaborador Extraordinário no Hospital dos Incuráveis (1903) e um outro de Assistente no Instituto de Química Psicológica (1908), onde ele logo ganhará muitas marcas de admiração e de prestígio no domínio científico.
Um novo luto, no dia 13 de Junho de 1904, atinge Moscati, seu irmão Alberto morre, o qual sofria de epilepsia após uma queda de cavalo durante uma parada militar em 1892.
José tinha o hábito de passar várias horas junto a ele para tratá-lo. É à cabeceira de seu irmão que ele decidirá seguir os estudos de medicina, caso único em sua família e objeto de discussões.
Em 1906, erupção do Vesúvio, Moscati se distinguirá pelos seus trabalhos de socorro. Na Torre del Greco (perto de Nápoles), ele providenciará a evacuação do hospital de onde ele próprio ajudará os doentes a sair antes do desabamento do teto.
Dois dias mais tarde ele mandará uma carta ao diretor geral dos Hospitais Reunidos de Nápoles, propondo gratificar as pessoas que o ajudaram, mas insistirá muito para que não citem o seu nome.
Em 1911, com 31 anos, o doutor Moscati é aprovado no concurso de Colaborador ordinário dos Hospitais Reunidos. Era um concurso muito importante que não era realizado desde 1880 e do qual participam médicos vindos de todas as partes.
No mesmo ano, pela iniciativa de Antônio Cardarelli, a Academia Real de Medicina Cirúrgica o nomeará Membro participante e o Ministério de Educação Pública lhe atribuirá o Doutorado em Química Fisiológica.
“Lembrem-se que, ao optar pela medicina, vocês tomaram a responsabilidade de uma missão sublime. Com Deus no coração, perseverem, praticando os ensinamentos de seus pais, o amor e a compaixão pelos que sofrem e com uma fé e um entusiasmo surdos aos elogios e às críticas”. 
(carta enviada ao doutor Giuseppe Biondi; 1 de Setembro de 1921)


No final do ano de 1914, Rosa, a mãe do professor Moscati, atingida pela diabete, vê a sua doença, ainda incurável por então, se agravar. Moscati foi um dos primeiros médicos em Nápoles, a experimentar a insulina. Sua mãe morre no dia 25 de Novembro de 1914.
Antes de expirar, após ter recebido com muita devoção os últimos sacramentos, ela dirá aos seus filhos que se ajuntam em torno a ela: “Meus filhos, morro contente. Fujam do pecado que é o maior mal da vida”.
No dia 24 de Maio de 1915, a Itália entra no conflito mundial; o professor Moscati apresenta o pedido de alistamento voluntário, entretanto ele não será aceito. As autoridades militares confiarão os feridos aos seus cuidados. Ele visitará e cuidará de aproximadamente 3.000 militares, pelos quais ele redigirá um diário e suas histórias clínicas. Moscati foi para eles não somente o médico, mas também o consolador atencioso e afetuoso.
Nos anos que se seguirão, o professor Moscati renunciará à cadeira de Química Fisiológica da Universidade Frederico II de Nápoles. Será seu amigo e compadre, o professor Quagliarello, designado pelo próprio Moscati como alternativa, a se beneficiar disto.
Mais tarde, o professor Quagliarello se tornará Reitor desta universidade. É ele que, com grande humildade, nos fornecerá estas informações e declarará muito justamente: “Quantos gestos de generosidade deste gênero ele não fez? Só o Bom Deus o sabe, pois muito frequentemente, os próprios beneficiários não estavam ao par”.


 Escolha Definitiva Pelo Trabalho Hospitalar

Após esta decisão, tomada conscientemente, o professor Moscati se orienta definitivamente em direção do trabalho hospitalar, onde ele empregará todo seu tempo, sua experiência e seus recursos. As doenças e misérias físicas e espirituais estarão sempre no primeiro lugar de suas preocupações, pois os doentes - ele dirá – “são a imagem de Jesus Cristo, almas imortais, divinas, que temos o dever urgente de amar como a nós mesmos, segundo o Evangelho”.
São estas as convicções que Moscati manifesta nos seus escritos, principalmente quando ele se dirige aos seus colegas, lembrando-lhes que “a dor não deve ser tratada como uma vacilação ou uma contração muscular, mas, como o grito de uma alma ao qual um outro irmão, o médico, acorre com ardor e caridade”.
O renome de Moscati como professor e médico aumentava com a sua fama. Todos falavam de suas aulas, de suas qualidades de discernimento, de seu trabalho com os doentes. O conselho de administração o nomeará Diretor da Sala III dos Homens. Era em 1919.

 Médico Diretor do Instituto de Anatomia Patológica

Além de seu intenso trabalho entre a Universidade e o Hospital o professor Moscati assegurava também a direção do Instituto de Anatomia Patológica, anteriormente dirigido por Luciano Armanni, mas em seguida descuidado por falta de atenção.
“Mas a vida não acaba com a morte, ela continua num mundo melhor. Foi a todos prometido, após a rendenção do mundo, que chegará o dia que nos reunirá aos nossos seres queridos já falecidos, e que nos levará ao Amor supremo” (carta a Mr Mariconda, de 27 de Fevereiro de 1919).
De acordo com o professor Quagliarello ele se tornará logo "um mestre em autópsias". O professor Rafael Rossiello, que estudou a fundo e com competência a anatomia patológica de São josé Moscati, afirma que após sua morte, nem as revista sanitárias, nem os que se lembravam dele em seus discursos, nem as numerosas biografias revelaram “sua atividade de mestre do setor e diretor do Instituto de Anatomia e Histologia Patológica Luciano Armanni”.

Por outro lado a descoberta - pelo doutor Renato Guerrieri - médico diretor do hospital dos incuráveis, de um registro de autópsias efetuadas por Moscati no período - indo de 25 de Dezembro de 1925 a 9 de Fevereiro de 1927 - nos mostra de novo o aspecto quase desconhecido da personalidade complexa de josé Moscati no domínio médico e científico.
Luciano Armanni fizera gravar esta frase na entrada da sala de anatomia: “Hic est locus ubi mors gaudet succurrere vitae” ("Aqui a morte está contente de ajudar a vida"). "Mas na sala - escreve o professor Nicola Donadio - não havia nenhum traço de religião. O aposento era austero mas vazio, exatamente como em todos os lugares dominados pelo materialismo.
O professor Moscati teve uma idéia e a realizou, a de colocar muito alto na parede da sala, de modo que pudesse dominar o aposento, um crucifixo com uma inscrição que não poderia ser melhor: “Ero mors tua, o mors” (citação do profeta Oséia, 13. 14: Oh morte, eu serei a tua morte").
As autópsias realizadas por Moscati eram uma lição de vida.

Relato de um aluno de Moscati: o doutor André Piro
“Um dia, enquanto estávamos visitando os doentes, fomos convidados a ir à sala das autópsias; ficamos surpresos, não podendo entender este convite, pois neste dia não havia nenhuma autópsia a ser feita. O professor Moscati, que nos tinha convidado, já tinha se dirigido à sala e nos apressamos em segui-lo. Sobre a mesa anatômica não havia nada e os que nos tinham precedido estavam olhando a parede, no alto da qual podia-se admirar um Crucifixo com uma inscrição "Ero mors tua, o mors" que o Professor fizera dependurar. Tínhamos sidos convidados a prestar homenagem ao Cristo, à Vida que voltava a este lugar de morte após uma ausência bem longa”.

 Médico Diretor da Ala III Masculina, no Hospital dos Incuráveis

Em 1919 ele foi nomeado oficialmente Médico Diretor da Ala Masculina, pela Administração do Hospital. De acordo com as avaliações sobre o trabalho de Moscati e as alusões à sua nova posição constatamos que esta última promoção foi uma grande alegria para todos: seus amigos, seus assistentes e alunos.
A reputação de Moscati como mestre e médico era indiscutível. Todo mundo exaltava suas aulas, seus diagnósticos e seu trabalho entre os doentes.
“O médico está numa posição privilegiada, pois frequentemente ele se encontra em presença de almas que - apesar de erros cometidos - estão capitulando e voltando aos princípios heréticos dos ancestrais e estão ansiosos em serem reconfortados pois estão arrasados pelas dores. Bem aventurado o médico, que pode compreender o mistério destes corações e inflamá-los de novo”.
(carta enviada ao doutor Onófrio Nastri de Amalfi (SA), no dia 8 de Março de 1925)


Ninguém mais do que ele podia aspirar a este posto e ninguém era mais qualificado do que ele para recebê-la. Também ele estava contente, mas como sempre para ele, a satisfação humana não estava separada da satisfação espiritual que apenas passava pelos fatos contingentes e tomava raízes por motivações muito mais elevadas e nobres.
No hospital os sucessos não lhe diziam respeito mas concerniam exclusivamente os doentes pelos quais ele se empenhava e trabalhava com afinco. É o que se apreende de uma carta escrita no dia 26 de Julho de 1919 dirigida ao Senador G.D'Andrea - Presidente dos Hospitais Reunidos de Nápoles.
Agradeço vivamente Vossa Senhoria e o Conselho de Administração pela promoção de Médico diretor de Sala, que acaba de me ser concedida.
Desde minha infância, via com interesse o hospital dos Incuráveis, que meu pai me mostrava com o dedo e este lugar me inspirava sentimentos de compaixão por causa da dor sem nome, aliviada no interior destas paredes.
Levado por profunda emoção eu começava a refletir sobre a renovação periódica do mundo e as ilusões se iam como se fossem as flores das laranjeiras que caíam em volta de mim.
Nesta época, eu me consagrava aos estudos de Letras e não imaginava e nem sonhava que um dia neste edifício branco - onde mal se viam atrás dos vitrais os doentes hospitalizados como se fossem fantasmas brancos - eu subiria ao escalão mais elevado da medicina.
Vou tentar, graças a Deus, e com minhas módicas forças, de responder à confiança que me foi concedida e de colaborar na reconstrução econômica dos velhos hospitais de Nápoles nestes tempos tão miseráveis”.

A Morte Repentina

No dia 12 de Abril de 1927, Terça-Feira Santa, o professor Moscati, depois de ter participado da missa, como todos os dias, e de ter recebido a comunhão, passou a manhã no hospital, depois voltou para casa e após uma refeição, como de hábito, ele se ocupou dos pacientes que vinham consultá-lo em casa.
Por volta das 15 horas, ele teve um mal-estar e se sentou no seu sofá, pouco depois ele cruzou os braços e expirou serenamente. Ele tinha 46 anos e 8 meses.
A notícia de sua morte se espalhou imediatamente e a dor foi unânime. Os pobres principalmente o prantearam sinceramente pois eles tinham perdido o seu benfeitor.


 Traslado do corpo para a igreja do "Gesù Nuovo"

O corpo foi enterrado no cemitério de Poggioreale. Mas três anos mais tarde, no dia 16 de Novembro de 1930, por insistência de várias personalidades do clero e de leigos, o arcebispo de Nápoles, cardeal Alessio Ascalesi, permitiu o traslado do corpo do cemitério para a igreja do Gesù Nuovo, entre uma dupla fileira de pessoas.
É Nina Moscati, a irmã do professor, que nesta ocasião será a mais feliz de todos, pois ela sempre esteve perto de seu irmão para encorajá-lo e apoiá-lo na prática de caridade e será ela quem, após a morte, doará à igreja todos os pertences pessoais de Moscati assim como os móveis e objetos.
O corpo foi deposto numa sala atrás do altar de São Francisco Xavier, e hoje uma pedra de mármore, colocada à direita deste altar, lembra-o ainda.


 A Beatificação (Paulo VI)

A grande estima e a consideração que já em vida cercavam o professor Moscati cresceram após a sua morte, e logo a dor e as lágrimas dos que o conheceram e amaram se tornaram em alegria, entusiasmo e reza. Rogava-se por ele para tudo.
Enquanto isto, instruiu-se o processo para o exame de dois milagres: duas curas atribuídas ao Servo de Deus.

Neste dia, na praça de São Pedro, apesar de uma chuva que cairá várias vezes, uma grande multidão de fiéis seguirá com viva emoção até o fim o rito sagrado.
No dia 16 de Novembro de 1975, o papa Paulo VI proclama José Moscati como Bem-Aventurado, durante uma celebração solene na basílica de São Pedro em Roma.

 A Canonização (João Paulo II)

Em 1977, dois anos após a Beatificação, houve o reconhecimento canônico do corpo: recompôs-se o esqueleto de Moscati e depuseram-no num relicário de bronze feito pelo professor Amadeu Garufi e em seguida colocado sob o altar da Visitação.
A devoção a Moscati vai aumentando cada dia mais. As graças obtidas por sua intercessão são cada dia mais numerosas. Com vistas à canonização, será examinada a cura da leucemia mielóide aguda mielobástica, do jovem José Montefusco, que aconteceu em 1979.
Traslado do corpo para a igreja do Gesù Nuovo - 16 de Novembro de 1930
Finalmente, após longos exames, durante o consistório de 28 de Abril de 1987, o Papa João Paulo II fixa a data da canonização para o dia 25 de Outubro do mesmo ano 1987.
De 1 a 30 de Outubro, em Roma, se desenrolava a VII assembléia do Sínodo dos Bispos, cujo tema era: "Vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, 20 anos após o Concílio Vaticano II".
No dia 25 de Outubro de 1987, às 10 horas da manhã, na praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II, em presença de 100.000 pessoas, proclama e admite oficialmente José Moscati no número dos Santos (60 anos após sua morte).
Não poderia haver melhor coincidência: José Moscati era um leigo que tinha cumprido sua missão na Igreja e no mundo. Sua canonização era muito desejada e esperada por todos: estudantes, universitários e médicos, que tinham conhecido o médico Moscati como um homem de grande fé e de grande caridade, que assistia e aliviava os sofrimentos de seus doentes, mas que principalmente, levava-os a Deus.
Sua festa litúrgica será fixada para o dia 16 de Novembro.


Túmulo onde estão os restos mortais do santo. 

Estátua de São José Moscati em igreja. 

Santinho com relíquia de São José Moscati. 




PENSAMENTOS DE SÃO JOSÉ MOSCATI
A vida é um piscar de olho: honras, triunfos, riquezas e ciências tombam, diante da realização do grito do Gênesis, do grito lançado por Deus contra o homem culpado: tu morrerás!
Mas a vida não acaba com a morte, continua com um jeito melhor. Para todos é prometido, após a redenção do mundo, o dia que nos reunirá a nossos entes falecidos, e que nos reconduzirá ao supremo Amor!" [De carta ao advogado Mariconda, que perdeu a irmã. 27 de fevereiro 1919]

 "Mas a vida foi definida um relâmpago no eterno. E nossa humanidade, por mérito da dor que a recheia, e da qual se saciou Aquele que vestiu nossa carne, transcende a matéria e nos leva desejar uma felicidade além do mundo. Bem-aventurados aqueles que seguem essa tendência da consciência, e olham para o além, onde os afetos terrenos, que pareciam precocemente quebrados, serão reunidos". [Da carta à Senhorita Carlotta Petravella, que perdeu a mãe. 20 de janeiro 1920]

 "Lembras que, seguindo a medicina, assumiste a responsabilidade de uma sublime missão. Persevera, com Deus no coração, com os ensinamentos de teu pai e de tua mãe sempre na memória, com amor e piedade para os derrelitos, com fé e entusiasmo, surdo aos elogios e críticas, impassível à inveja, disposto só ao bem" [Da carta ao Dr. Giuseppe Biondi, 4 de setembro 1921]
 "Seja o que for, lembra duas coisas: Deus não abandona ninguém. Quanto mais te sentires só, ignorado, vilipendiado, incompreendido e quando pensares sucumbir ao peso de uma grave injustiça, terás a sensação de uma força infinita e arcana, que te tornará capaz de propósitos bons e viris, de cuja potência te maravilharás, quando tornares sereno. E esta força é Deus!" [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino, 6 de outubro 1921]

 "Os doentes são as imagens de Jesus Cristo. Muitos malvados, delinqüentes, blasfemadores, acabam de chegar ao hospital por disposição da misericórdia de Deus, que os quer salvos! Nos hospitais a missão das irmãs, médicos, enfermeiros, é de colaborar a esta infinita misericórdia, ajudando, perdoando, e se sacrificando." [Folhinha escrita por Moscati, com data de 17 de janeiro de 1922, e encontrada num livro após sua morte]

  "Mesmo longe, não deixes de cultivar e rever cada dia teus conhecimentos. O progresso fica numa contínua critica de quanto aprendemos. Uma só ciência é inabalável e imutável, aquela revelada por Deus, a ciência do além!. Em todas suas obras, olhe para o Céu e à eternidade da vida e da alma, e teu rumo será bem diferente de como seria sugerido pelas puras considerações humanas, e tua atividade será inspirada ao bem". [Da carta ao Dr. Consoli, aluno de Moscati, que devia deixar Nápoles. 22 de julho 1922]

 "Meu Jesus, amor! Teu amor me torna sublime; teu amor me santifica, me leva não a uma criatura só, mas a todas as criaturas, à infinita beleza de todos os seres, criados à tua imagem e semelhança!" [Oração escrita por Moscati, de 5 de junho de 1922, encontrada pela irmã Nina]

 "Não a ciência, mas a caridade transformou o mundo, em algumas épocas; somente poucas pessoas passaram à história por causa da ciência; mas todos poderão ficar eternos, símbolo da eternidade da vida, em que a morte é só uma etapa, uma metamorfose para uma ascensão maior, se dedicarem-se ao bem.

"Sempre está vivo no meu coração a amargura por saber-te longe; e somente me conforta a esperança que tu tenhas guardado em ti algo de mim; não porque vale nada, mas por aquele conteúdo espiritual que me esforcei de guardar e difundir ao meu redor: tarefa sublime, mas tão inatingível pelas minhas pobres forças"! [Da carta ao Dr. Antonio Guerricchio, 22 de julho 1922]

 "Ama a verdade; mostra-te qual és, sem ficções, medos e precauções. Se a vida te custar perseguição, aceita-a; e se for o tormento, suporta-o. E se para a verdade precisares sacrificar a ti mesmo e tua vida, seja forte no sacrifício." [Bilhete escrito no 17 de outubro 1922, por Giuseppe Moscati]

 Lembra que viver é missão, é dever, é dor! Cada um de nós deve ter seu lugar de combate...
Lembra de te preocupar não só do corpo, mas também das almas que gemem, que te procuram. Quantas dores saberás aliviar mais facilmente com o conselho, e descendo ao espírito, mais do que as frias receitas a ser entregues para o farmacêutico! Se alegre, porque grande será sua recompensa; mas precisa dar exemplo de tua elevação a Deus para aqueles que te rodeiam". [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino. Ascensão 1923]

 "Acreditei que todos os jovens merecedores, encaminhados entre as esperanças, sacrifícios, anseios de suas famílias, à via da medicina nobilíssima, tivessem o direito a se aperfeiçoarem, lendo um livro que não foi imprimido preto no branco, mas que por capa tem as camas hospitalares e as salas de laboratório, e por conteúdo a dolorida carne dos homens e o material científico, livro que precisa ser lido com infinito amor e grande sacrifício ao próximo.
Pensei que fosse uma dívida de consciência instruir os jovens, aborrecendo o costume de guardar com mistério ciumento o fruto da própria experiência, mas revela-lo a eles..." [Da carta ao Prof. Francesco Pentimalli. 11 de setembro 1923]

 "Todos os jovens deveriam compreender que na prática da continência está o melhor modo de se prevenir da maior doença transmissível... Tendo seu espírito e seu coração longe da imoralidade, com um exercício de renúncia e de sacrifício, deveriam jurar de conceder sua maturidade e sanidade sexual somente ao ser unicamente amado." [Do prefácio de G. Moscati a um livro de Giuseppe De Giovanni s.j. e do Prof. Mario Mazzeo, com o título: L’eugenica. 1925]

 "Tenho aqui na mesinha, entre as primeiras flores da primavera, o retrato de tua filha, e paro, enquanto escrevo, a meditar sobre a caducidade das coisas humanas. Beldade, todo encanto da vida passa... Fica eterno só o amor, causa de toda obra boa, que sobrevive a nós, que é esperança e religião, porque o amor é Deus.
Satanás tentou poluir também o amor terreno, mas Deus o purificou pela morte. Grandiosa morte que não é fim, mas princípio do sublime e do divino, diante dele estas flores e beleza são nada! Teu anjo, tirado em seus verdes anos, como sua dileta amiga, encontrada nos últimos dias, a bem-aventurada Teresa, do céu protege a ti e a sua mãe”...
[Da carta ao Escrivão De Magistris, cuja jovem filha faleceu. 7 de março 1924. * José Moscati era muito devoto à então bem aventurada Teresa do Menino Jesus (S. Teresa de Lisieux). Fale dela em algumas suas cartas e tinha em seu quarto uma sua imagem. Sobre isso pode-se ler o artigo de Giuseppe Samà s.j.: S. Teresa de Lisieux e S. José Moscati, dois grandes santos de nosso tempo.]

 "Esta noite li a sua tese. Foi um grande sucesso... A comissão toda aplaudiu. Veja que quem não abandona Deus, terá sempre um guia na vida, segura e reta. Não prevalecerão desvios, paixões contra aquele que do trabalho e da ciência – dos quais Initium est timor Domini – fez seu ideal." [Da carta ao Dr. Francesco Pansini. 10 de março 1926]

"Que a matéria seja animada por muitíssimas e profundas energias que a envolvem em suas atividades e na progressiva complexidade de suas formas, nada se opõe a acolher, mas precisa também lembrar que este princípio de espiritualidade... esta ordem maravilhosa, que se organiza na matéria até alcançar os mais altos topos de sua elaborada organização, não seja outra coisa que o atestado de um Deus absconditus que regula com suprema inteligência este soberbo edifício sobre o qual se eleva a vida, vida que acontece por causa das leis da Alta Sabedoria que tudo move; ainda mais maravilhosas quando elas governam não somente os cosmos colossais, mas também a mais delicada trama do mais microscópico elemento." [Pensamento de Moscati referido pelo Prof. Pietro Castellino após a morte do Santo]

 "A necessidade de eternizar no mármore e no bronze as grandes figuras falecidas, e celebrar sua obra, demonstra que o pensamento e o espírito humano são eternos.
Abaixo de cada cruz e cada haste deste cemitério, onde parece que haja só ossos inermes e pó, há a lembrança de um coração que viveu do amor infinito e sofreu uma imensa dor; tem a sede de um espírito que não pode ficar extinguido." [Palavras de Moscati para a dedicação de um busto a Giovanni Paladino, no cemitério de Poggioreale]

 "Amamos a Deus sem medida, quer dizer, sem medida na dor e sem medida no amor... Coloquemos todo nosso afeto, não somente nas coisas que Deus quer, mas na vontade do mesmo Deus que as determina." [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo]


 "Exercitemo-nos quotidianamente na caridade. Deus é caridade: quem está na caridade está em Deus e Deus está nele. Não esqueçamos de fazer cada dia, aliás, cada instante, oferenda de nossas ações a Deus, cumprindo tudo por amor a ele." [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo]

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Beata Savina Petrilli, Virgem e Fundadora (Congregação das Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Sena)


Beata Savina Petrilli, Virg
Nasceu em Siena em 29 de agosto de 1851, segunda filha de Celso e Matilde Venturini. Aos 15 anos se inscreveu na Congregação das Filhas de Maria e é rapidamente eleita presidente. Dentro de um ano fez o seu primeiro voto de virgindade. Em 1869 é recebida pelo Papa Pio IX que a exorta a seguir a norma de Santa Catarina de Siena. Em 15 de agosto de 1873 na capelinha da casa, junto com outras cinco companheiras, ela profere os votos de pobreza, obediência e castidade, na presença do confessor e com a aprovação do Monsenhor Enrico Bindi, que concede a primeira licença para iniciar uma obra em beneficio dos pobres.  



A nova família religiosa recebe o nome de Congregação das Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Sena. Em 1881 Madre Savina inicia a fundação do Convento em Viterbo e em 1903 a primeira missão em Belém, no Brasil. A Constituição da Congregação, já enviada ao pontífice, é aprovada em 17 de junho de 1906.
Sucessivamente Madre Savina toma o voto de “não negar voluntariamente ao Senhor”, o voto de “perfeita obediência” e ao Diretor Espiritual o voto de “não lamentar-se deliberadamente de nenhum sofrimento externo e interno” e o voto de “completo abandono à vontade do Senhor”.
Savina Petrilli faleceu às 17h20min do dia 18 de abril de 1923.

Com 25 casas na Itália, a Congregação opera no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Filipinas e Paraguai. O carisma transmitido pela Madre Savina e a sua vontade de viver radicalmente para o sacerdócio de Cristo na adoração total e na total dependência da vontade do Senhor, faz como centro de sua via a Eucaristia, continuar a missão de Cristo, o serviço da evangelização, promover a fraternidade e ajudar o próximo, em especial aos pobres. Pela visão de Madre Savina, a pobreza é um Sacramento de Cristo e pode ser considerado com mistério da fé tal qual a Eucaristia.
Assim a Congregação está sempre a serviço da pobreza e de todos que sofrem e são oprimidos.

O Papa João Paulo II a proclamou Beata na Praça de São Pedro, em 24 de abril de 1988.




Beata Maria da Encarnação (Bárbara Avrillot Acarie), Viúva e Carmelita Descalça


A beata Maria da Encarnação é considerada a “mãe e fundadora do Carmelo na França”, porque ela ajudou a espalhar por toda a França a reforma carmelita de Santa Teresa de Ávila.
Nasceu em Paris, em 01 de fevereiro de 1566 e recebeu o nome de Bárbara Avrillot, filha do  senhor de Champlatreux, Nicolau Avrillot.
Era costume para a nobreza de sua época, confiar a educação de meninas ou adolescentes a congregações religiosas femininas. Nossa beata foi confiada na adolescência às Irmãs Menores de Nossa Senhora da Humildade, residentes de Longchamp. Retornou à sua família aos 14 anos. O desejo de fazer-se religiosa não foi autorizado por sua família. Aos 16 anos foi desposada pelo visconde Villemor, Pedro Acarie, homem de moral irrepreensível. Começou sua vida de casada e mãe, tendo seis filhos.
Deu singular exemplo de virtude cristã, de vida de oração e de contemplação, cumprindo fielmente os mandamentos e a vontade de Deus em seu lar, como mãe e esposa, cumprindo todos os deveres cristãos e religiosos, vivendo santamente em sua própria casa, tratando com respeito e caridade aos seus funcionários, dando provas de como os casais cristãos podem santificar sua vida doméstica. Soube galgar as alturas místicas, embora vivendo em meio aos cuidados e afazeres domésticos.
Trabalhou ativamente para ajudar os necessitados, especialmente no cerco de Paris, em 1590, com a intervenção militar dos espanhóis, no reinado de Henrique IV. Foi dedicada filha da Igreja e participou da ação de oposição contra a heresia protestante que procurava se estender na França. Por essa época, Deus a favoreceu com extraordinárias graças místicas.

O rei Henrique IV baniu seu marido de Paris, após a derrota da Liga à qual pertencia. Essa ingratidão do rei lhe feriu o coração, mas, ela lutou para assegurar que o seu marido fosse reabilitado. Essa luta durou quatro anos, porém, no final desse período, sua família recuperou sua honra e as propriedades foram devolvidas. 

A beata Maria da Encarnação conheceu são Francisco de Sales, que a apreciava muito e a tinha em grande conta e atuou como seu confessor e diretor espiritual. Em 1601, leu os escritos de santa Teresa de Jesus e passou a desejar, determinadamente, a fazer todo o possível para apresentar a reforma do Carmelo na França. Em 1602, surgiram as primeiras vocações. Ela obteve permissão do rei, e, em 1603, o papa Clemente VIII autorizou a primeira fundação que rapidamente foi concretizada.
Da Espanha, em 29 de agosto de 1604, vieram seis carmelitas descalças, incluindo a futura beata Ana de São Bartolomeu e a futura venerável serva de Deus Ana de Jesus. Em 17 de outubro do mesmo ano, em Paris, deu-se início ao modo de vida teresiano no mosteiro recém construído.
Bárbara Avrillot teve a felicidade de ver entrar no Carmelo todos as três filhas e viu a Ordem expandir-se também para Pontoise, Dijon e Amiens, entre 1605 a 1606. Em 1613, seu marido Pedro ficou gravemente doente e morreu depois de nove dias, na paz dos homens justos, assistida pela santa esposa e confortado por uma confirmação celeste de sua salvação eterna.


Em 07 de abril de 1614, agora livre de qualquer obrigação do mundo, entrou no Carmelo de Amiens como uma simples “irmã conversa” (equivalente quase a uma “serva das irmãs”), de véu branco, com o nome de Maria da Encarnação. Ela viveu sua vida de reclusão, com humildade, trabalhando na cozinha e auxiliando as irmãs doentes. Sofreu especialmente com o modo áspero com o qual era tratada por uma nova priora advinda de outro Carmelo. Tinha muitos êxtases e visões que a confortaram em sua longa doença. Sofrendo más condições de saúde, foi transferida para o Carmelo de Pontoise em 07 de dezembro de 1616. Após longa e dolorosa doença, entregou sua bela alma a Deus no dia 18 de abril de 1618, aos 52 anos.  Seu corpo repousa na capela do mesmo convento.

Algumas vicissitudes ligadas ao decreto do Papa Urbano VIII atrasaram seu processo de beatificação a qual retomada e só abriu em 1782 e terminou com a cerimônia celebrada pelo Papa Pio VI em 1791. 




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Outro texto com a biografia de nossa querida Beata:


Era uma mãe de seis filhos, que alcançou a graça de levar para o seu país três novas comunidades religiosas, chegando a ter três filhas religiosas e um filho sacerdote, além de dois filhos muito católicos e bons pais de família. Maria da Encarnação Acarie nasceu em Paris no ano de 1565, de família nobre. Seu marido, Pedro Acarie, um jovem advogado que ocupava um alto posto no Ministério da Fazenda, era muito piedoso e caridoso. Ajudava com grande generosidade os católicos que precisavam fugir da Inglaterra devido à perseguição da Rainha Elisabeth.

Monsieur Acarie pertencia à Liga Católica, partido que foi derrotado por Henrique IV, rei de França, que baniu os líderes da Liga, confiscando-lhes todos os seus bens. De uma hora para outra, Madame Acarie viu-se sem o marido e sem seus bens, com seis filhos pequenos para sustentar. Mas ela não era uma mulher fraca. Não se deixava derrotar pelas dificuldades. Chegou mesmo a conquistar a admiração do mesmo rei Henrique IV. Desde os primeiros anos de seu casamento, Maria da Encarnação decidiu levar uma vida de muita piedade em seu lar. Aos empregados, fazia rezar determinadas orações pela manhã e à noite. Sempre lhes oferecia toda sorte de ajuda material, e cuidava para que cada um cumprisse bem seus deveres para com Deus.
Madame Acarie reunia-se com algumas empregadas suas para rezarem juntas, corrigirem-se mutuamente, ler livros piedosos e ajudarem-se em tudo que dissesse respeito à vida espiritual. A bondade de seu coração alcançava todos: alimentava os famintos, visitava os enfermos, ajudava aos que passavam por situações econômicas difíceis, assistia aos agonizantes, instruía os que não conheciam bem o Catecismo, evangelizava os hereges e aos que haviam passado para outras religiões, e ajudava todas as comunidades religiosas, conforme lhe era possível. Após a morte de seu marido, ela pôde se dedicar exclusivamente aos serviços religiosos.
A Beata Maria da Encarnação, mesmo 
antes de sua entrada no Carmelo, já 
gozava de grandes visões místicas. 
Um dia, enquanto orava após ter lido algumas páginas da autobiografia de Santa Teresa de Ávila, Madame Acarie teve uma visão mística desta santa, que lhe diz: “Você precisa se esforçar para que a minha comunidade das carmelitas consiga chegar à França”.  Ela, então, foi falar com o Arcebispo, mas quando tudo parecia já estar encaminhado, novamente lhes foi negada a entrada naquele país. Numa nova aparição, Santa Teresa d’Ávila vem recomendar-lhe que não se canse de fazer todos os esforços possíveis para que as religiosas carmelitas possam entrar na França. Por causa dos pedidos insistentes de Madame Acarie, o Padre Bérulle (futuro Cardeal Bérulle) viajou à Espanha, onde conseguiu que se preparasse um grupo de carmelitas para serem enviadas a Paris.
Nossa santa não era dessas pessoas que ficam paradas, de braços cruzados. Sabia que havia chegado a Paris o famoso Bispo São Francisco de Salles, que pregaria uma importante série de sermões. Convidou-o a ir à sua casa. Foi quando este santo apóstolo de Cristo tornou-se seu melhor e maior aliado. São Francisco de Salles falou com as mais altas personalidades da época e ajudou Madame Acarie a conseguir a permissão de que as carmelitas necessitavam. O Papa Clemente VIII firmou um decreto permitindo a entrada das Irmãs na França. Uma importante conquista! 

Venerável Ana de Jesus e a 
Beata Maria da Encarnação, 
fundadoras do Carmelo na França
Em 1604, chegaram a Paris as primeiras Irmãs Carmelitas. À frente do grupo estava duas religiosas que, mais tarde, se tornariam beatas: Irmã Ana de Jesus e a Madre Ana de São Bartolomeu. Pouco depois, as três filhas de Madame Acarie tornaram-se monjas carmelitas, sendo logo seguidas pela mãe.
A comunidade das carmelitas estava destinada a fazer um bem enorme à França, durante muitos séculos, e a gerar Irmãs que se tornariam santas muito conhecidas, como por exemplo, Santa Teresa do Menino Jesus (Teresa de Lisieux). Maria da Encarnação Acarie, mãe de seis filhos (três religiosas, um sacerdote e dois casados), viúva, dama da alta sociedade, tornara-se uma humilde monja num convento onde uma de suas filhas era a Madre Superiora. Os últimos anos da Irmã Maria da Encarnação (nome que adotou na comunidade) foram de uma profunda vida mística, com frequentes êxtases. Em abril de 1618, caiu gravemente doente, ficando semiparalisada. Não se cansava de bendizer a Deus por todas as misericórdias que lhe havia concedido ao longo de sua vida. Em 16 de abril daquele ano, teve um êxtase e, quando terminou, uma monja lhe perguntou: “Irmã, o que fazia durante esse tempo”? Ela respondeu: “Estava falando com meu Bom Pai, Deus”.  Deu um leve sorriso e morreu.

Oremos
Senhor Deus, Todo-Poderoso, que concedeste à Beata Maria da Encarnação o dom de imitar fielmente o Cristo pobre e humilde, concede-nos também, pela intercessão desta santa, a graça de que, vivendo fielmente nossa vocação, caminhemos rumo à perfeição que Tu nos propões na pessoa de Teu Filho. Que vive e reina Contigo. Amém.




terça-feira, 15 de abril de 2014

Servo de Deus Jacques Fesch, Leigo (o "santo assassino")


Na história da Igreja há um só precedente de um condenado à morte por delitos comuns e elevado à honra dos altares. Trata-se do “bom ladrão”, São Dimas, há 2.000 anos.

Depois do processo diocesano celebrado a Paris, chegaram a Roma os atos da causa de beatificação de Jacques Fesch, um jovem francês guilhotinado pelo homicídio de um policial, durante um assalto. 

Sua história é um exemplo maravilhoso de que é possível uma conversão sincera, um arrependimento verdadeiro e de que, mesmo tendo-se cometido pecados graves, uma pessoa pode vir a se santificar pela confiança em Deus, pelo reconhecimento da infinita misericórdia divina, pela humildade, pela oração, pela contrição perfeita de seus pecados e pelo oferecimento a Deus de todas as suas penas e sofrimentos como forma de expiá-los. Sua história é muito edificante. 




“Santo assassino”
                            
Estamos acostumados a ouvir histórias de santos que desde a infância tiveram uma adesão humilde e forte à fé recebida em seu santo Batismo. Santos que se tornaram notáveis pelo amor incondicional à Igreja e ao próximo. Santos que gozavam de tamanha fé que lhes permitia operarem grandes milagres. Isto fez com que alguns encarassem a santidade como algo extraordinário, impossível de ser alcançado. Eis a razão pela qual muitos se escandalizaram quando foi encerrada a fase de informação diocesana e aberto o processo de beatificação de Jacques Fesch, jovem francês, condenado à prisão e finalmente executado na guilhotina, por ter matado um policial e ferido um funcionário de uma casa de câmbio numa tentativa de roubo.

Nascido em família rica, filho de um poderoso banqueiro belga, ateu e adúltero, indiferente quanto à formação religiosa de seus filhos. Não possuía gosto pelos estudos. Foi enviado à Alemanha para combater pelo exército francês. Depois de ter prestado serviço militar, foi-lhe arranjado um emprego com alto salário em um banco, sendo demitido após três meses. Levava uma vida mundana. Com fama de playboy, era dado às bebedeiras e frequentemente se envolvia com prostitutas. Casou-se aos 21 anos numa cerimônia civil com Pierrette Polack, filha da vizinha, que estava esperando um filho seu. Seus pais, antissemitas, não aceitaram o fato de sua nora ser filha de pai judeu. Não obstante o nascimento da filha, o jovem Fesch continuou a se encontrar com outras mulheres. Desses encontros nasceu Gérard, filho bastardo que foi entregue aos cuidados de um orfanato. Logo após, o casal se divorciou.

Inquieto e deprimido, pretendendo fugir das responsabilidades da família que, muito jovem, havia formado, decidiu empreender uma navegação solitária em redor do mundo. Pediu a seus pais a ajuda financeira necessária para comprar um barco e realizar tal viagem. Eles, não compreendendo a delicada situação emocional de seu filho, tendo-o por desequilibrado e ilusionista, negaram todo o apoio. A fim de conseguir recursos para o seu plano, acertou com o famoso cambista Alexander Silberstein a troca de dois milhões de francos por barras de ouro. No entardecer do dia 25 de fevereiro de 1954, dirige-se à casa de câmbio. Lá, apontou um revólver e exigiu a entrega do dinheiro que estava guardado na registradora. O cambista reagiu, sendo atingido com duas coronhadas na cabeça. Enquanto fugia com a quantia roubada, por meio de uma rua movimentada, deparou-se com um policial, Jean Vergne, de 35 anos, viúvo e pai de uma filha pequena. O policial, que havia sido alertado por alguém que estava a passar, de que aquele jovem havia assaltado uma casa de câmbio, ordenou que ele parasse e se entregasse. Hesitante, o jovem atirou três vezes, o que custou a vida do policial. Revoltada, a multidão começou a perseguir o assassino, que continuava a atirar, ferindo uma moça no pescoço. Finalmente, ele se rendeu e foi preso.

O crime ganhou repercussão na França. O homicida não era um homem comum, mas filho de um rico banqueiro. Levado a julgamento, não demonstrava arrependimento. Com seu característico humor sarcástico, limitou-se a dizer: “Arrependo-me de não ter usado uma metralhadora”. O tribunal marcou uma audiência futura, na qual seria decidida a condenação à guilhotina. Já na prisão de La Santé, foi levado ao capelão, a quem falou: “Não tenho fé. Não se preocupe comigo”. No entanto seu advogado, Paul Baudet, católico fervoroso, decidiu lutar não apenas para salvar a vida de seu cliente, mas, sobretudo para salvar sua alma. Jacques Fesch contava também com o apoio espiritual do velho capelão dominicano. Com o passar do tempo, começou a sentir uma angústia que penetrava no mais profundo de seu ser. Uma angústia pela vergonha que havia causado à sua família. Crescia o temor da morte, ao passo que os dias para sua possível execução se aproximavam. Entretanto, ele continuava cético e descrente. Chegou por vezes a ter desejos de atentar contra sua própria vida.

Foi na noite de 28 de fevereiro de 1955 que sofreu uma conversão repentina após ter passado por uma experiência mística. Assim descreve: “Estava deitado, olhos abertos, realmente sofrendo pela primeira vez na vida. Repentinamente, um grito saiu de meu peito, uma súplica por ajuda – Meu Deus – e, como um vento impetuoso que passa sem que soubesse de onde vem, o Espírito do Senhor me agarrou pela garganta. Tive a impressão de um infinito poder e de uma infinita bondade que, daquele momento me fez crer com convicção que nunca estive abandonado”.


O Servo de Deus é abraçado por sua mãe
nos corredores do tribunal
Enquanto a justiça dos homens faz o seu curso com os processos, os interrogatórios, as acusações do ministério público e os planos da defesa, o jovem na solidão da sua cela lê as revistas, clássicos e romances que lhe passam. Também o Capelão e o seu advogado, Baudet, um convertido que se tornou carmelita secular lhe incentivam leituras espirituais. Jacques é fulminado pelas figuras de Francisco de Assis, Teresa de Ávila e Teresinha do Menino Jesus a quem chamava de “minha pequena Teresa", bem como da Divina Comédia. Depois de um ano de detenção tem uma experiência mística em que, conforme relato seu em uma carta, "como um vento impetuoso que passa, sem que se saiba de onde vem, o Espírito do Senhor me agarrou".
A um amigo seu confiou certa vez: "agora tenho verdadeiramente a certeza de começar a viver pela primeira vez. Estou em paz e dei um sentido à minha vida, enquanto antes não era mais que um morto vivo". Isolado em uma pequena cela comunica a sua fé com cartas que depois se tornaram objeto de reflexão por parte dos jovens católicos franceses.

Fesch ainda passaria dois anos e meio na prisão. Durante este tempo, levou uma vida ascética. Evitava qualquer regalia. Dizia sempre que na cadeia existem duas formas de viver, ou se rebelar contra sua própria situação, ou adotar um estilo de vida monástico. Tendo verdadeiramente a certeza de que começara a viver pela primeira vez, recluso em sua cela, transmitia a sua fé por meio de cartas que se tornaram objetos de reflexão por parte de jovens católicos franceses. Mesmo passando por períodos depressivos, o temor da morte desapareceu face ao temor de morrer em pecado. Finalmente, após quase três anos de espera, Jacques foi levado ao julgamento definitivo. Lá, demonstrou sincero arrependimento pelo que havia causado ao policial e à sua família. Todavia, não obstante a eloquência do advogado e as lágrimas de remorso do réu, a corte foi unânime em declará-lo condenado à morte. Agendada a data da decapitação, procurou aguardar a execução em paz e em oração, enxergando-a como uma forma de santificação. Resistiu à tentação de odiar aqueles que o haviam sentenciado ao cruel destino. Escreveu em seu diário: “Que cada gota do meu sangue apague um pecado mortal.”. Jacques espera a execução em oração, aceitando-a como ocasião de graça.


As notícias de sua conversão comoveram milhares de pessoas. Sua última esperança seria a absolvição dada pelo presidente René Coty. Este, por pressão da polícia, não demonstrou misericórdia. Nas vésperas da execução, o jovem escreveu: “Último dia de luta. Amanhã, nesta hora, estarei no Paraíso. Que eu morra, se essa for a vontade do bom Deus. A noite avança e eu fico cada vez mais apreensivo. Meditarei na agonia do Senhor no Horto das Oliveiras. Oh, bom Jesus, ajudai-me, não me abandoneis. Mais cinco horas, e estarei na verdadeira Vida. Mais cinco horas, e eu verei Jesus!”.

Às 05h e 30min do dia 1° de outubro de 1957 (festa de Santa Teresinha), os guardas carcerários que vão buscá-lo o encontram de joelhos e em oração ao lado da cama bem arrumada. "Senhor, não me abandone, eu confio em Ti" - foram suas últimas palavras.
Sua experiência mística, sua espiritualidade fervorosa, sua vitória na batalha contra si mesmo e contra os demônios da amargura e do desespero, inspiraram a abertura de seu processo de beatificação. Porém, não faltaram objeções. Uns alegaram que era um absurdo se beatificar um criminoso. Outros argumentavam que a beatificação poderia levar outros assassinos a usarem a desculpa de conversão como meio de evitar qualquer punição. É salutar ressaltar que na história da Igreja há um só condenado à morte por crimes que foi elevado à glória dos altares: o Bom Ladrão, a quem a Tradição atribuiu o nome de Dimas, morto com o Senhor no Calvário. Essa é a prova de que ninguém está perdido aos olhos de Deus, mesmo que a sociedade o tenha condenado e desprezado. Ele conhece nossas fraquezas, nossos limites e, com a ternura de um Pai, está sempre disposto a nos perdoar, mesmo que nos arrependamos nos últimos momentos.


Por se tratar de um precedente único, o processo de beatificação de Jacques Fesch foi tratado com a maior cautela. Foram analisados todos os seus escritos. Quando estava para ser aberto o processo, o Emmo. Sr. Cardeal Jean-Marie Lustiger, então arcebispo de Paris, declarou que para a Igreja declarar alguém santo, não significa propor à admiração seus erros ou crimes; pelo contrário, significa apontar o exemplo de conversão de alguém que, apesar de uma vida pregressa condenável, soube ouvir a voz de Deus e retornar a Ele. Não existem pecados, por mais graves que sejam, que impeçam a Deus de ir ao encontro do ser humano e de lhe propor a salvação, concluiu o cardeal.
Hoje, concluído o processo de beatificação, resta aguardar a comprovação de um milagre alcançado por sua intercessão. É provável que o Santo Padre Bento XVI tenha a honra de elevar aos altares em um futuro não muito longínquo, um jovem desorientado pertencente à alta burguesia, homicida e condenado à morte, que, no cárcere, logrou em pouco tempo altos cumes de espiritualidade com sua fulgurante conversão. Penso que se ele foi capaz de entregar-se totalmente a Deus, também nós, apesar de nossa fraqueza e miséria, não devemos nos desesperar, por pouco que perseveremos em sair de nossos pecados. Basta que ponhamos nossa confiança no nosso Salvador, sempre vivo a interceder por nós e disposto a nos perdoar.

Com suas preces e lágrimas, Teresinh
          alcança de Deus a conversão
           do criminoso condenado Pranzini
Jacques e Teresinha do Menino Jesus
“Que bela esta pequena santa, pois como está tão perto de nós! Pela pequena via, sei que posso levantar-me. Dê as pequenas coisas que não são muito difíceis. Darei o meu cigarro”. Jacques se coloca no lugar de Pranzini: ela salvou a alma de um homem condenado à morte e seu caso é muito semelhante. Teresa de Lisieux era comemorada, naquela época, no dia 3 de outubro, Jacques espera morrer naquele dia: "sinto que a quinta-feira se aproxima com a minha pequena Santa Teresinha do Menino Jesus". Ele faleceu em 1º de outubro, dia que, depois do Vaticano II, passou a ser o dia da festa de Teresinha (na década de 50 sua memória era celebrada no dia 03 de outubro).



(Carlos Eduardo Burle)