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sábado, 15 de fevereiro de 2014

BEATO MIGUEL SOPOCKO, Presbítero e Diretor Espiritual de santa Faustina Kowalska.


O beato padre Miguel Sopocko, confessor e diretor espiritual da irmã Faustina, por intermédio dela esteve diretamente ligado com o mistério das revelações de Jesus Misericordioso. Deus lhe confiou um papel extremamente importante – que foi a realização das exigências de Jesus Cristo transmitidas à Santa irmã Faustina. A essa causa ele dedicou quase toda a sua vida.


Miguel Sopocko nasceu numa família nobre no dia 1 de novembro de 1888, em Nowosady, na Lituânia. Desde os anos da infância foi educado num ambiente de profunda religiosidade e tradição patriótica. Apesar das difíceis condições existenciais, os pais se preocuparam com a sua educação fundamental. As difíceis condições de vida da família Sopocko, o pesado trabalho no campo, a necessidade de uma permanente luta pela subsistência familiar constituíam para os seus membros uma escola de vida e de caráter. A sadia moral dos pais, a sua profunda piedade e amor para com os filhos contribuíram para o adequado desenvolvimento espiritual de Miguel e de seus irmãos.

Na família, faziam parte da prática regular as orações diárias no lar e a participação das celebrações na igreja paroquial, a 18 quilômetros de distância, para a qual viajavam de carruagem. A atmosfera religiosa presente na casa dos Sopocko despertou nele, desde a infância, uma ardente piedade e o desejo de dedicar-se ao serviço de Deus no sacerdócio.

Em 1910 Miguel Sopocko iniciou os estudos no seminário, que duraram quatro anos. Não podia contar com a ajuda material da família, e foi apenas em razão de uma ajuda que lhe foi oferecida pelo reitor que pôde continuar os estudos. No dia 15 de junho de 1914 foi ordenado sacerdote.


Os primeiros anos do ministério sacerdotal em Vilna

Após a ordenação sacerdotal, o pe. Sopocko foi encaminhado para trabalhar na paróquia de Taboryszki, perto de Vilna, com a função de vigário. Nesse trabalho as tarefas a ele atribuídas não o sobrecarregavam. Por isso pediu que lhe fosse permitido promover a catequese dominical com os jovens. O primeiro ano do seu trabalho pastoral foi coroado com a solene primeira Confissão e Comunhão, das quais participaram cerca de 500 crianças.

No verão de 1915, passou por Taboryszki a frente de guerra russo-alemã. Apesar das ameaças resultantes das operações bélicas, o pe. Sopocko celebrou os serviços religiosos programados para esse período, bem como participou da vida dos paroquianos. Durante a sua estada em Taboryszki, o pe. Sopocko também desenvolveu atividade no campo cultural. Nas escolas da vizinhança ele abria novas escolas para as crianças. Com o tempo isso se tornou motivo de perseguição da parte das autoridades de ocupação, que no início se mostraram muito tolerantes diante da sua atividade e até a apoiavam materialmente. No entanto, com o decorrer do tempo esse relacionamento piorou, e finalmente as autoridades alemãs começaram a dificultar as viagens do pe. Sopocko a Vilna com o objetivo de trazer professores para as escolas que estavam sendo abertas. Dessa forma forçaram o pe. Miguel a deixar Taboryszki.

Em 1918 o pe. Miguel obteve das autoridades eclesiásticas em Vilna a autorização para viajar a Varsóvia, onde se matriculou na Faculdade de Teologia da universidade local. O início dos estudos foi impossibilitado por uma doença (ele contraiu tifo abdominal e por algumas semanas teve de permanecer hospitalizado) e pelas mudanças políticas que na época ocorriam na Polônia. Após o tratamento o pe. Sopocko voltou a Varsóvia para iniciar os estudos, mas então ocorreu que a universidade foi fechada, em razão da guerra no leste, que irrompeu logo após a proclamação da independência. por isso apresentou-se como voluntário para trabalhar na pastoral militar. O bispo campal do exército polonês nomeou-o capelão militar e encaminhou-o para o ministério pastoral no Hospital Campal, que na época estava sendo organizado em Varsóvia.

Passado um mês, pediu para ser enviado à frente de guerra. Obteve do bispo campal a transferência ao Regimento de Vilna, onde imediatamente se envolveu no trabalho pastoral entre os soldados que participavam da guerra. Entre as suas obrigações estava a celebração de missas e serviços religiosos e o atendimento de confissões, de que participavam muitos soldados. Também proporcionava ajuda aos feridos, que em razão da falta de um hospital encontravam-se em situação muito difícil.


Após longas marchas com o exército, o pe. Sopocko começou a ter problemas de saúde.
Em razão disso foi encaminhado para tratamento no hospital militar, onde durante o período de algumas semanas de recuperação ajudou na assistência espiritual aos doentes. Após o término do tratamento, foram-lhe atribuídas as funções de capelão militar no Campo de Treinamento para oficiais em Varsóvia.
Faziam parte das suas obrigações palestras semanais sobre religião e moral para os oficiais e suboficiais de diversas formações, bem como a assistência religiosa em dois hospitais militares.




O Padre Sopocko como capelão militar da Escola de Oficiais em Powazki

Durante os cursos que promovia, abordava questões de dogma e da história da Igreja.  Promovia o ensino do catecismo e abordava temas atuais relacionados com o serviço militar. A problemática religiosa e moral, por ele abordada nos cursos, foi avaliada positivamente pelos superiores. O Ministério da Guerra publicou essas preleções, obrigando os oficiais a transmitir o seu conteúdo aos recrutas em todos os destacamentos.

Em outubro de 1919, apesar da continuidade da guerra, reiniciaram-se as atividades da universidade. O pe. Sopocko matriculou-se no curso de teologia moral e em aulas de direito e filosofia. Além disso, dedicou-se ainda à organização da atividade social. Cuidava do funcionamento da Ajuda Fraterna Militar (da qual era presidente), do albergue militar e de uma escola militar para órfãos de famílias de militares.

No verão de 1920 o pe. Sopocko foi testemunha do rompimento da frente de guerra e logo depois, já em Varsóvia, vivenciou a heroica defesa da cidade e a vitória contra a ofensiva soviética. Anos depois, em suas Memórias, ele comentaria esse acontecimento como uma extraordinária obra da Divina providência e sinal de Divina misericórdia para a Polônia, alcançada pelas orações dos fiéis, que no mês de agosto acorriam em multidões às igrejas.

Cumprindo as funções de capelão militar e estudando no curso de teologia moral, o pe. Sopocko envolveu-se ainda em estudos adicionais no Instituto Superior de Pedagogia. Em 1923 obteve o título de mestre em teologia e dedicou-se mais à área da pedagogia. O resultado das suas pesquisas relacionadas com a influência do álcool sobre o desenvolvimento intelectual dos jovens serviu de base para escrever o seu trabalho de pós-graduação intitulado "O alcooolismo e a juventude escolar", que coroou os seus estudos no Instituto de Pedagogia.

O bispo de Vilna, Dom Jorge Matulewicz, conhecendo os méritos e as realizações do pe. Sopocko, bem como informado a respeito da preparação teológica e pedagógica do padre capelão, pretendia envolvê-lo no trabalho em sua diocese. Inicialmente queria confiar-lhe a organização da pastoral da juventude extraescolar. O padre Miguel aceitou a proposta do bispo e decidiu voltar a Vilna.

A decisão formal ocorreu no outono de 1924. Por força dela, o pe. Sopocko foi nomeado Diretor da Região Militar da Pastoral em Vilna, que envolvia 12 unidades autônomas, contando no total mais de 10 mil soldados. A transferência do Pe. Sopocko a Vilna era uma promoção, mas ao mesmo tempo lhe impunha maiores tarefas e maior responsabilidade. O pe. Sopocko e a conferência dos capelães militares decidiram que, além da assistência sacramental, pelo menos uma vez a cada duas semanas seriam realizadas em cada seção palestras religioso-morais. O trabalho pastoral do pe. Sopocko como capelão militar contou com o reconhecimento do marechal Józef Pilsudski. 

O pe. Sopocko assumiu também a tarefa que lhe havia sido confiada pelo bispo, a de organizar a pastoral da juventude extraescolar. Para isso pediu a cooperação dos professores e com a ajuda deles foi possível fundar algumas Associações da Juventude Polonesa. Apesar das numerosas tarefas pastorais, o pe. Sopocko continuou a distância os seus estudos de teologia, escrevendo a tese de doutorado em teologia moral intitulada "A família e a legislação nas terras polonesas".

Defendeu a sua tese de doutorado no dia 1 de março de 1926. A dedicação à pesquisa científica exigia o conhecimento de línguas estrangeiras, por isso estudava as línguas alemã, francesa e inglesa. As catequeses e as conferências do capelão militar pe. Sopocko apresentadas aos soldados em língua russa também despertavam um grande interesse entre os fiéis. Após a obtenção do doutorado, pretendia escrever uma outra dissertação, desta vez como requisito para a função de professor.

Em 1927 e 1928, exercendo sempre as funções de diretor da pastoral da Região Militar, foram atribuídos ao pe. Sopocko outras funções de grande responsabilidade: de diretor espiritual no seminário e de chefe da cátedra de teologia pastoral na Universidade de Vilna. Essas novas obrigações forçaram-no a gradualmente afastar-se da pastoral militar.


O pe. Sopocko com os seminaristas, Vilna, 29.09.1935

Como diretor espiritual do seminário, era ao mesmo tempo moderador do Sodalício Mariano, do Círculo Eucarístico, da Ordem Terceira de S. Francisco e do Círculo dos Seminaristas da União Missionária do Clero. Um outro trabalho exercido nesse período e que se estendeu por todo o tempo da permanência do pe. Sopocko em Vilna era a confissão das irmãs religiosas.
Após obter a dispensa parcial da pastoral militar, além da função de diretor espiritual no seminário, as suas tarefas básicas eram as aulas e o trabalho científico.

Visto que na época havia falta de manuais adequados, ele mesmo preparava apostilas para as matérias por ele lecionadas.Estas eram mimeografadas pelos estudantes e por muitos anos serviram de material de apoio nos estudos. As pesquisas científicas do pe. Sopocko estavam relacionadas principalmente com a preparação da sua tese de habilitação para professor e relacionavam-se com questões da educação religiosa. A fim de coletar materiais para a tese que escrevia, no verão de 1930 ele viajou para fazer pesquisas em bibliotecas da Europa Ocidental. Essa viagem foi proveitosa, tanto no aspecto científico como no religioso, visto que ele visitou ao mesmo tempo lugares de culto e centros de vida religiosa.

Além do trabalho relacionado com a redação da tese, o pe. Sopocko também escrevia artigos científicos e de divulgação científica na área da teologia pastoral e artigos para a enciclopédia eclesiástica, fazia conferências científicas e desenvolvia atividade jornalística. Envolvendo-se cada vez mais no trabalho científico, pediu para ser dispensado das funções de capelão e de diretor espiritual. Com alguma resistência inicial, o bispo campal e o arcebispo concordaram em dispensá-lo dessas tarefas.


Em setembro de 1932, o pe. Sopocko mudou-se para o convento das irmãs visitandinas, onde concluiu a redação da sua tese, que trazia como título "O objetivo, o sujeito e o objeto da educação religiosa segundo M. Leczycki". Com base nesse trabalho, no dia 15 de maio de 1934 obteve o título de professor doutor, e o Ministério das Religiões e da Instrução Pública nomeou-o docente da Universidade de Varsóvia, e a seguir esse título foi transferido à Cátedra de Teologia Pastoral da Universidade Stefan Batory em Vilna.




O ENCONTRO COM A IRMÃ FAUSTINA

Desde 1932 o pe. Sopocko era confessor das irmãs da Congregação de Nossa Senhora da Misericórdia, que então tinham em Vilna (Vilnius, Lituânia) a sua casa religiosa. Lá, em 1933, encontra a irmã Faustina Kowalska, que, após a sua vinda a Vilna em 1933, torna-se sua penitente. Esse encontro seria muito significativo para toda a sua vida subsequente e para a sua futura missão.

Na pessoa da irmã Faustina ele encontrou uma devota da Divina misericórdia, cujas graças ele mesmo muitas vezes alcançou na vida e pelo que bendizia a Deus. Tendo encontrado no pe. Sopocko um confessor e diretor espiritual culto, começou a apresentar-lhe cada vez mais detalhadamente as suas vivências e visões relacionadas com as revelações do Misericordioso Salvador. Ele ordenou que a irmã registrasse por escrito as suas experiências interiores. A seguir examinava o texto, avaliando o seu conteúdo. Assim surgiu o “Diário” Espiritual de Santa Faustina.


Fazendo alusão a revelações do Salvador, que havia tido ainda antes da vinda a Vilna e depois em Vilna, a irmã Faustina falava ao pe. Sopocko a respeito das ordens recebidas durante essas revelações. Era a exigência de pintar uma imagem do Misericordiosíssimo Salvador e de instituir a Festa da Misericórdia no primeiro domingo depois da Páscoa, bem como a fundação de uma nova congregação religiosa. Ela dizia também que a Divina providência havia confiado a realização dessas tarefas ao pe. Sopocko.

Em março de 1934 o pe. Sopocko realizou uma peregrinação à Terra Santa. A visita à Terra Santa foi para ele uma grande vivência, o que mais tarde expressou em suas Memórias, bem como em relatos apresentados em outras publicações.

Em julho de 1934 o arcebispo Jalbrzykowski nomeou o pe. Sopocko reitor da igreja de S. Miguel em Vilna, acontecimento que em anos posteriores teve um profundo significado. Foi nessa igreja, no dia 4 de abril de 1934, que foi benta e localizada, atendendo a um pedido expresso de Jesus Cristo, a primeira imagem de Jesus Misericordioso.

Irmã Faustina deixou Vilna em março de 1936. Permanecendo com ela em contato epistolar, e também visitando-a em Cracóvia, o pe. Sopocko ia realizando a obra, confiada também a ele, de apresentar ao mundo o mistério da Divina misericórdia.

Com base na doutrina da Igreja, continuou a busca de fundamentações teológicas para a existência do atributo da misericórdia em Deus, bem como bases para a instituição da festa ordenada nas revelações. Os resultados das suas pesquisas e argumentações em favor da instituição da festa foram apresentados em revistas teológicas e em trabalhos especiais a respeito do ideal da Divina misericórdia.


Em junho de 1936 publicou em Vilna a brochura “A Misericórdia Divina”, com a efígie do Cristo Misericordiosíssimo na capa. Enviou essa sua primeira publicação principalmente aos bispos reunidos na conferência do Episcopado em Czestochowa, mas de nenhum deles obteve resposta. Em 1937 publicou em Poznan uma outra brochura, intitulada “A Misericórdia Divina na liturgia”.

No final de 1937, o estado de saúde de irmã Faustina deteriorou-se significativamente. O pe. Sopocko visitou-a no início de setembro de 1938, já quase no leito da morte. Irmã Faustina afastou-se para o Senhor no dia 5 de outubro de 1938.

Após a eclosão da guerra, em setembro de 1939, o pe. Sopocko decidiu não ocultar por mais tempo a questão das revelações de irmã Faustina, visto que, no seu entender, a tragédia da guerra e os acontecimentos com ela relacionados começaram a confirmar as mensagens das revelações.

Com o ideal da Divina misericórdia estava relacionada também a questão da construção de uma nova igreja em Vilna com o mesmo título. Em 1938 foi formado o Comitê da Construção da igreja da Divina Misericórdia, que em breve obteve a confirmação da Administração da voivodia e do arcebispo R. Jalbrzykowski.

Com a eclosão da guerra e a ocupação de Vilna pelos exércitos soviéticos, ocorreu uma nova situação política, que interrompeu as ações iniciadas e finalmente as impossibilitou. Os exércitos soviéticos saquearam os materiais de construção que haviam sido reunidos. Perdeu-se também o dinheiro destinado à construção e depositado em bancos. Ainda em 1940 o pe. Sopocko empenhou-se junto às autoridades de ocupação para que fosse permitida pelo menos a construção de uma capela, no entanto teve o seu pedido negado.

A difícil situação da guerra, que envolvia cada vez mais amplamente o território da Europa e que atingia a população de muitas nações e o mal que juntamente com ela se propagava fortaleciam cada vez mais a convicção do pe. Sopocko a respeito da necessidade da compaixão Divina para com o mundo. Por isso, com convicção maior ainda começou a proclamar o ideal da Divina misericórdia, no qual percebia a salvação para o mundo.

Os párocos de Vilna e de fora da cidade convidavam-no para pronunciar conferências. Na Quaresma, durante as celebrações da paixão, o pe. Sopocko pregava na catedral de Vilna sermões sobre a Divina misericórdia, para os quais acorriam multidões de fiéis de toda a cidade e que tinham ampla repercussão em toda a região.

Nesse tempo o pe. Sopocko iniciou também a redação de um tratado sobre o ideal da Divina misericórdia e sobre a festa em sua honra: “De Misericordia Dei deque eiusdem festo instituindo” [Da Misericórdia de Deus e da instituição da Sua festa]. A esse trabalho ele havia sido estimulado ainda antes da guerra pelo cardeal Augusto Hlond, ao qual havia apresentado as suas pesquisas relacionadas com a causa da Divina Misericórdia.

Enquanto isso, em junho de 1940 a Lituânia foi novamente ocupada pelo Exército Vermelho e, um mês depois, incorporada à União Soviética como sua décima quinta república. O pe. Sopocko viu-se forçado a interromper os encontros dos grupos a que prestava assistência. Foi também privado da possibilidade de publicar um tratado sobre a Divina Misericórdia.

Veio prestar-lhe ajuda Edviges Osinska, que, como conhecedora da filologia clássica, cuidava da parte linguística do tratado e que, clandestinamente e com a ajuda de conhecidos seus, prontificou-se a mimeografar o trabalho. A seguir providenciou que exemplares da obra chegassem a diversas pessoas que tinham a possibilidade de viajar para fora de Vilna, e dessa forma a obra do pe. Sopocko espalhou-se por muitos países do mundo, especialmente da Europa.

Em razão de ser o divulgador do ideal da Divina misericórdia e da propagação do seu culto, o pe. Sopocko era procurado pela Gestapo. Avisado por uma funcionária do escritório de registro, conseguiu evitar a prisão. Por segurança viajou para fora de Vilna. Quando a ameaça passou, voltou à cidade e começou a dar aulas no seminário, no qual, apesar das difíceis condições materiais e residenciais, havia sido iniciado o novo ano acadêmico 1940/41. Novamente fixou residência junto à igreja de S. Miguel, onde estava localizada a imagem do Misericordiosíssimo Salvador, envolvida de veneração cada vez maior.

No dia 22 de junho de 1941 eclodiu a guerra russo-alemã. Vilna em breve encontrou-se sob uma nova ocupação. Foi então submetida a uma discriminação especial a população judia. Ainda antes da guerra o pe. Sopocko dedicava-se à catequese dos judeus que se apresentavam à Igreja e à preparação deles para o batismo. O fruto desses esforços foi o batismo de cerca de 65 pessoas. O pe. Sopocko também fornecia apoio material e espiritual aos judeus. Tal tipo de procedimento podia acarretar perigosas consequências, inclusive a perda da vida. A Gestapo descobriu os vestígios da sua atividade e por alguns dias até o manteve preso.

No final do ano de 1941, os alemães intensificaram o terror da ocupação. No último domingo do Advento, a pretexto de uma pretensa epidemia, fecharam todas as igrejas em Vilna. Seguiram-se as prisões. No dia 3 de março de 1942 os alemães empreenderam uma ampla ação contra o clero. Prenderam os professores e os estudantes do seminário e quase todos os padres que trabalhavam em Vilna.

No dia das prisões no seminário, os guardas alemães prepararam também uma armadilha na residência do pe. Sopocko, que foi avisado pela sua empregada. Conseguiu ainda chegar à Cúria Arquiepiscopal, onde informou ao arcebispo que estava sendo procurado pela Gestapo e pediu a dispensa das funções no seminário e a bênção para o período em que deveria permanecer escondido. Disfarçado, deixou Vilna, e as Irmãs religiosas Ursulinas esconderam-no numa casa que elas alugavam na beira do mato. A Gestapo procurou-o quase pela Lituânia inteira, indagando a respeito dele principalmente nas casas paroquiais e entre os padres.

Por intermédio de pessoas de confiança, obteve uma identidade falsa com o nome Waclaw Rodziewicz. A partir de então passou por carpinteiro e marceneiro, fabricando ferramentas simples e utensílios para a população local. Todos os dias, nas primeiras horas da manhã celebrava a missa e depois tinha muito tempo para a oração e a reflexão pessoal. Em intervalos de algumas semanas dirigia-se à casa das irmãs em Czarny Bór com o objetivo de realizar a confissão. Além disso, dedicava-se ao trabalho científico, com base na literatura que lhe era fornecida pela Sra. Osinska e por suas companheiras.

No outono de 1944, apesar das condições extremamente difíceis de vida, o arcebispo Jalbrzykowski confiou-lhe o reinício das aulas no seminário. O pe. Sopocko voltou a Vilna,  assumiu as tarefas que lhe haviam sido confiadas e, juntamente com outros padres e seminaristas, viajava todos os domingos às paróquias do interior com o objetivo de coletar produtos agrícolas, para que o seminário pudesse subsistir.

O pe. Sopocko envolvia-se também no trabalho pastoral fora de Vilna, realizando-o muitas vezes para difundir o ideal da Divina misericórdia. Apesar da postura antirreligiosa, no início as autoridades da República toleravam a atividade pastoral dos sacerdotes. Aos poucos, no entanto, começaram a restringir o trabalho deles, especialmente tornando mais difíceis as autorizações para a catequese dos jovens e das crianças.

Embora fossem realizados na clandestinidade, informações sobre esses encontros chegaram às autoridades. O pe. Sopocko foi chamado à delegacia de polícia. Surgiu o perigo real de serem adotadas sanções contra ele, inclusive com a possibilidade do exílio à Sibéria.


Coincidentemente com esses acontecimentos, em julho de 1947 recebeu do arcebispo R. Jalbrzykowski, que se encontrava em Bialystok, na Polônia, um convite providencial para ir trabalhar nessa parte da arquidiocese. Diante disso decidiu abandonar Vilna quanto antes, tanto mais que estava se encerrando o período assinalado para a repatriação dos poloneses da Lituânia.

Antes da partida, com a ilusória esperança de que a separação de Vilna não duraria muito, visitou a capela de Nossa Senhora da Misericórdia em Ostra Brama (Ausros Vartai − Vilnius, Lituânia) e no final de agosto de 1947 viajou a Bialystok. Fez isso no último transporte de população polonesa que se dirigia à Polônia.

Tendo chegado a Bialystok, o pe. Sopocko apresentou-se ao arcebispo Jalbrzykowski com o objetivo de receber ordens para assumir novas funções. No final de setembro de 1947 viajou para passar alguns dias em Myslibórz, onde Edviges Osinska e Isabel Naborowska (as primeiras madres da Congregação fundada pelo pe. Sopocko) estavam organizando o início da sua vida religiosa comunitária. Esse foi o primeiro encontro com as irmãs após a partida delas de Vilna. A partir de então o pe. Sopocko manteve contato permanente com as irmãs, servindo-lhes com o conselho e o apoio espiritual e material e velando pelo desenvolvimento geral da Congregação fundada.


Padre M. Sopocko - Bialystok

Em outubro de 1947 iniciaram-se as aulas no seminário em Bialystok. O pe. Sopocko dava as mesmas aulas que em Vilna (Vilnius, Lituânia): catequese, pedagogia, psicologia e história da filosofia. Mas o trabalho e a presença dele no seminário não se restringiam às aulas. Era também o confessor dos seminaristas. Muitas vezes, a pedido do diretor espiritual, promovia retiros para eles. Desenvolvia ao mesmo tempo atividade pastoral, religiosa e sociocultural. Uma parte importante da sua atividade era o trabalho contra o alcoolismo.
A obra que mais o envolvia e que lhe era a mais cara era a questão do culto da Divina Misericórdia, ao qual foi devotado e fiel até o fim. Sem se desencorajar com a resistência das autoridades eclesiásticas para a aprovação do culto, cujas causas eram as anormalidades na devoção espontânea que se difundia entre o povo, bem como as publicações que abordavam o ideal da Divina misericórdia de forma nem sempre correta, o pe. Sopocko corrigia incansavelmente os erros e esclarecia os fundamentos teológicos desse culto.

Da mesma forma que em Vilna, também em Bialystok era confessor das irmãs religiosas. Confessava, por exemplo, as irmãs da Congregação das Missionárias da Sagrada Família, que então tinham a sua casa na Rua Poleska. Ao prestar ali a assistência espiritual, ele percebia a possibilidade de estendê-la aos moradores das redondezas. Graças aos empenhos do pe. Sopocko, no dia 27.11.1957, na solenidade de Cristo Rei, realizou-se a bênção da capela da Sagrada Família.

Após ter-se aposentado, o pe. Sopocko residiu na casa das irmãs, desempenhando o ministério pastoral entre os habitantes da região até o fim da sua vida. A rica personalidade sacerdotal do pe. Sopocko, a sua espiritualidade e autoridade, resultantes de extraordinárias experiências de vida, além da sua grande modéstia pessoal, atraíam os fiéis. Atualmente se encontra ali uma sala da sua memória e uma casa religiosa da Congregação das Irmãs de Jesus Misericordioso, fundada por ele.

No final dos anos 50, o pe. Sopocko empreendeu mais uma iniciativa para construir uma igreja em Bialystok. Conseguiu comprar um terreno com uma casa, tendo coberto quase a metade dos custos com economias próprias. Com a projetada igreja ele ligava os planos, esboçados ainda em Vilna, de construir um santuário sob a invocação da Misericórdia Divina. Mas também dessa vez teve de conformar-se com o desmoronamento dos seus propósitos.

Enquanto pregava um retiro para os padres em 1958, o pe. Sopocko sofreu uma lesão do nervo facial. A partir de então, falar em voz alta para um auditório maior custava-lhe grandes esforços. Deixou uma marca em sua saúde também um acidente automobilístico que sofreu em 1962 em Zakopane, onde participava de um encontro de professores de teologia pastoral. Nessa situação, tornou-se indispensável passar à aposentadoria.

Tornou-se indispensável passar à aposentadoria, o que surpreendeu o pe. Sopocko. Sempre ativo, envolvido em inúmeros trabalhos e tarefas, pela primeira vez na vida, com exceção do período em que se ocultou em Czarny Bór, dispunha de um tempo ilimitado exclusivamente à sua disposição. Exercendo o ministério sacerdotal na capela da Rua Poleska, dedicou-se então a concluir os trabalhos relacionados com o ideal da Divina misericórdia que havia iniciado e logo, quando o clima em torno dessa questão começou a mudar, dedicou-se a ele com um novo entusiasmo. Dispondo agora de mais tempo, dedicou-se ao aprofundamento científico do ideal da Divina misericórdia.

Possuía muito material coletado, trabalhos iniciados, além de novas ideias. Por isso dedicou-se com afinco a escrever. Em consequência escreveu uma série de obras, entre as quais ocupa lugar de destaque a obra em quatro volumes: “A Misericórdia de Deus em Suas obras”. O primeiro volume foi publicado em Londres ainda em 1959, e os três restantes, nos anos 60, em Paris, graças à generosidade de pessoas dedicadas à causa da Divina misericórdia e que residiam no Ocidente. Essa obra foi também traduzida para a língua inglesa.

Uma circunstância importante que estimulava o engajamento do pe. Sopocko era o fato do contínuo desenvolvimento da devoção à Divina Misericórdia, bem como o interesse de outros teólogos por esse ideal. Um outro impulso e estímulo importante para o trabalho missionário em prol da Divina Misericórdia foi o início, em 1965, pelo arcebispo de Cracóvia Karol Wojtyla, do processo informativo da Irmã Faustina Kowalska. O pe. Sopocko também foi envolvido nesse processo, apresentando-se no papel de testemunha.

O padre Sopocko viveu até os belos jubileus dos 50 e 60 anos do ministério sacerdotal. Nas solenidades comemorativas desses aniversários, as mais edificantes eram as palavras do próprio aniversariante. Fatigado pela idade e pelas labutas da vida, bem como por dolorosas experiências interiores, esse sacerdote que se aproximava do final dos seus dias, no mais curto dos discursos pronunciados nessa ocasião, expressou primeiramente uma profunda gratidão a Deus pelo dom do sacerdócio e a seguir, com grande humildade, confessou que nem sempre em sua longa vida sacerdotal havia sido fiel às tarefas a ele confiadas, pelo que desejava sinceramente pedir perdão a Deus, pedindo orações aos presentes para que o Deus Misericordioso lhe perdoasse as suas infidelidades.

Essa solenidade, no parecer e na avaliação de muitos participantes, foi uma recompensa moral muito atrasada. Uma recompensa ao venerável sacerdote dedicado à causa Divina – especialmente à propagação do ideal da Divina misericórdia. O único sinal de reconhecimento dos variados méritos do padre aniversariante diante da Igreja e da arquidiocese foi a sua nomeação, mas apenas no ocaso da vida, em 1972, como cônego gremial do Capítulo da Basílica Metropolitana.

Durante toda a sua vida o padre Sopocko foi um homem de ação, baseada num firme fundamento espiritual. Quando começou a lhe faltar a destreza física e vieram as enfermidades, a esfera do espírito tornou-se a área do seu envolvimento e serviço às causas divinas.

Citações de leituras, deixadas em seu ”Diário”, testemunham que era justamente assim que ele entendia o seu último ministério:

 “A velhice deve ser tratada como uma vocação a um amor mais profundo a Deus e ao próximo. Deus tem em relação aos idosos novos planos de aprofundamento da pessoa, revelando-lhes face a face a sua vida interior. O único ato eficaz de que então somos capazes é a oração. Nessa ativa passividade tudo se prepara, tudo se decide, tudo se elabora. O céu será a recitação do “PAI NOSSO”.


Houve esforços recíprocos no sentido de que o padre Sopocko passasse o período final da sua vida na casa geral da Congregação por ele fundada das Irmãs de Jesus Misericordioso em Gorzów Wielkopolski. Entretanto, em razões dos problemas de saúde que o afetavam, e que em grande medida lhe dificultariam a adaptação no novo ambiente, ele permaneceu até o final da vida em Bialystok. Faleceu na noite do sábado, 15 de fevereiro de 1975, em seu quarto na Rua Poleska, no dia da memória de são Faustino, padroeiro da irmã Faustina Kowalska.

No ”Diário” de S. Faustina encontra-se registrada a promessa de Jesus Cristo relacionada com o seu confessor padre Miguel Sopocko:

“Haverá tantas palmas na sua coroa quantas almas se salvarem por essa obra” (Diário, 90).


No dia 28 de setembro de 2008, no Santuário da Misericórdia Divina em Bialystok (Polônia), realizou-se a beatificação do pe. Miguel Sopocko.

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