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quinta-feira, 5 de junho de 2014

SÃO FÉLIX DE NICÓSIA, Irmão Capuchinho (dois textos biográficos)


Primeiro texto 


Num intervalo de 200 anos, o Senhor se dignou nos dar em São Félix de Nicosia (1715) uma identificação com São Félix de Cantalício (1515). É surpreendente a coincidência nas mais importantes datas de suas vidas: ambos entraram nos Capuchinhos aos 28 anos; professaram aos 29, e aos 72, sendo Irmãos leigos, concluíram a sua meritória jornada.
De família pobre e numerosa, Félix de Nicosia teve de adiar o ingresso na vida religiosa para procurar, como sapateiro, o seu sustento. Por isso, desde criança, habituou-se à santa paciência, com uma vida bondosa e de quotidiano sacrifício. Reza e espera... Espera e reza...
Mas, finalmente, Deus dignou-se ouvir o seu clamor ardente. Como lhe batia o coração a primeira vez que, radiante e ansioso, foi pedir aos Capuchinhos que o recebessem! Queria ficar com eles para melhor salvar a sua alma! Foi fácil de ver, naquele jovem já maduro, a sua total predisposição para o bem e o perfil de um santo. Grande seria a responsabilidade dos Superiores se, com tal têmpera, lhe tivessem roubado o manto da glória.
E, de fato, não faltou esse hábil discernimento. O padre Macário, superior austero e capaz, religioso estimado pelos confrades e por toda a gente, espera, de propósito e com desapiedada firmeza, fazer dele um homem de Deus, estimulando-o a subir até ao vértice do genuíno heroísmo. Para conseguir tal objetivo, usou um método educativo parcial, estranho e, até mesmo, injusto, que seria sem dúvida reprovável e condenável, se não reconhecêssemos em tudo isso o dedo de Deus. Habitualmente padre Macário não o chamava pelo seu nome de Félix, mas por um apelido humilhante: "Frei Descontente". Contudo, dos seus lábios não se ouvia mais do que esta resposta: "Seja pelo amor de Deus sua santa caridade".
Uma noite, Frei Félix, totalmente absorto em meditação, não se dá conta do sinal para o jantar e entra no refeitório depois da bênção da mesa. "De pé" - grita o padre Guardião à comunidade - "Eis o peregrino que vem de Meca". O humilde irmão ajoelha-se, beija o chão e agradece. Vai depois, tranquilamente, para o seu lugar. Mas o padre Macário continua: "Como ousas, Frei Descontente, depois de ter perturbado os religiosos, sentar-te à mesa? Vai comer no curral: é lá o teu lugar". Não dando sinais de qualquer perturbação, Frei Félix levanta-se, beija o chão e sai. Passados poucos minutos, o Superior manda ver o que se passa: ele estava de joelhos, num ângulo do curral, comendo a sua comida em paz. "Ide chamá-lo". Ele vem. O mesmo acolhimento anterior: "De pé! Eis o peregrino que vem de Meca". Depois acrescenta: "Desta vez, Frei Descontente, vais para o teu lugar, mas de agora em diante não perturbes mais a família religiosa". Era assim todos os dias; era assim quase todas as horas. Não seria demais?
Certa vez veio ao convento um cavalheiro saudar um amigo. Encontra o servo de Deus: "Oh, Frei Félix, como está?" "Bem, Deus seja louvado". E o amável esmoleiro oferece-lhe a cigarreira, que consistia num simples pedado de cana, fechada por uma tira de lata. Logo o vozeirão do padre Macário se fez ouvir: "Mas, que modo de proceder é este, Frei Descontente"? Frei Félix ajoelha-se diante do Superior. "Que impostura andas por aí a contar? Que és um santo? Que fazes milagres? É para mostrar que tens amor à santa pobreza que metes debaixo do nariz deste nosso benfeitor a tua imunda cigarreira? Vai para o quarto imediatamente! Andas sempre em lugares de passagem, à espera dos seculares para lhes dar a entender que és um santo. Desaparece daqui, hipócrita". - "Seja pelo amor de Deus". E Frei Félix retira-se, calmo e inalteravelmente, em paz. O cavalheiro fica atônito e, depois de um momento de nervosismo, diz: "Caro padre Guardião, se agísseis comigo assim, ter-vos-ia atirado à cara o primeiro objeto que me viesse às mãos; depois abriria a porta e desapareceria". E o padre Macário: "Meu bom amigo, se conhecesses os tesouros de humildade, de paciência, de mansidão, escondidos no nosso Frei Descontente, compreenderias e desculparias o meu modo de agir. Todos os incômodos e todas as injustiças do próprio inferno não poderão perturbar-lhe a serenidade. O meu dever? O meu dever é de ajudá-lo no exercício das preciosas virtudes e de fazê-lo sempre mais amigo de Deus". Acabou o espanto, cresceu a admiração, confortou o bom exemplo.
E os prodígios! Quando um homem chega a tanta virtude, tem o poder de Deus. No regresso de pedir esmola, Frei Félix parava sempre diante de uma imagem de Nossa Senhora das Dores. Um dia, uns garotos, vendo-o imerso em profunda oração, aproximam-se devagarzinho, sem fazer barulho, e metem-lhe no alforje dois grandes pedaços de pedra. Frei Félix não se dá conta e, terminada a oração, entra tranqüilamente no convento. Contudo, uma pessoa vira, de longe, a brincadeira dos rapazolas e prontificou-se a denunciar os culpados. "Boa senhora - responde-lhe o Irmão encarregado do refeitório - na saca apenas encontrei pão, embora alguns pedaços tivessem forma e volume maiores que o costume". Noutra ocasião, após brincadeira semelhante, enquanto ele rezava diante da sua Virgem Dolorosa, os autores da proeza, como se nada fosse, dizem-lhe: "Frei Félix, faz a caridade de nos dar um pouco de pão"? "Tendes fome, filhos do Senhor? Eis"! Mete a mão no alforje e tira alguns pães. Tinham a forma de pedras; mas eram mesmo pães. E oferece-lhos. Os desordeiros ficam atrapalhados, olham uns para os outros, refletem e aprendem a lição.
Uma outra vez, andava o irmão com o seu habitual alforje - heróico e admirável alforje - quando uma bondosa senhora se aproxima, a chorar, e lhe pede que vá com ela a um pobre moribundo. "Sim, sim, minha boa cristã". A casa era muito pobre e a escada bastante empinada e escura. O doente encontrava-se num mísero quarto, agonizando. Antes de entrar, Frei Félix tira o alforje, dependura-o num raio de sol que entrava por uma fresta, e, maravilha das maravilhas, aí fica suspenso. A primeira a dar-se conta foi uma menina: "Mamã, mamã, vem ver: Frei Félix dependurou o alforje num raio de sol, pensando que fosse uma trave"!

E os milagres da obediência! Como já vimos, que Frei Félix estava totalmente nas mãos do padre Macário: boas, mas tremendas mãos! Tentará, porventura, nosso Frei escapar-se-lhe alguma vez? Nunca! As mãos do Superior são as mãos de Deus. E jamais se permitirá fazer alguma observação a qualquer ordem.
No quarto do padre Guardião encontram-se um dia uns cavalheiros, falando sobre Frei Félix. E, como ele estava no convento, desejam vê-lo. O padre Macário chama-o: "Frei Félix, toma esta bilha, vai depressa àquela cisterna e traze-ma cheia". Ele, diligente, dirige-se à escada. "Depressa - grita o Superior - que estes meus amigos não podem demorar: vai pela janela". Frei Félix, sem dizer uma palavra, salta o peitoril da janela, cai sobre o teto do gracioso claustro e ei-lo lá em baixo, sem medo, sem qualquer arranhão, como se fosse um passarinho, para grande admiração de todos.
São Francisco amava os animais, porque eram também criaturas de Deus. Chamava-os "irmãos" e "irmãs": "Irmãos passarinhos, irmãs cotovias." Trata-se duma herança transmitida aos seus filhos. Também nisso Frei Félix era uma delicada e encantadora alma franciscana. Perto de Nicosia, vivia, longe dos homens, mas perto de Deus, um eremita; alimentava-se do silêncio, da solidão e do diálogo com Deus. O povo tinha-lhe veneração e, confiadamente, recorria às suas orações.
Sabemos que os santos se entendem admiravelmente. O eremita, não se sabe bem por quem, veio a saber que Frei Félix, o esmoleiro dos Capuchinhos, caíra doente. "Sim, sim, vou enviar-lhe um presente, um presente que o ajude a restabelecer-lhe as forças". Escolhe o mais belo pombo que tinha e, adivinhando que o servo de Deus não teria coragem para o matar, ele mesmo corta-lhe o pescoço. Vai depressa levar a pobre ave a Frei Félix, regressando imediatamente ao seu pobre eremitério. Frei Félix fica radiante pela visita; escuta as palavras do Irmão enfermeiro, abre os olhos, levanta-se sobre a mísera cama, toma entre as suas trêmulas mãos o inanimado pombo, olha-o bem, começa a acariciá-lo e diz-lhe: "Ó formosa avezinha do bom Deus, por que estás morta"? E, enquanto fala, continua a passar-lhe suavemente as mãos nas suas belas asas, as asas de seus vôos. E eis que a ave começa a se mover, a agitar, e, viva como dantes, salta-lhe sobre os ombros. A janela está aberta: "Vai, pequenina criatura de Deus; regressa ao teu ninho". Quando o eremita chegou ao seu eremitério, o pombo arrulhava, alegremente, em cima do pequeno telhado.

Em toda a história de Frei Félix, percebemos a manifestação da ação divina pelos muitos milagres. E o mais extraordinário de todos foi a sua bem-aventurada morte. O padre Macário não o queria deixar partir. No seu pobre leito, depois de tantos sofrimentos e tantas cruzes, o bom Irmão encontrava-se completamente desfeito; era mais do céu que da terra. Esperava apenas a tão desejada obediência para o vôo derradeiro. Mas a obediência não chegava. Mostrava todos os sinais da morte, mas estava ainda na vida. O médico, deveras assombrado, diz para o Guardião: "Padre, Frei Félix está certamente morto, há já três horas pelo menos; contudo ele ainda tem alma. Não compreendo nada"! O padre Macário explicou-lhe o mistério. Se o soubessem, até as pedras se comoveriam. "Então, por que não permites que ele deixe este vale de lágrimas?" Finalmente, o padre Macário, deixando cair a habitual máscara de impassibilidade, prorrompe em soluços. Aproxima-se do santo Irmão, cuja admirável vida tinha sido um exemplo edificante para todos e, sinceramente comovido, dirige-lhe as últimas palavras e a primeira saudação: "Frei Félix, se é vontade de Deus que deixes imediatamente a terra, em nome da adorável Trindade, em nome do Seráfico Pai São Francisco, eu te abençôo". Era a libertação. Frei Félix partiu ao encontro de Deus. Era o dia 31 de maio de 1787.
Desde então, a fama da sua santidade difundiu-se por toda a parte, especialmente na Sicília. A sua simples e paciente vida ficou como um forte convite à sua imitação por todos os Irmãos.
Pela sua intercessão, os prodígios continuaram. Pio IX declarou as suas virtudes heróicas em 1862 e, 26 anos depois, a 12 de fevereiro de 1888, Leão XIII o incluiu entre os Beatos. E, finalmente, em 23 de outubro de 2005, o Papa Bento XVI o declarou Santo: São Félix de Nicosia.


Oração:
Ó Senhor Deus, que ensinaste ao teu confessor São Félix de Nicósia a servir-Te com simplicidade e humildade e a dispor o seu coração a admiráveis ascensões, concedei-nos benigno, que depois de haver imitado os seus exemplos na terra, possamos participar no Céu da sua glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo,vosso Filho, nosso Irmão, na unidade do Espírito Santo. Amém.


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Segundo texto 


O primeiro santo Capuchinho, Félix de Cantalício, contribuiu para dar um tom particular de simplicidade, de humildade, de pobreza e de alegria à santidade Capuchinha, tornando-se quase um modelo insubstituível para muitos de nossos irmãos não clérigos.

Assim foi para Tiago Amoroso, o nosso São Félix de Nicosia. Na terra fértil da Sicília, em 1743, com 28 anos, iniciou, no convento de Mistretta, o ano de noviciado, assumindo também no nome a figura e o exemplo do santo frade Félix de Cantalício, canonizado uns 30 anos antes. Mas não tinha sido fácil esta sua vocação, não obstante tivesse ele transcorrido a sua juventude de maneira extraordinariamente virtuosa, porque os seus pais, Felipe Amoroso e Carmela Pirro, que o receberam de Deus no dia 05 de novembro de 1715, tendo já uma grande família pobre de bens, mas ricos do temor de Deus e no testemunho cristão.

O Pai Felipe, sapateiro, queria também que o filho se especializasse na sua profissão e para isso o enviou a João Ciavarelli que tinha a melhor sapataria da cidade com muitos empregados.

Ainda muito jovem começou a freqüentar a Pia união dos "Cappuccinelli" no convento de Nicosia e se inscreveu e vestia a capa dos congregados, com um pequeno capuz franciscano, assimilando bem a espiritualidade Capuchinha, espiritualidade que estava presente em todos os seus atos e durante o seu trabalho. Se alguém o ofendia, simplesmente dizia: "Seja por amor de Deus", o que se transformaria num programa de toda a sua vida. Desde quando era "Cappuccinello", ouvindo soar o sino do convento vizinho dos Capuchinhos, se colocava de joelhos a rezar e convidava também os companheiros: "Está na hora das completas, servos de Deus rezemos o santo rosário à Virgem Santíssima".

Queria muito ser Capuchinho, mas como era muito jovem teve que esperar muitos anos ainda. Aos dezoito anos bateu à porta do convento para ser recebido como frade não clérigo, porque não tinha recebido instrução acadêmica. Recebeu sempre um não, porque a pobreza da sua família exigia a sua contribuição insubstituível no trabalho para sustento da mesma. Mortos os pais, Tiago pediu novamente ao novo provincial dos Capuchinhos, Padre Boaventura de Alcara, em visita a Nicosia, para ser recebido.

Finalmente, depois de 10 (dez) anos de espera, o "Cappuccinello" podia se tornar um completo frade Capuchinho, decidido, com o nome de Felix de Nicosia, no mesmo caminho de São Felix de Cantalício, inclusive com surpreendentes coincidências: noviciado aos 28 anos, profissão aos 29, esmoler por 43 anos em Nicosia, sua terra (assim como São Félix em Roma) e morte aos 72 anos. "Bisaccia eroica" o definirá uma bibliografia popular de Icilio Felici.

Depois do ano de noviciado em Mistretta, Frei Félix foi enviado para Nicosia, onde fez o esmoler (questuante) por toda vida, tornando-se na cidade uma presença de espiritualidade radicada na população e por isso intocável. Ele permaneceu sempre no convento de Colle dos capuchinhos de Nicosia. No convento se prestava a todo serviço: porteiro, hortelão, sapateiro, enfermeiro.

Para esmolar ia mais adiante de Nicosia e atingia Capizzi, Cerami, Gagliano, Mistretta e outros lugares. De casa em casa, muito recatado e mortificado, silencioso, a coroa na mão, caminhava. A sua única palavra era o "Seja por amor de Deus".
Nas estradas instruía as crianças na catequese, atraindo-as com pão e favas. Como São Félix de Cantalício, ele ensinava pequenas canções.
Quando encontrava pobres que transportavam lenha ou outras coisas pesadas, ele se prestava em ajudá-los. Não ficava contente enquanto não pudesse fazer qualquer coisa pelos necessitados. Para os doentes estava sempre pronto para servi-los, dia e noite. Todos os domingos ia visitar os encarcerados e leva-lhes alimento.

Frei Félix era analfabeto. A sua devoção era simples, a palavra um fato da vida, não uma consideração intelectual. Era devotíssimo da Eucaristia, da Virgem das Dores e de Jesus Crucificado.

Seria interminável recontar os numerosos fatos e anedotas acontecidos durante toda a sua vida.

Acabado pelos muitos trabalhos, o físico alquebrado pelas muitas penitências e mortificações, estava sempre pronto para qualquer forma de serviço, sobretudo para os doentes na enfermaria do convento. Enquanto as forças diminuíam nos seus 72 anos de vida, crescia em intensidade a sua concentração em Deus e a sua simples obediência. Se de Francisco de Assis se diz que se tornara a personificação da oração, de Frei Félix de Nicosia se poderia dizer que era a obediência em pessoa, como ato de puro amor. E foi esta a sua última e única mensagem. No final do mês de maio de 1787, no seu leito, recebidos os sacramentos, recomenda-se ao Pai São Francisco e invoca também Nossa Senhora. Sexta, 31 de maio, pede ao seu superior a obediência para morrer, e recebido o consentimento diz: "Seja por amor de Deus", inclinando a cabeça.








(Frei Eurípedes Otoni da Silva - OFMCap.)


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