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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Venerável Serva de Deus Maria Felícia de Jesus Sacramentado ("Chiquitunga"), carmelita descalça.


Dois fatores foram determinantes para Maria Felícia: a família com os seus valores humanos [1] e o Colégio Católico das Filhas de Maria Auxiliadora, com a sua formação solidamente religiosa. No contato com a exposição elementar do mistério Cristão juntamente com os relatos dos santos jovens Laura Vicuña e Domingos Sávio, despertaram em Felícia o «amor cristão» a Jesus e fizeram dela uma pequena heroína da caridade. Podemos narrar apenas um caso: «Certa vez, o pai ofereceu a Felícia e à sua irmãzinha mais pequena umas capinhas muito bonitas que estriaram num dia frio. Mª Felícia regressou do Colégio regelada...que tinha acontecido? Naquele dia Felícia viu que uma das suas coleguitas tremia de frio pelo pouco agasalho que tinha...não pensou duas vezes e desprendeu-se da capa e cobriu a outra criança. Depois em casa diante da advertência paterna, Felícia respondeu ao pai: «Já vês paizinho, que não sinto frio... – repetis ela (ante a advertência do pai), passando as mãozinhas pelos braços descobertos...Numa outra ocasião aconteceu algo semelhante com os seus sapatos: «Certo dia ela chegou a casa muito feliz com as sandálias de uma criança a quem havia oferecido os seus sapatos. Então já teria os seus 6 anos» – recorda pensativa a sua mãe...

Contudo, não se pense que era um anjinho... Não! Era muito viva e brincalhona...um diabinho. Certo dia – já tinha 8 anos, estando na escola e desde o seu lugar que ficava junto à janela que dava para a rua, para tentar a Religiosa, pôs-se a fazer gestos como quem estava a falar com alguém escondido na parte de fora. A Irmã saiu intrigada e... Não havia ninguém!»

1ª Comunhão: 8 de Dezembro de 1933. Escreve ela alguns anos mais tarde: «Nunca se apagará do meu pensamento a recordação do dia mais feliz da minha vida, o dia da minha primeira União com o meu Deus e este dia é o ponto de partida da minha resolução de ser cada dia melhor ». Sabemos que a Serva de Deus desde esse dia começou a aproximar-se muito frequentemente da Eucaristia, incluso diariamente e isto apesar da resistência do pai que não lhe agradava que ela fosse à Missa todos os dias.

Aos 16 anos ingressa na Ação Católica. A Ação Católica foi a grande escola de santidade e apostolado de Felícia, conhecida pelo nome familiar de «Chiquitunga». Nela se formou como cristã e nela aprendeu a ser apóstolo. Os 9 anos de Ação Católica em Villarrica, foram os de maior atividade na sua formação pessoal espiritual, teológica e apostólica. Alguns temas desenvolvidos nessas reuniões (vida interior, apostolado, sacerdócio) tiveram grande influência poderosa no crescimento espiritual da Serva de Deus como leiga. Foi formada na Ação Católica; e foi formadora na mesma.

IDEAL: O ideal que polarizava o ser inteiro da Serva de Deus aos seus 16 anos não era uma ideia, nem um programa, mas uma Pessoa: JESUS CRISTO. Isto é já bem evidente. A sua relação com ELE, desde a 1ª Comunhão era alimentada pela oração e especialmente junto do Sacrário. O «exercício» desse Amor era o que constituía a sua Vida espiritual. O seu centro vital era a Eucaristia diária. Diariamente rezava os 15 Mistérios do Rosário...

ANOS DÍFÍCEIS: (1947-1949) – a cruenta guerra civil teve como epílogo a repressão e o exílio da oposição. Um dos exilados foi o Pai de Felícia. Maria Felícia, durante o exílio do pai «fez o papel de pai para nós – recordam os seus irmãos – suprindo – o e comunicando-se com ele através de cartas...» Aos seus 22 anos Mª Felícia já tinha assumido todos os assuntos da casa, como uma mulher madura. Hipotecaram a casa familiar e tanto ela como sua mãe trabalharam no duro para conseguirem arranjar o dinheiro necessário para levantar a hipoteca. E conseguiram-no!

Felícia, para com esses contrários políticos que tanto perseguiam o seu apelido (Guggiari) “liberal” só tinha palavras de perdão. E para inculcá-lo aos demais compõe umas poesias que diziam claramente:
]
«Estendei a mão ao vosso adversário

O vosso adversário tradicional»


Maria Felícia (Chiquitunga): uma jovem cheia
de alegria, pois, também cheia do amor de Deus
Jesus é o centro do seu amor. Todavia não havia experimentado o atrativo poderoso de um “enamoramento humano”. Na verdade ela dizia muitas vezes: «Que bom seria ter um amor humano, renunciar a ele e, juntos imolá-lo ao Senhor pelo IDEAL!» Um dia isto foi realidade...

O Pai de Maria Felícia seguia opondo-se às lides apostólicas da filha... e isto chegou a manifestações de atitudes violentas por parte do mesmo, assim como de outras pouco compreensivas por parte dos restantes familiares. Isto só não quebrou a boa harmonia familiar pela bondade, humildade e paciência infinita da Serva de Deus.

Dizem testemunhas de Maria Felícia nesta época: Chiquitunga era a amiga e companheira ideal... Expansiva, generosa e sabia divertir-se e divertir os outros, sem perder de vista a sua renuncia às vaidades nem a sua entrega radical a Jesus e ao apostolado.».

AMOR HUMANO: Numa assembleia de estudantes da Ação Católica, teve o encontro ocasional com um jovem estudante de medicina. Este jovem deu uma conferência, e num intervalo, a jovem Felícia, famosa em toda a Ação Católica do Paraguai, foi-lhe apresentada. Felícia sentiu uma viva sintonia com ele. Esta comunhão profunda de ideais produziu uma profunda empatia entre os dois e um grande afeto e amizade. Os dois começaram a sair juntos para as lides apostólicas e isto alegrou o pai dela. Os dois estavam enamorados.

Ante este fenômeno inesperado, ela perguntava-se: «que significará este amor humano?» e recordando o compromisso com Jesus um dia disse ao jovem: «olha... vamos ser dois grandes amigos...mais do que isso não!»»... pois era necessário discernir a vontade de Deus e em consequência havia que esperar...

Eis que em Maio de 1951, o jovem – Ângelo – confiou-lhe o segredo do seu desejo em tornar-se Sacerdote...

A amizade entre ambos orientou-se decididamente para Cristo. Um dia em que os dois doaram sangue a um doente terminal, Maria Felícia diz a Ângelo: «O nosso sangue que deveria misturar-se nas veias de um filho, misturou-se no coração de um pobre!...». Um dia Felícia escreveu: «Foi o dia da nossa feliz decisão – o dia da partida de Ângelo para o estrangeiro com vistas ao Sacerdócio - aceitando o chamamento de Deus. Deus elegeu-me a mim, o mais insignificante membro do Seu Corpo Místico para esta obra maravilhosa: ter um irmão, sacerdote do Senhor e oferecido, por mim, com todas as potencias do meu ser...».

O desejo que ela tinha manifestado tantas vezes: «Que bom seria ter um amor humano, renunciar a ele e, juntos, imolá-lo ao Senhor pelo IDEAL!»»... E isto se cumpriu à letra...

Depois deste profundo golpe afetivo, Maria Felícia volta-se com todas as forças para o ideal de se entregar completamente ao Senhor. Cada vez mais deseja Deus e chega a dizer-lhe: «Senhor, acalma a minha ânsia de amar-Te, amar-Te até ao delírio, amar-te até morrer...!»

Só depois de fazer os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loiola é que Maria Felícia sabe que a Vontade de Deus é que ingresse no Carmelo. A decisão estava tomada!

Podemos referir aqui um facto que mostra a fortaleza e coragem de Maria Felícia em todas as circunstâncias: Conta uma das suas amigas: «Um dia, passando eu pela Praça Uruguaia da nossa capital, de regresso ao local da Ação Católica, encontrei-me com Felícia, que trazia, debaixo do braço vários rolos de cartolina. Quando lhe perguntei o que era aquilo, ela respondeu-me como quem traz um troféu depois do triunfo, que eram os calendários pornográficos que tinha conseguido arrancar das paredes, e posto outros de paisagens e flores, de oficinas de carros, ferragens, arranjo de sapatos e outras coisas semelhantes... Tais calendários pornográficos estavam a cargo de homens rudes e até violentos às vezes. Quando escutei semelhante coisa, perguntei-lhe como é que ela se animava a tal coisa e como é que não tinha medo daqueles homens...em seguida acrescentei: «eu não me animava a fazê-lo!» ao que ela respondeu: Se eu me animo, porque é que não te ias animar tu?»

Maria Felícia no dia que entrou para o Carmelo
Descalço. 
ENTRADA NO CARMELO: O seu pai permanece inflexível, só em Dezembro de 1954 é que cedeu... Ao receber o «sim» tão desejado de seu pai, Maria Felícia «expressou o seu contentamento com delirante alegria» conta o seu irmão - e correu a anunciar às Madres Carmelitas a boa notícia. Felícia cumpria 30 anos no dia 12 de Janeiro de 1955, dia em que fez a despedida da sua família já que a sua entrada no Carmelo havia ficado marcada para o dia 2 de Fevereiro.

A sua felicidade era imensa ao sentir-se mergulhada no silencio contemplativo do Amor. Ao aproximar-se a Tomada de Hábito, Felícia entra numa noite escura espessa que a crucifica sem piedade... E perguntava-se: «será que Deus me quer no Carmelo quando há tanto, tanto que evangelizar no mundo?» Sentia a angústia de se estar a atraiçoar a si mesma, convencida de que não tinha vocação. Deveria sair, mas se não sai é por cobardia - pensava ela.

Diante desta insegurança prolongada o confessor exigiu-lhe uma decisão final. Ela então sugeriu «deitar à sorte» e o confessor aceitou. A Prioresa submeteu-se ao procedimento. Escreveram 2 papeis. Oraram as duas: Prioresa e Postulante, diante do Sacrário e logo Maria Felícia, aos pés da imagem de Maria tirou um dos papeis e levou-o ao confessor. Dizia: «Quero morrer no Carmelo» ... Assim triunfou e sossegou Felícia confiando-se à Vontade de Deus. No dia 13 de Agosto, sem sair da noite escura, mas já fortalecida e pacificada manifesta «desejos grandíssimos de fazer a Vontade de Deus e nada mais!» . Comenta uma das Irmãs: «O 1º milagre de Maria Felícia foi o seu pai confessar-se e comungar quando ela entrou no Carmelo!» Sabemos bem as ideias políticas que ele tinha...e a indiferença e frialdade em relação a tudo quanto se referia a Religião.

Irmã Maria Felícia no dia que foi revestida
de seu hábito religioso. 
Maria Felícia sempre tão alegre e pacificada, assumiu a sua vida como uma missa oferecida pelo seu amigo sacerdote e por todos os sacerdotes do mundo inteiro. Era uma verdadeira enamorada de Jesus Eucaristia!

Em Janeiro de 1959 foi atacada pela hepatite. A sua doença foi ocasião propícia para mostrar a sua íntima adesão à Vontade do pai, a sua alegria em configurar-se com Jesus. Uma das suas companheiras recorda o momento da sua partida para o Hospital: A serva de Deus, sorridente - como sempre - e serena «parecia estar consciente de que estava nos seus últimos momentos; via-se que estava em posse da paz, tranquila e feliz.»

Ao ver-se desterrada do seu querido Carmelo, escreveu 8 cartas à sua Prioresa. Preciosas pelo seu conteúdo!

Dia 4 visita-a o Padre Provincial...e ao sair este declara: «É outra Teresinha».

A reação de Maria Felícia ante as notícias do seu estado cada vez mais grave eram sempre: « Obrigada Jesus...tudo isto pelos Teus Sacerdotes!»

Desabafava ela: «Tenho sede do Seu Amor! Possuo um desejo estranho de entrega total, de imolação silenciosa e escondida: Sofro - como não sei dar a entender - este desterro. Cada dia me parece mais verdadeira a minha vocação e amo-a como só Deus pode saber!»

Na noite da sua partida entrou em coma várias vezes... E numa das vezes Felícia, ao vir a si, exclamou sorridente: «Jesus está a jogar comigo!»

Finalmente chegou o momento... Seu irmão médico afirma que já morreu. Começam a desligá-la dos aparelhos quando sucedeu o imprevisto: Conta a própria Prioresa: « De repente iluminou-se o rosto de Maria Felícia com um sorriso inexprimível; levantou as mãos que tinha unidas apertando o Crucifixo da Profissão e com voz clara e forte disse: Paizinho querido, sou a pessoa mais feliz do mundo... Se soubesses o que é na verdade a Religião Católica! E terminou dizendo estas palavras: «Jesus! Eu Te amo! Que doce encontro! Virgem Maria!» e placidamente partiu, ficando estampado no seu rosto o seu sorriso característico.

Chiquitunga: a "Teresinha" do Paraguai. 



Felícia tinha um temperamento expansivo, cheio de ardor apostólico, tinha humor e ocorrências graciosas mas o que atraía o olhar dos que a rodeavam era um grande Amor a Jesus. Uma verdadeira enamorada que transbordava alegria a tempo inteiro...


Até chegar a pacificação...travou lutas titânicas contra si mesma, contra a sua sensibilidade e vontade própria...afinal é igual a nós, com um percurso necessário, porque ninguém nasce santo...

Cérebro da Venerável Maria Felícia (Chiquitunga) que permaneceu
inexplicavelmente intacto mesmo muitos anos após sua morte. Todo seu
corpo se consumiu naturalmente, porém, seu cérebro conservou-se
incorrupto dentro da calota craniana. 

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