Páginas

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

São Martinho de Porres (ou de Lima), Religioso Dominicano

  
     Dia 03 de novembro (seguinte a Finados), a Igreja faz a memória litúrgica de um santo muito "simpático", especialmente para o povo latino americano de língua espanhola: São Martinho (Martín) de Porres.

      Nascido em 1579, São Martinho é contemporâneo e conterrâneo de grandes santos que surgiram no Peru no século XVI: São Turíbio de Mongrovejo, Santa Rosa de Lima e São Juan Macías. A vida deste santo irmão oblato dominicano é belíssima e praticamente desconhecida do público católico no Brasil.

     Martinho era mulato, filho "bastardo" (fruto de um relacionamento não lícito) de uma escrava alforriada (Ana Velásquez) e de um nobre espanhol (João de Porres), que chegou a ser o governador do México. Desde pequeno manifestava um grande amor a Deus, à Igreja e ao próximo. Em casa era um filho maravilhoso, carinhoso, obediente e sempre se colocava a serviço de sua querida mãe.

    Ainda bem jovem, aprendeu os ofícios de barbeiro e enfermeiro, ofícios esses que colocava a serviço dos pobres e necessitados que tanto amava. Fazia curativos, extraia dentes, drenava abcessos, preparava chás, unguentos e emplastros, etc. Era um verdadeiro anjo de caridade, exercendo sua medicina rudimentar, porém, abençoada pela graça de Deus (e até por muitos milagres) para com o povo sofrido da cidade de Lima.

    Desde criança, participando da vida paroquial e catequética dos padres dominicanos de sua cidade, aspirava consagrar-se a Deus na vida religiosa. Agora que já era rapaz, seu desejo tornou-se mais ardente. Não queria fazê-lo sem o consentimento de sua mãe, graça que conseguiu com suas preces, paciência e grande humildade. Ele era uma alma eleita e sua mãe viu que pertencia ao Senhor.

    Infelizmente, o nosso querido Martinho sofreu forte preconceito por ser pobre (apesar de ser filho de um nobre espanhol, vivia com a mãe, que era pobre), mulato (filho de uma ex-escrava) e filho de uma união ilegítima. Os frades dominicanos não queriam aceitá-lo como um frade "normal" por causa de sua condição social, especialmente, por ser "filho de um pecado" ou de "um escândalo", como diziam. A Regra dos dominicanos não proibia a entrada de jovens na situação de nosso querido santo, porém, as "tradições" da época e, principalmente, o "falatório" do povo, constrangiam os frades a não aceitá-lo como religioso.

Martinho, com sua grande humildade, não se deixou abater e, graças à sua santa insistência, bem como por causa dos ofícios que sabia fazer (entender de enfermagem seria muito útil para a comunidade dos frades), foi aceito no convento como um simples "irmão oblato" ou "irmão cooperador", uma espécie de "serviçal" da casa. Longe de se sentir humilhado com isso, Martinho entrou para o convento com imensa alegria e gratidão ao Senhor e aos seus irmãos e superiores da Ordem de São Domingos. O simples fato de poder usar o hábito, já lhe causava imensa alegria.



     No convento, como se era de esperar, Martinho desempenhou os ofícios mais simples e humildes: varredura do claustro (como era comum ser visto varrendo o convento, muitos carinhosamente o chamavam de "Frei Vassoura"), jardinagem, limpeza dos banheiros, corte de cabelos (eram duzentos frades ao todo no convento, já pensou?), trabalhos na cozinha e lavanderia e cuidados aos doentes na enfermaria e celas. Tinha grande carinho com os frades velhinhos e doentes. Muitas vezes era mal tratado por alguns deles e vítima de injúrias e ingratidões. São Martinho era um anjo para com todos. Jamais se impacientava. Jamais respondia às ofensas. Para todos era carinhoso e sorridente. Tinha especial afeição e cuidado justamente com os mais irritados e impacientes. Viveu de forma heroica as virtudes da mansidão, da paciência, da caridade e da bondade.

         Apesar de sua vida laboral tão intensa, jamais descuidava da oração. Tinha uma vida de oração praticamente contínua, pois, mesmo trabalhando e servindo, mantinha sempre o pensamento em Deus, na Eucaristia e em sua querida Mãe, a Virgem Maria, a quem tão ternamente amava. Dedicava de seis a oito horas diárias à oração. Muitas vezes, passava a noite inteira em adoração ao Santíssimo Sacramento, mesmo estando ele fatigado pelo trabalho diário e, em especial, pelo cuidado com os frades enfermos.

     Deus não poderia deixar de recompensar seu servo por tanta humildade e dedicação ao seu serviço. Ele eleva os pequenos e os humildes. Assim, passou a prodigalizar São Martinho com os dons de realizar curas e milagres. Foi um dos maiores taumaturgos da história da Igreja. São Martinho nunca pediu a Deus esses dons. Muito pelo contrário. Envergonhava-se deles e os milagres quando aconteciam, causavam-lhe profunda confusão e humilhação. Achava-se extremamente indigno!

Mas, o que fazer? Era Deus quem o queria. Curas prodigiosas, multiplicação de alimentos, dom de perscrutar as consciências, de bilocação, de levitação e de êxtases durante a oração, eram comuns na vida de Martinho. Tinha até mesmo o dom de atravessar as paredes dos claustros e celas, para a atender a vários frades doentes que o chamavam muitas vezes ao mesmo tempo. Ora estava aqui, ora acolá, instantaneamente (às vezes em dois lugares ao mesmo tempo) para atender caridosamente aos irmãos que reclamavam a sua assistência.


     
      Dentre os muitos milagres realizados por Deus através de São Martinho, conta-se até que ressuscitou um gato e um cachorro que foram (em ocasiões diferentes) mortos a pauladas por pessoas de má índole. Em ambos os casos, cheio de piedade dos pobres animais, o santo frade pegou seus cadáveres, colocou os "miolos" e as "vísceras" para dentro de suas respectivas cavidades, costurou-as e, depois de rezar e pedir a Deus, os bichos reviveram completamente sadios!

      Outro milagre comum que acontecia com Martinho era o de "sair de seu cesto" objetos que ele não trazia consigo. Por exemplo, certo dia, vinha Martinho andando com um cesto com pães. Um pobre rapazinho lhe perguntou: "Frei Martinho, o senhor teria uns sapatos para me dar"? Ao que o santo respondeu: "não meu irmão, trago comigo somente pães"... Porém, ao meter a mão no balaio para pegar o "pão", eis que em sua mão vem os sapatos que o jovenzinho estava precisando! Muitos outros casos, com outros tipos de objetos (roupas, remédios, outros alimentos, etc.) aconteciam.

      Com seu jeito de ser: simples, humilde, puro e santo, Frei Martinho conquistou o coração dos superiores da Ordem e de todos os frades, conseguindo, por fim, seu lugar definitivo na comunidade. Foi-lhe permitido fazer a profissão religiosa com Irmão Dominicano. Que alegria para Martinho! A humildade, a mansidão e a confiança em Deus triunfaram. Nossa Senhora, a quem São Martinho tinha grande devoção (rezava diariamente o rosário e, frequentemente, mais de um por dia), não deixaria que seu filho dileto ficasse sem a graça que tanto almejava.

        Já idoso e fraco por causa de sua vida de trabalho árduo, jejum contínuo e muitas penitências, (faleceu com 60 anos, idade, para época, considerada avançada), Martinho morre, em meio a um êxtase de amor, louvor e gratidão a Deus, rodeado por todos seus irmãos frades que com grande dor prantearam a sua morte. Faleceu em 1639. Após sua morte, o povo logo passou a ter grande devoção por aquele que já em vida tinha grande fama de santo.
    Foi beatificado pelo Papa Gregório XVI em 1837 e canonizado pelo Papa João XXIII em 1962. É o santo patrono dos mestiços católicos. Seu culto é particularmente mais ativo no Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e México, bem como na comunidade latina que mora nos EUA.

São Martinho de Porres, rogai por nós!










         (Giovani Carvalho Mendes, ocds, acadêmico da ABRHAGI: Academia Brasileira de Hagiologia)


Nenhum comentário:

Postar um comentário