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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Venerável Servo de Deus Nicola d'Onofrio, Estudante Camiliano.



Venerável Nicola d'Onofrio, estudante camiliano,
modelo de santidade para os jovens religiosos.
OS PRIMEIROS ANOS

Nicola d’Onofrio nasceu em Villamagna, Diocese de Chieti – Abruzzo (Itália) – no dia 24 de março de 1943. Foi batizado na Igreja paroquial de Santa Maria Maggiore no dia 27 de março sucessivo, recebendo o nome de Nicola. Seu pai chamava-se Giovanni. Homem moralmente íntegro, trabalhador tenaz do campo, cheio da sabedoria popular da gente do campo das antigas famílias do Abruzzo. Religioso, pio e austero, como são normalmente os homens dessa região italiana. A mãe, Virginia Ferrara, era uma mulher forte e delicada, eleita pela piedade e espírito cristão. Soube incutir no filho o culto da religiosidade da vida, delicadeza e uma notável gentileza e serenidade de espírito.

Recebeu o sacramento da Crisma no dia 17 de outubro de 1953, e três anos antes - no dia da festa do Corpus Domini, 08 de junho de 1950 - a Primeira Comunhão. Frequentou a escola primária de Villamagna, na vila Madonna del Carmine, destacando-se pela diligência, bondade e disponibilidade para com os outros, como confirmam a professora e os colegas. Não esqueceu o serviço do Altar da igreja paroquial, onde se dirigia também no inverno, apesar da sua casa se situar a vários quilômetros, na divisa com Bucchianico, terra natal de S. Camillo de Lellis.



NO SEMINÁRIO EM ROMA

Um sacerdote da Ordem de São Camillo, o padre Santino, seu conterrâneo, dirigiu-lhe o convite para entrar no seminário camiliano de Roma. D’Onofrio o acolheu com alegria e logo manifestou aos pais a sua decisão. Estes se opuseram. A mãe, porque queria que entrasse no seminário diocesano da cidade vizinha, Chieti. O pai, porque via que iria perder fortes braços para o trabalho no campo, sendo Nicola o primeiro de dois filhos – o outro, Tommaso, era mais jovem – já trabalhando em úteis serviços da casa e do campo, próprios para a sua idade. Também duas tias solteiras, irmãs do pai, que viviam com a família, o adulavam dizendo que o fariam único herdeiro, se ficasse. Toda a vida de Nicolino foi de uma simplicidade genuína.
A oposição da família durou um ano. Tempo esse que Nicolino viveu em oração e estudo, e finalmente obteve a permissão de entrar no Studentato Camilliano de Roma. Era o dia 03 de outubro de 1955 quando entrou, festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, que se tornará depois sua guia espiritual. No concorrido seminário, como ainda o eram naqueles tempos estes centros de seleção ao sacerdócio, o jovem Nicola não escapou à observação de quem devia colher os sinais de uma vocação certa. Logo se percebeu uma seriedade de intenções em trabalhar sobre si mesmo, entregando-se totalmente aos Superiores na direção do espírito. Dois anos depois tomou conhecimento que o pai queria que voltasse para casa. Escreveu, então, uma forte carta comunicando a sua irremovível vontade de continuar para o sacerdócio na Ordem Camiliana, custasse o que custasse. Várias as motivações apresentadas para sustentar a sua decisão, entre tantas o pensamento de S. João Bosco: “A mais bonita dádiva para uma família é ter um filho sacerdote”.


D'Onofrio (extremidade direita), com seus companheiros do seminário camiliano. 


NOVIÇO
No dia 06 de outubro de 1960, vestiu o hábito dos religiosos de São Camilo, iniciando assim o ano do noviciado. No final do curso de exercícios espirituais, dessa etapa muito importante da sua vida, escreveu: “...Jesus, se um dia terei que abandonar como tantos o hábito santo, faça que eu morra antes de recebê-lo pela primeira vez; não tenho medo de morrer agora, estou na tua Graça. Que coisa suave poder ver-Te junto à Tua e minha mãe: Maria!”
Durante todo o ano do noviciado registrou no seu “Diário” propósitos e pequenas conquistas, momentos de luta e de aridez. Nesse escrito se evidencia a vontade firme de continuar no caminho da chamada divina, entregando-se à ajuda do Céu, sintetizado nessa expressão: “O demônio se vence estando próximo de Jesus e Maria pelos sacramentos e oração”.
Já nesse momento vivia intensamente o carisma camiliano. De maneira singular brilha pela assistência prestada a um coirmão de idade, o Pe. Del Greco, gravemente doente por causa de um tumor na garganta. Vale, particularmente, lembrar o que disse ao mesmo sacerdote na Sexta Feira Santa daquele ano: “Padre, una as suas dores àquelas de Jesus agonizante... hoje é Sexta Feira Santa, dia bonito para o senhor que sofre junto de Jesus”.

Conservava sempre um espírito alegre e bem
humorado, sinal da alegria interior que
possuía. 

PRIMEIROS VOTOS RELIGIOSOS
Na manhã do dia 07 de outubro de 1961, festividade da Beata Virgem do Rosário, pronunciou, com validade de três anos, os votos de Pobreza, Castidade, Obediência e Caridade para com os doentes, mesmo que contagiosos, depois de um intenso ano de preparação, considerado ótimo pelos Padres Capitulares . Teve início, naquele dia, o período de formação como Religioso Professo Camiliano. Sereno e feliz, disponível para com todos, observante da vida em comum, assíduo nas orações e diligente nos estudos, com humildade e simplicidade, sem assumir comportamentos atípicos ou teatrais.
Os seus superiores diretos – o Provincial, Padre Andrea C. e o Mestre dos clérigos Padre Renato D. – são os seus guias e testemunhas do seu progredir, lento, mas, constante, ao cimo do Monte Santo de Deus. Teve um amor ardente para Jesus Eucarístico, que recebia diariamente e visitava frequentemente de dia na igreja do seminário, ou da Universidade Gregoriana. Matriculou-se também na “Guarda de Honra ao Sagrado Coração de Jesus”, escolhendo o horário das 8:00 às 9:00 horas como seu momento de reparação. Tinha uma filial e tenra devoção para a Virgem Maria, sem cair nunca em banais e superficiais sentimentalismos. Uma acesa devoção para Santa Teresinha do Menino Jesus, levou-o a assumir a espiritualidade da Pequena Via.


NO CARISMA DE SÃO CAMILO

Um amor profundo ao seu Pai e Fundador São Camilo, estudando profundamente o seu espirito, sonhando intensas jornadas de trabalho no serviço dos doentes, quando no futuro se tornaria sacerdote. Não tinha medo de manifestar a todos o seu ardor para a vocação camiliana. Diligente nos estudos, aplicava-se seriamente nas tarefas escolares, cultivando estima e afeto para os professores. Era dócil e atento, ansioso para compreender a ciência que lhe era apresentada, considerada necessária para desenvolver dignamente o seu sacerdócio no serviço dos irmãos sofredores.
No breve período de vida como estudante religioso camiliano, demonstrou grande amor e apego à sua nova família, declarando-se feliz de permanecer na Casa religiosa, saindo pouco, e dedicando seu coração, talento e tempo às várias necessidades da comunidade religiosa.



A DOENÇA

No fim do ano de 1962, começou a sentir os primeiros sintomas do mal que o levaria à morte aos 21 anos de idade. Submeteu-se obediente às decisões dos superiores e dos médicos desde o primeiro momento. No dia 30 de julho de 1963, foi operado no setor de urologia do hospital São Camilo de Roma. O exame histológico da parte extirpada deu uma clara resposta de um final já marcado para um breve prazo: teratosarcoma.

O período pós-operatório na casa dos capelães do mesmo hospital revelou um doente paciente e sempre sorridente, atento a não disturbar os coirmãos atenciosos para com ele. Sucessivamente, no dia 19 de agosto, foi internado no Policlínico Umberto I da capital para a cobaltoterapia na região subtorácica, com a secreta esperança do médico, Dr. Mario L., de circunscrever o mal. Desde o dia 24 do mesmo mês continuou essa terapia no ambulatório do mesmo hospital.
O seu comportamento nesse período é de grande exemplo para todos pela paciência que tem em suportar as dores, e a disponibilidade que manifesta em fazer a vontade de Deus, seja qual for. Que soubesse, ou ao menos suspeitasse, de ter um mal de certa gravidade desde o verão anterior, se pode deduzir de uma anotação achada entre os seus papéis, onde escreve: “Fim de junho: em 2-3 dias toma proporções desmedidas. Tratamento com penicilina e “Strepto” dissolvidas com vitaminas B e C”, e mais adiante - além das datas de baixas e cirurgias nos dois hospitais romanos - escreve: “...12-08 Inicio de aplicações de raios y e não y (200 ao dia)...20-08 7ª aplicação, 2 chapas dos pulmões e análises de sangue... 23-08 10ª aplicação, 22 chapas do aparelho digestivo...”.
No recomeço do Ano Acadêmico, no outono, os Superiores o matricularam no primeiro ano de filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana, apesar de já estar tomado profundamente pelo câncer. Também nesse ambiente – para professores e colegas – se evidencia a sua diligência, serenidade e bondade de ânimo.
No começo de janeiro de 1964, foi feita mais uma radiografia no tórax. O pulmão direito apareceu invadido quase completamente pelo câncer. D’Onofrio percebeu definitivamente o seu real estado de saúde, mesmo se ninguém ainda lhe tivesse falado da gravidade de sua situação, aliás todos concorriam para esconder e simular as suas condições, já então sem esperança. Isso se deduz da conversa que teve com o seu irmão Tommaso, em que acenava da certeza de sua próxima partida deste mundo, expressando somente preocupação para a grande dor que a mãe iria sentir.
No final do mês de março daquele ano, pediu para ter uma conversa com o superior provincial para que lhe falasse claramente sobre o seu verdadeiro estado de saúde. Acuado, o superior não pôde esconder a verdade, apesar de falar também de grande esperança e sobretudo da grande confiança na bondade e no poder de Deus, que tudo pode operar, mesmo um grande milagre como aquele que ele precisava.
Conhecida a realidade não reagiu com desespero, mas depois de um momento de intensa reflexão passado quase totalmente na frente de Jesus Eucarístico na igreja do seminário, retomou o seu sorriso normal e intensificou a oração, dando ênfase à meditação. Nas conversas com amigos sobre a realidade de uma morte iminente, não evitava o assunto, e nem dramatizava, mas enfrentava com serenidade e frieza. Quem estava perto dele lembra a sensação de estar lidando com alguém que já vivia da realidade do além como presente já da sua existência, que cedo demais estava indo para o ocaso. Lembram ainda vivamente do seu jeito de discorrer sobre a outra vida com calma e serenidade, sem fanatismos, e que um grande espírito de fé iluminava a sua existência, que ele continuava a conduzir na normalidade, participando da vida em comum do seminário camiliano. Com a secreta esperança de alcançar um grande milagre, os Superiores o enviaram em peregrinação a Lourdes e a Lisieux. D’Onofrio obedecendo foi, principalmente com o objetivo de pedir a ajuda da Virgem Imaculada, e da sua grande pequena Santa Teresinha, para cumprir a vontade de Deus até as consequências mais extremas, serenamente unido à Cruz de Cristo. É o dia 10 de maio: faltam apenas 33 dias para seu encontro com Deus na eternidade.



TOTALMENTE DE DEUS

Com a licença “super triennium”, o Papa Beato Paulo VI de venerável memória, concedeu-lhe de professar os Votos Perpétuos. Nas festividades de Corpus Domini, no dia 28 de maio, na igreja do seminário camiliano romano, consagrou-se ao Deus eterno: último ato de amor de uma breve vida intensamente vivida “orando e amando”. Na manhã do dia 05 de junho, festividade do Sagrado Coração de Jesus, em plena consciência, aceita receber a Unção dos Enfermos, como lhe havia aconselhado o superior provincial. Momento de intensa comoção para os numerosos coirmãos no final da Santa Missa celebrada no quarto onde vive há alguns meses, no andar térreo, para facilitar-lhe os movimentos na cadeira de rodas, e onde recebe as visitas da mãe e dos numerosos amigos.
Os últimos dias da sua vida terrena são um terrível, dramático e contínuo sofrimento. O câncer que avança e toma conta dos pulmões, além de dores terríveis lhe causa momento de sufocamento. Nicolino vive heroicamente o sofrimento junto à cruz de Cristo , invocando a ajuda de Maria e dos santos Camilo e Teresa do Menino Jesus, sempre sereno e nunca se deixando levar ao desespero, atento em não provocar incômodo para quem o assistia, e esforçando-se para esconder quanto possível a inevitável máscara de sofrimento , para evitar dor à mãe que lhe estava- perto. Também para quem o conhece desde pequeno, essa extraordinária entrega à Vontade de Deus desperta admiração e devoção.


UMA FLOR NO CORAÇÃO DE DEUS

Chegou o último dia para Nicolino em 12 de junho de 1964. Uma longa agonia que inicia às 16:00 horas, para encerrar-se às 21:15 horas, depois de um dia passado em oração e manifestações de intensa fé e ardente amor para Jesus e Maria, com a ajuda dos seus dois Santos prediletos, e o conforto da oração comovida dos coirmãos e amigos. O seu superior ainda hoje lembra os seus últimos instantes assim: “Eu entoava as orações, que eram respondida por todos os jovens coirmãos, reunidos ao seu redor no seu quartinho, com ânimo cheio de fé. De vez em quando ele nos animava dizendo: mais, mais... mais forte!, e misturava às nossas invocações algumas suas particulares, que revelavam a sua fé viva na presença de algo ultra sensível perto dele”.
Esse contato com o “ultra sensível” foi notado também por alguns que estavam presentes ao trespasse. As portas do Céu se abriram para ele enquanto, lúcido até o fim, repetia em continuação o ato de oferenda da própria vida e do seu sofrimento, recusando os analgésicos, e incitando os presentes a orar com ele e para ele. Uma coerente conclusão de vida com aquilo que tinha se proposto viver. A profunda impressão que fora consumada uma Paixão se revela nas simples palavras de uma mulher do povo, amiga da família desde sempre: “O médico, percebendo que tinha morrido, abriu a porta e chamou a mãe: Senhora, eis seu filho!, quase fosse a Nossa Senhora recebendo o filho Crucificado”.[12]
Um dos coirmãos ligado a Nicolino por profunda amizade, escrevia nos dias seguintes à morte: “Agora aqui entre nós ficou somente um caule truncado, o seu caule. A flor voou até o coração de Deus. Por isso que, pensando ou falando de Nicolino, naturalmente olho para o alto, desnorteado, inclinado. O meu herói! Tinha entrevisto, sonhado o ideal da santidade, nunca tinha alcançado, porque para tocar uma coisa tem que estar perto, e para que a admiração seja sem sombra, tem que se poder imitar o herói que a inspira. Toquei no meu herói, e depois... pareceu fugir. Mas como Teresina com Celina, eu creio que ele caminhará sempre ao lado de quem soube descobri-lo. Amo-o, já é o meu pequeno grande Santo, com a sua e minha Teresina”.




NA ESPERA DA RESSURREIÇÃO

Presente no sagrado rito fúnebre uma multidão de coirmãos, amigos, conhecidos. Os aflitos e dilacerantes pedidos da mãe induziram os superiores a conceder que os restos mortais de Nicola D’Onofrio fossem enterrados em Villamagna, sua terra natal, no jazigo da família. A última viagem de volta à sua aldeia aconteceu o dia 15 de junho, acompanhado pelos superiores e coirmãos.
Depois da solene celebração eucarística, que contou com a participação de toda a população, foi sepultado na Cappella Ferrara, da família da mãe. Desde o dia 08 de outubro de 1979, Nicola D’Onofrio repousa nos arredores da Cripta do Santuário S. Camilo em Bucchianico, à vista da sua casa natal, reunido à sua família religiosa, na espera da ressurreição no último dia quando voltará o Cristo triunfador sobre a Morte.



...E VEM DE LONGE!

Aqueles que o conheciam intimamente, ou somente tiveram oportunidade de ter contato com ele na fase conhecida por todos do rápido fim, enfrentado com serenidade e o sorriso nos lábios, dão testemunho que foi um comportamento excepcional. E não foi improvisado, nem superficial. A sua ascensão ao Monte Santo de Deus vem de muito longe.
As páginas dos seus escritos originais nos revelam este caminho iniciado desde os primeiros momentos de sua vida no seminário camiliano. A fase terminal de sua vida e a morte são somente o momento revelador de sua dimensão espiritual.



A HERANÇA ESPIRITUAL 

A extraordinária emoção afetiva e religiosa que acompanhou o seu fim, tornada mais dramática pelos terríveis sofrimentos provocados pela doença, deve ser atribuída à verdade “que no sofrimento um homem se torna completamente novo... quando esse corpo é profundamente doente, totalmente inábil e o homem é quase impossibilitado de viver e agir, mais ainda se destacam a maturidade e grandeza espiritual interior, constituindo-se em uma comovente lição para os homens sãos e normais”.
Exceto casos esporádicos de incompreensão, todos advertiram que naquela alma Deus tinha provocado umas respostas extraordinárias, e o caminho tinha sido veloz até a Santa Montanha. Uma religiosa sua coetânea e amiga de infância escreveu que quando soube do seu falecimento sentiu ressoar no seu coração as palavras da Sabedoria : “Chegado em pouco tempo à perfeição, completou uma longa carreira; e sendo sua alma aceita a Deus, por isso foi tirado às pressas do meio da malícia”(4,13-14a).
Um final de vida assim não pode ser improvisado. Vem de longe, e o tempo da morte é somente a ocasião da revelação do trabalho interior desenvolvido. E ele o construiu fundamentalmente sobre a Cruz e a Paixão do Senhor Jesus, com o olhar dirigido sempre para a Glória da Ressurreição. Testemunham isso os seus “Escritos”[15] e aqueles que o frequentaram.


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