Páginas

sexta-feira, 14 de março de 2014

São Clemente Maria Hofbauer, Presbítero Redentorista

Hoje, dia do meu aniversário natalício, trago a vida de um grande santo que é comemorado hoje: São Clemente Maria Hofbauer, mais um do "rol" dos santos quase "desconhecidos", porém, de incomensurável importância para sua congregação (Congregação do Santíssimo Redentor ou Redentoristas), bem como para a Igreja Católica.  


Um olhar sobre a vida de Clemente Hofbauer pode nos ensinar muito sobre um sonho feito realidade, sobre a oração e o serviço, sobre a perseverança na vida cristã, sobre a santidade alcançada vivendo o dia-a-dia e usando cada momento do tempo para seu fim apropriado. Clemente não foi um fazedor de milagres ou um visionário, apenas um grande e santo redentorista, que serviu o povo de Deus com o máximo da sua capacidade.


Nascimento e Juventude

O nosso santo nasceu na festa de Santo Estevão, 26 de dezembro, do ano 1751, em Tasswitz, Morávia. Era o nono de doze filhos nascidos do casal Maria e Paulo Hofbauer. Batizado logo no dia seguinte, recebeu o nome de Hansl, ou João. Por ele seria conhecido durante mais de vinte anos até que entrou num eremitério e tomou o nome de Clemente.

Seu irmão mais velho, Carlos, partiu para lutar contra os turcos ao lado da cavalaria húngara. Hansl não pôde esperar até que tivesse a idade suficiente para usar aquele uniforme azul com debrum prateado e o chapéu marrom de feltro com filete vermelho.

Mas ele também tinha suas idéias infantis sobre um outro objetivo. Enquanto ajudava à Missa imaginava-se como padre diante do altar, trajando os paramentos sacerdotais e guiando o povo no grande ato eclesial de adoração e louvor a Deus.

Foi a meta do sacerdócio que finalmente sobrepujou a carreira militar. Todavia, sendo de família pobre, Hansl tinha pouca chance de ir para um seminário ou entrar para uma ordem religiosa.

Começou a estudar latim na casa paroquial. O pároco era um sacerdote idoso e gentil, que reconheceu as sementes de vocação sacerdotal no jovem Hofbauer. Diariamente o jovem aluno e o velho pastor se encontrariam para o estudo da língua latina. Seria o primeiro passo da longa caminhada de Hansl rumo ao sacerdócio. O período de estudo terminou repentinamente com a morte do pároco, quando Hansl tinha quatorze anos. O novo pároco não tinha tempo para ajudá-lo a estudar latim.

Incapaz de prosseguir os estudos eclesiásticos, Hansl teve que aprender um ofício. Foi mandado como aprendiz a uma padaria em 1767. Em 1770 foi trabalhar na padaria do mosteiro premonstratense dos Monges Brancos de Bruck. Na época os efeitos da guerra e da fome levavam muita gente sem-teto e faminta a mendigar na porta do convento. Hofbauer trabalhava dia e noite para dar de comer aos pobres que batiam na sua porta. Embora isto não fosse ainda o sacerdócio que ansiosamente desejava, era uma oportunidade de ajudar o povo de Deus que estava em grande necessidade.

Em 1771, uma viagem à Itália levou Hofbauer a Tívoli. Aí decidiu fazer-se eremita no santuário de Nossa Senhora de Quintiliolo e pediu ao bispo local o hábito de eremita. Foi então que Hansl Hofbauer recebeu o nome de Clemente Maria: Clemente por causa do bispo de Ancyra na Ásia e Maria por causa de Nossa Senhora. Como eremita, Clemente rezava para si mesmo e para todas as pessoas do mundo que se esqueciam de rezar. Trabalhava no santuário e assistia aos peregrinos que vinham. Clemente, porém, não se sentiu realizado e em menos de seis meses deixou Quintiliolo. Sentia a necessidade de rezar pelas pessoas e via isto como uma boa obra, mas não era ainda o sacerdócio que tão ardentemente desejava.

Voltou ao mosteiro dos Monges Brancos de Bruck para de novo ser padeiro e recomeçar o estudo do latim. Embora tivesse completado os estudos de filosofia em 1776, não pôde ir adiante. O Imperador não permitia aos Monges Brancos admitir noviços e assim Clemente reencontrou o caminho do sacerdócio.

Voltou para casa e viveu dois anos como eremita em Muehlfrauen, obrigando-se a suportar rigorosos jejuns, duras penitências e longas vigílias de oração. Por insistência da mãe, deixou o eremitério para de novo tornar-se padeiro. Desta vez conseguiu um emprego numa famosa padaria de Viena, onde encontrou duas senhoras distintas que se tornaram suas grandes benfeitoras.

Aos 29 anos, depois de ter sido padeiro em três lugares e eremita em dois outros, Clemente entrou para a Universidade de Viena. Já que o governo tinha fechado todos os seminários, os candidatos ao sacerdócio tinham de estudar nas universidades controladas pelo governo. Clemente ficou frustrado com os cursos das matérias eclesiásticas, eivados de racionalismo e de outras visões e doutrinas questionáveis. Impávido, continuou a investigar as verdades da fé em busca do sonho do sacerdócio.

Durante uma peregrinação à Itália em 1784, Clemente e seu companheiro de viagem, Tadeu Huebl, decidiram entrar numa comunidade religiosa. Os dois seminaristas foram aceitos no noviciado redentorista de São Julião em Roma. Na festa de São José, 19 de março de 1785, Clemente Hofbauer e Tadeu Huebl tornaram-se redentoristas, professando publicamente os votos de pobreza, castidade e obediência. Dez dias depois foram ordenados sacerdotes na catedral de Alatri.

Poucos meses após a ordenação, os dois redentoristas estrangeiros foram convocados pelo seu Superior geral, Pe. De Paola. Receberam a missão de voltar à sua pátria e estabelecer a Congregação redentorista no norte da Europa. Era uma nomeação difícil e insólita para dois homens recém-ordenados. Para Afonso, essa difusão da Congregação além dos Alpes era uma prova segura de que os Redentoristas iriam perdurar até o fim dos tempos. Para Clemente, era a realização de um sonho.


Varsóvia e São Beno

A situação política não permitiu a Clemente permanecer no seu próprio país. O Imperador austríaco, que tinha fechado mais de mil mosteiros e conventos, não permitiria que uma nova ordem religiosa fizesse uma fundação. Sabendo disto, os dois redentoristas foram para a Polônia. Foi em fevereiro de 1787 que eles chegaram a Varsóvia, cidade de 124.000 habitantes. Embora houvesse lá 160 igrejas e mais 20 mosteiros e conventos na cidade, pode-se dizer que era quase uma favela sem Deus. A população era pobre e mal educada, morando em casas mal conservadas. Muitos tinham passado do Catolicismo para a Franco-Maçonaria. Os católicos fiéis e seus bons padres sofriam muito. Nos 20 anos seguintes Clemente e seu pequeno grupo de padres e irmãos redentoristas partilharam desse sofrimento pelo Senhor e pelos fiéis da Polônia.

A Polônia vivia uma grande turbulência política quando da chegada de Clemente em 1787. O rei Estanislau II era virtualmente um fantoche nas mãos de Catarina II da Rússia. Anos antes, em 1772, tinha ocorrido a primeira divisão do pais - Áustria, Rússia e Prússia dividiram a presa. Divisão semelhante haveria de suceder de novo em 1793 e pela terceira vez em 1795. Napoleão e seu grande exército conquistador em marcha através da Europa haveria de aumentar a tensão política. Durante os vinte anos que Clemente passou em Varsóvia quase não teve um momento de paz.

Na sua viagem rumo à Polônia, juntou-se aos dois novos redentoristas Pedro (agora Emanuel) Kunzmann, um colega padeiro que tinha acompanhado Hansl numa romaria. Ele se tornou o primeiro irmão redentorista fora da Itália. Chegaram a Varsóvia sem um centavo, pois Clemente havia dado as últimas três moedas de prata a mendigos ao longo da estrada. Encontraram-se com o Delegado Apostólico, o Arcebispo Saluzzo, que lhes confiou a Igreja de São Beno para o trabalho com os habitantes de Varsóvia de língua alemã. Depois de aprenderem o novo idioma, os redentoristas estenderam o seu apostolado ao povo que morava na área de São Beno.

Quando via algum menino sem-teto pelas ruas, Clemente o levava para casa, onde podia se lavar, alimentar-se e aprender uma profissão, além de receber formação cristã. Quando o número de meninos foi demasiado para a sua casa, Clemente inaugurou o Refúgio Menino Jesus para os meninos de rua.

Para dar comida e roupa aos garotos, tinha de esmolar constantemente. Fazia isto sem constrangimento. Indo a uma padaria comprar pão, encontrou um padeiro sem ajudante. Clemente passou o dia fazendo massa e levando-a ao forno, usando toda a sua antiga experiência no ramo. Ganhou pão para os meninos naquele dia e para muitos outros dias.

Conta-se que em outra ocasião ele foi mendigar num bar. Quando Clemente pediu uma doação, um dos donos desdenhosamente lhe cuspiu cerveja no rosto. Clemente limpou o rosto e respondeu: "Isto foi para mim. Agora, o que o Sr. tem para os meus meninos?" Os homens que estavam no bar ficaram tão pasmados com aquela resposta heroica, que deram a Clemente mais de 100 moedas de prata.

No começo, quando os Redentoristas abriram a igreja, pregavam para bancos vazios. O povo tinha muitas coisas que os afastavam de Deus, e achavam difícil confiar naqueles padres estrangeiros. Demorou alguns anos até que conquistaram os corações do povo; mas com o tempo São Beno se tornou o centro florescente da Igreja Católica em Varsóvia.

Em 1791, quarto ano depois da sua chegada, os Redentoristas ampliaram o refúgio dos meninos fazendo uma academia. Abriram um internato para meninas, posto sob a direção de algumas nobres matronas de Varsóvia. O número de meninos órfãos continuava a crescer constantemente. O dinheiro para financiar tudo isto provinha de alguns benfeitores fixos e de muitas outras pessoas desejosas de ajudar de diversos modos, mas Clemente ainda precisava mendigar de porta em porta à procura de ajuda para os seus muitos órfãos.


Na igreja, Clemente e seu grupo de cinco padres e três irmãos redentoristas começaram o que chamaram de missão perpétua. Em vez de celebrar apenas uma Missa na igreja nos dias de semana, eles fizeram uma missão com horário pleno todo dia do ano. Quem fosse a São Beno em qualquer dia poderia ouvir cinco sermões em alemão e em polonês. Havia três Missas solenes, o ofício de Nossa Senhora, visitas públicas ao Santíssimo Sacramento, a Via Sacra, vésperas, orações e ladainhas. E os padres estavam disponíveis para atender confissões a qualquer hora do dia e da noite.

Em 1800 o crescimento era visível não só no trabalho na igreja mas também na comunidade redentorista. A recepção dos sacramentos subiu de 2.000 (em 1787) para mais de 100.000. O número de Redentoristas trabalhando em São Beno chegou a 21 padres e 7 irmãos. Havia também cinco noviços e quatro seminaristas poloneses.

Todo esse trabalho era feito em condições nada favoráveis. As três divisões da Polônia acarretaram grande derramamento de sangue. Kosciusco, o grande herói da independência da Polônia, tinha seus momentos de glória, mas o povo não pôde conter indefinidamente os invasores estrangeiros. As batalhas chegaram a Varsóvia durante a Semana Santa de 1794. Os Redentoristas, como todo morador da cidade, sentiram sua vida em perigo constante. Três bombas atravessaram o teto da igreja mas não explodiram. Na ocasião das batalhas, Clemente e seus companheiros pregavam a paz. Isto apenas serviu para aumentar os gritos de protesto contra os Redentoristas, considerados traidores.

Quase desde o princípio, foram atacados de dois lados. Politicamente eram estrangeiros. Misturavam-se com o povo e faziam muita coisa boa, uma obra santa, sacerdotal. Cuidavam de centenas de órfãos, celebravam milhares de Missas e levavam dezenas de milhares para perto de Deus, mas aqueles Redentoristas alemães continuavam sendo um elemento estranho num país em guerra constante.

Outro tipo de ataque era ainda mais doloroso. Um ataque pessoal, da parte de pessoas que deixaram a Igreja do seu batismo para se tornarem maçons. Encontravam-se nos seus grupos secretos para tramar contra os católicos, prejudicar os sacerdotes, impedir o culto público e fechar as igrejas.

Os Redentoristas tinham sempre de ficar atentos às emboscadas. Seus inimigos ficavam à espreita para atingi-los com pedras ou bater-lhes com varas. Certa vez, a morte chegou à porta do convento na forma de um pedaço de carne. Alguém deu um pernil aos padres. Quatro deles morreram intoxicados com a carne envenenada. Foi uma terrível tragédia para Clemente. Viu o número dos Redentoristas diminuir em vez de aumentar. Providencialmente, quatro jovens entraram na comunidade pouco depois deste incidente, mas Clemente jamais pôde esquecer seus confrades assassinados.

Ainda mais doloroso para Clemente foi perder seu colega e grande amigo Pe. Tadeu Huebl. Huebl recebeu um falso chamado para um doente. Muitas horas depois foi lançado para fora de uma carruagem em grande velocidade, depois de ter sido torturado e moído de pancadas. Alguns dias depois morreu em decorrência da agressão. Clemente ficou profundamente contristado com a morte do amigo. Agora ele tinha de caminhar sozinho.

Os ataques continuaram. Os Redentoristas passaram a ser alvo de zombarias nos teatros. Os padres poloneses do lugar chegaram a tentar deter o trabalho feito pelos Redentoristas. Depois de vinte anos edificando a fé do povo de Varsóvia, eram atacados, assaltados e atormentados. Em 1806 foi promulgada uma lei proibindo os sacerdotes locais de convidar os Redentoristas para pregar missões em suas paróquias. Veio depois uma lei mais restrita ainda, que impedia os Redentoristas de pregar e de ouvir confissões na sua própria igreja de São Beno.

Diante disto, Clemente apelou diretamente ao Rei da Saxônia que governava a Polônia na época. Embora soubesse do bem que os Redentoristas estavam fazendo, ele era impotente para deter os maçons e os jacobinos que queriam ver os Redentoristas fora da Polônia. O decreto de expulsão foi assinado dia 9 de junho de 1808. Onze dias depois, a igreja de São Beno era fechada e os quarenta Redentoristas lá residentes foram levados para a prisão, onde ficaram quatro semanas, até lhes ser dada ordem de voltar cada qual para seu país.


Viena: um novo começo

Em setembro de 1808, depois de exilado da Polônia, Clemente chegou a Viena. Lá ficaria até a morte, quase treze anos depois. Em 1809, quando as forças de Napoleão atacaram Viena, Clemente trabalhava como capelão de um hospital, cuidando dos muitos soldados feridos. O arcebispo, vendo o seu zelo, pediu-lhe que cuidasse de uma pequena igreja italiana na cidade de Viena. Aí permaneceu quatro anos, até ser nomeado capelão das irmãs ursulinas em julho de 1813.

Cheio de fervor eucarístico, movido por seu
grande amor, São Clemente gostava de "bater
à porta do sacrário" para dizer a Jesus que
estava ali, que o amava e o desejava
ardentemente

Cuidando do bem-estar espiritual das irmãs e dos leigos que frequentavam sua capela, a verdadeira santidade de Clemente manifestou-se ainda mais claramente. Naquele altar a sua devoção revelava-o como homem de fé. No púlpito falava as palavras que o povo precisava ouvir. Pregava de tal modo que pudessem conhecer os pecados deles, experimentar a bondade de Deus e viver suas vidas conforme a vontade divina. Mas se ele era um leão no púlpito, Clemente era um cordeiro no confessionário. Ouvia os pecados dos penitentes, dizia-lhes palavras de encorajamento, pedia perdão a Deus por eles e despedia-os para que seguissem seu caminho.

Naqueles primeiros anos do século XIX, Viena era um importante centro cultural europeu. Clemente gostava de entreter-se com estudantes e intelectuais. Os estudantes  vinham - a sós ou em grupos - para sua casa a fim de conversar, fazer uma refeição ou pedir conselho. Boa parte deles depois se tornaram Redentoristas. Trouxe para a Igreja muitos ricos e artistas, inclusive Frederick e Dorothy von Schlegel (esta era irmã de Mendelssohn, fundador da escola romântica); Frederick von Klinkowstroem, artista; Joseph von Pilat, secretário particular de Metternich; Frederick Zachary Werner, que depois foi ordenado sacerdote e tornou-se grande pregador; e Frederick von Held, que veio a ser redentorista e mais tarde levou a Congregação à Irlanda.

Em Viena Hofbauer sofreu novos ataques. Por certo tempo foi proibido de pregar. Depois foi ameaçado de expulsão por se ter comunicado com o seu Superior geral redentorista em Roma. Antes que a expulsão fosse oficializada, o Imperador Francisco da Áustria deveria assiná-la. Na ocasião o Imperador fez uma peregrinação a Roma, onde visitou o Papa Pio VII e ficou sabendo quanto era estimada a obra de Hofbauer. Soube também que podia recompensar Hofbauer pelos seus anos de serviço dedicado permitindo-lhe começar uma fundação redentorista na Áustria.

Assim, em vez de um decreto de expulsão, Hofbauer ganhou uma audiência com o Imperador Francisco. Rapidamente os planos estavam feitos. Foi escolhida e restaurada uma igreja para se tornar a primeira fundação redentorista na Áustria. Mas isto haveria de iniciar sem Clemente. Ele caiu doente no início de março de 1820 e morreu no dia 15 de março do mesmo ano. Como Moisés na Bíblia, ele conduziu o povo até a Terra Prometida mas ele próprio não viveu o suficiente para nela entrar. Morreu com a gratificante notícia de que o seu segundo sonho tinha sido realizado.


Conclusão

Clemente Hofbauer foi beatificado no dia 29 de Janeiro de 1888 pelo Papa Leão XIII. Foi canonizado como santo da Igreja católica dia 20 de maio de 1909. Em 1914, o Papa Pio X concedeu-lhe o título de Apóstolo e Patrono de Viena. Hoje, mais de 150 anos após a sua morte, a festa anual de São Clemente é lembrada de modo especial pelo povo de Viena e pelos 6.000 padres e irmãos em todo o mundo, que vestem o hábito redentorista como São Clemente o fez.

O que fez de Clemente Hofbauer um santo? Não fez nenhum milagre que nos deslumbrasse, nem teve visões ou êxtases para nos maravilhar. Teve até faltas - um temperamento alemão irritadiço, uma tendência a ser áspero. No entanto, se nós pudéssemos passar umas horas com ele, iríamos descobri-lo como um homem de uma fé excepcionalmente forte, de extraordinária calma e paz, e de incansável zelo apostólico.


A simplicidade foi a principal característica da sua santidade. Aceitava a vontade de Deus do jeito que ela vinha, e fez todo o bem de que foi capaz. Levou uma vida de inocência e de serviço, dedicando-se a louvar a Deus e a levar os outros a servi-lo. Pelo seu modo totalmente simples de se tornar santo, Clemente é um modelo para todos.

quarta-feira, 12 de março de 2014

ALGUMAS MUDANÇAS NO BLOG SANTOS, BEATOS, VENERÁVEIS E SERVOS DE DEUS E RECADO AOS LEITORES:

   
   Olá, irmãos e irmãs que acessam nosso Blog Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus:
     Saúde e paz!
    Após quase seis meses de existência do Blog, com quase 140 publicações, resolvi mudar um pouco "layout", isto é, a apresentação do mesmo. No final da página de rolagem você poderá acessar o santo (a), beato (a), venerável ou servo (a) de Deus que está procurando no gadget "procurar". Acrescentei também um gadget de tradução. Assim, você poderá traduzir o texto para a língua que preferir através do Tradutor do Google. Aquele (a) seu amigo (a) estrangeiro (a) poderá também acessar o blog e "dar uma olhadinha" na publicação ali colocada. 
   Resolvi também aumentar um pouco a largura da barra de publicações, para que os textos fiquem de leitura mais fácil e "natural". Não quis modificar a cor, pois, a original lembra um pouco a dos "livros antigos" ou "papiros". Não que a santidade não seja uma coisa moderna e atual, mas, para dar aquele "tom de respeito" e sobriedade ao tema. 
    Espero que gostem das modificações. Continuem prestigiando nosso Blog e indicando para amigos, parentes, membros de comunidades, grupos de oração e pastorais. 
    Sei que, infelizmente, a temática (vida de santos) nem sempre é do interesse de todos os católicos. Quem dera que fosse! Como é útil conhecer a vida de um santo (a), beato (a), venerável ou servo (a) de Deus!  
      Conhecer a vida de um santo é conhecer ainda mais a Jesus, que viveu na vida daquele santo ou santa. O Mistério da Comunhão dos Santos é um dos mais belos de nossa Fé Católica. Nele sabemos que na vida de cada santo ou santa foi Jesus quem viveu ali, na vida daquela pessoa, um aspecto de sua própria personalidade e identidade. Por exemplo: Jesus foi um homem jovem, que viveu na Judéia e Galiléia, exercendo sua missão de Messias e Redentor do mundo. Jesus não foi um "padre", um "bispo", um "pai de família", um "monge", uma "dona de casa", uma "freira" ou "monja", no entanto, sua santidade infinita (pois era homem imaculado e perfeitíssimo além de ser Deus verdadeiro) como que "se distribui" ou se "manifesta" na vida e no modo de ser de cada santo ou santa. 
     Assim, seu amor infinito em "cuidar do seu rebanho" e seu Ministério como Sumo e Eterno Sacerdote, se manifestou na vida de muitos santos papas, bispos ou padres; seu amor "cuidador" se manifestou na vida de muitos santos e santas que se destacaram em obras de caridade; sua vida de oração, de silêncio e recolhimento em Nazaré, de certa forma se reflete na vida de muitos santos e santas que viveram e vivem no silêncio e no recolhimento dos claustros, imolando sua vida a serviço da salvação das almas e santificação da Igreja; seu amor radical e fidelidade a Deus Pai, levada até às últimas consequências, bem como o Mistério da Santa Cruz, se manifestaram na vida, sofrimentos e morte dos muitíssimos mártires que derramaram seu sangue por Cristo; seu amor "paternal" se manifestou na vida de muitos pais de família santos e na de muitas mães de família santas; a santidade de sua Infância Santíssima em Belém, Egito e Nazaré, se manifestou na vida santa e exemplar de muitos santos e santas crianças e adolescentes, assim por diante. 
     Portanto, ler sobre a vida de algum santo ou santa é o mesmo que ler os Santos Evangelhos, só que, na forma "prática", encarnados na vida real, cotidiana desses muitos heróis e heroínas que souberam encarnar o espírito evangélico e a imitação de Cristo em suas vidas. 
      Desejo a todos uma Santa Quaresma, uma Santa Páscoa que se aproxima. Que esse Blog, feito com tanto carinho, sirva como instrumento para que muitos alcancem um bom conhecimento sobre os santos e santas e, por meio deles, do próprio de Jesus Cristo. 

O irmão em Cristo e na Igreja:
Giovani Carvalho Mendes, ocds. 

SANTA FRANCISCA ROMANA, Viúva, Religiosa e Fundadora: Modelo de Santidade para todas as Mulheres



Mulher forte, como a da Sagrada Escritura, “a mais romana de todas as Santas” iluminou as almas e socorreu os necessitados num dos mais conturbados períodos da História da Igreja.

O Divino Salvador instituiu Sua Igreja sobre alicerces bem seguros: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mat. 16, 18). Mas, ao longo da História, as forças infernais não deixaram de investir contra essa rocha inabalável.

Uma dessas investidas teve início com as agitações políticas e sociais que forçaram o Papa Clemente V a transferir, em 1309, a sede do Papado para a cidade francesa de Avignon, os sucessores de Pedro permaneceram até 1376. Foi um longo período de conturbações que culminaram no Grande Cisma do Ocidente (1378-1417).

A eclosão do Cisma veio agravar ainda mais a situação, a ponto de a Cidade Eterna ficar reduzida a uma situação de miséria, açoitada por guerras, carestia e pestes. Nesse contexto, destacou-se como luminoso anjo da caridade uma jovem dama da alta nobreza: Santa Francisca Romana, a qual, por sua prodigiosa atividade em favor dos pobres e doentes, conquistou o honroso título de Advocata Urbis (Advogada da Cidade).


Piedade precoce

Nascida em 1384, Francisca pertencia a uma rica família de patrícios romanos. Seus pais, Paulo Bussa de Leoni e Jacovella de Broffedeschi, proporcionaram-lhe uma primorosa educação cristã. Desde a mais tenra idade, acompanhava a mãe nas práticas de piedade, como abstinências, orações, leituras espirituais e visitas a igrejas onde pudessem lucrar indulgências.

Frequentava muito a Basílica de Santa Maria Nova, a preferida de sua mãe, confiada aos monges beneditinos de Monte Olivetto. Ali, Francisca começou a receber, ainda criança, direção espiritual de Frei Antônio di Monte Savello, com quem se confessava todas as quartas-feiras.

Aos onze anos, manifestou o desejo de consagrar-se a Deus pelo voto de virgindade. Sua inclinação para a vida monástica se fez notar quando — a conselho do diretor espiritual, para provar a autenticidade de sua vocação — começou a praticar em casa algumas austeridades próprias a certas ordens religiosas femininas. Seu pai, porém, opôs-se a esses infantis projetos, pois ela estava já prometida em casamento a Lourenço Ponziani, jovem de nobre família, bom caráter e grande fortuna.

Esposa exemplar

Francisca foi sempre esposa exemplar. Por desejo do marido, apresentava-se em público com a categoria de dama romana, usando belas joias e suntuosos trajes. Mas debaixo deles vestia uma tosca túnica de tecido ordinário. Dedicava à oração suas horas livres, e nunca negligenciava as práticas de vida interior. Transformou em oratório um salão do palácio e aí passava longas horas de vigília noturna, acompanhada por Vanozza. Era objeto de mofa das pessoas mundanas, mas sua família a considerava um “anjo da paz”.


Os desígnios da Providência

Três anos após seu casamento, contraiu uma grave enfermidade que se prolongou por doze meses, deixando temerosos todos os membros da família. Francisca, porém, não temia, pois colocara sua vida nas mãos de Deus, com inteira resignação. Nesse período de prova, por duas vezes apareceu-lhe Santo Aleixo. Na primeira, perguntou-lhe se queria curar-se, e na segunda comunicou-lhe que “Deus queria que permanecesse neste mundo para glorificar seu nome”. Colocando então seu manto dourado sobre ela, restituiu-lhe a saúde.

Essa enfermidade, contudo, a fizera meditar profundamente sobre os planos da Providência a seu respeito. E uma vez restabelecida, decidiu, com Vanozza, levar uma vida mais conforme ao Evangelho, renunciando às diversões inúteis e dedicando mais tempo à oração e às obras de caridade.

Proteção do Anjo, ataques do demônio.

Foi nessa época que Deus enviou-lhe um Anjo especial para guiá-la na via da purificação. Ela não o via, mas ele estava constantemente a seu lado e se manifestava por meio de sinais claros. Além de amigo e conselheiro, era vigilante admoestador, que a castigava quando ela cometia qualquer pequena falta. Certa vez em que Francisca, por respeito humano, não interrompeu uma conversa superficial e frívola, ele aplicou-lhe na face um golpe tão forte que deixou sua marca por vários dias e foi ouvido na sala inteira!

O demônio empreendia todo tipo de esforços para perturbar a vida e, sobretudo, impedir a santificação de Francisca. Como a Santa sempre triunfava de suas tentações, ele recorria com frequência a ataques diretos. Assim, em certa ocasião ela e Vanozza retornavam da Basílica de São Pedro e decidiram tomar um atalho, pois já era tarde. Chegando à margem do Tibre, inclinaram-se para tomar um pouco de água. Empurrada por uma força invisível, Francisca caiu no rio. Vanozza lançou-se para salvá-la e foi também arrastada pela correnteza. Sentindo em perigo suas vidas, recorreram a Deus e no mesmo instante se viram de novo na margem, sãs e salvas.


Modelo de mãe e de dona de casa

Quando em 1400 nasceu seu primeiro filho, João Batista, não duvidou em deixar algumas de suas mortificações e exercícios piedosos, para melhor cuidar do menino. Ao carinho materno, unia a firmeza da boa educadora, corrigindo-o em suas infantis manifestações de teimosia, obstinação e cólera, sem nunca ceder às suas lágrimas de impaciência. Foi modelo de mãe igualmente para João Evangelista e Inês, que nasceram alguns anos depois.

Seu Anjo ajudou-a a levar sua vida matrimonial com amor e dedicação, tanto para o esposo quanto para os filhos. Cumpria com perfeição seu ofício de dona de casa, compreendendo que os sacrifícios impostos pelas tarefas cotidianas fazem parte da purificação necessária nesta vida e têm prioridade sobre as mortificações particulares. Desempenhou-se de tal maneira que, em 1401, quando faleceu a esposa do velho Ponziani, seu sogro, este a incumbiu do governo do palácio. Nessa função, a jovem senhora demonstrou grande capacidade, inteligência e, sobretudo, bondade.



Organizou os trabalhos da numerosa criadagem de modo a todos terem tempo de cumprir seus deveres religiosos. Assistia-os em suas necessidades materiais e os incentivava a levar uma vida verdadeiramente cristã. Quando algum deles adoecia, Francisca se fazia de enfermeira, mãe e irmã. E se a enfermidade acarretava perigo de vida, ela mesma ia buscar a assistência espiritual de um sacerdote, a qualquer hora do dia ou da noite.



Prodígios realizados em vida

Por volta de 1413, a fome se abateu sobre Roma. O sogro de Francisca alarmou-se ao ver que ela continuava muito generosa para ajudar os necessitados, distribuindo-lhes parte das provisões que ele reservara para sustento da família, e proibiu-a de fazê-lo. Não podendo mais a caridosa dama dispor daqueles víveres para socorrer os famintos, começou a pedir esmolas para eles. E certo dia, tomada de súbita inspiração, foi com Vanozza a um celeiro vazio do palácio para procurar o que pudesse ter restado de trigo no meio da palha. À custa de paciente trabalho, conseguiram recolher alguns poucos quilos do desejado grão. Coisa admirável: logo após a saída das duas, Lourenço, seu esposo, entrou no celeiro e lá encontrou 40 sacos contendo, cada um, 100 quilos de trigo dourado e maduro...

Idêntico prodígio se deu na mesma época: querendo levar aos pobres um pouco de vinho, Francisca recolheu a escassa quantidade que restava no fundo de um tonel e no mesmo instante este se encheu milagrosamente de um excelente vinho.

Esses prodigiosos fatos muito contribuíram para suscitar em Lourenço um temor reverencial e amoroso por sua esposa. Em consequência, ele lhe deu liberdade de dispor de seu tempo para suas obras apostólicas e lhe permitiu trocar seus belos trajes e joias — os quais ela apressou-se a vender para distribuir aos pobres o dinheiro — por roupas simples e pouco vistosas.


Guerras e provações

Muitas provações ainda a aguardavam. A situação política da Península Itálica e a crise decorrente do Grande Cisma do Ocidente acarretaram-lhe muitos sofrimentos. Roma estava dividida em dois grupos que travavam encarniçada guerra: a favor do Papa, os Orsini, de cuja facção Lourenço fazia parte; de outro lado, os Colonna, apoiando Ladislau Durazzo, rei de Nápoles, que invadiu Roma três vezes. Na primeira invasão, Lourenço foi gravemente ferido em combate, sendo curado pela fé e dedicação da esposa. Na segunda, em 1410, as tropas saquearam o palácio dos Ponziani, e os bens da família foram confiscados. Pior ainda, Francisca viu seu esposo e seu filho Batista partirem para o exílio.

Em 1413 e 1414, a capital da Cristandade ficou entregue à pilhagem e reduzida à miséria. Um novo flagelo, a peste, veio agravar essa situação. A Santa transformou o palácio em hospital e cuidava pessoalmente das vítimas da terrível doença. Era um anjo da caridade naquela infeliz cidade assolada pelo infortúnio.

Sua própria família não ficou imune a essa tragédia: em 1413 morreu Evangelista, seu filho mais novo, e no ano seguinte a pequena Inês. Por fim, ela também contraiu a doença, mas foi milagrosamente curada por Deus.

Visões e dons sobrenaturais

Ainda em 1413, apareceu-lhe seu filho falecido havia pouco, tendo a seu lado um jovem do mesmo tamanho, parecendo ser da mesma idade, mas muito mais belo.

- És realmente tu, filho do meu coração? — perguntou ela.

Ele respondeu que estava no Céu, junto com aquele esplendoroso Arcanjo que o Senhor lhe enviava para auxiliá-la em sua peregrinação terrestre.

- Dia e noite o verás ao teu lado e ele te assistirá em tudo — acrescentou.

Aquele Espírito celestial irradiava tal luz que Francisca podia ler ou trabalhar à noite, sem dificuldade alguma, como se fosse dia. E lhe iluminava o caminho quando precisava sair à noite. Na luz desse Arcanjo, ela podia ver os pensamentos mais íntimos dos corações. Recebeu, ademais, o dom do discernimento dos espíritos e o de conselho, os quais usava para converter os pecadores e reconduzir os desviados ao bom caminho.

Deus a favoreceu com numerosas outras visões. As mais impressionantes foram as do inferno. Viu em pormenores os suplícios pelos quais são punidos os condenados, de acordo com os pecados cometidos. Observou a organização hierárquica dos demônios e as funções de cada um na obra de perdição das almas, uma paródia da hierarquia dos Coros Angélicos. Lúcifer é o rei do orgulho e o chefe de todos. Viu ainda como os atos de virtude praticados pelos bons atormentam essas miseráveis criaturas e prejudicam sua ação na terra.

Vida de apostolado

Tendo falecido o rei Ladislau, restabeleceu-se a paz na Cidade Eterna, seu esposo e seu filho Batista regressaram do exílio, e a família Ponziani recuperou os bens injustamente confiscados.

Por meio de orações e boas palavras, a Santa conseguiu convencer Lourenço a reconciliar-se com seus inimigos e a entregar-se a uma vida de perfeição. E após o casamento do filho, entregou à nora — convertida por ela — o governo do palácio para dedicar-se inteiramente às obras de caridade e de apostolado.

Lourenço deixou-a livre para fundar uma associação de religiosas seculares, com a condição de continuar vivendo no lar e não parar de guiá-lo no caminho da santidade. Orientada por seu diretor espiritual, fundou uma sociedade denominada Oblatas da Santíssima Virgem, segundo o modelo dos beneditinos de Monte Olivetto. Em 15 de agosto de 1425, Francisca e outras nove damas fizeram sua oblação a Deus e a Maria Santíssima, mas sem emitir votos solenes. Vivia cada qual em sua casa, seguindo os conselhos evangélicos, e se reuniam na igreja de Santa Maria Nova para ouvir as palavras de sua fundadora, que para elas era guia e modelo a imitar.

Alguns anos depois, ela recebeu a inspiração de transformar essa sociedade em congregação religiosa. Adquiriu o imóvel de nome Tor de’ Specchi e, em março de 1433, dez Oblatas de Maria foram revestidas do hábito e ali se estabeleceram, em regime de vida comunitária. Em julho desse mesmo ano, o Papa Eugenio IV erigiu a Congregação das Oblatas da Santíssima Virgem, nome mudado posteriormente para Congregação das Oblatas de Santa Francisca Romana. Era uma instituição nova e original para seu tempo: religiosas sem votos, sem clausura, mas de vida austera e dedicadas a um genuíno apostolado social.

Comprometida como estava pelo matrimônio, somente depois da morte do esposo, em 1436, Francisca pôde afinal realizar o maior desejo de sua vida: fazer-se religiosa. Entrou como mera postulante na congregação por ela fundada. Mas foi obrigada — pelo capítulo da comunidade e pelo diretor espiritual — a aceitar os encargos de superiora e fundadora.


Viu o Céu aberto e os Anjos vindos para buscá-la

Viveu no convento apenas três anos. Em 1440, viu-se forçada a retornar ao palácio Ponziani para cuidar de seu filho, gravemente enfermo. Atingida por uma forte pleurisia, ali permaneceu, por não ter mais forças. Soube então que havia chegado seu derradeiro momento. Padeceu terrivelmente durante uma semana, mas pôde dar seus últimos conselhos às suas filhas espirituais e despedir-se delas.

No dia 9 de março, depois de agradecer a seu diretor, o Padre Giovanni, em seu nome e no da comunidade, quis rezar as Vésperas do Ofício da Santíssima Virgem. Com os olhos muito brilhantes, dizia estar vendo o Céu aberto e haverem chegado os Anjos para buscá-la. Com um sorriso iluminando-lhe a face, sua alma deixou esta Terra.

Ao elevá-la às honras dos altares, em maio de 1608, o Papa Paulo V qualificou-a de “a mais romana de todas as Santas”. E o Cardeal São Roberto Belarmino, que contribuíra decisivamente, com seu voto, para a canonização, declarou no Consistório: “A proclamação da santidade de Francisca será de admirável proveito para classes muito diferentes de pessoas: as virgens, as mulheres casadas, as viúvas e as religiosas”.


Quatro séculos depois, o Cardeal Ângelo Sodano traçava dela este quadro: “Lendo sua vida, parece que nos deparamos com uma daquelas mulheres fortes, das quais estão repletos os Livros Sagrados e as páginas da História da Igreja. […] Mulher de ação, Francisca hauria, contudo, de uma intensa vida de oração a força necessária para seu apostolado social”.

Precioso conselho para todos nós: é “de uma intensa vida de oração” que nos vem a força para levar avante nossas obras de apostolado.

(Revista Arautos do Evangelho, Março/2009, n. 87, p. 30 a 33).

SANTA TERESA EUSTÓQUIO VERZERI, Virgem e Fundadora (Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus)


Teresa Verzeri nasceu no dia 31 de julho de 1801, em Bérgamo (Itália), era a mais velha dos sete filhos de Antônio Verzeri e da Condessa Helena Pedrocca-Grumelli. Seu irmão, Jerônimo, se tornou bispo de Brescia. Sua mãe, em dúvida se devia escolher o casamento ou abraçar a vida monástica, ouviu sua tia Antônia M. Grumelli, religiosa Clarissa, dizer em tom profético: "Deus te destina aquele estado para tornar-se mãe de uma santa prole".
   Na mais tenra idade Teresa aprendeu com a mãe, uma mulher eminentemente católica, a conhecer e amar a Deus ardentemente. Em sua jornada espiritual foi dirigida pelo Cônego José Benaglio, Vigário Geral da Diocese de Bérgamo, que já acompanhava a família.
   Teresa completou seus estudos iniciais em casa. Inteligente, dotada de uma mente aberta, vigilante, reta, foi educada para buscar os valores eternos e a fidelidade à ação da graça. Desde a infância até a idade mais madura, Teresa se deixa iluminar pelo Espírito de Verdade que vai animá-la no combate espiritual constante: à luz da fé descobre e experimenta o peso de sua própria fragilidade, desmascarando, tanto quanto é possível ao ser humano, todas as formas de falsidade, orgulho, medo, para se render totalmente a Deus. Por meio da graça, percorreu um caminho feito de desapego, de pureza de intenção, de retidão e simplicidade que a levou a buscar "Deus só".
     Interiormente Teresa viveu a experiência mística da "ausência de Deus", no entanto, ela nunca perdeu sua confiança e o abandono a Deus, Pai providente e misericordioso, a quem ela dedicou sua vida em obediência, e como Jesus sua solidão se tornou entrega de si mesma por amor.

     Na intenção de agradar a Deus e fazer somente a Sua vontade, amadureceu a sua vocação religiosa no Mosteiro Beneditino de Santa Grata, do qual saiu, após uma longa e laboriosa busca, para fundar em Bergamo, juntamente com a Cônego José Benaglio, em 08 de fevereiro de 1831, a Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus.
     Teresa Verzeri viveu na primeira metade do século XIX, um período de grandes mudanças na história da Itália e na sociedade de Bergamo, marcado por mudanças políticas, revoluções, perseguições que não pouparam a Igreja, também penetrada pelo jansenismo, e da crise de valores, fruto da Revolução Francesa.
     Numa época em que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus encontrava resistências, ela confiou às primeiras Filhas do Sagrado Coração este testamento que caracteriza o patrimônio espiritual de sua família religiosa: "Jesus Cristo, a vós e ao vosso instituto tem dado o dom precioso de Seu Coração, porque não aprendestes de outros a santidade, sendo Ele a fonte inesgotável da verdadeira santidade". (Livro dos Deveres, vol. I, p. 484)
     Teresa vê muito claramente as premências, entende as necessidades de seu tempo. Com disponibilidade absoluta em qualquer situação que a caridade o exige, mesmo as mais perigosas e sérias, com suas primeiras companheiras se dedicou a vários serviços apostólicos: "educação da juventude da classe média e da classe baixa; internatos para órfãos em perigo, abandonados e até mesmo desencaminhados; escolas, doutrina cristã, exercícios espirituais, recreações festivas, cuidado dos doentes". (Práticas, 1841)
     Em sua missão revela um talento especial de mestra de almas, apóstola e educadora. Teresa adotou expressamente o sistema preventivo: "Cultivar e guardar com muita atenção a mente e o coração de vossas meninas enquanto ainda são novas, para evitar, tanto quanto possível, que nelas entre o mal, sendo a melhor coisa evitar uma queda com vossos avisos e admoestações do que as reerguer com correção". (Livro dos Deveres, vol. III, p. 368)
     A educação é obra de persuasão respeitando a individualidade; para isso ela recomendou deixar às jovens "uma santa liberdade para que elas possam fazer de boa vontade e de pleno acordo o que, sufocadas pelo mando, fariam como peso e com má vontade"; que a escolha dos meios se adaptem "ao temperamento, às inclinações, às circunstâncias de cada uma ... e sobre o conhecimento de cada uma", determinando a maneira pela qual tratá-la. (Livro dos Deveres, vol. I, p. 447 e 349)
     O Cônego Benaglio morre em 1836. Teresa, apoiada na obediência que lhe garantia que a Congregação foi querida por Deus, dedicou-se completamente à sua aprovação, consolidação e expansão. Enfrentou muitos obstáculos colocados pelas autoridades civis e também pela hierarquia eclesiástica, o que colocou à dura prova a sua virtude. Teresa se mostrou heroica no abandono à vontade de Deus que a sustentava.
     Depois de uma vida de intensa doação, Teresa morreu em Brescia, no dia 3 de março de 1852. Deixou a Congregação já aprovada pela Igreja e pelo governo, uma vasta documentação – especialmente nas Constituições, no Livro dos Deveres, e em mais de 3.500 cartas – na qual é possível admirar toda a riqueza de sua experiência espiritual e humana.
     A preciosa herança espiritual transmitida por ela à Congregação encontra seu centro no Coração de Jesus, de quem a Filha do Sagrado Coração herda o espírito de eximia caridade que a obriga a ser "toda para todos". Teresa a coloca desta forma:

     "As Filhas do Sagrado Coração de Jesus, como aqueles que absorvem sua caridade na própria fonte do amor, isto é, no Coração de Jesus Cristo, devem arder da caridade do mesmo Coração divino pelo próximo. Caridade puríssima que não visa senão a glória de Deus e o bem das almas; caridade universal que não exclui ninguém, mas abraça a todos; caridade generosa que não se abate no sofrimento, não se alarma com a contradição, mas que no sofrimento e na oposição cresce em força e vence pela paciência". (Livro dos Deveres, vol. I, p. 58)
    Animadas deste espírito, as Filhas do Sagrado Coração de Jesus continuam hoje a missão de Teresa na Itália, Brasil, Argentina e Bolívia, na República Centro Africana e em Camarões, na Índia e na Albânia.
     As relíquias de Santa Teresa Verzeri são veneradas na capela das Filhas do Sagrado Coração de Jesus, em Bergamo.

     Foi canonizada em 10 de junho de 2001 por São João Paulo II.