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quarta-feira, 4 de junho de 2014

SÃO FRANCISCO CARACCIOLO, Presbítero e Fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Mínimos




São Francisco Caracciolo
Curado da lepra aos 22 anos, dedicou-se inteiramente ao serviço de Deus na Ordem dos Clérigos Regulares Mínimos, que fundou.

Deus Nosso Senhor suscitou no século XVI várias Ordens religiosas para fazer frente à heresia protestante e à decadência de costumes. Uma delas foi a dos Clérigos Regulares Mínimos, fundada por São Francisco Caracciolo e pelo Venerável João Agostinho Adorno para o cuidado das paróquias e da vida conventual.

Ascânio Caracciolo (nome de batismo) nasceu no dia 13 de outubro de 1563 em Vila Santa Maria, no reino de Nápoles, numa ilustre família da nobreza local.

Desde pequeno destacou-se por sua suma gentileza, retidão, amor à penitência e uma terna devoção à Santíssima Virgem. Tão logo aprendeu a ler, começou a rezar diariamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora e o terço, e a jejuar aos sábados em honra da Mãe de Deus.

Na adolescência, a fim de evitar a ociosidade e vencer a concupiscência da carne, mantendo uma ilibada pureza, Ascânio dedicava-se à caça e a outros exercícios corporais.

Entretanto, não havia ainda escolhido um estado de vida quando, aos 22 anos, contraiu violenta lepra, que lhe provocou uma chaga no estômago, colocando sua vida em risco. Ascânio sentiu então na própria pele quão frágil e efêmera era sua existência terrena, e pensou na eternidade. Prometeu então a Deus que, se fosse curado, consagrar-lhe-ia o resto de seus dias. Esse era o beneplácito divino, pois ele foi curado milagrosamente com tanta prontidão e eficácia, que não lhe restou no corpo nenhuma marca da mortal doença.



Uma carta: um engano providencial

Ascânio comunicou então a seus pais sua resolução e, de posse da parte que lhe tocava da herança paterna, distribuiu-a aos pobres e dirigiu-se a Nápoles, a fim de principiar seus estudos eclesiásticos. Em 1587, graças à sua portentosa inteligência e aplicação, foi ordenado sacerdote.

Havia em Nápoles uma benemérita confraria chamada dos Penitentes Brancos, cujos membros se ocupavam particularmente em preparar para a morte os condenados, auxiliar espiritual e materialmente os cativos e condenados às galés, e evangelizar os pobres e necessitados. O santo ingressou nessa confraria, passando a dedicar, até o fim de seus dias, parte de seu tempo a esse apostolado.

Entretanto o Pe. Ascânio suplicava muito a Deus que o fizesse compreender o que queria dele, pois sentia que ainda não tinha encontrado sua verdadeira vocação.


Foi assim que, em certo dia de 1588, ele recebeu uma carta de um parente seu, Pe. Fabrício Caracciolo, que mudou sua vida. Com efeito, tratava-se de um convite para que o destinatário fosse à residência do Pe. Fabrício para conversar sobre algo que lhe poderia interessar. Lá encontrou também um outro sacerdote, o Pe. João Agostinho Adorno, de ilustre família de Gênova, que tinha abandonado o mundo e desejava fundar uma nova Ordem religiosa unindo a vida ativa à contemplativa. O mais extraordinário é que o destinatário da missiva era outro com o mesmo nome do nosso Ascânio, mas ela, por um engano, foi entregue a este. Os três sacerdotes viram nisso a mão da Providência, tanto mais quanto o futuro santo interessou-se muito pelo projeto e quis dele participar.

Ascânio e Agostinho dirigiram-se então a uma camáldula perto de Nápoles para, no recolhimento e na oração, amadurecerem o projeto. Como eram pessoas sérias, para alcançar as bênçãos de Deus estabeleceram entre si um turno de penitências, de maneira que enquanto um jejuava a pão e água, o outro se disciplinava. Surgiram assim os Clérigos Regulares Mínimos, para maior glória da Igreja.


Cuidado paroquial e vida conventual

O que distinguia esses clérigos regulares dos simples sacerdotes e dos religiosos com votos? “Por clérigos regulares entende-se esses corpos de homens na Igreja que, pela própria natureza de seu instituto, unem a perfeição do estado religioso com o ofício sacerdotal. Isto é, sendo essencialmente clérigos, devotados ao exercício do ministério da pregação, da administração dos Sacramentos, da educação da juventude, e de outras obras de misericórdia espirituais e corporais, são ao mesmo tempo religiosos no mais estrito sentido da palavra, professando solenes votos, e vivendo a vida de comunidade de acordo com a regra solenemente aprovada pelo soberano Pontífice”.(1)

Os dois fundadores encontraram logo muitos seguidores: “os clérigos regulares foram tão bem sucedidos e populares quanto bem adaptados às modernas necessidades, que seu modo de vida foi escolhido como modelo para várias comunidades de homens, quer religiosas ou seculares, vivendo sob uma regra, no que a Igreja tem sido tão prolífica em tempos recentes”.(2) Os primeiros religiosos a adotar esse modelo de vida tinham sido os Teatinos, fundados por São Caetano de Tiene em Roma, em 1524.

Assim, congregação fundada por São Francisco Caracciolo e pelo venerável Adorno era ao mesmo tempo contemplativa e ativa. E aos três votos usuais — pobreza, obediência e castidade — acrescentavam um quarto: o de não aspirar a dignidades eclesiásticas fora da Ordem, nem procurá-las dentro dela. Faziam adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento em turnos. A Ordem também prescrevia frequentes exames de consciência, a prática contínua da oração, e rigorosas mortificações. Assim, os irmãos se alternavam nos sacrifícios diários: enquanto um jejuava a pão e água, outro aplicava a disciplina e um terceiro portava o cilício, de modo que a penitência não cessasse jamais de aplacar a cólera de Deus e atrair suas bênçãos.(3) O moto da Ordem era Ad majorem Dei Resurgentis gloriam, escolhido por Francisco e Adorno quando fizeram sua profissão no Domingo da Paixão de 1589.(4)

Quando perfizeram o número de 12, Ascânio e Agostinho dirigiram-se a Roma para tentar a aprovação de sua Ordem. “Ao recebê-los, o Papa Sixto V, com aquela doçura e amabilidade que o caracterizavam, fixou neles seu bondoso e penetrante olhar, e em um instante mediu a prodigiosa sabedoria, piedade e prudência do mais jovem, Ascânio, que tinha 25 anos, e ficou muito agradavelmente surpreso. Encomendou o exame do projeto da nova ordem religiosa a uma comissão de três cardeais, que ele mesmo nomeou. [...] Transcorreram dois meses quando, contra toda a esperança, no dia 1º. de julho de 1588, Sixto V expediu uma bula criando a Ordem dos Clérigos Regulares Mínimos”.(5) O Papa deu-lhes então o convento de Santa Maria Maior ou Pietrasanta, em Nápoles.

Ascânio Caracciolo mudou então seu nome para Francisco, por devoção a São Francisco Xavier.



Em perigo de naufrágio, recurso à Estrela do Mar

Seguindo o desejo do Sumo Pontífice, no ano seguinte os dois fundadores partiram para a Espanha com o intuito de lá fundar uma casa de sua Ordem.

Mas esta não estava ainda nos planos da Providência e os dois religiosos tiveram que voltar à Itália. Passando por Valência, um religioso inglês que fugira da Inglaterra por causa das perseguições da ímpia rainha Isabel I, predisse aos dois religiosos: “Vós sois os fundadores de uma Ordem nova, que se espalhará em breve para a glória de Deus e a salvação das almas, e que florescerá particularmente neste reino”. O que confortou muito os dois amigos.

Antes de partirem para Nápoles, São Francisco Caracciolo reuniu toda a tripulação do navio em uma ermida às margens do Mediterrâneo, exortando-a a colocar-se sob o amparo da Estrela do Mar, pois haveriam de correr grandes riscos na travessia. Realmente foi o que aconteceu, só se evitando um naufrágio graças às orações dos dois religiosos. O navio desgovernado acabou encalhando num banco de areia de uma praia deserta. Para fugir às manifestações de regozijo e agradecimento da tripulação, os dois mínimos entraram em um bosque. Nele se perderam, mas foram salvos milagrosamente.

João Agostinho Adorno faleceu, em odor de santidade, em setembro de 1591, com apenas 40 anos. São Francisco foi então escolhido por unanimidade como Superior Geral dos Mínimos.



A glória de Deus é a única finalidade

São Francisco Caracciolo foi novamente à Espanha para tentar fundar uma Casa. Desta vez o monarca Felipe II entregou seu pedido para estudo ao cardeal Quiroga, Arcebispo de Toledo, que se manifestou favorável à empresa. Fundou-se assim a primeira casa na Espanha, dedicada ao glorioso patriarca São José.
           
A obra progredia a olhos vistos, de maneira a suscitar o ódio dos adversários que toda obra de Deus encontra. Um poderoso e influente senhor da corte conseguiu que o Conselho Real mandasse fechar imediatamente a Casa, concedendo um prazo de dez dias para que os religiosos saíssem da Espanha. Após várias tentativas, como último recurso, São Francisco foi lançar-se aos pés de Felipe II, implorando sua ajuda. O monarca ficou tão impressionado com o santo que, apesar de seu Conselho Real, ratificou a fundação e a permanência dos religiosos no país.

Numa terceira viagem à Espanha, São Francisco fundou também uma residência da Ordem em Valladolid e outra em Alcalá de Henares. Inúmeros milagres e prodígios marcaram sua estadia em Madrid, de modo que o povo passou a chamá-lo de Apóstolo do amor divino, pois o santo tinha sempre nos lábios as palavras de Davi: “O zelo de tua casa me devora” (Sl 68, 10), sendo a glória de Deus o único fim de todos os seus atos.

Notável pelo seu trabalho junto aos pobres , era um fazedor de milagres e tinha o dom da profecia. Ele curava fazendo o sinal da cruz sobre os doentes que lhe eram levados, e do mesmo modo expulsava o demônio dos possessos. Era um pregador muito popular em sua região. O Papa Paulo V desejava que ele fosse bispo, mas, recusou repetidamente, citando o voto da Congregação que proibia aceitar qualquer alta posição na Igreja. No final de sua vida ele renunciou de suas funções e passou seu tempo em oração e a se preparar para a morte.




Lugar do repouso pelos séculos dos séculos

São Francisco escolheu para seu aposento em Nápoles um vão muito pequeno e incômodo embaixo da escada da Casa, onde entrava frequentemente em êxtase. Foi lá que o encontraram os eclesiásticos que, da parte do Papa Paulo V, foram lhe oferecer o episcopado, que ele rejeitou.


Apesar de ser relativamente novo — pouco mais de 40 anos de idade — São Francisco obteve dispensa de todos os cargos e ofícios para, como dizia, preparar-se para a morte. Mas teve que ceder quando lhe pediram que fosse estabelecer uma fundação em Agnona, pois no caminho poderia venerar a Santa Casa de Loreto. Lá, passando a noite em oração, viu-se de repente rodeado por uma claridade celeste, aparecendo-lhe então Agostinho Adorno, resplandecente de luz: “Caríssimo irmão, disse-lhe ele, sou mensageiro de Maria para dizer-te, da parte dessa bondosa Mãe, que Ela amorosamente cobre com seu manto nossa família, convertendo-se desde já em sua Protetora e Advogada. Deu-me Ela outro encargo: de dizer-te que, dentro de poucos dias, serás chamado à bem-aventurança eterna”.

Desse modo, quando chegou a Agnona, o santo exclamou jubiloso: “Haec est requies mea in saeculum saeculi” (Eis aqui o lugar de meu repouso pelos séculos dos séculos). Os religiosos não entenderam o que ele queria dizer com isso.

Em sua estadia em Agnona, São Francisco encontrou um jovem que levava vida muito licenciosa. Instou-o então a se converter ao Senhor, para evitar a perdição eterna. O insensato acolheu essas palavras com um sorriso de superioridade, caçoando da ameaça. Então São Francisco disse-lhe, com um olhar severo: “Está bem, já que caçoas desse último apelo da misericórdia de Deus, dentro de uma hora cairás nas mãos de sua justiça!” Antes que terminasse a hora predita, o jovem mundano caiu morto.

Pouco tempo depois, foi atacado por uma febre que se tornava cada vez mais alta. No dia em que morreu, uma hora antes do amanhecer, ele levantou-se e gritou: “Para o Céu” e, logo depois, faleceu. Era o dia 4 de junho de 1608, aos 44 anos. Ele foi beatificado por Clemente XIV em 10 de setembro de 1769, e canonizado por Pio VII em 27 de maio de 1807.












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